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sábado, 8 de março de 2025
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domingo, 16 de fevereiro de 2025
Cezar Xavier - Inundação: a estratégia de Trump para desnortear mídia e oposição
Steve Bannon tornou a estratégia de inundar a mídia de gestos políticos para dificultar uma narrativa de prioridades do governo na sociedade
Com decretos e anúncios diários e polêmicos, o ex-presidente usa a tática de “flooding the zone” para confundir adversários e dominar a agenda política. Mas a resistência também se unifica.
por Cezar Xavier
Publicado 11/02/2025 16:02 | Editado 12/02/2025 13:44
Steve Bannon tornou a estratégia de inundar a mídia de gestos políticos para dificultar uma narrativa de prioridades do governo na sociedade
A expressão “flooding the zone” (inundar a área) descreve uma estratégia deliberada de comunicação na qual uma enxurrada de anúncios e decretos é lançada de forma contínua, com o objetivo de saturar os canais de informação e deixar a oposição e a mídia atordoados. Essa tática, utilizada por Donald Trump desde sua posse, busca desorientar os críticos e criar um ambiente de confusão que dificulte a análise e a resposta coordenada dos adversários.
Jair Bolsonaro também aplicou esta estratégia da extrema-direita, causando efeito semelhante no Brasil. Todas as pautas, emendas, medidas provisórias ou decretos, assim como declarações públicas, eram sensacionalistas e polêmicas. Uma blitz-krieg de bombardeios informacionais capaz de desnortear a reação social. A resistência se deu de forma complexa por meio de táticas diversas e simultâneas, em todos os âmbitos da sociedade (confira ao final).
Afirmações misóginas, homofóbicas, racistas, obscenas ou escatológicas frequentemente engajavam as redes sociais, a mídia e a esquerda, enquanto o governo tentava seguir sem obstáculos uma agenda de reformas trabalhistas, previdenciárias, privatista, desmontando as instituições do Estado. Todas pautas dignas de um grande protesto nas ruas, todas passíveis de grandes debates na imprensa. Mas poucos tinham tempo ou capacidade de articulação para tantos absurdos simultâneos.
Apesar disso, nem Trump, nem Bolsonaro foram capazes de se reeleger pela incapacidade de responder de forma efetiva aos problemas concretos de países tão grandes. Desde seu primeiro governo, Trump fala em fazer a América grande novamente. O trabalhador não viu isso acontecer como prometido, especialmente com o retorno das fábricas aos EUA ou melhora significativa nas condições de trabalho. Os desafios dos Estados Unidos estão postos na mesa, e não serão resolvidos na base da bravataria. Depois de quatro anos, Trump será julgado pelos resultados concretos.
A orquestra trumpiana
Desde seus primeiros dias no poder, Trump tem feito uso intensivo dessa estratégia. Em sua posse, ele assinou 26 ordens executivas, retirou os Estados Unidos do Acordo de Paris e da Organização Mundial da Saúde, eliminou subsídios para carros elétricos, entre outras ações polêmicas. Mais recentemente, o ex-presidente voltou a gerar manchetes com propostas aparentemente absurdas, como comprar a Groenlândia, construir um resort na Faixa de Gaza, mudar o nome do Golfo do México, retomar o Canal do Panamá, ou acabar com o direito à cidadania para filhos de imigrantes ilegais.
Cada anúncio, independentemente de sua viabilidade, serve para inundar a mídia com informações que, na prática, dificultam a construção de uma narrativa unificada e a identificação do que realmente importa na agenda política.
Steve Bannon e a velocidade das bombas
Um dos criadores do trumpismo, o estrategista político Steve Bannon, é o responsável por afinar essa tática. Ele foi também um articulador estratégico por trás da comunicação do governo Bolsonaro. Em entrevista à TV americana, Bannon disse:
“O partido de oposição é a mídia. Eles são burros e preguiçosos e só conseguem focar em uma coisa de cada vez. O que precisamos fazer é inundar o terreno. Todo dia nós jogamos três coisas diferentes neles. Eles vão morder uma e a gente vai fazer as nossas coisas. Esses caras nunca vão conseguir se recuperar. Mas temos que começar com a mesma velocidade com que uma bala sai do cano de uma arma.”
Essas palavras ilustram como a estratégia visa tirar o foco dos adversários, que ficam ocupados reagindo a uma nova polêmica enquanto Trump segue com sua agenda – muitas vezes, sem sequer ter o poder para resolver os problemas anunciados.
Exemplos da tática no dia a dia
Nas últimas 24 horas, a tática de “flooding the zone” foi novamente demonstrada:
• Tarifas e decretos surpresa: Trump anunciou tarifas para o aço e decretos para liberar canudinhos de plástico, enquanto simultaneamente repetia que seria o dono da Faixa de Gaza.
• Acusações e contradições: Em meio a tais anúncios, o ex-presidente afirmou ter conversado com o presidente russo Vladimir Putin, sem oferecer detalhes, confundindo ainda mais a opinião pública.
• Distração político-administrativa: O presidente também assinou decretos para demitir militares de carreira e acabar com a fiscalização de empresas americanas, ações que, embora questionáveis, desviam a atenção dos críticos sobre as políticas mais substanciais do governo.
Consequências para a mídia e a oposição
A estratégia tem se mostrado eficaz em desestabilizar a oposição, que encontra dificuldade para concentrar esforços diante de uma avalanche de informações. Como resultado:
• Mídia saturada: Portais de notícias e jornalistas se veem obrigados a cobrir não apenas um, mas todos os atos diários de Trump, o que dificulta a distinção entre ações relevantes e meras manobras de distração.
• Dificuldade em construir narrativas: O excesso de declarações e decretos torna quase impossível que a oposição formule respostas consistentes e coordenadas, fazendo com que questões importantes fiquem ofuscadas pelo ruído das provocações constantes.
Impacto na política e na ordem global
Embora muitas das declarações de Trump – como a possibilidade de anexar territórios estrangeiros – sejam improváveis de se concretizarem, elas têm um efeito real ao confundir tanto a população quanto aliados e adversários internacionais. Esse ambiente de incerteza pode afetar a credibilidade dos Estados Unidos e minar alianças estratégicas, enquanto a política interna sofre com a dispersão do debate e a erosão dos mecanismos de controle e transparência.
Resistência: foco nas questões relevantes
Para neutralizar a estratégia de “flooding the zone”, é essencial que a oposição e os veículos de comunicação mantenham o foco nas questões que impactam a vida dos cidadãos. Durante o desgoverno de Bolsonaro, a denúncia do desemprego, da estagnação econômica e do preço dos combustíveis foram essenciais para desmascarar o diversionismo. A falta de resultados concretos da macroeconomia de Paulo Guedes e o cansaço de parcelas da sociedade com o discurso de ódio e golpismo também jogaram contra. Trump ainda não respondeu ao problema da inflação dos ovos, esperando que a gripe aviária passe e os estoques retornem.
Em vez de se deixar levar por cada anúncio bombástico, a recomendação é priorizar debates que abordem problemas estruturais e políticas públicas de longo prazo. Isso significa estabelecer uma agenda clara. Concentrar os esforços em temas estratégicos, como saúde, educação, segurança e economia, para evitar que a narrativa seja dispersada por declarações pontuais e irrelevantes.
Diferenciar o sinal do ruído ao utilizar ferramentas de verificação de fatos e análises críticas para destacar quais anúncios têm impacto real e quais são apenas manobras de distração.
Comunicação coordenada e unificada
Uma resposta eficaz exige que as forças políticas da oposição se unam e comuniquem de forma coordenada. Entre as medidas recomendadas estão a formação de um bloco de resposta. Reunir partidos e lideranças que possam articular uma mensagem unificada, contrapondo os anúncios diários com iniciativas concretas e dados que evidenciem as verdadeiras prioridades para a população.
O fortalecimento do fact-checking e da transparência são ferramentas da luta contra a desinformação, que passa também pelo fortalecimento de mecanismos de verificação dos fatos. Para isso, é importante apoio a agências independentes de fact-checking. Incentivar a criação e a manutenção de plataformas que possam desmentir, em tempo real, as declarações exageradas ou infundadas.
A transparência nas ações governamentais precisa ser preservada em governos que tendem a dificultar o acesso à informação pública, como já vem ocorrendo em Washington. É preciso cobrar do governo a prestação de contas das medidas anunciadas e avaliar quais decretos têm base legal e impacto prático na sociedade.
Educação midiática e engajamento popular
A longo prazo, é fundamental que a população desenvolva uma consciência crítica em relação às táticas de comunicação. No Brasil, o modo como fake news e falta de regulação de plataformas digitais acabaram de tornando ferramenta de criminosos para golpes financeiros, acabou forçando uma alfabetização crescente de parcelas da população que se sentiram vulneráveis. Cada vez é mais comum encontrar pessoas que sabem como distinguir quando uma informação é falsa na internet.
Mas as instituições de governo e da sociedade civil, assim como da mídia, precisam implementar programas de alfabetização midiática; iniciativas educacionais que ensinem os cidadãos a distinguir entre notícias relevantes e meros ataques ou distrações. Estimular o engajamento e a participação ativa da sociedade também é uma opção, para que os eleitores passem a questionar e demandar respostas concretas dos seus representantes, ao invés de se deixarem influenciar por anúncios vazios.
Alinhamento internacional e defesa das instituições
Por fim, a resposta à estratégia de “flooding the zone” também passa por uma articulação maior com aliados políticos e instituições democráticas. O Legislativo e o Judiciário foram fundamentais para barrar as iniciativas mais perigosas de Bolsonaro. Nos EUA, a própria volta de Trump ao poder revela a fragilidade de suas instituições, que precisam ser repensadas. Trabalhar em conjunto com governos e organizações que defendem a transparência e a responsabilidade na comunicação pública, é uma forma de cooperação para criar um ambiente global que penalize táticas de desinformação.
O reforço das instituições democráticas precisa avançar para proteger e valorizar os mecanismos de controle e prestação de contas, garantindo que a estratégia de inundação de informações não comprometa o funcionamento das instituições e a confiança na governança.
Resistir politicamente à tática de “flooding the zone” de Trump (e da extrema-direita) exige uma combinação de foco estratégico, comunicação unificada, verificação rigorosa dos fatos, educação midiática e mobilização cidadã. Somente com uma resposta coordenada e comprometida com a transparência será possível garantir que a população não se perca em meio à enxurrada de anúncios e decretos, e que as questões de verdade e relevância continuem a nortear o debate político.
https://vermelho.org.br/2025/02/11/inundacao-a-estrategia-de-trump-para-desnortear-midia-e-oposicao/
quinta-feira, 21 de novembro de 2024
Operação Condor: A América do Sul sob botas

por Augusto Buonicore*
“Nos Estados Unidos, como sabe, simpatizamos com o que você esta tentando fazer no seu país (...) Desejemos sucesso ao seu governo” .
(Kissinger ao general Pinochet)
“Nós o seguimos. Você é o líder!”
(Pinochet à Kissinger)
Fotos:
Kissinger e Pinochet;
Pinochet no dia do golpe
e Cenas do golpe no Chile
***
Quando a justiça italiana começou a pedir extradição dos acusados de terem conspirado para assassinar opositores políticos das ditaduras militares latino-americanas, abriu-se novamente a Caixa de Pandora. A famigerada Operação Condor voltou às manchetes dos principais jornais. São 149 pedidos de extradição e envolvem militares argentinos, uruguaios, brasileiros, paraguaios e bolivianos. Do Brasil são onze os envolvidos no processo. Mas, o problema vai além de extraditar ou não essas pessoas. Trata-se de algo mais sério. Trata-se de se estabelecer a justiça e a verdade histórica. Nenhuma lei de anistia pode suplantar tais princípios.
O Brasil nas origens do Condor
O Brasil, desde o golpe militar de 1964, passou a ser uma espécie de gendarme dos interesses norte-americanos na América Latina. A ditadura brasileira procurava ser uma barreira à implantação de regimes democráticos, populares e antiimperialistas em nossa região. Em 1970, o general-presidente Garrastazu Médici ajudou na desestabilização do governo progressista de Juan José Torres e na implantação da ditadura sanguinária de Hugo Banzer na vizinha Bolívia.
Sobre esse triste acontecimento escreveu Moniz Bandeira: “A Casa Militar do presidente Garrastazu Médici, chefiada pelo general João Batista Figueiredo, ofereceu aos adversários do governo do general Juan José Torres, através do ex-coronel Juan Ayoroa, dinheiro, armas, aviões e até mercenários, bem como permissão para instalar áreas de treinamento perto de Campo Grande e em outros locais próximos da fronteira. E o golpe de estado, deflagrado, finalmente, pelo general Hugo Banzer, contou com aberto apoio logístico do Brasil, cujos aviões militares, sem ocultar as insígnias nacionais, descarregaram fuzis, metralhadoras e munições em Santa Cruz de la Sierra, enquanto tropas do 2º Exército, comandado pelo general Humberto Melo, estacionavam em Mato Grosso, prontas para intervir na Bolívia (onde alguns destacamentos penetraram), se necessário fosse”.
Um ano depois o Brasil preparava, secretamente, – com apoio estadunidense – uma ocupação militar do Uruguai, prevendo uma vitória da Frente Ampla (de centro-esquerda), encabeçada pelo general Líber Seregni. O plano foi denominado Operação Trinta Horas. Este era o tempo previsto para ocupação do território uruguaio. O ato extremado não foi necessário, pois a esquerda acabou sendo derrotada por uma coalizão de direita. Após a vitória do arqui-conservador Juan Maria Bordaberry, o delegado-torturador brasileiro Sérgio Paranhos Fleury se deslocou para Montevidéu para ajudar montar o esquema repressivo – leia-se esquadrões da morte – contra a guerrilha organizada pelos Tupamaros. O Uruguai começava a preparar o terreno para a implantação de uma ditadura.
O Brasil também se envolveu diretamente nos planos do imperialismo e dos conservadores chilenos para derrubar o governo socialista de Salvador Allende. “Sem dúvida alguma, afirmou Moniz Bandeira, a cumplicidade do Brasil foi, na verdade, muito maior do que transpareceu. Além de recursos financeiros, fornecidos por empresários de São Paulo, vários carregamentos de armas e munições, entre 1972 e 1973, saíram do porto de Santos, com destino a Valparaiso, em caixas de maquinaria agrícola e de outros produtos, importados pela firma do Senador Pedro Ibáñez Ojeda, a fim de abastecer a organização direitista Patria y Libertad”.
Continuou ele, “o Brasil reconheceu imediatamente a Junta Militar, chefiada pelo general Augusto Pinochet. Vários aviões da Força Aérea Brasileira voaram para Santiago, transportando não só mantimentos e remédios como também assessores da Polícia Federal e oficiais das Forças Armadas, que participaram de interrogatórios e treinaram seus colegas chilenos na arte da tortura”. Arte que, por sua vez, foi nos ensinada por técnicos da CIA e de potências ocidentais que já a havia empregado amplamente na Argélia e no Vietnã.
O Chile sob o governo socialista de Allende havia sido um porto seguro para aqueles que fugiam das ditaduras em nosso hemisfério. Centenas de brasileiros, de diversas organizações políticas oposicionistas, ali viviam e trabalhavam. O golpe de Pinochet significaria uma reversão dessa situação. A maior parte conseguiu fugir para Argentina – a única democracia restante na América do Sul. Uma ditadura militar havia sido implantada no Uruguai poucos meses antes do golpe no Chile.
Com os golpes no Uruguai e Chile as coisas mudaram de qualidade e a ditadura militar brasileira passou a contar com importantes aliados no Cone Sul. Os órgãos de repressão agora podiam estender suas garras sobre os exilados políticos que viviam naqueles países.
A partir de 1974, com a morte do presidente Perón e a posse de Isabelita, a situação também se desestabilizou na Argentina. O país foi atingido por uma crescente radicalização política. De um lado, havia os grupos guerrilheiros que aumentavam o nível de suas ações; de outro, os grupos para-militares de direita, como a Aliança Anticomunista Argentina, enraizados nos órgãos de repressão, que promoviam assassinatos sistemáticos de lideranças de esquerda.
Pressionado pelos conservadores, o governo de Isabel Perón decretou Estado de Sítio e concedeu amplos poderes para as forças armadas agir contra os grupos clandestinos de esquerda. O general Videla, comandante militar, afirmou “Se for preciso, na Argentina, vão morrer tantas pessoas quanto forem necessárias para que se alcance a paz no país”. Começava, assim, sob um regime formalmente democrático, um dos maiores massacres já visto nesta parte do planeta.
Em março de 1976, o próprio governo constitucional viria abaixo. A partir de então não haveria mais nenhum país democrático ao sul do continente americano. Neste momento o Condor, que era o símbolo da liberdade nos Andes, se transformou numa ave sombria a atormentar a vida dos exilados políticos em todas as partes do mundo.
Preparando o vôo do Condor
Mesmo antes de ser criada oficialmente a Operação Condor, já existia um intercâmbio ativo de informações e de ação entre os órgãos de repressão dos países da América do Sul. No período que vai de 1973 e 1975, por exemplo, haviam sido mortos três brasileiros exilados em território argentino e seis em território chileno.
O major Joaquim Cerveira, da Frente de Libertação Nacional, e João Batista Rita, do grupo Marx, Mao, Marighella (M3G), foram seqüestrados e torturados na Argentina numa operação conjunta de policiais brasileiros e argentinos. Depois foram transladados para o Brasil onde desapareceram. Em julho de 1974 um grupo de seis militantes – cinco brasileiros e um argentino – ligados à Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) foram assassinados – e seus corpos desapareceram – no Paraná. Eles haviam ingressado no país através de Foz do Iguaçu. Sua ação estava sendo acompanhada pelos órgãos de repressão do Chile e da Argentina. Edmur Péricles Carvalho, também do M3G, foi preso em junho de 1975 no aeroporto de Buenos Aires por um grupo de policiais brasileiros e argentinos. Foi levado ao Brasil e assassinado.
A Argentina foi palco privilegiado da ação conjunta dos órgãos de segurança. Sendo a última democracia – ainda que frágil - dessa parte do continente, ela se tornou o abrigo de milhares de refugiados do Brasil, Chile, Uruguai, Paraguai e Bolívia. Existiam ali 15 mil exilados políticos. Ela se tornou uma “reserva de caça” para os órgãos de repressão da região.
Em março de 1974 o coronel chileno Manuel Contreras foi aos Estados Unidos pedir auxílio para montar seu aparato de “segurança interna”, a DINA. Uma equipe de oito agentes da CIA foi enviada para organizar cursos e seminários num tema que eram especialistas: repressão política. Não foi por coincidência que, justamente, no período que esses agentes estavam no Chile, entre junho e agosto, tenha ocorrido a primeira grande ofensiva da repressão contra a oposição clandestina, dobrando o número de desaparecidos políticos.
A primeira grande ação dos órgãos de repressão chilenos fora do país ocorreu em setembro de 1974. Neste mês o general Carlos Prats, que servira ao governo de Salvador Allende, foi morto num atentado à bomba na cidade de Buenos Aires. O explosivo foi colocado pelo agente da DINA, Michael Townley. Ele havia nascido nos Estados Unidos e tivera contato com a CIA. A conspiração para matar Prats foi realizada junto com grupos para-militares argentinos – como a Aliança Anticomunista.
Segundo John Dinges, a primeira experiência de ação conjunta entre vários órgãos de repressão do Cone Sul ocorreu em maio de 1975. Neste período foram presos, no Paraguai, o argentino Amílcar Santucho, líder montonero, e o chileno Jorge Fontes, dirigente do MIR. Ambos eram membros da Junta de Coordenação Revolucionária (JCR) – articulação de diversos movimentos revolucionários da região. Do interrogatório participaram policiais do Chile, Argentina e Paraguai, além de um agente do FBI. Os dois foram torturados e depois enviados para seus países onde foram assassinados.
Em agosto de 1975, o coronel Contreras voltou aos Estados Unidos, encontrou-se com Kissinger e recebeu, na sede da CIA, uma “recepção efusiva”. O chefe da Dina saiu animado da reunião e passou, imediatamente, a articular um encontro de representantes dos órgãos de segurança do Cone Sul. Três meses depois do encontro na sede da CIA, uma reunião “absolutamente secreta” daria origem à famigerada Operação Condor. Hoje é claro que a idéia de criar uma coordenação dos órgãos de repressão do Cone Sul nasceu nos Estados Unidos. Vários documentos comprovam isso.
A CIA tomou conhecimento da Operação Condor antes mesmo que ela fosse criada e tendeu a incentivá-la por considerá-la um esforço positivo no combate ao “terrorismo”. Desde o golpe militar no Chile ela vinha conclamando a coordenação do trabalho dos órgãos de repressão.
A Operação Condor entra em cena
Da primeira reunião oficial, ocorrida na cidade de Santiago em novembro de 1975, participaram representantes do Chile, Brasil, Argentina, Uruguai, Bolívia e Paraguai. O encontro foi aberto pelo próprio ditador Pinochet, que assumiu a paternidade do projeto, e presidido por Contreras. Os sócios da Operação ficaram surpresos quando souberam que o “grande irmão do norte” havia fornecido modernos sistemas computadores e assessoria técnica à DINA para que ela montasse um banco de dados que ajudasse na repressão aos grupos de esquerda.
O então chefe do SNI brasileiro, João Batista Figueiredo, recebeu um convite pessoal do Contreras, mas o nome do representante brasileiro na reunião até hoje continua sob segredo de Estado. No entanto, o país não assinaria o documento final aprovado na primeira reunião, embora participasse do grupo. Ele se juntaria oficialmente ao Condor na segunda reunião ocorrida em junho de 1976.
Numa carta de Contrera à Figueiredo, datada de agosto de 1975, podia se ler: “Também temos conhecimento das posições de Kubitschek e Letelier, o que no futuro poderá influenciar seriamente a estabilidade do Cone Sul de nosso hemisfério. O plano proposto por você para coordenar a ação contra certas autoridades eclesiástica e políticos da América Latina conta com o nosso decisivo apoio”. Em agosto do ano seguinte JK morreria num estranho acidente de carro e logo em seguida, em setembro, Letelier seria brutalmente assassinato. Antes que ano acabasse morreria outro ex-presidente do Brasil, João Goulart. Hoje são cada vez maiores os indícios que Jango tenha sido morto por agentes uruguaios a mando do governo brasileiro.
A Operação Condor foi planejada para ter três fases. A primeira seria basicamente a obtenção e troca de informações sobre a atuação de grupos oposicionistas no interior dos países envolvidos: Chile, Argentina, Uruguai, Brasil, Paraguai e Bolívia. A segunda fase era a operacional, ou seja, envolvia ação conjunta no seqüestro, tortura e execuções de militantes dentro da América do Sul. As fronteiras nacionais – e o direito ao exílio – agora caiam por terra quando se dizia respeito à repressão político-militar. A terceira fase – e a que mais chamou a atenção do mundo – envolvia assassinato de oposicionista fora da América Latina. Grupos de espiões e assassinos profissionais foram enviados para a Europa e Estados Unidos.
O governo do Brasil deu o seu aval e participou ativamente da 2ª e 3ª fase da Operação, mas resistiu quanto à última. Ele temia os efeitos negativos na opinião pública mundial. Naquele momento o general-presidente Geisel procurava “vender” a sua política de abertura lenta, gradual e segura. No entanto surgiram provas que existiu uma tentativa de articulação entre a DINA e o SNI para espionar opositores refugiados na Península Ibérica. Inclusive, cogitou-se assassinar o Almirante Aragão em Portugal.
Apesar da retórica da caça aos terroristas – entenda-se esquerda armada -, a ação dos órgãos de repressão se voltava cada vez mais para os políticos oposicionistas que não haviam ingressado na luta revolucionária e defendiam uma transição democrática e pacífica para seus países. Em cinco de outubro de 1975, Bernardo Leighton, ex-vice-presidente do Chile e líder democrata-cristão, sofreu um atentado enquanto se encontrava exilado na Itália. Dessa vez a DINA contou com apoio de um grupo fascista local chamado Vanguarda Nacional.
Em maio de 1976 seriam seqüestrados e friamente assassinados na cidade de Buenos Aires o ex-senador uruguaio Zelman Michelini e o ex-deputado Héctor Guttiérez Ruiz. Mais tarde, em 1º de junho, na mesma cidade, seria morto o ex-presidente da Bolívia, general Juan José Torres. Esses assassinatos faziam parte da segunda fase da Operação Condor.
O caso mais famoso – ocorrido na terceira fase – foi o assassinato do ex-ministro chileno Orlando Letelier em 21 de setembro de 1976. Seu carro explodiu nas ruas da capital dos Estados Unidos, Washington. Neste atentado morreu também uma jovem norte-americana, Michael Moffitt. O método foi o mesmo utilizado contra o general Prats. Novamente por trás do assassinato estava a figura sinistra de Townley.
A morte de Letelier foi um escândalo internacional que colocou o próprio governo dos Estados Unidos na parede. Afinal, tratava-se de um atentado terrorista organizado por um de seus principais aliados. O escândalo foi ainda maior quando se descobriu que a CIA e o Departamento de Estado poderiam ter evitado o ataque terrorista, pois sabiam que um grupo de agentes chilenos, com passaportes falsos, tinha planos de entrar no país. Portanto, a CIA foi omissa ou cúmplice do mais notório dos crimes da Operação Condor.
Num primeiro momento tentou-se jogar uma nuvem de fumaça sobre as possíveis origens do crime. Afirmou um jornal: “Os funcionários da Inteligência disseram que uma investigação paralela estava apurando a possibilidade de o sr. Letelier ter sido assassinado por extremistas esquerdistas chilenos como meio de romper as relações dos Estados Unidos com a Junta militar”. A mesma versão dada pela ditadura chilena. Era um verdadeiro escárnio à consciência do mundo. A imagem do governo Republicano se viu bastante abalada.
Mais tarde – já na prisão – Contreras afirmou que a ordem de execução veio diretamente de Pinochet e que a CIA teria ajudado a executá-la. Nada de estranho. A CIA esteve envolvida em tentativas de homicídios políticos em várias partes do mundo, como o do líder congolês Lumumba e do comandante-em-chefe das Forças Armadas do Chile, general René Schneider. O crime deste militar honrado teria sido “apoiar com firmeza a constituição chilena”.
No auge da repressão, o ministro das relações exteriores da Argentina, o almirante Guzzetti, visitou Kissinger e voltou animado com a acolhida recebida. Segundo ele, o secretário americano havia afirmado que “se o problema do terrorismo estivesse eliminado em dezembro ou janeiro (de 1977), ele acreditava que sérios problemas poderiam ser evitados nos Estados Unidos”. Isso enfureceu o embaixador norte-americano na Argentina que sugerira que o governo do seu país criticasse mais duramente a sistemática violação dos direitos humanos.
Os generais argentinos sempre afirmaram que a sugestão de uma guerra rápida contra o terrorismo havia sido feita pelo próprio Kissinger. Eles, como Pinochet e Contreras, apenas cumpriram ordem de seu líder. Em 1978, já fora do poder, Kissinger visitou o ditador Videla e elogiou “o trabalho extraordinário ao eliminar as forças terroristas”, mas advertiu que os métodos usados “não deviam ser perpetuados”. Esse era um endosso aos crimes nefandos cometidos pela ditadura Argentina até então.
Planos assassinos do Condor na Europa também foram descobertos e foi preciso desmontá-los rapidamente. A lista de possíveis assassinados era longa. Quando se descobriu que havia intenção de assassinar até mesmo um deputado democrata nos Estados Unidos as coisas se complicaram para o lado de Pinochet. Em dezembro de 1976 estavam suspensas as atividades do Condor fora do Cone Sul.
Jimmy Carter, candidato Democrata e que tinha como uma das bandeiras os direitos humanos, ganhou a eleição para a presidência dos Estados Unidos no final de 1976. As investigações do caso Letelier levaram à Pinochet e Contreras. Em agosto de 1977 a DINA foi fechada e Contreras saiu do Exército. Levaria ainda alguns anos para que ele fosse preso, julgado e condenado. Recentemente descobriu-se que ele estava na lista de pagamento da CIA.
O Condor, no entanto, continuou fazendo suas vítimas neste hemisfério, inclusive no Brasil da abertura. Em novembro de 1978 os uruguaios Lílian Celiberti e Universindo Diaz foram seqüestrados por policiais uruguaios e brasileiros na cidade de Porto Alegre. Depois de presos foram torturados e enviados de volta para o seu país. A pressão da imprensa nacional e internacional – que descobriu o seqüestro – impediu que os dois passassem a compor a lista de uruguaios desaparecidos, embora tivessem que passar cinco anos numa prisão.
O argentino Lorenzo Ismael Viña, desapareceu em junho de 1980 na cidade de Uruguaiana (RS). Horácio Campiglia, também argentino, foi preso no aeroporto do Galeão (RJ) em março de 1980. Os dois não tiveram a sorte de ter o seu seqüestro descoberto a tempo. Eles foram extraditados secretamente e desapareceram.
Baseado nestes dois casos – nos quais os assassinados tinham dupla nacionalidade: argentina e italiana – é que a justiça da Itália pediu a extradição de policiais e militares brasileiros. O pedido esbarrou com a nossa constituição que impede a extradição de brasileiros para julgamento em outros países. Esta garantia seria justa – e defensável - se as nossas autoridades – a partir de informação contidas no processo que corre na Itália – abrissem um processo contra os acusados. Eles não estão protegidos nem mesmo pela Lei da Anistia que abrange apenas os crimes realizados até o ano de 1979.
A Operação Condor foi responsável pela morte e desaparecimento de 135 uruguaios, 113 chilenos, 51 paraguaios e 11 brasileiros que estavam exilados em algum dos países envolvidos. Esta foi apenas uma pequena parte de um massacre ainda maior. Nestes anos sombrios de ditaduras militares morreram nas mãos da repressão política trinta mil argentinos, três mil chilenos, dois mil paraguaios, trezentos e cinqüenta brasileiros, duzentos uruguaios e cento e sessenta dois bolivianos. Os números do morticínio ainda são incompletos.
Em 1998 Pinochet foi preso por curto tempo em Londres a pedido do juiz espanhol Baltasar Garzón. Este foi um ato simbólico de grande importância. Na Argentina, Uruguai e Paraguai, vários comandantes militares e policiais também foram condenados e passaram algum tempo na cadeia por seus crimes odiosos. O Brasil ainda engatinha neste terreno. Nenhuma autoridade foi punida pelos crimes que cometeu.
É bom lembrarmos, também, que não foram punidos àqueles que mais se envolveram na desestabilização das democracias latino-americanas, apoiaram as ditaduras assassinas, ensinaram-lhe as técnicas modernas de tortura, deram-lhes suporte para impor o terrorismo de Estado, incentivaram e financiaram os órgãos de repressão (como a Operação Condor). Refiro-me às autoridades estadunidenses, aos Kissingers e Rockefellers. Contra esses não foi pedida nenhuma extradição nem se abriu nenhum processo. Esperamos que não apenas os seus fantoches, de casaca ou de farda, respondam perante os tribunais e a história.
Bibliografia:
Bandeira, Luiz Alberto Moniz – “Brasil e os golpes na Bolívia, Uruguai e Chile”; In: Espaço Acadêmico, nº28, setembro de 2003
Dinges, John – Os anos do Condor, Ed. Companhia das Letras, 2005
Krischke, Jair - Brasil e a Operação Condor,
*Augusto Buonicore, Historiador, mestre em ciência política pela Unicamp
* Opiniões aqui expressas não refletem, necessariamente, a opinião do site.
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domingo, 12 de maio de 2024
André Cintra - Como os dicionários retratam os negros – nos EUA e no Brasil
Visões racistas
ou discriminatórias – que tratam o negro como “escravo”, “indivíduo sem alma”
ou “indivíduo comercializável” – são invariavelmente predominantes nos
dicionários de língua portuguesa
por André Cintra
Publicado
11/05/2024 11:13 | Editado 11/05/2024 12:11
Há uma
sequência de Malcolm X (1992), o filmaço de Spike Lee, que
mostra a natureza ideológica das palavras e das representações. A cena é
ambientada no pátio da prisão norte-americana de Charleston. Baines (Albert
Hall) tenta atrair Malcolm (Denzel Washington) para a Nação do Islã. Mas, antes
do convite, há uma série de perorações sobre a relação entre brancos e negros.
“Você aceitou
tudo o que o homem branco lhe disse. Ele disse que você era um pagão negro – e
você acreditou nele”, afirma Baines. “Ele disse para você idolatrar um Jesus
loiro, de olhos azuis, de pele branca – e você acreditou. Ele disse que o preto
era uma maldição – e você acreditou. Você já procurou a palavra ‘preto’ no
dicionário?”.
A dupla se
dirige à biblioteca da cadeia, onde Baines abre um dicionário e lê diversas
definições de “negro”: “destituído de luz”; “desprovido de cor”; “envolto na
escuridão – logo, muito sombrio e obscuro, como em ‘futuro negro’” (…);
“coberto de sujeira”; “imundo”; “lúgubre”; “hostil”; “proibido, como ‘um dia
negro’”; “insensato ou extremamente perverso, como em ‘magia negra’”; “indica
desgraça, desonra ou culpa”.
A estudante
secundarista Franciele de Souza Meira
Baines empurra
o dicionário até Malcolm e pede para que ele leia os diversos significados da
palavra “branco”: “a cor da neve alva”; “o reflexo de todos os raios do
espectro”; “o oposto de preto”; “sem manchas ou defeitos”; “inocente”;
“puro” (…); “sem intenções malignas”; “inofensivo”; “honesto”;
“negociação justa”; “honorável”.
A provocação dá
certo, a ponto de Malcolm decidir ler e copiar todo o dicionário, de verbete em
verbete. É o estopim para a mudança que transformará um “vigarista de
Massachusetts” num
dos líderes negros mais influentes do século 20.
Não sei se a
jovem secundarista Franciele de Souza Meira, de 17 anos, já assistiu a Malcolm
X. Moradora de Extrema (MG), essa estudante de ensino médio do Instituto
Federal de São Paulo, matriculada no campus de Bragança Paulista (SP), foi
premiada por uma pesquisa de iniciação científica que lembra a viagem de
Malcolm pelo universo das palavras.
Para mostrar o
“viés racista” da língua portuguesa, Franciele selecionou 17 dicionários,
lançados em períodos distintos. Em cada um deles, buscou a definição de “preto”
e “negro”, fazendo uma análise comparativa do discurso. Porém, das edições
antigas (como o Rafael Bluteau, de 1712) até os contemporâneos (Aurélio e Houaiss),
não houve adaptações significativas.
As visões
racistas ou discriminatórias – que tratam o negro como “escravo”,
“indivíduo sem alma” ou “indivíduo comercializável” – são invariavelmente
predominantes. Apenas três dicionários – o da Academia Brasileira de Letras
(1976), o de Biderman (1992) e o de Bechara (2011) – não associam “negro” e
“preto” a padrões pejorativos.
“As definições
encontradas em dicionários mais antigos eram esperadas de certa forma, pois
esses dicionários foram publicados quando circulava, à época, um discurso
pró-escravidão”, comenta Franciele. “Em relação aos dicionários mais recentes,
realmente fiquei surpresa por ver que havia continuidade desse discurso,
relacionando os indivíduos negros ao período escravocrata.”
Sob orientação
do professor Rafael Prearo Lima, o estudo foi batizado de “Registro de ‘Preto’
e ‘Negro’ em Dicionários de Língua Portuguesa”. Em outubro de 2023, conquistou
o primeiro lugar na Bragantec (Feira de Ciência e Tecnologia de Bragança
Paulista), onde concorreu na categoria Ciências Humanas e Linguagens.
Cinco meses
depois, em março deste ano, foi medalha de ouro na maior feira de iniciação
científica da América Latina, a Febrace (Feira Brasileira de Ciências e
Engenharia). Franciele superou outros 43 projetos finalistas da categoria
“Ciências Humanas” e recebeu a premiação em cerimônia na USP (Universidade de
São Paulo).
Inicialmente, a
estudante secundarista pensou em usar a literatura – e não os dicionários –
para denunciar esse retrato dos negros como “inferiores, menos humanos”. Ao
trocar a ficção pelo “discurso oficial”, sua pesquisa ganhou força e
contundência. “As coisas que são colocadas nos dicionários representam uma
ideia da sociedade. Eles mostrarão as definições que servem para aquela
sociedade naquele tempo”, diz Franciele. “Não esperava que todo o discurso
mostrado durante o século 20 continuasse no século 21.”
O estudo também
mostra a falta que faz a efetivação da Lei 10.639/2003, que obriga escolas de
ensino fundamental e médio a incluírem no currículo conteúdos sobre a história
e a cultura afro-brasileiras. Não dá para mudar conceitos enraizados onde
faltam novos paradigmas. A pesquisa de Franciele dá pistas do longo caminho a
percorrer.
https://vermelho.org.br/2024/05/11/como-os-dicionarios-retratam-os-negros-nos-eua-e-no-brasil/
sexta-feira, 26 de janeiro de 2024
André Cintra - Nem The Crown nos convence de que precisamos de monarquias no mundo moderno
segunda-feira, 26 de dezembro de 2022
Desigualdade nos EUA é a maior desde a Grande Depressão
A desigualdade econômica nos Estados Unidos alcançou o nível mais elevado desde aquele que ficou conhecido como o mais maldito dos anos: 1929. Nas principais economias dos países de língua inglesa as desigualdades de renda alcançaram extremos que não eram vistos desde a era de “O Grande Gatsby”.
Por John Plender, para o Financial Times
De forma bem semelhante ao que ocorre nesta década, os anos 1920 foram um período de vigoroso aumento dos lucros corporativos e do endividamento familiar. Nadando em dinheiro fácil, Wall Street foi fisgada por aquilo que o economista J.K. Galbraith, no seu original trabalho subseqüente sobre o período - “The Great Crash” (”O Grande Crash”) -, chamou de “the magic of leverage” (”a mágica da alavancagem”): a capacidade de elevar os lucros pegando dinheiro emprestado.*
As empresas de investimentos forneceram o veículo para este carrossel financeiro, no qual uma destas empresas “bancava” uma outra, que por sua vez fazia o mesmo com uma próxima. Esta multiplicação embaralhada da assunção de riscos traz uma semelhança notável com a fragmentação de riscos nos atuais mercados de crédito baseados em drásticas alavancagens.
Na década de 1930, isso terminou com a bancarrota de bancos e a Grande Depressão. Agora, após décadas de “financialização” nos Estados Unidos e outras economias anglófonas, por meio da qual os serviços financeiros elevaram a sua fatia do produto interno bruto, os bancos estão sendo resgatados - com o uso de dinheiro público - na tentativa de garantir que a mesma coisa não volte a acontecer.
Sob uma perspectiva política, o aspecto notável da era de mercado livre e de desigualdades que teve início na década de 1980 é a exigüidade de reações contra a estagnação dos rendimentos dos cidadãos comuns em uma parcela tão grande da economia do mundo desenvolvido. Mas há sinais de que a mistura de políticas e circunstâncias econômicas que proporcionaram um prolongado laisser-passer aos ricos e ao empresariado está chegando ao fim.
Este é um território potencialmente perigoso. Porque, conforme argumentou Bill Gross, diretor-gerente do Pimco, o maior fundo de títulos do mundo: “Quando os frutos do trabalho da sociedade tornam-se mal distribuídos, quando os ricos ficam mais ricos e as classes média e baixa lutam para manter a cabeça acima da linha d’água, conforme ocorre nitidamente nos dias de hoje, o sistema acaba desabando. Os diversos barcos não ascendem de forma conjunta com a maré; o centro é incapaz de se sustentar”.
A questão é determinar o que acontecerá com a criação de riquezas, as avaliações do mercado de ações e o crescimento econômico se, conforme parece cada vez mais provável, houver uma redução drástica da tolerância popular em relação à desigualdade econômica e àquilo que é chamado genericamente de modelo de capitalismo de livre mercado.
O ponto inicial para qualquer análise desta questão é inevitavelmente os Estados Unidos, onde uma combinação de recessão, crise financeira e eleição presidencial trouxe várias das questões para a frente principal do debate político.
Indicadores da desigualdade
Um dos maiores indicadores da desigualdade é o chamado coeficiente Gini. O número do Departamento do Censo dos Estados Unidos para este índice em 2005 foi, de acordo com Gary Burtless, da Brookings Institution, o maior já registrado, o que significa a existência de extrema desigualdade. Uma análise dos números do Departamento Congressual do Orçamento por Jared Bernsteins do Instituto de Política Econômica aponta para uma direção similar. Entre 1979 e 2005 a renda, antes do pagamento dos impostos, dos domicílios mais pobres aumentou 1,3% ao ano, e a da classe média cresceu 1% ao ano. Já a renda daqueles indivíduos que compõem o grupo dos 1% mais ricos aumentou 200% antes do desconto de impostos e, o mais surpreendente, 228% após os impostos.
O resultado desta distribuição desequilibrada do crescimento da renda foi que, em 2005, a renda média após o pagamento de impostos do grupo que compõem o quinto mais pobre da população era de US$ 15.300, a do quinto intermediário de US$ 50.200, enquanto a dos 1% mais ricos foi superior a US$ 1 milhão.
Vendo a coisa sob um outro ângulo, em 1979 a renda pós-impostos dos 1% mais ricos era oito vezes superior àquela das famílias de renda média, e 23 vezes maior do que a do quinto mais pobre da população. Já em 2005, essas proporções aumentaram respectivamente para 21 e 70 vezes. Esse processo atingiu o seu ponto extremo com as reduções de impostos promovidas pelo atual presidente dos Estados Unidos, George W. Bush. Emmanuel Saez, da Universidade da Califórnia em Berkeley, calcula que durante a expansão econômica de 2002 a 2006 o topo plutocrata da pirâmide, que corresponde a 1% da população, obteve quase três quartos do crescimento da renda.
Indicadores da riqueza, oriundos da Pesquisa de Finanças dos Consumidores feita pelo Federal Reserve (o Fed, o banco central dos Estados Unidos), são menos atualizados, mas o quadro oferecido é similar. A fatia da riqueza dos Estados Unidos detida pelo 1% dos domicílios que ocupa o topo da pirâmide, subiu continuamente de 20% em 1976 para 38% em 1998. A concentração de renda é mais extrema do que em qualquer outro país da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) para o qual existem estatísticas disponíveis.
Desemprego
Embora alguns economistas questionem a integridade dos dados oficiais sobre a desigualdade, é difícil lançar dúvidas sobre esta tendência ampla percebida no decorrer do tempo - e embora as causas do alto nível de desigualdade de renda ainda sejam objetos de debates, há pouca dúvida de que a globalização contribuiu para este fenômeno. Em um ambiente cada vez menos sindicalizado, os trabalhadores norte-americanos foram alijados do mercado de trabalho global à medida que as fábricas transferiram a sua produção para países de baixo custo, como China, Índia e México.
Ao mesmo tempo, e mais importante, uma elite de indivíduos de altas rendas, especialmente em diretorias de finanças e conselhos administrativos em todo o país, experimentaram um aumento explosivo dos seus pagamentos, sendo que esses prêmios são cada vez mais oriundos das ações normais ou com opções de venda. Outras explicações incluem mudanças tecnológicas e o impacto da internacionalização dos mercados nos salários dos executivos mais bem pagos.
Os políticos ampliaram o fenômeno através do sistema federal de impostos. Da Grande Depressão até o início da década de 1980, o sistema tributário dos Estados Unidos favoreceu os trabalhadores de renda baixa ou média, em detrimento daqueles com altos rendimentos. Mas, a partir do governo Reagan, este padrão foi modificado.
Uma parcela desproporcional dos ganhos com renda, tanto sob os governos republicanos quanto sob os democratas, passou a ir para o bolso dos indivíduos de maior renda - uma política que foi apelidada pelo economista Paul Krugman de “Robin Hood às avessas”.
Desregulamentação
No mundo pós-Guerra Fria esta abordagem ficou evidente nas atitudes gerais dos mercados, das empresas e dos ricos. Após as políticas de desregulamentação dos governos de Ronald Reagan e de George H.W. Bush, o próprio democrata Bill Clinton revelou-se um conservador no campo fiscal. Embora no início do seu governo tivesse aumentado os impostos, ele depois reduziu a tributação sobre ganhos de capital de 28% para 20% e instaurou o Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (Nafta).
No Reino Unido, onde economistas do Instituto de Estudos Fiscais identificaram uma tendência crescente de desigualdade de renda, que chegou a níveis históricos desde que os trabalhistas assumiram o poder em 1997, a questão não gerou tanta controvérsia. Quando era primeiro-ministro, Tony Blair declarou que garantir que o jogador de futebol David Beckham ganhasse menos não era uma das suas maiores ambições.
Peter Mandelson, um dos arquitetos do Novo Trabalhismo britânico, ficou famoso por ter observado que o partido sentia-se “intensamente tranqüilo quanto ao fato de certas pessoas ficarem escandalosamente ricas - contanto que estas pagassem os seus impostos”. Os dois desviaram-se do seu caminho político original para cortejar o empresariado, da mesma forma que Gordon Brown, quando o atual primeiro-ministro era chanceler do Tesouro Público.
Até mesmo em países de língua inglesa nos quais há uma cultura mais igualitária, esta tendência à desigualdade é real. No início do século 21, segundo Anthony Atkinson e Andrew Leigh, a parcela de renda dos 1% mais ricos da população australiana era maior do que em qualquer outro período desde a Guerra da Coréia.**
No Canadá, que permanece mais sindicalizado do que o seu vizinho, a onda de altos salários veio mais tarde, e foi mais concentrada do que nos Estados Unidos. Emmanuel Saez e Michael Veall vêem uma explicação para isto baseada no fenômeno da fuga de cérebros: a ameaça de migração de executivos e profissionais canadenses de alta qualificação para os Estados Unidos pode ter provocado esse surto.***
Políticas econômicas liberais pareceram atraentes para os políticos pragmáticos da esquerda moderada porque elas pareciam resultar em altos índices de crescimento econômico. Quanto aos ricos, eles contribuíram bastante para a arrecadação fiscal. Chris Watling, do Longview Economics, observa: “É evidente que com um número tão pequeno de trabalhadores dando uma contribuição tão importante para a arrecadação tributária, é da mais alta importância para o governo estabelecer políticas que não ameacem tal arrecadação. É desta forma que se entende a atual situação de um governo trabalhista no Reino Unido, que, há mais de dez anos no poder, não promoveu aumentos de impostos para os ricos, mas elevou significativamente a carga tributária sobre a classe média, sobremaneira através de impostos ocultos”.
Tolerância
Mas por que será que este longo período de desigualdade crescente e de rendas estagnadas tem sido tolerado pela maioria dos eleitores? A resposta é que em todos os grandes países de língua inglesa, o padrão de vida desvinculou-se da renda. Em um período de crescimento econômico estável e de baixa inflação, conhecido pelos economistas como “a grande moderação”, indivíduos de renda média e baixa contraem prontamente mais dívidas, enquanto devoram as suas poupanças.
Os preços ascendentes dos ativos, especialmente no mercado imobiliário, criaram uma sensação de aumento de riqueza, independentemente da renda. A renegociação das hipotecas durante o longo período de redução das taxas de juros proporcionou uma fonte de fundos conveniente através da utilização de equities para o financiamento do consumo crescente.
Subitamente todo esse quadro mudou e, com isso, o cálculo político. O colapso do mercado imobiliário norte-americano deixou um rastro de equities negativas. Para muitos, o custo de morar está aumentando mais do que os salários. As casas não podem mais ser utilizadas como cofres de dinheiro e as poupanças precisam ser reconstruídas. A “financialização” está dando marcha à ré, e o setor financeiro não é mais capaz de turbinar o crescimento econômico. Fora dos Estados Unidos este processo está menos avançado, mas a tendência é clara.
Tendo como pano de fundo um cenário econômico mais do que preocupante, a falta de correlação entre o desempenho das empresas e os rendimentos estratosféricos de certos indivíduos começa a irritar a população. Os exemplos de Stan O’Neal, do Merrill Lynch, e Chuck Prince, do Citigroup, que pareceram ter sido recompensados pelo fracasso, exacerbaram essa irritação. Em outras plagas, até mesmo quando tais prêmios são modestos segundo os padrões dos Estados Unidos, como no caso do pagamento de 760 mil libras esterlinas a Adam Applegarth, ex-diretor-executivo da Northern Rock, uma financiadora de hipotecas agora nas mãos do governo britânico, o fenômeno causa igual, ou maior, indignação.
Há também a raiva em relação a um sistema que permite que os banqueiros embolsem enormes bônus quando as finanças estão a pleno vapor, enquanto os contribuintes pagam a conta quando os bancos fracassam. O modelo de capitalismo anglo-americano baseado no mercado parece estar enodoado, e uma dúvida esquisita paira sobre o processo de livre mercado. As empresas mais uma vez enfrentam um problema de legitimidade, conforme aconteceu quando se apropriaram de recursos públicos após o colapso da Enron. O pacto implícito entre os negócios e a política está rompendo-se.
Eleições nos EUA
A eleição presidencial norte-americana revelou até que ponto o clima mudou. Na busca da indicação democrata, Hillary Clinton atacou estridentemente as companhias de petróleo, medicamentos e de seguro-saúde. Ela manifestou sérias reservas em relação ao Nafta, um legado embaraçoso do seu marido, e opõe-se à renovação dos cortes de impostos para os ricos, uma política instituída por George W. Bush. Barack Obama, que critica veementemente a desigualdade, vai um passo além em uma plataforma similar, ao pedir a elevação do limite de renda taxada destinada ao social security (a previdência social dos Estados Unidos). Grande parte da velha batalha retórica entre esquerda e direita está ressurgindo nesta campanha, trazendo consigo uma forte indicação de reversão, no campo dos democratas, para as políticas de velho estilo do tipo taxar e gastar.
Enquanto isso o governo do Reino Unido gerenciou mal a sua tentativa de extrair mais impostos de estrangeiros que não estão domiciliados no país com objetivos fiscais, enviando, desta forma, de forma involuntária, um sinal de que Londres não mais recebe de braços abertos os investidores estrangeiros. O tema subjacente foi a necessidade de elevar os impostos em um nicho fiscal apertado. Parece que as empresas serão os bodes expiatórios dessa modificação das regras tributárias.
Preocupações crescentes com a desigualdade foram ecoadas por um punhado de empresários do setor privado. Em um evento para arrecadação de verbas para a campanha de Hillary Clinton, em dezembro do ano passado, Warren Buffett, o guru dos investimentos e o homem mais rico do mundo, de acordo com a revista “Forbes”, manifestou preocupações quanto à desigualdade de renda e a um sistema tributário cujo caráter redistribuidor é insuficiente. No Reino Unido, Nicholar Ferguson, presidente do SVG Capital, que investe em private equity, provocou furor entre os seus colegas ao afirmar ser injusto que os executivos do ramo arquem com índices tributários inferiores aos das suas faxineiras.
Mudança real
Na verdade, esta reação contra a desigualdade não se restringe aos países de língua inglesa. Pelos padrões dos Estados Unidos ou do Reino Unido, a desigualdade no Japão é insignificante. Mas, não obstante, ela foi elemento central da crítica do Partido Democrático do Japão (PDJ) ao governo do Partido Liberal Democrata (PLD) na eleição de julho do ano passado, quando o PDJ conquistou a maioria das cadeiras no congresso japonês.
Cresce no Japão uma reação política contra o fluxo livre de capital global. No ano passado o governo ampliou, alegando motivos vinculados à segurança nacional, a lista de setores nos quais a participação acionária dos investidores estrangeiro acima de 10% em determinada companhia exige sanções regulatórias.
O medo dos predadores estrangeiros, sejam eles os fundos soberanos, os fundos de hedge ou companhias multinacionais, também ajuda a explicar uma recente declaração de Takao Kitabata, um alto burocrata do Ministro da Economia, Comércio e Indústria. Kitabata afirmou que as companhias japonesas precisam ser capazes de selecionar os seus acionistas porque tais pessoas são “instáveis, irresponsáveis e gananciosas”. Enquanto isso o governo japonês nada fez para impedir uma inciativa das empresas do país de adotar defesas do tipo “pílula de veneno” para impedir as aquisições por empresas estrangeiras.
Na Alemanha, onde a filosofia igualitária também é forte, o relacionamento do governo liderado pelos democratas-cristãos com as empresas também passou por uma reviravolta. Quando na oposição a chanceler Angela Merkel era uma aguerrida defensora do empresariado, chegando até mesmo a ter defendido Klaus Esser, o ex-diretor do grupo de telecomunicações Mannesmann, que foi condenado por auferir um lucro multimilionário com a venda da companhia para a britânica Vodafone. Ela também criticava bastante o velho sistema alemão de negociação salarial coletiva.
Mas ultimamente Merkel vem ameaçando o empresariado alemão com a imposição de salários mínimos em diversos setores caso as empresas descartem as negociações coletivas e empurrem os salários para baixo. Esta é uma resposta populista à pressão eleitoral. Além das suas inseguranças quanto ao salário, os eleitores vêem com preocupação as atividades de empresas estrangeiras de private equities e fundos de hedge. Agora os alemães estão furiosos devido à revelação de que líderes empresariais sonegaram impostos usando contas secretas em Liechtenstein. Tudo isto tem sido acompanhado de um debate matizado de protecionismo a respeito da ampliação dos investimentos estrangeiros.
Nem todos os países encaixam-se neste padrão. Mas a reação pública pode ser a mesma. Na França, o presidente Nicolas Sarkozy é bastante criticado pelo seu relacionamento estreito com empresários milionários. Ele está procurando implementar aquelas que, para os padrões franceses, são políticas econômicas bastante liberais, que, caso sejam bem-sucedidas, poderão aumentar a desigualdade. Mas em um país no qual os eleitores não simpatizam com o empresariado, ele poderá deparar-se com problemas como o escândalo comercial na Société Générale, e a negociata envolvendo o grupo aeroespacial franco-alemão EADS.
A recente proposta de Sarkozy de taxar as opções acionárias pode ser um indicador de que haverá pela frente políticas menos amigáveis para com os negócios.
O que está óbvio neste novo clima é que o protecionismo é uma ameaça mais intensa. Se as empresas forem incapazes de encontrar uma maneira de conter o excesso de pagamento aos seus executivos, a sua legitimidade será questionada e a política de extrair mais impostos do setor corporativo irá se tornar mais atraente. A redistribuição de renda será uma pauta mais importante na agenda política. A reação reguladora à crise de crédito poderá também ser mais extremada e menos ponderada do que normalmente seria, ecoando a experiência da década de 1930, e da lei pós-Enron, Sarbanes-Oxley.
Não se sabe se os mercados detectaram este oceano de mudanças. Até que os países de língua inglesa superem a crise financeira e imobiliária, será impossível afirmar se a mudança de clima é transitória ou se é algo pior. Mas a mudança é real.
___________
*”The Great Crash”, 1929 (Hamish Hamilton, 1955) **”The Distribution of Top Incomes in Australia”. Australian National University Centre for Economic Policy Research discussion paper No 514 ***”The Evolution of High Incomes in Canada”, 1920-2000, NBER Working Paper No 9607
Tradução: UOL
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in vermelho - 12 DE ABRIL DE 2008 - 22h00










