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domingo, 22 de outubro de 2017

D. Dinis - vós hei e des i por vos dar a entender



* D. Dinis

O que vos Nunca Cuidei a Dizer
O que vos nunca cuidei a dizer, 
com gram coita, senhor, vo-lo direi, 
porque me vejo já por vós morrer; 
ca sabedes que nunca vos falei 
de como me matava voss'amor; 
ca sabe Deus bem que doutra senhor, 
que eu nom havia, mi vos chamei. 

E tod[o] aquesto mi fez fazer 
o mui gram medo que eu d ria — de que hei, 
bem sabedes, mui pequeno pavor; 
e des oimais, fremosa mia senhor, 
se me matardes, bem vo-lo busquei. 

E creede que haverei prazer 
de me matardes, pois eu certo sei 
que esso pouco que hei de viver 
que n?um prazer nunca veerei; 
e porque sõo desto sabedor, 
se mi quiserdes dar morte, senhor, 
por gram mercee vo-lo [eu] terrei. 

D. Dinis, in 'Antologia Poética' 

sábado, 21 de outubro de 2017

Diálogos poéticos:João Roiz & Saramago






    sábado, 17 de novembro de 2012

    Diálogos poéticos:João Roiz & Saramago

    Dois poemas que, embora separados por cinco séculos, têm um tema comum: A separação amorosa.

    João Roiz de Castel-Branco foi um cavaleiro nobre português, fidalgo português, fidalgo da casa Real, cortesão, e poeta humanista. Nasceu presumivelmente em Castelo Branco em meados do Século XV e faleceu na mesma cidade depois de 1515. Celebrizou-se como poeta, encontrando-se algumas de suas composições integradas no Cancioneiro Geral, de Garcia de Resende, publicado em 1516.

    José Saramago dispensa apresentações.Não sei o ano do poema do Saramago, mas não admira que ele tenha prestado esta homenagem a João Roiz de Castelo Branco, um homem, como ele diz em Viagem a Portugal (1981), «que, pouco mais tendo feito que estes sublimes versos, há-de ser lembrado e repetido enquanto houver língua portuguesa». Uma justa homenagem!


    Cantiga sua partindo-se

    Senhora, partem tam tristes
    meus olhos por vós, meu bem,
    que nunca tam tristes vistes
    outros nenhuns por ninguém.

    Tam tristes, tam saudosos,
    tam doentes da partida,
    tam cansados, tam chorosos
    da morte mais desejosos
    cem mil vezes que da vida.

    Partem tam tristes os tristes,
    tam fora d'esperar bem,
    que nunca tam tristes vistes
    outros nenhuns por ninguém.

    João Roiz de Castelo-Branco (Séc. XV)


    Lembrança de João Roiz de Castel´Branco

    Não os meus olhos, senhora, mas os vossos,
    Eles são que partem às terras que não sei,
    Onde memória de mim nunca passou,
    Onde é escondido meu nome de segredo.

    Se de trevas se fazem as distâncias,
    E com elas saudades e ausências,
    Olhos cegos me fiquem, e não mais
    Que esperar do regresso a luz que foi.

    José Saramago (1922-2010)

    http://alegriabreve47.blogspot.pt/2012/11/dialogos-poeticosjoao-roiz-saramago.html



    CD-Cantos D'antiga Idade-1994



    Gabriel Carlos - SENHORA PARTEM TÃO TRISTES - Fado de Coimbra


    Adriano Correia de Oliveira - "Senhora,partem tão tristes" do disco "Fados de Coimbra II" (EP 1962)


    AMÁLIA, canta João Roiz de Castelo Branco
    Música: Alain Oulman


    "Senhora Partem tão Tristes" 
    Letra de João Ruiz de Castelo-Branco e música de João Barros Madeira
    Jorge Tuna e Jorge Godinho (guitarra)



    segunda-feira, 26 de setembro de 2016

    Martin Codax e duas cantigas de amigo


    * Martim Codax

    Composição original, da autoria de Martim Codax (provavelmente um jogral galego que terá vivido no século XIII), incluída no Cancioneiro da Vaticanacom o número 884 e no Cancioneiro da Biblioteca Nacional com o 1227. Nesta cantiga, como em todas ditas «de amigo», quem fala é uma donzela, que aqui se queixa ao mar da ausência do seu amado.

    Ondas do mar de Vigo,
    se vistes meu amigo!
                E ai Deus, se verrá cedo!

    Ondas do mar levado,
    se vistes meu amado!
                E ai Deus, se verrá cedo!

    Se vistes meu amigo,
    o por que eu sospiro!
                E ai Deus, se verrá cedo!

    Se vistes meu amado,
    por que ei gran cuidado!
                E ai Deus, se verrá cedo!

    http://escoladeescritores.blogs.sapo.pt/2010/10/

    Olas del mar de Vigo

    Olas del mar de Vigo,
    ¿Visteis a mi amigo?
    ¡Ay Dios! ¿vendrá pronto?

    Olas del mar agitado,
    ¿Visteis a mi amado?
    ¡Ay Dios! ¿Vendrá pronto?

    ¿Visteis a mi amigo,
    aquél por quien yo suspiro?
    ¡Ay Dios! ¿Vendrá pronto?

    ¿Visteis a mi amado,
    quien me tiene tan preocupada?
    ¡Ay Dios! ¿Vendrá pronto?

    Ay olas que vine a ver


    Ay, olas que vine a ver, 
    si me supierais decir 
    por qué tarda mi amigo sin mí

    Ay, olas que vine a mirar, 
    si me supierais contar
    por qué tarda mi amigo sin mí

    Ai ondas que eu vin ver


    Ai ondas que eu vin veer,
    se me saberedes dizer
    por que tarda meu amigo sen min.

    Ai ondas que eu vin mirar,
    se me saberedes contar
    por que tarda meu amigo sen min.

    https://es.wikipedia.org/wiki/Mart%C3%ADn_Codax

    terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

    D. Dinis - Ũa pastor se queixava




    Ũa pastor se queixava
    muit'estando noutro dia
    sigo medês falava
    e chorava e dizia
    5com amor que a forçava:
    "Par Deus, vi-t'em grave dia,
           ai amor!"
      
    Ela s'estava queixando
     come molher com gram coita
    10e que a pesar, des quando
    nacera, nom fora doita;
    por en dezia chorando:
    "Tu nom és senom mia coita,
           ai amor!"
      
    15Coitas lhi davam amores,
    que nom lh'eram senom morte;
    e deitou-s'antr'ũas flores
    e disse com coita forte:
    "Mal ti venha per u fores,
    20ca nom és senom mia morte,
           ai amor!"
    http://cantigas.fcsh.unl.pt/cantiga.asp?cdcant=523&pv=sim

    sábado, 2 de novembro de 2013

    Cantigas Medievais


    Cantigas de amor

    Noutro dia, quando me despedi
    da minha Senhor, e quando ela me ouviu ir
    e não me falou, nem me quis ouvir,
    tão sem ventura foi que não morri,
    mas, se mil vezes pudesse morrer,
    menor seria a dor que ela me faz sofrer.
    E eu lhe disse: "me ouça, minha Senhor" !
    Olhou-me pouco e teve por mim desdém;
    e, sem me dizer nem mal nem bem,
    me deixou sofrendo, e com grande pavor,
    mas, se mil vezes pudesse morrer,
    menor seria o sofrimento de minha dor.
    E sei muito bem, eu que ela deixei,
    e dali me fui, que não me quis falar,
    e então quase morri de pesar,
    mas de pesar nuncam mais morrerei,
    pois, se mil vezes pudesse morrer,
    menor dor teria do que ela me faz sofrer.

    (D. Joan Soares Coelho)
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    Quer'eu em maneira de proençal
    fazer agora un cantar d'amor,
    e querrei muit'i loar mia senhor
    a que prez nen fremusura non fal,
    nen bondade; e mais vos direi en:
    tanto a fez Deus comprida de ben
    que mais que todas las do mundo val.

    Ca mia senhor quiso Deus fazer tal,
    quando a faz, que a fez sabedor
    de todo ben e de mui gran valor,
    e con todo est'é mui comunal
    ali u deve; er deu-lhi bon sen,
    e des i non lhi fez pouco de ben,
    quando non quis que lh'outra foss'igual.

    Ca en mia senhor nunca Deus pôs mal,
    mais pôs i prez e beldad'e loor
    e falar mui ben, e riir melhor
    que outra molher; des i é leal
    muit', e por esto non sei oj'eu quen
    possa compridamente no seu ben
    falar, ca non á, tra-lo seu ben, al.

    El-Rei D. Dinis, CV 123, CBN 485
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    Proençaes soen mui ben trobar
    e dizen eles que é con amor;
    mais os que troban no tempo da frol
    e non en outro, sei eu ben que non
    an tan gran coita no seu coraçon
    qual m'eu por mha senhor vejo levar.

    Pero que troban e saben loar
    sas senhores o mais e o melhor
    que eles poden, soõ sabedor
    que os que troban quand'a frol sazon
    á, e non ante, se Deus mi perdon,
    non an tal coita qual eu ei sen par.

    Ca os que troban e que s'alegrar
    van eno tempo que ten a color
    a frol consigu', e, tanto que se for
    aquel tempo, logu'en trobar razon
    non an, non viven [en] qual perdiçon
    oj'eu vivo, que pois m'á-de matar.

    El-Rei D. Dinis, CV 127, CBN 489

    Cantigas de amigo

    Ai de mim, coitada !
    Como vivo em grande cuidado
    por meu amigo
    que se ausenta alongado !
    Muito me tarda
    o meu amigo na Guarda !
    Ai de mim, coitada !
    Como vivo em grande desejo
    por meu amigo
    que tarda e que não vejo !
    Muito me tarda
    o meu amigo na Guarda !

    (El-rei D. Sancho I, séc. XII-XIII)
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    Ondas do mar de Vigo,
    se vistes meu amigo!
    E ai Deus, se verrá cedo!

    Ondas do mar levado,
    se vistes meu amado!
    E ai Deus, se verrá cedo!

    Se vistes meu amigo,
    o por que eu sospiro!
    E ai Deus, se verrá cedo!

    Se vistes meu amado,
    por que hei gran cuidado!
    E ai Deus, se verrá cedo!

    Martin Codax, CV 884, CBN 1227
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    Pois nossas madres van a San Simon
    de Val de Prados candeas queimar,
    nós, as meninhas, punhemos de andar
    con nossas madres, e elas enton
    queimen candeas por nós e por si
    e nós, meninhas, bailaremos i.

    Nossos amigos todos  lá irán
    por nos veer, e andaremos nós
    bailando ante eles, fremosas en cós,
    e nossas madres, pois que alá van,
    queimen candeas por nós e por si
    e nós, meninhas, bailaremos i.

    Nossos amigos irán por cousir
    como bailamos, e podem veer
    bailar moças de bon parecer,
    e nossas madres pois lá  queren ir,
    queimen candeas por nós e por si
    e nós, meninhas, bailaremos i.

    Pero de Viviãez, CV 336, CBN 698

    Cantigas de escárnio

    Vaiamos, irmã, vaiamos dormir
    nas ribas do lago, u eu andar vi
    a las aves meu amigo.
    Vaiamos, irmã, vaiamos folgar
    nas ribas do lago, eu vi andar
    a las aves meu amigo.
    Nas ribas do lago, u eu andar vi
    seu arco na mão as aves ferir
    a las aves meu amigo.
    Nas ribas do lago, u eu vi andar
    seu arco na mão a las aves tirar
    a las aves meu amigo.
    Seu arco na mão as aves ferir
    a las que cantavam leixá-las guarir
    a las aves meu amigo.
    Seu arco na mão a las aves tirar
    a las que cantavam non nas quer matar
    a las aves meu amigo.

    (Fernando Esguio)
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    Foi um dia Lopo jograr
    a casa duü infançon cantar,
    e mandou-lhe ele por don dar
    três couces na garganta,
    e foi-lhe escasso, a meu cuidar,
    segundo como el canta

    Escasso foi o infançon
    en seus couces partir' enton,
    ca non deu a Lopo enton
    mais de três na garganta,
    e mais merece o jograron,
    segundo como el canta.

    Martin Soarez, CV 974

    Cantigas de maldizer

    Don Foão, que eu sei que á preço de livão,
    vedes que fez en guerra - daquesto soo certão:
    sei que viu os genetes, como boi que fer tavão,
    sacudiu-se e revolveu-se, alçou rab’ e foi sa via a Portugal.
    Don Foão, que eu sei que á preço de ligeiro,
    vedes que fez en guerra - daquesto sou verdadeiro:
    sol que viu os genetes, come bezerro tenreiro,
    sacudiu-se e revolveu-se, alçou rab’ e foi sa via a Portugal.
    Don Foão, que eu sei que á prez de liveldade,
    vedes que fez e na guerra - sabede-o per verdade:
    sol que viu os genetes, come can que sal de grade,
    sacudiu-se e revolveu-se, alçou rab’ e foi sa via a Portugal.

    (D. Afonso Mendes de Besteiros)
    --------------------------------------------
    Foi um dia Lopo jograr
    a casa duü infançon cantar,
    e mandou-lhe ele por don dar
    três couces na garganta,
    e foi-lhe escasso, a meu cuidar,
    segundo como el canta

    Escasso foi o infançon
    en seus couces partir' enton,
    ca non deu a Lopo enton
    mais de três na garganta,
    e mais merece o jograron,
    segundo como el canta.

    Martin Soarez, CV 974
    ------------------------------------
    Roi Queimado morreu con amor
    en seus cantares, par Sancta Maria,
    por Da dona que gran ben queria:
    e, por se meter por mais trobador,
    porque lhe ela non quis ben fazer,
    feze-s'el en seus cantares morrer,
    mais resurgiu depois ao tercer dia!

    Esto fez el por üa sa senhor
    que quer gran ben, e mais vos en diria:
    por que cuida que faz i maestria,
    enos cantares que faz, á sabor
    de morrer i e des i d'ar viver;
    esto faz el que x'o pode fazer,
    mais outr'omem per ren' nono faria.

    E non á já de sa morte pavor,
    senon sa morte mais la temeria,
    mais sabe ben, per sa sabedoria,
    que viverá, des quando morto for,
    e faz-[s'] en seu cantar morte prender,
    des i ar vive: vedes que poder
    que lhi Deus deu, mais que non cuidaria.

    E, se mi Deus a mim desse poder
    qual oj'el á, pois morrer, de viver,
    já mais morte nunca temeria.

    Pero Garcia Burgalês, CV 988, CBN 1380

    Bibliografia:

    http://sites.uol.com.br/guilhermelentz/ensino.html
    http://www.geocities.com/CollegePark/Grounds/2969/cantigas.htm

    Seleção: Bernard Moura, Diogo Vollstet, Lauro Manuel, Thiago Garrido, Tiago Lima