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sábado, 5 de abril de 2025

Pedro Almeida Vieira - Sondagens (ou palermices) no país da manipulação de massas


OPINIÃO

* Pedro Almeida Vieira

04/04/2025

Quando se afirma que uma sondagem foi feita com “rigor científico”, geralmente associada a uma margem de erro reduzida, espera-se, no mínimo, que esse rigor não se dissolva ao primeiro olhar sobre a ficha técnica. Mas o que o Público, a RTP e a Antena 1 aceitaram publicar por estes dias — com chancela 'científica' da Universidade Católica, via CESOP — não é uma sondagem: é uma palermice mascarada de estatística.

E pior: é uma palermice perigosa, porque serve para manipular a opinião pública sob o verniz da respeitabilidade acadêmica. Com a vitória sinalizada da ERC, essa entidade reguladora que há muito perdeu a humanidade e hoje apenas funciona como um armazém de olhares burocráticos, incapaz de defender os cidadãos contra a intoxicação informativa.

Começamos pelo número mais escandaloso: a taxa de resposta desta suposta sondagem (que, como todas as outras nunca são validadas externamente) foi de 29% . Isto significa, de forma crua, que sete em cada dez pessoas recusadas participaram na sondagem. Foram contatadas 4.177 pessoas, mas apenas 1.206 aceitaram responder. E, ainda assim, esses 1.206 são tratados como se representassem fielmente os mais de nove milhões de candidatos portugueses. Há aqui dois problemas graves que desviam invalidar qualquer pretensão de fiabilidade desta sondagem:

1. Seleção automática dos questionados : quem responde não é uma amostra examinada pura, mas sim quem quis responder. Esse grupo tende a ser mais politizado, mais disponível e, muitas vezes, mais alinhado com os meios de comunicação que encomendam a sondagem. Há uma diferença enorme entre uma amostra consultada de 1.206 pessoas com alta taxa de resposta e uma amostra de 1.206 extraída de um universo onde 71% recusaram participar. A Universidade Católica sabe isso; os diretores dos órgãos de comunicação social talvez -mas todos participem na farsa que alimentará notícias, comentários e entrevistas até a próxima fraude.

2. Distância entre método e realidade eleitoral : por mais que os 'produtores' destas 'sondagens' se defendam com “ponderações estatísticas”, o facto é que não se pode corresponder a uma visão de auto-selecção se não se conhecer sequer o perfil dos que não responderam. A ilusão de representatividade criada pelas chamadas ponderações é apenas isso: uma ilusão. Ou, se quisermos ser mais justos, um embuste.

Que uma universidade alimente este tipo de práticas já seria, por si só, um motivo de vergonha acadêmica. Que meios de comunicação social com responsabilidades públicas, como a RTP, aceitam difundir os resultados como se fossem uma fotografia fiável do país — isso, sim, é escandaloso. E que a ERC ajude e abençoe esta prática de manipulação de massa num regime democrático é uma prova de sua absoluta inutilidade e de uma indigência que mina a democracia. A ERC, que deve zelar pela integridade da informação divulgada, transforma-se, com a sua cumplicidade, numa aliada objectiva da pura desinformação.

Aliás, esta não é uma falha isolada. Há muito que os chamados estudos de opinião servem mais para formar percepções do que para retratar realidades. O objectivo não é saber em quem os portugueses tencionam votar, mas sim condicionar o voto dos indecisos com o argumento das previsões e da “preferência nacional”, construídas em cima de amostras frágeis e invejadas.

Não basta publicar a margem de erro (aqui 2,8%, como se isso tivesse algum valor real com 71% de não respondentes). A verdadeira margem de erro é outra: a do bom senso que se perdeu.

Estamos perante um caso claro de abuso da substituição acadêmica e jornalística para alimentar um ritual estatístico vazio. E, assim, quando o ritual substitui o rigor, a ciência cede o lugar à propaganda.
 
Se ainda há quem leve estas 'sondagens' a sério, só pode ser porque prefere viver numa realidade fabricada a aceitar a verdade nua: a maioria dos portugueses recusa participar nestes exercícios porque já percebe, por instinto, que são uma fraude. E essa é, por ironia, a única sondagem verdadeiramente representativa: a cada vez menor taxa de respostas em sondagens.

Há-de surgir o dia em que ninguém atenderá um telefone de uma empresa de sondagens – mas, lamentavelmente, serão sempre apresentados 'resultados' com rigor. Nem que se invente. Há gente para tudo, sobretudo quando a numeracia em Portugal ainda é pior do que a literacia.

https://www.paginaum.pt/2025/04/04/sondagens-ou-palermices-no-pais-da-manipulacao-de-massas

sábado, 18 de maio de 2024

Pedro Almeida Vieira - Um irresponsável populista chamado Gouveia e Melo


* Pedro Almeida Vieira
/ Maio 15, 2024

Gouveia e Melo andou em ‘conspirações de maledicência nos corredores militares‘ – irrelevantes e inúteis para a sociedade nacional e internacional – até lhe cair no colo a tarefa logística de vacinar contra a covid-19 até o periquito, incluindo, claro, crianças e jovens que jamais integravam grupos de risco.
A ‘medalha’ foi a sua ascensão, primeiro ao posto mais elevado do Almirantado da Marinha e depois ao cargo, para nosso encargo, de Chefe do Estado-Maior da Armada. E à boleia veio a peregrina ideia de ser ele um putativo candidato a Presidente da República, sustentada e promovida por jornais como o Diário de Notícias, que se transformou no seu órgão oficial, tanto é o palco que lhe concedem.
Desde aí, Gouveia e Melo, um especialista em submarinos, aproveita qualquer oportunidade para vir à tona mostrar a sua existência – e, hélas, tentar-nos convencer da suposta necessidade de o termos por perto, mesmo se ele tem vontade de mandar alguns de nós – presumo, os mais novos – morrer longe.
Em mais uma entrevista publicada hoje no Diário de Notícias, em parceria com a TSF (do mesmo grupo de media) somos confrontados com tiradas populistas e irresponsáveis, o que não admira porque vem de um irresponsável populista. Gouveia e Melo nada mais faz do que instigar um conflito grave. Fala das habituais passagens de navios russos na nossa gigantesca Zona Económica e Exclusiva (a quinta maior da Europa) – que deve ser fiscalizada com naturalidade – como se estivessem associadas a preparativos de uma invasão ou de um iminente conflito mundial. E, perante um conflito localizado geograficamente nos confins da Europa, face à nossa posição, e que deve ser tratado sobretudo pela via diplomática, e não por militares sedentos de bacoco protagonismo, destapa a sua veia – ou variz – bélica, prometendo insensatamente ‘carne lusa para canhão’.
Não é minimamente aceitável que em Portugal, em modelo democrático e em pleno século XXI, venha uma alta patente militar, como Gouveia e Melo, dizer estas duas simples frases a pretexto de um conflito armado grave, humanamente lastimável, mas que se circuscreve à mesma região há mais de dois anos: “E podem ter certeza absoluta de que se a Europa for atacada e a NATO nos exigir, vamos morrer onde tivermos de morrer para defender a Europa, que é a nossa casa comum. Afinal, estamos a defender o nosso modo de vida, a democracia, os nossos sistemas, a nossa economia“.
“Defender o nosso modo de vida, a democracia, os nossos sistemas, a nossa economia” não se faz, primeiro, através de uma organização militar a EXIGIR o que quer que seja a um povo, ainda mais ao povo de um país soberano com quase 900 anos de existência. A ideia de ‘carne para canhão’ não se conjuga bem como o ‘nosso modo de vida’ no século XXI.


Não se defende “o nosso modo de vida, a democracia, os nossos sistemas, a nossa economia” PROMETENDO que “vamos morrer onde tivermos de morrer”, sobretudo quando o senhor que assim promete não é o Mel Gibson a armar-se em romântico William Wallace – que, na realidade, foi enforcado e esquartejado por alta traição aos 35 anos – mas sim um homem de 63 anos, almirante e Chefe do Estado-Maior da Armada de um país da NATO, antevendo-se assim que, ficando tudo torto, ficará ele no recato do lar ou no conforto do seu gabinete a esquadrinhar estratégias e tácticas militares enquanto a gente (jovem) que ele enviou está a morrer onde tiver de morrer – e a matar. Tudo para supostamente se defender a Europa, como se fosse uma angélica pomba da paz.
Aliás, a ideia de “defender a Europa, que é a nossa casa comum”, colocando a Europa como um modelo, constitui uma pérola do populismo, ainda mais por meter a Rússia como pária. E nem é por a Rússia e a Ucrânia serem nações consideradas europeias, e nem é por ambos os países lamentavelmente não saberem o que é uma democracia, mas sim por o almirante Gouveia e Melo querer fazer-nos de parvos.
Se há um Continente do Mundo que é belicista, esse é a Europa, com conflitos seculares, mais ou menos duradouros, mais ou menos grotescos nas causas. Antes das chamadas Primeira Guerra Mundial (1914-1918) e da Segunda Guerra Mundial (1939-1945), já houvera muitos mais conflitos armados à escala planetária, e se as duas do século XX foram marcantes deve-se sobretudo à capacidade tecnológica de letalidade e de afectar mais vidas de civis. E em todos esses conflitos de grande dimensão, não me parece ter sido a Rússia a má da fita.


Se erro histórico houve para que a Europa não tenha evoluído nas últimas décadas em conjunto com os mesmo valores – aproveitando a Queda do Muro de Berlim e o colapso da União Soviética – foi o ostracismo a que se botou a Rússia – para agradar aos Estados Unidos –, não promovendo, por outro lado, através de vias diplomáticas, a resolução de evidentes disputas territoriais, como as da Crimeia e do Donbass.
A forma como se permite que militares se interponham em querelas que devem antes ser diplomáticas é um erro crasso. Ouvir um chefe militar anunciar alegremente que “vamos morrer onde tivermos de morrer para defender a Europa, que é a nossa casa comum” é um ultraje, porque uma guerra é a pior das formas de se atingir a paz.
Acham que foi melhor, por exemplo, a compra da Louisana aos franceses em 1803 ou seria preferível uma guerra franco-americana?
Acham que foi melhor, por exemplo, o Tratado de Montevideu em 1828 que consagrou a independência do Uruguai ou seria preferível antes dirimir uma anexação oportunista de Portugal aos territórios da Cisplatina antes ocupados por Espanha através de uma guerra entre o então recém-independente Brasil e os independentistas uruguaios?
Acham que foi melhor, por exemplo, os milhares de acordos e tratados para se resolverem os milhares de disputas territoriais a nível mundial ou seria preferível que milhares de Gouveias e Melos por este Mundo fora enviassem milhares de inocentes para morrerem (e matarem) em nome de uma suposta “casa comum”?



Uma das coisas mais absurdas destes tempos modernos é a desmesurada vontade de muitos responsáveis políticos e militares em levarem toda a Europa para uma guerra fratricida, que é regional, e que assim deve continuar até que surja uma paz moderada pela diplomacia e bom senso.
E o bom senso inclui permitir que o almirante Gouveia e Melo falar opine sobre o envio de ‘carne para canhão’ contra a Rússia, mas não que o faça como Chefe do Estado-Maior da Armada. Sem funções militares, pode ele mandar as postas de pescadas que assim quiser como comentador de assuntos militares. Ser-me-á indiferente. Mas tê-lo assim, nesta postura, como alta patente militar, assusta-me mais do que os mísseis russos.

https://paginaum.pt/2024/05/15/um-irresponsavel-populista-chamado-gouveia-e-melo/

segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

Maria Afonso Peixoto entrevista Carlos Ademar autor de ‘Autobiografia do Doutor Oliveira Salazar’


 


CARLOS ADEMAR, HISTORIADOR, ESCRITOR E ANTIGO INSPECTOR DA PJ

‘Nos últimos dois anos de vida, Salazar viveu num mundo de fantasia’

* Maria Afonso Peixoto // Janeiro 8, 2024

Como seria a autobiografia de Salazar, se existisse? Não sabemos, e apenas podemos imaginar. Foi o que fez Carlos Ademar, historiador, escritor e antigo inspector da Polícia Judiciária, que ‘encarnou’ o antigo chefe do Estado Novo e escreveu um livro de memórias na primeira pessoa. Mas com um twist. Nesta Autobiografia do doutor Oliveira Salazar, encontramos o ditador num estado vulnerável, perto do fim, a confrontar-se com o passado e com os seus fantasmas – que são muitos, e implacáveis. O PÁGINA UM falou com o autor sobre esta obra que alia factos com ficção, e que, apesar do título, tem um objectivo bem delineado, muito além do seu cariz biográfico: “destruir” o mito por trás do homem.


Sei que a ideia para este livro surgiu da Autobiografia do General Franco, de Manuel Vázquez Montalbán, lançada há uns bons anos. Durante este tempo, foi amadurecendo o “projecto”?

Sim; na verdade, o ‘clique’, digamos assim, foi-me dado pelo Montalbán, quando li essa obra, já para aí há uns 15 anos. Como é natural, eu não queria replicar totalmente a sua ideia. Aquilo que retirei foi confrontar o nosso “ditador-mor”, como eu lhe costumo chamar. E de facto tem razão, porque ao longo dos anos eu andei à procura de… também andei à procura de tempo, que não tinha [risos], porque é uma obra muito exigente em termos de pesquisa. E, portanto, não era coisa que se fizesse em três ou quatro meses. Precisava de muito tempo, e só agora há dois anos, quando mudei de estatuto profissional, é que passei à disponibilidade [risos].  Ainda não estou reformado, mas estou a caminho da reforma.

Como inspector da Polícia Judiciária?

Sim. Eu estava na Escola, no agora Instituto de Polícia Judiciária e Ciências Criminais. E dos vários projectos que tinha em mente, agarrei-me a este porque era o mais apaixonante. Foi aquele que me seduziu mais, não obstante o trabalho que teria pela frente. Ao longo dos anos, fui burilando a ideia, para arranjar uma forma de a trabalhar, e não replicar exactamente aquilo que o Montalbán fez. Ele pôs o general Franco a fazer o discurso oficial do regime, e eu também o fiz relativamente ao meu “Salazar A”. Depois, o Montalbán faz o contraditório do discurso. E eu encontrei aqui uma fórmula que acho que não me correu mal, modéstia à parte, porque me agarrei a um facto da vida real do Salazar, que tem a ver com aquele período de 1969/70. Ele fica doente em 1969, e está no hospital durante largos meses, e em Fevereiro regressa a São Bento, já não como Presidente do Conselho. Mas pensa que ainda é, e morre depois em Julho de 1970. Aquele é um período em que ele anda entre a lucidez e a perturbação. Tem momentos de lucidez, que lhe permitem dar entrevistas, designadamente a que deu ao jornalista do L’Aurore, em Agosto de 1969, e preparar com o seu próprio punho um pequeno discurso para dirigir aos portugueses por ocasião do seu 80º aniversário. E eu explorei esta fase da sua vida, colocando-o a fazer o discurso oficial quando está lúcido, e o contraditório quando está perturbado. Portanto, podemos dizer que temos uma autobiografia na verdadeira acepção da palavra, ainda que sempre com aspas, obviamente [risos]. Porque apesar de ser ficção, é sempre a personagem, Salazar, a escrever em ambos os discursos.

E preferiu fazer esta autobiografia ficcional, em vez de uma biografia, como já fez, por exemplo, com o ‘capitão de Abril’ Vítor Alves?

Sim. Biografias, já há várias de Salazar. Aliás, saiu agora uma recentemente, da qual soube já depois de publicar o meu livro. Mas há muitas, e há uma monumental que me serviu, de facto, de base de trabalho. Foi feita por alguém insuspeito, no sentido em que era um incondicional apoiante de Oliveira Salazar, e foi seu ministro dos Negócios Estrangeiros na década de 1960; estou a falar de Franco Nogueira. Franco Nogueira tem uma obra monumental de seis volumes grossos só sobre a vida de Salazar. E apesar de ser um seu admirador e da sua obra, não se coibiu de contar determinados episódios que não abonam muito a seu favor. Eu usei sobretudo os dois primeiros volumes da obra, que se reportam às primeiras décadas de vida, e particularmente o primeiro volume, que vai até ao momento em que ele chega a Ministro das Finanças, e não há assim tanta coisa escrita sobre esse período. Esse primeiro volume foi muito importante para encontrar determinadas histórias e episódios que me foram muito úteis para fazer o próprio contraditório; para contrariar o discurso social de Oliveira Salazar.

Nesse ‘contraditório’, Salazar é muito duro consigo próprio; como se se achasse uma fraude absoluta, desde a sua aparente modéstia às origens humildes. Para construir este monólogo interno, embora se trate de ficção, serviu-se de alguns factos? Há motivos para crer que ele se sentia assim?

Nós, obviamente, nunca saberemos, porque ele não deixou memórias. Deixou os seus discursos; mas relativamente a essa questão, nunca saberemos. Agora, do ponto de vista da pessoa interessada por este período e por esta personagem, pelo seu tempo e por aquilo que fez e não fez, penso que não é completamente descabido pensar que neste período, particularmente em 1969/70, em que ele estava muito abandonado…  Ele, de facto, nos últimos dois anos de vida, viveu num mundo de fantasia. Havia ministros antigos dele que iam a São Bento pedir autorização para fazer uma viagem a Londres, por exemplo. Esta é uma história contada pelo Joaquim Vieira, se não estou em erro, no livro sobre a governanta de Salazar, a dona Maria. Salazar não diz nada, está naqueles momentos em que está em baixo, e é a dona Maria que se aproxima dele, lhe segreda algo ao ouvido, e depois diz ao ministro que está autorizado a ir a Londres. E ele está sujeito a isto.  Digamos que não ‘enobrece’ muito uma pessoa chegar ao fim de vida e passar por estas situações.  

Mas relativamente ao que me perguntou, eu não tenho dúvidas de que ele próprio, neste isolamento e solidão, se tenha debatido com determinadas coisas que fez ou que não fez. Sobre o facto de ele ser dissimulado, isso não há dúvida absolutamente nenhuma, e basta dar-lhe o exemplo do assassinato de Humberto Delgado. O livro do Fernando Dacosta, Máscaras de Salazar, fala neste episódio, e depois há o Joaquim Vieira, no livro sobre a Micas, que era uma das raparigas que foi viver lá para casa e manteve uma relação de proximidade com Salazar, que conta a mesma história. Portanto, digamos que há várias fontes que dão a mesma informação.

Em que caso, por exemplo, isso se observa?

No caso do assassinato de Humberto Delgado, há um telefonema que Salazar recebe na madrugada, pelas 2 hora ou 3 horas. Ninguém telefonava para São Bento a essa hora. E é a dona Maria que vai atender, e quem estava do outro lado era o Jorge Silva Pais, o director da PIDE. E ele diz que precisa de falar urgentemente com o senhor Presidente do Conselho. Entretanto, a dona Maria chama o doutor Salazar, e uma hora depois estão os dois sentados no gabinete a conversar sobre o que se terá passado naquele dia; coisa tão grave que levou, primeiro ao telefonema, e depois à viagem do Silva Pais a São Bento, e fez levantar Salazar e vestir a sua farpela, porque o recebeu de fato e gravata àquelas horas da madrugada. O que é certo é que Salazar ordena silêncio total sobre o assunto; não se fala nisso, acabou, não sabemos de nada. Entretanto, cerca de um mês e meio depois, os corpos do General Humberto Delgado e da sua secretária aparecem em Espanha e são identificados. E Salazar faz um discurso na televisão dirigido à Nação, dizendo que não sabe nada, e que a ‘nós’ não nos interessava a morte dele; a outros, sim, poderia interessar, mas ‘nós’ não sabemos nada. Ou seja, sobre o ser dissimulado que ele era, não há absoluta dúvida. Sempre foi assim. Aliás, a alcunha que o ‘Salazar B’ lhe aplica, muitas vezes, no livro, é o ‘Manholas’, que era a alcunha do pai dele, António ‘Feitor’. Feitor, porque era feitor da família mais rica entre Coimbra e Viseu, os Perestrelo. Mas ele, além de feitor, também era comerciante, e vendia propriedades num bairro que estava a nascer à volta da estação de comboios da CP de Santa Comba. Comprava e vendia terrenos, e a alcunha de Manholas vem daí.  E depois, penso que é o Henrique Galvão que lhe adapta, e chama a Salazar o ‘Manholas filho’. E eu uso muito, porque de facto, se alguma coisa o caracteriza é isto. Era um ser muito dissimulado, calculista. Conhecia e sabia ler muito bem – enfim, mérito dele – os homens, e sabia muito bem o que fazer e o que não dizer. A gestão dos silêncios, tudo isto ele fazia muito bem, sempre com o objectivo de levar a água ao seu moinho.

Como foi o exercício de se colocar na ‘cabeça’ de Salazar?

A parte menos agradável foi fazer o discurso oficial. Mas até isso me deu algum gozo. O discurso oficial é baseado, naturalmente, nos seus discursos, ou de pessoas que estavam muito próximas; no fundo, eram as ideias defendidas e aplicadas pelo Estado Novo. Mas, sobretudo quando estava a rever texto, deu-me algum gozo porque quase que estava a ouvir a voz dele, aquela sibilante que ele tinha por ser de lá de cima da zona de Viseu. Mas muito mais gozo deu-me fazer o contraditório, como será bom de ver.

E porquê?

Porque eu sou um amante da liberdade e da democracia, e dá sempre algum prazer arranjar argumentos para destruir determinadas teses. E neste caso, não era muito difícil. Portanto, conseguir ‘destrunfá-lo’, desarmá-lo, e provar por A mais B que ele era mentiroso, aldrabão… Desde logo, tendo em conta o exemplo que lhe dei, e muitos outros episódios. Deu-me, de facto, muito prazer. Enfim, estamos a falar nisto e estão a aparecer-me algumas histórias e descobertas que eu fiz; quer dizer, quem tenha lido a biografia do Franco Nogueira sabia. Eu não sabia porque nunca a tinha lido e li-a de propósito para este trabalho. Mas descobrir que Salazar tinha sido um poeta, nos seus primeiros tempos de professor, e chegou até a publicar um livro de poesia. Eu dou alguns exemplos, que fui também buscar ao Franco Nogueira…

Essa é uma faceta pouco conhecida dele…

Pois é [risos]. E aquilo era tão mau [risos]. Ele era um escritor exímio, um grande prosador. Aliás, António José Saraiva tem um texto num extinto jornal, se não estou em erro, em que o elogia como um grande prosador da política portuguesa, talvez o maior, dizia ele. E isso é inquestionável. Mas depois vamos ver aquela poesia, e aquilo é uma coisa aflitiva, até. E desmascará-lo, colocar essa poesia aí, é interessante. Porque ele teve o cuidado, quando começou a perceber que podia vir a ter um futuro político – ele era um tipo inteligentíssimo, obviamente… Estava inserido no meio católico, e começa por fazer o seminário, como é sabido, e depois vai dar aulas para um colégio religioso em Viseu enquanto está à espera de ter idade para tomar as ordens maiores. Depois acaba por não as tomar, e vai para Coimbra para fazer o curso de Direito, e aí já está convencido de que o seu futuro não é ser padre. Ele achava que poderia ser muito mais útil à Igreja na vida política, do que propriamente na vida eclesiástica. E não quer dizer que tenha sido só ele a autoconvencer-se; o director do seminário e do colégio são pessoas com alguma influência na Igreja, e encaminham-no nesse sentido.

Quando ele chega a Coimbra, leva cartas de referência desta gente toda e é inserido no meio católico de Coimbra, que também era um meio muito forte, sobretudo a Universidade e a Faculdade de Direito, onde ele vai estudar. Rapidamente se destaca, e cá está a vertente “manholas” a vir ao de cima mais uma vez. E veja este exemplo. No primeiro ano em que chega a Coimbra, não tem praticamente contactos nenhuns em na política. Eu recordo que, quando ele chega a Coimbra, estávamos no início da Primeira República, instaurada a 5 de Outubro de 1910, e ele começa as aulas em meados desse mês. Como sabemos, a República caracteriza-se por um sentimento anticlericalista do mais feroz que possamos imaginar. E todo aquele núcleo católico une-se em torno de um inimigo comum, que é a República. No primeiro ano, ele não faz grandes contactos, é sobretudo estudar e aplicar-se para que, no fim do ano, quando as notas fossem conhecidas, ele entrar naquele meio já ‘por cima’; ou seja, não como um soldado raso, mas já um ‘oficial de topo’. Porque ao aperceberem-se das notas e do potencial daquela figura, havia que o catapultar. E ele quando adere, já é reconhecido como alguém que pode vir a ter um futuro na vida política, em defesa da Igreja, para tentar repor o domínio da Igreja, que a existia até à implantação da República, em praticamente toda a sociedade. O papel de Salazar vem a ser este. E à medida que se vai destacando, vai sempre subindo na hierarquia do grupo católico de Coimbra; ao ponto de, já enquanto professor, a Igreja o convidar para abrir e encerrar sessões. Davam-lhe sempre o papel principal, e ele era um ‘mero’ professor de Direito. Portanto, a Igreja tem um papel fundamental na sua ascensão.

Foi o calculismo de Salazar, como diz, aliado ao seu conhecimento do povo português, que lhe permitiu ser um ditador bem-sucedido?

Sim, não tenho dúvida absolutamente nenhuma. Eu já fiz essa referência relativamente ao conhecimento do Homem e do povo português, particularmente. Porque ele usa, e bem, o facto de termos vivido uma primeira República muito tumultuosa. Foram 16 anos de verdadeiro tumulto, com 40 e tal governos; não havia estabilidade, e isto foi péssimo para a democracia e para a liberdade. Os republicanos não souberam aproveitar a oportunidade que tiveram e desperdiçaram-na, e ele aproveitou isso. De facto, ele é quem acaba por encabeçar esse movimento. A astúcia dele passa por aí. Quando chama Estado Novo ao regime que criou em 1933, já é um bocadinho isso; ou seja, é acabar com o “estado velho” para começar uma coisa nova. É o mesmo exemplo do que o Sidónio Pais tinha feito, quando tomou o poder num golpe de Estado em 1917 e chamou ao seu regime ‘República Nova’. Esta ideia de começar de novo. E Salazar não escolheu a palavra “República”, porque não o deixava muito confortável. Porque grande parte dos apoiantes dele nem republicanos eram, eram monárquicos [risos]. De facto, quem faz o 28 de Maio, que depois acaba por levá-lo ao poder, é uma mescla, gente de variadíssimas tendências: monárquicos, fascistas, até republicanos moderados havia. Portanto, ele procura não beliscar as sensibilidades que lhe estão mais próximas, e de quem mais o apoia.

Por volta do 28 de Maio de 1926, ele vai escrevendo também para jornais católicos, vai fazendo crítica particularmente à política económica e financeira, e vai-se tornando também notado pelos escritos que vai produzindo. E há uma altura já em plena ditadura, em que Portugal precisa desesperadamente de um empréstimo. E esse empréstimo é negociado à exaustão, as exigências são muitas porque ninguém confia na ditadura, nem na política económica que estava a ser seguida pelos generais, e o empréstimo acaba por não chegar. Mas ao longo deste processo, Salazar vai sempre criticando duramente o empréstimo. Quando ele é convidado para ser Ministro das Finanças, a Igreja tem um papel importante a catapultá-lo. Mas ele depois vai ter um outro apoio muito importante, que é o Presidente da República, o general Óscar Carmona, que quando vê nele uma solução, afasta os militares das Finanças, e mete Salazar como ministro das Finanças. E quem disse que a pessoa ideal para ocupar o lugar era o Dr. Oliveira Salazar, foi nem mais nem menos do que o Cardeal de Lisboa de então – que ainda não era Manuel Gonçalves Cerejeira, que só vem mais tarde –, António Belo. Mas quando Salazar começa a trabalhar, rapidamente se apercebe que o empréstimo dava muito jeito. Ele tinha escrito vários artigos contra o empréstimo, e para não ficar mal na fotografia, fala com o seu mais antigo e fiel amigo, Mário Figueiredo; um verdadeiro nazi, como se veio a saber pela altura da Segunda Guerra Mundial. Salazar incumbe-o de fazer um périplo pelas principais capitais europeias, no sentido de conseguir o tal empréstimo. Mas tudo em segredo. A verdade é que as coisas não correm bem, e o empréstimo acaba por não vir na mesma. E era suposto que ninguém soubesse, mas alguém soube desse pedido de empréstimo, e fez sair um artigo em Espanha, ao nível das elites. E soube-se assim que Salazar tinha feito aquilo que tanto tinha condenado. E isto é mais uma demonstração da sua forma de ser. Era um tipo que não olhava a meios para atingir os fins, e que tudo fazia para salvaguardar a sua imagem – isso para ele é que era o fundamental. A imagem do pobre, honesto, era sagrada.

Quando é que acha que ele percebeu que podia mesmo ter um papel importante nos destinos do país?

É um processo progressivo, que demora algum tempo, mas ele à medida que se vai envolvendo nos meandros políticos de Coimbra, tem um grande amigo que é também um dos grandes responsáveis pela sua inteligência e por aparecer como um hipotético Salvador da Pátria: o então padre Cerejeira. Mal ele acaba o curso de Direito, Cerejeira convida-o para ir para o antigo Convento dos Grilos – que os saudosistas continuam a chamar uma “república”. Mas esse Convento não tem nada a ver como uma república; era uma casa muito grande, cada um tinha o seu espaço, salas de estudo, e ali recebiam amigos e convidados, faziam reuniões do Movimento Católico… Portanto, aquilo era muito mais, e tinha mais condições do que qualquer república coimbrana. Salazar vai para lá por volta de 1915/16 e só sai em 1928. E à medida que se vai percebendo que poderia vir a ser alguém, o padre Cerejeira terá convencido Salazar a procurar o livro de poesia que ele tinha publicado com tanto amor e carinho, e que se chamava “Ais”… E ele recupera os livros todos que consegue, e destrói aquilo. Ao ponto de, quando Franco Nogueira faz o primeiro volume da biografia dele em 1977, ter andado à procura de um livro para ter um poema ou outro para decorar a biografia, e já não encontrou. Falou com velhos camaradas de Coimbra; um ou outro lembrava-se do livro, mas disseram-lhe que tinha desaparecido. E então, os poemas com que Franco Nogueira nos dá uma amostra das “capacidades poéticas” de Salazar, vai buscá-los aos jornais para onde ele tinha escrito alguns poemas. Enfim, este aspecto ilustra bem a importância que a preservação da imagem tinha para Salazar. Ele convenceu-se de que aquele livro poderia prejudicá-lo.

Não se queria expor ao ridículo…

A última coisa que ele quereria era isso!

Recomendaria este livro a alguém que simpatize com Salazar?

Eu, francamente, recomendaria este livro a muita gente, particularmente a quem nós vamos chamando de ‘saudosistas’. Porque, de facto, de há uns anos a esta parte, está a crescer uma onda de saudosismo, como se o regresso ao passado e a emergência de uma figura do tipo de Salazar fosse a Salvadora da Pátria; como dizem que ele foi quando entrou em 1928. Obviamente, este livro nunca pretendeu ser um livro académico, é um livro de ficção. Embora eu não tenha gostado da palavra “ficção”, que está na capa, e que foi uma exigência do departamento comercial. Mas a verdade é que era preciso pôr ali qualquer coisa para que as pessoas nas lojas soubessem onde arrumar o livro. Romance não era, ficção histórica também não, e então ficou só ‘ficção’ debaixo do título. Mas nunca me agradou.

Mas se tem uma componente ficcional…

De ficção só tem a estrutura, tudo o resto é História. Não consultei arquivos, mas fui consultar o que está publicado, e tive o cuidado de ir buscar autores que foram amigos dele e pessoas que colaboraram com ele, assim como pessoas que não gostavam dele. E, portanto, além de serem muitas as fontes, são diversificadas também a este nível. Respondendo à sua pergunta, o livro é recomendado a todos porque de facto dá-nos uma imagem muito mais real do Salazar do que o mito que foi criado. Daí que eu goste de dizer que o livro desconstrói o mito do Salazar. De facto, é disso que se trata. E nos dias de hoje, este livro também nasceu para fazer frente à tal onda de saudosismo que está instalada e que tem vindo a crescer nos últimos tempos. Por isso, para quem quiser conhecer melhor o Dr. Oliveira Salazar – é a minha opinião e eu sou suspeito porque sou o autor –, é um livro altamente recomendado.

https://paginaum.pt/2024/01/08/nos-ultimos-dois-anos-de-vida-salazar-viveu-num-mundo-de-fantasia/


sexta-feira, 3 de março de 2023

Clara Pinto Correia - O verdadeiro milagre

A DERIVA DOS CONTINENTES

por Clara Pinto Correia // março 3, 2023

Desprezava-os a todos sem excepção,

esses velhos jardineiros enregelados dos canteiros do amor.

Charles Dickens

DAVID COPPERFIELD, ou

The Personal History, Adventures, Experience and Observation of

David Copperfield the Younger of Blunderstone Rookery,

1850


Para grande incredulidade dos meus filhos quando eram pequeninos[1], tive o privilégio de crescer num tempo em que só se escrevia à mão, só se faziam contas utilizando a memorização da tabuada, num mundo em que os gadgets ainda não existiam, e lá em casa nem sequer tínhamos uma mera televisão a preto e branco, daquelas só com dois canais e de horário muito limitado, uma vez que os nossos Pais partilhavam firmemente o credo de que a televisão destruía as famílias, impedindo-as de conversar[2]. O que é que esse MAGICAL MYSTERY TOUR[3] me deu? O gosto pela observação, sem dúvida; e, com ele, deu-me desde logo o prazer de inventar histórias. Mas, se soube inventá-las, foi porque vivi uma infância riquíssima passada a devorar livros atrás de livros. Aos oito anos, numas férias grandes em que estava doente e via da janela ao lado da minha cama as pessoas que iam para a praia todas satisfeitas com os seus chapéus de sol e os seus baldes de plástico, eu estava ainda mais satisfeita do que elas: iam-se todos embora, ninguém me chateava, a coberto de todo aquele sossego tinha começado a ler A MARAVILHOSA VIAGEM DE NILS HOLGERSSON ATRAVÉS DA SUÉCIA, da Selma Lagerlof[4], e agora não conseguia parar. Até soneguei algures uma lanterninha para não parar nem à noite. Estava positivamente enfeitiçada. Já tinha lido imensos livros antes, mas isto era diferente. Naquela cama, sem poder ir àquela praia por intervenção directa de Deus, eu acabava de descobrir o verdadeiro milagre da literatura.


Os verdadeiros livros, quando são verdadeiramente bons, têm a generosidade de não esperarem que as crianças cresçam para se deixarem ler, e, assim fazendo, imprimir nelas a qualidade que fica marcada nos seus passos. Aquele meu excitex do Nils Holgersson continuou a caminhar comigo. Aos dez anos, veio parar-me às mãos[5] um romance pouco conhecido de Erico Veríssimo, CAMINHOS CRUZADOS[6]. Não sei quantas vezes o terei lido, mas foram dezenas, de certeza. Fiquei a conhecer de cor todos os personagens, fiz a lápis folhas inteiras de esquemas de como os caminhos de todos eles se cruzavam ao longo do romance.´


CPC E O SEMINÁRIO

“Estás a ouvir, Sebastião?

“Repara bem na pérola do Dickens que pus em epígrafe. David está tão apaixonado por Dora que despreza todos os seus colegas do Tribunal que não amam ninguém. A metáfora é fabulosa, e o humor é irresistível: David está ridiculamente apaixonado, e como os leitores já foram avisados várias vezes de que o caso vai ter um desfecho trágico esse enlevo ainda é mais ridículo. É contra todas as regras do bom inglês usar várias comparações numa única metáfora, e Dickens usa imensas palavras mas nunca abandona os jardineiros e os jardins. Não se é considerado um dos melhores escritores do mundo por acaso.”
Note-se a expressão atenta, concentrada, e positivamente maravilhada do canídeo.

Claro que aprendi várias coisas sobre as vicissitudes do comportamento humano, mas o que aprendi de mais importante, já lá vão 53 anos, foi como se constrói em três parágrafos uma proeza literária autêntica, que neste caso assinala o início da história. Já tive muitas décadas para tentar, mas ainda não consegui chegar nem perto da qualidade com que o autor começa a sua narrativa, descrevendo o nevoeiro que cobre a cidade na primeira luz da manhã.

Vivi em Alfama, onde caminhei muitas manhãs por entre esse nevoeiro. Estudei em Monterey, onde de madrugada esse nevoeiro era quase intransponível. Já por várias vezes, nos meus próprios livros, dei o meu melhor para descrever o mundo enfeitiçado das manhãs de nevoeiro. Mas, embora nunca mais tenha lido o CAMINHOS CRUZADOS, sei que o nevoeiro do Erico Veríssimo sempre foi melhor do que os meus.

Deus andava a mandar-me estas revelações de dois em dois anos, sem dúvida para que eu conseguisse digeri-las convenientemente na minha tenra idade. E foi assim que, aos doze anos, durante as férias de Natal, alguém me ofereceu de presente[7] AS VINHAS DA IRA, de John Steinbeck[8]. Dois anos antes do 25 de Abril, toda aquela saga da tenacidade dos pobres e da indiferença dos ricos, com todos aqueles pequenos pormenores de outras histórias constantemente intercalados, deu comigo em doida.

Pela primeira vez na minha vida, sublinhei várias passagens e dobrei os cantinhos dessas páginas[9]. Andei ali uns tempos a escrever à Steinbeck, sempre a meter aquelas pequenas narrativas de circunstância no meio da história principal. Há poucos inícios tão bons como o de CAMINHOS CRUZADOS. Mas há poucos finais mais belos do que o de TORTILLA FLAT[10], quando Danny já morreu, a sua casa já ardeu, e todos os seis amigos que ali partilharam com ele a estranha vida de aventuras dos anos anteriores contemplam os escombros:

“A gente de Tortilla Flat dissolveu-se na escuridão. Os amigos de Danny continuaram a olhar para a ruína fumegante. Olharam de forma estranha uns para os outros e voltaram a olhar para a casa queimada. Instantes depois, voltaram-se e afastaram-se lentamente, sem que, ao lado de um, caminhasse outro.”

Clara Pinto Correia é bióloga, professora universitária e escritora


[1] Note-se a importância deste “eram pequeninos”: estavam naquela idade em que os meninos acreditam em tudo o que lhes dizem as Mães. Mas, mesmo assim, um mundo sem PCs, sem calculadoras, sem smartphones, sem TV-Cabo… “Oh, Mãe! Não digas essas coisas que eu fico cheio de medo!” E foram perguntar ao Pai se era verdade, os pestinhas. Based on a true story.

[2] Sempre reconheci que eles tinham uma certa razão, e agora ainda acho mais, sobretudo quando as famílias se sentam à mesa do restaurante, cada um agarra no seu tm, e nunca mais se ouve um pio. Para que conste, nunca dei tms aos meus filhos, quando os brindei com um PC era para fazer os TPCs durante duas horas e “ir a sítios” durante quinze minutos, a televisão esteve seriamente regulada até o mais velho fazer quinze anos, e nunca lhes comprei nenhuma PlayStation nem nenhum outro monstro desses. Resposta a bombardeamentos de solicitações usando a técnica do golpe baixo que se ouvia mais vezes lá em casa: “MAS-EU-NÃO-SOU-A MÃE-DOS-OUTROS-MENINOS!”

[3] Para benefício dos mais novos, o MAGICAL MYSTERY TOUR é o album psicadélico dos Beatles em que John Lennon canta I AM THE WALRUS (letra escrita totalmente em ácido durante dois fins-de-semana diferentes, o que explica ser tão difícil de perceber) e STRAWBERRY FIELDS FOREVER (escrita só de uma vez e baseada na infância de Lennon, portanto de compreensão um pouco mais fácil).

[4] Claro que a ideia não foi minha, que só tinha oito anos, quand mêmme. Foi a minha professora primária, a Madalena, que eu adorava e achava linda, que nos leu umas passagens nas aulas. Oh. Nunca mais larguei a minha Mãe até ela me comprar o livro.

[5] Não sei como. De certeza que foi Deus.

[6] “Então, Clarinha, o que é que a menina está a ler agora?” – “É um romance do Erico Veríssimo.” – “Ah, muiito bem! Com que então está a ler o CLARISSA?” – “Não. O CLARISSA é para meninas. Este é mesmo um romance de crescidos, e chama-se CAMINHOS CRUZADOS.” – “Ah, muito bem, muito bem.” E lá ia a puta da velha (que, pensando bem nisso, provavelmente era bastante mais nova do que eu)  confabular com a minha Mãe sobre o tal de romance para crescidos.

[7] Ou então, no meio de caos das dezenas de prendas da família, foi Deus que lhe pôs na capa um post-it a dizer CLARINHA e está a andar. Foi assim, aliás, que nasceram os post-its.

[8] Era a tradução portuguesa, claro está. Aos 28 anos, quando estava em Monterey (no meio do nevoeiro) e, ao tentar traduzir o título usei THE RAISINS OF ANGER, toda a gente me percebeu mas fui gozada até mais não. O verdadeiro título original do livro é THE GRAPES OF WRATH. Eu sei que Deus queria facilitar-me a vida com a tradução portuguesa, mas depois também se devem ter divertiso imenso à minha custa, lá nos Céus.

[9] Haviam de ver os meus livros agora. É cantinhos de página dobrados por tudo o lado, e, na ausência de lápis nas proximidades, chego a marcar passagens, e até a gatafunhar notas à margem, a esferográfica vermelha, ou a marcador de ponta de grossa. E o que é que tem? Os livros são meus, ou não são?

[10] Tortilla Flat é um pequeno planalto, cimeiro a Monterey, onde se acolhe a camada populacional incapaz de pagar os custos extravagantes da vida na cidade. Porque é que este título foi traduzido em português como O MILAGRE DE SAN FRANCISCO, sendo que, ainda por cima, o romance não nos fala de milagre absolutamente nenhum – a menos que a amizade entre os homens deva, de facto, considerar-se um milagre? Estamos certos de que as más traduções não provam a existência de Deus. Por outro lado, no entanto, pode ser que provem a existência do Diabo. Já era meio caminho andado para Deus existir mesmo.

https://paginaum.pt/2023/03/03/o-verdadeiro-milagre/

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2023

Frederico Duarte Carvalho - Ano II da Propaganda versus Jornalismo

 

 


HISTÓRIAS QUE EU SEI

Ano II da Propaganda versus Jornalismo

por Frederico Duarte Carvalho // fevereiro 21, 2023

A Guerra na Ucrânia vai entrar no seu segundo ano e é cada vez mais notória a luta da propaganda versus jornalismo. A recente reportagem do jornalista veterano norte-americano Seymour Hersh sobre a sabotagem do gasoduto Nord Stream 1 e 2 pelos militares dos Estados Unidos, que foi classificada de “ficção”, é um exemplo do que está em causa. Ouça também esta crónica no P1 PODCAST.


Tenho aqui à minha frente um livro que comprei em 2018. É a autobiografia do jornalista norte-americano Seymour Hersh. O título diz tudo sobre quem é esta pessoa: “Repórter”. Apenas isso. E já é muito. Na capa, o repórter está ao telefone (com fios) e tem uma máquina de escrever à sua frente. A foto foi captada em 1972 na redacção do “The New York Times”.

Seymour Hersh é um nome assaz conhecido – e reconhecido – nos Estados Unidos. A sua primeira grande reportagem data de 1969, quando denunciou o massacre de My Lai, no sul do Vietname, onde soldados norte-americanos mataram mais de 300 civis. Ao serviço do The New York Times, Hersh investigou depois o Watergate e muitas das suas reportagens fazem parte da história que, em Agosto de 1974, levou à demissão do Presidente dos Estados Unidos, Richard Nixon.

 

Com boas fontes juntos dos militares e serviços secretos norte-americanos, denunciou depois, em Março de 1975, um plano da CIA para recuperar um submarino soviético afundado no Oceano Pacífico desde 1968. Conhecido como “Project Azorian”, o plano envolveu a construção de um navio capaz de transportar poderosas gruas que iriam trazer o submarino à tona, permitindo assim aos Estados Unidos terem acesso aos segredos nucleares dos soviéticos. A construção do navio custou, em números dos dias de hoje, o equivalente a 4 mil milhões de dólares. E contou com o apoio do milionário Howard Hughes como fachada para a operação secreta.

Dois meses depois daquela história, Seymour Hersh assinou uma segunda reportagem onde denunciava operações navais de espionagem com submarinos norte-americanos em águas territoriais da União Soviética. Uma operação que levantava muitas críticas dentro dos meios militares dos EUA por colocar em causa a détente da Guerra Fria.

Não foram histórias de “ficção”, mas pareciam. Bem mais recente, lembremo-nos de que, em 2004, Seymour Hersh, ao escrever então para a revista The New Yorker, foi ainda o jornalista que revelou ao mundo como eram os processos de tortura norte-americana na prisão iraquiana de Abu Ghraib. 

Por isso, quando, aos 85 anos, este repórter escreve num site da Internet dedicado a artigos que não conseguem ter lugar na Imprensa generalista, que os militares dos Estados Unidos levaram a cabo uma missão secreta para destruírem o gasoduto russo Nord Stream 1 e 2, através de uma explosão que se registou a 26 de Setembro, na zona próxima à Noruega, então temos de ter em consideração que não estamos propriamente face a um qualquer jornalista. 

Por muito que a Casa Branca venha desmentir e dizer que a história de Hersh é “completamente falsa” e que mais parece saída de uma “ficção”, sabemos que não podemos simplesmente descartar aquela sabotagem que, no fundo, tem uma grande importância estratégica para o conflito na Ucrânia, que entra agora no seu segundo ano.

No prefácio da sua autobiografia, Seymour Hersh explica que ele é “um sobrevivente da época dourada do jornalismo, quando os repórteres dos jornais diários não precisavam de competir com o ciclo noticioso de 24 horas da televisão por cabo, quando os jornais tinham dinheiro da publicidade e dos anúncios de procura de emprego”. Uma época em que ele tinha a possibilidade de “viajar para qualquer lugar, a qualquer hora, por qualquer motivo, com cartões de crédito da empresa”.

Havia tempo para relatar uma notícia de última hora sem ter de depender do que estava constantemente a aparecer na página de Internet do jornal. Mas o que não havia mesmo no tempo de Seymour Hersh, segundo ele, eram os “especialistas” e jornalistas de TV por cabo “que começam as respostas a todas as perguntas com as duas palavras mais mortais do mundo dos média: ‘Eu acho’”.

O jornalismo actual, acrescenta Hersh, é composto, essencialmente, por coisas como “pouco mais do que dicas ou indícios de algo tóxico ou criminoso”. A falta de tempo, dinheiro ou equipas qualificadas, desembocam em “histórias do tipo ‘disse ele, disse ela’, nas quais o repórter é pouco mais do que um papagaio”.

Aponta ainda este norte-americano: “Sempre considerei que a missão do jornalista era a procura da verdade e não a mera notícia do conflito. Houve um crime de guerra? Os jornais ficam agora dependentes de um relatório negociado nas Nações Unidas que surge, na melhor das hipóteses, meses depois dos factos. E os média fizeram algum esforço significativo para explicar por que um relatório da ONU não deve ser considerado por muitos, à volta do mundo, como sendo a última palavra? Existem sequer relatórios críticos sobre a ONU?”.

As perguntas de Hersh deviam ser as perguntas de todos os jornalistas que dizem fazer jornalismo. E, de forma lapidar, afirma este repórter: “Toda a minha carreira tem sido sobre a importância de contar verdades importantes e indesejadas e tornar a América num lugar mais informado. Talvez seja por isso que é muito doloroso pensar que nunca teria conseguido fazer o que fiz se estivesse a trabalhar no mundo caótico e desestruturado do jornalismo de hoje. Claro que ainda estou a tentar”.

A tentar.

E essa tentativa viu-se agora com o descrédito votado à sua reportagem sobre a destruição do gasoduto russo que fornecia gás à Alemanha e que, na prática, veio ajudar ao aumento dos gastos da produção de energia na Europa e todas as consequências que vemos com os aumentos dos produtos nos supermercados e nas taxas de juros do crédito à habitação. No fundo, a inflação.

A guerra é uma coisa terrível. Não há honra, não há regras – apesar das convenções de Genebra que quiserem inventar. O pior do ser humano é revelado, embora também existam histórias de heroísmo de um e outro lado.

Portugal, como membro da NATO – aliás, membro fundador da NATO ainda no tempo da ditadura de Salazar –, está do lado da Ucrânia. Logo, qualquer notícia que seja suspeita de agradar aos russos, deve ser ponderada com critérios mais apertados do que qualquer outra que seja bem mais simpática ao “nosso lado”.

A isso não se chama jornalismo, mas sim propaganda.

Um ano volvido sobre o início da Guerra na Ucrânia, esta já levou muitos jornalistas a irem visitar o terreno em aventuras controladas nos cenários de guerra, de onde saíram vivos para contarem histórias idênticas a muitas outras desde que o homem inventou a barbárie dos conflitos armados modernos.

Fugas em massa, pais separados de filhos, despedidas comoventes, reencontros emocionantes, mortes de inocentes, exemplos de bravura e resistência, relatos de massacres inimagináveis, crimes de guerra, avanços e recuos de tropas, armas inteligentes e humanos cada vez mais estúpidos. Há de tudo para que se escrevam belos discursos, poemas, textos emotivos, artigos importantes, livros de crónicas que engrandecem currículos de jornalistas ditos “de guerra”.

Entretanto, na retaguarda, enquanto uns vão jantar fora à sexta-feira, há ainda jornalistas como Seymour Hersh que arriscam a vida e reputação ao revelarem o que alimenta de verdade esta guerra. São esses quantos, que insistem em tentar fazer jornalismo, mesmo correndo o risco de serem acusados de criar ficções, que ainda mantém a chama do jornalismo acesa.

Só que, para eles, soldados da pena jornalística, não haverá medalhas nem sequer uma chama eterna como num monumento ao soldado caído.  

Frederico Duarte Carvalho é jornalista e escritor

https://paginaum.pt/2023/02/21/ano-ii-da-propaganda-versus-jornalismo/