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domingo, 22 de maio de 2011

José Saramago - Uma experiência única



José Saramago - Depoimento

Uma experiência única

O testemunho de José Saramago sobre a exposição La Consistência de los Sueños, na edição 970, de 5 de Dezembro de 2007

José Saramago
15:39 Sexta feira, 18 de Jun de 2010
De que matéria são feitas a vida e obra de um Nobel da Literatura? Fernando Gómez Aguilera procurou responder a essa pergunta, ao conceber, na Fundação César Manrique, em Lanzarote, a exposição José Saramago -La Consistencia de los Sueños, patente ao público até 16 de Janeiro. Ao longo de 700 metros quadrados, mostram-se manuscritos (muitos dos quais inéditos), textos dactilografados, primeiras edições em Português e Espanhol de todas as suas obras, traduções, estudos críticos, teses de doutoramentos, documentos gráficos, audiovisuais, recortes de imprensa, cartas de escritores e leitores. Neste número, o JL publica um artigo de Carlos Reis, reitor da Universidade Aberta e nosso colunista, com vários ensaios publicados sobre a obra de José Saramago, falou com o comissário da exposição e ouviu o escritor sobre a importância desta homenagem, decerto uma das maiores que alguma vez lhe foi prestada
Sou um homem antigo que, em princípio, não se deslumbra com as novas tecnologias, mas, com esta exposição, tenho de admitir que me rendi à evidência das suas grandes potencialidades.
O que é que um escritor tem para mostrar ao visitante de uma iniciativa cultural que se estende por uma área de 700 metros quadrados? Papéis, livros, algumas fotografias e pouco mais, mas em La Consistencia de los Sueños vemos coisas tão surpreendentes como a projecção de um fluxo de nomes, que são os das minhas personagens. A digitalização de um manuscrito como Clarabóia permite, por exemplo, que o visitante o leia como se as páginas estivessem lá, como se as pudesse tocar e voltar, e, na verdade, não estão. Descobrir este mundo novo foi qualquer coisa de maravilhoso para mim, tal como o foi refazer todo um período de vida que recordava com pouca precisão. Quando o Fernando Gómez Aguilera me propôs fazer esta exposição, pareceu-me uma ideia difícil, senão impossível, de concretizar. Agora, sinto uma imensa gratidão porque, nesta fase da minha vida, foi-me permitido viver algo de único.
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O plano de La Consistencia de los Sueños estava praticamente pronto quando surgiram mais umas quantas caixas em que a Pilar e eu não mexêramos desde que nos mudáramos para Lanzarote. Abriram-se e apareceram manuscritos e outros materiais que eu recordava, mas que pensava serem de datas muito posteriores. Claro que são textos do final da adolescência e do princípio da idade adulta, com um valor literário muito relativo (não são exactamente o Memorial do Convento), mas são importantes para a reconstrução de todo um período da minha vida. O paradoxo é que isto aconteça numa ilha em que escolhi viver, mas na qual não tenho raízes. Por outro lado, se nenhuma instituição portuguesa quiser levar esta exposição a Lisboa, ou a qualquer cidade portuguesa, não sei muito bem o que hei-de pensar.
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Depoimento recolhido oralmente


Ler mais: http://aeiou.visao.pt/uma-experiencia-unica=f562786#ixzz1U6wdCMhu

quarta-feira, 29 de abril de 2009

A minha Guerra - Depoimentos sobre a Guerra Colonial Portuguesa

A Minha Guerra
d.r.

26 Abril 2009 - 00h00

A minha guerra

"Explosão matou 12 e feriu 18 camaradas"

Tragédia. Um erro de um alferes, ao fazer as operações de segurança da G3, provocou o maior drama da minha comissão, uma semana após a chegada.

"Andei atrás de Che Guevara em Angola"

Tarefa dolorosa. Eram os mecânicos como eu quem saia dos helicópteros para recolher os cadáveres dos nossos camaradas. Contei mais de 60.

"Morreram catorze homens do grupo"

Vinte e tal militares ficaram feridos Numa explosão. Eu fui projectado 35 metros contra rochedos. A nossa força ficou reduzida a 4 elementos.
Com um grupo de amigos do Batalhão de Engenharia

“Soube de imediato do início da guerra"

Considero-me afortunado em relação a outros ex-combatentes. Fui radiotelegrafista, estive nas unidades e só um camarada foi ferido com gravidade.

"Revoltosos abatidos um a um"

Contrariado, parti e logo no início da viagem montámos um plano, que não deu resultado, para desviar o barco para o Brasil. Um bufo denunciou-nos.

"Uma nativa foi morta por misericórdia"

Passei nove meses numa zona de guerra, onde o medo me assaltou algumas vezes. Mas também tive tempos bons, a cantar e à bateria a animar os camaradas

"Estive na guerra com o meu pai"

A minha família é uma daquelas que foi destroçada pela guerra. O meu pai, como médico, e eu, como enfermeiro, assistimos a episódios de terror nos (...)

"Mataram 30 nativos à catanada"

Passámos por muito sofrimento. É triste recordar, mas tínhamos dias em que não comíamos. Tudo era escasso, até a água faltava. Eu acabei por ser (...)

"Perdi 16 camaradas de uma só vez"

Tentei sobreviver e escapar à fome durante os três anos que estive em Moçambique. Animava os meus camaradas, com partidas, apesar dos momentos mais (...)

"Liderei um encontro com guerrilheiros"

Passei três meses em Santarém e seis em Sacavém. Tirei aqui a especialidade de mecânico auto, na Escola Prática de Serviço de Material. Em Abril, (...)

“Passados 50 anos é como se fosse hoje"

Fiz uma comissão de dois anos como 1.º cabo. As imagens dos mortos fazem parte da minha vida. Um dos meus camaradas morto em combate foi enterrado em (...)
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