Mostrar mensagens com a etiqueta Eugénia Cunhal. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Eugénia Cunhal. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

(87) Representações de Álvaro Cunhal 01 - Eugénia Cunhal - 'Quando vieres'



Palmela Mual de homenagem a Álvaro Cunhal -(foto victor nogueira   em 2021 12 18 Canon 199_12)IMG_8593) 

Quando vieres
Encontrarás tudo como quando partiste.
A mãe bordará a um canto da sala...
Apenas os cabelos mais brancos
E o olhar mais cansado.
O pai fumará o cigarro depois do jantar
E lerá o jornal.
Quando vieres
Só não encontrarás aquela menina de saias curtas
E cabelos entrançados
Que deixaste um dia.
Mas os meus filhos brincarão nos teus joelhos
Como se te tivessem sempre conhecido.
Quando vieres
Nenhum de nós dirá nada
Mas a mãe largará o bordado
O pai largará o jornal
As crianças os brinquedos
E abriremos para ti os nossos corações,
Pois quando tu vieres
Não és só tu que vens
É todo um mundo novo que despontará lá fora
Quando vieres.
Maria Eugénia Cunhal in "Silêncio de Vidro", Lisboa, 1962

domingo, 9 de abril de 2017

Eugénia Cunhal - Cantar de amigo

* Eugénia Cunhal

Cantar de amigo*

O tempo passa, amor, correm os dias
E as ruas em silêncio à nossa espera
À hora em que as palavras não são ditas
E as mãos entrelaçadas são poemas.

O tempo passa, amor, ventos arrastam
Cada segundo de vida que ofertamos
À luta consciente a que nos damos
E as horas para amar já não nos bastam.

Por cada dia fica em nossos rostos
Mais uma ruga do mapa dos caminhos
Que percorremos juntos, mas distantes
Ombro a ombro, sempre, mas sozinhos.

Quilómetros de noite nos separam
Meu corpo já cansado pede tanto
A ternura de um beijo sempre adiado
Enquanto beijo aqueles p’ra quem canto.

Deixa dizer-te apenas uma vez
Esta saudade enorme que me habita
Mas crê que em cada dia em que me vês
Minha coragem renasce e ressuscita.

Deste sofrer distante, desta ausência
Ficarão as sementes que lhe damos
E no coro das vozes que cantamos
Encontro a tua voz, distintamente.




*Adriano musicou este poema, mas a obra nunca chegou a ser editada.

in http://cravodeabril.blogspot.pt/2015/12/maria-eugenia-cunhal.html 

quinta-feira, 12 de janeiro de 2017

Maria Eugénia Cunhal - Quando vieres -



* Maria Eugénia Cunhal

Quando vieres 
Encontrarás tudo como quando partiste.
A mãe bordará a um canto da sala...
Apenas os cabelos mais brancos
E o olhar mais cansado.
O pai fumará o cigarro depois do jantar
E lerá o jornal.

Quando vieres
Só não encontrarás aquela menina de saias curtas
E cabelos entrançados
Que deixaste um dia.
Mas os meus filhos brincarão nos teus joelhos
Como se te tivessem sempre conhecido.

Quando vieres
Nenhum de nós dirá nada
Mas a mãe largará o bordado
O pai largará o jornal
As crianças os brinquedos
E abriremos para ti os nossos corações,

Pois quando tu vieres
Não és só tu que vens
É todo um mundo novo que despontará lá fora
Quando vieres.


Maria Eugénia Cunhal in "Silêncio de Vidro", Lisboa, 1962

Álvaro Cunhal, 14 anos mais velho que a irmã, estivera na prisão durante 11 anos e fugira 2 anos antes do Forte de Peniche, em 1960. Forçado a sair de Portugal, fez parte da Direcção do PCP no exterior (Moscovo e Paris), regressando em 1974. Torturado na prisão, esteve encarcerado em 1937, 1940 e 1949-1960, num total de 15 anos, oito dos quais em completo isolamento.

GRAVURA - Álvaro Cunhal - Desenhos na prisão

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Domingos Lobo O vidro das palavras rebeldes Viagem breve pela poesia e prosa de Maria Eugénia Cunhal

  • Domingos Lobo 

O vidro das palavras rebeldes
Viagem breve pela poesia e prosa
de Maria Eugénia Cunhal

A arte narrativa de Maria Eugénia Cunhal, tal como a sua poesia, entronca num dado que nos parece fundamental: o de ser uma escrita que assumidamente se constrói a partir de um olhar solidário e inquieto, partindo do eu individual para onós colectivo. Há na escrita da autora, sobretudo no livro de contos Relva Verde para Cláudio, um atentíssimo olhar sobre o mundo que nos rodeia; sobre as casas, os lugares, os objectos, as condições sociais das gentes que habitam esse universo referencial. Elementos discursivos, modos, forma, conteúdos, que poderíamos acantonar, por comodidade teórica, no mais conseguido do nosso neo-realismo, aquele que conjuga, segundo a teorização de Mando Martins, a Arte literária com o compromisso social, mas que a inventiva de Eugénia Cunhal arrisca por caminhos nem sempre moldados aos códigos fenomenológicos do movimento, mas passíveis de integração nas suas coordenadas fundamentais.

Lenine nos textos Sobre Literatura e Arte refere e defende a ideia da função elevada que a literatura deve ter nas sociedades progressistas. Para tanto, além do valor estético das obras, necessário se torna que o objecto literário se assuma como «protesto contra a injustiça social», nela transparecendo, com clareza, «uma imagem exacta das relações sociais»1.

Logo nos primeiros dois contos do livro Relva Verde Para Cláudio, a autora encena as determinantes que constituem o corpo orgânico da sua escrita: a denúncia das injustiças sociais, a análise arguta e dialéctica das relações entre os humilhados e aqueles que detêm o poder e a fortuna sem, no entanto, reduzir o fulcro central da diegese a um discurso moralista ou de panfletária assunção. Antes se constrói, conto a conto, através de um sereno labor de contar, com a agilidade lexical que lhe descobrimos nos poemas de As Mãos e os Gestos, com pleno domínio dos tempos e da construção metafórica, com parcimónia de processos no poético que percorre os sensíveis interiores desta fala.

A clarividente preocupação pelo social está patente nesse olhar em plongé, trespassado de ternura, em redor dos rostos que pontuam Relva Verde para Cláudio: no rosto do menino que desenha casas, tectos com chaminés e tudo; na senhora que chupa rebuçados até não sobrar nada de doce nos papéis que os envolvem, alheia ao desejo espelhado nos olhos do menino sujo; na menina que salta para o outro lado sem saber que afinal existe um fosso invisível, feito de preconceitos e convencimentos, a impedir-lhe brincar com o «menino de olhos verdes». O olhar dúctil e atento do poeta a viajar pelo microcosmo que habitamos, mesmo que esse universo se circunscreva ao espaço de um cacilheiro em viagem breve entre as duas margens do Tejo.

A escrita de Maria Eugénia Cunhal penetra os territórios das nossas inquietações: descobre rostos, sentimentos, situações, subterrâneos dramas e transmite-nos esse mundo com a simplicidade e a perspicácia de quem fixa a vida no momento exacto e nos dá a ver o oculto, o obscuro coração das sombras para que, colectivamente, nos sintamos socialmente responsáveis; para que nos possamos indignar com as injustiças que esse olhar denuncia.

No conto Ladeira, a autora debruça-se sobre a vida de uma operária que regressa a casa ao fim do seu ciclo de préstimo, quando a mais-valia do seu labor deixou de compensar o patrão. Foi substituída na função por outra operária mais nova e ágil, mais rentável. É o ciclo rapace e desumano do capitalismo a inscrever-se nos sulcos fundos da pele gasta de uma mulher que um dia, como todos nós, teve sonhos, risos e sol a entrar pela janela estreita da casa onde, derrotada e vazia de vida e do sentido dela, regressa para o nada, o vazio, ou para gastar, sem saber como, o tempo que agora lhe vai sobrar.

A escrita em Relva Verde para Cláudio é, na sua aparente simplificação oficinal, inovadora, participando dos modos estruturais do discurso neo-realista. Escrita de uma singular beleza, contida e unívoca no plano político, que neste livro é a um tempo posição ética, estética e moral. Maria Eugénia Cunhal atinge, nestes textos, a plena maturidade de escrita, a conjunção dos seus signos envolventes, capacidade de ligação afectiva com o leitor, de o tornar cúmplice desse profético olhar sobre o real: expressão de inquietude e contestação. O que, salvaguardando diferenças temporais e realidades sociais e geográficas, Lénine entendia dever ser a função social, útil, da Literatura. 

Dar um Sentido ao Dia 
O que é de imediato percepcionável na escrita de Maria Eugénia Cunhal, é a alegria de viver, de sentir, de sentidos, que nela transparece; uma alegria tocante e solar, carregada de vontade de futuro, plenamente inscrita nos versos de Silêncio de Vidro.

Na poesia de Eugénia Cunhal (Silêncio de Vidro, de 1962, reeditado em 2005, e As Mãos e os Gestos, de 2000) há, sobretudo, o ímpeto da fala, a urgência de dizer o amor e a alegria de o dizer: a solidariedade com os outros, um modo, quase no limite do pulsar do verbo, de sair dos ossos, emergir do nosso próprio, estreito espaço para chegar ao outro, mesmo quando o poeta intui, como Philip Roth, que ninguém sabe nada de si mesmo, que a escrita é o espelho poliédrico em que permanentemente nos buscamos.

A poética da autora de Escrita de Esferográfica (2008), é feliz porque o amor, apesar dos pesares, acontece (existe em entrega, em absoluta e em recusa, também), mas é igualmente empenhada, crítica, inventariando o real quotidiano. Se existem diferentes modos de dizer entre Silêncio de Vidro e As Mãos e Os Gestos, é apenas de maturidade, dado que a iniciática e circular abordagem dos afectos, se mantém e é comum a ambos. Há nestes dois livros uma visão do mundo e da essência existencial que os torna referenciáveis de um tempo e de um jeito de entender a vida, os amigos, os perigos de estar vivo. Em ambos a poesia flui sem enigmas, é límpida ressonância das palavras, entrecortada por uma musicalidade quase cantável, mesmo nas modulações inquietas e nos estremecimentos das injustiças que denuncia.

A poesia de Maria Eugénia Cunhal situa-se, no discurso interior e na ossatura vocabular, perto de associações semânticas e formais da geração de Poesia 61, embora na raiz matricial lhe descubramos poemas herdeiros do nosso melhor neo-realismo: Capitão, aqui estou.// Comigo a bagagem:/No saco de marujo trago um naco de pão/Dentro do peito a ânsia da viagem.

Uma escrita original e fecunda, assumindo vertentes que humanizam a palavra e colocam o homem, de novo, no cerne do discurso poético, dando «um sentido ao dia». Ou seja, à Vida. 

Nota: Esta evocação da obra literária de Maria Eugénia Cunhal, não deve ser entendida como um gesto circunstancial, que sempre recusei, mas como acto de linear justiça, dado o singular espaço que essa obra, pelo seu rigor formal, o humano que reflecte, a expressiva sensibilidade que a constrói deverá, de pleno direito, ocupar na literatura portuguesa.

Para que o silêncio não amordace, uma vez mais, as palavras rebeldes. 

1 Literatura, política, ideologia, de Claude Prévost – Moraes Editores

http://avante.pt/pt/2196/argumentos/138460/


sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

Eugénia Cunhal - poesia

* Eugénia Cunhal 

Spartacus

Em cada hora
Em cada dia
Século após século
os homens arremessam o teu nome ao vento
e dele saem dardos, punhais, espadas
e dele saem pombas e flores ensanguentadas
De cada letra um filho
De cada som um eco
Teu nome-profecia
Teu nome vinho-novo
que ao terceiro dia há-de ressuscitar
nas veias do meu povo
Teu nome
que mil vezes tem sido agrilhoado
Teu nome sangue-mel
nos lábios do carrasco uma esponja de fel
Teu nome-escravo
Teu nome-espectro
fantasma de terror na noite de algozes
temido como as vozes que clamam no deserto
Teu nome-salmo
escrito em cada corpo morto
em cada cruz erguida
Teu nome-espiga
que se transforma em pão
Teu nome-pedra
da construção do mundo
que será o fruto do teu gesto
Teu nome
em cada gesto do esvoaçar das asas
da gaivota presa
Teu nome
vela-acesa na catedral da esperança
do altar-homem
Teu nome
em cada grito
em cada mão
Teu nome-sinfonia
que há-de explodir com a alegria
de um átomo liberto
Spartacus!
Teu nome-irmão.

Silêncio de vidro


Há quem creia em Deus e o veja em toda a parte.
Eu acredito em ti
E vejo-te em tudo o que na vida me dá profundo gosto de viver,
Tudo o que me sorri
E também em tudo o que me faz sofrer.
Vejo-te na recordação da minha infância
- Menino que sonhava estrelas iguais às minhas –
E no despontar das manhãs claras,
Quando o mundo era cheio de mistérios
E cada coisa uma interrogação.
Crescemos juntos sem nos conhecermos,
Mas quando nos cruzámos por acaso
Eu soube que eras tu.


Refeição

Estendemos a toalha
Trouxeste o pão, o vinho
Eu trouxe a fome, a sede o cansaço
E a mão para colher
A pureza espontânea do teu gesto
Que tem a dimensão do teu braço
Eu recebi
Tu deste
Compartilhámos.
Da refeição ficou o travo doce e bom do mel
E a certeza daquilo que está certo.


in http://ocheirodailha.blogspot.pt/search/label/Maria%20Eug%C3%A9nia%20Cunhal

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

eugénia cunhal (1927 / 2015)




* Victor Nogueira


Eugénia Cunhal era  a irmã caçula de Álvaro, que lhe escrevia contos infantis e desenhos, e que surge neste seu poema:


Quando vieres 
Encontrarás tudo como quando partiste.
A mãe bordará a um canto da sala...
Apenas os cabelos mais brancos
E o olhar mais cansado.
O pai fumará o cigarro depois do jantar
E lerá o jornal.

Quando vieres
Só não encontrarás aquela menina de saias curtas
E cabelos entrançados
Que deixaste um dia.
Mas os meus filhos brincarão nos teus joelhos
Como se te tivessem sempre conhecido.

Quando vieres
Nenhum de nós dirá nada
Mas a mãe largará o bordado
O pai largará o jornal
As crianças os brinquedos
E abriremos para ti os nossos corações,

Pois quando tu vieres
Não és só tu que vens
É todo um mundo novo que despontará lá fora
Quando vieres.


Maria Eugénia Cunhal in "Silêncio de Vidro"Lisboa, 1962



Era uma pessoa com ar frágil e doce e nos seus poemas e crónicas há uma grande solidariedade e atenção pelos "ventres ao sol", assim designados por Fernão Lopes.

Em cada já 
Se nasce
Para ser

E só em cada já 
Se pode estar 

Foi 
Ou será 
Quem é 

Como no mar 
Onde a onda é um onde 
Contínua sucessão de jás 
Num só quebrar.

in "Histórias de m Condenado à Morte", 1983

BASTASTE TU

Bastou aquele gesto
Da tua mão tocar tão docemente a minha
Pra nascerem raízes
Que me prendem à terra e me alimentam
Nas horas mais vazias
Bastou aquele olhar
- O teu olhar tão brando, prolongando-se um pouco sobre o meu-
Para iluminar as noites em que a lua se esconde
E a escuridão envolve um mundo sem sentido.
Bastou esse teu jeito de sorrir,
Um sorriso em que vejo despontar a confiança
Na vida não vivida, nas emoções ainda não sentidas,
Nos passos que ressoam noutros passos
Bastaste tu.

In «Silêncio de Vidro», Editorial Escritor


Mais sobre Eugénia Cunhal  neste meu blog, clicando nos títulos em amarelo

CRÓNICAS

Eugénia Cunhal - A TV

Eugénia Cunhal - Famílias



segunda-feira, 16 de novembro de 2015

Maria Eugénia Cunhal - Escuta

* Maria Eugénia Cunhal

Quando leres um poema
Não te limites a dizer que as palavras
são belas
E delas sais contente, sentindo-te mais rico
e menos só.
Atrás de cada frase há por vezes muito sangue
sofrimento,
Ou alegria, ou amor, ou desespero,
Ou qualquer outro sentimento humano
dos mais fortes.
Quando escrevemos, não inventamos tudo.
Mesmo se em vez de dizermos eu, dizemos outro nome:
João, Pedro, Maria, ou simplesmente tu.

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Eugénia Cunhal - A TV

* Eugénia Cunhal

A TV

Costumava passar a maior parte do tempo de olhos fechados. Abri-los, para quê? Iriam bater nas paredes brancas, quase nuas, enfeitadas apenas por uma pequena reprodução da Ceia de Cristo que habitava no seu quarto. Iriam bater nas duas foto- grafias coloridas que descansavam na cómoda. Desbotadas. Talvez pelo olhar que amiúde nelas se fixava. Sugando-lhes as imagens. Roubando-as ao passado. Sem que elas se fundissem no rosto e no corpo que agora eram os seus.

Pensava nisso, quando os olhos fugiam para as mãos poisadas nas bordas do lençol. Mãos de pele enrugada e veias salientes. Mãos gastas, sem terem podido realizar os gestos que habitavam os seus sonhos. Mãos, que a vida dirigiu para trabalhos ásperos e duros. Mãos, cujos dedos ficavam presos ao mais leve movimento, tomando cada vez mais penoso o simples agarrar num qualquer objecto necessário.

Até que chegou o momento em que o corpo resistira a cumprir as mais pequenas obrigações do dia a dia. E ali ficava, deitada a maior parte do tempo. Como um trapo inútil. Ela, que sempre dominara os desafios que nasciam a cada passo do longo caminho dos seus setenta anos.

Um gesto de amor colocou-lhe no quarto um aparelho de televisão. E as paredes ficaram menos nuas. Menos brancas. Menos vazias. Assim, passa melhor o tempo - disseram-lhe. Sempre se vai entretendo.

Agradeceu. E foi conseguindo premir os botões do comando e passear pelos vários canais. De qualquer modo, pelo menos, nasceria um ruído feito de outras vozes, de mil sons que a haveriam de ligar ao lado de fora. E as falas que tentava seguir, proferidas por tantas vozes, hora após hora. E as imagens de gente com quem mal se cruzara, como se tivesse vivido num mundo paralelo.

Viste a novela, ontem? Com a pergunta, a voz ganhava um novo colorido. E o olhar também. Por momentos, eram elas próprias que viviam as histórias das personagens. Eram aquelas mulheres. Suas, aquelas casas confortáveis, espaçosas. Seus, aqueles gestos. Aquelas traições. Aqueles amores. Seus, os finais felizes daquelas vidas. Esquecidas, amassadas, bem no fundo do peito, ficavam as preocupações do dia a dia. O dinheiro que mal chegava até ao fim do mês. O novo filho que ia nascer para todas as interrogações da vida de amanhã. Todas as inquietações. Todas as angústias. Sim, por momentos, elas eram aquelas mulheres.

Viste a novela, ontem?

domingo, 9 de novembro de 2014

Eugénia Cunhal - Oh Capitão

* Eugénia Cunhal

Oh , capitão

Por vezes, amanhecemos diferentes. Os olhos, ainda toldados pelo sono, já brilham por detrás das pálpebras. Um brilho que se não vê, mas que sente quem põe uma qualquer esperança, numa qualquer coisa, num qualquer dia. Luminoso, que se aproxima.

Assim aconteceu com ela. O filho prometera-lhe levar-lhe o neto para passar um pedaço da tarde consigo. O neto que com ela vivera, na mesma casa, os primeiros dias e meses de vida. Uma infância que ia até ao fim do segundo ano de escola, como agora  se diz.

A vida dos pais levara-o para uma outra casa. Num bairro longínquo, em que, mesmo numa cidade pequena como esta, toma difíceis as deslocações.

Mãe, amanhã levo-lhe o João para passar um bocado da tarde consigo.

Para matar saudades, que acabavam sempre por doer mais, ia muitas vezes ao quarto que fora do neto. Os olhos contemplavam, embevecidos, uma dezena de autocolantes, na maioria, representando animais, que ele fora colando na porta do armário da roupa. Primeiro, na zona debaixo, depois subindo, como tamanho dos anos que ia tendo.

As mãos, numa carícia lenta, acompanhavam o movimento dos olhos. E no rosto pincelava-se um leve e magoado sorriso de saudade, recordando os dias em que ali brincavam. Vó, vamos brincar. Com que gosto os brinquedos que se amontoavam pelo chão ficavam ignorados. Inúteis.

Vamos imaginar que ... E vinham os barcos de que as mãos comandavam as velas. E as espadas sempre ao serviço dos mais fracos. E os chefes índios que os saudavam como verdadeiros amigos. Acompanhava, orgulhosa, as expressões que se iam espelhando no rosto do menino. Assim é que é, capitão ...

Quando a campainha da porta da rua tocou, foi esperá-lo à escada. Vi-o subir, olhar para cima e dizer: Olá, avó. Estava mais alto. E mais bonito, ainda.



Vamos para o meu quarto, queres? Poderia tê-lo encaminhado para outra divisão. Quase inconscientemente, escolhera o quarto onde, poucos dias antes da mudança dos pais ali tivera começado a ler-lhe " O Principezinho". Esperando talvez, que ele lhe pedisse para acabar a história.

Queres ver o que trago aqui? Foi o pai que me comprou. E abriu uma revista, de páginas cheias de carros, que expunham, orgulhosamente, o luxo das linhas e a excessiva comodidade do interior.

De qual gostas mais? Gosto de carros simples que não tenham ... e hesitou para não empregar a palavra ostentação, pouco perceptível para uma criança. E de roupa de marca, gostas? Insistiu o menino. Para mim, a roupa deve ser cómoda e bonita, mais nada.

O neto olhou-a com um certo espanto. Afinal de que é que gostas? Queria dizer-lhe: gosto de árvores, do mar, de estar com os amigos. Acabou por encolher simplesmente os ombros.

E só lhe apeteceu perguntar-lhe: que é feito de ti? Por que caminhos andas agora … 


in Escritos de Esferográfica

sábado, 18 de outubro de 2014

Eugénia Cunhal - Famílias

* Eugénia Cunhal

FAMÍLIAS

Estava sentado. Olhos pregados num livro cujas folhas ia passando devagar. As mãos, ligeiramente trémulas, dificultavam a leitura. Estavam assim, desde a crise que o tinha atirado, primeiro para a cama. O médico abanara a cabeça: esse coração não está nada bem.

Conhecia de cor todos os cantos da sala semi obscura da cave aonde vivia. As parcas economias que ia conseguindo amealhar desde o dia da reforma e da morte da companheira tinham um único destino. Livros. Que já não cabiam nas estantes e se amontoavam pelo chão. Através deles, ia partilhando outras vidas, outras histórias. Revoltado, oprimido com as personagens de umas, com outros peito aberto para a vida, mãos estendidas em feitos imaginários negados ao seu corpo cansado e doente. E, além do mais ofereciam-lhe a companhia que o compensava da ausência daqueles de quem  seria óbvio esperar uma presença, um telefonema. Ao menos.

As filhas abriram a porta da rua, entraram e disseram: o pai não pode viver aqui sozinho. Não chegou ao fim da frase que estava a ler. Fingiu que não
ouviu, de tal forma eram inesperadas aquelas palavras que pareciam revestir-se de uma preocupação e de um súbito carinho. Claro, o pai não pode viver aqui sozinho - repetiram.

Será que ... pensou, sabendo que uma das filhas morava num andar amplo e construído há pouco. Será que ...

Durante as próximas semanas entregou-se ao sonho. Que bom, estar dia a dia com o neto mais pequeno. Um menino certamente inteligente, curioso. Às vezes, as gerações mais novas estão mais receptivas. Mais generosas. Saibamos nós, os mais velhos, chegar-lhes ao coração.

Vamos, pai. Como sabe, não o podemos deixar a viver aqui. Juntámo-nos todos e arranjámos-lhe um Lar. Não se preocupe. A comida é boa, o quarto é só para si, tem uma grande janela e muita luz. Verá que não lhe vai faltar nada.

Levaram-no. Na mala apenas a roupa e os medicamentos. Nem uma única vez o foram visitar. E assim, ia definhando naquele quarto silencioso donde saía apenas para tomar as refeições.

Uma manhã, estranhando-lhe a ausência ao pequeno-almoço, uma empregada foi encontrá-lo deitado de olhos fechados. Então, Sr. Armindo, que preguiça é essa. Mas os olhos não voltariam a abrir-se.

Os filhos compraram-lhe um caixão feito de uma madeira boa e cara, encomendaram uma grande coroa de flores, com uma fita roxa que tinha escrito em letras douradas a palavra SAUDADE.

Acompanharam-no com lágrimas ao sítio que chamaram de última morada. E as pessoas comentavam como era bonito saber como aquele homem tinha sido bem cuidado. Até ao fim.

Os livros foram vendidos a peso. Nunca se soube o destino que levaram.

 in Escrita de esferográfica

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Eugénia Cunhal - A carta

* Eugénia Cunhal

A CARTA

A sala era pequena. Com uma claridade agradável que entrava pela janela aberta para a rua. Uma rua que tinha o privilégio de ser chamada avenida.  Talvez porque algumas árvores ali haviam crescido, dando-lhe um toque de dignidade. Como se as árvores e casas pertencessem à mesma família numa convivência íntima.

 Estava sentada numa pequena cadeira estofada, vestida com um roupão. Uma manta de xadrez chegava-lhe as pernas, mesmo quando o calor já despertara.

Mãos cruzadas uma na outra não paravam de enlaçar e desenlaçar os dedos, numa linguagem muda, de quem raramente tem ouvidos que lhe oiçam as palavras. Como contas do seu rosário de vida, esperando a presença fugaz de uma ou outra pessoa que apareça. Desde que o filho lhe lera a carta registada do senhorio, que o carteiro trouxera inesperadamente uma manhã, nunca mais tivera um dormir descansado. Há quarenta e seis anos que ali vivia. Já o filho nascera, quando se impôs o sonho de deixar o pequeno quarto para ter uma casa sua. Renda cara. Paga com o magro salário do marido. Das bilhas de leite que ia distribuindo pelas muitas escadas que subia e descia. Todos os dias da semana. E dos quartos que alugava, uma vez que lhe sobrava espaço, para além do seu quarto e do quarto do menino.

Começou por arranjar um e outro móvel colocando-lhes em cima  pequenos naperons de  crochet tecidos em bocadinhos de noite roubados ao sono. Mesmo assim, não conseguia que perdessem a frieza que com eles viera da loja, onde viviam ao lado de muitos outros, precisamente iguais, que iam partindo para outras mãos. Parava a olhar gulosamente objectos exibidos nas montras. Aos poucos foi trazendo para casa uma jarra enfeitada com flores de cores alegres, uma pomba de loiça, uma moldura prateada para a fotografia do seu casamento, que habitava, tristemente, há longos anos uma gaveta.  

E, assim, a casa foi ficando cada vez mais sua no sentir.

Agora há que vender esta tralhada toda, disse o filho. O prédio deve ser deitado abaixo e põem-nos para aí num sítio qualquer. É o costume, quando as rendas são baixas como esta.

Tralhada. A palavra ficou a doer-lhe como doem as palavras que denigrem alguém ou alguma coisa que se ama. E havia uma outra dor. Como deixar aquele raminho que da árvore que nascera mesmo em frente da janela lhe vinha fazer companhia. E as vizinhas que foram envelhecendo consigo, adoecendo consigo, ao longo dos anos. Mas que ainda conseguiam esforçadamente subir o terceiro andar, de vez em quando, para lhe cortar o silêncio pesado na solidão dos dias. E lhe traziam noticias das ruas e das gentes que faziam parte da sua já longa vida.

Há muitas maneiras de matar.
E de morrer.

in Escritas de Esferográfica

domingo, 22 de abril de 2012

Eugénia Cunhal - Palavras

Victor Nogueira partilhou a foto de Maria Anjos Palma Baguinho.
22/4
Ao CRAVO DE ABRIL…

PALAVRAS
Queria chamar-te tanta coisa bela

pássaro, fogo, vento, caravela
terra, semente, pão

Chamar-te amigo
e inventar as palavras que não digo
com medo de as dizer sem ter razão.

(Maria Eugénia Cunhal)