Mostrar mensagens com a etiqueta Jorge Sarabando. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Jorge Sarabando. Mostrar todas as mensagens

domingo, 21 de julho de 2024

Jorge Sarabando - Nascença, vida e queda da 5ª Divisão do EMGFA


Nascença, vida e queda da 5ª Divisão do EMGFA – Estado-Maior General das Forças Armadas, por Jorge Sarabando - Lisboa, Voz do Operário, 18 de Julho de 2024


A 5ª Divisão foi criada em Junho de 1974, manteve uma intensa actividade até 27 de Agosto de 1975, data em que as suas instalações foram assaltadas por uma força do COPCON, e subsistiu, com sérias limitações, até à sua extinção formal na sequência do Golpe de 25 de Novembro.

Inicialmente, num período marcado por forte hostilidade do General Spínola ao MFA, foram nela colocados os 7 oficiais que constituíam a sua Comissão Coordenadora, sendo o mais graduado o então Coronel de Engenharia Vasco Gonçalves, nomeado Chefe da Divisão. Com a sua designação para Primeiro-ministro do 2º Governo Provisório, em Julho de 74, foi substituído pelo outro oficial mais graduado, o então Tenente-coronel Franco Charais, mais tarde nomeado para comandar a Região Militar Centro. Outros membros da Comissão Coordenadora nomeados para pastas ministeriais sairiam também, como foi o caso dos majores Melo Antunes e Vítor Alves, e do capitão Costa Martins. Entre os oficiais entretanto colocados, contava-se o Coronel João Varela Gomes, que logo se distinguiu pela iniciativa e dinamismo, e viria a chefiar o Centro de Sociologia Militar.

As missões atribuídas situavam-se, como era norma, no âmbito das Relações Públicas e Acção Psicológica. Em Outubro de 74, seria nomeado Chefe da 5ª Divisão o Coronel Robin de Andrade, e em Junho de 75, foi nomeado o 1º Tenente médico naval Ramiro Correia, para o efeito graduado em Capitão de Mar e Guerra.

Apesar das limitações de meios materiais e de atrasos na colocação do pessoal necessário, foi possível, a partir de Setembro de 74, definir um novo quadro organizativo, passando as actividades principais a repartir-se por quatro áreas:

- CODICE – Comissão Dinamizadora Central;

- CEIP – Centro de Esclarecimento e Informação Pública;

- Centro de Sociologia Militar;

- Centro de Relações Públicas.

A actividade da 5ª Divisão teve dois momentos altos, com reconhecimento geral e institucional, no enfrentamento enérgico, audacioso, decisivo, dos golpes contra-revolucionários de 28 de Setembro de 74 e de 11 de Março de 75. A 5ª Divisão foi essencial na prontidão de resposta, na mobilização popular e sequente derrota dos golpistas. Recorde-se que Spínola pretendia a demissão do Primeiro-ministro Vasco Gonçalves, na decorrência da manifestação da chamada “maioria silenciosa”, prosseguir os seus projectos neo-coloniais, antecipar, numa pulsão caudilhista, a eleição presidencial, em que seria o candidato natural, e adiar a eleição da Assembleia Constituinte, firme compromisso do MFA. A partir da Espanha franquista, para onde fugiu, Spínola, com a sua corte militar, viria a criar o MDLP que, juntamente com o ELP, rede Maria da Fonte, e outros grupos reais ou fictícios, formaram a rede terrorista da extrema-direita, responsável pela onda de violência que abalou o País durante o processo revolucionário.

A fronteira que separava o grupo spinolista do MFA era então clara e bem visível. Para se avaliar a intensidade do confronto, recorde-se que Spínola, ainda Presidente, encomendou a Alpoim Calvão, nas palavras deste, a eliminação física de Melo Antunes e Vasco Gonçalves, acusados de traição. Mas a seguir mandou suspender a operação e ordenou a neutralização de Costa Gomes, que acusava de ser o maior “traidor” e quem “manejava a Comissão Coordenadora”. A crer em Alpoim Calvão, que viria a ser mais tarde o chefe operacional do MDLP, terá tentado mas não conseguiu cumprir a missão.

Em Junho de 75, o poder político-militar parecia estável e coeso, fora criado o Conselho da Revolução e assinado o 1ºPacto MFA- Partidos. Mas surgiam as primeiras tensões entre os maiores partidos políticos e revelavam-se, ainda incipientes, traços de fractura entre os principais responsáveis do MFA. A Assembleia Constituinte tomou posse a 2 de Junho, e o peso político das forças representadas permitia explorar uma linha de conflitualidade entre, como então se designavam, a dinâmica revolucionária e a dinâmica eleitoral. O Prof. Freitas do Amaral chegou a afirmar, na ocasião, haver uma maioria democrática na Assembleia, somando ele os votos do PS, do PPD e do CDS. Mas, na elaboração da Constituição, a maioria que funcionou não foi essa, foi outra. A Constituição viria a ser aprovada com os votos do PS, PPD, PCP, MDP, UDP e o deputado de Macau, e os votos contra do CDS.

O processo revolucionário vivia então um dos momentos mais férteis e criativos, sempre com uma enorme participação popular. Assegurado o controlo público da Banca, que permitiu estancar a fuga de capitais, e dos sectores estratégicos, desenvolvia-se a economia, foram salvas, pelo Governo e os trabalhadores, centenas de empresas ameaçadas de encerramento, avançavam a Reforma Agrária e novas leis no mundo rural, aumentou a produção e foi criado emprego, valorizava-se o trabalho e os trabalhadores, tomavam-se medidas concretas e positivas no âmbito da Educação, da Saúde, da Habitação, da Segurança Social, no acesso à cultura, na independência da Justiça, prosseguia a descolonização nas terríveis condições herdadas do fascismo. Foram acolhidos e integrados, em pouco mais de um ano, mais de meio milhão de portugueses vindos de África. Nem por isso os índices de desemprego aumentaram. O ano de 1975 terminou com uma taxa de desemprego de 4%.

Os Governos provisórios produziam legislação com forte impacto social, tendo muitas leis recebido consagração constitucional, como foi o caso do Salário Mínimo Nacional. A democracia em construção não era apenas política, ao Estado eram cometidas funções sociais. Era o caminho apontado pelas forças que combateram a Ditadura, presentes no Congresso de Aveiro, em 73, e coerente com o Programa do MFA. A conquista da liberdade era inseparável de profundas transformações sociais, da melhoria das condições de vida, da valorização do trabalho e da defesa da paz. O rumo do socialismo era claramente assumido pelas instituições militares e pelos principais partidos e movimentos políticos. Apesar de todas as regressões, por estranho que pareça, subsiste ainda hoje no Preâmbulo da Constituição em vigor.

A aliança Povo-MFA era bem o motor da Revolução e significava a expressão política duma vasta frente social anti-monopolista. Para o grande capital desapossado dos seus privilégios e as suas conexões externas impunha-se, por isso, quebrar tal aliança, dividir o movimento popular e dividir o Movimento das Forças Armadas e foi essa a direcção tomada. Todos os meios foram empregues e recursos financeiros mobilizados com tal finalidade. Bastará ler os diálogos entre o Secretário de Estado Kissinger e o Embaixador Carlucci, hoje disponíveis, apesar das rasuras omissórias, em que a situação do nosso País era acompanhada dia a dia, as mensagens trocadas com responsáveis políticos portugueses, para comprovar como os entendimentos funcionaram. Ficaram claros dois objectivos do Governo de Washington, dos aliados europeus da NATO e da ditadura de Franco: demitir o Primeiro-ministro Vasco Gonçalves e afastar os comunistas da esfera do poder.

Com eficácia, pois o MFA cindiu-se em três correntes, simplificando: a esquerda militar, ou “gonçalvistas”, o grupo do COPCON, ou “otelistas”, e o grupo dos Nove, ou “moderados”. Não eram componentes homogéneas nem funcionavam em compartimentos estanques. As três correntes publicaram os seus manifestos, desenhava-se um confronto. O apelo ao lançamento de pontes entre sectores democráticos vinha, com certa carga de dramatismo, do lado do PCP. Mas enquanto a comunicação entre os grupos dos Nove e do COPCON parecia funcionar, as tentativas de diálogo entre a esquerda militar e os Nove foram, na prática, curtocircuitadas.

A partir de Julho, as manifestações multitudinárias de sinal contrário sucediam-se. De um lado, afirmando a defesa da Revolução, o PCP, o MES, a FSP, o MDP e outros partidos de esquerda e as organizações mais representativas dos trabalhadores, do outro lado, em contraponto, o PS, acobertando toda a direita até à mais extrema, reclamava a demissão do Primeiro-ministro Vasco Gonçalves e prevenia sobre a iminência da imposição de uma “ditadura comunista”. Os partidos maoístas, como a AOC, o MRPP e outros, sempre ao lado do PS, falavam do PCP e de uma ditadura “social-fascista”.

Em pano de fundo, entre Julho e Setembro de 74, a onda de assaltos e incêndios, pela rede terrorista, a sedes sindicais e centros de trabalho de partidos de esquerda causava destruições e mortes. Em articulação com caciques locais e párocos ultramontanos, a participação de pides e legionários, de ex-colonos inconformados, de um certo lúmpen que sempre desponta nestas ocasiões, o grupo Maria de Fonte e suas conexões no terreno simulavam um levantamento popular. Não era, mas fazia por parecer, tal a sua pujança, e era o que interessava no momento.

Atente-se que a rede bombista esteve operacional entre Maio de 75 e Abril de 77, tendo alguns dos principais autores morais e materiais dos atentados sido presos em Agosto de 76 pela Directoria do Porto da Polícia Judiciária. Apesar dos esforços da PJ, poucos foram os presos e menos os condenados.

Estava encontrado o alvo para onde convergiam os ataques caluniosos, por vezes infamantes, do PS de Soares e seus aliados. A popularidade de Vasco Gonçalves era inegável entre os trabalhadores, chegava longe nas camadas intermédias, e era esse para a direita o maior perigo. Do seu discurso transparecia coerência, determinação, honestidade, patriotismo. Era vital, por isso, afastá-lo quanto antes de qualquer responsabilidade de governo.

Por outro lado, em comícios, discursos, em panfletos assinados ou anónimos, agitava-se em tom alarmista a iminência duma ditadura comunista. Pouco interessava a falta de verosimilhança, a ausência de quaisquer indícios de tal cometimento. O “olhe que não, olhe que não” de Cunhal no debate televisivo com Soares, ficou célebre. O que interessava era fazer e repetir a acusação, incessantemente, levantar a suspeição, para obter um efeito.

Ao mesmo tempo, começavam as alusões a uma suposta “comuna de Lisboa”, efabulação muito útil para os urdidores do golpe de 25 de Novembro.

Antes de prosseguir, uma observação:

Uma das constantes no discurso da direita civil e militar era o imperativo de restaurar a ordem e a disciplina nas Forças Armadas. Referiam a presença de militares fardados em manifestações, a erupção dos SUV, ou diversos actos da 5ªDivisão, para citar alguns exemplos. Mas indisciplina foi também a decisão dos Comandantes de algumas Unidades da Região Militar Norte de recusar o Comando do Brigadeiro Corvacho e se terem ido colocar sob as ordens do Comandante da Região Militar Centro; indisciplina foi o modo como o Documento dos Nove foi posto a circular e colocado a sufrágio directo dos militares em serviço nas Unidades da Região Militar Norte; indisciplina foi a recusa dos oficiais designados para cumprir as ordens que teriam evitado o assalto à Embaixada de Espanha. Parece que, no discurso hegemónico que a direita impôs, nuns casos a indisciplina era ilegítima, noutros casos era legítima.

Ao tomar posição em defesa de Vasco Gonçalves, Primeiro-ministro e, a partir de 25 de Julho, membro do Directório, criado pela Assembleia do MFA, a 5ª Divisão ligou o seu futuro ao resultado da luta em curso no campo militar. Mais que as queixas avulsas sobre as Campanhas de Dinamização, ou as declarações de apoio ao Documento-Guia da Aliança Povo-MFA, ou ao “Poder Popular”, ou ao documento intitulado “Auto-crítica do COPCON”, ou a crítica ao discurso de Soares no comício da Fonte Luminosa, que geraram hostilidade e polémica, o que concitou as iras da direita, de seus aliados de ocasião, ditos “moderados” e de Otelo e seus próximos, foi a campanha de apoio a Vasco Gonçalves, largamente difundida e com grande impacto público, de que foram expressão o conhecido cartaz de João Abel Manta e a canção “Força, força, Companheiro Vasco, nós seremos a muralha de aço”.

Uma primeira tentativa para calar a 5ª Divisão surgiu, mas não passou, na Assembleia do Exército, a 24 de Julho.

Mas a 25 de Agosto o CR decidiu suspender as actividades da 5ªDivisão. Foi de imediato impedida uma reunião no Centro de Sociologia Militar, presidida pelo Chefe da Divisão, Capitão de Mar e Guerra Ramiro Correia, e ordenada, apenas 12 horas depois, uma operação militar pelo Comandante do COPCON, Otelo Saraiva de Carvalho, de ocupação das instalações, executada pelo Regimento de Comandos. Esperava-se, naturalmente, o cumprimento da ordem mas não como foi feito, com brutalidade e destruição de precioso património.

Depois do golpe de mão, foi nomeado para reestruturar a 5ª Divisão o Coronel Abreu Riscado, tendo como assessores o Tenente-coronel Ramalho Eanes e os Majores Pimentel e Loureiro dos Santos. A CODICE manteve-se em funções até à sua extinção, em 26 de Novembro. Uma última campanha ficou ainda a operar no Distrito de Viseu até Maio de 76.O mesmo Coronel Riscado ficou a chefiar a Comissão Liquidatária.

Assim chegou ao fim a 5ª Divisão. Não fosse a publicação do “Livro Branco” e da obra do Comandante Manuel Begonha “5ª Divisão – revolução e cultura”, e de outros raros testemunhos, apagada ficaria a memória da sua rica, diversificada e meritória actividade, a não ser nas palavras de quem mais a hostilizou. Não que não tenha cometido erros e excessos, mas nada justifica que tenha sido encerrada de forma agressiva e traiçoeira, mandada queimar vasta e preciosa documentação, como se tivesse voltado o tempo dos autos de fé.

O período de mais intensa actividade foi de Setembro de 74 até Agosto de 75. Oito Campanhas de Dinamização Cultural, cobrindo quase todo o País, com mais de 10 mil iniciativas, como assinalou o Coronel Aranda da Silva, 25 edições do Boletim do MFA, intervenção permanente nos meios de comunicação social, rádio, televisão, imprensa escrita. De salientar a dinamização cultural no âmbito do apoio artístico, nas artes plásticas e gráficas, teatro e fantoches, música, dança, canto, cinema, circo, apoio literário. Memorável a criação do Movimento Democrático dos Artistas Plásticos, e a produção de cartazes e pinturas murais, como a pintura colectiva, por 48 artistas, de um painel, logo em 10 de Junho de 74. Um lema ficou, do pintor Vespeira: “Revolução aberta, arte liberta”.


Há um texto notável do Chefe da Divisão, Comandante Ramiro Correia, que ajuda a compreender o espírito da missão:

“A tragédia do nosso tempo não é a de todos os tempos. Logo é preciso nomear o tempo. E é o corpo que nomeia o tempo. É o povo que nomeia o tempo. Portugal.1975.Revolução.

A arte não deve estar ao serviço da Revolução.

A arte é, em si própria, Revolução.

E se a arte é, em si própria, Revolução, que lugar existe para dirigismos em Arte?

Onde está o escritor, o escultor, o pintor, o cineasta, que se viu, neste País, impedido de trabalhar a sua obra devido a monolitismos culturais do MFA ou dos organismos governamentais?

Os revolucionários têm medo da Arte?

Mas não é o fenómeno artístico uma contínua procura, uma incessante transformação do mundo?

Não contribui a Arte, essencialmente, para uma nova ordem de valores na sociedade?

Nós, os militares, ao longo do tempo trágico da guerra colonial, encontrámos, nos nossos músicos, escritores, pintores, actores, operários e camponeses, a força e a esperança de uma Pátria de suor e de justiça.

Esse tempo é passado.

É preciso nomear o tempo.

Estamos em Portugal. Em 1975.

Empenhados numa Revolução que pretende construir uma sociedade livre, socialista.

Ultrapassaremos as dificuldades. Corrigiremos os nossos erros. Participaremos na nomeação do tempo. Seremos o corpo da Revolução.

A Revolução viverá!”

As Campanhas de Dinamização transcenderam em muito o âmbito cultural. Ouçamos o Comandante Manuel Begonha, um dos militares que ficaram depois de Agosto até Novembro de 75, e nesse período tentaram ainda prosseguir a sua actividade:

Recuperando espaços sem utilidade…”criaram-se creches, parques infantis, demonstrando-se que são inúmeros os caminhos que se abrem à força de vontade colectiva. Deste facto são exemplo acções como as das comissões de moradores, comissões de aldeia, de bairro, autarquias locais, associações recreativas, dinamizando a abertura de estradas, caminhos, o saneamento básico, o lançamento de pontes, a electrificação rural, a criação de carreiras de camionetas, a abertura de escolas, o levantamento de centros culturais, postos de assistência médica e vacinação, criando centros regionais de emprego e colaborando com os vários organismos estatais”.

Podemos hoje dizer, 50 anos depois, que foram estes os tempos heróicos da Revolução, que o discurso hegemónico da direita e seus aliados de ocasião procurou apagar ou desvalorizar. O tempo do Serviço Cívico Estudantil, do Serviço Médico à Periferia, do SAAL e do CRUARB na habitação, o tempo em que os direitos cívicos e sociais foram conquistados pela luta e inscritos na Constituição, naquele escasso tempo, dois anos apenas, entre Abril de 74 e Abril de 76, em que o povo foi sujeito da História.

Podemos dizer, a terminar, que certamente num tempo disruptivo houve erros e incompreensões, num tempo de necessária e natural radicalidade houve radicalismos nocivos, mas o que é essencial sublinhar é que nunca as Forças Armadas estiveram tão próximas do povo a que pertenciam. Nos meios urbanos ou nos lugares mais distantes, o corpo militar não vinha para ordenar mas para dialogar, não vinha para reprimir mas para ajudar, não vinha armado de violência mas com palavras de paz. Construía-se a democracia, cumpria-se a Revolução.

Jorge Sarabando

Bibliografia principal:

“Varela Gomes”, de António Louçã, Parsifal, Lx 2016

“Revolução e Contra-Revolução em Portugal (1974-1975)”, de Armando Cerqueira, Parsifal, Lx 2015

“O Novembro que Abril não merecia”, de António Avelãs Nunes, ACR, Lx 2022

“5ª Divisão MFA – revolução e cultura”, de Manuel Begonha, Colibri, Lx 2015

“Crónicas de um insubmisso”, de Duran Clemente, Modocromia, 2024

“Vasco Gonçalves – um General na Revolução”, de Manuela Cruzeiro, Notícias, Lx 2002

“Costa Gomes – o último Marechal”, de Manuela Cruzeiro, Notícias, Lx 1998

“A verdade e a mentira na Revolução de Abril”, de Álvaro Cunhal, Avante, Lx 1999

“Alpoim Calvão honra e dever”, de vários, Caminhos Romanos, Porto 2012

“Dossier terrorismo”, Avante, Lx 1977

“A resistência”, de José Gomes Mota, Expresso, Lx 1976

https://www.facebook.com/rui.vazpinto.1


terça-feira, 14 de abril de 2020

Jorge Sarabando - “Uma bomba a iluminar a noite do Marão”

Em tempos de confinamento, um livro que nos ajuda


“É a memória que nos constrói, como cidadãos livres numa democracia plena.”

Uma bomba a iluminar a noite do Marão”
(Edições Afrontamento, Porto)

 Jorge Sarabando
Há 44 anos, um atentado bombista matou dois jovens transmontanos na flor da vida: Maximino de Sousa e Maria de Lurdes Correia. Foram vítimas do ódio político. O Padre Max, assim conhecido na comunidade, era tido como um Padre com ideias comunistas, e a Maria de Lurdes era uma jovem estudante, alegre e espontânea, a quem dera boleia.

Tratou-se de um crime político, planeado e executado por um comando da rede terrorista da extrema-direita, com apoios locais, que aconteceu numa fase já declinante do processo revolucionário, justamente em 2 de Abril de 1976, dia em que o Presidente da República, General Francisco da Costa Gomes, promulgou a Constituição, no momento seguinte à sua votação final.

O golpe de 25 de Novembro acabou com a fase mais criadora da Revolução. O Governo e a Assembleia Constituinte continuaram em funções, mas havia forças que pensavam poder ainda reverter o curso da História. O período entre Novembro de 75 e Abril de 76 foi dos mais violentos e mortíferos, tendo sido cometidos 97 atentados bombistas. Lembro o assassínio a tiro, na própria noite de 25 de Novembro, do operário vidreiro e sindicalista António Almeida e Silva, numa rua do Porto, a morte de Rosinda Teixeira, em Santo Tirso, de duas pessoas da Embaixada de Cuba, de um cidadão junto do CT Vitória, do PCP, em Lisboa, vítimas de explosões, sem esquecer, noutro quadro, a morte, por disparos da GNR, de quatro pessoas, numa pequena multidão que se manifestava pacificamente, no final do ano, junto à cadeia de Custóias, onde estavam detidos militares de esquerda, acusados de envolvimento no 25 de Novembro. Foi nessa época que ocorreu o atentado bombista na Câmara Municipal de Vila Real, que por pouco não atingiu o Presidente da Comissão Administrativa, Rogério Fernandes, conhecido militante do PCP e amigo do Padre Max. Foi na mesma altura que uma bomba destruiu o carro do médico de Chaves Maximino Cunha. O crime infame que vitimou o Padre Max e a estudante Maria de Lurdes não foi um caso isolado. 

Um dos méritos do livro de Daniela Costa é o de mostrar o outro lado da História, para além dos números, dos factos e da sua interpretação. São as pessoas, os seus sonhos, as vivências, as emoções, os desejos, os conflitos, o sofrimento, o enfrentamento de interesses, o entorno social, o caldeio de lutas, a miséria moral e a grandeza humana, os acasos e as causas, o encanto e o desencanto, a sordidez dos actos e a beleza da vida, a inquietação, a magia, o mistério, o egotismo e a generosidade e o amor em dádiva, tudo isto, e muito mais do que isto, flui na leitura de um texto que transcende o tempo e o lugar.

Outro mérito advém do modelo narrativo. A voz da autora desdobra-se em outras vozes, todas elas com densidade própria, coloração, respiração, e uma autenticidade que nos transporta às fragas do Marão e às lonjuras, ao cheiro da terra, e aos socalcos do Douro, lá onde a mão humana esculpiu a paisagem. Uma escrita com rara mestria que permitiria mesmo uma expressão cénica pois, uma a uma, em diferentes registos, como que se apresentam num proscénio.

Logo de início uma primeira figura, antecedendo as demais, assim fala: “Os meus dedos grossos de trabalho e velhice arranham-me as maçãs do rosto de cada vez que enxugo estas lágrimas que não me deixam”. E com isto se anuncia o dramatismo da acção.

Em outras falas se cruzam palavras como sonho, fuga, liberdade, que lembram aquele verso de Torga “ grandes serras paradas à espera de movimento”. E com isto se define a essência de uma contradição: a fixidez, a imobilidade do que está, e a mudança a que se aspira.

Outra figura diz detestar um quadro torto e uma sala desarrumada. E com isto revela a fonte do desajustamento que o incomoda: não é a desordem das coisas mas sim a desordem das pessoas que não aceitam a perpetuação das desigualdades.

As figuras sucedem-se cada uma com o seu testemunho. Sempre ausentes e sempre presentes lá estão o Padre Max e a Maria de Lurdes através das palavras de quem os conheceu, e amou ou odiou.

Lá vem aquela suposta avó, mulher do campo digna, honesta, carinhosa, a quem os filhos emigrantes permitiram uma vida melhor na cidade, e que tanto estimava o seu hóspede Padre Maximino.

Lá vêm os colegas da Lurdes e alunos do Padre Max, a quem este apoiava com aulas gratuitas para poderem prosseguir os estudos.

Lá vêm os sacerdotes amigos de Max, um mais compreensivo, outro mais distante.

Lá vem o prelado com suas blandícias, espelhando as contradições da Igreja.

E o cacique de direita e suas más companhias.

E o grande proprietário do Douro a quem um dia as trabalhadoras reclamaram o justo pagamento.

E uma colega que juntava a altura da sua condição social à baixeza dos seus sentimentos.

E o filho família, de raiva exposta e verbo radical, um tanto aventureiro.

E o activista sindical da UDP que lutava na empresa por melhores salários.

E gente da rede terrorista e dos interesses de classe que serviam.

E o advogado, corajoso e persistente, que não deixou cair o caso na obscuridade.

E personagens luminosas, por ideais e afectos, e outras sombrias, pela trama de ódios e violências.

Uma a uma chegam ao proscénio e falam, os discursos não se cruzam mas vão construindo um quadro. Os percursos pessoais, as relações humanas, onde não falta um enredo amoroso e, em fundo, o eco de lutas sociais, pela devolução dos baldios aos povos, pela justa paga do trabalho nas vindimas e na apanha da azeitona, ou em torno da Gestão da Casa do Douro.

Foi a época das grandes manifestações, como a que foi organizada pela Igreja, com pretexto no caso da Rádio Renascença, mas que, talvez por diligências do PCP, designadamente junto do Bispo, e um Apelo dirigido aos cristãos de Vila Real, não causou violências, como, entre outras cidades, aconteceu em Braga, onde o Centro de Trabalho foi destruído.

Ou a manifestação em Lame

go contra os militares do MFA da Comissão de Gestão da Casa do Douro. “Nem Cunhal nem Pardal” era o grito de guerra de uma multidão arrebanhada pelos caciques e que chegou à Assembleia Constituinte pela voz de um deputado da região.

Cenas da luta de classes em Trás-os-Montes, dir-se-á. O livro de Daniela Costa é isto, mas é muito mais do que isto, porque tem o dom da boa literatura: desde início a leitura nos prende e logo nos transporta e nos situa num outro mundo, e nos coloca dentro de uma história, como se tivéssemos também conhecido e convivido com o Padre Max, um jovem bom, generoso, um cristão convicto, um homem de fé.

Falámos das vítimas, falemos agora da rede terrorista a que já nos referimos, responsável por 566 actos violentos, entre Maio de 75 e Abril de 77, entre os quais 310 atentados bombistas e 194 incêndios e assaltos, tendo como alvo forças de esquerda e o movimento sindical.

Quem a constituía? O ELP, o MDLP, a rede Maria da Fonte e outras organizações congéneres, que tinham como base logística a Espanha franquista, onde actuavam com nomes de fachada como a empresa Tecnomotor ou a Fundação Nossa Senhora de Fátima. Uma das melhores fontes para conhecer este mundo sórdido é o livro de Maria José Tíscar “A contra-revolução no 25 de Abril” (edições Colibri).

Quem a dirigia? Inicialmente antigos dirigentes da PIDE como Barbieri Cardoso e Cunha Passo, ou o inspector Meneses Aguiar ou o legionário Rebordão Esteves Pinto, a que se juntou depois a corte spinolista que fugiu para Espanha, após o golpe falhado de 11 de Março.

Quem eram os efectivos? Antigos agentes da PIDE e legionários, alguns colonos inconformados, mercenários, fascistas convictos, gente a mando dos caciques, um certo lumpen de fácil recrutamento.

Quem os financiava? Banqueiros e grandes empresários que nunca aceitaram o 25 de Abril e muito menos o rumo socialista que tomou e veio a ser consagrado na Constituição, além de conhecidas agências de países da NATO.

Os crimes foram punidos? As primeiras prisões são do verão de 76, efectuadas pela Directoria do Porto da Polícia Judiciária, mas poucos foram os autores morais e materiais presos e menos os condenados. Em geral beneficiaram de uma teia de cumplicidades que lhes permitiu encontrar boas soluções de vida, e alguns vieram até a ser distinguidos pelo poder político emergente.

Houve mesmo quem publicasse livros em que se gaba dos seus feitos. Foi o caso de um tal Manuel Gaspar, de quem o jornalista Ricardo Saavedra escreveu as memórias (O Puto, edições Quetzal). Depois de ter participado no golpe racista de 7 de Setembro de 74 em Moçambique, donde era natural, e na marcha até Luanda com as forças sul-africanas que tentavam impedir a independência de Angola em 11 de Novembro, sob a direcção do MPLA, desembarcou em Portugal, onde logo entrou ao serviço da rede terrorista. É um dos participantes confessos no assassínio do Padre Max e da Maria de Lurdes que, nas pgs, 337 a 340, descreve com detalhe. É um relato impregnado de cinismo onde defende, como é habitual nestes casos, que a intenção não era matar mas apenas assustar. Começa, com certo gáudio, a descrever a cena em que “à hora certa”…”lá vinha Maria de Lurdes, toda fresca e radiante nos seus dezoito ou dezanove anos”, para terminar explicando as mortes: “Só que o destino do casal, infelizmente, estava traçado, e contra o destino não há planos que resistam”. Por curiosidade se acrescenta que o indivíduo esteve preso em Alcoentre, por outras acusações, donde fugiu passado pouco tempo.

No mesmo livro se transcreve um artigo do jornal fascista A Rua, de 8 de Junho de 77, onde se fazia a afirmação de que a Maria de Lurdes estava “grávida de 3 meses”, que ficou provado, mais tarde, ser uma abjecta calúnia.

O fascismo não é coisa do passado, está de regresso e em força. Há uma direita tradicional, que se move no campo democrático, que tem da violência fascista uma visão instrumental pelo que possa ser útil para os seus interesses de classe. Tende a contemporizar ou condescender porque teme, acima de tudo, o ascenso revolucionário que a crise do capitalismo possa gerar nas classes trabalhadoras. A grande burguesia, a alta finança, têm com as organizações fascistas laços de cumplicidade e mesmo vínculos orgânicos, muito resguardados. Como aconteceu nos anos 20 e 30 com os resultados conhecidos. Como aconteceu em Portugal nos anos da Revolução. Como hoje vai acontecendo na Europa ou no continente americano.

O livro de Daniela Costa, para além do valor literário que tem, é um contributo mais para conhecer a revolução e a contra-revolução no Portugal de Abril.

É a memória que nos constrói, como cidadãos livres numa democracia plena.

Jorge Sarabando
Abril de 2020
Via: as palavras são armas