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sábado, 23 de dezembro de 2023

José Pacheco Pereira - O que aprendemos no nosso gabinete de curiosidades

 OPINIÃO

Nós sabemos coisas que ninguém sabe, e isto pode parecer arrogância, mas não é.

José Pacheco Pereira

23 de Dezembro de 2023, 6:34

Hoje é dia de festas e como o mundo não está para festas aqui vai outra coisa de menos sinistro. No Arquivo Ephemera costumamos dizer que não há um momento de aborrecimento, never a dull moment. Mas, mais do que isso, aprende-se imenso. Nós sabemos coisas que ninguém sabe, e isto pode parecer arrogância, mas não é. Tem que ver com o que recebemos, estudamos e estimamos. Eis alguns exemplos.

Vida de um boxeur

Sabemos, nós, os “de cima”, como era a vida de um boxeur que vem “de baixo”? Como eram e quem eram os praticantes de boxe em associações populares? Sabem qual era a farmacopeia de um boxeur? Sabem como se recrutava para empresas de segurança há 40 anos?

Nós sabemos, porque temos um espólio de um boxeur.


Diário de uma prostituta

Um diário de uma prostituta, de casa e não de rua, ou de uma “trabalhadora do sexo”, como agora se diz, o que é que regista? Nomes dos clientes, local dos encontros, ementa de “serviços” com os preços detalhados, algumas observações sobre a actividade. Mas também poemas e desenhos.

Nós sabemos, porque temos um diário de uma prostituta.

Inventar o colchete português

João Paulo Martins (1870-1960), operário modelo, era serralheiro mecânico numa fábrica de colchetes. A fábrica trabalhava com colchetes com patente inglesa, o que lhe desagradava, porque achava que era capaz de fazer melhor. Propôs à administração uma nova técnica de fabrico, mas colocou como condição ser ele a concretizá-la. Recebeu um não. Não se ficou e num fim-de-semana alterou as máquinas e passou a fazer um novo tipo de colchetes. Recebeu uma dura repreensão, mas mais tarde percebeu-se a qualidade do colchete nacional e foi registada uma nova patente.

Nós sabemos, porque temos o seu espólio.

Biblioteca de um bruxo e TSF

Uma biblioteca com cerca de 150 livros que veio de França, pertencia a um astrólogo, alquimista, bruxo, que nos anos 20-30 do século passado se dedicava a estas práticas nos arredores de Paris entrou no Ephemera. Para além das notas manuscritas, este discípulo de Fulcanelli tinha livros sobre horóscopos em cavalos e em plantas, magia negra (o que me permite dizer que é um risco meterem-se comigo e connosco, porque podem ficar transformados em ratinhos), e… livros sobre a nascente TSF, a Telegrafia Sem Fios. Porquê? Porque se percebe que quem acredita que um meio qualquer invisível de influência podia ir de uma constelação do Zodíaco até um humano ou uma árvore, que acreditava na telepatia e na telequinésia achava que a ciência que permitia a TSF demonstrava o papel de um mundo de ondas invisíveis que estavam à nossa volta. A TSF legitimava com uma aura de ciência, o que o nosso bruxo praticava.

Nós sabemos, porque temos a sua biblioteca.

Como se tem uma profissão altamente especializada sem manuais

Em certas profissões especializadas com uma forte componente manual, mas que implicavam também lidar com máquinas, tornos, fresas, engates de vagões, peso e dimensão, prensas e resistência de materiais, soldaduras, com uma forte dimensão de conhecimento de física e de matemática, em particular de trigonometria, a formação de operários implicava manuais técnicos, tabelas e quadros, gráficos, desenhos e esquemas de peças de máquinas, etc. A formação, mas também a execução ou a operação com máquinas, como, por exemplo, locomotivas, vagões, engates de composições, etc. Sabem como é que se lidava com estes problemas quando não havia manuais disponíveis para acompanhar, por exemplo, um operário ferroviário? Fazendo-os manuscritos em pequenos cadernos escolares de linhas, com páginas e páginas de desenhos e números, copiados de algum manual impresso, num trabalho enorme de um bom profissional, sem apoios e sem ser pago.

Nós sabemos, porque temos alguns desses cadernos.

Podíamos acrescentar muitos mais exemplos. Como era a vida de um rapaz solteiro numa pensão nos anos 30. O que era ser cega e viver em instituição de assistência nos anos 40. Como é que um pai, operário, comunista, preso, nos anos 50, falava com a filha ainda criança em esperanto. A história de uma noiva anticlerical que queria casar pelo civil mas com um vestido de casamento “diferente dos da Igreja”. Como é que um administrador de posto numa localidade do interior de Angola, próxima da fronteira do Congo, passa de ter o seu nome próprio Tostoi para ser o escritor “Tolstoi Lusitano”. Como era volumoso um catálogo de mordidelas para administração da vacina da raiva, e quem eram os “mordidos”.

Isto são “curiosidades” em sentido pejorativo, em vez dos nobres espólios e arquivos dos “de cima”? São e são um grande motor para saber de muitas vidas e experiências que não estão em lado nenhum, a não ser no Arquivo Ephemera. Ah! E também sabemos como era a decoração das mansões dos mais ricos…

Por isso, não há de facto, um minuto de aborrecimento.​

O autor é colunista do PÚBLICO

Historiador

https://www.publico.pt/2023/12/23/opiniao/opiniao/aprendemos-gabinete-curiosidades-2074683

domingo, 23 de outubro de 2016

Lisboa, 1942.

domingo, 23 de outubro de 2016

 
Cecil Beaton (1904-1980)

         Em Junho de 1942, o fotógrafo e artista britânico Cecil Beaton (1904-1980) passou uma temporada em Lisboa, onde fotografou a cidade e, sobretudo, as suas elites (à excepção de Salazar). Vinha de Lagos, em África, tendo desembarcado num hidroavião, como conta nos seus diários (The Years Between. Diaries, 1939-1944), aqui parcialmente traduzidos e transcritos, na parte relativa a Portugal. A sua faceta de esteta e amante das artes fica bem patente nestas páginas, onde são frequentes as referências a pormenores arquitectónicos ou a mestres da pintura. A dado passo, Beaton refere-se ao «aspecto Rip van Winkle» de Lisboa, numa alusão à personagem do conto homónimo de Washington Irving; e, noutro momento, alude à famosa família Sitwell, sendo estas duas referências, porventura, as únicas que carecem de uma nota complementar que facilite a compreensão de um texto traduzido sem preocupações de rigor e fidedignidade. A passagem de Beaton por Lisboa é sobejamente conhecida, tendo já merecido até uma exposição, cuja crítica de Alexandre Pomar pode ser lida aqui.

 
Marcello Caetano, fotografado por Cecil Beaton
  
         Quando, finalmente, sobrevoámos a orla costeira montanhosa e descemos até à baía azul de Lisboa, a porta do nosso hotel flutuante abriu-se para um cenário ameno e soalheiro. Diante de nós, pequenas bandeiras agitavam-se ao vento e as ondas azul-turquesa desfaziam-se em espuma branca, como num quadro de Tissot. 

         De súbito, sentimo-nos de regresso à atmosfera anterior à guerra, ao tempo das férias passadas em Espanha ou no Sul de França.

         Saberiam alguma coisa da minha visita? Não, o adido de imprensa não sabia de nada. Mas dois jovens da embaixada, Stewart e Herbert, acompanharam-me com entusiasmo e empenho, e telefonaram para vários organismos públicos procurando saber se havia por lá algum trabalho à minha espera. Sim! O Ministério do Ar tinha procurado indagar da minha chegada, mas as investigações subsequentes nada revelaram. Tive a sensação de que talvez me encontrasse aqui por engano. Stewart era de opinião de que me deveria ir embora, uma vez que nada tinha para fazer em Portugal. Herbert, em contrapartida, afirmou que o melhor seria contactar o Ministério do Ar, pois seria péssima ideia regressar a casa para depois ser imediatamente chamado de novo a Lisboa. Stewart sorriu e marcou-me um hotel, fazendo questão de me levar pessoalmente até lá.

         Não admira que tivesse sorrido, pois o Hotel Aviz revelou ser um fenómeno. Assemelhando-se a uma mansão de um milionário vitoriano, era decorado com mobiliário de mogno ricamente trabalhado, estatuária medieval, azulejos portugueses, ferros forjados do século XVIII, enormes carpetes espanholas e terrinas incrustadas de prata, impropriamente cheias de flores horríveis. O ambiente era de tal forma opulento e diferente de tudo o que víamos desde o início da guerra que parecia que o desmesurado relógio barroco do átrio tinha sido atrasado uns vinte ou mesmo uns quarenta anos. Tendo perguntado quem estava no quarto ao lado (era uma alemã ou italiana), Stewart deixou-me ali, para que eu pudesse tomar banho, barbear-me, vestir roupa lavada e mais apropriada e, enfim, tomar uma refeição.

          O almoço era um acontecimento. Numa sala de jantar estilo Luís XVI, envolta em reflexos rosa, algumas mesas, poucas, eram ocupadas por um sortido de personagens de antes da guerra, e de várias nacionalidades. A um canto, de costas para a parede, sentava-se o Senhor Calouste Gulbenkian, rei do petróleo e do caviar e patrono das artes. Um silêncio completo dominava a sala, enquanto eram servidas as refeições mais sumptuosas e extravagantes. Os meus olhos quase saltaram das órbitas quando vi os carrinhos com as entradas a passarem diante de mim. Só as entradas já eram um banquete. Não sei como fui capaz de ingerir ainda mais três pratos, mas o certo é que quase nada comera nas últimas semanas; apesar disso, já não tive espaço para os morangos gargantuescos. 

         O meu quarto, com o seu mobiliário cor de alperce, os abajures forrados de seda na cabeceira da cama, e o marulhar das palmeiras vindo da varanda, era um oásis. A cela despida, fria e húmida da messe da RAF em Lagos foi esquecida até tirar o meu fato mais formal da mala; aí afluiu às minhas narinas o cheiro a mofo, o que me fez recordar a cama e a almofada onde dormira, pejadas de humidade e fungos.

         Como é óbvio, estava feliz por ter sido obrigado a parar aqui (ainda que continuasse a não saber por que razão!) Deambulei pela cidade e, saborosamente, saciei o meu apetite de turista. Os encantadores edifícios setecentistas e os ornatos decorativos rococó representavam algo pelo qual eu estava faminto desde que a guerra começara.

         Muitas fachadas eram pintadas com um vermelho-coral e um branco fortes, com ornatos em estuque brotando do cimo das pilastras. Nas balaustradas dos telhados, erguiam-se obeliscos e vasos de pedra. Por um acaso, passei por algumas praças gloriosas, de mármore branco, decoradas com arcos ornamentais e estátuas. Admirei jardins com bustos clássicos que surgiam de pilares completamente cobertos de folhagem. Foi delicioso sentar-me e gozar o verdor da sombra projectada por um Neptuno que contemplava a fonte formada com a água saída do cântaro que carregava num dos seus braços.

         É espantoso ver as lojas cheias de produtos alimentícios raros, guloseimas, bebidas alcoólicas, de todas aquelas coisas que não temos entre nós – meias de seda, relógios, batons. Estou também espantado com a quantidade de quiosques que vendem diversos jornais e revistas inglesas (muito mais do que aqueles que conseguimos encontrar em Inglaterra). Folheei um exemplar da Illustrated London News para ver se apareciam algumas das minhas fotografias de guerra, mas verifiquei apenas que na nossa terra os meses vão passando, que toda a gente está a usar agora roupas diferentes e que a Princesa Isabel cresceu, deixando de ser criança e tornando-se uma jovem senhora.  

         No Secretariado, percorri uma pilha de revistas de propaganda alemã. As suas fotografias de guerra, quer a cores, quer a preto e branco, são muito mais originais do que as nossas. Não só conhecem a necessidade de contenção no uso da cor como são muito mais ousados do que nós. Mostram apenas manchas trágicas – fotografias tiradas numa semiobscuridade, entre fumo, chuva ou nevoeiro, o que cria um tremendo efeito dramático. Ainda assim, é desconcertante ver que estas revistas, tão próximas do espírito contemporâneo, continuam a apelar à abolição da «arte decadente» quando, em simultâneo, o seu espírito e o seu gosto se mostram muito mais flexíveis do que o nosso.

         O aspecto Rip van Winkle de Lisboa tem as suas desvantagens. Portugal é indubitavelmente o refúgio das «ratazanas» e o Hotel Aviz é o epicentro dos colaboracionistas, que aqui vêm fazer os seus negócios. Talvez a cegueira face à situação mundial tenha custado a Portugal a perda da sua antiga grandeza, sendo este um país que vive actualmente o crepúsculo da sua existência. Mas, devo reconhecê-lo, talvez estas elucubrações tortuosas tenham resultado do mero facto de não ter conseguido encontrar um táxi. Nesta terra de luxos, só falta uma coisa – a gasolina. As ruas estão quase vazias de trânsito, e uma vez que há racionamento de carvão, tem de se poupar na electricidade, pelo que até no Hotel Aviz as luzes são desligadas às 10 da noite.

         O Ministério da Informação acabou, finalmente, por mandar um telegrama dizendo estarem interessados em que eu fotografasse todos os membros do Governo e todas as celebridades locais. Mandaram uma lista das pessoas a retratar, desde o Presidente a Salazar, desde almirantes a cardeais. Julgo que isto não vai interessar a ninguém, e certamente não terá qualquer «importância»; em todo o caso, permitir-me-á fazer um contraste com as fotografias que tenho tirado.   

         A organização deste trabalho revelou-se uma tarefa terrível. No Secretariado, um homem chamado Almeida deveria dar-me uma licença para utilizar uma câmara (ao que parece, em Lisboa pode-se ser preso por andar com uma máquina fotográfica, e por vezes passam-se semanas na cadeia até se conseguir ser libertado). Porém, a primeira dificuldade foi encontrar o senhor Almeida à sua mesa de trabalho. Devido às políticas de austeridade impostas pelas reformas de Salazar, com vista a alcançar o equilíbrio orçamental após anos e anos de caos financeiro, muitos tiveram de fazer grandes sacrifícios, incluindo os funcionários públicos. Por isso, muitos deles acumulam funções com outro emprego, pelo que nunca chegam ao serviço antes das cinco da tarde. Quando, finalmente, o Senhor Almeida apareceu, sentado à sua secretária, tratou-nos de uma forma histriónica. Rodeado de telefones como se fosse um agente de Hollywood, tinha longas conversas sempre que recebia uma chamada. Passava o tempo a marcar números, incessantemente, gritava com a telefonista, desligava e de imediato voltava a marcar outro número. Enquanto falava ao telefone, gesticulava selvaticamente, fazendo esgares parecidos aos de um louco torturado. Tendo-nos deixado ali, a mim e a Herbert, a presenciar aquela cena durante uma meia hora, Almeida disse que iria chamar três polícias, para nossa protecção. Oh, como era difícil a sua vida, que tinha de estar a trabalhar até àquela hora, enquanto a maioria das pessoas já há muito tinha ido embora, para beber cervejas ou comer gelados nos cafés! Por fim, após a sua actuação histérica ao telefone ter ido em crescendo, exclamou: «As coisas estão a ir bem e depressa!» Eu não podia deixar de rir, mas Herbert explicou-me que era mesmo assim: ter paciência é a primeira coisa a aprender para quem vive em Portugal, uma vez que o tempo, como sabemos, não existe (nenhum correspondente de guerra consegue mandar notícias para casa sem que antes passem dez dias de insistência e obstinação).

 
Fernanda de Castro, fotografada por Cecil Beaton

         Quando, por fim, me libertei daquilo, Marcus Cheke apareceu para me mostrar a cidade. Estava livre? Claro, que outra coisa tinha para fazer senão esperar? O meu regozijo foi tanto maior quanto este meu companheiro, que escreveu uma obra romanceada sobre o Directoire chamada Papilée, tinha sido uma das mais surpreendentes descobertas literárias das minhas primeiras leituras. Nenhum inglês conhece tão bem Portugal como ele; escreveu há pouco uma biografia de Pombal, o grande ditador do século XVIII. Na verdade, Cheke é, ele próprio, uma personagem do século XVIII: elusivo, excêntrico, temperamental (o que passa por «artístico»), mas impregnado de um charme discreto.   

         Encontrei nele um excelente guia, detentor de informações fascinantes. Deleita-se com os Portugueses mas considera que os lisboetas estão contaminados pelos artifícios do mundo moderno. Apesar disso, continuam a ser pouco sofisticados, ineficientes e acriançados: um dos seus maiores prazeres é o fogo-de-artifício, a ponto de um aristocrata e toureiro, cujo apelido de família se destacou durante séculos pela sua coragem, ter como passatempo visitar duas vezes por semana o jardim zoológico, onde lança foguetes para a aldeia dos macacos.

         Hoje, o nosso táxi, por puro gozo, e animado por uma fúria que só os taxistas portugueses têm, subiu a toda a brida pelas íngremes calçadas de paralelepípedos do bairro mourisco, Alfama. Esta é a parte da cidade que sobreviveu ao catastrófico terramoto de 1755, quando dois terços de Lisboa desapareceram em apenas quinze minutos. Quando observado de cima, os telhados do casario assemelham-se a uma manta de retalhos feita de um tecido grosseiro. Por perto, o mercado de peixe, onde as mulheres, levando à cabeça enormes canastas, se exaltam e brigam permanentemente, esbofeteando-se umas às outras com rodovalhos ou lagostas.

         O táxi lançou-se depois pelas colinas abaixo. Correndo em duas rodas, navegava de forma alucinante por curvas apertadas, em ruas protegidas da precipitação da chuva por delicadas grelhas de ferro. Depositou-nos à porta da escola equestre do século XVIII, onde se encontra a maior colecção de coches [do mundo?]. Além dos coches, ficamos maravilhados pelos uniformes que eram usados nos cortejos pelos cocheiros, pelos arautos, pelos músicos e pelos criados a pé. Os trajes bordados da aristocracia eram de uma enorme riqueza, com fios de ouro e prata e botões de porcelana, mosaico, esmalte e jóias. Até as fivelas dos sapatos parecem molduras feitas de joalharia. Esta visita a um museu, a primeira desde que a guerra começara, trouxe-me a memória vívida daqueles dias longínquos em que, tendo os Sitwells «descoberto» o barroco, passávamos férias na Baviera em sua companhia.

         Será possível descrever o prazer que sentimos ao visitar o Palácio de Queluz pela primeira vez? Até mesmo Beckford, nas suas cartas, foi incapaz de fazer justiça a este palácio de Cinderela, pintado de rosa e verde-pistácio. É mais belo do que tudo quanto existe na Baviera, com mais liberdade criativa e fantasia de tudo quanto existe em França. É a apoteose da arquitectura «fondant». Um dos edifícios, com empenas holandesas e o telhado em dupla mansarda, exibe uma fachada ornamentada com esfinges, anjos tocando trompetas e varandas rendilhadas. Uma mostra desarmante de pirotecnia arquitectónica.

Terça-feira, 14 de Julho

         A batalha de Alamein permitiu um período de acalmia durante cinco dias. Conseguimos causar alguns danos nas linhas inimigas e até fizemos cerca de 2.000 prisioneiros. No entanto, o perigo continua a ser tão intenso como dantes. A natureza humana permite que nos habituemos a praticamente tudo. A proximidade do inimigo a Alexandria, que até há pouco era motivo de alarme, é agora aceite com tranquilidade.

Quarta-feira, 15 de Julho

         Acabaram-se as manhãs ociosas. Finalmente, conseguiu-se obter as autorizações para usar a minha câmara, um sinal de boa vontade. Uma primeira passagem pelo Gabinete de Imprensa fez-me adivinhar que iria ter de passar vários dias a adular as pessoas mais importantes de Lisboa. Homens de Estado, marquesas vestidas de negro rodeadas de admiradores esvoaçantes, um almirante octogenário, o cardeal patriarca e outros dignitários da Igreja, os comandantes do exército, da defesa civil, da Cruz Vermelha, uma poetisa – todas estas figuras viviam num mundo à parte, só deles, muito distante do modo como intensamente então se vivia e morria em África.

         Num castelo inteiramente renovado no século XIX, o Presidente Carmona – a quem já chamaram o Botha de Salazar/Smuts – recebeu-me com a graciosidade do antigamente, apesar de ter dado havia pouco uma dolorosa piqûre na sua perna. Nascido na década de 1860, o Presidente Carmona liderou o coup d’État que em 1926 levou à fundação do actual Estado Novo português, Hoje, após quinze anos como Presidente da República, goza de tanto prestígio como um soberano regente, tem o exército como uma força unida atrás de si e é respeitado e amado por todas as classes sociais. O antigo revolucionário tornou-se um velho grand seigneur, apresentando-se com o seu modo delicado apesar do desapontamento óbvio de nenhum de nós ser o coronel que o Secretariado lhe disse que iria comparecer perante ele. Parecendo uma ilustração de Caran d’Ache com a sua figura esbelta e aprumada – uma herança dos tempos da tropa –, envergando um casaco preto e calças listradas, posava como um dândi doutros tempos. A decoração vitoriana do castelo prestava-se a fotografias maravilhosas, com as paredes forradas de brocado cor de mostarda, retratos parecendo oleografias, e um gigantesco relógio de pêndulo colocado sob uma campânula de vidro. Em algumas das muitas molduras de prata expostas, encontram-se fotografias de uma senhora que dizem ser a sua antiga cozinheira, com quem se casou recentemente. Será, porventura, boa cozinheira; não é, seguramente, uma mulher bonita.

         A cada dia que passava, mais personagens: homens idosos em uniformes resplandecentes, aristocratas em jardins forrados de azulejos azuis e brancos. Mas a cada dia surgiam também mais reservas por parte de Salazar. No fim, convenci os meus chefes que havia que pôr termo a este cansativo jogo de esconde-esconde, e autorizaram-me a regressar a casa sem o líder-Garbo [Garboesque] no meu portefólio.  

         Após a minha última sessão fotográfica (o chefe da Marinha, um almirante com um longo nariz entortado para a esquerda e cabelo cinzento cortado em franja), deixei cair a minha máquina numa escadaria de pedra. Este acidente freudiano fez com que me apercebesse da estúpida autoconfiança, mas também da incrível sorte que tive, ao ter embarcado para a minha viagem ao Médio Oriente munido apenas de uma câmara. A Rolleiflex, que me acompanhou incólume, com típica eficiência germânica, através de tempestades de areia e viagens de jipes aos solavancos, encontrava-se agora inutilizada, justamente quando eu, do ponto de vista psicológico, devia dar por terminada esta minha missão.

         Aguardo agora a autorização do Ministério da Informação para poder regressar a casa. As delícias setecentistas e frívolas desta linda cidade cor de pistácio, e os surpreendentes privilégios de uma atmosfera pacífica começam a desvanecer-se, sendo agora mais forte o desejo de regressar a casa. Além disso, não conhecendo naturais do país e sendo incapaz de falar a sua língua, sinto que abusei em excesso da hospitalidade de Marcus Cheke e de algumas pessoas da embaixada, onde sinto que começo a ser um estorvo.

         Hoje, em vez de comer sozinho, almocei no restaurante do hotel com uma jovem castelhana cujos pais tinham ido almoçar fora. Adoro a companhia de meninas desta idade, absolutamente fascinantes. Esta, então, era particularmente encantadora, dano um ar de desamparo pungente. «Oh!», disse ela, «é terrível ter catorze anos!» Não se importava de ter onze e ansiava por já ter dezanove anos – mas doze, treze, catorze, quinze, dezasseis, isso era terrível, pois pretendia assumir uma postura adulta sendo incapaz de disfarçar que era ainda uma criança. Está a escrever as suas memórias. Começam pelo «êxodo» da Alemanha quando ocorreu a rendição da França.

         É uma sensação estranha estar num país neutral e ouvir em primeira mão histórias dos territórios ocupados. A rapariguinha falou-me de Paris sob ocupação germânica e do facto de todos detestarem os boches mas não expressarem essa animosidade por receio de irem parar à prisão. Quando o seu pai a levou ao Luna Parque, dois alemães decidiram andar numas cabines que se moviam no ar como moinhos de vento. O dono da atracção viu aí uma oportunidade para se divertir e duplicou a velocidade com que a cabine se movia no céu. Uma multidão de franceses olhou para o céu, morrendo a rir à medida que os alemães iam subindo cada vez mais alto. No meio da multidão, um jovem soldado alemão virou-se para uma menina que gritava de alegria. «São muito engraçados, não são?», perguntou-lhe. A menina ficou calada, parecendo aterrorizada, e fugiu dali.  

         Os judeus têm de usar estrelas amarelas na lapela, que dizem «Eu sou judeu». A rapariga viu uma das suas colegas de escola usar o distintivo no jardim e ficou tão incomodada que não se atreveu sequer a falar com ela. «Mas os judeus não estão em pânico?», «Não, estão bem, são eles que controlam o mercado negro». A minha pequena amiga contou-me também uma série de mexericos sobre amigos comuns, sobre as suas inclinações políticas, sobre os efeitos da Ocupação no comércio («Os negócios vão de vento em popa – os alemães pagam bem!»). «Que dizem os franceses dosraids da RAF sobre França?», «Oh, estão muito divertidos!», «Não estão em pânico?», «Não, nada disso, julgam que a RAF apenas irá atingir as fábricas. Ouvem as bombas explodir e só depois é que toca a sirene de alarme». Rimo-nos juntos com histórias antigermânicas e observámos com espanto uma festa de oito hunos selvagens que estavam a devorar um almoço de oito pratos na mesa ao lado da nossa.

 Cecil Beaton

(tradução de António Araújo)


Publicada por Malomil à(s) 23.10.16 
http://malomil.blogspot.pt/2016/10/lisboa-1942_23.html

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Portugal, 1958

quarta-feira, 19 de outubro de 2016

Portugal, 1958


Kinglsey  Amis (1922 / 1995)

O conhecido escritor inglês Kingsley Amis (1922-1995) publicou em 1958 a novela I Like It Here,  editada entre nós pela Cotovia, em 1990, com tradução de Maria Helder Valério, tendo por título Gosto Disto Aqui. Trata-se de uma obra de ficção, mas com um forte pendor autobiográfico, sendo produto da estadia de Amis entre nós. 

 
Mesão Frio 1958

         - A censura aqui é brava, não é? - perguntou Bowen,
         Gomes reagiu como um homem que sente uma dor súbita, cerrando os maxilares e respirando fundo. Como se sentisse dificuldade em deixar sair as palavras, disse: «Se não vos aborrecer, deixem-me falar-lhes um pouco deste país maravilhoso, do qual tenho a honra de ser cidadão. Sim, é verdade, tal como você disse, a censura é muito apertada. Todas as publicações, sejam de que género forem, têm que ir à censura. Não só jornais e coisas do género, embora possa dizer que estão incluídos periódicos desportivos, compreende, e revistas de decoração, etc. - todos são examinados, à procura de algo de que o regime não goste. Bom, não faz ideia do que isto implica. Se quiser fazer um peditório, ou coisa assim, uma coisa completamente inofensiva, primeiro tem que obter autorização para isso e, se tiver um prospecto impresso, ele vai automaticamente para as mãos do censor. E aquilo de que o censor não gosta - bom, é de tudo o que possa sugerir que alguma coisa não está bem algures; não importa o quê, nem onde. Não me refiro a queixas explícitas contra o Governo: por isso, vai-se para a prisão. Sabem quem treinou a nossa polícia secreta, aquele corpo de homens de élite? O defunto e chorado Himmler, com supervisão pessoal. Mas, voltando à censura: por exemplo, nunca se fala de saúde pública nos jornais, excepto para declarações piedosas dizendo que é maravilhosa, que não podia estar melhor - com os piores bairros de lata da Europa Ocidental à nossa porta, em Lisboa. Nem sequer se pode dizer que as coisas estão a melhorar, porque isso implica que não estão perfeitas. Outra coisa, os acidentes. Nunca são referidos. Vou dar um exemplo: vê esta rede de caminho de ferro?

         Bowen respondeu afirmativamente: estava situada ao longo da costa, ligando Lisboa e Cascais e, embora, mais elegante e mais rápida, lembrara-lhe muitas vezes o comboio tipo eléctrico que ligava Swansea (Rutland Street) a Mumbles Pier: também era o caminho de ferro mais antigo das Ilhas Britânicas.

- Ora bem - diga-me se o estiver a maçar, sim - parte do talude abateu, um belo dia, e o comboio chocou com ele. Um bebé morreu, e uma mulher morrei no hospital. Houve vários feridos graves, Agora repare. Só um jornal dei esta notícia, imagino que por descuido. Os nossos valentes polícias foram lá e encerraram o jornal durante um mês, como aviso. Um aviso para não faltar à política oficial de intrujar e mentir. - Gomes disse isto de modo bem-humorado, por cima do ombro, enquanto acenava e assobiava, a chamar o empregado. - É claro que todos os cartazes de cinema são censurados. No interesse da moral pública, obviamente. Reparem bem, para a próxima, e verão o carimbo. É a Igreja que está por trás disto. Por favor, não me interpretem mal: eu sou um católico fervoroso, ou pelo menos gosto de pensar que sou. Mas não posso perdoar aos bispos o estarem sempre do lado de Salazar em tudo. E os padres. Claro que há muitos padres bons. Mas para muitos deles, compreende, ser padre é uma maneira de escapar à pobreza - é ter finalmente algum dinheiro no bolso. Não há quaisquer sentimentos religiosos. Dois amigos meus, bons católicos, criaram uma sopa dos pobres na aldeia deles, perto de Braga: sopa grátis duas vezes por dia, e pão, para os filhos dos pobres. O padre pregou contra eles de cima do púlpito; era um golpe para o seu prestígio. Na verdade, a Igreja é bastante impopular em algumas áreas, especialmente entre os pobres. Há pouco tempo estavam a reconstruir, lá para o Sul, uma igreja que tinha ardido. Bom, os pobres de lá decidiram que tinham passado muito bem sem o padre a pregar-lhes. Decidiram embebedar-se todos uma noite, e deitaram tudo abaixo outra vez. Este tipo de coisas talvez o faça sorrir. A mim, entristece-me.

Kingsley Amis


quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

José Matoso - História da Vida Privada

ColecçãoHISTORIA VIDA PRIVADA
HISTORIA VIDA PRIVADA
Autor:Dir. José Mattoso
 











5 Volumes:
A Idade Média – Coordenação de Bernardo Vasconcelos e Sousa
A Idade Moderna - Coordenação de Nuno Gonçalves Monteiro
A Época Contemporânea – Coordenação de Irene Vaquinhas
Os Nossos Dias – Coordenação de Ana Nunes de Almeida
Mesa dos Reis

Trata-se de uma obra que procura lançar luz sobre a vida que decorre para além das vidas públicas das pessoas, dentro de portas, na sala, à mesa, no quarto, na cama, nos afectos. E isto em toda a sociedade, ao longo da história de Portugal.
A maioria das obras sobre história em Portugal fala-nos de política, de reis, de presidentes, de economia, de arte, de alterações na sociedade... 

Assim, a falta, até hoje, de uma história inteiramente dedicada à vida privada em Portugal tem sido possivelmente a maior lacuna da historiografia portuguesa recente porque:

• A história privada fala-nos da vida das pessoas e não apenas da "vida" do país.
• Porque a vida privada constitui uma matéria fundamental para a compreensão do passado humano. 
• Só uma figura com a relevância, a experiência e a autoridade científica do Prof. José Mattoso poderia chamar a si os melhores colaboradores para levarem a cabo uma tarefa com a envergadura e o significado deste projecto. 
• Se trata de um trabalho feito de raiz, para o qual não há praticamente estudos antecedentes. Parte-se quase do zero neste domínio em Portugal.
• Só o historiador mais experiente entra no domínio do privado, estudando tudo aquilo que não é dito, que não é escrito, ou que fica nas entrelinhas dos documentos históricos.
• Porque é na história da vida privada que mais nos identificamos e mais reconhecemos as nossas características culturais enquanto povo português. 


Para além de se tratar de um tema inovador no nosso país, esta obra analisa as características da vida íntima e privada das diversas camadas sociais, dos membros da corte ao clero, ao povo.

Ao longo das suas páginas vamos descobrindo, por exemplo:

• como eram os espaços de habitação e de que modo se organizavam?
• o que se comia em cada época e o que comia cada classe social?
• de que modo se cozinhava, e com que utensílios, e quanto se cozinhava?
• como se caracterizava a vida familiar?
• quais os princípios que regeram a educação até hoje? 
• como era o relacionamento de pais com filhos e vice-versa; como seriam entre as classes mais abastadas e os mais desfavorecidos?
• como se foi modificando a higiene ao longo dos tempos no nosso país?
• de que modo foi encarada ao longo do tempo a sexualidade e as sexualidades (adultério, bigamia, homossexualidade, etc.)?
• o que marcava a fé e a relação de cada pessoa com a religião e com o Além?
• que relação tinham com o seu corpo, com a saúde, com a doença?
• que vícios minaram as famílias e a sociedade das gerações que nos precederam?
• quem foi considerado marginal e como foram eles vistos ao longo dos tempos?

Esta obra constitui um contributo fundamental para o historiador pintar um retrato do nosso país, mas proporciona também ao leitor comum o prazer de ver desfilar curiosidades, hábitos próximos ou distantes no tempo, semelhantes ou diferentes dos nossos, intimidades, segredos e modos de ver o mundo. No fundo, usando a expressão de José Mattoso, oferece a possibilidade «de espreitar o passado "pelo buraco da fechadura"».


«O rigor de detalhe desta pesquisa não retira a esta colecção o prazer da leitura que se assemelha ao dos grandes clássicos.»
in Diário Económico

«Estamos perante uma das mais ambiciosas obras no campo da História feita nos últimos anos em Portugal e que vem preencher um vazio nesta área.»
in Diário Económico
«Profusamente ilustrado, sempre com ligação ao tema tratado, a obra confirma a existência de um lado dos nossos antepassados quer merece ser historiado e lido pelos contemporâneos.»
João Céu e Silva, Diário de Notícias, NS’, 19 de Março 2011

http://www.circuloleitores.pt/catalogo/1040898/historia-da-vida-privada-em-portugal-1-volume#

quinta-feira, 17 de fevereiro de 2011

Esposa de Saramago: Obra póstuma é um 'presente inesperado'

Cultura

Vermelho - 17 de Fevereiro de 2011 - 15h24
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A um dia da véspera de completar oito meses da morte do escritor José Saramago, a cidade de Barcelona homenageia o Nobel português com diferentes eventos, um deles relacionado com sua obra póstuma, "El Último Cuaderno", que nesta quinta-feira sua esposa, Pilar del Río, considerou como "um presente inesperado".
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Com prefácio escrito por Pilar e pelo italiano Umberto Eco, "El Último Cuaderno" reúne os textos que Saramago escreveu de forma assídua em seu blog pessoal, entre 23 de março de 2009 e 2 de junho de 2010, 16 dias antes de morrer em Lanzarote.

Reflexões íntimas, comentários sobre política, pensamentos e simples opiniões dos temas mais diversos compõem o livro.

Pilar também revelou que está trabalhando na edição de um romance inédito, que se titulará " Alabardas, alabardas, espingardas, espingardas", embora pouco pôde antecipar, porque tem que conhecer exatamente o que foi escrito sobre esta obra.

Durante sua presença, a esposa de Saramago também anunciou que a partir do dia 18 de março abrirá ao público a casa de Lanzarote (arquipélago espanhol das Canárias). O escritor nunca havia discutido com Pilar esta possibilidade.

Na sexta-feira, a programação de homenagens exibirá o filme documentário "José e Pilar" na Universidade Autônoma de Barcelona. O filme é obra do diretor português Miguel Gonçalves, que relata a intensa vida e as viagens do casal.

Com EFE
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Cinema2000PT | 15 de Outubro de 2010 | utilizadores que gostaram deste vídeo, 0 utilizadores que não gostaram deste vídeo
Comentários em http://www.cinema2000.pt/ficha.php3?i... Data de estreia: 18 de Novembro de 2010. Produtora/distribuidora: JumpCut. Todos os direitos reservados.

Documentário de abertura da 7.ª edição do DocLisboa.

"A Viagem do Elefante", o livro em que Saramago narra as aventuras e desventuras de um paquiderme transportado desde a corte de D. João III à do austríaco Arquiduque Maximiliano, é o ponto de partida para «José e Pilar», filme de Miguel Gonçalves Mendes que retrata a relação entre José Saramago e Pilar del Río.

Mostra do dia-a-dia do casal em Lanzarote e Lisboa, na sua casa e em viagens de trabalho por todo o mundo, «José e Pilar» é um retrato surpreendente de um autor durante o seu processo de criação e da relação de um casal empenhado em mudar o mundo - ou, pelo menos, em torná-lo melhor. «José e Pilar» revela um Saramago desconhecido, desfaz ideias feitas e prova que génio e simplicidade são compatíveis. «José e Pilar» é um olhar sobre a vida de um dos grandes criadores do século XX e a demonstração de que, como diz Saramago, "tudo pode ser contado de outra maneira".

Realização: Miguel Gonçalves Mendes.
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jumpcutportugal | 22 de Outubro de 2010 | utilizadores que gostaram deste vídeo, 0 utilizadores que não gostaram deste vídeo
José e Pilar
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José & Pilar: Um filme "dos vivos para os vivos"


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  • Data: 12/10/10 - Duração: 00:07:42

“José e Pilar” é uma janela para a vida quotidiana de José Saramago e Pilar del Rio. Um mundo a que o realizador Miguel Gonçalves Mendes teve acesso e que filmou ao longo de quatro anos. Na recta final da edição do documentário, Miguel Mendes recebeu a notícia da morte de Saramago. O filme seguiu o caminho previsto, sem desvios de percurso nem cedências. Este é um filme "dos vivos para os vivos", diz Miguel Mendes.
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quarta-feira, 28 de julho de 2010

Les très riches heures du duc de Berry - Livro de Horas

 
As Riquíssimas Horas do Duque de Berry


O que é um livro de horas?

No final da Idade Média manifesta-se a necessidade de um livro tornando acessível aos leigos certos elementos do breviário utilizado pelos padres. De acordo com este modelo litúrgico desenvolveu-se lentamente, durante o século XIV, um livro de devoções privadas que retoma o papel anterior do saltério.

Apesar das variações de formato e da abundância de ilustração, todos os Livros de Horas são concebidos segundo um mesmo esquema, que, no entanto, sofre exceções: começam com um calendário elaborado exclusivamente em função das festas religiosas. Seguem-se numerosas preces. Estas, compostas em grande parte de salmos, seguem o ritmo cotidiano — as matinas, laudas, prima, tércia, sexta e nôa, as vésperas e as completas escalonam o dia.

O livro de horas foi o best seller da baixa Idade Média, sendo que seu uso sempre ficou limitado à leitura privada, alheia às cerimônias públicas e coletivas. Todos tinham seu Livro de Horas, muitas vezes o único da estante. Mesmo os analfabetos, que decoravam suas orações. Modestos ou suntuosos, exerceram um papel de suma importância social, seja como cartilha para o aprendizado da leitura, seja como símbolo da riqueza de seus possuidores — podiam valer tanto quanto grandes propriedades, até figuravam nos inventários.

Com o Livro de Horas a iluminura alcançou o pináculo da perfeição, assim como um esplendor jamais igualado. Beneficiou-se da conjunção de numerosos grupos de artistas excepcionais com duas ou três gerações de príncipes bibliófilos, opulentos e generosos.


As Riquíssimas Horas do Duque de Berry

O mais conhecido e o mais belo entre os Livros de Horas, foi executado, por encomenda do duque, pelos irmãos Limbourg. O duque e os artistas, porém, morreram antes do término da obra, cujas miniaturas exibem, num colorido luminoso, admiráveis representações da vida cotidiana.

Dentre as originalidades da obra, os especialistas apontam a prioridade dada às paisagens, tratadas com um realismo extremo. Pela primeira vez, a paisagem é vista como um motivo independente: as cenas se desenvolvem sob um céu anilado, em contraste com uma arquitetura perfeitamente delineada. É a descoberta do céu como elemento expressivo e, ao mesmo tempo, a descoberta da superfície da Terra como palco onde se desenrolam cenas da vida cotidiana.

O Mecenas

Conhecido como O Príncipe dos Bibliófilos, João de França, Duque de Berry (1340-1416), filho, irmão e tio de reis de França, não deixou boa lembrança como político e governante. Mas era um profundo apreciador das artes, e possuía imensa fortuna.

Colecionador apaixonado de obras artísticas (colecionava castelos, rubis, avestruzes...) reservava o melhor de seu entusiasmo para os Livros, principalmente os iluminados, que comprava ou mandava copiar e ornar, ele mesmo orientando todas as fases do trabalho, já que dominava os segredos do ofício e era homem de gosto apurado.

Reunindo a seu redor os artistas mais famosos da época, conseguiu formar a mais luzidia coleção particular de manuscritos de todos os tempos, que incluía nada menos que 15 Livros de Horas, 14 Bíblias, 16 saltérios, 18 breviários e 6 missais.

Os Iluminadores

Desde o século XII, começaram a instalar-se nas principais cidades européias vários ateliês laicos de iluminura, formados por profissionais que paulatinamente foram arrebatando às comunidades religiosas a edição de manuscritos — pondo fim ao secular monopólio eclesiástico.

As Riquíssimas Horas foram pintadas pelos três irmãos Limbourg — Paul, Hermann e Jean, artistas flamengos contratados pelo duque de Berry por volta de 1405.

Os Limbourg utilizaram uma grande variedade de cores obtidas através de minerais, plantas ou produtos químicos, misturados com goma arábica para ligar a tinta. Entre as cores incomuns que utilizaram estão o verde íris, obtido esmagando-se flores e massicote (óxido de chumbo), o azul ultramarino, feito de lapis-lazuli orientais triturados. Esta cor era usada para representar os azuis brilhantes. Era, evidentemente, de um valor inestimável!

Os detalhes extremamente precisos são característicos do estilo dos Limbourg, que exigia lupas e pincéis finíssimos.

Os quadros seguintes fazem parte do Calendário das Riquíssimas Horas. Pintado entre 1412 e 1416, constitui a mais bela parte do manuscrito e, certamente, um dos grandes tesouros da França.(Clique para obter uma imagem maior, com legendas).

janeiro fevereiro março abril maio junho
julho agosto setembro outubro novembro dezembro

As legendas, assim como boa parte das informações acima, provêm do site http://www.geocities.com/Vienna/Strasse/3356/berry.htm,
e foram traduzidas por:

Bárbara Leal A. Guimarães
Heliana Lacerda Dal Fabro
Luciana Ferro Borini
Maria da Graça Oliveira
Maria Tereza Shaedler
Mario Lourenço Thevenet
Marise Didoné
Ricardo Jorge Wolff
Simone Maria Losso


alunos de Tradução do Curso de Nancy II da Aliança Francesa de Florianópolis.

Direitos reservados, 1999

Referências aos Livros de Horas também podem ser encontrados nos livros de José Teixeira de Oliveira, Gombrich, Janson e Seligman, constantes na bibliografia.
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http://escritoriodolivro.com.br/historias/horas.html
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