Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
sábado, 5 de abril de 2025
Pedro Almeida Vieira - Sondagens (ou palermices) no país da manipulação de massas
sábado, 18 de maio de 2024
Pedro Almeida Vieira - Um irresponsável populista chamado Gouveia e Melo
segunda-feira, 8 de janeiro de 2024
Maria Afonso Peixoto entrevista Carlos Ademar autor de ‘Autobiografia do Doutor Oliveira Salazar’
CARLOS ADEMAR, HISTORIADOR, ESCRITOR E ANTIGO INSPECTOR DA PJ
‘Nos últimos
dois anos de vida, Salazar viveu num mundo de fantasia’
* Maria Afonso Peixoto // Janeiro 8, 2024
Como seria a
autobiografia de Salazar, se existisse? Não sabemos, e apenas podemos imaginar.
Foi o que fez Carlos Ademar, historiador, escritor e antigo inspector da
Polícia Judiciária, que ‘encarnou’ o antigo chefe do Estado Novo e escreveu um
livro de memórias na primeira pessoa. Mas com um twist. Nesta Autobiografia
do doutor Oliveira Salazar, encontramos o ditador num estado vulnerável,
perto do fim, a confrontar-se com o passado e com os seus fantasmas – que são
muitos, e implacáveis. O PÁGINA UM falou com o autor sobre esta obra que alia
factos com ficção, e que, apesar do título, tem um objectivo bem delineado,
muito além do seu cariz biográfico: “destruir” o mito por trás do homem.
Sei que a
ideia para este livro surgiu da Autobiografia do General Franco, de
Manuel Vázquez Montalbán, lançada há uns bons anos. Durante este tempo, foi
amadurecendo o “projecto”?
Sim; na
verdade, o ‘clique’, digamos assim, foi-me dado pelo Montalbán, quando li essa
obra, já para aí há uns 15 anos. Como é natural, eu não queria replicar
totalmente a sua ideia. Aquilo que retirei foi confrontar o nosso
“ditador-mor”, como eu lhe costumo chamar. E de facto tem razão, porque ao
longo dos anos eu andei à procura de… também andei à procura de tempo, que não
tinha [risos], porque é uma obra muito exigente em termos de pesquisa. E,
portanto, não era coisa que se fizesse em três ou quatro meses. Precisava de
muito tempo, e só agora há dois anos, quando mudei de estatuto profissional, é
que passei à disponibilidade [risos]. Ainda não estou reformado, mas
estou a caminho da reforma.
Como
inspector da Polícia Judiciária?
Sim. Eu estava na Escola, no agora Instituto de Polícia Judiciária e Ciências Criminais. E dos vários projectos que tinha em mente, agarrei-me a este porque era o mais apaixonante. Foi aquele que me seduziu mais, não obstante o trabalho que teria pela frente. Ao longo dos anos, fui burilando a ideia, para arranjar uma forma de a trabalhar, e não replicar exactamente aquilo que o Montalbán fez. Ele pôs o general Franco a fazer o discurso oficial do regime, e eu também o fiz relativamente ao meu “Salazar A”. Depois, o Montalbán faz o contraditório do discurso. E eu encontrei aqui uma fórmula que acho que não me correu mal, modéstia à parte, porque me agarrei a um facto da vida real do Salazar, que tem a ver com aquele período de 1969/70. Ele fica doente em 1969, e está no hospital durante largos meses, e em Fevereiro regressa a São Bento, já não como Presidente do Conselho. Mas pensa que ainda é, e morre depois em Julho de 1970. Aquele é um período em que ele anda entre a lucidez e a perturbação. Tem momentos de lucidez, que lhe permitem dar entrevistas, designadamente a que deu ao jornalista do L’Aurore, em Agosto de 1969, e preparar com o seu próprio punho um pequeno discurso para dirigir aos portugueses por ocasião do seu 80º aniversário. E eu explorei esta fase da sua vida, colocando-o a fazer o discurso oficial quando está lúcido, e o contraditório quando está perturbado. Portanto, podemos dizer que temos uma autobiografia na verdadeira acepção da palavra, ainda que sempre com aspas, obviamente [risos]. Porque apesar de ser ficção, é sempre a personagem, Salazar, a escrever em ambos os discursos.
E preferiu
fazer esta autobiografia ficcional, em vez de uma biografia, como já fez, por
exemplo, com o ‘capitão de Abril’ Vítor Alves?
Sim.
Biografias, já há várias de Salazar. Aliás, saiu agora uma recentemente, da
qual soube já depois de publicar o meu livro. Mas há muitas, e há uma
monumental que me serviu, de facto, de base de trabalho. Foi feita por alguém
insuspeito, no sentido em que era um incondicional apoiante de Oliveira
Salazar, e foi seu ministro dos Negócios Estrangeiros na década de 1960; estou
a falar de Franco Nogueira. Franco Nogueira tem uma obra monumental de seis
volumes grossos só sobre a vida de Salazar. E apesar de ser um seu
admirador e da sua obra, não se coibiu de contar determinados episódios que não
abonam muito a seu favor. Eu usei sobretudo os dois primeiros volumes da obra,
que se reportam às primeiras décadas de vida, e particularmente o primeiro
volume, que vai até ao momento em que ele chega a Ministro das Finanças, e não
há assim tanta coisa escrita sobre esse período. Esse primeiro volume foi muito
importante para encontrar determinadas histórias e episódios que me foram muito
úteis para fazer o próprio contraditório; para contrariar o discurso social de
Oliveira Salazar.
Nesse
‘contraditório’, Salazar é muito duro consigo próprio; como se se achasse uma
fraude absoluta, desde a sua aparente modéstia às origens humildes. Para
construir este monólogo interno, embora se trate de ficção, serviu-se de alguns
factos? Há motivos para crer que ele se sentia assim?
Nós,
obviamente, nunca saberemos, porque ele não deixou memórias. Deixou os seus
discursos; mas relativamente a essa questão, nunca saberemos. Agora, do ponto
de vista da pessoa interessada por este período e por esta personagem, pelo seu
tempo e por aquilo que fez e não fez, penso que não é completamente descabido
pensar que neste período, particularmente em 1969/70, em que ele estava muito
abandonado… Ele, de facto, nos últimos dois anos de vida, viveu num mundo
de fantasia. Havia ministros antigos dele que iam a São Bento pedir autorização
para fazer uma viagem a Londres, por exemplo. Esta é uma história contada pelo
Joaquim Vieira, se não estou em erro, no livro sobre a governanta de Salazar, a
dona Maria. Salazar não diz nada, está naqueles momentos em que está em baixo,
e é a dona Maria que se aproxima dele, lhe segreda algo ao ouvido, e depois diz
ao ministro que está autorizado a ir a Londres. E ele está sujeito a isto.
Digamos que não ‘enobrece’ muito uma pessoa chegar ao fim de vida e passar
por estas situações.
Mas relativamente ao que me perguntou, eu não tenho dúvidas de que ele próprio, neste isolamento e solidão, se tenha debatido com determinadas coisas que fez ou que não fez. Sobre o facto de ele ser dissimulado, isso não há dúvida absolutamente nenhuma, e basta dar-lhe o exemplo do assassinato de Humberto Delgado. O livro do Fernando Dacosta, Máscaras de Salazar, fala neste episódio, e depois há o Joaquim Vieira, no livro sobre a Micas, que era uma das raparigas que foi viver lá para casa e manteve uma relação de proximidade com Salazar, que conta a mesma história. Portanto, digamos que há várias fontes que dão a mesma informação.
Em que caso,
por exemplo, isso se observa?
No caso do
assassinato de Humberto Delgado, há um telefonema que Salazar recebe na
madrugada, pelas 2 hora ou 3 horas. Ninguém telefonava para São Bento a essa
hora. E é a dona Maria que vai atender, e quem estava do outro lado era o Jorge
Silva Pais, o director da PIDE. E ele diz que precisa de falar urgentemente com
o senhor Presidente do Conselho. Entretanto, a dona Maria chama o doutor
Salazar, e uma hora depois estão os dois sentados no gabinete a conversar sobre
o que se terá passado naquele dia; coisa tão grave que levou, primeiro ao
telefonema, e depois à viagem do Silva Pais a São Bento, e fez levantar Salazar
e vestir a sua farpela, porque o recebeu de fato e gravata àquelas horas da
madrugada. O que é certo é que Salazar ordena silêncio total sobre o assunto;
não se fala nisso, acabou, não sabemos de nada. Entretanto, cerca de um mês e
meio depois, os corpos do General Humberto Delgado e da sua secretária aparecem
em Espanha e são identificados. E Salazar faz um discurso na televisão dirigido
à Nação, dizendo que não sabe nada, e que a ‘nós’ não nos interessava a morte
dele; a outros, sim, poderia interessar, mas ‘nós’ não sabemos nada. Ou seja,
sobre o ser dissimulado que ele era, não há absoluta dúvida. Sempre foi assim.
Aliás, a alcunha que o ‘Salazar B’ lhe aplica, muitas vezes, no livro, é o
‘Manholas’, que era a alcunha do pai dele, António ‘Feitor’. Feitor, porque era
feitor da família mais rica entre Coimbra e Viseu, os Perestrelo. Mas ele, além
de feitor, também era comerciante, e vendia propriedades num bairro que estava
a nascer à volta da estação de comboios da CP de Santa Comba. Comprava e vendia
terrenos, e a alcunha de Manholas vem daí. E depois, penso que é o
Henrique Galvão que lhe adapta, e chama a Salazar o ‘Manholas filho’. E eu uso
muito, porque de facto, se alguma coisa o caracteriza é isto. Era um ser muito
dissimulado, calculista. Conhecia e sabia ler muito bem – enfim, mérito dele –
os homens, e sabia muito bem o que fazer e o que não dizer. A gestão dos
silêncios, tudo isto ele fazia muito bem, sempre com o objectivo de levar a
água ao seu moinho.
Como foi o
exercício de se colocar na ‘cabeça’ de Salazar?
A parte menos agradável foi fazer o discurso oficial. Mas até isso me deu algum gozo. O discurso oficial é baseado, naturalmente, nos seus discursos, ou de pessoas que estavam muito próximas; no fundo, eram as ideias defendidas e aplicadas pelo Estado Novo. Mas, sobretudo quando estava a rever texto, deu-me algum gozo porque quase que estava a ouvir a voz dele, aquela sibilante que ele tinha por ser de lá de cima da zona de Viseu. Mas muito mais gozo deu-me fazer o contraditório, como será bom de ver.
E porquê?
Porque eu sou
um amante da liberdade e da democracia, e dá sempre algum prazer arranjar
argumentos para destruir determinadas teses. E neste caso, não era muito
difícil. Portanto, conseguir ‘destrunfá-lo’, desarmá-lo, e provar por A mais B
que ele era mentiroso, aldrabão… Desde logo, tendo em conta o exemplo que lhe
dei, e muitos outros episódios. Deu-me, de facto, muito prazer. Enfim, estamos
a falar nisto e estão a aparecer-me algumas histórias e descobertas que eu fiz;
quer dizer, quem tenha lido a biografia do Franco Nogueira sabia. Eu não sabia
porque nunca a tinha lido e li-a de propósito para este trabalho. Mas descobrir
que Salazar tinha sido um poeta, nos seus primeiros tempos de professor, e
chegou até a publicar um livro de poesia. Eu dou alguns exemplos, que fui
também buscar ao Franco Nogueira…
Essa é uma
faceta pouco conhecida dele…
Pois é [risos].
E aquilo era tão mau [risos]. Ele era um escritor exímio, um grande prosador.
Aliás, António José Saraiva tem um texto num extinto jornal, se não estou em
erro, em que o elogia como um grande prosador da política portuguesa, talvez o
maior, dizia ele. E isso é inquestionável. Mas depois vamos ver aquela poesia,
e aquilo é uma coisa aflitiva, até. E desmascará-lo, colocar essa poesia aí, é
interessante. Porque ele teve o cuidado, quando começou a perceber que podia
vir a ter um futuro político – ele era um tipo inteligentíssimo, obviamente…
Estava inserido no meio católico, e começa por fazer o seminário, como é
sabido, e depois vai dar aulas para um colégio religioso em Viseu enquanto está
à espera de ter idade para tomar as ordens maiores. Depois acaba por não as
tomar, e vai para Coimbra para fazer o curso de Direito, e aí já está
convencido de que o seu futuro não é ser padre. Ele achava que poderia ser
muito mais útil à Igreja na vida política, do que propriamente na vida
eclesiástica. E não quer dizer que tenha sido só ele a autoconvencer-se; o
director do seminário e do colégio são pessoas com alguma influência na Igreja,
e encaminham-no nesse sentido.
Quando ele chega a Coimbra, leva cartas de referência desta gente toda e é inserido no meio católico de Coimbra, que também era um meio muito forte, sobretudo a Universidade e a Faculdade de Direito, onde ele vai estudar. Rapidamente se destaca, e cá está a vertente “manholas” a vir ao de cima mais uma vez. E veja este exemplo. No primeiro ano em que chega a Coimbra, não tem praticamente contactos nenhuns em na política. Eu recordo que, quando ele chega a Coimbra, estávamos no início da Primeira República, instaurada a 5 de Outubro de 1910, e ele começa as aulas em meados desse mês. Como sabemos, a República caracteriza-se por um sentimento anticlericalista do mais feroz que possamos imaginar. E todo aquele núcleo católico une-se em torno de um inimigo comum, que é a República. No primeiro ano, ele não faz grandes contactos, é sobretudo estudar e aplicar-se para que, no fim do ano, quando as notas fossem conhecidas, ele entrar naquele meio já ‘por cima’; ou seja, não como um soldado raso, mas já um ‘oficial de topo’. Porque ao aperceberem-se das notas e do potencial daquela figura, havia que o catapultar. E ele quando adere, já é reconhecido como alguém que pode vir a ter um futuro na vida política, em defesa da Igreja, para tentar repor o domínio da Igreja, que a existia até à implantação da República, em praticamente toda a sociedade. O papel de Salazar vem a ser este. E à medida que se vai destacando, vai sempre subindo na hierarquia do grupo católico de Coimbra; ao ponto de, já enquanto professor, a Igreja o convidar para abrir e encerrar sessões. Davam-lhe sempre o papel principal, e ele era um ‘mero’ professor de Direito. Portanto, a Igreja tem um papel fundamental na sua ascensão.
Foi o
calculismo de Salazar, como diz, aliado ao seu conhecimento do povo português,
que lhe permitiu ser um ditador bem-sucedido?
Sim, não tenho
dúvida absolutamente nenhuma. Eu já fiz essa referência relativamente ao
conhecimento do Homem e do povo português, particularmente. Porque ele usa, e
bem, o facto de termos vivido uma primeira República muito tumultuosa. Foram 16
anos de verdadeiro tumulto, com 40 e tal governos; não havia estabilidade, e
isto foi péssimo para a democracia e para a liberdade. Os republicanos não
souberam aproveitar a oportunidade que tiveram e desperdiçaram-na, e ele
aproveitou isso. De facto, ele é quem acaba por encabeçar esse movimento. A
astúcia dele passa por aí. Quando chama Estado Novo ao regime que criou em
1933, já é um bocadinho isso; ou seja, é acabar com o “estado velho” para
começar uma coisa nova. É o mesmo exemplo do que o Sidónio Pais tinha feito,
quando tomou o poder num golpe de Estado em 1917 e chamou ao seu regime
‘República Nova’. Esta ideia de começar de novo. E Salazar não escolheu a
palavra “República”, porque não o deixava muito confortável. Porque grande
parte dos apoiantes dele nem republicanos eram, eram monárquicos [risos]. De
facto, quem faz o 28 de Maio, que depois acaba por levá-lo ao poder, é uma
mescla, gente de variadíssimas tendências: monárquicos, fascistas, até
republicanos moderados havia. Portanto, ele procura não beliscar as
sensibilidades que lhe estão mais próximas, e de quem mais o apoia.
Por volta do 28
de Maio de 1926, ele vai escrevendo também para jornais católicos, vai fazendo
crítica particularmente à política económica e financeira, e vai-se tornando
também notado pelos escritos que vai produzindo. E há uma altura já em plena
ditadura, em que Portugal precisa desesperadamente de um empréstimo. E esse
empréstimo é negociado à exaustão, as exigências são muitas porque ninguém
confia na ditadura, nem na política económica que estava a ser seguida pelos
generais, e o empréstimo acaba por não chegar. Mas ao longo deste processo,
Salazar vai sempre criticando duramente o empréstimo. Quando ele é convidado
para ser Ministro das Finanças, a Igreja tem um papel importante a
catapultá-lo. Mas ele depois vai ter um outro apoio muito importante, que é o
Presidente da República, o general Óscar Carmona, que quando vê nele uma
solução, afasta os militares das Finanças, e mete Salazar como ministro das
Finanças. E quem disse que a pessoa ideal para ocupar o lugar era o Dr.
Oliveira Salazar, foi nem mais nem menos do que o Cardeal de Lisboa de então –
que ainda não era Manuel Gonçalves Cerejeira, que só vem mais tarde –, António
Belo. Mas quando Salazar começa a trabalhar, rapidamente se apercebe que o
empréstimo dava muito jeito. Ele tinha escrito vários artigos contra o
empréstimo, e para não ficar mal na fotografia, fala com o seu mais antigo e
fiel amigo, Mário Figueiredo; um verdadeiro nazi, como se veio a saber pela
altura da Segunda Guerra Mundial. Salazar incumbe-o de fazer um périplo pelas principais
capitais europeias, no sentido de conseguir o tal empréstimo. Mas tudo em
segredo. A verdade é que as coisas não correm bem, e o empréstimo acaba por não
vir na mesma. E era suposto que ninguém soubesse, mas alguém soube desse pedido
de empréstimo, e fez sair um artigo em Espanha, ao nível das elites. E soube-se
assim que Salazar tinha feito aquilo que tanto tinha condenado. E isto é mais
uma demonstração da sua forma de ser. Era um tipo que não olhava a meios para
atingir os fins, e que tudo fazia para salvaguardar a sua imagem – isso para
ele é que era o fundamental. A imagem do pobre, honesto, era sagrada.
Quando é que
acha que ele percebeu que podia mesmo ter um papel importante nos destinos do
país?
É um processo progressivo, que demora algum tempo, mas ele à medida que se vai envolvendo nos meandros políticos de Coimbra, tem um grande amigo que é também um dos grandes responsáveis pela sua inteligência e por aparecer como um hipotético Salvador da Pátria: o então padre Cerejeira. Mal ele acaba o curso de Direito, Cerejeira convida-o para ir para o antigo Convento dos Grilos – que os saudosistas continuam a chamar uma “república”. Mas esse Convento não tem nada a ver como uma república; era uma casa muito grande, cada um tinha o seu espaço, salas de estudo, e ali recebiam amigos e convidados, faziam reuniões do Movimento Católico… Portanto, aquilo era muito mais, e tinha mais condições do que qualquer república coimbrana. Salazar vai para lá por volta de 1915/16 e só sai em 1928. E à medida que se vai percebendo que poderia vir a ser alguém, o padre Cerejeira terá convencido Salazar a procurar o livro de poesia que ele tinha publicado com tanto amor e carinho, e que se chamava “Ais”… E ele recupera os livros todos que consegue, e destrói aquilo. Ao ponto de, quando Franco Nogueira faz o primeiro volume da biografia dele em 1977, ter andado à procura de um livro para ter um poema ou outro para decorar a biografia, e já não encontrou. Falou com velhos camaradas de Coimbra; um ou outro lembrava-se do livro, mas disseram-lhe que tinha desaparecido. E então, os poemas com que Franco Nogueira nos dá uma amostra das “capacidades poéticas” de Salazar, vai buscá-los aos jornais para onde ele tinha escrito alguns poemas. Enfim, este aspecto ilustra bem a importância que a preservação da imagem tinha para Salazar. Ele convenceu-se de que aquele livro poderia prejudicá-lo.
Não se
queria expor ao ridículo…
A última coisa
que ele quereria era isso!
Recomendaria
este livro a alguém que simpatize com Salazar?
Eu,
francamente, recomendaria este livro a muita gente, particularmente a quem nós
vamos chamando de ‘saudosistas’. Porque, de facto, de há uns anos a esta parte,
está a crescer uma onda de saudosismo, como se o regresso ao passado e a
emergência de uma figura do tipo de Salazar fosse a Salvadora da Pátria; como
dizem que ele foi quando entrou em 1928. Obviamente, este livro nunca pretendeu
ser um livro académico, é um livro de ficção. Embora eu não tenha gostado da
palavra “ficção”, que está na capa, e que foi uma exigência do departamento
comercial. Mas a verdade é que era preciso pôr ali qualquer coisa para que as
pessoas nas lojas soubessem onde arrumar o livro. Romance não era, ficção
histórica também não, e então ficou só ‘ficção’ debaixo do título. Mas nunca me
agradou.
Mas se tem
uma componente ficcional…
De ficção só
tem a estrutura, tudo o resto é História. Não consultei arquivos, mas fui
consultar o que está publicado, e tive o cuidado de ir buscar autores que foram
amigos dele e pessoas que colaboraram com ele, assim como pessoas que não
gostavam dele. E, portanto, além de serem muitas as fontes, são diversificadas
também a este nível. Respondendo à sua pergunta, o livro é recomendado a todos
porque de facto dá-nos uma imagem muito mais real do Salazar do que o mito que
foi criado. Daí que eu goste de dizer que o livro desconstrói o mito do
Salazar. De facto, é disso que se trata. E nos dias de hoje, este livro também
nasceu para fazer frente à tal onda de saudosismo que está instalada e que tem
vindo a crescer nos últimos tempos. Por isso, para quem quiser conhecer melhor
o Dr. Oliveira Salazar – é a minha opinião e eu sou suspeito porque sou o autor
–, é um livro altamente recomendado.
https://paginaum.pt/2024/01/08/nos-ultimos-dois-anos-de-vida-salazar-viveu-num-mundo-de-fantasia/
sexta-feira, 3 de março de 2023
Clara Pinto Correia - O verdadeiro milagre
A DERIVA DOS CONTINENTES
por Clara Pinto Correia // março 3, 2023
Desprezava-os a todos sem excepção,
esses velhos jardineiros enregelados
dos canteiros do amor.
Charles Dickens
DAVID COPPERFIELD, ou
The Personal History, Adventures,
Experience and Observation of
David Copperfield the Younger of
Blunderstone Rookery,
1850
Para grande incredulidade dos meus filhos quando eram
pequeninos[1],
tive o privilégio de crescer num tempo em que só se escrevia à mão, só se
faziam contas utilizando a memorização da tabuada, num mundo em que os gadgets ainda
não existiam, e lá em casa nem sequer tínhamos uma mera televisão a preto e
branco, daquelas só com dois canais e de horário muito limitado, uma vez que os
nossos Pais partilhavam firmemente o credo de que a televisão destruía as
famílias, impedindo-as de conversar[2]. O
que é que esse MAGICAL MYSTERY TOUR[3] me
deu? O gosto pela observação, sem dúvida; e, com ele, deu-me desde logo o
prazer de inventar histórias. Mas, se soube inventá-las, foi porque vivi uma
infância riquíssima passada a devorar livros atrás de livros. Aos oito anos,
numas férias grandes em que estava doente e via da janela ao lado da minha cama
as pessoas que iam para a praia todas satisfeitas com os seus chapéus de sol e
os seus baldes de plástico, eu estava ainda mais satisfeita do que elas: iam-se
todos embora, ninguém me chateava, a coberto de todo aquele sossego tinha
começado a ler A MARAVILHOSA VIAGEM DE NILS HOLGERSSON ATRAVÉS DA
SUÉCIA, da Selma Lagerlof[4], e
agora não conseguia parar. Até soneguei algures uma lanterninha para não parar
nem à noite. Estava positivamente enfeitiçada. Já tinha lido imensos livros
antes, mas isto era diferente. Naquela cama, sem poder ir àquela praia por
intervenção directa de Deus, eu acabava de descobrir o verdadeiro milagre da
literatura.
Os verdadeiros livros, quando são verdadeiramente bons, têm a
generosidade de não esperarem que as crianças cresçam para se deixarem ler, e,
assim fazendo, imprimir nelas a qualidade que fica marcada nos seus passos.
Aquele meu excitex do Nils Holgersson continuou a caminhar
comigo. Aos dez anos, veio parar-me às mãos[5] um
romance pouco conhecido de Erico Veríssimo, CAMINHOS
CRUZADOS[6].
Não sei quantas vezes o terei lido, mas foram dezenas, de certeza. Fiquei a
conhecer de cor todos os personagens, fiz a lápis folhas inteiras de esquemas
de como os caminhos de todos eles se cruzavam ao longo do romance.´
CPC E O SEMINÁRIO
“Estás a ouvir, Sebastião?
“Repara bem na pérola do Dickens que pus em epígrafe. David
está tão apaixonado por Dora que despreza todos os seus colegas do Tribunal que
não amam ninguém. A metáfora é fabulosa, e o humor é irresistível: David
está ridiculamente apaixonado, e como os leitores já foram
avisados várias vezes de que o caso vai ter um desfecho trágico esse enlevo
ainda é mais ridículo. É contra todas as regras do bom inglês usar
várias comparações numa única metáfora, e Dickens usa imensas palavras mas
nunca abandona os jardineiros e os jardins. Não se é considerado um dos
melhores escritores do mundo por acaso.”
Note-se a expressão atenta, concentrada, e positivamente maravilhada do
canídeo.
Claro que aprendi várias coisas sobre as vicissitudes do
comportamento humano, mas o que aprendi de mais importante, já lá vão 53 anos,
foi como se constrói em três parágrafos uma proeza literária autêntica, que
neste caso assinala o início da história. Já tive muitas décadas para tentar,
mas ainda não consegui chegar nem perto da qualidade com que o autor começa a
sua narrativa, descrevendo o nevoeiro que cobre a cidade na primeira luz da
manhã.
Vivi em Alfama, onde caminhei muitas manhãs por entre esse
nevoeiro. Estudei em Monterey, onde de madrugada esse nevoeiro era quase
intransponível. Já por várias vezes, nos meus próprios livros, dei o meu melhor
para descrever o mundo enfeitiçado das manhãs de nevoeiro. Mas, embora nunca mais
tenha lido o CAMINHOS CRUZADOS, sei que o nevoeiro do Erico
Veríssimo sempre foi melhor do que os meus.
Deus andava a mandar-me estas revelações de dois em dois
anos, sem dúvida para que eu conseguisse digeri-las convenientemente na minha
tenra idade. E foi assim que, aos doze anos, durante as férias de Natal, alguém
me ofereceu de presente[7] AS VINHAS DA IRA, de John Steinbeck[8]. Dois
anos antes do 25 de Abril, toda aquela saga da tenacidade dos pobres e da
indiferença dos ricos, com todos aqueles pequenos pormenores de outras
histórias constantemente intercalados, deu comigo em doida.
Pela primeira vez na minha vida, sublinhei várias passagens e
dobrei os cantinhos dessas páginas[9].
Andei ali uns tempos a escrever à Steinbeck, sempre a meter aquelas pequenas
narrativas de circunstância no meio da história principal. Há poucos inícios
tão bons como o de CAMINHOS CRUZADOS. Mas há poucos finais mais belos do que o
de TORTILLA
FLAT[10], quando Danny já morreu, a sua
casa já ardeu, e todos os seis amigos que ali partilharam com ele a estranha
vida de aventuras dos anos anteriores contemplam os escombros:
“A gente de Tortilla Flat dissolveu-se na escuridão. Os
amigos de Danny continuaram a olhar para a ruína fumegante. Olharam de forma
estranha uns para os outros e voltaram a olhar para a casa queimada. Instantes
depois, voltaram-se e afastaram-se lentamente, sem que, ao lado de um,
caminhasse outro.”
Clara Pinto Correia é bióloga, professora universitária e
escritora
[1] Note-se
a importância deste “eram pequeninos”: estavam naquela idade em que os meninos
acreditam em tudo o que lhes dizem as Mães. Mas, mesmo assim, um mundo sem PCs,
sem calculadoras, sem smartphones, sem TV-Cabo… “Oh, Mãe! Não digas essas coisas
que eu fico cheio de medo!” E foram perguntar ao Pai se era verdade, os
pestinhas. Based on a true story.
[2] Sempre
reconheci que eles tinham uma certa razão, e agora ainda acho mais, sobretudo
quando as famílias se sentam à mesa do restaurante, cada um agarra no seu tm, e
nunca mais se ouve um pio. Para que conste, nunca dei tms aos meus filhos,
quando os brindei com um PC era para fazer os TPCs durante duas horas e “ir a
sítios” durante quinze minutos, a televisão esteve seriamente regulada até o
mais velho fazer quinze anos, e nunca lhes comprei nenhuma PlayStation nem
nenhum outro monstro desses. Resposta a bombardeamentos de solicitações usando
a técnica do golpe baixo que se ouvia mais vezes lá em casa: “MAS-EU-NÃO-SOU-A
MÃE-DOS-OUTROS-MENINOS!”
[3] Para
benefício dos mais novos, o MAGICAL MYSTERY TOUR é o album
psicadélico dos Beatles em que John Lennon canta I AM THE WALRUS (letra
escrita totalmente em ácido durante dois fins-de-semana diferentes, o que
explica ser tão difícil de perceber) e STRAWBERRY FIELDS FOREVER (escrita
só de uma vez e baseada na infância de Lennon, portanto de compreensão um pouco
mais fácil).
[4] Claro
que a ideia não foi minha, que só tinha oito anos, quand mêmme. Foi
a minha professora primária, a Madalena, que eu adorava e achava linda, que nos
leu umas passagens nas aulas. Oh. Nunca mais larguei a minha Mãe até ela me
comprar o livro.
[5] Não
sei como. De certeza que foi Deus.
[6] “Então,
Clarinha, o que é que a menina está a ler agora?” – “É um romance do Erico
Veríssimo.” – “Ah, muiito bem! Com que então está a ler o CLARISSA?”
– “Não. O CLARISSA é para meninas. Este é mesmo um romance de
crescidos, e chama-se CAMINHOS CRUZADOS.” – “Ah, muito bem, muito
bem.” E lá ia a puta da velha (que, pensando bem nisso, provavelmente era
bastante mais nova do que eu) confabular com a minha Mãe sobre o tal de
romance para crescidos.
[7] Ou
então, no meio de caos das dezenas de prendas da família, foi Deus que lhe pôs
na capa um post-it a dizer CLARINHA e está a andar. Foi assim,
aliás, que nasceram os post-its.
[8] Era
a tradução portuguesa, claro está. Aos 28 anos, quando estava em Monterey (no
meio do nevoeiro) e, ao tentar traduzir o título usei THE RAISINS OF
ANGER, toda a gente me percebeu mas fui gozada até mais não. O verdadeiro
título original do livro é THE GRAPES OF WRATH. Eu sei que Deus
queria facilitar-me a vida com a tradução portuguesa, mas depois também se
devem ter divertiso imenso à minha custa, lá nos Céus.
[9] Haviam
de ver os meus livros agora. É cantinhos de página dobrados por tudo o lado, e,
na ausência de lápis nas proximidades, chego a marcar passagens, e até a
gatafunhar notas à margem, a esferográfica vermelha, ou a marcador de ponta de
grossa. E o que é que tem? Os livros são meus, ou não são?
[10] Tortilla
Flat é um pequeno planalto, cimeiro a Monterey, onde se acolhe a camada
populacional incapaz de pagar os custos extravagantes da vida na cidade. Porque
é que este título foi traduzido em português como O MILAGRE DE SAN
FRANCISCO, sendo que, ainda por cima, o romance não nos fala de milagre
absolutamente nenhum – a menos que a amizade entre os homens deva, de facto,
considerar-se um milagre? Estamos certos de que as más traduções não provam a
existência de Deus. Por outro lado, no entanto, pode ser que provem a
existência do Diabo. Já era meio caminho andado para Deus existir mesmo.
quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023
Frederico Duarte Carvalho - Ano II da Propaganda versus Jornalismo
HISTÓRIAS QUE EU SEI
Ano II da Propaganda versus Jornalismo
por Frederico Duarte Carvalho // fevereiro 21, 2023
A Guerra na Ucrânia vai entrar
no seu segundo ano e é cada vez mais notória a luta da propaganda versus
jornalismo. A recente reportagem do jornalista veterano norte-americano Seymour
Hersh sobre a sabotagem do gasoduto Nord Stream 1 e 2 pelos militares dos
Estados Unidos, que foi classificada de “ficção”, é um exemplo do que está em
causa. Ouça também esta crónica no P1 PODCAST.
Tenho aqui à minha frente um
livro que comprei em 2018. É a autobiografia do jornalista norte-americano
Seymour Hersh. O título diz tudo sobre quem é esta pessoa: “Repórter”. Apenas
isso. E já é muito. Na capa, o repórter está ao telefone (com fios) e tem uma
máquina de escrever à sua frente. A foto foi captada em 1972 na redacção do
“The New York Times”.
Seymour Hersh é um nome assaz
conhecido – e reconhecido – nos Estados Unidos. A sua primeira grande
reportagem data de 1969, quando denunciou o massacre de My Lai, no sul do
Vietname, onde soldados norte-americanos mataram mais de 300 civis. Ao serviço
do The New York Times, Hersh investigou depois o Watergate e muitas
das suas reportagens fazem parte da história que, em Agosto de 1974, levou à
demissão do Presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon.
Com boas fontes juntos dos
militares e serviços secretos norte-americanos, denunciou depois, em Março de
1975, um plano da CIA para recuperar um submarino soviético afundado no Oceano
Pacífico desde 1968. Conhecido como “Project Azorian”, o plano envolveu a construção de um navio
capaz de transportar poderosas gruas que iriam trazer o submarino à tona,
permitindo assim aos Estados Unidos terem acesso aos segredos nucleares dos
soviéticos. A construção do navio custou, em números dos dias de hoje, o equivalente
a 4 mil milhões de dólares. E contou com o apoio do milionário Howard Hughes
como fachada para a operação secreta.
Dois meses depois daquela
história, Seymour Hersh assinou uma segunda reportagem onde denunciava
operações navais de espionagem com submarinos norte-americanos em águas
territoriais da União Soviética. Uma operação que levantava muitas críticas dentro dos
meios militares dos EUA por colocar em causa a détente da
Guerra Fria.
Não foram histórias de “ficção”, mas pareciam. Bem mais recente, lembremo-nos de que, em 2004, Seymour Hersh, ao escrever então para a revista The New Yorker, foi ainda o jornalista que revelou ao mundo como eram os processos de tortura norte-americana na prisão iraquiana de Abu Ghraib.
Por isso, quando, aos 85
anos, este repórter escreve num site da Internet dedicado a
artigos que não conseguem ter lugar na Imprensa generalista, que os militares
dos Estados Unidos levaram a cabo uma missão secreta para destruírem o gasoduto
russo Nord Stream 1 e 2, através de uma explosão que se registou a 26 de
Setembro, na zona próxima à Noruega, então temos de ter em consideração que não
estamos propriamente face a um qualquer jornalista.
Por muito que a Casa Branca venha desmentir e dizer que a história de
Hersh é “completamente falsa” e que mais parece saída de uma “ficção”, sabemos
que não podemos simplesmente descartar aquela sabotagem que, no fundo, tem uma
grande importância estratégica para o conflito na Ucrânia, que entra agora no
seu segundo ano.
No prefácio da sua autobiografia, Seymour Hersh explica que ele é “um sobrevivente da época dourada do jornalismo, quando os repórteres dos jornais diários não precisavam de competir com o ciclo noticioso de 24 horas da televisão por cabo, quando os jornais tinham dinheiro da publicidade e dos anúncios de procura de emprego”. Uma época em que ele tinha a possibilidade de “viajar para qualquer lugar, a qualquer hora, por qualquer motivo, com cartões de crédito da empresa”.
Havia tempo para relatar uma
notícia de última hora sem ter de depender do que estava constantemente a
aparecer na página de Internet do jornal. Mas o que não havia mesmo no tempo de
Seymour Hersh, segundo ele, eram os “especialistas” e jornalistas de TV por
cabo “que começam as respostas a todas as perguntas com as duas palavras mais
mortais do mundo dos média: ‘Eu acho’”.
O jornalismo actual, acrescenta
Hersh, é composto, essencialmente, por coisas como “pouco mais do que dicas ou
indícios de algo tóxico ou criminoso”. A falta de tempo, dinheiro ou equipas
qualificadas, desembocam em “histórias do tipo ‘disse ele, disse ela’, nas
quais o repórter é pouco mais do que um papagaio”.
Aponta ainda este norte-americano: “Sempre considerei que a missão do jornalista era a procura da verdade e não a mera notícia do conflito. Houve um crime de guerra? Os jornais ficam agora dependentes de um relatório negociado nas Nações Unidas que surge, na melhor das hipóteses, meses depois dos factos. E os média fizeram algum esforço significativo para explicar por que um relatório da ONU não deve ser considerado por muitos, à volta do mundo, como sendo a última palavra? Existem sequer relatórios críticos sobre a ONU?”.
As perguntas de Hersh deviam ser
as perguntas de todos os jornalistas que dizem fazer jornalismo. E, de forma
lapidar, afirma este repórter: “Toda a minha carreira tem sido sobre a
importância de contar verdades importantes e indesejadas e tornar a América num
lugar mais informado. Talvez seja por isso que é muito doloroso pensar que
nunca teria conseguido fazer o que fiz se estivesse a trabalhar no mundo
caótico e desestruturado do jornalismo de hoje. Claro que ainda estou a
tentar”.
A tentar.
E essa tentativa viu-se agora com
o descrédito votado à sua reportagem sobre a destruição do gasoduto russo que
fornecia gás à Alemanha e que, na prática, veio ajudar ao aumento dos gastos da
produção de energia na Europa e todas as consequências que vemos com os
aumentos dos produtos nos supermercados e nas taxas de juros do crédito à
habitação. No fundo, a inflação.
A guerra é uma coisa terrível. Não há honra, não há regras – apesar das convenções de Genebra que quiserem inventar. O pior do ser humano é revelado, embora também existam histórias de heroísmo de um e outro lado.
Portugal, como membro da NATO –
aliás, membro fundador da NATO ainda no tempo da ditadura de Salazar –, está do
lado da Ucrânia. Logo, qualquer notícia que seja suspeita de agradar aos russos,
deve ser ponderada com critérios mais apertados do que qualquer outra que seja
bem mais simpática ao “nosso lado”.
A isso não se chama jornalismo,
mas sim propaganda.
Um ano volvido sobre o início da
Guerra na Ucrânia, esta já levou muitos jornalistas a irem visitar o terreno em
aventuras controladas nos cenários de guerra, de onde saíram vivos para
contarem histórias idênticas a muitas outras desde que o homem inventou a
barbárie dos conflitos armados modernos.
Fugas em massa, pais separados de filhos, despedidas comoventes, reencontros emocionantes, mortes de inocentes, exemplos de bravura e resistência, relatos de massacres inimagináveis, crimes de guerra, avanços e recuos de tropas, armas inteligentes e humanos cada vez mais estúpidos. Há de tudo para que se escrevam belos discursos, poemas, textos emotivos, artigos importantes, livros de crónicas que engrandecem currículos de jornalistas ditos “de guerra”.
Entretanto, na retaguarda,
enquanto uns vão jantar fora à sexta-feira, há ainda jornalistas como Seymour
Hersh que arriscam a vida e reputação ao revelarem o que alimenta de verdade
esta guerra. São esses quantos, que insistem em tentar fazer jornalismo, mesmo
correndo o risco de serem acusados de criar ficções, que ainda mantém a chama
do jornalismo acesa.
Só que, para eles, soldados da
pena jornalística, não haverá medalhas nem sequer uma chama eterna como num
monumento ao soldado caído.
Frederico Duarte Carvalho é
jornalista e escritor
https://paginaum.pt/2023/02/21/ano-ii-da-propaganda-versus-jornalismo/







