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quarta-feira, 16 de dezembro de 2020

Clara Ferreira Alves- A FOTOGRAFIA DE JOHN LE CARRÉ

* Clara Ferreira Alves 
PLUMA CAPRICHOSA

ERA UM GENIAL CONTADOR DE HISTÓRIAS, UM MÍMICO RESPEITÁVEL, CÓMICO E SÉRIO AO MESMO TEMPO. IMITAVA AS VOZES, OS MANEIRISMOS, ERA A MELHOR COMPANHIA QUE SE PODIA DESEJAR

O homem era muito alto. Bati com suavidade à porta, ele entreabriu, e pela fenda consegui dizer “sou jornalista, Expresso, venho para a entrevista”. O homem respondeu, agora não vou dar entrevista. Neste momento não. Insisti. Estava a ler e não ia interromper a leitura para falar comigo. Tudo dito com polidez glacial, naquele tom das classes educadas da Inglaterra. A fenda da porta alargou, ligeiramente. Conseguia agora ver a cara, fechada e sem um sorriso, com um sobrolho levantado. Percebido, lá se ia a oportunidade de falar com John le Carré. Perdido por cem perdido por mil, perguntei com insolência o que ele estava a ler que não podia ser interrompido. A porta abriu um pouco mais, deixando ver uma figura alta, com uma madeixa de cabelo de cor indefinida, louro branco, sobre a testa. Respondeu que era Flaubert, “Madame Bovary”. Aí eu não resisti e disse, adoro esse romance, já o li tantas vezes. E ele, eu também, quantas? Nove vezes. E dissemos os dois ao mesmo tempo, nove vezes. Nine times. Com esta declaração que parecia cronometrada, a porta abriu-se completamente. O escritor, admirado com a coincidência, continuou a falar de Flaubert, a atenção ao pormenor, discutimos ainda uma comparação com Tchekov, o modo como ambos conseguiam caracterizar uma personagem através do que a rodeava ou do estado da luz, ou das observações sobre a paisagem. E assim consegui a entrevista de David John Moore Cornwell. Aliás, John le Carré.

Estava em Lisboa para fazer pesquisa sobre “A Casa da Rússia”, e Mário Soares convidou-o para almoçar em Belém. Deu uma entrevista, aquela, naquele tempo não dava entrevistas. Estava em exílio voluntário de quaisquer comunicações com a imprensa, detestava o meio literário londrino e considerava certa condescendência da crítica perante a obra um pecado original da mediocridade. As recensões aos livros e a frase repetida de que era um escritor de romances de espionagem que queria ser levado a sério deixavam-no mortificado. Tinha publicado “Um Espião Perfeito”, o livro que Philip Roth considerou o melhor romance inglês do pós-guerra. Tinha publicado “O Espião que Saiu do Frio” e “Tinker Tailor Soldier Spy”, o primeiro volume da trilogia “The Quest for Karla”, juntamente com “The Honourable Schoolboy” e “A Gente de Smiley”. A trilogia é um monumento literário. Antes das pressões de marketing dos grupos editoriais, os escritores davam raras entrevistas e Le Carré era uma estrela da literatura, com os livros adaptados ao cinema e televisão.

Abriu o minibar e perguntou se queria um whisky, uma garrafinha anã. Bebemos os dois, cada uma com a sua garrafinha, no quarto do Ritz, um quarto com duas camas. Nada de suítes presidenciais. O fotógrafo chegou, o António Pedro Ferreira, e fotografou no final da entrevista. Não foi o princípio de uma bela amizade, mas enquanto esteve em Lisboa voltámos a falar, queria saber coisas sobre o país, a capital pós-imperial que iria ser parte do livro que estava a escrever.

A entrevista saiu na Revista, com uma bela fotografia na capa, um primeiríssimo plano da cara. De Lisboa, o escritor seguiu para Moscovo. Quando regressou a Londres, viu a entrevista, traduzida, suponho que pela gente da agência dele. Gostou, e gostou da fotografia.

Tempos depois, recebi uma carta da agência, solicitando a fotografia para a contracapa da edição original de “A Casa da Rússia”, “The Russia House”. A agência pagaria o que pedíssemos, e a fotografia seria assinada. Uma oportunidade de ouro, visto que só os grandes fotógrafos tinham fotografado Le Carré, um escritor que sempre cuidou da pose e que respeitava a imagem e a estética da representação, e não resistia a aparecer em cameo nos filmes. Os fotógrafos idolatravam-no. Anton Corbijn, que melhor o capturou, acabaria a filmar “O Homem Mais Procurado”, uma fiel adaptação das luzes e sombras do universo Le Carré.

Provavelmente, a fotografia da edição inglesa seria a da edição americana. Num alvoroço, entreguei o pedido ao António Pedro Ferreira, para que respondesse logo, combinando o modo de fazer chegar o negativo ou o slide, não me lembro. Não voltei a receber correspondência da agência, o livro ia ser publicado. E foi. Sem a fotografia portuguesa. O fotógrafo era Terry O’Neill, um retrato estudado, como tantos que faria do escritor. Foi um dos seus retratistas favoritos. Um grande plano da cara, ocupando a contracapa. Terry O’Neill estava casado com Faye Dunaway nessa altura, e era um dos nomes grandes da fotografia. O que aconteceu?

O António Pedro Ferreira nunca respondeu à agência, porque a fotografia se tinha estragado na gráfica. Estava riscada. A única coisa que me disse, ao princípio, foi que oferecia a fotografia, antes de saber que estava danificada. As gráficas não tinham cuidado. Embaraçado, o meu amigo fotógrafo deixou o silêncio falar. Perguntei se não deveriam ter sobrado fotografias, tão boas como aquela. O A. P. F., que eu escolhera para o trabalho de fotografar Le Carré, manteve teimosamente que era aquela ou nenhuma. E aquela não podia ter sido.

E assim dei por mim a escrever uma longa carta a Le Carré pedindo desculpas, explicando o imbróglio, a gráfica, a teimosia do fotógrafo e sobretudo a ausência de uma resposta da nossa parte. Nem uma linha na volta do correio. Quando o livro já tinha sido publicado, com a assinatura de Terry O’Neill, tive uma sessão de descompostura com o A. P. F. Voltei a escrever, para dizer o que pensava sobre o livro, quando já se filmava a versão com Sean Connery e Michelle Pfeiffer. Recebo meia dúzia de linhas datilografadas, polidas, agradecendo o interesse e as palavras. Fim de comunicação. “David Cornwell, call me David”, dissera ele em Lisboa, ficara irritado? Nunca saberei.

Voltei a ver John le Carré muitos anos depois, na Cornualha, perto de Penzance, onde ele vivia à beira-mar, em Land’s End. No fim da terra. Passava em Londres apenas o tempo suficiente para tratar de assuntos, nunca mais de dez dias. Um amigo meu era amigo de um amigo dele. Fomos todos a um pub, num dia de chuva miudinha e rançosa, beber e conversar. O escritor estava mais velho. E, se possível, mais famoso. Falámos de Lisboa, da melancolia da cidade, da luz, dos pormenores gravados na imaginação. E falámos do Médio Oriente, onde passámos tempo suficiente. Era um genial contador de histórias, um mímico respeitável, cómico e sério ao mesmo tempo. Imitava as vozes, os maneirismos, era a melhor companhia que se podia desejar. O Alec Guinness (Smiley, na versão da BBC) era perfeito. Conhecia meio mundo, e era conhecido no mundo inteiro. Tinha uma vida internacional, viajada, e tinha uma vida monástica, disciplinada, para poder escrever. Todas as tardes, dava uma caminhada. O resto do tempo, escrevia. Continuava a gostar de whisky e a bebê-lo.

Terry O’Neill continuou a fotografá-lo, mas não é um dos cinco autores dos cinco retratos de John le Carré na National Portrait Gallery. Cinco. O homem tornou-se um tesouro nacional. Um dos retratos é de Lord Snowdon, que foi casado com a princesa Margaret. Numa das sessões de fotografia, a primeira, Lord Snowdon perguntou-lhe se podiam passar a nomes próprios, sem títulos. Claro, respondeu David Cornwell. Você tem mais a perder do que eu.

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A fotografia de John le Carré

18.12.2020

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Óscar Lopes - Todos os amores são de perdição

13.11.2018 às 8h00

Na primavera de 1955, Óscar Lopes, preso nos calabouços da PIDE no Porto, escreveu uma carta/ensaio de amor agora revelada
ANTÓNIO PEDRO FERREIRA
Carta/ensaio de amor escrita há 63 anos por Óscar Lopes quando estava preso nos calabouços da PIDE no Porto, encontrada agora no meio de papéis do espólio do professor e ensaísta, revela uma intensa digressão filosófica sobre o conceito de amor

texto
foto

De Óscar Lopes há ainda uma imensa história por contar, radicada, por exemplo, na escassa poesia publicada pelo professor e ensaísta (1917-2013) e na muita poesia que se lhe adivinha em todo o seu percurso de intelectual empenhado, marcado por um grande fascínio pelo saber científico, pelas matemáticas, pela linguística ou pela literatura. O seu espólio continua a ser estudado e descoberto. Pelo meio aparecem preciosidades, como a carta/ensaio de amor que se supõe ter sido escrita na primavera de 1955. Estava então preso nos calabouços da PIDE no Porto e supõe-se que terá sido dirigida a sua mulher, Maria Helena Madeira. Mesmo se, em rigor, pode ser vista como uma carta de um amor imenso, intenso, dirigido à mulher como ser global.
Descoberta por Manuela Espírito Santo, autora de “Retrato de Rosto”, a fotobiografia de Óscar Lopes publicada no final do ano passado, a carta deambulava, sem rumo, sem data, local ou destinatário, numa torrente de papéis constituída por notas de apoio às aulas, fichas de leitura, correspondência, manuscritos e tudo o mais que preenche o acervo do professor. A única referência ao ensaio de amor até agora encontrada deve-se a Eduardo Prado Coelho, numa carta datada de 2 de maio, muito provavelmente escrita na década de 1960.

Reprodução de uma das folhas datilografadas do texto de Óscar Lopes
“Dantes o espaço não tinha um centro. Ganhou-o agora; um olhar, um remoinho de coisas inapreensíveis a que chamo tu. Mas é um centro inquieto. És tu, ou talvez antes, qualquer coisa que só alcanço por ti. É, sob essa voz estridente de desespero e disfarce, uma outra voz inaudível mas infinitamente certa. É, sob esses gestos de fuga e atordoamento, o medo que para ti represento, um medo afinal ao encontro, ao impossível encontro de dois mundos condenados à incoincidência”.
Começa assim uma carta que, poucas linhas abaixo, proclama: “Sabemos que o amor é sempre de perdição por essência, que nunca o podemos medir com a vida; sobra sempre aquele resto que tanto dói e nos revolta sem causa. E a impossibilidade moral de comunhão física entre ambos dá-nos, por isso, ao menos, a imensa e difícil alegria trágica de viver a incomensurabilidade do amor, sem ser preciso romanceá-lo. Não confundimos a tragédia de essência com as fórmulas romanescas; o monte dos vendavais está-nos no sangue”.
À sensação de totalidade junta-se a noção de perda, porque àquela a quem se dirige (“Tu és o tu que digo a tudo o que tenho amado”), não pode deixar de oferecer palavras intensas como estas: “Amo-te como se tem um enorme desgosto.”
Pouco depois, acrescenta: “Quero-te porque existes, porque não posso enganar-me, que eu amo como só se pode amar com a certeza de estar certo; mas tudo o que tem valor neste mundo é filho de um amor de suor e agonia, sobre a cama de todo um infinito a separar-nos, e a ligar-nos por isso mesmo”.

Óscar Lopes junto da sua biblioteca
A intensidade do amor plasma-se numa constatação: “Amei sempre em tudo, e em qualquer corpo, o teu sorriso em mim já tão antigo.” Ciente de que “vivemos num mundo feito para deuses, mas não somos deuses”, Óscar Lopes prossegue: “Tu és hoje para mim o verso, a frase, a certeza fixada, a evidência da nossa divindade humana e real, pulverizada em tantos instantes a reaver. És o alfabeto com que leio a presença real no mundo de tudo o que os mitos prometem sem saber o que dizem.”
Àquele rosto “que dá expressão e sentido a tudo quanto existe”, o autor assegura: “Eu amo, porque te amo (e amo neste meu amar-te) toda esta leva de condenados à morte que temos sido desde as células mais antigas; e quando te beijo sem boca, que é o que faço todos os momentos, quando as minhas mãos se fazem olhar e te poisam levemente no corpo, há a amargura de um fim que é mais do que o nosso; é uma cólera represa a conspirar contra todas as cruzes dos cemitérios.”
Certo de que “não existe o que se chama um amor feliz (seria um contentamento apenas contente)”, parte desta evocação de Camões para a constatação de que “a nossa gloriosa espécie inventou o amor”. Porém, prossegue mais adiante: “tudo o que na terra e no mar nos aturde e delicia de mistério não basta, como imagem, para traduzir esta tão simples, e até imaginária explosão do teu corpo, num rito a que renuncio, mas que, simples amor, se me faz consciência.”
Há um amor absoluto a percorrer aquelas páginas datilografadas onde se escreve: ”Não existo como Adão masculino, porque nunca estarei completo fora de uma identidade contigo que, no entanto, passa pelo meu desejo, portanto pela evidência de seres radicalmente outra como a luva na mão. E não existo como Adão de Eva incluída, porque (ai de nós!) há entre ti e mim, como entre todos os que também dizem eu (e não sei amar como a ti), toda aquela infinita distância tu-eu que muda de sentido para cada um de nós mas subsiste sempre como relação invencível”.
Já muito perto do final da longa carta/ensaio, Óscar Lopes desabafa: “Odeio e estilhaço todos os espelhos em que me veja direta ou inversamente contente, e até em que simplesmente me veja (eu que não existo), na epopeia de uma matéria humanizada cuja eloquência mais viva é hoje a dos seus ritmos.”
A concluir, um apelo: “Ajuda-me a fazer essa alma. E que o teu sorriso tão antigo, sorriso de toda a mãe, irmã, namorada que me resta, me olhe desde essa esperança, a mais inominável e a mais certa, a quem emprestaste o teu rosto.”

A carta com as emendas do professor e ensaísta
A carta foi agora divulgada num opúsculo editado pela Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto, da qual Óscar Lopes foi ativo dirigente. Contém um posfácio de José Manuel Mendes e um prefácio de Lídia Jorge. Aí, a escritora sublinha que o professor e ensaísta “produziu um texto misto, que parece ter sido escrito em estado de êxtase, dirigido não a uma mulher concreta mas a uma mulher total, presente e ausente, passada e futura, amante, amada, filha e mãe, seu destino e sua própria causa, o que significa, e o texto várias vezes o refere, “tratar-se de uma torrente de escrita dirigida à Mulher Total, uma conceção próxima da forma como os neoplatónicos a descreviam e de como os românticos mais evanescentes a concebiam”.


domingo, 8 de maio de 2016

Os fantasmas que escrevem os livros dos famosos

Os fantasmas que escrevem os livros dos famosos
08.05.2016 às 10h00

 

MERCADO. Sara Rodi é uma das ghost-writers mais solicitadas. Para dar vazão às solicitações criou uma empresa de escritores-fantasmas — A Bem Escrito
ANTÓNIO PEDRO FERREIRA
Escrever livros nunca esteve tão na moda. As editoras querem que as vedetas de televisão sejam o rosto dos seus best-sellers. Mas, para isso, muitas vezes são contratados escritores-fantasmas. Revelamos aqui alguns
Bernardo Mendonça
Texto
António Pedro Ferreira
Fotos

Decerto já comentou ou ouviu a frase batida: “Parece impossível. Agora qualquer um escreve um livro!” Essa ideia pode aplicar-se mais do que nunca ao mercado literário português. Basta uma breve olhadela pelos escaparates das livrarias para se dar conta da quantidade de apresentadores de televisão, atores, músicos, jogadores de futebol e treinadores, médicos, nutricionistas, políticos, economistas e tantos outros escritores improváveis que assinam autobiografias, revelam como superaram momentos difíceis de dor ou doença e, nalguns casos, partilham conhecimentos técnicos da sua área.

Estes livros comerciais têm um denominador comum — são assinados por personalidades conhecidas do grande público, que estão num momento particularmente mediático e têm revelações privadas para fazer ou algo a dizer sobre as tendências sociais que estão na berra — seja sobre alimentação saudável, dietas milagrosas ou exercícios que prometem deixá-lo em forma.

Escrever livros nunca esteve tão na moda. E é aqui que o véu se levanta. À parte algumas vocações literárias menos conhecidas, o que talvez não saiba é que grande parte dessas obras são escritas por ghost-writers, ou escritores-fantasmas, pessoas que emprestam a sua pena e o seu talento para que a prosa saia bem e a história seja contada com a qualidade literária necessária e no prazo certo.

Neste pacote estão também incluídos livros de ficção pretensamente escritos por certas vedetas da TV, mas que na verdade são da autoria dos ghosts, invisíveis aos olhos do público. As editoras querem associar um rosto mediático a um título que venda. E todas as partes saem a ganhar. Talvez aqui o leitor seja o único defraudado. Espantado? São as regras do jogo no mercado das editoras.

E como o segredo é a alma do negócio, o nome destes fantasmas da escrita nem aparece na ficha técnica (ou se aparece é de forma discreta na qualidade de ‘colaborador’) para que a ilusão da proximidade do leitor com a figura pública visada não saia beliscada e as vendas sejam um sucesso.

Um dos casos mais famosos da história que foi assombrado por um fantasma da escrita é o do livro “Retratos de Coragem” (originalmente intitulado “Profiles In Courage”), assinado por John F. Kennedy, em 1955. Nele Kennedy apresentou um relato verídico de oito esquecidos atos heroicos levados a cabo por patriotas americanos em diferentes períodos na história dos Estados Unidos. O livro tornou-se de imediato leitura obrigatória, transformou-se num clássico e chegou a ser galardoado com o Prémio Pulitzer, em 1957. Mas como a verdade é como um corpo morto no mar, vem sempre ao de cima, em 2009, Theodore Sorensen, conselheiro do ex-Presidente dos EUA, confessou a alegada autoria da dita obra na autobiografia “Conselheiro” (“Counselor”). Não é caso único mesmo entre a literatura considerada mais séria. São decerto milhares de páginas biográficas e de ficção que foram da autoria desses invisíveis da literatura que os leitores desconhecem.

Polémicas à parte, o mistério e o segredo que rodeiam estes escritores na sombra já inspirou as mais variadas histórias na literatura e no cinema. É o caso de “Budapeste”, de Chico Buarque, que conta a vida de José Costa, um ghost-writer especialista em escrever cartas, artigos e livros para terceiros e, mais recentemente, “O Fantasma”, de Robert Harris, com adaptação para o grande ecrã de Roman Polanski no filme “O Escritor-Fantasma” (2010). Um thriller em redor da vontade de um ex-primeiro ministro britânico em ter um ghost que lhe escreva a biografia. O filme começa com a morte de um ghost-writer — que se suspeita ter sido assassinado — e a urgente necessidade do político em contratar outro para terminar a tarefa.

No mercado anglo-saxónico há muito que estes fantasmas fazem parte da estrutura da máquina editorial. Por cá o mercado também não os dispensa. E, quanto a isso, seguramente há um antes e um depois da publicação da autobiografia “Eu, Carolina”, por Carolina Salgado, editado pela Dom Quixote, em dezembro de 2006. Foi há quase dez anos. Como seria de esperar o livro contou com um ghost. Aliás, dois ghost-writers. Mas já lá vamos.

Era a primeira vez que a sociedade portuguesa lidava com um livro-escândalo daquela natureza com todos os ingredientes dos melhores best-sellers: crime, corrupção, traição, sexo e... redenção. Nele, Carolina Salgado contou sem rodeios pela sua voz os pormenores do seu relacionamento íntimo de seis anos com Jorge Nuno Pinto da Costa, presidente do Futebol Clube do Porto. E pôs a nu os bastidores e os podres do futebol português, o que veio a resultar na reabertura do caso de corrupção ‘Apito Dourado’.
 

MULTIFACETADO João Pedro George é tradutor, escritor, crítico literário e ghost-writer. Está interessado em escrever como ghost um livro de ficção para uma figura pública
ANTÓNIO PEDRO FERREIRA

Logo nas primeiras páginas, Carolina recorda em discurso direto como se apaixonou pelo dirigente numa dança ao som de ‘Brand New Days’, de Sting, no bar de alterne Calor da Noite, onde trabalhava seis madrugadas por semana. E como o dirigente portista passou a ser visita assídua do espaço noturno até iniciarem uma relação. “As nossas mãos transpiravam. As pernas tremiam. Previ que estava a nascer um grande amor e não me enganei. Dançámos três músicas seguidas e a sensação que tinha era de que apenas existíamos nós, não havia ninguém em volta. Fez-me sentir uma verdadeira princesa.” Mas o conto não foi de fadas. Inúmeras acusações de subornos a árbitros que privavam em sua casa, negócios ilícitos, e uma alegada ordem para que Ricardo Bexiga, o então vereador da Câmara Municipal de Gondomar, fosse espancado constam também no livro. O livro foi a galinha dos ovos de ouro da editora, vendeu mais de 120 mil exemplares e abriu noticiários.

Na altura falou-se que Fernanda Freitas, professora de literatura portuguesa e amiga de Carolina, a teria ajudado a escrever o livro. Mas isso é apenas parte da verdade. Fernanda escreveu metade do livro, mas a verdadeira ghost-writer que agarrou no projeto, o editou e escreveu na totalidade com toda a matéria sobre o caso ‘Apito Dourado’ foi a jornalista e cronista Leonor Pinhão. Foi Tereza Coelho, na época editora da D. Quixote, que a contratou para ghost-writer e revisora. A razão para tal mudança foi que a editora queria apressar a sua publicação a tempo do Natal e apenas alguém experiente como Leonor conseguiria, em pouco tempo, transformar o discurso de Carolina numa prosa fluente. Antes, Leonor tratou de fazer desaparecer do primeiro manuscrito que lhe chegara às mãos, ditado por Carolina, alguns pormenores ‘de índole eminentemente pessoal’ que poderiam ser considerados difamatórios e levantar processos desnecessários. Bem como fotografias demasiado privadas. “Em dois ou três fins de semana ouvi a Carolina, tomei notas, fui redigindo. O livro segue a ordem cronológica dos acontecimentos e, nesse outono de 2006, era já do domínio público a investigação da PJ a certos procedimentos de alguns dirigentes do Porto. E já tinham sido até publicadas em jornais algumas escutas que ainda hoje fazem furor.” O que é facto é que foi este livro escrito por dois ghost-writers que voltou a trazer para a barra dos tribunais o caso ‘Apito Dourado’. Leonor ri-se do facto e recorda: “É cómico quando ouço dizer que o livro faz revelações sensacionais sobre o ‘Apito Dourado’. Não fez uma única revelação sobre esse processo ou outro qualquer. Tudo o que veio no livro já tinha sido publicado na imprensa, para defender a editora e a própria Carolina. Se houve reabertura do ‘Apito Dourado’ não foi por causa do conteúdo do livro, mas sim pelo impacto brutal que teve no fim de semana em que foi lançado. Venderam-se milhares. E foi o ruído da opinião pública que obrigou à reabertura do processo.”

Na opinião de Leonor a grande revelação do livro é Carolina assumir que trabalhou num bar de alterne. “É provável que as pessoas já não se lembrem, mas enquanto foi mulher do presidente do FC Porto, Carolina era tratada com a maior deferência pelos jornais e convivia com a classe política e outras personalidades de vulto. Até chegou a ser recebida pelo Papa. Com este livro ela desmascara a hipocrisia da sociedade, e a sua coragem de contar a verdade sem medo de assumir que trabalhara num bar de alterne, apesar das fortes pressões para que não o fizesse, foi para mim de uma enorme grandeza.”

Apesar de o livro ter sido escrito em parte por Leonor, a jornalista não se sente coautora. “O livro é dela, a história é dela, até o título foi dela. Não é meu nem da Fernanda Freitas. Mas às vezes, por brincadeira, gosto de dizer que escrevi meio best-seller, que sempre será melhor do que não escrever nenhum.” A cronista assegura ter ganho apenas mil euros pela tarefa. O que em nada se compara ao mercado americano em que um ghost de um livro de uma figura pública pode enriquecer de um momento para o outro. “Lembro-me de que em 2001 ‘The New York Times’ anunciou que o ghost-writer da autobiografia de Hillary Clinton recebeu meio milhão de dólares só na assinatura do contrato. Aqui praticam-se outros preços porque isto é ínfimo. Foi, isso sim, um extraordinário negócio para a Dom Quixote!”

Nunca mais repetiu a experiência. Diz que gosta mais de ler biografias do que redigi-las. E, se possível, escritas pelo próprio autor. “O ideal, em termos da fidedignidade do biografado e em benefício da literacia, era que todas as pessoas interessadas soubessem escrever as suas próprias biografias. Mas considero que [o ghost-writer] é uma disciplina do ofício da escrita que merece consideração no estrangeiro, mas que é um bocadinho mal vista no nosso país por saloiice. Sempre houve e sempre haverá fantasmas na literatura.”

João Pedro George, 44 anos, autor da biografia de Luiz Pacheco “Puta Que os Pariu!” é da mesma opinião. Ele que é um ghost multifacetado, já foi ‘negro’ de traduções [traduziu livros que aparecem com o nome de outro tradutor], fez revisões de obras, reescreveu livros de outros autores a pedido das editoras e já foi diversas vezes contratado para escrever de raiz autobiografias de famosos.

João Pedro começou nesta área por acaso. Estava um dia a passar pelos corredores da Dom Quixote quando ouviu uma conversa de alguém que precisava dos serviços de um ghost-writer para escrever a biografia de um antigo treinador e jogador de futebol. Ele, como precisava de trabalho, ofereceu-se. O biografado era Octávio Machado, atual dirigente no futebol do Sporting. João Pedro levou três meses a escrever o livro “Vocês Sabem do Que Eu Estou a Falar”, a partir das conversas que teve com o dirigente leonino. Uma obra onde Octávio Machado contou em quase 300 páginas diversas histórias polémicas passadas fora das quatro linhas e que envolveram algumas das personagens principais do futebol português: Carlos Queiroz, Jesualdo Ferreira, Pinto da Costa, além de diversos dirigentes, empresários, jogadores e ex-jogadores. Para escrever essas memórias, João Pedro George teve dez encontros com o ex-treinador para o entrevistar e tomar notas, demorando três meses a concluir o projeto. “Mas já me aconteceu ter de escrever um livro desta natureza num mês. Sou bem mais rápido agora.”

O tradutor e professor universitário encontra uma imagem literária para ilustrar este seu ganha-pão. “O escritor-fantasma é alguém que calça os sapatos da personagem sobre o qual está a escrever. Parafraseando a escritora norte-americana Harper Lee, só conseguimos compreender realmente uma pessoa quando nos metemos na sua pele e caminhamos dentro dela.” Contas feitas de cabeça, afirma ter sido ghost-writer de seis livros. Tanto de mulheres como de homens. “Sou um ghost-writer versátil. Adequo a minha escrita à voz de quem estou a representar. Tanto posso escrever de uma forma mais lamechas se for uma mulher sensível como de uma forma mais dura, sarcástica e contundente se for alguém do desporto”. Fala-nos de vários títulos que escreveu no lugar de figuras conhecidas das revistas do social, mas que por contrato está obrigado ao silêncio na maioria dos casos. Histórias de superação, de coragem, ou num dos casos de defesa da imagem pública do marido. João Pedro diz que normalmente nem à família conta a autoria dos livros sobre os quais anda a escrever como fantasma. “Faz parte das regras de sigilo.” Em média João Pedro ganha por este tipo de trabalho €3500, mais cerca de 1% em royalties sobre as vendas. João Pedro prepara-se para escrever mais duas biografias, uma de uma apresentadora de televisão e outra sobre a mulher de um político. Mas diz que não tem ilusões sobre o sucesso deste tipo de livros. O que falha, diz, é a sinceridade da maioria dos biografados.“Prometem fazer revelações bombásticas mas quando veem o que disseram no papel retiram ou atenuam as declarações para não terem de se chatear. E, claro, os testemunhos acabam frouxos.”

Ainda neste capítulo, o autor do controverso “Couves & Alforrecas” — sobre a obra de Margarida Rebelo Pinto — diz que não se importaria de escrever uma história de ficção enquanto ghost-writer. Ou seja, está disponível para criar uma obra não biográfica prescindindo da assinatura. “Claro que dependeria dos valores envolvidos, porque escrever uma obra de ficção obriga a mais trabalho, mais criatividade e a uma linguagem mais literária. Nesta área sou um mercenário da escrita. Mantenho a ilusão de que com estes trabalhos poderei ganhar dinheiro suficiente para durante um ano dedicar-me exclusivamente aos meus próprios livros ou a fazer as críticas literárias que me interessam.”

Maria João Costa, consultora editorial da Leya, conta que são várias as razões para que uma editora solicite os serviços de um ghost-writer. “Às vezes é por falta de tempo do autor. Outras é falta de técnica ou capacidade para escrever. Nós queremos o livro pronto o mais depressa possível, trabalhamos sobre a atualidade.” Há seis anos escreveu o livro autobiográfico “Aproveitem a Vida”, de António Feio, publicado poucos meses após a morte do ator. “A ideia era eu contratar um ghost para o António Feio, mas ele desafiou-me a que fosse eu própria a escrever a sua história. Não tive como recusar. Entretanto, o António morreu de repente e criou-se uma especulação tal sobre quem estaria a escrever a sua biografia que o meu nome acabou por aparecer na capa como ‘colaboradora’.”

Também Maria João não tem problema em editar livros de ficção com ghost-writers, ao associar a sua autoria a determinadas figuras públicas. “Se eu convidar uma apresentadora de televisão especialmente mediática a escrever um livro de ficção e ela estiver interessada, mas não tiver tempo para o escrever ou — na maior parte dos casos — não tiver capacidade para o fazer, juntamos esse nome que vende a uma boa história pensada para certo tipo de leitores. E a probabilidade do projeto funcionar é enorme. Para as editoras este modelo de negócio é essencial por ser rentável. Hoje em dia até as editoras mais imaculadas editam livros para ganhar dinheiro. Se não existirem livros mais comerciais como é que as editoras apostam em novos autores de qualidade?”
 

FANTASMAS De cima para baixo, no sentido dos ponteiros do relógio, Leonor Pinhão foi uma das duas ghost-writers do livro-escândalo “Eu, Carolina” (foto Vasco Célio/Stills); Maria João Nobre especializou-se em ser ghost de autores que prescrevem dietas; Maria João Vieira acaba de ser escritora-fantasma de uma autobiografia assinada por uma cantora com um passado difícil e rocambolesco
ANTÓNIO PEDRO FERREIRA

Grande parte dos ghost-writers são jornalistas, mas também há tradutores, guionistas e escritores. Há os mais versáteis e os que têm mais jeito para escrever biografias masculinas ou femininas, ou assuntos ligados a dietas, a crianças, ao desporto. Em comum têm o gosto e o treino de através da escrita contarem histórias.

No início de cada processo é a editora que apresenta os autores e os ghosts para ver se há química entre eles e se aceitam trabalhar em conjunto. Por vezes acontece o processo não correr como esperado. “Já troquei de ghosts a meio da escrita de um livro. O autor e o ghost deram-se mal. O autor achava que o ghost estava a ser demasiado intrusivo. Foi um choque de sensibilidades. Um ghost mais pragmático talvez lide pior com alguém mais sensível, com um drama delicado para partilhar”, considera Maria João Costa.

José Prata, editor da Lua de Papel, do grupo Leya, também tem uma história semelhante para contar. O caso de um ghost-writer que se incompatibilizou com o autor. “O processo de escrita de um livro que recorre à colaboração de um ghost implica uma convivência súbita entre o autor e o escritor-fantasma. O que, por vezes, pode não dar certo. Porque o autor pode achar que se expôs demais, que se envolveu, que aquilo foi por caminhos não esperados...”

A grande questão filosófica desta matéria é levantada por José Prata. “Até que ponto a autoria desses livros é beliscada por haver um ghost-writer envolvido? Depende. Quando o imaginário é todo do autor que tem um grande trabalho de monitorização sobre o que o ghost escreve. E quando o ghost é bom e consegue apanhar o espírito da pessoa que assina o livro, diria que o ghost cumpre apenas o papel de tradutor de uma mensagem ou de uma história. Transforma em palavras escritas o saber ou a história de alguém.”

Sara Rodi, 37 anos, é uma das ghost-writers mais experientes no mercado. Das suas mãos já saíram oito livros escritos na sombra, assinados pelas mais variadas figuras públicas. Sara, que também é autora com obra própria, começou o seu percurso pelo guionismo e colaborou em várias telenovelas e séries de televisão. Foi por causa do sucesso da telenovela “O Olhar da Serpente” que um dia Sara e a jornalista Felícia Cabrita (autora da obra) foram desafiadas a adaptar a história para um livro. A experiência foi bem-sucedida e Sara começou a ser desafiada para escrever enquanto escritora-fantasma.

O seu primeiro trabalho como ghost foi a ajudar a médica endocrinologista Isabel do Carmo a criar perguntas que poderiam interessar o público sobre como emagrecer e a editar as respostas que a médica lhe enviava. O livro chamou-se “222 Perguntas e Respostas para Emagrecer e Manter o Peso de Uma Forma Equilibrada”. Isabel do Carmo recorda-se desse apoio que Sara lhe prestou. “Ela foi uma querida, ajudou-me no processo para facilitar a realização do livro.” Nestes últimos dez anos, tantos foram os pedidos para escrever enquanto ghost que Sara achou melhor criar a sua empresa de ghost-writers, a Bem Escrito, onde conta com uma vasta equipa para pesquisa de informação e, nalguns casos, para a escrita de algumas obras. “Na maior parte dos casos são pessoas com um vasto conhecimento técnico, mas que não têm o hábito de escrever para o grande público e eu ajudo-as. Refiro-me a médicos, nutricionistas ou economistas. Os livros não são meus, o saber é todo deles, eu apenas os auxilio na escrita e na edição da informação.”

Mãe de três filhos, Sara tira partido do facto de trabalhar em casa, num escritório localizado no último andar da sua moradia, com uma privilegiada vista para o mar. Autora da nova série familiar da TVI “Massa Fresca”, Sara recorda que o livro mais ousado que escreveu como ghost foi a relatar a vida de uma stripper lisboeta. Para melhor se meter na pele da ‘autora’ chegou a visitar um desses espaços noturnos onde a protagonista se movia. “Desconhecia por completo esse meio e fiquei com uma opinião diferente dos homens. Talvez pior. Soube de fetiches estranhíssimos. Mas deu para perceber melhor a minha ‘autora’. Para quando ela lesse as minhas palavras dissesse ‘ah, realmente parece que fui eu que escrevi isto!’ Quando consigo que a pessoa sinta que o livro é dela é quando sou bem-sucedida.”

Dos meandros dos clubes de strip ao mundo das técnicas de pré e pós-parto, Sara já escreveu de tudo um pouco. E não se importa de no dia da apresentação do livro, os autores tomarem para si a autoria total do livro. “Faz parte. Quem tem um ego muito grande não se dará bem neste trabalho. O meu nome é ruído. Os leitores querem é identificar-se com aquelas pessoas conhecidas.” Refere que na maioria dos casos é a editora que contacta as figuras públicas que estão na berra e arranja quem escreva por elas. “As editoras têm de publicar livros que vendam. As pessoas que mais aparecem na TV vendem mais. É um cruzamento de vontades.” O limite de Sara é escrever histórias de ficção para outros assinarem por ela. “Não conseguiria fazê-lo. Faz-me confusão. Não suportaria ouvir alguém dizer que a história que saiu da minha cabeça é dela. Já me propuseram isso e recusei. Não considero tão honesto.”

Maria João Nobre, 37 anos, com oito livros escritos como ghost, na sua maioria sobre dietas ditadas por nutricionistas, esclarece que na maior parte dos casos o nome dessas dietas é inventado pelas editoras. “Seja a dieta 1,2,3 ou a dos 31 dias é a reprodução de dietas clássicas vendidas como novas e exclusivas para atrair os leitores.”

Foi a prática de mais de vinte anos no jornalismo que ajudou Maria João Vieira, 53 anos, a abraçar a carreira de ghost-writer a par da de guionista de séries e telenovelas. A crise nos jornais fê-la mudar de rumo, mas manteve-se ligada à escrita e às histórias. Umas reais, outras inspiradas na vida que observa. Tal como Sara Rodi, trabalha a partir de casa. A primeira encomenda que recebeu enquanto escritora-fantasma foi contar a história de uma das testemunhas do processo Casa Pia. “A minha preocupação é que o discurso seja claro. Não me preocupo tanto com o estilo ou com metáforas. A grande dificuldade no processo é esclarecer as situações, escavar a história, as pessoas costumam ser algo confusas. E eu tenho de traduzir os relatos para o papel.” Desde essa experiência já escreveu sete títulos, na maioria biografias de famosos. Recebe à volta de €3000 por cada livro, que lhe toma em média dois meses de trabalho. “É um trabalho bem pago. Que consigo conjugar com os meus trabalhos de guionismo. Mas que me obriga a trabalhar quase todos os dias.” A autora e guionista não se importa de ser um fantasma no processo quando escreve as histórias dos outros. “Não faço questão de aparecer na capa. Ser ghost é isso mesmo, não aparecer. Quero é que o meu trabalho saia bem.” Maria João acaba de concluir a biografia de uma cantora da música popular com uma história de vida rocambolesca. Talvez por ser o último que escreveu, escolhe-o como o que lhe deu mais prazer fazer. “Este livro tem todos os ingredientes para ser do agrado do público. É a história de uma mulher que nasceu no seio de uma família completamente disfuncional. Mal passou pela escola, tinha tudo para dar torto — ser alcoólica, drogada, ou prostituta — mas deu a volta ao destino. Tinha um sonho e concretizou-o. E isso é extraordinário e exemplar. “ Palavra de fantasma.

Artigo publicado na edição do EXPRESSO de 30 abril 2016


terça-feira, 15 de março de 2016

O Alentejo segundo Nicolau Breyner

“Antes pobrezinho em Lisboa do que rico em Estocolmo”





(...) Disse-me, a propósito das telenovelas e das exigências das gravações, que não tem vida própria. Esta casa está cheia de vida própria. Família, retratos, cães, uma casa habitada por gente. Para um ator, eu diria que tem muita vida própria. 


Tenho, tenho. Isso era a telenovela. Tenho uma vida que soube construir e defendo-a muito, a família é muito importante para mim. Da parte da minha mãe somos alentejanos há séculos, da parte do meu pai não. Sou um mestiço. O meu pai apaixonou-se pelo Alentejo. Era professor de História e Filosofia e foi abrir um grande colégio no Baixo Alentejo. Ainda eu não era nascido. Foi quando conheceu a minha mãe. Sempre fomos muito de família, embora a família não fosse grande. Tive só uma irmã, que morreu quando era muito pequenina, e só tenho um primo direito vivo. Mas o meu pai, a minha mãe, a minha avó e o meu avô vivemos sempre juntos. Eu sou a segunda geração que não é agricultora. O meu avô, pai da minha mãe, tinha duas herdades. Os Melos depois casaram com uma Breyner, estão em Serpa há 400 anos.


(...)  O Alentejo é uma das raras zonas em Portugal e na Europa que resistiu à predação.
Embora tenha terror de que um dia sucumba e seja vendido a retalho como o Algarve. O estio protege-o. É um santuário. O Alentejo é maior e mais complicado, e os estios são ferozes. Eu adoro calor, não me incomoda. Este tempo de chuva e frio é uma depressão. Antes pobrezinho em Lisboa do que rico em Estocolmo. No Alentejo, a desertificação, sendo péssima, defendeu o Alentejo. Foi o que o manteve perto da sua pureza. O homem é inimigo da terra. É uma praga, estraga tudo aquilo em que mexe. Eu sou muito português e gosto de ser português, acho Lisboa uma cidade fascinante, e sou provinciano. Gosto de cidades pequenas, de bairros... Vivo neste há 30 anos, mudando de casa. Gosto de pessoas que vimos toda a vida e nos falam na rua. Ninguém deixa de se falar na rua, seria uma má-criação. É humano. Não me tirem as coisas de que gosto.


Uma vez disse a um alentejano que, se calhar, tínhamos de encher o Alentejo de turistas chineses. Talvez não fosse boa ideia.
O Alentejo foi um dos últimos sítios a ter lojas chinesas, mas já tem, e Serpa também já tem. Mas eles aprendem a falar português com sotaque alentejano. É divertidíssimo.


Mais três gerações e são alentejanos, passa-lhes o bicho carpinteiro. Vão dormir a sesta...
No filme que fiz com o Jeremy Irons, "Night Train", ele dizia-me: "Vocês dizem tanto mal de Portugal, mas isto é tão bom, pá! É bonito, a comida é ótima, as mulheres são bonitas, as pessoas são boas... É tudo bom, não o estraguem."


O estrago sério começou com o hipermercado à porta das cidades.
É aterrador, o hipermercado e o centro comercial. Odioso. Entrei duas vezes no Colombo. E vou às Amoreiras porque é perto e entro sempre no mesmo sítio e saio depois de fazer o que tenho a fazer. Sou como os burros


Acredita que a crise trará o famoso regresso à terra? Os alentejanos fugiram da terra.
As pessoas estão a regressar à terra, eu vejo isso, e há uma explicação. Neste momento, a agricultura começa a ser um negócio. Há polos de agricultura. Eu tenho terras, mas não cultivo. Com grande pena minha. Como dizia o meu avô, a herdade tinha o tamanho exato para perder dinheiro. A seguir ao 25 de abril, quando começámos a destruir o latifúndio, não percebemos que há um certo tipo de agricultura que só dá em latifúndio. Eu tenho alguns cavalos e cães, mais nada. Tinha porcos e também já acabei com isso, só serve para gastar dinheiro. O sítio é lindíssimo, a serra de Serpa, faz parte do vale do Guadiana, mas é uma terra árida, dura, terra de xisto. É um sítio para estar e perder dinheiro. Até os cães são caros, a ração é cara... Tenho um Rafeiro Alentejano, um cão fabuloso, que é o mesmo que um Serra da Estrela. Na transumância, eles vinham lá de cima com os cães de guarda até ao Alentejo, e quando passava a neve iam para cima e os cães iam ficando. A raça é a mesma. Tenho tudo, Rafeiro Alentejano, Mastins de Bordéus, um Grand Danois... e dois Buldogues Franceses, o "Sr. Pacheco" e a "Sra. D. Maria José", que só dá pelo nome de "Senhora Dona". "Maria José" não dá. Tenho uma fotografia do Grand Danois com o "Sr. Pacheco" dentro da boca. Dão-se todos muito bem. O Grand Danois, o "Jipe" - tem este nome porque é um monstro de 78 quilos -, passou muito tempo no Alentejo e tornou-se um predador, de vez em quando matava umas cabras e comia-as.


E o porco preto? Como é que se perde dinheiro com o porco preto?
Porque eu não sei ganhar dinheiro com nada. Na minha profissão, ganho porque me pagam um ordenado. O negócio comigo não funciona.

(...)

http://expresso.sapo.pt/cultura/2016-03-14-Antes-pobrezinho-em-Lisboa-do-que-rico-em-Estocolmo

terça-feira, 16 de março de 2010

Literatura no Diário de Notícias - José Eduardo Águalusa



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