Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
sexta-feira, 18 de setembro de 2026
(100) - Martin Luther King - 'I have a dream'
(99) Entre Mahatma Gandhi e Nicholas Klein
* Gemini / Victor Nogueira
No mural da imagem, encontram-se escritos os seguintes textos e citações:
A frase em destaque (atribuída a Mahatma Gandhi):
"FIRST THEY IGNORE YOU, THEN THEY FIGHT YOU, THEN YOU WIN"
(Em português: "Primeiro eles te ignoram, depois lutam contra ti, depois tu vences"). Logo abaixo está a assinatura/crédito: - MAHATMA GANDHI.
sábado, 29 de agosto de 2026
(96) Nelson Mandela - "Lighting your way to a better future" (2003)
"Ilustres convidados, minhas senhoras e meus senhores.
Obrigado por se juntarem a nós esta noite nesta celebração do lançamento da Mindset Network, uma rede multimédia educativa por satélite, e do seu primeiro canal, chamado Activate.
A África do Sul herdou um sistema educativo altamente disfuncional da era do apartheid. É uma das nossas principais tarefas de reconstrução edificar um sistema educacional que proporcione oportunidades de qualidade a todo o nosso povo. É fundamentalmente importante que as nossas crianças estejam preparadas para competir com confiança na arena internacional. Precisamos de garantir que cada uma das nossas crianças tenha acesso a uma educação de qualidade e de nível mundial.
O Ministério da Educação está a fazer um excelente trabalho para tornar isto possível, e estou também particularmente orgulhoso do trabalho do setor empresarial sul-africano ao apoiar o ministério em iniciativas educativas que mudam o país. Esta é uma dessas iniciativas que estamos a lançar esta noite.
Há muito que estou impressionado com o trabalho da Liberty Foundation, que deu grandes passos com o Learning Channel na televisão ao longo dos últimos 13 anos. Isto provou ser muito bem-sucedido e fez uma diferença imensurável na vida de incontáveis alunos e professores.
Quão soberbo é que isto tenha sido tornado possível por um conjunto de empresas. Compreendo que algumas destas empresas sejam concorrentes. Que estas organizações estejam lado a lado e a trabalhar juntas é mais um testemunho da grande capacidade dos sul-africanos para superar diferenças e obstáculos.
Quero, por isso, prestar homenagem e dar os meus agradecimentos pessoais àqueles que estão na Liberty, no Standard Bank, na PanAmSat, na MultiChoice Africa, no Sunday Times, na Sentech e, claro, àqueles na Fundação Nelson Mandela por se terem chegado à frente para tornar isto possível. Quero também agradecer às pessoas que trabalham na Mindset Network por tudo o que fizeram tão rapidamente para pôr este projeto a funcionar. É difícil acreditar que tenham conseguido ir tão longe em tão pouco tempo. É simplesmente notável o que as pessoas podem fazer num ano quando há uma grande necessidade e o momento é o certo.
O apoio às escolas, e particularmente àquelas em zonas rurais, há muito que é uma causa muito próxima do meu coração. De facto, há muitos de vós no público hoje que provavelmente estremecem quando me veem porque sabem que eu acredito que todos podemos fazer mais nesta área! Como sabem, também sou apaixonado por lidar com os nossos desafios na saúde, particularmente na área do VIH/SIDA. Passarei o resto dos meus dias a tentar ajudar a garantir uma África do Sul mais educada e mais saudável. Fico, por isso, aliviado por ouvir que a Mindset Network também lançará um canal dedicado às questões de saúde, direcionado tanto aos profissionais de saúde como aos pacientes em todo o país.
Com o seu foco na educação e na saúde, a rede está a responder às mesmas questões-chave da Fundação Nelson Mandela e do Fundo Infantil Nelson Mandela. Era, portanto, óbvio que a minha fundação empenharia o seu apoio a esta iniciativa. Apelo a cada sul-africano, a cada organização sul-africana e aos nossos amigos internacionais para que apoiem a Mindset Network. É um projeto que certamente fará uma diferença significativa na vida de milhões de sul-africanos e até daqueles além das nossas fronteiras.
A educação é a arma mais poderosa que podemos usar para mudar o mundo, e a Mindset Network é uma parte poderosa desse arsenal de mudança.
Gostaria agora de fazer uma apresentação a duas escolas muito merecedoras.
Chamo primeiro o chefe do departamento de Ciências da Escola Secundária de Mount Ayliff, perto de Kokstad, Goodman Zingisile Cele, bem como dois alunos do 12.º ano, Phumezo Joyi e Phumzile Nonduku.
quarta-feira, 26 de agosto de 2026
(93) - Fidel Castro e o 'Conceito de Revolução'
O trecho pintado no mural representa o «Concepto de Revolución» completo na sua versão mais famosa (a definição síntese). No entanto, ele faz parte de um discurso político muito mais longo proferido por Fidel Castro no dia 1 de maio de 2000, na Tribuna Abierta de la Juventud, los Trabajadores y todo el Pueblo (Praça da Revolução, em Havana). O discurso original completo tem cerca de 4 000 palavras e abordava temas da época (como a crise do caso do rapaz Elián González, as críticas aos Estados Unidos e a situação dos médicos cubanos no estrangeiro). Na parte final, Castro faz a síntese teórica da Revolução. Na fase final do seu mandato, Castro sintetizou em 13 pontos/postulados a definição ética, política e filosófica do que significava a Revolução Cubana para o país e para o futuro.
A passagem completa e exata que define o Conceito de Revolução — tal como ficou gravada e transcrita integralmente na fachada — é a seguinte:
«Revolución es sentido del momento histórico; es cambiar todo lo que debe ser cambiado; es igualdad y libertad plenas; es ser tratado y tratar a los demás como seres humanos; es emanciparnos por nosotros mismos y con nuestros propios esfuerz
os; es desafiar podero sas fuerzas dominantes dentro y fuera del ámbito social y nacional; es defender valores en los que se cree al precio de cualquier sacrificio; es modestia, desinterés, altruismo, solidaridad y heroísmo; es luchar con audacia, inteligencia y realismo; es no mentir jamás ni violar principios éticos ; es convicción profunda de que no existe fuerza en el mundo capaz de aplastar la fuerza de la verdad y las ideas. Revolución es unidad, es independencia, es luchar por nuestros sueños de justicia para
Cuba y para el mundo, que es la base de nuestro patriotismo, nuestro socialismo y nuestro internacionalismo.»
No mural o o artista 'partiu' em linhas na parede, aproveitando a pontuação (os pontos e vírgulas) e o início de cada oração com a palavra "es" para formatar o painel como se fossem versos de um poema, adaptando a prosa ao espaço vertical do portal da fachada.
segunda-feira, 24 de agosto de 2026
(86) Fidel Castro - A História me absolverá (1953)
A HISTÓRIA ABSOLVER-ME-Á (frase famosa de Fidel Castro, também traduzida comumente como A história me absolverá).
Textos secundários:
BEM-VINDO FIDEL (repetido duas vezes no muro à esquerda).
Viva Cuba ★ Viva Fidel (manuscrito em pequeno sobre o mapa, à direita).
O Discurso (1953): É a defesa oral proferida por Fidel Castro em tribunal a 16 de outubro de 1953, quando foi julgado pelo assalto ao Quartel Moncada contra o regime de Fulgêncio Batista. A famosa frase fecha a sua intervenção: "Condenai-me, não importa, a História absolver-me-á".
O Livro (1954): Enquanto cumpria pena na prisão da Isla de Pinos, Fidel reconstituiu e redigiu o discurso de memória. O texto foi retirado de forma clandestina da prisão em cartas escritas com sumo de limão (tinta invisível) e publicado em 1954 sob a forma de manifesto/livro, tornando-se o programa político do seu movimento.
A introdução: Onde Fidel critica o julgamento à porta fechada e a violação dos direitos de defesa.
As medidas revolucionárias: Os 5 pontos económicos e sociais propostos para Cuba (reforma agrária, industrialização, habitação, educação e saúde).
O encerramento: A emblemática passagem final onde pronuncia a frase histórica
sábado, 22 de agosto de 2026
(84) Humberto Delgado - discurso proferido em 22 de maio de 1958
Meus Senhores e de Senhores,
Amigos, Terceirenses, Aquenses :-
Ha quinhentos anos... a 14 de Agosto de 1385. Um grupo de homens serenos, fêz-se ouvir perante as pêsas hastes. Gigantes, sim, mas serenos no seu e especial modo de conceber a soberania popular.
quinta-feira, 6 de agosto de 2026
(53) Discurso de Barack Obama (Nashua, New Hampshire — 2008)
* Barack Obama
Discurso de Barack Obama (Nashua, New Hampshire — 8 de Janeiro de 2008)
Muito obrigado. Quero parabenizar a Senadora Clinton por uma vitória árdua aqui no New Hampshire. Ela fez um trabalho magnífico. Demos-lhe uma grande salva de palmas. Ela fez um trabalho maravilhoso e o mesmo se aplica ao Senador Edwards e a todos os outros candidatos que participaram nesta contenda.
Há uns meses, poucos teriam previsto o que realizámos esta noite. Durante muito tempo, disseram-nos que não podíamos fazer aquilo que fizemos hoje. Mas esta noite, neste número recorde de votos, ouvimos a voz que fala por momentos como este.
Uma voz que nos diz que há algo a acontecer na América; que algo de novo está a nascer; que a nossa união não pode ser dividida; que a nossa nação é perfeita quando nos unimos; e que o futuro da América é tão promissor quanto as pessoas que o constroem.
(49) HOMILIA DO PAPA FRANCISCO ~ Capela Sistina 14 de Março de 2013
Este mural, situado na aldeia de Podence (concelho de Macedo de Cavaleiros), é uma homenagem dos Caretos de Podence ao Papa Francisco.
A pintura celebra um momento histórico em que uma comitiva dos Caretos de Podence viajou até ao Vaticano e foi recebida numa audiência oficial pelo Papa Francisco. Na ocasião, o grupo presenteou o Papa com um casaco tradicional do fato de careto (feito de colchas de lã franjadas nas cores amarela, vermelha e verde).
Principais Elementos do Mural:
O Papa Francisco: Aparece sorridente a acenar à população.
Os Caretos de Podence: O Papa surge ladeado pelas figuras tradicionais dos mascarados de Podence envergando os seus trajes coloridos de lã (vermelho, amarelo e verde) com as típicas máscaras de metal ou couro vermelho.
A Frase Inspiradora: Na parede à esquerda está escrita uma citação do Papa Francisco:
"A nossa vida é um caminho, quando paramos não vamos para a frente."
Inaugurada durante o Entrudo Chocalheiro, a obra simboliza o encontro marcante entre a fé cristã e a tradição pagã secular dos Caretos, que foi reconhecida como Património Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO.
domingo, 28 de junho de 2026
(30) - Don Lorenzo Milan - "Carta aos Juízes" (Lettera ai giudici)
* Google Gemini
Este mural em Orgosolo (visível na imagem image_ec8a08.jpg) traz de volta a famosa citação de Don Lorenzo Milani retirada da sua "Carta aos Juízes" de 1965. Curiosamente, esta é a mesma passagem que transcrevemos anteriormente, mas desta vez pintada num formato puramente textual e abstrato.
O que está escrito?
O texto foi pintado em letras maiúsculas pretas e rústicas, ocupando grande parte de um painel branco:
"Se voi avete il diritto di dividere il mondo in italiani e stranieri, allora io reclamo il direito di dividere il mondo in disperati e oppressi da un lato, privilegiati e oppressori dall'altro. Gli uni sono la mia patria, gli altri i miei stranieri. (DON MILANI)"
Tradução:
"Se vós tendes o direito de dividir o mundo em italianos e estrangeiros, então eu reclamo o direito de dividir o mundo em desesperados e oprimidos de um lado, privilegiados e opressores do outro. Os primeiros são a minha pátria, os outros os meus estrangeiros. (DON MILANI)"
(Nota: O pintor cometeu um pequeno erro ortográfico de grafia na palavra "direito", escrevendo-a em português/espanhol com "g" em vez do italiano "diritto", além de trocar a palavra original "diseredati" por "disperati", o que é muito comum em reproduções populares de cariz oral ou de memória).
O que representa este mural?
Esta obra representa o antifascismo, o internacionalismo e a primazia da justiça social sobre as fronteiras geográficas ou o nacionalismo estatal.
1. Elementos Visuais e Simbologia
Estilo Gráfico Abstrato: Ao contrário de outros murais figurativos de Orgosolo que mostram pastores ou cenas históricas, este foca-se na força crua da palavra escrita. O texto assenta sobre manchas de cores primárias vivas — vermelho, amarelo e azul — dispostas de forma fluida no fundo. Estas formas orgânicas e dinâmicas servem para dar destaque e urgência à leitura da mensagem.
A Sombra Projetada: A própria arquitetura do edifício cria uma sombra triangular cortante sobre a pintura, conferindo ao mural uma forte integração com a envolvência urbana da vila.
2. O Significado Político e Humanitário
Ao estampar esta frase de Don Milani no centro da Sardenha, os muralistas recusam a lógica de exclusão baseada na terra de nascimento. A obra afirma que a verdadeira divisão da humanidade não se faz por passaportes ou bandeiras (italianos vs. estrangeiros), mas sim por uma linha de classe e de justiça: os que sofrem (os oprimidos) contra os que abusam do poder (os opressores).
Para a comunidade de Orgosolo, historicamente marginalizada pelo Estado centralizado, esta frase serve como um lema de solidariedade universal com todos os povos que sofrem pressões semelhantes em qualquer canto do planeta.
VER (28) - Don Lorenzo Milan - "Carta aos Juízes" (Lettera ai giudici)
terça-feira, 16 de junho de 2026
(28) - Don Lorenzo Milan - "Carta aos Juízes" (Lettera ai giudici)
Este mural em Orgosolo foca-se numa profunda reflexão social, ética e humanitária, recorrendo a uma das citações mais célebres da história do ativismo e da pedagogia social italiana.
O que está escrito?
O texto está escrito em italiano com letras maiúsculas pretas e desalinhadas sobre um fundo branco rodeado por formas abstratas coloridas (amarelo, vermelho e azul). A inscrição diz o seguinte:
"Se voi avete il diritto di dividere il mondo in italiani e stranieri, allora io reclamo il diritto di dividere il mondo in disperati e oppressi da un lato, privilegiati e oppressori dall'altro. Gli uni sono la mia patria, gli altri i miei stranieri (DON MILANI)"
Tradução:
"Se vós tendes o direito de dividir o mundo em italianos e estrangeiros, então eu reclamo o direito de dividir o mundo em desesperados e oprimidos de um lado, privilegiados e opressores do outro. Os primeiros são a minha pátria, os outros os meus estrangeiros (DOM MILANI)."
O excerto pintado no mural faz parte da célebre "Carta aos Juízes" (Lettera ai giudici), escrita por Don Lorenzo Milani a 18 de outubro de 1965.
Dom Milani escreveu este texto como memória de defesa para o tribunal de Roma, uma vez que se encontrava gravemente doente com cancro e não podia deslocar-se pessoalmente ao seu julgamento. Ele tinha sido processado por "instigação à delinquência" após ter defendido publicamente o direito à objeção de consciência dos jovens que recusavam o serviço militar obrigatório.
Abaixo encontra-se a transcrição integral do parágrafo exato de onde o excerto foi retirado, tanto no original em italiano como traduzido para português:
Texto Original (Em Italiano)
"Non posso dire ai miei giovani che l'unico modo d'amare la legge sia d'obbedirla. Posso solo dir loro che essi dovranno tenere in tale onore le leggi degli uomini da osservarle quando sono giuste (cioè quando sono la forza del debole). Quando invece vedranno che non sono giuste (cioè quando sanzionano il sopruso del forte) essi dovranno battersi perché siano cambiate.
Ma l'obbedienza civile a una legge ingiusta, cioè alla legge che non sia ancora riusciti a cambiare, non è che una forma di pigrizia e di viltà. Bisogna che la cambino accettando la pena che la stessa legge prevede per chi la viola (questa è obbedienza alla legge, ma disobbedienza alla forza).
È questo il profondo significato della nonviolenza dei grandi santi e dei grandi laici della nostra epoca.
Se voi avete il diritto di dividere il mondo in italiani e stranieri allora vi dirò che, nel vostro senso, io non ho patria e reclamo il diritto di dividere il mondo in diseredati e oppressi da un lato, privilegiati e oppressori dall'altro. Gli uni son la mia patria, gli altri i miei stranie
ri. E se voi avete il diritto di insegnare che gli italiani e i loro alleati compiono sempre atti giusti e che gli altri sono sempre nel torto, allora io reclamo il diritto di dire che anche gli italiani hanno compiuto atti ingiusti e che anche gli altri hanno compiuto atti giusti."
Tradução em Português
"Não posso dizer aos meus jovens que a única maneira de amar a lei seja obedecer-lhe. Só lhes posso dizer que eles deverão ter em tal honra las leis dos homens que as devem observar quando são justas (isto é, quando são a força do fraco). Quando, pelo contrário, virem que não são justas (isto é, quando sancionam o abuso do forte), eles deverão lutar para que sejam mudadas.
Mas a obediência civil a uma lei injusta, isto é, a uma lei que ainda não se conseguiu mudar, não passa de uma forma de preguiça e de cobardia. É preciso que a mudem aceitando a pena que a própria lei prevê para quem a viola (isto é obediência à lei, mas desobediência à força).
Este é o significado profundo da não-violência dos grandes santos e dos grandes laicos da nossa época.
Se vós tendes o direito de dividir o mundo em italianos e estrangeiros, então dir-vos-ei que, no vosso sentido, eu não tenho pátria e reclamo o direito de dividir o mundo em deserdados e oprimidos de um lado, privilegiados e opressores do outro. Os primeiros são a minha pátria, os outros os meus estrangeiros. E se vós tendes o direito de ensinar que os italianos e os seus aliados praticam sempre atos justos e que os outros estão sempre errados, então eu reclamo o direito de dizer que também os italianos praticaram atos injustos e que também os outros praticaram atos justos." (Google Gemini)
quinta-feira, 11 de junho de 2026
António José Seguro - Discurso no Dia de Portugal (2026)
* António José Seguro
«Quando penso no mar, o mar regressa / a certa forma que só teve em mim – / Que onde acaba, o coração começa.»
Vitorino Nemésio nasceu aqui, nesta ilha. E nestes versos deixou aquilo que talvez só alguém criado entre o Atlântico e o céu aberto dos Açores poderia escrever: a ideia de que o mar não é apenas uma paisagem, é uma condição. Uma forma de ser no mundo.
O mar não é apenas a geografia que nos rodeia. O mar é memória, é destino e é carácter. Foi diante do Atlântico que aprendemos a olhar mais longe.
João Miguel Tavares - O primeiro 10 de Junho de Seguro e os excessos de poesia
O problema português da falta de produtividade não se vê apenas nas empresas ou nos serviços públicos – vê-se também nos discursos dos políticos.
* João Miguel
Tavares
11 de Junho de
2026
É um mal
antigo: a tradição retórica nacional é paupérrima, e ninguém seria capaz de
editar um livro com os grandes discursos da democracia portuguesa, porque eles
simplesmente não existem. A História da política americana está cheia de
discursos extraordinários, de Abraham Lincoln a Barack Obama; Winston Churchill
sustentou a resistência britânica nos anos da Blitz em cima da sua
oratória; Charles de Gaulle limpou a honra da França colaboracionista muito por
força da sua palavra; a voz de Václav Havel foi o esteio da recuperação
democrática dos países esmagados pelo comunismo soviético.
Em Portugal não
temos nada disso. As vozes de Mário Soares ou Álvaro Cunhal ficaram na História
mais pela força das suas intervenções televisivas, das entrevistas que deram e
dos livros que escreveram, do que por algum discurso particularmente arrebatador
que hoje faça parte da nossa memória colectiva. E quando nos pomos a ler os
discursos dos políticos portugueses do século XX, temo bem que os mais bem
escritos e retoricamente mais eficazes sejam os de António de Oliveira Salazar,
que é uma coisa chata de se dizer. Para compensar, Salazar tinha uma vozinha de
professor da Beira Alta enfadonho, muito nasalada, muito vagarosa, muito pouco
modelada, o que não fazia dele nem um Hitler nem um Mussolini.
Actualmente, os
nossos políticos utilizam um tom oficial nos seus discursos que os faz
cantarolar todos da mesma forma, e como nunca parecem ter nada de importante
para dizer ao país (mesmo quando têm), compensam a aparente falta de ideias com
doses cavalares de poesia, em particular quando se aproxima o 10 de Junho.
Pior: os autores citados são sempre tão óbvios que qualquer pessoa percebe que
os nossos políticos só são leitores de poesia na véspera de escreverem os seus
discursos, ou nem isso. Infelizmente, António José Seguro não escapou a esta
maldição poética na sua estreia como Presidente da República no Dia de
Portugal, que este ano se assinalou com uma cerimónia modesta em Angra do Heroísmo.
Esta carga poética cavalar, quase
sempre desgarrada daquilo que está a ser dito – e que só ali está porque os
nossos políticos morrem de medo de parecerem incultos –, reveste a palavra do
Presidente de uma cobertura poético-gongórico-pirosa
Tivemos direito
a Camões, claro, e depois vieram, em ondas, Natália Correia (“Foi por línguas
de fogo que aprendi a falar”), Vergílio Ferreira (“Uma língua é o lugar de onde
se vê o mundo/ Da minha língua vê-se o mar”), Ruy Belo (“Um país aonde o puro
pássaro é possível”) e um poeta local, Emanuel Félix (“Somos herdeiros de uma
lembrança/ de tesouros afundados/ e arpoamos a esperança”). Esta carga poética
cavalar, quase sempre desgarrada daquilo que está a ser dito – e que só ali
está porque os nossos políticos morrem de medo de parecerem incultos –, reveste
a palavra do Presidente de uma cobertura poético-gongórico-pirosa que corta a
pertinência de qualquer ideia relevante que esteja a ser dita, e ainda mata de
tédio metade do auditório.
O problema
português da falta de produtividade não se vê apenas nas empresas ou nos
serviços públicos – vê-se também nos discursos dos políticos. Há uma velha
piada de Hollywood, às vezes protagonizada por Richard Brooks, outras por John
Huston ou John Ford, com uma lição que supostamente teriam aprendido após a
visualização atenta de vários filmes pornográficos. A lição era esta: “Get
to the fucking point.” Os nossos políticos bem podiam aprendê-la, para
evitar que outros 10 de Junho terminem como este, nos vários canais de
televisão: “Foi o discurso do Presidente da República. Quanto a Marco Silva,
assina esta semana pelo Benfica. Seguimos em directo para o Seixal.”
quarta-feira, 6 de maio de 2026
Toro Lento (Tatanka Ptecila) e o 'fardo do homem branco'
sábado, 25 de abril de 2026
Intervenção de Alfredo Maia na Assembleia de República, em 25 Abril 2026
Abril foi e é justiça, liberdade, democracia e paz, salários, respeito por quem trabalha e produz a riqueza
Uma homenagem ainda aos combatentes dos movimentos de libertação nas colónias, irmanados na luta comum pela liberdade.
Foi a luta dos trabalhadores, do povo, dos resistentes antifascistas que, em meio século de tenebrosa noite, foi iluminando as veredas que convergiram nessa madrugada e tornaram possível o levantamento de 25 de Abril, assim como a Revolução que o povo levou por diante.
Dezenas de milhares sofreram nas masmorras da PVDE, da PIDE e da DGS, a maioria brutalizada por sevícias e torturas, muitos pagando com a vida a luta pela liberdade e pela democracia:
Manuel José Vieira, Alfredo Caldeira, Bento Gonçalves, Ferreira Soares, Germano Vidigal, Alfredo Dinis, Soeiro Pereira Gomes, Militão Ribeiro, José Moreira, Alfredo Lima, Catarina Eufémia, José Adelino dos Santos, José Dias Coelho, José Gregório, Cândido Martins, António Graciano Adângio, Estêvão Giro – e tantos outros mortos!
Pelo menos nove mil mortos, 30 mil feridos, 15 mil deficientes entre os jovens portugueses mandados para uma guerra sem sentido; talvez mais de 85 mil mortos nos movimentos de libertação, 50 mil a 100 mil civis.
O país não era apenas pobre, atrasado (económica, social e culturalmente), tolhido pela censura, pelo analfabetismo, pela malnutrição e pela mortalidade infantil: estava submetido à repressão brutal que nenhum democrata esquecerá, sujeito a uma ditadura fascista que alguns evocam saudosamente.
As liberdades democráticas; o fim da repressão fascista e da guerra; o aumento geral dos salários e das pensões; o direito à greve e a proibição do lock-out; o salário mínimo nacional; a liberdade sindical; a generalização do direito a férias e respetivo subsídio; o direito à habitação, à saúde e à educação.
Também as nacionalizações e o controlo público da banca, dos seguros, da energia, das comunicações, dos transportes, da construção e reparação navais e ferroviária; a reforma agrária; o acesso a estradas, eletricidade, comunicações, redes de água e de esgotos; o poder local democrático.
São, entre tantas outras, conquistas que os grupos monopolistas e as forças reacionárias tentaram travar pelo boicote económico, pela fuga de capitais, assim como pela força, com os golpes e tentativas de golpe.
E também com os seiscentos ataques violentos, entre os quais 310 à bomba, 136 assaltos e 58 incêndios, contra sedes de partidos de esquerda e sindicatos e até residências de democratas, perpetrados pelo ELP, pelo MDLP e outras organizações de extrema-direita, entre maio de 1975 e abril de 1977.
Até ao último minuto, tentaram tudo, mas não conseguiram impedir a aprovação, há 50 anos, da Constituição mais democrática da Europa.
Cinco décadas de política de direita, de contrarrevolução, atacaram direitos, desmantelaram serviços públicos, alienaram instrumentos essenciais ao desenvolvimento do País, submeteram a soberania nacional a interesses estrangeiros.
É necessário retomar esse rumo, derrotando o Pacote Laboral, travando a injusta distribuição da riqueza, enfrentando o galopante aumento do custo de vida e rejeitando o arrastamento do País para a loucura do militarismo e da guerra.
Cinquenta e dois anos após a radiosa madrugada de Abril que resgatou os trabalhadores e o povo da opressão, e 50 anos depois das primeiras eleições para a Assembleia da República, reafirmamos o compromisso com os valores dessa Revolução inapagável e com o projeto promissor que anunciou um Portugal mais justo, desenvolvido e soberano.

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