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quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

Bárbara Reis - Uma boa pergunta da CNN à polícia

 

LIVRE DE ESTILO

* Bárbara Reis  


07 de fevereiro de 2024

É fácil estar no sofá – e não ao vivo na televisão – e pensar "como é que ele não lhe pergunta isto?!", "como é que ela não lhe diz aquilo?!".

Do mesmo modo, é fácil estar a ver uma entrevista ao vivo na televisão e pensar: "Boa pergunta."

São momentos de felicidade.

Pensará que vejo entrevistas como vejo jogos de futebol. "Bom golo", "bom passe", "boa assistência de calcanhar". Não vejo futebol, por isso não se aplica. Mas há algum parentesco.

Não espero que os jornalistas façam hat tricks na televisão – já agora, falo de televisão em directo porque há uma arte particular neste media; é mais exigente do que entrevistar alguém para um gravador, conversa que mais tarde será editada com pinças cirúrgicas de modo a que todos façam boa figura, entrevistado e entrevistador.

A televisão em directo – como o futebol – exige jogo de cintura naquele instante, não resulta se for um minuto depois. Televisão em directo é a pergunta certa no momento certo. É estudar e preparar, como nas outras entrevistas, mas é rapidez de reacção e reacção certeira. É a diferença entre um concerto de música clássica – onde cada um segue a partitura – e um concerto de free jazz – onde o improviso é rei.

Com a ascensão do Chega e da direita populista radical dou por mim a prestar mais atenção às perguntas dos jornalistas do que às respostas. Podem ser líderes políticos, analistas e comentadores, e todo o tipo de intervenientes no espaço público.

Foi o que aconteceu este sábado, na CNN. Armando Ferreira, presidente do Sinapol – um dos 19 sindicatos da Polícia de Segurança Pública –, estava em estúdio a comentar o cancelamento do jogo Famalicão-Sporting, desse sábado, por falta de policiamento.

Quando o polícia disse que começa "a temer que poderá haver falta de polícias para [as eleições legislativas de] 10 de Março, porque os boletins de voto são transportados pelas forças de segurança e as urnas de voto também", André Carvalho Ramos, pivot da CNN, perguntou:

– Não quer desaconselhar acções semelhantes a esta [não terem feito policiamento do jogo] no dia das eleições?

O sindicalista da Sinapol disse que "os sindicatos têm tentado que as coisas sejam feitas dentro dos princípios legais e das linhas vermelhas do que se pode e não pode fazer" e que "nada disto é o que os sindicatos queriam que estivesse a acontecer".

E a entrevista prossegue:

– No caso das eleições legislativas, o transporte de urnas de voto não tem substituição possível?

– Que eu saiba, não. Quero acreditar que isso não vá acontecer, mas não podemos descartar. E temos de alertar o Governo para aquilo que pode acontecer.

– São ou não as forças de segurança essenciais à democracia?

– Claro que são. As forças de segurança são um dos pilares da democracia.

– Então como é que explica que possam colocar em causa o grande momento democrático de um país, o momento em que os eleitores vão votar?

– Essa pergunta tem de fazer ao Governo. O Governo português é que fragilizou este pilar da democracia [...]. Com a sua teimosia de não querer resolver os problemas, está a empurrar os polícias para um precipício e está a forçar os polícias a tomar posições extremadas que não são desenvolvidas pelas estruturas sindicais, são por iniciativas inorgânicas.

– Por ser por iniciativa inorgânica, pergunto se não quer aconselhar os seus colegas a alguma ponderação, sobretudo para 10 de Março?

Repare: é a segunda vez que o jornalista pergunta isto. Vamos no minuto quatro e o tema é o mesmo – é preciso polícia para haver eleições. O que responde o presidente do Sinapol?

– Tenho de dizer aos meus colegas que eles são profissionais das forças de segurança e sabem perfeitamente as suas responsabilidades, mas também tenho de dizer ao Governo português que ele sabe perfeitamente quais são as suas responsabilidades e, desde que este conflito começou, o Governo está em silêncio absoluto. Começa a cair em descrédito o movimento sindical por culpa do Governo. Quem está a criar o monstro, quem está a criar a besta, é o Governo.

– Não teme que esse descrédito seja ainda maior se os portugueses olharem para o 10 de Março com desconfiança em relação à polícia por não garantir o escrutínio eleitoral?

Repare: é a terceira tentativa do pivot da CNN. Resposta?

– Acredito que isso possa acontecer e pode ser um perigo que pode acontecer. A verdade é que eu não controlo os meus colegas. Eu não tenho mão sobre os meus colegas.

O Sinapol chama-se Sindicato Nacional da Polícia mas, apesar do que o nome sugere, só tem 1350 sócios. É verdade que Armando Ferreira não controla os 22 mil membros da PSP. Mas podia ter feito um apelo. Pelo menos aos "seus" 1350. Podia ter dito qualquer coisa como "lutem, mas não bloqueiem as eleições". Não o fez. Nem à primeira, nem à segunda, nem à terceira.

Não conheço André Carvalho Ramos e não sei se ficou surpreendido com a falta de sentido de responsabilidade do líder do Sinapol. Imagino que sim. Como eu e milhares de pessoas ficámos. Fico a pensar que o jornalista tentou dar a mão ao polícia e dar-lhe a voz de sindicalista sensato e democrático. Não conseguiu, mas fez bom jornalismo.

 

quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

Bárbara Reis - SIC e CNN e aquele partido

LIVRE DE ESTILO

Uma newsletter de Bárbara Reis sobre o outro lado do jornalismo e dos media.

Bárbara Reis

31 de janeiro de 2024 

É fácil criticar as televisões: fazem coisas boas, mas vivem para as audiências, cortam a palavra a políticos para a darem a futebolistas, fazem maratonas de directos sem nada de novo, alimentam a superficialidade, copiam os jornais.

É tudo sabido.

O que me traz aqui hoje é a cobertura que as televisões estão a fazer do Chega.

Não escrevi "Chega" no título e optei pela fórmula "RAPiana" do Programa cujo nome estamos legalmente impedidos de dizer. Podia dizer "Chega" – e o Chega agradecia – mas não vale a pena.

Vou dar dois exemplos de como as televisões estão a ajudar o Chega a crescer. É literal.

Não terá reparado, mas na quarta-feira, dia 24, o Chega anunciou que ia fazer um "congresso eleitoral" no sábado, 27, em Sacavém, entre as 15h e as 19h, para apresentar "as linhas fundamentais" do seu programa eleitoral. Como o partido teve um congresso há duas semanas, o anúncio causou estranheza. Mais um congresso?

O que fizeram os media com este anúncio?

Às 19h20, o Correio da Manhã publicou uma notícia com o título ‘Cortar a direito pela decência’: André Ventura aponta critério do Chega sobre casos de corrupçãoA notícia tem 1500 caracteres e refere o "Congresso Eleitoral do Chega", mas em nenhum momento fala das "linhas fundamentais" do programa eleitoral do partido, as tais que iam ser apresentadas.

A seguir, às 19h42, a agência Lusa publicou uma peça, com o título Eleições: Ventura acusa PSD de incoerência e PS de preparar ‘maior ataque à justiça’ se vencer. Tem 2200 caracteres e, de novo, nem uma palavra para as "linhas fundamentais". Que tenha visto, só a Rádio Renascença publicou esse "take" da Lusa. Muitos media optaram por ignorar, não publicaram a Lusa e não enviaram repórteres para Sacavém.

O que fizeram as televisões nesse sábado com o congresso-que-não-era-um-congresso? Um festim.

A SIC Notícias fez um directo do pseudo-congresso às 16h19. Três minutos. Às 17h37 fez um novo directo. Mais três minutos. Mal acaba o directo, entrevista a uma analista, Cátia Moreira de Carvalho, da Universidade do Porto – a investigadora num canto e imagens do "congresso" em dois terços do ecrã. Mais cinco minutos.

A seguir, Paulo Baldaia e Maria João Marques aparecem a comentar. O quê? O Chega. No rodapé: "Chega realiza convenção eleitoral". O que ocupa a maior parte do ecrã? Ventura, claro. Falam até às 18h18, quando Ventura começa o discurso – que é um comício, não é a apresentação de "linhas fundamentais".

Das 18h18 às 18h23, a SIC Notícias dá o discurso em directo. Mais cinco minutos. A seguir, os comentadores regressam e voltam a comentar o Chega. Já vamos em quantos minutos sobre um congresso que não é um congresso? Corta para publicidade e, às 19h08, a SIC Notícias emite uma peça sobre o discurso de Ventura. Mais dois minutos. Seguido de quê? Da análise de Sebastião Bugalho e Miguel Morgado. Sobre o quê? Ventura. Estamos nisto até às 19h21.

Na CNN, a festa foi parecida. Entre as 18h e as 20h30, o Chega e Ventura estão perto de omnipresentes. Às 18h16, Sara de Melo Rocha, pivot, diz "por falar em extrema-direita", como forma de anunciar que a estação vai "acompanhar a apresentação do programa eleitoral", Ventura já está a falar no não-congresso e entra em directo.

O líder do Chega está a dizer que "o país ficará espantado", pela positiva, com o seu programa eleitoral, há muitas palmas, mas "linhas fundamentais", zero. Até às 18h21, Ventura fala em directo sobre a "podridão", "degradação" e "corrupção", no seu habitual retrato de Portugal como o país mais decadente do planeta.

pivot Melo Rocha corta o directo e resume: "Para já, ainda não há medidas apresentadas". Percebe-se o esforço. Mas alguém acreditou que ia haver? A maioria dos media não acreditou e nem foi a Sacavém.

Cinco minutos depois, o Chega regressa à CNN, com dois comentadores, Miguel Pinheiro e Paulo Ferreira. Como antes, os dois disseram coisas úteis e incisivas. Ferreira disse que está "curioso para ver o programa eleitoral do Chega" para "perceber a consistência das políticas", "e já agora", que "propostas exequíveis têm" – como quem diz, ainda não vimos nenhuma. Pinheiro desmonta a hipocrisia da proposta do Chega para a TAP e faz um alerta – o silêncio dos partidos sobre a Madeira, que deixam Ventura a falar sozinho, tem um resultado: "Estendem o tapete vermelho a Ventura."

Será verdade: os partidos têm uma quota-parte de responsabilidade. E as televisões, qual é a sua quota? Os dois falam do Chega até às 18h31. O noticiário da CNN prossegue. Às 19h lá regressa o Chega, a criticar o PSD. Mais um minuto. Às 19h16, mais dois comentadores, André Macedo e Miguel Santos Carrapatoso, e aparece de novo Ventura em directo a fechar o "congresso" com a bandeira de Portugal ao ombro.

A seguir, das 20h16 às 20h31, a CNN entrevista dois constitucionalistas: Jorge Bacelar Gouveia (que foi à última academia de Verão do Chega) e Luís Menezes Leitão (cujo assistente na Universidade de Lisboa era João Lemos Esteves, fã incondicional do Chega e director de sites de extrema-direita dedicados a propagar fake news). Não digo que a CNN não os oiça como especialistas em Constituição, mas os dois ao mesmo tempo e durante 15 minutos?

Volta a crise na Madeira – foi na sexta-feira que o presidente da câmara do Funchal anunciou a demissão – e a CNN anuncia uma peça para as reacções. São 20h31 e o pivot diz: "Seguimos para reacções políticas." Quem abre a sequência de reacções? Acertou: o Chega. Ventura fala do "congresso" durante um minuto inteiro. Só depois vem a reacção do PS, IL, BE e Livre. Já agora, daria uma newsletter mais longa comparar os minutos (muitíssimo menos) que as televisões deram neste mesmo sábado ao Livre, que teve um congresso – verdadeiro, foi o 13.º, durou dois dias e debateu-se o programa –, e ao PS, que teve um fórum (a palavra escolhida) para discutir propostas, durante o qual Pedro Nuno Santos anunciou propostas novas e concretas.

Já terá perdido a paciência com tanto pormenor. Isto é só um exemplo: um pseudo-evento e duas televisões. O Chega cresce por muitas razões. As televisões não podem pôr a cabeça na areia e fazer de conta que nem sabem do que estamos a falar.

https://www.publico.pt/2024/01/31/newsletter/livre-estilo


quarta-feira, 24 de janeiro de 2024

Bárbara Reis - Um anúncio fez rir e pôs pessoas a ler notícias



LIVRE DE ESTILO
 
Uma newsletter de Bárbara Reis sobre o outro lado do jornalismo e dos media.
 
24 de janeiro de 2024

E, de repente, uma notícia que publicámos há quase três meses, teve hoje um pico de leitura no site do PÚBLICO.

A notícia foi "redescoberta" e lida por uns bons milhares de leitores. O título era Escondidos em livros estavam 75.800 euros em dinheiro no gabinete de Vítor Escária, que publicámos a 9 de Novembro, sobre a descoberta de dinheiro nas estantes do escritório do chefe de gabinete do primeiro-ministro, no Palácio de São Bento.

E fiquei a pensar: o que levou tantas pessoas a irem ler uma notícia velha e factual, o primeiro de muitos artigos que se escreveram nos últimos meses sobre essa incrível descoberta?

É raro e, quando acontece, é com artigos intemporais, que vale a pena ler hoje ou daqui a um ano ou uma década.

A resposta é simples: o número "75.800 euros" está na nova campanha publicitária do Ikea.

Se estou a pensar bem, milhares de pessoas que viram a campanha ficaram curiosas e quiseram saber o que significava aquele valor no cartaz. Ou seja, milhares de pessoas não sabiam dos 75.800 euros, uma das razões que levaram António Costa a demitir-se, que foi, digamos, a notícia do ano.

A campanha da empresa sueca anuncia uma estante e diz: "Boa para guardar livros. Ou 75.800€." É uma "peça" publicitária que faz parte de um conjunto todo ligado às eleições portuguesas de Março: "A nossa geringonça contra o frio" (e mostra uma manta); "Puxamos o tapete à inflação" (e tem um tapete); "Para se aquecerem sozinhos ou coligados" (um edredão).

É daquelas campanhas que se adora ou se odeia. Faz rir, mas também faz pensar nos limites do humor. Falei com três publicitários. Numa coisa, estão de acordo: a campanha já ganhou.

"Alguém que vê e sorri, está ganho. Alguém que vê, sorri e comenta, mais ganho está. Alguém que vê, sorri, comenta e partilha, é o ultimate", diz João Ribeiro, managing partner da Stream and Tough Guy (os publicitários, como os economistas, os gestores e outras profissões, adoram inglês).

"Conseguiram ser notícia, estão virais nas redes, têm partilhas, há ressonância com as pessoas, entrou no quotidiano. O risco compensa", diz Ribeiro. A campanha "não quer vender estantes, quer construir marca, criar good will" (eu avisei) "e conseguiu".

Porquê risco? "Nós gostamos de tudo", diz Ribeiro, "mas as empresas fogem de religião, política, sexo e guerra".

A alegria do publicitário resume-se numa frase: "A maior parte da publicidade que vemos é ruído e lixo, campanhas sem retorno. Gastam-se milhões, as pessoas olham e não retêm nada. Esta é uma indústria com muito desperdício. Aqui é o inverso." 

Miguel Barros, CEO da Havas Creative em Portugal, é dos publicitários que gostam de ver marcas a tomar partido por causas. "Há sempre alguém que diz 'isto é política, as marcas não se devem meter', mas eu gosto de ver que a marca tem cabeça, que pensa, que faz julgamentos, que toma partido. Consigo imaginar uma marca a dizer: 'Não gostamos de Donald Trump' ou 'Somos a favor do direito ao aborto'. Gosto de marcas com atitude."

E neste caso? "Pode dizer-se que não é boa para o PS, mas não me parece que tenha esse propósito. O que vejo aqui é o desinteresse que tem uma estante e o interessante que é falar sobre isto."

Todos concordam com duas coisas: a marca "agarrou a oportunidade" (há eleições em breve) e não está a tomar partido por ninguém. "Não fazem um juízo de valor. Estão a brincar com as eleições e a ser provocadores. Mas não me parece que se possa dizer que o Ikea é contra o PS. Brinca com os 75.800 euros, mas não diz se é certo, se é errado", diz Pedro Bexiga, co-fundador da Coming Soon.

Só uma coisa espanta publicitários e jornalistas: há pessoas que viram a campanha e não sabiam a que propósito estava ali aquele número, 75.800. Esses, na linguagem publicitária, não tiveram "gratificação imediata". Viram, não conseguiram descodificar, logo, não tiveram prémio. 

Na linguagem dos jornalistas, dizemos outra coisa.

https://www.publico.pt/2024/01/24/newsletter/livre-estilo


sábado, 15 de abril de 2023

Bárbara Reis - Boaventura e a nova palavra: ‘extractivismo intelectual’,

 OPINIÃO COFFEE BREAK -   por Bárbara Reis 

 15 de Abril de 2023

Nunca tinha ouvido “extractivismo intelectual”. É uma expressão nova para um problema velho. Vantagem em relação ao assédio sexual? É mais fácil de provar.

Dizem-me que na academia há pessoas nervosas com o caso Boaventura de Sousa Santos porque imaginam que a sua vez chegará em breve. Provavelmente é o que vai acontecer. Tem sido esse o padrão noutros países.

Enquanto esperamos — por novos testemunhos ou novos casos —, seria útil olhar para as acusações relativas à sua prática académica tout court, pelo menos as destacadas no livro Sexual Misconduct in Academia (Routledge, 2023).

Num capítulo desse livro, três antigas investigadoras do Centro de Estudos Sociais (CES) da Universidade de Coimbra — a belga Lieselotte Viaene, professora na Universidade Carlos III, Espanha; a portuguesa Catarina Laranjeiro, investigadora do Instituto de História Contemporânea da Universidade Nova de Lisboa, e a norte-americana Miye Nadya Tom, professora na Universidade de Nebraska, EUA — acusam o sociólogo e director emérito do CES de aproveitamento intelectual.

Não sei se é uma acusação mais grave do que a de assédio sexual. Mas é uma mancha terrível que nenhum académico quer. Fere — e pode destruir — o próprio corpo de trabalho, a essência do que se faz numa profissão.

Também não sei se é verdade. Boaventura pode ter agido sempre de forma correcta em relação aos direitos autorais dos outros, pode ter agido bem só às vezes ou o aproveitamento intelectual pode ter sido o seu padrão.

Muitos académicos dizem que este é um velho problema da academia, cheio de armadilhas, falhas de comunicação, traições e vaidades, e que provoca atritos diários. Dizem também que são conhecidos, nas várias áreas, os investigadores que têm por hábito atrair para si os créditos dos outros.

Há em todas as profissões. Editores de jornais que acrescentam o seu nome à assinatura de notícias escritas pelos colegas jovens. Arquitectos donos de ateliers que registam a autoria de projectos só com o seu nome. Investigadores que se sentem injustiçados quando vêem o seu nome relegado para os agradecimentos no livro para o qual trabalharam meses.

O que parece óbvio é que, olhando para as duas questões éticas em debate, é mais fácil provar o aproveitamento intelectual do que o assédio sexual. É difícil e trabalhoso, mas é realista esperar uma conclusão taxativa, sem ambiguidade e sem margem para dúvida.

Falo do “extractivismo intelectual”, expressão que desconhecia até esta semana e que é usada pelas investigadoras no ensaio que deu origem a esta tempestade.

Percebe-se a origem: há o uso sistemático dos recursos naturais e há o uso sistemático dos recursos intelectuais. Recursos dos outros, bem entendido, em regra, os mais fracos. A expressão vem da crítica moderna ao colonialismo e ao uso que os impérios coloniais fizeram dos recursos naturais das colónias.

Boaventura, dizem as investigadoras, “poderá ser visto como um especialista em extractivismo intelectual”. Na prática, acusam-no de duas coisas: 1) publicar artigos e capítulos de livros usando o trabalho feito por jovens assistentes do CES a quem não pagou ou pagou mal e; 2) assinar textos sozinho, sem reconhecer os assistentes como co-autores e relegando-os para a página dos agradecimentos ou as notas de rodapé.

As investigadoras dizem que “esta má conduta explica como os professores-estrelas conseguem escrever por ano dezenas de artigos e capítulos de livros assinados só com o seu nome, ao mesmo tempo que dão conferências e masterclasses pelo mundo fora”. Uma alta produtividade só possível graças ao “extractivismo intelectual”.

Antes da questão técnica (como provar), a questão ética (as boas práticas). Falei com académicos experientes, incluindo catedráticos e directores de projectos com financiamentos de milhões de euros. Há regras simples, conhecidas e consensuais.

Por exemplo: se um iestigador assistente fez um mestrado ou um doutoramento sob a orientação do mestre e se partes desse trabalho aparecem num texto do mestre no qual o assistente não é identificado como co-autor, o mestre está a apropriar-se do trabalho do assistente. É o “extractivismo intelectual”.

Claro que à volta de alguns mestres célebres há jovens investigadores que “disputam o direito a levar a mala”. Sabem que a associação a um mestre com fama internacional cria currículo e ajuda a conseguir um contrato numa universidade. Estou a citar um académico que, há uns anos, num jantar do CES em Coimbra, viu com espanto jovens assistentes citarem à mesa, em voz alta, passagens de artigos de Boaventura, num esforço de lisonja ao chefe, ali sentado, que muito o impressionou.

Estou também a pensar na frase que otro académico me disse ontem: “Boaventura era um passaporte para uma vida boa.” Não há nada de errado em ser-se discípulo, seguidor e intérprete de um guru. O aprendiz vai mais longe, mas também leva consigo as ideias do guru, que assim vão mais longe também. Os dois ganham.

Isto ajuda a explicar algumas coisas, mas é lateral à tempestade.

De regresso à técnica. Como dizem os americanos, não é preciso um cientista espacial. As investigadoras falam em “inúmeras histórias”. Pois bem, veja-se uma a uma. Basta seguir o paper trail, ou seja, percorrer os documentos que mostram o historial de cada texto.

Hoje os bastidores dos textos têm uma pegada informática automática, inalterável e fácil de reconstituir.

Pode começar-se por perguntar quem se sente lesado. Seria o mais simples, pois cada investigador mostraria o que fez e o que, do seu trabalho, foi usado nos textos publicados por Boaventura. Muito, pouco, nada? E, a seguir, como foi registada a autoria.

Se ninguém se chegar à frente, pode analisar-se artigo a artigo, procurar os nomes nos agradecimentos e notas de rodapé. Isso implica contactar as pessoas, comparar e cotejar os textos. Há quem queira participar e quem não queira. Os que querem têm as provas.

Se foi publicada a tese de mestrado ou de doutoramento, é só comparar. Há bons softwares. Há partes iguais num artigo do mestre? São grandes ou pequenas?

Claro que, em ciência, vale o que se publica. Mas mesmo nos eventuais casos de assistentes que não publicaram, é possível provar a sua participação.

Imagine que um texto foi escrito a quatro ou seis mãos. Se foi no Google Docs — muito usado, pois permite várias pessoas escreverem e editarem um mesmo texto, acessível online e guardado numa nuvem —, basta ver o registo das acções. Tudo fica como marca de água: x escreveu o bloco tal no dia tal, à hora tal; y idem aspas; x de novo, etc. Se foi por email, há registo dos envios.

Explica uma académica: “Quando os jovens investigadores que orientamos são muito bons, incentivamo-los a publicar. A regra é assinarmos juntos: o jovem em primeiro lugar, o mestre em segundo. Sem o mestre, o trabalho não existiria (é o mestre que consegue financiamento para o projecto e é o mestre que guia o processo intelectual). Mas sem o investigador, não haveria aquele trabalho. Além disso, interessa ao jovem assinar em co-autoria com um mestre, pois é isso que lhe vai abrir portas, é um selo de qualidade. Nestes casos, a co-autoria é justa e correcta para os dois.”

Diz outra académica: “Quando não é assim, é porque o trabalho de equipa é só fachada.”

A questão é simples: dá trabalho, mas é possível reconstituir os projectos e os “bastidores” dos textos e ver quem fez o quê.

Outra coisa: tal como no assédio, é preciso que os que se sentem lesados avancem, contem as suas histórias e mostrem os seus papéis. O ar ficará mais limpo.

Redactora principal

https://www.publico.pt/2023/04/15/sociedade/opiniao/boaventura-nova-palavra-extractivismo-intelectual-2046172 

sábado, 18 de fevereiro de 2023

Bárbara Reis - Procissão à Portuguesa

  * Bárbara Reis

Opinião Coffee break

Durante anos, a Igreja Católica punha o chefe de Estado atrás nos cortejos. Até Marcelo Caetano se queixou. O encobrimento dos padres pedófilos faz parte dessa procissão.

18 de Fevereiro de 2023 

 Há anos que tenho uma carta para partilhar e este é o momento. Foi enviada em 23 de Janeiro de 1955 por Marcelo Caetano a António de Oliveira Salazar e começa assim:

“Se V.ª Ex.ª ontem tivesse estado, na Igreja de S. Vicente, onde eu estava (no transepto, na tribuna fronteira à do corpo diplomático), decerto teria tido, à entrada do chefe de Estado, o mesmo sentimento de humilhação e de indignação que eu tive e que tiveram as demais pessoas presentes.”

Já vai perceber porquê. Antes queria fazer uma pausa para imaginar o cenário: Caetano, futuro “primeiro-ministro”, era presidente da Câmara Corporativa, um peculiar órgão consultivo que funcionava na Assembleia da República, e por isso viu a cerimónia de um ângulo diferente do de Salazar. Terá pensado que, estando ele num braço transversal da igreja, e não no centro, teria visto uma coisa diferente.

Continuo:

“Passou majestoso o cortejo pontifical. Em glória, de mitra e báculo, o patriarca abençoava os fiéis a um lado e outro. E no couce, a seguir aos caudatários de Sua Eminência, o chefe de Estado português apagado entre algumas fardas sem brilho, parecendo eles todos a escolta da retaguarda do prelado. Quando o cortejo à frente parava, o Chefe de Estado parava também, à espera: nem em Canossa o poder civil andava tão de rastos...”

Nova pausa. O patriarca é Manuel Gonçalves Cerejeira, cardeal amigo íntimo de Salazar desde os tempos da Universidade de Coimbra e muitíssimo influente durante o Estado Novo.

Atrás do cardeal Cerejeira, no “couce”, estava o Presidente da República, Francisco Craveiro Lopes.

Hoje, no site oficial da Presidência da República, a eleição de Craveiro Lopes, em 1951, é contada assim: “Disputou a campanha eleitoral indicado pela União Nacional. Pela oposição democrática e republicana concorreu o almirante Quintão Meireles. Pelo Partido Comunista apresentou-se o professor Ruy Luís Gomes. Este último foi considerado sem idoneidade, portanto não elegível, pelo Supremo Tribunal. O almirante Quintão Meireles desistiu. Foi forçado a retirar a sua candidatura na véspera das eleições. Não houve, pois, opositores à eleição, tendo Craveiro Lopes ganho com cerca de 80% dos votos.”

Parece meio esquisito Caetano falar dos “caudatários” como se fosse uma coisa estranha. Ainda hoje a cauda do manto do patriarca de Lisboa é levada pelos “caudatários”. O que é que o incomodou?

A carta — que li em Salazar e Caetano, Cartas Secretas, 1932-1968, de José Freire Antunes, Círculo de Leitores, 1993 — continua:

“Qualquer diplomata dos presentes, funcionário ou homem político formado decerto no respeito da supremacia do Estado dentro do seu território (à boa maneira da monarquia, em que os bispos formavam apenas uma das ordens do reino) informará os seus governos de que Portugal é o país mais clerical do mundo. Na verdade, em Espanha, onde a Igreja pode e manda muitíssimo, o chefe de Estado é recebido nas igrejas debaixo do pálio e o prelado, cardeal que seja, acompanha-o respeitosamente, sendo aquele o centro da procissão.”

Caetano está triste por ver que “Portugal é o país mais clerical do mundo” e que o padre vai à frente e o político vai atrás. Em Espanha, diz ele, Francisco Franco vai debaixo do dossel sustido por varas que protege, também, o sacramento, mas Franco é o “centro da procissão”.

Podemos desvalorizar a indignação de Caetano por sabermos que Craveiro Lopes, na altura, já era visto como “um verdadeiro estorvo para o regime”, diz o texto oficial da Presidência, cuja autoria é do Museu da Presidência da República, e que, entre Craveiro Lopes e Salazar, “as relações foram sempre frias e formais” e “nunca amistosas”.

Sabemos também que, “com o decorrer dos anos”, Craveiro Lopes foi-se “sentindo cada vez mais humilhado e vexado”, que os seus “discursos eram modificados, os projectos recusados ou protelados, as convocações da Presidência ao Governo ignoradas”, e que ele “não estava habituado a ser apenas um elemento decorativo”.

Mas repare no resto da carta:

“Sou dos poucos portugueses com certa posição política que hoje dão muita importância às formas, porque estas são, como os ritos, a maneira de tornar tangíveis ou sensíveis ao vulgo as instituições e os princípios. O que se passou ontem achei indecoroso. Tenha V.ª Ex.ª a paciência de se ocupar do caso. Se não houver cerimonial melhor na igreja, que o chefe de Estado passe a representar-se apenas por um funcionário: é preferível isso.” A carta acaba aqui.

Tenho para mim que o “i” de igreja em letra minúscula da última frase não foi um lapso de Caetano, mas intencional.

Por mais que o regime não gostasse de Craveiro Lopes, com quem “foi nascendo a esperança de mudança”, diz o texto do Museu da Presidência da República, Caetano achava errada a forma como a Igreja tratava o poder político, colocando o chefe de Estado em posição subalterna, como um caudatário ou membro da escolta da retaguarda.

No dia seguinte, 24 de Janeiro de 1955, Salazar responde:

“A sua carta impressionou-me vivamente [...], porque eu próprio, estando aliás a ver as coisas de outro ângulo, tive a mesma sensação. Vou ver como hei-de pôr o assunto: mas temos de chegar a uma conclusão conveniente.”



Procissão com o cardeal patriarca de Lisboa Manuel Gonçalves Cerejeira em Mafra, sem data 

A conveniência — não melindrar a Igreja Católica — só acabou 50 anos depois quando, em 2006, foi aprovada a lei das precedências do protocolo do Estado, que retirou privilégios à Igreja Católica.

O debate foi fascinante. Ainda me lembro de ler sobre o artigo apresentado por João Bosco Mota Amaral, do PSD, e Manuel Alegre, do PS, que propunha que, nas cerimónias oficiais, o patriarca de Lisboa, os cardeais, o presidente da Conferência Episcopal Portuguesa e o núncio apostólico tivessem “tratamento protocolar equivalente ao dos ministros e precedência face a estes”, ou seja, que a Igreja Católica ficasse antes dos políticos eleitos pelo povo. A proposta foi chumbada.

Lembrei-me desta carta ao ler o relatório final da Comissão Independente para o Estudo dos Abusos Sexuais de Crianças na Igreja Católica Portuguesa, que concluiu que o número “absolutamente mínimo” de crianças vítimas de abuso por padres e pessoas ligadas à Igreja é 4815. Os anos de ocultação, seguidos de anos de negação, seguidos de anos de obstrução foram possíveis por muitas razões. Uma delas 

https://www.publico.pt/2023/02/18/sociedade/opiniao/procissao-portuguesa-2039413 

segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Bárbara Reis - Adriano Moreira, uma vida a explicar dois anos no Estado Novo

Adriano Moreira morreu este domingo. Tinha 100 anos (1922 / 2022)

A nova geração de historiadores olha para Adriano Moreira com distância e com reserva. Quis mudar o Estado Novo por dentro ou apenas suavizar o regime colonial?

* Bárbara Reis

23 de Outubro de 2022

  “Quando eu morrer, vão ler”, disse muitas vezes Adriano Moreira aos filhos. O professor, político e ministro do Ultramar no Estado Novo referia-se a Uma simples carta, um texto que escreveu em Abril de 1974.

“O meu pai dizia sempre isso: ‘Vão ler.’ Eu li-o muitas vezes ao longo dos anos. É um ensaio sobre a pobreza”, disse ao PÚBLICO Isabel Moreira, filha e deputada do PS, no Verão, quando o pai fez 100 anos.

A Carta abre o seu livro de memórias, A Espuma do Tempo — Memórias do tempo de vésperas (Edições Almedina, 2008), e começa assim: “Talvez não haja muito que contar, meus filhos, porque não são muitas as coisas que aconteceram que valha a pena reter e transmitir.”

Não foi bem assim. Na autobiografia, Moreira conta 460 páginas de “coisas”. Uma delas é a de que gostava de ser enterrado no cemitério de Grijó de Vale Benfeito, em Trás-os-Montes, onde nasceu.

Em 1974, quando tinha 52 anos, escreveu — na Carta — que lhe parecia “intolerável” o “afastamento” da terra onde nascera e onde estão enterrados os avós maternos. “Fomos criados no amor à terra, o que não tem apenas um valor simbólico.” Fisicamente seremos terra, diz, “solidários no pó como na vida”. O avô Valentim Alves, “anticlerical por tradição e católico por convencimento”, e o primeiro homem que Moreira viu morrer, resistiu à pobreza e à morte de cinco dos nove filhos como “uma das rochas da serra”.

Agora que morreu, aos 100 anos e dois meses, poderá não ser como quis e ele sabia-o: “Os meus filhos obrigam-me a ter âncora noutro lugar”, lamenta na Carta. Os pormenores do funeral continuam incompletos — sabe-se apenas que o velório é esta segunda-feira, no Mosteiro dos Jerónimos, a partir das 20h, e que haverá uma missa às 12h, no mesmo local, e que o enterro será uma cerimónia privada, desconhecendo-se se será em Lisboa ou em Trás-os-Montes.

Portugal das “jeiras”, “rebusco” e “galelo”

Dizer que Adriano Moreira nasceu noutra época é redundante. Basta pensar que no dia em que nasceu, Portugal “entusiasmava-se com o centenário da independência do Brasil” e que acabámos de celebrar o bicentenário.

Adriano José Alves Moreira nasceu em 1922 numa aldeia marcada pela pobreza, onde não havia “proletários” ou “trabalhadores”, mas “pobres”, diz nas memórias, como os avós maternos, agricultores, e os avós paternos, moleiros.

Uma aldeia onde os mais velhos falavam da I Guerra Mundial, mas também, ainda, “do martírio das invasões francesas, que não se tinha minorado na memória das gerações”, e à qual se chegava, ido de Lisboa, depois de uma viagem de 30 horas, incluindo a parte final que era feita de burro, entre a estação de comboios e a povoação.

Um tempo em que se usava a expressão “colheita do Senhor” para quando as crianças morriam — e morriam muito —, em que, no mundo rural, se dizia “regar a leira”, “pagar uma jeira com outra jeira”, se falava do “rebusco” (apanha do que fica no campo depois da colheita), do “galelo” (cachos que ficam na videira depois da vindima), em que a aguardente era “mata-bicho” com supostas “virtudes preventivas de doenças sérias”, o interior estava cheio de “viúvas de homens vivos” e, na igreja, os homens e as mulheres ficavam separados durante a missa.

Na sua aldeia, “não se conhecia a humildade”. “A justiça civil tinha pouca ocasião de intervir, salvo nos casos de furto” — conta nas memórias —, pois “a violência física e a morte de homem eram frequentemente problemas familiares”, “não se denunciava o agressor, se calhava fazia-se justiça privada, muitas vezes com a colaboração da aldeia, quando o culpado era de fora”.

“Não gosto do padre”

O avô materno não ia à missa. Andava já no liceu quando, finalmente, se atreveu a perguntar-lhe porquê:

— Não gosto do padre. E não é por ter dois filhos, que ninguém tem nada com isso. É porque empresta dinheiro a juros aos pobres.

O pai, que em Lisboa se tornou polícia, não tinha sapatos apresentáveis para ir fazer o exame da instrução primária à vila e foi com as botas emprestadas de um soldado, cheias de papel para não lhe caírem dos pés. Foi também na aldeia transmontana onde nasceu que uma tia o ensinou a ler e a escrever pela Cartilha de João de Deus antes da idade de ir para a escola.

Em 1923, os pais, António e Leopoldina, mudaram-se para Lisboa com o filho bebé. Viam-se como “emigrantes que vinham do norte” e o pai foi para uma das carreiras abertas para os pobres da província — a PSP. António Moreira reformou-se como subchefe ajudante na Administração do Porto de Lisboa. Contou muitas vezes — e muitos viram — que andava sempre com a fotografia do pai fardado de polícia no bolso do casaco e que, com frequência, a mostrava aos polícias com que se cruzava. Todos sublinham a raridade destes pais que, vindos da aldeia, quiseram muito que os filhos fossem para a universidade. A irmã de Moreira, Olívia Moreira, que tem 90 anos, licenciou-se em Medicina nos anos 1950 — e é também sempre sublinhado que é militante do PCP e os dois foram sempre íntimos.

Entre Trás-os-Montes e Trás-os-Montes

O livro de memórias vai do beco da Rua Estevam Pinto, em Campolide, Lisboa, onde morava com os pais, a Grijó de Vale Benfeito, em Trás-os-Montes, onde nasceu e passava as férias de Verão, “meses dos mais decisivos da minha vida”.

Moreira chama “emigrantes” às pessoas que iam para Lisboa de outros lugares em Portugal — “os meus pais emigraram não tinha dois anos”. Na capital, as pessoas viviam numa “espécie de colónias interiores”, organizadas por regiões. Por isso, Moreira cresceu em Campolide, mas “intimamente amarrado à aldeia transmontana” onde nasceu, conta a filha Isabel. “Há uma frase na Carta de que gosto muito: é quando o meu pai diz que ‘viajava entre Trás-os-Montes e Trás-os-Montes’.”

“A vida de um estudante pobre não era fácil nesse tempo.” Moreira andou no Liceu Passos Manuel e no Liceu do Carmo, para onde ia e voltava a pé para casa. O mesmo na Faculdade de Direito. Ficou amigo para a vida de colegas que entraram na faculdade ao mesmo tempo, em 1939: Manuel Gonçalves Pereira, Fernando Pedroso Rodrigues, João Rosas e Vicente Loff.

Dar com uma mãe, tirar com a outra

Em 1990, o historiador Manuel Loff — sobrinho de Vicente Loff — entrevistou-o para a sua tese de mestrado. A conversa entre o jovem estudante e o político reformado inclui os dois anos de Moreira no Ministério do Ultramar, a legislação reformista que introduziu, mal chegou, em 1961, e a “política de assimilação”, como se dizia na altura. “A minha política de assimilação era total!”, exclama Moreira. “Quer dizer: toda a gente tem os mesmos direitos políticos! Essa é que foi a inovação.”

A certa altura, Loff pergunta:

— Com os preâmbulos aos seis decretos que saem em Setembro de 1961, queria realmente fazer uma crítica à política ultramarina anterior?

A resposta:

— É evidente! Isso que lá está escrito não pode deixar de ser visto como uma crítica! Por exemplo: é evidente que existia no território português uma prática de trabalho compelido. Exactamente o contrário do que diziam as leis e as convenções internacionais. Era evidente que isso não podia continuar!

Sessenta anos depois, esta ideia continua a ser debatida. Os seis decretos do ministro Moreira — aprovados a 6 de Setembro, dia dos seus anos — foram reformistas. Mas até que ponto? Do mesmo modo, a pergunta do jovem historiador — e o seu “realmente” — está viva. Historiadores como Diogo Ramada Curto, Bernardo Pinto Cruz e Pedro Aires Oliveira, que têm estudado e escrito sobre este período e sobre as reformas relativas às colónias introduzidas em 1961, olham com distância, reservas e crítica para a acção de Moreira como ministro do Ultramar.

De tudo o que Moreira fez — como presidente do CDS, presidente do Instituto Superior de Ciências Sociais e Políticas, deputado e conselheiro de Estado —, é sempre nos menos de dois anos como ministro do Ultramar que as conversas, entrevistas e investigações académicas se centram. “Adriano Moreira passou o resto da vida a gerir a memória daqueles dois anos no Ministério do Ultramar”, diz Ramada Curto ao PÚBLICO.

Na entrevista a Loff, que tem 28 páginas — e que foi dada quando Moreira tinha 68 anos —, o ex-ministro de António de Oliveira Salazar defende, citando a hoje controversa tese do lusotropicalismo proposta pelo sociólogo brasileiro Gilberto Freyre, que quis uma “interpenetração de culturas” e a “igual dignidade das culturas” entre colonizadores e colonizados. “Não é transformar a população de África em europeus”, explica. Com a nova legislação de 1961, “deixa de haver diferenciação em matéria de direitos políticos que resultam do estatuto cultural das pessoas, ou étnico ou religioso”.​

Moreira entrou no Governo de Salazar em 1959, como subsecretário de Estado da Administração Ultramarina, e avançou com as novas leis pouco depois de subir a ministro. De entre os célebres seis decretos, está a abolição do Estatuto dos Indígenas e a criação do Código do Trabalho Rural. Na sua leitura, a nova legislação defendia uma “autonomia progressiva e irreversível” das colónias e foi “uma etapa inovadora” — “não tenho dúvidas nenhumas sobre isso!”, diz na entrevista de 1990. As mudanças que propôs para o então “Ultramar” receberam “muita, muita oposição”, “como é natural”. “Não era a corrente de pensamento do Governo. Era uma corrente de pensamento de pessoas que se interessavam por estes problema.

Ao mesmo tempo que abolia o Estatuto dos Indígenas, no entanto, criava a lei das regedorias, sublinha Ramada Curto, que publicou ensaios sobre o tema. A lei das regedorias “fixava as populações nativas e colocava os chefes nativos na posição de colaboradores do Estado colonial, criando aldeamentos e, na prática, campos de concentração, uma vez que as pessoas não podiam sair sem a autorização do regedor, que era o chefe indígena”, diz o historiador. “Tira com uma mão e põe com a outra. Há um excesso de empolamento do lusotropicalismo e da ideia de reforma.”

Sobre Moreira conta-se sempre a história de como durou pouco no Governo e de como saiu. Foi a despacho com Salazar e o ditador não gostou das suas propostas. Ao que Moreira disse: “Não muda de política, muda de ministro.” É uma história que não está fechada. 

https://www.publico.pt/2022/10/23/politica/noticia/adriano-moreira-2025080

sábado, 22 de outubro de 2022

Bárbara Reis - Tens 12 anos? Não acredites em tudo o que vês no TikTok

Há dias, um miúdo de 12 anos queixou-se que, na escola, os rapazes são discriminados em relação às raparigas.

— Elas podem fazer tudo e ninguém diz nada. Nós, à mínima coisa, somos logo criticados.

Antes de eu poder responder, o rapaz avançou com um argumento de peso: a superioridade intelectual dos homens.

— Ainda por cima foram os homens que inventaram tudo o que é importante: electricidade, telefone, avião, computador, iPhone...

— Viste isso no TikTok?

Esta é uma conversa difícil: o que o rapaz de 12 anos viu no TikTok é verdadeiro, mas não é bem assim. Ou não é só isso.

Como é que se explica a uma criança que, durante séculos, as mulheres não podiam ser médicas, engenheiras ou cientistas e que, por isso, estavam afastadas dos laboratórios, universidades e empresas onde se inventavam as coisas?

Escrevi no Google a frase “men best inventions” e apareceu esta lista: prensa móvel, electricidade, carro, telefone, rádio, televisão, vacina, computador e avião.

O TikTok é um mundo estranho — é onde Khaby Lame tem 143 milhões de seguidores —, mas é uma fonte de informação do nosso tempo. Não dá para ignorar.

Quando ouvi a lista, pensei em Marie Curie, morta, e em Elvira Fortunato, viva.

Mal comecei a explicar que Curie descobriu o rádio e o polónio (e ganhou um Nobel por isso) e liderou o primeiro projecto de investigação sobre tratamento de tumores com radiação, já o meu interlocutor estava distraído. Nem cheguei ao primeiro ecrã totalmente transparente, que me pareceu ser uma invenção cool q.b. capaz de o impressionar.

Pensei que deveria preparar-me para uma segunda ronda e fui pesquisar “women best inventions”. Ada Lovelace é o nome mais frequente. É considerada a primeira programadora de computadores da história, ainda no século XIX, longe da invenção do computador. De novo, difícil de explicar.

— A Lovelace inventou o algoritmo ainda no século XIX.

— O que é um algoritmo?

A seguir falei de Grace Hooper, uma matemática pioneira da programação informática que, em 1955, inventou uma forma de compilar código informático. Falei em Evelyn Berezin que, em 1971, construiu “o primeiro verdadeiro processador do mundo”. Podia ter falado de Margaret Hamilton, directora da divisão do MIT que desenvolveu o software da missão Apollo para a NASA. Não cheguei lá.

Durante séculos, as mulheres estavam em casa e, por isso, as suas invenções brilham quase sempre na vida doméstica, na limpeza e na segurança. Passo a listar:

Martha Coston inventou o sistema de luzes de pedido de ajuda em alto mar (1859). Sarah E. Goode inventou a cama desdobrável (1885). Josephine Cochran inventou a máquina de lavar loiça (1886). Maria Beasley inventou o bote salva-vidas maleável (1880). Letitia Mumford Geer inventou a seringa que se usa só com uma mão (1896). Mary Anderson inventou o limpa-pára-brisas (1903). Elizabeth Magie Phillips inventou o jogo Monopólio (1904). Melitta Bentz inventou os filtros de papel para as máquinas de café (1908). Beulah Louise Henry inventou a máquina de fazer gelados em casa (1912). Lillian Moller Gilbreth inventou o caixote de lixo com pedal de pé e as prateleiras dos frigoríficos, incluindo os separadores para a manteiga e para os ovos (anos 1920). Marion Donovan inventou as fraldas descartáveis (1949). Mária Telkes inventou a máquina de dessaliniza água com energia solar (1942). Bette Nesmith Graham inventou o corrector líquido que apaga a tinta (1956). Stephanie Kwolek inventou a fibra Kevlar, resistente ao calor, cinco vezes mais forte do que o ferro e usada nos coletes à prova-de-bala (1965). Etc.

Também há inventoras do mundo “fora de casa”: Jeanne Villepreux-Power inventou o aquário de vidro (1832). Ellen Eliza Fitz inventou o globo com pé (1875). Margaret Knight inventou a máquina de fazer sacos de papel (1868). Erna Schneider Hoove inventou o call center (1954). Mary Sherman Morgan descobriu a fórmula do combustível Hydyne-LOX, que permitiu aos EUA lançarem o primeiro foguetão para o espaço (1958). Rachel Louise Carson fundou o movimento ecologista (1962). Dorothy Hodgkin descobriu a estrutura atómica da penicilina e da insulina (1964 e ganhou um Nobel por isso). Patricia Bath inventou o Laserphaco Probe, máquina de laser que trata as cataratas (1981). Etc.

Estas listas são mais do que incompletas e desactualizadas. Mas são o que os miúdos encontram na Internet.

​Em 1953, o New York Times publicou uma pequena notícia cujo título era: “British Women Scientists Think Men Are Smarter”. É isso mesmo que leu: mulheres cientistas britânicas pensam que os homens são mais inteligentes. Quase 70 anos depois, o TikTok que as nossas crianças vêem repete o absurdo.