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sexta-feira, 21 de agosto de 2015

Gracliano Ramos - Uma canoa furada

*  Graciliano Ramos

Hoje o Rio São Francisco é o destaque do dia. Nesta quinta-feira (21), é inaugurado mais um trecho da transposição responsável por levar água a mais de 12 milhões de pessoas. No entanto, o Velho Chico já foi assunto clássicos da literatura brasileira, tamanha a importância do rio para a sobrevivência da população do Nordeste.


 

No conto Canoa Furada, extraído da obra Alexandre e outros heróis, Graciliano Ramos narra a história do vaqueiro Alexandre e suas aventuras pelo Rio São Francisco para voltar da Bahia. “É o maior rio do mundo. Não se sabe onde começa, nem onde acaba, mas, na opinião dos entendidos, tem umas cem léguas de comprimento”, conta o personagem aos amigos, gabando-se de ter conseguido fazer a travessia em uma canoa furada. 


Prosa, Poesia & Arte traz na íntegra o conto de Graciliano Ramos, o escritor, jornalista, político e memorialista brasileiro do século 20, cujo livro mais conhecido talvez seja Vidas Secas, publicado em 1ª edição em 1938. Alexandre e outros heróis é a compilação de três obras do autor. 



Leia na íntegra o conto: 



Uma canoa furada



Mestre Gaudêncio curandeiro, homem sabido, explicou uma noite aos amigos que a terra se move, é redonda e fica longe do sol umas cem léguas. — Já me disseram isso, murmurou Cesária. 



Por Graciliano Ramos* 



Das Dores arregalou os olhos, seu Libório espichou o beiço e deu um assobio de admiração. O cego preto Firmino achou a distância exagerada e sorriu, incrédulo:



— Conversa, mestre Gaudêncio. Quem mediu? Das telhas para cima ninguém vai. Isso é emboança de livro, papel aguenta muita lorota. Cem léguas? Não embarco em canoa furada não, mestre Gaudêncio.



— Ora, seu Firmino! exclamou Alexandre. Para que diz isso? Embarca. Todos nós embarcamos, é da natureza do homem embarcar em canoa furada. Tudo neste mundo é canoa furada, seu Firmino. E a gente embarca. Nascemos para embarcar. Um dia arreamos, entregamos o couro às varas e, como temos religião, vamos para o céu, que é talvez a última canoa, Deus me perdoe. Embarca, seu Firmino. 



Levantou-se, foi acender o cigarro ao candeeiro de folha, voltou à rede. 



— Embarca. E por falar em canoa furada, vou contar aos senhores o que me aconteceu numa, há vinte anos. Canoa verdadeira, seu Firmino, de pau, não dessas que vossemecê puxou para contrariar mestre Gaudêncio. Ora muito bem. Numa das minhas viagens rolei uns meses por Macururé, levando boiadas para a Bahia. Já andaram por essas bandas? Tenho aquilo de cor e salteado. Ganhei uns cobres, mandei fazer roupa no alfaiate, comprei um corte de pano fino e um frasco de cheiro para Cesária. Demorei-me na capital uma semana. Aí fiz tenção de vender a fazenda e os cacarecos, mudar-me, dar boa vida à pobre mulher, que trabalhava no pesado, ir com ela aos teatros e rodar nos bondes. Refletindo, afastei do pensamento essas bobagens. Matuto, quando sai do mato, perde o jeito. Quem é do chão não se trepa. Ninguém me conhecia na cidade cheia como um ovo. A propósito, sabem que um ovo custa lá cinco tostões? Calculem. Não me aprumo nessas ruas grandes, onde gente da nossa marca dá topadas no calçamento liso e os homens passam uns pelos outros calados, como se não se enxergassem. Nunca vi tanta falta de educação. Vossemecê mora numa casa dois ou três anos e os vizinhos nem sabem o seu nome. Nos meus pastos a coisa era diferente. Lá eu tinha prestígio: votava com o governo, hospedava o intendente, não pagava imposto e tirava presos da cadeia, no júri. Vivia de grande. E quando aparecia na feira, o cavalo em pisada baixa, riscando nas portas, os arreios de prata alumiando, o comandante do destacamento levava a mão ao boné e me perguntava pela família. Tenho tocado nisso algumas vezes, e os amigos vão pensar que estou aqui arrotando importância. É engano, detesto pabulagem. Na capital só viam em mim um sujeito que vendia gado. Mas se quiserem saber a minha fama no sertão, deem um salto à ribeira do Navio e falem no major Alexandre. Cinquenta léguas em redor, de vante a ré, todo o bichinho dará notícia das minhas estrepolias. A história da onça, a do bode, o estribo de prata, este olho torto, que ficou muitas horas espetado num espinho, roído pelas formigas, circulam como dinheiro de cobre, tudo exagerado. É o que me aborrece, não gosto de exageros. Quero que digam só o que eu fiz. Esse negócio da canoa entrou num folheto e hoje se canta na viola, mas com tantos acréscimos que, francamente, não me responsabilizo pelo que escreveram. Exatamente o que sucedeu com o marquesão. Lembram-se? Dr. Silva pegou o marquesão de jaqueira e fez dele o que entendeu, encheu a casa de cortiços. Não era o meu marquesão, que só deu quatro pés de jaca. O caso da canoa também foi muito aumentado. É bom prevenir. Se vossemecês ouvirem falar nele em cantoria, fiquem sabendo que as nove-horas são astúcias do poeta. O acontecido foi coisa muito curta, que eu podia embrulhar num instante. E se converso demais, é porque a gente precisa matar tempo, não sapecar tudo logo de uma vez. Se não fosse assim, a história perdia a graça. Por isso espichei diante dos amigos a cidade grande, os teatros, os bondes, os ovos e a roupa nova, o corte de pano fino e o frasco de cheiro que ofereci a Cesária. Ela vestiu o pano fino e botou o frasco de cheiro no lenço, mas isto não adianta. Sem cheiro e sem pano, a história da canoa seria a mesma, um pouco mais encolhida. Bem, como disse aos amigos, demorei na Bahia, com desejo de arranjar-me por lá. Quando vi que a intenção era besteira, decidi voltar para casa, amansar brabo, arrematar caixas de segredo em leilão e animar o cordão azul e o cordão vermelho, no pastoril, que foi para isto que nasci. Sim senhores. Selei o cavalo e atirei-me para o norte. Caminhei, caminhei, cheguei ao S. Francisco. Seu Firmino andou no S. Francisco? Não andou. É o maior rio do mundo. Não se sabe onde começa, nem onde acaba, mas, na opinião dos entendidos, tem umas cem léguas de comprimento. Quer dizer que, se em vez de correr por cima da terra, ele corresse para os ares, apagava o sol, não é verdade, mestre Gaudêncio? Nunca vi tanta água junta, meus amigos. É um mar: engole o Ipanema em tempo de cheia e pede mais. Está sempre com sede. Não há rio com semelhante largura. Vossemecês pisam na beira dele, olham para a outra banda, avistam um boi e pensam que é um cabrito. Por aí podem imaginar aquele despotismo. Pois eu ia morrendo afogado no S. Francisco, vinte anos atrás. Afogado não digo que morresse, porque enfim dou umas braçadas, mas, se não me afogasse, era certo estrepar-me no dente da piranha, o bicho mais infeliz que Deus fabricou. Já viram piranha? Se não viram, perdem pouco. É uma criatura que não tem serventia e morde como cachorro doido. Onde há sangue aparece um magote delas. Entra um vivente na água e em cinco minutos deixa lá o esqueleto. Percebem? Topei o S. Francisco empanzinado, soprando. Tinha lambido as plantações de arroz, comido as ribanceiras, e a escuma subia, ia cobrindo as catingueiras e as baraúnas. Viajei dois dias para as cabeceiras, procurando passagem. E, ali pelas alturas de Propriá, vi uma canoa cheia de gente que botava para as Alagoas.



— “Seu moço, perguntei ao remador, essa gangorra é segura?” E o homem respondeu, de cara enferrujada: 



— “Segura ela é. Mas garantir que chegue ao outro lado não garanto. Se tem coragem de se arriscar, entre para dentro, que ainda cabe um.” Fiquei embuchado, com uma resposta atravessada na goela, pois acho desaforo alguém pôr em dúvida a minha disposição. Que, para usar de franqueza, o que faço direito é correr boi no campo. Mergulhar e brigar com peixe não é ocupação de gente. Desarreei o animal, amarrei o cabresto na popa da canoa, arrumei os picuás e embarquei. O cavalo nadou, três mulheres velhas puxaram os rosários e navegamos em paz até o meio do rio. Aí, quando mal nos precatávamos, o diabo do cocho se furou e em poucos minutos os meus troços estavam boiando. Foi um deus nos acuda: os homens perderam a fala, as mulheres soltaram os rosários e botaram as mãos na cabeça, numa latomia, numa choradeira dos pecados. — “Então, seu mestre, perguntei ao canoeiro, o senhor não disse que esta geringonça era segura?” E o desgraçado respondeu: “Segura ela era. Mas, como o senhor está vendo, agora não é.” — “Que é que vamos fazer?” gritei desadorado. 



— “Sei lá, disse o homem. Quem tiver muque puxe por ele e veja se alcança terra, o que acho difícil.”
A minha vontade foi dar uns tabefes no sem-vergonha, mas não havia tempo, os amigos veem que não havia tempo. — “Está bem, tornei. Nós ajustaremos contas depois. Se escaparmos, será na banda alagoana. Se formos para o fundo, no céu ou no inferno a gente se encontra e você me contará isso direitinho, seu filho de uma égua.” Acocorei-me e pus-me a esgotar aquela miséria com o chapéu. Os viajantes machos fizeram o mesmo e as mulheres dos rosários, chamadas à ordem, agarraram cuias e caíram no trabalho. Tempo perdido. Gastávamos forças e o traste cada vez mais se enchia. Desanimei, ia entregar os pontos quando me veio de repente uma ideia, a ideia mais feliz que Deus me deu. Lembrei-me de que tinha no bolso da carona um formão e um martelo, comprados para o serviço da fazenda. Muito bem. Veio-me a ideia, dei um salto, fui à carona, peguei o formão e o martelo, fiz um rombo no casco da canoa. Os companheiros me olhavam espantados, julgando talvez que eu estivesse doido. Mas o meu juízo funcionava perfeitamente. Imaginam o que sucedeu? A embarcação se esvaziou em poucos minutos, continuou a viagem e chegou sem novidade a Porto-Real-do-Colégio. Natural. A água entrava por um buraco e saía por outro. Compreenderam? Uma coisa muito simples, mas se eu não tivesse pensado nisso, alguns pais de família e três devotas teriam acabado no bucho da piranha. Desembarcamos na terra alagoana. Aí chamei de parte o canoeiro, sem raiva, e dei-lhe meia dúzia de trompaços, que o prometido é devido. Ele se defendeu (era um tipo de sangue no olho) e propôs camaradagem:


— “Seu Alexandre, vamos deixar de besteira. O senhor é um homem.” Ficamos amigos, fomos para a bodega e passamos uma noite na prosa, bebendo cachaça.

http://www.vermelho.org.br/noticia/269301-11

sexta-feira, 19 de junho de 2015

Graciliano Ramos – um escritor comunista

José Carlos Ruy *

Poucos escritores brasileiros merecem, como Graciliano Ramos - cujo centenário foi comemorado em 27 de outubro de 1992 - a qualificação de clássico. Existem muitos, com obras de alto nível artístico que iluminam aspectos parciais dos sentimentos e modo de vida de nosso povo. 



Porém nem todos conseguiram criar situações, tramas e personagens capazes de sintetizar as contradições típicas do desenvolvimento histórico e social e o reflexo dessas condições objetivas na subjetividade e na vida mental dos brasileiros. 


Até que se tenha uma definição melhor, é a dialética do singular, do particular e do universal que torna uma obra clássica. Clássica porque extrapola os limites estreitos dessa particularidade e singularidade e se dirige a todos os homens, distantes no espaço e no tempo. É como se o escritor, ou o artista, descrevesse tipos humanos únicos, particulares, acrescentando-os ao imenso catálogo com representantes de todas as épocas e todos os povos, enriquecendo o registro da experiência histórica concreta da espécie humana em sua multifacética e rica variedade de manifestações sociais e existenciais.



Graciliano Ramos conseguiu registrar artisticamente os profundos conflitos humanos, a desorganização e reorganização da vida provocadas pelo impacto do desenvolvimento capitalista brasileiro partir da década de 1930, época em que a modernização da sociedade se acelerou sob a hegemonia conservadora. O modo de produção capitalista consolidou seu domínio sobre o conjunto da sociedade redefinindo as relações sociais e subordinando todas elas ao capitalismo, à lógica da acumulação e reprodução do capital.



Este é o quadro de transformações aceleradas e perturbadoras em que se movem personagens como Paulo Honório, Madalena, Luís da Silva, Julião Tavares, Fabiano, Sinhá Vitória e tantos outros. 



Em seu destino pessoal eles representam também o destino das classes sociais. No ensaio Graciliano Ramos (1965) Carlos Nelson Coutinho escreveu: “Nesta fusão de indivíduo e classe reside um dos pontos mais altos do realismo de Graciliano. Seus personagens são sempre tipos autênticos precisamente na medida em que expressam em suas ações o máximo de possibilidades contidas nas classes sociais a que pertencem”. Destino pessoal e destino de classe confundem-se na trajetória de seus personagens. 



Luís da Silva (Angústia, 1936) e Madalena (São Bernardo, 1934) são pequeno-burgueses inconformados com sua existência opressiva e alienada, desejosos de subir na vida, apavorados com a perspectiva de proletarização. Incapazes de compreender as forças que comandam seus destinos são também incapazes de lutar contra elas. Seus destinos melancólicos e trágicos são marcados pela impotência e pelo ressentimento.



Paulo Honório, o camponês que se tornou latifundiário (São Bernardo) e Fabiano (Vidas Secas, 1947) parecem encarnar dois destinos antagônicos para personagens de origem social semelhante. 



Astuto, Paulo Honório consegue dominar as possibilidades de ascensão abertas pelo capitalismo. Negocia, trapaceia, abre caminho sem medir esforços nem escrúpulos. Usa o poder do dinheiro para - como um Fausto sertanejo – se impor à decadente oligarquia rural. Dedica sua vida a se tornar ele próprio um latifundiário. Consegue colocar-se acima de sua classe, como conclui no final do romance. Conseguiu tornar-se “um explorador feroz”, brutal e egoísta, como amargamente reconheceu.



A saga de Fabiano começa no mesmo ponto de onde Paulo Honório partiu: a estreita, pobre, mesquinha vida do camponês do Nordeste, massacrado pelo latifúndio e maltratado pela natureza. 



Sua insatisfação - e dos seus - compara-se à animalidade da cachorra Baleia: querem apenas se manterem vivos e, depois, se possível, obter alguns modestos luxos, como a cama de couro que Sinhá Vitória queria.



Ao contrário de Paulo Honório, Fabiano busca seus meios de vida zanzando de fazenda em fazenda até que o destino - semelhante ao de multidões nordestinas - o coloca na estrada para a cidade e os centros industrializados do litoral e, depois, do Sul. 



O mais miserável e mais rústico dos personagens de Graciliano é, contraditoriamente, o portador do futuro: na cidade ficará completa e acabada sua condição de vendedor da força de trabalho no mercado capitalista. Ele será um operário; seus filhos serão operários, num mundo novo com contradições de outra natureza, que só poderão ser superadas pela luta da classe operária e dos demais trabalhadores pelo socialismo. 



Assim o destino de Fabiano indica o sentido do desenvolvimento da sociedade brasileira, dos trabalhadores brasileiros, colocando-os - juntamente com a sociedade - num novo patamar onde as contradições da vida rural e camponesa são superadas e substituídas pelas contradições próprias da sociedade capitalista.



Escritor comunista, o marxismo de Graciliano Ramos jamais lhe permitiu a subordinação às imposições normativas características do zdanovismo e seu realismo “socialista” na construção de suas obras. 



Artesão exigente e minucioso do idioma, escritor enxuto, da palavra exata, a forma artística se subordinava nas obras de Graciliano à resolução do conteúdo. 



O estilo memorialístico de São Bernardo, o obsessivo monólogo interior de Angústia, a aparente descontinuidade e fragmentação de Vidas Secas, subordinam-se rigorosamente às necessidades da trama, da exposição da psicologia do personagem, da criação do ambiente social e cultural onde eles se movem e da forma como esse ambiente externo, objetivo, se reflete em seu espírito condicionando-o e moldando suas ações.



Nas obras de Graciliano o socialismo emerge dessas contradições, como saída para os conflitos sociais e humanos retratados. Emerge de forma implícita, necessária, inscrita no desenvolvimento das situações e contradições descritas. Graciliano não caiu na tentação do populismo fácil e pseudo democrático praticado por tantos escritores de sua época, que reproduziram de forma maniqueísta a consciência popular. Eles não hierarquizaram as formas de manifestação dessa consciência., mas as abordaram de maneira acrítica e valorizando-as todas igualmente. Ora, a consciência dos homens reflete de forma muitas vezes alienada e distorcida as contradições da época em que vivem, enfrentadas no dia a dia. Se todos os homens tivessem espontaneamente uma consciência clara e precisa das condições de dominação, as sociedades divididas em classe nunca poderiam ter existido!



Na obra daqueles escritores populistas o socialismo aparece como um objetivo artificial, que não decorre da resolução da trama mas da mera vontade do escritor de colocar essa bandeira na boca dos personagens.



Estas são algumas das características que fazem de Graciliano Ramos um clássico, no sentido universal. Um escritor que não temia imposições e enfrentou as contradições colocadas pela vida. Que não buscou soluções literárias fáceis e artificiais para essas contradições. Que não tentou, de forma também artificial, resolver essas contradições em suas obras mas que escreveu pela necessidade de registrar, de forma artística, as dificuldades, mazelas e esperanças da vida de seu povo. E que, dessa forma, contribuiu como poucos para uma consciência mais profunda dos problemas da sociedade brasileira e das possibilidades que seu desenvolvimento promete. E ajudou a ampliar aquele catálogo de tipos humanos referido acima, de personagens característicos da vida nesta parte do mundo e num período da história: o contraditório período em que o modo de produção capitalista se tornou hegemônico na formação social brasileira. 



Publicado originalmente em A Classe Operária, 26/10/1992


domingo, 9 de maio de 2010

Nos cem anos de Raquel de Queiroz...

Colunas

Vermelho - 9 de Maio de 2010 - 0h05

Marco Albertim *

Vale um comentário sobre O Quinze, obra tão ou mais conhecida quanto a autora; inda que não controversa como o perfil cultural da cearense. Já na octogésima sexta edição, a simplicidade da linguagem – seu maior traço – ajuda a pôr em relevo a crueza da seca de 1915.

O cenário surge, não como indício pictórico, mas entranhado nos homens. Não poupa nem Vicente, o fazendeiro de posses que, “Sacudido pela estrada larga do quartau, seguiu rápido, o peito entreaberto na blusa, todo vermelho e tostado do sol, que lá no céu, sozinho, rutilante, espalhava sobre a terra cinzenta e seca uma luz que era quase como fogo.” Para Chico Bento, o vaqueiro pobre, “O pasto, as várzeas, a caatinga, o marmeleiral esquelético, era tudo de um cinzento de borralho.”
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A opressão de classe aparece no diálogo entre Chico Bento e “o homem das passagens”. Indiferente à sorte dos retirantes, diz o homem: “Que morte! Agora é que retirante tem esses luxos... No 77 não teve trem para nenhum. É você dar um jeito, que passagens, não pode ser...” – Não é um diálogo, é a confirmação do agouro. Na mesma trilha, diz o delegado sobre o filho sumido de Chico Bento: “Não tem jeito que dar não, meu amigo... O menino, naturalmente, foi-se embora com alguém...” Ou no contraste entre a miséria dos retirantes na procissão e os trajes ricos do bispo “(...)os farrapos imundos, atrás do pálio rico do bispo(...)”.
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Como boa regionalista, Raquel de Queiroz soube ainda ler o tempo telúrico porque “O sol, no céu, marcava onze horas.” A fome permeia todo o romance, punge quando o menino Josias devora a mandioca brava: “(...)e enterrou os dentes na polpa amarela, fibrosa, que já ia virando pau num dos extremos.” Na mesma altura “(...)roeu todo o pedaço amargo e seco, até que os dentes rangeram na fibra dura.”
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Conceição é uma professora que se divide entre os modos urbanos e a bruteza do sertão; é a única que destila preconceito:
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-(...)Então Mãe Nácia acha uma tolice um moço branco andar se sujando com negras?
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O Quinze tem narrador onisciente, o que permite à autora imiscuir-se no pensamento de cada personagem, sem que assuma os rumos da abstração de cada um. Assim, na imaginação de Conceição, mostra-a, sem perder a segurança de narradora: “Metido com cabras... não se dava respeito... E ainda por cima, não se importava nem em negar...”
Raquel viu a seca de 1915, no Quixadá; dá indícios de autobiografia ao mencionar Machado de Assis: “E a moça comparou dona Inácia àquelas senhoras de alma azul, de que fala o Machado de Assis...” Aqui a autora se mostra supérflua.

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Com Graciliano Ramos...
Vidas secas, oito anos depois d’O Quinze, mostra a “catinga rala”, enquanto Raquel desnuda uma “caatinga cinzenta”. Ambos tão francos quanto a crueza do cenário. Sinhá Vitória, como a Cordulina, de Chico Bento, tem o filho “escanchado no quarto”. Graciliano, feliz à exaustão, tão onisciente quanto a cearense, menciona “sentimentos revolucionários” na cachorra Baleia depois de um pontapé. A reprodução dos costumes entre as classes dá-se quando Sinhá Vitória “Teimava em calçar-se como as moças da rua(...)”. A submissão aos costumes se manifesta em Fabiano porque, usando “chapéu de baeta, colarinho e gravata. Não se arriscaria a prejudicar a tradição, embora sofresse com ela.” Atento à opressão de classe, diz que Fabiano - “Se pudesse mudar-se, gritaria bem alto que o roubavam. Aparentemente resignado, sentia um ódio imenso a qualquer coisa que era ao mesmo tempo a campina seca, o patrão, os soldados e os agentes da prefeitura.” Já a submissão de classe surge quando o personagem “(...)notou que aquilo era um homem e, coisa mais grave, uma autoridade.” Ou quando, olhando para o odiado soldado, assunta:
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 – Governo é governo.
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No capítulo, a subjetividade de Fabiano é explorada até a medula. Também se imiscui com a personagem sem confundir-se com ela; assim, o sonho de Sinhá Vitória é vestir-se de “saias de ramagens vistosas. As vacas povoariam o curral. E a catinga ficaria toda verde.” Com folgada autoridade, o autor desprende-se das páginas para dizer ao leitor que, Fabiano, imitando “seu Tomás da bolandeira, (...) dizia palavras difíceis(...)Tolice. Via-se perfeitamente que um sujeito como ele não tinha nascido para falar certo.” Em Vidas secas e n’O Quinze os capítulos podem ser lidos como peças autônomas. No primeiro, o destaque está no capítulo Baleia. O leitor deseja uma morte rápida para a cachorra, porque o autor mistura as lembranças do animal com a agonia do fim próximo. No segundo, impressiona a sofreguidão com que Chico Bento sacrifica uma cabra para mitigar a fome da família; sente-se um alívio, logo interrompido com a chegada do rico proprietário.
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Mas em Galiléia...
O também cearense Ronaldo Correia de Brito põe três personagens de perfil urbano na rudeza do sertão. Com habilidade de escritor maduro, entrega a narrativa a um dos três primos, Adonias, personagem de primeiro plano. O narrador se divide entre as memórias da infância, as preocupações com os primos na viagem de volta à fazenda do avô. Regionalista, o autor tem estilo apurado, escorreito. Quase escorrega num clichê quando “Um relâmpago dos mais fortes clareou o mundo, no momento em que David atravessou a porta de entrada.” Aliás, um clichê cinematográfico. Demonstra concentração poética no foco telúrico: “Dormi como dormem as pedras, sem sonhos.” Os diálogos são ricos de subjetividade, como na conversa entre dois primos, ante a morte iminente do avô:
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- Ele está sofrendo?
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- Está. A lucidez é um sofrimento.
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No capítulo Lourenço, o autor usa três recursos. O relato de Lourenço sobre um episódio de vingança na família, numa prosa própria, sem volteios de romance; o ressurgimento de Adonias, com a narrativa retomando o curso original; logo interrompida por um diálogo rápido, com perguntas e respostas ligeiras. O autor dá uma trégua ao leitor.
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Galiléia foi o livro do ano em 2009.

* Menção honrosa dos Prêmios Literários da Cidade do Recife, com o livro Um presente para o papa e outros contos. Integra as antologias de contos Recife conta o Natal e Panorâmica do conto em PE.
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* Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.
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