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segunda-feira, 8 de dezembro de 2025

João Gomes - Marias Cachuchas sem sorte

* João Gomes, 

(Antes de mais quero dar os parabens ao autor deste texto. Pela qualidade literária, pela atualidade – devido ao recentemente badalado caso do bebé desaparecido de um hospital que o Estado se prepara para “subtrair” à mãe -, pela justeza ética dos valores que defende. Infelizmente, ainda que todas as mães sejam iguais, há sempre umas mais “iguais” que outras…

O autor, entretanto, criou uma Petição Pública para que as autoridades competentes reexaminem o caso, denominada “Pela revisão do caso da mãe de Gaia e pelo direito ao apoio social à família” 

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Estátua de Sal, 06-12-2025)


(Antes de mais quero dar os parabens ao autor deste texto. Pela qualidade literária, pela atualidade – devido ao recentemente badalado caso do bebé desaparecido de um hospital que o Estado se prepara para “subtrair” à mãe -, pela justeza ética dos valores que defende. Infelizmente, ainda que todas as mães sejam iguais, há sempre umas mais “iguais” que outras…

O autor, entretanto, criou uma Petição Pública para que as autoridades competentes reexaminem o caso, denominada “Pela revisão do caso da mãe de Gaia e pelo direito ao apoio social à família”, a qual pode ser assinada aqui

Estátua de Sal, 06-12-2025)

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Diz o povo, com aquele jeito fatalista que o tempo ensinou: “É do tempo da Maria Cachucha.” Querendo dizer velho, gasto, ultrapassado. Mas talvez o povo nunca tenha percebido que a verdadeira Maria Cachucha não era sinal de antiguidade – era sinal de resistência. Uma mulher que dançava para não sucumbir, que rodopiava nos adros como quem enfrenta o mundo com os pés descalços e o coração inteiro.

Hoje, a Maria Cachucha existe, mas já ninguém lhe conhece o nome. Perdeu-se nas vielas, nos prédios devolutos onde o vento entra melhor do que o sol, nas barracas que ainda sobrevivem por entre promessas políticas e fotografias de inaugurações. Não dança mais a cachucha – porque o tempo não lhe dá folga -, mas carrega nos braços o que o mundo insiste em lhe tirar: os filhos.

São as Marias Cachuchas sem sorte deste país. As que aprendem cedo que a pobreza é sempre suspeita, mesmo quando é honesta; que o amor não é suficiente para provar que se é mãe; que o Estado aparece mais depressa para levar uma criança do que para garantir que uma casa tenha teto, água quente ou paredes que não caiam à chuva.

Todas as mulheres que, como a jovem de Gaia, veem a maternidade tratada como um privilégio condicional – “podes ser mãe, mas só se tiveres condições”. Condições que ninguém lhes deu, que ninguém lhes quis dar, que ninguém se apressa a construir. Porque é mais simples retirar um bebé do que erguer uma casa; mais rápido assinar um despacho do que garantir um futuro.

E assim, neste país que se orgulha de ser “avançado”, onde os discursos falam de natalidade como quem fala de números e metas, continuam a existir crianças que nascem nos carros à porta das maternidades fechadas, mães que chegam sozinhas aos hospitais porque os transportes públicos não passam, famílias que vivem em quartos interiores onde a esperança mal cabe.

E quando uma mãe pobre segura o filho nos braços, o mundo olha para ela como se segurasse uma culpa.

As Marias Cachuchas de hoje não são dançarinas de praça. São mulheres de vinte anos com um bebé ao colo e o coração apertado. São avós que defendem filhas e netos com a força que têm e a que já não têm. São mães que, em vez de ensaiar passos de dança, ensaiam justificações perante assistentes sociais: “Sim, o quarto é pequeno… sim, o frigorífico está velho… mas eu amo o meu filho.” Como se o amor fosse prova insuficiente. Como se o amor tivesse de passar no crivo das autoridades. Como se existir fosse um teste permanente que a pobreza desclassifica à partida.

E, no entanto, estas mulheres, silenciosas e invisíveis, continuam a dançar – não com os pés, mas com a coragem. Dançam contra a burocracia, contra a humilhação, contra a estatística. Dançam para manter ao colo aquilo que o mundo lhes tenta arrancar. Dançam porque a maternidade pobre continua a ser vista como erro, quando devia ser vista como pedido de ajuda.

A verdadeira Maria Cachucha, se ainda existisse, teria largado a mantilha e posto as mãos na anca, olhando o país com aquela altivez antiga que a lenda lhe atribui. Teria dito, entre um passo e outro: “Não é nas mães que está o problema – é no país que as deixa cair.”

Hoje, no Natal que se aproxima com luzes caras e palavras doces, convém recordar que nem todas as crianças dormem em lares aquecidos. Convém lembrar que há mães que rezam, não por presentes, mas para que ninguém lhes leve os filhos. Convém não esquecer que, num país que não garante habitação digna, retirar uma criança por pobreza não é proteção – é punição.

E talvez, só talvez, seja tempo de devolver às Marias Cachuchas deste país algo mais do que a memória romântica de uma dançarina. Talvez seja tempo de lhes devolver futuro. E lhes dar condições de habitabilidade. E de lhes devolver os filhos.

Bom dia!

in Facebook, 05/12/2025

https://estatuadesal.com/2025/12/06/marias-cachuchas-sem-sorte 

terça-feira, 11 de novembro de 2025

João Mendes - Os homens que odeiam as mulheres

*









As mulheres no geral não são muito racionais, nem sequer têm a capacidade de compreender o bem comum, o bem da nação.

Mas isso não é necessariamente mau, eu não estou a fazer um ataque às mulheres, é importante perceber isto. Isto é da natureza da mulher.

Não há problema em a mulher ser assim. Eu não quero dar a decisão do futuro do meu país às mulheres. Eu acho que elas não têm essa responsabilidade. Porque estão biologicamente desenhadas para ter um filho, para agarrar num filho, para cuidar de um filho, não é para tomar decisões importantes para o futuro de um país.

É bastante consensual que os homens são geralmente mais inteligentes que as mulheres, por isso é que eu acho que só os homens mais inteligentes é que devia votar, como acontecia na Grécia Antiga.

 

Já estiveste em alguma sala com 15 mulheres para ver se acabavam as guerras? Elas fazem guerras entre elas naturalmente. Se eu tiver aqui com 15 homens não há guerra nenhuma nem conflito nenhum. Se tiverem aqui 15 mulheres sozinhas, uma é porque tem o cabelo de uma cor, a outra pintou as unhas, a outra passou à frente na fila, a outra anda com um namorado qualquer. Elas criam conflitos por tudo, as mulheres. Para se entreterem.

 

O voto universal não faz sentido. Eu acho que só deviam votar homens portugueses com propriedades. E mulheres não. Eu acho que mulheres não faz sentido que votem. Desde que demos o voto às mulheres, foi a pior coisa que fizemos nos últimos 100 anos na civilização ocidental. Eu não tenho problema nenhum e dizer isto, julguem-me à vontade, eu sei que estou certo.

Transcrevi, a custo, estas palavras de um pirralho de 25 anos que lidera um grupo de extremistas com ideias deste calibre. Trata-se de Afonso Gonçalves, líder da Reconquista, uma organização fundamentalista de inspiração neofascista e neonazi.

Nunca trabalhou, nunca fez nada de útil pela sociedade, mas isso foi o suficiente para ser acarinhado por figuras de primeira linha do CH, pela sua jota e por pessoas como Miguel Milhão, dono da Prozis, que deu palco no seu podcast para estas e outras ideias igualmente repugnantes.

Parabéns ao MaiaSport por dar palco a esta gente no passado fim-de-semana.

E parabéns às mulheres que acham que é por aqui que as suas vidas vão melhorar.

E sim, as ligações entre esta gente o CH são mais que muitas. Estiveram lá eleitos do CH, assessores e oradores ligados ao partido.

Este congresso de extremistas-mirins foi de tal forma surreal, que conseguiu abafar um facto bizarro: também na Maia, no fim-de-semana passado, realizou-se um festival de música da organização neonazi Blood & Honour.

No salão paroquial de uma igreja católica.

Repito: no salão paroquial de uma igreja católica.

Batemos no fundo?

Ainda não.

Isto ainda vai piorar antes de melhorar.

***
Imagens  da responsabilidade de VN
https://aventar.eu/2025/11/11/os-homens-que-odeiam-as-mulheres/#more-1367999

segunda-feira, 10 de março de 2025

Karla Pisano - 8 de Março: Contaram-nos a história errada


 
* Karla Pisano

Lembro-me de quando no secundário os professores nos falavam sobre a origem do dia 8 de março. Contaram a história das 140 trabalhadoras que morreram num incêndio numa fábrica de camisas em Nova Iorque. Portanto, a origem do “Dia Internacional da Mulher” foi nos Estados Unidos e a sua declaração oficial veio da ONU em 1975. Nada poderia estar mais longe da verdade; Nem os Estados Unidos, nem a ONU, nem o “Dia da Mulher”. Foi em 1910, na Conferência Internacional das Mulheres Socialistas realizada em Copenhaga (criada em 1907 e que reuniu as mulheres da II Internacional) que, por proposta de Clara Zetkin, se decidiu por unanimidade celebrar o Dia Internacional da Mulher Trabalhadora. Em 1917, o dia 22 de fevereiro foi comemorado na Rússia, dia em que se iniciou a Revolução de Fevereiro, e mais tarde, com a alteração do calendário, os soviéticos decidiram instituir o dia 8 de março como o Dia da Mulher Trabalhadora. Com a ajuda de grupos socialistas, o dia espalhou-se por diferentes países. O adjetivo “trabalhador” foi removido pela ONU em 1972 e não foi oficialmente celebrado nos Estados Unidos até 1992. História inócua não é história, portanto, esquecer ou retrabalhar a origem de uma data como esta é um bom exemplo do revisionismo a que a história do movimento operário foi sujeita. O feminismo de elite, uma vez institucionalizado, construiu uma narrativa que tenta apresentar a história da emancipação das mulheres como algo oposto à história da emancipação dos trabalhadores. O século XIX e grande parte do século XX testemunhariam a natureza conflituosa entre género e classe. Esta visão não é apenas historicamente falaciosa, mas politicamente prejudicial.

Em primeiro lugar, digo que é falacioso em termos históricos porque basta um olhar rápido para a história dos últimos dois séculos para perceber que alguns dos avanços mais importantes para a questão das mulheres trabalhadoras vieram de experiências e debates históricos dentro do movimento proletário. Claro que esta não é uma história isenta de contradições, avanços e recuos (como todos os processos históricos de mudança), mas isso não nos impede de deixar de reivindicar o extenso legado do movimento socialista no que diz respeito às mulheres trabalhadoras. Se a construção de uma frente de mulheres socialistas contra a dominação de género e pela constituição da mulher trabalhadora como sujeito político ativo em prol do socialismo não tivesse sido uma tarefa assumida pelo movimento proletário, como explicar então os seus primeiros contributos para a questão da mulher trabalhadora no capitalismo? Como explicar que muito antes de Simone de Beauvoir escrever O Segundo Sexo,  Augusta Bebel primeiro e Engels depois já tivessem publicado contributos para a crítica da família e da sexualidade. Se o socialismo não tivesse sido um elemento político importante entre as mulheres, como poderíamos explicar o aparecimento de líderes comunistas tão destacadas (não dedicadas exclusivamente ao trabalho feminino) como Rosa Luxemburgo, Klara Zetkin, Aleksandra Kolontái e Dolores Ibárruri? Como podemos explicar que uma “onda feminista” antes da Dama de Ferro Margaret Thatcher pudesse ser reivindicada como a mais famosa primeira-ministra mulher, em 1969 Sirimavo Bandaranaike, membro do  Partido da Liberdade do Sri Lanka , socialista não alinhado , foi eleita a primeira primeira-ministra mulher do mundo; onde e no atual Sri Lanka. Como podemos explicar que os primeiros partidos a assumir as reivindicações dos direitos laborais, políticos e civis das mulheres tenham sido os partidos socialistas, e que o primeiro governo a implementar algumas das medidas mais progressistas (o direito ao divórcio igualitário, a legalização do aborto, a criminalização da violação conjugal, etc.) tenha sido o governo bolchevique? Por outro lado, o papel de liderança que as mulheres trabalhadoras desempenharam nas sucessivas revoluções dá conta do seu potencial político emancipatório, enquanto sujeitos duplamente oprimidos: o papel das mulheres nas chamadas Marchas de Outubro, protestos contra a escassez de farinha que conduziram à Revolução Francesa; a participação indispensável das mulheres atrás das barricadas nas revoluções de 1848; ou os protestos das operárias têxteis de Petrogrado que conduziram à Revolução de Fevereiro.

Mas, como sabemos, estes ciclos revolucionários não foram capazes de superar a organização social que nos explora e oprime. Perante isto, o feminismo burguês apressou-se a declarar a morte política do projeto de emancipação universal; A “mulher” teve de se emancipar pelos seus próprios meios, como sujeito unitário interclasse. Isto leva a um divórcio cultural e político entre a luta pela emancipação das mulheres trabalhadoras e a revolução socialista, a par do enfraquecimento das opções socialistas. Depois das “quatro vagas feministas” creio que estamos em condições de dizer que a premissa introduzida pelo feminismo burguês era falsa: não há contradição entre a emancipação das mulheres trabalhadoras e a emancipação de classe, e o projecto feminista que preconizava a construção de um sujeito político de género desligado da luta de classes acabou por se tornar uma muleta necessária ao reformismo e a sua transformação não foi além do que a dominação de classe permitia. Assim, este movimento identificou-se com a defesa prioritária dos problemas que afligiam as mulheres mais abastadas (teto de vidro, políticas relacionadas com a identidade e a representatividade…), relegando sistematicamente para segundo plano as condições de vida da maioria das mulheres.

No dia 8 de março, nós, mulheres socialistas, temos um legado histórico a reivindicar, não como mera comemoração folclórica de um passado dissecado e dogmatizado, mas como testemunha do processo, inacabado, mas veemente, que nos recorda aquele axioma pelo qual nos reconhecemos nesta luta: Não há emancipação da mulher trabalhadora sem uma revolução socialista, mas também não há revolução socialista sem a emancipação da mulher trabalhadora. As mulheres trabalhadoras devem estar na vanguarda desta luta, não só porque o projecto de uma sociedade comunista contém as premissas necessárias para pôr fim à nossa dominação e exploração, mas porque sem nós não há emancipação possível.

FONTE   https://www.resumenlatinoamericano.org/2025/03/07/feminismos-8m-nos-han-contado-mal-la-historia/

https://osbarbarosnet.blogspot.com/2025/03/8-de-marco-contaram-nos-historia-errada.html

y Resumen Latinoamericano on 7 marzo, 2025

segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

Hipatia de Alexandria, por Helena Vasconcelos




Desenho do Alexandrian World Chronicle representando o Papa Teófilo de Alexandria , com o evangelho nas mãos, de pé triunfantemente no topo do Serapeum em 391 DC

HIPÁCIA DE ALEXANDRIA

«Hipácia (o nome significa “a maior”) de Alexandria foi uma matemática distinta, especialista em álgebra e mecânica. Nasceu em 370 d.C. e era filha de Teon, um professor da Universidade de Alexandria que era filósofo, astrónomo, matemático e diretor do museu. Hipácia viveu sob o jugo do Império Romano, cuja jurisdição compreendia o Egito e, evidentemente, Alexandria, centro do conhecimento. Mas a sua formação pode dizer-se que era grega, o que a torna ainda mais fascinante. Foi a tradição do racionalismo grego que levou os seus estudos suficientemente longe para que se tornasse aquilo que o seu pai desejava para ela e que ela própria se propunha alcançar: um ser perfeito que combinava em si um corpo e uma mente perfeitamente sãos. Ao que parece, Hipácia era extremamente bela e igualmente talentosa, tendo partido para Atenas, ainda muito jovem, para estudar com Plutarco. Quando regressou a Alexandria, a sua fama ultrapassava as fronteiras do mundo antigo. Era conhecida por conseguir decifrar os mais complicados problemas matemáticos, sendo consultada amiúde pelas mais brilhantes cabeças do mundo. 

Quando lhe perguntavam por que razão não se casava, dizia que já se tinha casado com a verdade. Ensinou na Academia de Alexandria – matemática e astronomia –, mas era também versada em filosofia, religião, poesia e artes. Dominava as artes da oratória e da retórica, que tinham grande importância na aceitação e integração das pessoas na sociedade da época, bem como a História das Religiões. Hipácia escreveu um “Cânone Astronómico”, comentou o trabalho dos seus grandes antecessores, como Ptolomeu, Diofanto, Euclides e Apolónio, e construiu instrumentos científicos como o astrolábio, o planisfério e o hidroscópio. A maior parte da sua obra foi destruída com o desaparecimento da grande Biblioteca e o saque do templo de Serápis, e a sua vida teve um fim trágico que importa conhecer porque serve de ilustração da passagem de um tempo em que se valorizava a cultura e a ciência para outro tempo de obscurantismo e ignorância, regido pela religião. 

Hipácia era pagã e defendia a liberdade do pensamento, facto a que se opunha a crescente ascensão do cristianismo, oficializado em 390 d.C. O recém-nomeado chefe religioso de Alexandria, o bispo Cirilo, dispôs-se a eliminar todos os pagãos assim como os seus monumentos e escritos. Hipácia foi considerada herética e diz-se que foi o próprio Cirilo quem comandou uma turba de cristãos enfurecidos que a atacou à saída da Biblioteca e a massacrou – no ano de 415 d.C.

O historiador Edward Gibbon faz um relato do que aconteceu: “Num dia fatal, na estação sagrada de Lent, Hipácia foi arrancada da sua carruagem, rasgaram-lhe as roupas e arrastaram-na nua, para a igreja. Lá, foi desumanamente massacrada às mãos de Pedro, o Leitor, e sua horda de fanáticos selvagens. A carne foi esfolada dos seus ossos com ostras afiadas e os seus membros, ainda palpitantes, foram atirados às chamas.»

Carl Sagan acrescentou: “Há cerca de 2000 anos, emergiu uma civilização científica esplêndida na nossa história; a sua base era em Alexandria. Apesar das grandes hipóteses que tinha para se desenvolver, ela decaiu. A sua última cientista foi uma mulher, considerada pagã. Seu nome era Hipácia. Com uma sociedade conservadora a respeito do trabalho da mulher e do seu papel, com o aumento progressivo do poder da Igreja, formadora de opiniões e conservadora quanto à ciência, e devido a Alexandria estar sob domínio romano, após o assassínio de Hipácia, em 415, a sua biblioteca foi destruída. 

Milhares dos preciosos documentos foram queimados e perdidos para sempre, e com ela todo o progresso científico e filosófico da época.

O massacre de Hipácia marcou o fim da idade de ouro de Alexandria e representou o toque a finados da liberdade religiosa. Depois da sua morte, muitos cientistas, filósofos e pensadores abandonaram a grande cidade do conhecimento e espalharam-se pela Índia e pela Pérsia, que assim avançaram em termos científicos e culturais, enquanto o Ocidente mergulhava no obscurantismo medieval. É preciso que se diga que os trabalhos dos sábios e das sábias de Alexandria foram preservados pelos árabes, persas, indianos e chineses.»

Helena Vasconcelos, Humilhação e Glória

https://www.facebook.com/paulo.marques.7393/posts/pfbid02iXFvm6e1bBLoWBW2fQHXG3Lz9x9iuaVCyrrU58taqkX2sfbXSFdCHAfTRKdvyaUPl

sábado, 22 de outubro de 2022

Bárbara Reis - Tens 12 anos? Não acredites em tudo o que vês no TikTok

Há dias, um miúdo de 12 anos queixou-se que, na escola, os rapazes são discriminados em relação às raparigas.

— Elas podem fazer tudo e ninguém diz nada. Nós, à mínima coisa, somos logo criticados.

Antes de eu poder responder, o rapaz avançou com um argumento de peso: a superioridade intelectual dos homens.

— Ainda por cima foram os homens que inventaram tudo o que é importante: electricidade, telefone, avião, computador, iPhone...

— Viste isso no TikTok?

Esta é uma conversa difícil: o que o rapaz de 12 anos viu no TikTok é verdadeiro, mas não é bem assim. Ou não é só isso.

Como é que se explica a uma criança que, durante séculos, as mulheres não podiam ser médicas, engenheiras ou cientistas e que, por isso, estavam afastadas dos laboratórios, universidades e empresas onde se inventavam as coisas?

Escrevi no Google a frase “men best inventions” e apareceu esta lista: prensa móvel, electricidade, carro, telefone, rádio, televisão, vacina, computador e avião.

O TikTok é um mundo estranho — é onde Khaby Lame tem 143 milhões de seguidores —, mas é uma fonte de informação do nosso tempo. Não dá para ignorar.

Quando ouvi a lista, pensei em Marie Curie, morta, e em Elvira Fortunato, viva.

Mal comecei a explicar que Curie descobriu o rádio e o polónio (e ganhou um Nobel por isso) e liderou o primeiro projecto de investigação sobre tratamento de tumores com radiação, já o meu interlocutor estava distraído. Nem cheguei ao primeiro ecrã totalmente transparente, que me pareceu ser uma invenção cool q.b. capaz de o impressionar.

Pensei que deveria preparar-me para uma segunda ronda e fui pesquisar “women best inventions”. Ada Lovelace é o nome mais frequente. É considerada a primeira programadora de computadores da história, ainda no século XIX, longe da invenção do computador. De novo, difícil de explicar.

— A Lovelace inventou o algoritmo ainda no século XIX.

— O que é um algoritmo?

A seguir falei de Grace Hooper, uma matemática pioneira da programação informática que, em 1955, inventou uma forma de compilar código informático. Falei em Evelyn Berezin que, em 1971, construiu “o primeiro verdadeiro processador do mundo”. Podia ter falado de Margaret Hamilton, directora da divisão do MIT que desenvolveu o software da missão Apollo para a NASA. Não cheguei lá.

Durante séculos, as mulheres estavam em casa e, por isso, as suas invenções brilham quase sempre na vida doméstica, na limpeza e na segurança. Passo a listar:

Martha Coston inventou o sistema de luzes de pedido de ajuda em alto mar (1859). Sarah E. Goode inventou a cama desdobrável (1885). Josephine Cochran inventou a máquina de lavar loiça (1886). Maria Beasley inventou o bote salva-vidas maleável (1880). Letitia Mumford Geer inventou a seringa que se usa só com uma mão (1896). Mary Anderson inventou o limpa-pára-brisas (1903). Elizabeth Magie Phillips inventou o jogo Monopólio (1904). Melitta Bentz inventou os filtros de papel para as máquinas de café (1908). Beulah Louise Henry inventou a máquina de fazer gelados em casa (1912). Lillian Moller Gilbreth inventou o caixote de lixo com pedal de pé e as prateleiras dos frigoríficos, incluindo os separadores para a manteiga e para os ovos (anos 1920). Marion Donovan inventou as fraldas descartáveis (1949). Mária Telkes inventou a máquina de dessaliniza água com energia solar (1942). Bette Nesmith Graham inventou o corrector líquido que apaga a tinta (1956). Stephanie Kwolek inventou a fibra Kevlar, resistente ao calor, cinco vezes mais forte do que o ferro e usada nos coletes à prova-de-bala (1965). Etc.

Também há inventoras do mundo “fora de casa”: Jeanne Villepreux-Power inventou o aquário de vidro (1832). Ellen Eliza Fitz inventou o globo com pé (1875). Margaret Knight inventou a máquina de fazer sacos de papel (1868). Erna Schneider Hoove inventou o call center (1954). Mary Sherman Morgan descobriu a fórmula do combustível Hydyne-LOX, que permitiu aos EUA lançarem o primeiro foguetão para o espaço (1958). Rachel Louise Carson fundou o movimento ecologista (1962). Dorothy Hodgkin descobriu a estrutura atómica da penicilina e da insulina (1964 e ganhou um Nobel por isso). Patricia Bath inventou o Laserphaco Probe, máquina de laser que trata as cataratas (1981). Etc.

Estas listas são mais do que incompletas e desactualizadas. Mas são o que os miúdos encontram na Internet.

​Em 1953, o New York Times publicou uma pequena notícia cujo título era: “British Women Scientists Think Men Are Smarter”. É isso mesmo que leu: mulheres cientistas britânicas pensam que os homens são mais inteligentes. Quase 70 anos depois, o TikTok que as nossas crianças vêem repete o absurdo.

segunda-feira, 18 de outubro de 2021

Teresa Beleza. «Há decisões judiciais indignas de um país democrático»

NACIONAL|LUTA DAS MULHERES

Entrevista -, AbrilAbril POR NUNO RAMOS DE ALMEIDA

17 DE OUTUBRO DE 2021

 

Feminista e jurista de renome, conversou com o AbrilAbril sobre violência contra as mulheres e aquilo que é necessário fazer para haver uma sociedade em que a opressão das mulheres fique na pré-história do nosso tempo.

 

Teresa Pizarro Beleza foi a primeira mulher a dirigir a Faculdade de Direito da Universidade Nova de Lisboa. Criou a disciplina de Direito das Mulheres e da Igualdade Social, introduzida no elenco das cadeiras de opção da licenciatura em Direito. Foi vogal do Conselho Superior do Ministério Público, por designação do Ministro da Justiça. Eleita, por referência de Portugal, para o Comité Europeu para a Prevenção da Tortura (CPT do Conselho da Europa) por um mandato de quatro anos, entre 1999 e 2003, levou a cabo missões de fiscalização das condições de detenção sob autoridade pública em vários países, nos termos da Convenção Europeia para a Prevenção da Tortura e Penas ou Tratamentos Desumanos e Degradantes. 

Há mais assédio sexual hoje do que havia nos seus tempos de faculdade?

Se «…os meus tempos de faculdade…» significa quando eu era estudante universitária, a resposta é: não sei. Não tenho dados objectivos fiáveis, estatisticamente significativos, para dar uma resposta séria. Mas, em termos de intuição e experiência, diria que é provável que a variação quantitativa não seja muita. A percepção e sobretudo a publicitação de um fenómeno que todas ou quase todas as mulheres conhecem é que certamente terão mudado. E muito.

Por que razão é que só agora as questões do assédio sexual parecem ter-se tornado visíveis?

Não se tornaram visíveis só agora. Mas na verdade o grau de visibilidade acentuou-se muito com um certo renascer recente do feminismo. Simplificando, porque «feminismo» é tudo menos coisa simples ou unitária. Há múltiplas e muito diversas correntes que cabem nesta designação genérica. Sendo na verdade coisa antiga, o feminismo (ou os feminismos, talvez melhor dizendo) nem sempre se centrou na atenção à violência e ainda menos ao assédio sexual, que por vezes se fala, e bem, em outro(s), incluindo na legislação do trabalho, por exemplo. Quando John Stuart Mill denunciava no parlamento britânico a violência conjugal mortífera que se abatia sobre as mulheres, ou declarava solenemente que não exerceria sobre a sua mulher os poderes que a lei lhe concedia, caso Harriet Taylor aceitasse casar com ele, era uma voz solitária e rara. Não por acaso autor do magnífico ensaio «The Subjection of Women» (1869), Stuart Mill ainda é hoje – em meu entender – muito pouco conhecido nesta sua faceta, mesmo por parte dos teóricos da Ciência Política, quantas vezes distraídos, ou simplesmente ignorantes, em matéria de relações de género. A União Europeia começou a tentar publicitar e combater o problema do assédio nos locais de trabalho há muitos anos e encarregou um investigador, cujo nome não recordo com exactidão, Michael Rubinstein, creio, de andar pelos vários países da União Europeia antes de esta o ser, incluindo Portugal – passa-se no final dos anos 80, se não erro –, a explicar que o assédio existia (coisa que muitas mulheres, como as operárias, que ouvi pessoalmente depor nessas sessões, estavam fartas de saber). A afirmar sobretudo que era coisa ruim, não aceitável. Nós também sabíamos, mas por timidez, vergonha ou experiência de indiferença ou desconsideração de quem  pudesse ouvir, não tínhamos o hábito de nos queixar, muitas vezes nem de simplesmente contar.

Eu fui vítima, em jovem, quando andava muito pelas ruas, ou nos transportes públicos (metro, autocarros), de vários actos de atentado ao pudor (seria a designação oficial segundo a Lei Penal então vigente) e nunca apresentei queixa, nem sequer me ocorreu. Acontece que, com todas as variações no espaço e no tempo, as mulheres sempre foram educadas para a submissão e simultaneamente para a sedução ma non troppo, e os homens para o domínio e para verem as mulheres como propriedade sua, em casa, na cama ou na rua. E por isso, as agressões verbais ou físicas que quase todas as raparigas sofreram na rua ou no trabalho foram suportadas ou ignoradas, tantas vezes com vergonha das próprias, porque tudo apontava para a sua culpa, provocação. Até o Código Penal, em 1982, nas disposições sobre crime de violação, insinuava que a probabilidade era de provocação por parte da vítima, constituindo uma circunstância atenuante específica desse crime, um dos mais graves e humilhantes para qualquer mulher (ou homem, aliás), alterado em 1995. Aliás, a violação era, na versão originária do Código Penal da democracia, o tal que que toda a Assembleia da República considerou maravilhoso e excelente – excepto quanto ao aborto e não pagamento de salários, cuja regulação ou falta dela foram contestadas pelo Partido Comunista –, o furto qualificado (sem violência) era mais grave que a violação, ou seja, que ofensas corporais graves. Isto é, o furto de um relógio valioso era legalmente mais grave do que cortar o braço de quem o ostentava. Cortar, mesmo, arrancar, a vítima ficar sem o dito…

Fartei-me de refilar, por escrito e oralmente, mas só em 1995 o legislador percebeu, como quem faz uma grande descoberta, o rematado disparate, obviamente inconstitucional, que tinham feito uns bons anos antes… E os juízes, presumo, muito entretidos na sua elaborada dogmática tese (?), aprendida nas faculdades de direito, aparentemente não deram por nada anos a fio. Do assédio, o legislador nunca ouvira falar, não sabia o que era, nem fazia ideia, presumo. Acharia talvez que se tratava de amáveis galanteios que os homens faziam às mulheres e elas até gostavam. As raras e improváveis queixas ou os eventuais protestos viriam certamente de feministas assanhadas, por definição«“feias» (Mário Soares, in illo tempore) e invejosas da atenção de que as suas rivais eram objecto.

Quais são as condições sociais, políticas, educativas e jurídicas que podem erradicar práticas e comportamentos que considerem as mulheres uma espécie de propriedade do homem?

Uma revolução civilizacional, que faça reverter hábitos, convicções, teorias, tradições, costumes e leis de séculos, ou melhor, de milénios. Coisa simples, como se vê. Michelle Rosaldo, uma brilhante antropóloga, infelizmente morta num acidente de trabalho de campo, verificou que em todo o mundo havia uma enorme variação do que era considerado atributo masculino e feminino, mas que uma coisa era constante: a suposta superioridade de tudo o que estava associado ao masculino, isto é, ao homem.

Há uma série de sentenças em tribunais portugueses, umas mais antigas (a célebre coutada do macho latino) e umas mais recentes, que mostram um posicionamento bastante machista da justiça (por exemplo no livro Medusa no Palácio da Justiça ou Uma História da Violação Sexual, de Isabel Ventura.) Isso é verdade? Há algo que se deva mudar na lei, ou apenas na formação dos magistrados?

Não era a «coutada do macho latino», mas a «coutada do macho ibérico», se quer citar a expressão usada num Acórdão do Supremo Tribunal de JustiçaSTJ sobre um caso de violação de duas turistas jugoslavas que pediam boleia numa estrada do Algarve e foram vítimas de energúmenos locais. Tive então a paciência de discutir esse caso, e semelhantes, num programa de televisão que me granjeou o epíteto, de que muito me orgulho, de «Jurista Ás» por parte do saudoso Mário Castrim, no seu papel de observador e crítico televisivo. As raparigas seriam, naturalmente, culpadas da agressão brutal dos moços, coitadinhos, que não resistiram aos seus naturais e desculpáveis impulsos de machos de sangue quente, donos e senhores de qualquer fêmea que se aventurasse na sua… coutada.

Sempre me interroguei sobre o que pensariam suas excelências reverendíssimas, digo, meritíssimas, que assinaram tal dislate sob a forma de acórdão do nosso mais alto tribunal, dos seus próprios filhos e filhas, se acaso os tivessem. As leis portuguesas não estão mal de todo, mas podem e devem ser melhoradas em muitos aspectos, designadamente no cumprimento das obrigações assumidas quando da ratificação da Convenção de Istambul, de 2011. Em primeiro lugar, uma muito diferente da actual compreensão da dignidade e liberdade de todas as pessoas, seja qual for a cor, o sexo, o género, e por aí fora. Ainda estamos bem longe disso, que parece tão evidente como no belo e tão esquecido texto da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948. Jean-Michel Folon, o genial artista belga que ilustrou uma das mais belas edições da DUDH, que conheço (1988, ed. Fondation Folon, Bruxelas), com apoio da Amnistia Internacional, escrevia: «Tout le monde en parle, personne ne la lit».

É altura de, a pretexto de aniversários redondos ou de qualquer outra coisa, relê-la e celebrá-la. E, sobretudo, de a levar a sério, e pô-la finalmente em prática.

Mas a formação dos magistrados é absolutamente essencial, porque já se tornou por demais evidente que ainda hoje há decisões judiciais absolutamente indignas de um país que se diz ser um Estado de direito democrático e tem uma Constituição da República correspondente, que aliás recebe expressamente no seu texto a Declaração Universal como ponto de referência interpretativo privilegiado em matéria de direitos liberdades e garantias.

Nos anos 60, as mulheres reivindicavam o seu direito a ter a sexualidade que entendiam. Actualmente, há uma luta contra o abuso sexual, sendo que uma reivindicação não é contraditória com a outra. Não se verifica, no entanto, em algumas franjas do movimento feminista, uma certa infantilização da mulher e de fazer dela sempre uma vítima? Não existe uma séria deriva em considerar que toda a relação heterossexual se faz num quadro de abuso estrutural?

Depende. Se com essa afirmação se quer dizer que as relações heterossexuais existem num contexto geral de um sistema que ainda hoje se pode descrever e caracterizar como patriarcado, então a afirmação é, obviamente, verdadeira. Tal como se afirmar que uma relação entre um branco e um negro nos EUA existe num contexto estrutural racista. Ou entre um capitalista e um operário num contexto geral de classismo, isto é, de diferenciação entre classes sociais (isto dito de forma simplista, claro, é necessário fazer análises muito mais finas, mas não é este o lugar). Como não reconhecer coisa tão óbvia!? Assunto diferente é o reconhecimento de que as relações individuais – no plano micro, se quiser – podem sempre escapar ao modelo hegemónico, em qualquer destes casos. Há quem o negue, pois claro. Também há quem recuse as vacinas e jure que a Terra é plana, ou que Darwin era doido, que Deus nos criou assim tal e qual, etc. Nem todos os relacionamentos amorosos (ou outros) entre um homem e uma mulher são necessariamente violentos e desiguais como, aliás, nem todos os casais do mesmo sexo são harmoniosos e livres de domínio ou violência. Só quem for muito distraído, ou pouco esclarecido sobre estas coisas, pensará que assim é. Digo eu, é claro, que não me imagino particularmente iluminada, mas ando a estudar e a pensar nisto tudo há muitos anos e tenho a veleidade de ter percebido algumas coisas.

Como conseguiremos criar condições para dar a palavra às mulheres que são vítimas de assédio sexual e ao mesmo tempo garantir a presunção de inocência dos acusados? Como é possível distinguir o quadro da denúncia de uma «cultura de violação» com o quadro individual das acusações concretas?

A palavra não se «dá» às mulheres. Nunca se deu, são as mulheres que a tomam para si, como sempre fizeram, em geral, com os direitos que lhes foram negados. Mesmo se em certos casos se pode falar numa espécie de feminismo de Estado num país, como Portugal, em que a relativa fraqueza dos movimentos feministas – dos movimentos sociais, em geral – se aliou ao centramento da Revolução de 1974 na questão política, no sentido mais estreito desta expressão, levando a que alguns avanços, na senda da igualdade de género (como hoje tendemos a dizer), se tenham dado de cima para baixo. O exemplo mais óbvio será certamente a Revisão do Código Civil, em 1977, aliás em obediência a um comando constitucional de igualdade e não discriminação, sobretudo nas áreas das leis da família e sucessões.

As questões do abuso sexual e do assédio são resolvidas por uma igualdade de poder entre homens e mulheres ou estão presas a comportamentos biológicos e sociais que exigem mais do que uma, ainda assim revolucionária, democratização do poder?

A «democratização do poder» é, como bem sabe, coisa complexa. Desde logo a expressão pode soar oximorónica, porque na democracia total não haveria poder de umas pessoas sobre as outras. Deixando de lado a discussão de possíveis utopias ou distopias, a verdadeira «igualdade de poder entre homens e mulheres» pressupõe que essa distinção deixe de fazer sentido, isto é, que as pessoas deixem de ser identificadas pelo seu sexo - ou mesmo género – como obviamente, para mim, é o caso da desacreditada raça. Não é pelo facto de o conceito científico de raça ter sido posto em causa pela ciência, e como tal abandonado com toda a sua lógica de superioridade e inferioridade, que floresceu com o colonialismo e o imperialismo e perdura em tantas sociedades e de tantas formas tão variadas e complexas que é impossível analisar aqui, que deixou de existir racismo, com a intrínseca racialização de grupos populacionais, como a ECRI (European Commission against Racism and Intolerance, do Conselho da Europa) passa a vida a lembrar nos seus Relatórios e Recomendações.

O problema é transversal a toda a sociedade ou tem pesos diferentes nos mais cultos e menos cultos, nos mais ricos e menos ricos, nos de esquerda ou de direita?

É certamente transversal, o que não significa que se manifeste sempre da mesma forma ou que não haja modos e maneiras mais típicos de meios sociais mais ou menos diferenciados, exactamente como muitos outros, senão todos, os fenómenos sociais.

Existem progressos nesta matéria e há razões para optimismo?

Progressos? Sim. O reconhecimento público e a sua regulação legal, retirando pelo menos alguma boa parte da legitimidade às indiscutidas ou quase práticas tradicionais. Se há razões para optimismo? Depende dos dias… Será melhor dizer: pensa como inteligente, céptico e realista, age e prega como cheio de esperança e optimismo. É que, como num plano mais geral de direitos e de democracia já se vem infelizmente tornando óbvio, nada é adquirido, nunca. Até os famosos «acquis», com que a União Europeia gosta de encher a boca e os discursos, se podem esfumar de um dia para o outro. Basta olhar para Leste e mesmo para outras bandas. Mas, como escrevia Manuel Laranjeira (por acaso um rapaz pessimista que se matou, como se sabe) em «Comigo»:

«Mas ouve, alma; p'ra viver
e ser feliz é preciso
fitar a menina e crer
como alguém que sem Juízo
olha p'rá terra e a vê
convertida em paraíso»

São estes os versos com que fechei a minha dissertação de Mestrado em Criminologia, na Universidade de Cambridge, há muitos anos. Era sobre outro assunto, A Lei Penal na Reforma Agrária em Portugal, mas as dúvidas sobre optimismo tinham alguma semelhança.

Alternativa? Ir com outro Manuel, o Bandeira, para Pasárgada. «Lá moro na casa do Rei…».

https://www.abrilabril.pt/nacional/teresa-beleza-ha-decisoes-judiciais-indignas-de-um-pais-democratico

quarta-feira, 10 de março de 2021

Um texto de Inês Patrício

UMA REBELDE DO ESTADO NOVO – A homenagem de Inês Patrício à sua mãe, que foi casada com Rui Patrício, o último ministro dos Negócios Estrangeiros nomeado por Marcello Caetano
joaompmachado10 de Março de 202

” Para variar, este é o dia de falar da minha mãe. O tempo dela era o Estado Novo, a ditadura dos homens de suspensórios. Quis trabalhar e não autorizaram. Quis divorciar e não podia, pela lei. Tomou a pílula e disseram que não podia comungar. Esteve a lixar-se para isso. Perguntou porque é que as mulheres de ministros ( ela era) não ganhavam nada mas tinham de comprar vestidos, ir a chazinhos de embaixatrizes, a jantares e viagens de trabalho. Não responderam. Porque sim. Ela foi a Conselho de ministros e de lá de cima ( acho que era um lugar onde os homens ficavam em baixo) gritou: ninguém me contratou mas eu demito-me! ( hoje já há ajuda de custo para mulheres dos caras publicos). Ela ligava para os caras que mandavam e reclamava da falta de direitos das empregadas. Chateava. Ligava para o Veiga Simão que era da educação e reclamava dos lavores para as mulheres. Queria música e carpintaria. Acho que conseguiu música. Tirou-me do colégio de freiras e pôs-nos a mim e minha irmã no liceu. Não acordava de manhã para nos dar bom dia nem nada. Eu reclamei. Disse: tira o curso e trabalha para não ficares sem sono de noite, como eu. Quando prenderam uma moça chamada Dalia passou-se. Foi o fim dos dias lá em casa. Passava o almoço e jantar sem comer, de braços e pernas abertos a simular um tipo de tortura. Emagreceu e ficou doente. Teve sífilis. Pediu ao médico atestado para se divorciar. O médico teve medo e não deu. O medo dos homens era de outros homens. Das mulheres não teriam medo! Foi a Caxias com o senhor Matos chauffeur( um homem bom que chorava) e uma cadeira. Sentou. Esperou. Disse que tinha as mesmas ideias dos presos. Mandou um livro á moça em que a dedicatória era Aqui em Portugal nem as moscas mudam!. O Silva pais, chefe da polícia, ligou a meu pai. A mulher do meu pai incomodava. Não a podiam prender. Deem-lhe uns safanões, disse alguém. O primeiro ministro ligou e disse Tortura não é assunto para mulheres. São o sexo frágil. E ela: pensam nisso quando se deitam em cima de nós com o vosso peso? O homem era púdico, conservador e cristão. Não gostou da rudeza. Não gostavam dela. Nem ele nem a pide.

Como não a podiam prender tacavam-lhe curas de sono. Fez várias. Numa delas, antes de a levarem, disse-me Tira o curso e trabalha! Não dependas de homem nem de família. Assim fiz!

Santo conselho!

Quando foi a revolução ficou contente. Mas foi solidária. Não se bate em cachorro morto! Nem saiu de casa como lhe pediram. Saímos todos, menos ela. Riu-se de nós porque a nossa fuga foi dois prédios da infante santo. Passamos do número 61 para o 57. Para casa de primos. A família morava toda na mesma rua Rsss.

Ela gostava do Otelo e do Vasco Lourenço. Dizia que o Galvão de Melo e o Cunhal eram nossos primos. Quando as brigadas entraram lá em casa a ver se estávamos recebeu-os com cafezinho e batepapo. Foi ao nosso quarto onde dormíamos e disse Não sejam caguinchas. Estes senhores estão a trabalhar.

Quando entrei para o partido comunista, no Brasil, fez -me um bolo para levar aos camaradas. Quando fui chamada pelo diretor para explicar as reuniões “clandestinas” debaixo de uma árvore na praia vermelha foi comigo e gritou Se disseres uma palavra que for, deserdo-te! Depois pensou e disse: deserdar não posso mais pois lá em Portugal já houve reforma agrária mas dou-te um par de estalos e deixas de ser minha filha.

Cá estou até hoje, filiada à minha mãe!

( agora vou publicar e emendar, mãe mãe! Como sabes sofro de ansiedade )”

https://aviagemdosargonautas.net/2021/03/10/uma-rebelde-do-estado-novo-a-homenagem-de-ines-patricio-a-sua-mae-que-foi-casada-com-rui-patricio-o-ultimo-ministro-dos-negocios-estrangeiros-nomeado-por-marcello-caetano/


sexta-feira, 11 de novembro de 2016

(chamava-se Mariana Torres ...)

História esquecida
de uma operária assassinada
pela Guarda Republicana
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(chamava-se Mariana Torres ...)
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Há 96 anos, as mulheres das fábricas de Setúbal, com sa­­lários que oscilavam entre os 350 e os 400 reis, exigiam au­­mentos de 50 reis por hora. O advento das máquinas de sol­dar e a crise da indústria conserveira ameaçavam pôr no desemprego milhares de operários. Declarada a greve a 21 de Fevereiro de 1911 – tinha a República cinco meses –, de­pressa se revelou a intransigência dos patrões. Sucederam--se os incidentes violentos, ao ponto de o administrador do concelho encerrar duas associações operárias e banir da cidade dois sindicalistas. No dia 25 de Fevereiro, o opera­ria­do de Setúbal declarou a greve geral. Foram enviados para a cidade vários contingentes militares e a canhoneira Zaire. Os trabalhadores, intimidados, regressaram ao traba­lho no dia 28, mas não as mulheres: recusavam retomar o tra­balho enquanto não lhes dessem os aumentos de salário. Os industriais respondem então com o lock-out. A 13 de Março, dão-se confrontos na fábrica Costa e Carvalho, in­va­dida pelas grevistas quando se apercebem de que mulheres da família do patrão as substituíam no trabalho de enlatar o peixe. São insultadas e agredidas por alguns dos 50 solda­dores presentes (os soldadores, categoria mais bem paga, não tinham aderido à greve). Paulino de Oliveira, re­publi­cano conhecido e irmão da proprietária, chega ao pon­to de dar chibatadas a várias mulheres. Em seguida, co­mo as mu­lheres vaiassem os soldados da Guarda Repu­blicana que protegiam as carroças de peixe em serviço na fá­brica, a guar­da carregou, dispersando as grevistas a tiro e à coronhada. Entre os operários, muitos feridos e dois mor­tos: Mariana Torres e António Mendes. Todas as fábricas reabriram na segunda semana de Abril, com as operárias e os operários derrotados e de luto. Signifi­ca­tivamente, da jovem operária assassinada nada se sabe, e até o seu nome se perdeu nos relatos, só muito mais tarde tendo sido recuperado.Dois dias depois dos assassinatos de Setúbal tinha-se rea­­lizado em Lisboa uma reunião de protesto de represen­tantes das associações operárias e a 20 de Março foi procla­mada uma paralisação do trabalho por 24 horas, reclaman­do a demissão do administrador do concelho de Setúbal, a readmissão de alguns dos despedidos e a libertação dos ope­rários que tinham sido presos. Muitos milhares de ope­rários de Lisboa abandonaram as fábricas e oficinas em apoio dos seus camaradas setubalenses.Aquela tarde de 13 de Março, ao fim de três semanas de con­flito, foi “a primeira nódoa de sangue na República”(1) e “um dos [seus] mais tremendos pesadelos”(2) . E também um grande revés para as mulheres, que passaram a trabalhar 9 horas em vez de 8, e para os moços de fábrica, que pas­sa­ram a receber pelo trabalho nocturno 40 reis, quando antes recebiam 50. O sindicalista Carlos Rates, que animara a greve, foi detido(3).

Uma feminista contraditória

A sangrenta repressão na fábrica Costa e Car­va­lho pôs em causa Ana de Castro Osório, a mais ilus­tre feminista da época, pela sua ligação familiar à dona da fábrica e a Paulino de Oliveira, seu marido. Criticada no Germinal de Se­túbal pelo anarquista Martins dos Santos(4), Ana de Castro Osório respondeu, em artigo no Radical (propriedade de seu marido), que “a greve das mulheres das fábricas de con­serva foi extemporânea e, mais ainda, injusta”. Discorda­va que se transformasse a associação num órgão reivindicativo e aconselhava antes as operárias a cotizar-se para fundar uma escola primária para elas e para os filhos. Acusava a gre­­ve de “ser estimulada e aproveitada pelos que nutrem ódio à República” e as grevistas de serem manipuladas como “carne de canhão para o triunfo dos superiores”, isto é, os ope­rários soldadores das fábricas de conservas. Em resposta à alegação das operárias de que defendiam o pão dos seus filhos, Ana de Castro Osório justificava que “os fabricantes também defendem o dos seus” e “lutam para sustentar uma indústria que não tem grandes condições de resistência”. Como os sindicalistas, em resposta, organizam o boicote à venda do jornal, O Radical contra-ataca, a 6 de Abril: “O pouco senso, menos desculpável até que o das mulheres, de todo incultas e inexperientes, chegou à loucura de tenta­rem uma greve geral – querendo bloquear burgueses e não bur­gueses, a cidade inteira, pela fome, pela sede, e até pela… imundície amontoada!” Por último, numa derradeira edição, o jornal republicano ataca “As mulheres… desgovernadas”: “Até as mais intransigentes, as mais danadas, já vão solicitar bilhetinho, um cartão misericordioso, que lhes permita obter trabalho noutras fábricas!… (…) Malditos!(5)”A amargura veemente desta praga estava relacionada com a iminente partida do casal e o fecho inesperado do jor­nal. Com efeito, em Maio, Ana de Castro Osório acom­panhou ao Brasil o marido, subitamente nomeado cônsul de Portu­gal em S. Paulo, numa ausência que alguns equi­pararam a exí­lio. Regressada a Portugal em 1913, a feminista não mais retornou a Setúbal e passou a residir em Lisboa.Na cidade sadina, e durante vários anos, a data do 13 de Mar­ço foi assinalada com concorridas manifestações públi­cas de protesto junto às campas dos grevistas mortos, segui­das de sessões de propaganda promovidas pelas associações operárias.A República e as mulheres do povoA Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, organizada em 1909 por Ana de Castro Osório, nunca teve mais de 500 aderentes. A sua desmoralização ter-se-á acen­tuado quando, a 14 de Março desse ano de 1911, o Partido Re­pu­blicano aprovou a lei eleitoral sem consagrar o sufrágio uni­versal, como sempre prometera, deixando de fora pratica­mente todas as mulheres. Os incidentes da greve e a polémi­ca gerada em volta das posições assumidas por Ana de Cas­tro Osório terão contribuído também para este afasta­mento em massa.Dias depois dos dramáticos incidentes de Setúbal, esta es­­crevia, em resposta a uma operária que se queixava do de­­sinteresse das intelectuais em educar as operárias: “A mu­lher do povo é que, em geral, não tem correspondido à boa vontade que as intelectuais têm tido para com ela, malsinan­do-lhe os seus intuitos umas vezes, desconhecendo-os ou­tras, e ainda outras acolhendo todas as iniciativas que lhes cum­pria auxiliar com a sua presença e boa vontade, com a mais escarninha indiferença”. E concluía, numa nota em que fica patente a decepção: “Em todas as terras onde as senhoras que pertencem à Liga têm tentado chamar a si a mulher do povo, pouco ou nada se tem conseguido”(6).Esta atitude reflecte o sentimento geral das restantes re­­pu­­blicanas daquele tempo. Longe ia já o tempo em que Ana de Castro Osório via com entusiasmo a luta social: “…A mulher tem o direito, mais, tem o dever de entrar na lide e, ao lado do oprimido, do fraco, pugnar pela felicidade ou pela menor desgraça dos que sofrem”.(7) Aliás, por esta al­tura, e certamente para marcar a sua distância em relação a determinadas sensibilidades na Liga, ela fundou, com ou­tras, a Associação de Propaganda Feminista, cujo fim era “ele­­var a mulher pela educação e pela instrução”. Num dis­curso de 1912, dirá: “A nossa luta não é, por agora, a cam­panha frondista das ruas e dos comícios. Não! Deixemos a outras esse papel glorioso e ruidoso que é necessário tam­bém, e caminhemos nós, sem nos hostilizarmos mutuamen­te, porque todas as propagandas femininas são úteis…”(8) O núcleo de 200 a 300 burguesas combativas que antes de 1910 liderava esse movimento de opinião – irmãs de lu­ta dos políticos republicanos – prosseguirá, agora virado para dentro, a sua estratégia de classe, que deixava de fora a grande maioria das portuguesas. A visibilidade da causa fe­minista declina a partir de 1913, quando se torna claro que o grupo parlamentar republicano nunca consagrará o di­reito de voto para todas as mulheres, já para não falar na igual­dade na família, no trabalho e na educação.O feminismo anti-operário, tornado dominante, limitará a sua actividade aos aspectos associativos e assistenciais e ao apoio incondicional à política dos dignitários republica­nos (incluindo a campanha para o alistamento no Corpo Ex­­pedicionário Português que irá combater em França), ape­­sar do apoucamento das suas reivindicações mais avança­das por parte daqueles. As mulheres das outras classes fi­ca­ram votadas ao ostracismo.À medida que se ia afirmando o carácter burguês do mo­­vimento de emancipação, também nas lutas operárias dei­­xaram de ter lugar os ideais feministas, tornados impopulares e considerados como uma causa estranha à classe. Co­mentários deste género eram frequentes: “A mulher quer o voto? Não! Faço-lhe essa justiça. Quem o pretende é uma re­duzida minoria de ambiciosas de espírito tacanho, que nada mais vêem que a bonita figura que poderiam vir a fa­zer num parlamento, falando e discutindo, rubras, indi­gnadas, em rasgos sublimes de oratória.”(9) Foi o descaso dos republicanos em geral pela condição fe­minina nas camadas laboriosas e o desprezo dos seus su­ces­­sivos governos pelas cidadãs que proporcionou a Salazar, em 1928, um forte apoio das mulheres do povo. A “penúria agradável” da “casa portuguesa” em que o dita­dor as quis fazer viver, sendo já outra história, é no entanto a conse­quência desta.
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Texto de Ana Barradas
In "Greve das conserveiras de Setúbal"
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Fontes :


(1) O Radical, 19 de Março.
(2) O operariado e a República Democrática, 1910-1914, p. 265.
(3) Carlos Rates, mais tarde fundador do Partido Comunista, era então dirigente da Associação dos Trabalhadores e da União Local de Trabalhadores.
(4) Germinal, 25/2/1911.(5) O Radical, a 27 de Abril.
(6) O Radical de 6/4/1911,

http://isabelvictor150.blogspot.pt/2007/11/blog-post_22.html



segunda-feira, 17 de outubro de 2016

Todas as “Lindas” são “Tontas”?

SEGUNDA-FEIRA, 17 DE OUTUBRO DE 2016


‘As mulheres mais bonitas são as que lutam!’
Todas as “Lindas” são “Tontas”?

Semiótica de certa inteligência monstruosa na ética e na lógica do mercado. 

Máscaras da “beleza” burguesa. Como se fosse pouca a avalanche repressora que a ideologia da classe dominante descarregou, historicamente, contra as mulheres, chegou o capitalismo com a sua criatividade e rapidamente as converteu em massa explorada com caráter decorativo e estigma de “cabeça oca”. A burguesia levou séculos a confiar o voto político às mulheres, por exemplo. "No comportamento perante a mulher, despojo e escrava da voluptuosidade comum, manifesta-se a infinita degradação na qual o homem existe para si mesmo... Do carácter desta relação depreende-se até que ponto o homem se tornou e se concebe como ser genérico: a relação entre homem e mulher é a mais natural das relações entre os dois géneros do ser humano". Marx  (traduzido do castelhano)

Convertidas em seres supérfluos, servis e dóceis, as mulheres do ideal burguês deverão assumir, além do mais, um mandato mercantil útil para reforçar o consumismo. Foram habilitadas culturalmente para fazer as compras de pequenas coisas. Nunca o “caro”, nunca o “eletrodoméstico” de “alta gama”, nunca as coisas que o homem compra. Os publicistas sabem bastante dessas trapaças ideológicas. Essa “capacidade” de compra estabelece o grau de êxito que as mulheres devem conquistar no torneio burguês do êxito social, a aceitação e a admiração de outras mulheres. Especialmente para a burguesia, a mulher (que se torna, também, propriedade privada) depende – suaontologia – da quantidade de dinheiro que o marido lhe dá para gastar nas coisas “do dia-a-dia” e na roupa que veste para decorar bem a sua personagem. Chamam-lhes “senhoras”.

Mas há um reduto ideológico (de falsa consciência) no qual se produzem e reproduzem as patologias mais humilhantes do capitalismo. É um reduto histriónico no qual as mulheres se vêem obrigadas a ser “tontas” rendíveis. Isso vê-se na “tele” nos “diários”… em todos os media e em todos os horários. É o reino do individualismo e da veneração do mercado que procura nas mulheres “lindas” a sua presa predileta porque, segundo reza a moral mercenária da publicidade, “o lindo vende”. A isso se deve a profusão histérica de estereótipos que a burguesia impõe às mulheres para as aprisionar numa prisão ideológica invisível aramada com anti valores de mercado e condutas convincentes para pôr a salvo as instituições da família, as igrejas e o estado burguês - O fetichismo da beleza feminina e o seu valor de mercado: vestidas ou nuas.

Trata-se de um reduto ideológico no qual se amassam convicções e condutas que, para cúmulo, conta com a cumplicidade de algumas mulheres e muitos homens. As mais colonizadas procuram a fama na farândola mediática burguesa. Com ou sem êxito, nas artes do exibicionismo das “lindas”, os princípios do mercado predominam, para além do imaginável, na própria vida diária, inclusive no quarto de banho onde entram centenas de produtos “indispensáveis” para manter o modelo de “beleza” ordenado pelos “media”. Trata-se de uma “tontice” imposta que envolve grande astúcia mercenária e uma moral de vendedor que, para se vender a si mesmo, conta com muitos clichés e muito pouco tempo. A “lindura” de mercado dura pouco porque a velocidade do consumismo é uma máquina produtora de desejos humanos infindáveis.

As “lindas” “tontas” são esse cliché que tem tido êxitos mercantis retumbantes. Dizem alguns que é uma forma de “sex appel” que condimenta magnificamente a imposição dos valores burgueses e todas essas aplicações, decadentes e humilhantes, que cada um de nós vê nas ruas na aparência mais cruel que a realidade impõe. Há pessoas que passam a vida inteira sem se aperceberem do papel que lhes é imposto por um sistema económico enfermo, também, como “mercadorias humanas”. Do seu disfarce, aquelas mulheres que representam (com vontade ou sem ela) o papel de “tontas” “lindas” vão medindo com uma vara burguesa a quantidade e a qualidade as suas vitórias sedutoras mais rendíveis. Poderá haver por detrás da aparência de “tontas”, inteligências mercenárias muito brilhantes escondidas entre os traços efémeros da sua “lindura”. Garantidas as regras do negócio, algumas contentam-se com a “fama”, outras aspiram a ser “divas”, pensando que se pode ser “bela”, “tonta” e, além do mais, “madura”. “Velha” é um termo que a burguesia usa quase exclusivamente para as mulheres proletárias.

Por tudo isso é que as lutas de género (que são realmente de classe) no mundo apresentam, com graus diversos, um caráter revolucionário fundamental. É especialmente com essas lutas, não exclusivas de mulheres, que se destrói sistemática e profundamente a ideologia da classe dominante e todas as suas ratoeiras opressoras por mais subtis ou sedutoras que se apresentem. A pesar disso, não contamos ainda com uma corrente crítica internacionalista capaz de gerar repúdios contundentes contra o modelo de humilhação com que a burguesia submete não poucos milhões de mulheres. Em todo o mundo e em pleno século XXI. É necessário sermos conscientes, sensíveis, solidários e proativos nas lutas emancipadoras que não são só de “género” porque são fundamentalmente de classe. É necessário desenvolver uma praxis revolucionária que censure e combata todo o modelo de opressão por mais “lindo” que pareça e abraçando sempre – com força amorosa e força científica – todas as vítimas. Ainda que o “lindo” e o “tonto” façam pensar a essas vítimas serem intocáveis, reverenciáveis ou superiores.

Uma longa lista de lutas, lutadoras e lutadores sociais enriquece a perspetiva revolucionária que nos aproxima de um mundo liberto, por fim, do capitalismo e de toda a parafernália grotesca que nos tem imposto, também, com as suas mercadorias humanas e ideológicas. Nessa longa lista de frentes da luta que se desenvolve, de maneira desigual e combinada, há um reportório de críticas que se impulsiona cientificamente porque aprendeu a não ser vítima das chantagens morais, éticas ou estéticas que a ideologia burguesa exerce fundamentalmente, para nos imobilizar e dominar. Um dia virá em que os povos deixarão de ser vulneráveis à guerra psicológica que usa “o lindo” e o “tonto” (entre milhares de subterfúgios) como estratégias de amolecimento, como ratoeiras para gerar solidariedades que, tarde ou cedo, operarão contras as vítimas. Nada mais anticristão. Um dia aprenderemos a deixar de ser usados pela lógica do mercado ainda que se apresente em “roupas interiores” com gestos sugestivos ou com “formosa” “tontice” imposta, dessa tanta sucata que ajudou a vender num mundo afogado com mercadorias que procuram milhões de compradores compulsivos.

Por Fernando Buen Abad Domínguez
(Trad. CS/LA)