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terça-feira, 25 de novembro de 2025

Jaime Nogueira Pinto - Camilo, nos 200 anos de um escritor genial


* Jaime Nogueira Pinto

Camilo escreveu muitíssimo mais do que Eça; não tinha tempo de corrigir os originais, trabalhava como “um remador de Ben-Hur”, qual escravo dos editores amarrado à produção em massa para ganhar a vida

22 mar. 2025

No Domingo passado, 16 de Março, completaram-se dois séculos sobre o nascimento em Lisboa, na Rua da Rosa, de um dos melhores escritores portugueses, Camilo Castelo Branco – ou Camilo, tout court.

É um conhecimento de infância. Tive um tio camilianista fanático, bibliófilo e bibliómano, pesquisador por alfarrabistas de primeiras edições do romancista. Não tinha filhos e eu passava muitos fins-de-semana em casa dele, em Vila do Conde. Era ali que ele juntava outros da mesma tribo, também devotos do escritor, para falarem interminavelmente de edições antigas, primeiras ou segundas, e das histórias dessas edições, do seu tempo de escrita e publicação, das anedotas à volta de raridades e falsas raridades.

Porque Camilo foi um fenómeno de produção e de qualidade na produção. Mais de duzentos títulos – romances, novelas, História, teatro, polémicas, até poesia. Coisas que eu, miúdo, com nove ou dez anos, à mesa dos mais velhos, ia ouvindo, juntamente com as histórias da sorte e do azar de romances como A Infanta Capelista – sobre uma Maria José, bastarda de El-Rei D. Miguel –, que Camilo teria mandado destruir antes da edição em livro, constava que a pedido do imperador D. Pedro II do Brasil, e que teria ido parar à Salsicharia Francesa, para embrulhar artigos de mercearia. Um cliente, um tal António Rebelo, teria dado pelo achado e adquirido as “folhas de embrulho” que restavam, salvando alguns, poucos, exemplares, dos quais mais tarde se publicariam duas edições fac-simile, fazendo da Infanta Capelista uma preciosa raridade camiliana.

(Há anos, a propósito de um livro de futurologia política sobre uma Administração americana que não veio a acontecer, lembrei-me deste episódio camiliano e dos presumíveis destinos, mais ou menos úteis, mais ou menos nobres, das obras malogradas.)

Mais tarde, Camilo reescreveu e reeditou o tema da infanta capelista em O carrasco de Victor Hugo José Alves, tornando-o menos ofensivo para a família real de Portugal e do Brasil.

Camilo ou Eça?

Os grandes poetas, como Camões e Pessoa, são quase sempre os grandes conhecedores da pátria, da nação, do colectivo histórico, da comunidade política, da herança e identidade de um povo entre os povos; conhecem-na, (re)constroem-na e exprimem-na nos seus altos e baixos, no seu modo peculiar de absorver e exprimir o universal. Já os grandes escritores apanham mais as pessoas. E os grandes escritores do seculo XIX que retrataram os portugueses, o seu modo de ser, a sua identidade ou as suas identidades, são incontornavelmente Camilo e Eça de Queirós.

Eça, como confessaria numa carta ao seu amigo conde de Arnoso, conhecia sobretudo Lisboa; e, de Lisboa, a “sociedade”, a “classe alta”; talvez por isso continuemos a descobrir nas nossas “elites” – e na classe político-empresarial-futebolística deste último meio século não faltam exemplares – Gouvarinhos, Dâmasos Salcedos, Acácios. Já Camilo dá-nos outros portugueses, mais rústicos, os das terras de Portugal, mesmo que vindos para a capital; e, entre eles, mais os do Norte, os das “novelas do Minho”, os da Samardã, os das invasões francesas e das guerras civis, os que, quando ofendidos, vão a casa buscar o bacamarte e voltam com ele para lavar a honra com o sangue do ofensor.

E há a quantidade e a qualidade. Camilo escreveu muitíssimo mais do que Eça; não tinha tempo de corrigir os originais, trabalhava que nem “um remador de Ben-Hur” (para usar a imagem do inigualável Nelson Rodrigues), ou qual escravo dos editores, amarrado à produção em massa e em série para ganhar a vida, correndo sempre atrás do prejuízo. Bem ao contrário de Eça de Queirós, funcionário diplomático e bem casado.  Embora gastador e devedor e, curiosamente, também “filho de mãe incógnita”, Eça nunca viveu o trágico sorvedouro das dívidas e da angústia que daí vem. Camilo passou por essa e por outras desgraças.

Por isso, na cadeia da Relação do Porto, em 10 de Agosto de 1861, quando cumpria pena por adultério com Ana Plácido, depois da queixa-crime do marido traído, escrevia ao seu primeiro biógrafo, Vieira de Castro: “A página mais crível e instrutiva da minha biografia será aquela em que escreveres que a desgraça é a pedra de toque onde se aquilatam os amigos.” Vira “os muitos em que se fiava” a desaparecer; mas não deixara de ver “em redor aqueles com quem não contava”.

As mulheres e a “mulher fatal”

Fora assim a sua vida – trágica, desde o berço. Fruto de uma aventura do pai, Manuel Joaquim Botelho Castelo Branco, irmão do Simão Botelho que ele havia de imortalizar em Amor de Perdição – Romeu e Julieta português, escrito em duas semanas, na prisão.

Antes do encontro com a sua mulher fatal,  Camilo entregou-se a amores jovens, aventureiros e mal-aventurados, seduções e paixões rústicas e freiráticas, relações inominadas e ambíguas… Bernardina Amélia, Fanny Owen, a “costureira do Candal” … até que, num baile na Assembleia Portuense, em 1848, conheceu  a mulher da sua vida, Ana Plácido, casada com o “brasileiro” de torna-viagem Pinheiro Alves.  Ana, nesse dia, “vestia de branco, com enfeites de fitas escarlates nos cabelos, como escreveria o apaixonado em Cenas Inocentes da Comédia Humana.

Paixão verdadeira desde o primeiro instante, com o desajeitado Romeu a passarinhar-se pela rua do Almada, onde morava a sua Julieta, que estaria à janela, com alguma provocação. Porque a acreditar em Mestre Aquilino, um entre a dúzia de biógrafos de Camilo – dos seus contemporâneos Vieira de Castro, Freitas Fortuna, Alberto Pimentel, até Pascoaes, Agustina, Alexandre Cabral –, Ana Plácido já teria sido amante de António Ferreira Quiques, um portuense amigo de Camilo, possível pai biológico de “Manuelinho”, que no registo apareceria como filho do marido da mãe, do propriamente dito Pinheiro Alves.

Camilo foi para Lisboa, mas voltou ao Porto e voltou a vê-la, dez anos depois, em Braga, no Bom Jesus do Monte. Ana Plácido, que tivera uma boa educação, em família burguesa e numerosa, descrevia o marido, o “brasileiro” Pinheiro Alves, como “mau homem e repelente” e acabaria por fugir com Camilo.  Os amantes seriam condenados. Mais tarde, depois de livres, mas sempre perseguidos pela desgraça, viveram juntos em S. Miguel de Seide, onde tiveram dois filhos.

Foi este homem de vida atribulada e até trágica que contou admiravelmente o Portugal do seu tempo em folhetos e romances com títulos curiosíssimos, como Maria não me mates que sou tua mãeO parente dos cinquenta e três monarcasMistérios de LisboaDoze casamentos felizesNovelas do MinhoNoites de InsóniaEusébio Macário, e a sua continuação, A Corja. E A Brasileira de Prazins.

É uma obra extraordinária, um retrato de Portugal do século XIX, das invasões francesas ao fontismo. Além da verdade e realidade das personagens e dos enredos, fica um estilo e uma linguagem únicos, expressivos e variados: do romantismo de Maria Moisés, das Novelas do Minho, ao verrinoso dos panfletos contra inimigos literários e existenciais, a quem não poupava, como o poeta brasileiro Tomás Filho.

Romancista histórico?

De certo modo, os romances e novelas de Camilo são romances “históricos” que nos dão, não só a História e a evolução política no tempo e na língua, como Maria Helena Carvalhão Buescu demonstrou a propósito de Amor de Perdição e de A Queda de um Anjo, mas que nos mostram, através das personagens e das histórias, o tempo, bem agitado, que vai do miguelismo e da guerra civil ao final do rotativismo. Por isso a Teresa do Amor de Perdição diz ao pai que não casa com quem ele quer, e Mariana, plebeia, apaixona-se pelo fidalgo Simão Botelho, que é tio de Camilo, irmão de Manuel Joaquim, pai do escritor.

A teia romanesca camiliana apanhou todos estes protagonistas do seu tempo, um tempo que faz a transição das oligarquias tradicionais, noblesse de sang e noblesse de robe (nas famílias de Simão Botelho e de Camilo) para as classes novas do constitucionalismo, do Porto burguês e liberal, dos “brasileiros”, dos “eleitos” deputados e barões de que o Calisto Elói de A Queda de um Anjo é um fidelíssimo retrato, um irmão próximo do Abranhos de Eça, retratos ainda vivos e actuais da nova oligarquia liberal-democrática.

Camilo era assim. Pintou o século XIX como ele foi em Portugal e na Europa, um filho das guerras da Revolução e do Império – primeiro das invasões francesas e da guerra miguelistas-liberais; depois do liberalismo convulso até à Regeneração, pelo golpe militar de Saldanha.

Em Eusébio Macário e na Brasileira de Prazins quis mostrar-se à vontade na nova religião do romance realista. Mas Camilo não era só capaz de realismo literário; era um realista existencial, que entendia a continuidade da natureza humana e a continuidade dos portugueses. Os mestres do liberalismo, Garrett e Herculano, antigos voluntários e combatentes da nova fé, desiludiram-se da nova ideia com a prática; Herculano, retirando-se para Vale de Lobos e dizendo que o estado da pátria lhe dava vontade de morrer, Garrett fazendo a crítica ao materialismo dos barões e agiotas do liberalismo, lembrando nas Viagens na minha Terra que Jesus lhes faria o mesmo que aos vendilhões do Templo.

Camilo, crítico do absolutismo português, no Perfil do Marquês de Pombal, crítico da oligarquia liberal, em A Queda de um Anjo, autor de uma charge ao miguelismo nortenho nessa saga burlesca que é A Brasileira de Prazins, em que um sósia do príncipe exilado mobiliza para a contra-revolução a reacção do Portugal Velho, parece não ter tido nem ilusões nem desilusões políticas. Talvez porque a todos visse como homens, protagonistas e figurantes do seu tempo e da sua pátria na grande comédia ou tragédia humana. Um som e uma fúria que contou com humor e sentido do trágico em mais de duas centenas de títulos, alguns milhares de personagens, dezenas de milhares de páginas – de boa literatura, acrescente-se.

Pena que o tenham trocado por moeda mais nova e mais barata; e logo num tempo em que a consciência crítica de si, dos outros, do país e do mundo está tão em falta.

        https://observador.pt/opiniao/camilo-nos-200-anos-de-um-escritor-genial/ 


quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Alfredo Barroso -[Como encontrei Camilo na Adraga ... ]


OMO REENCONTREI ALMEIDA FARIA NA ADRAGA E COMO SE NOS APRESENTOU UM DESCENDENTE DE CAMILO EM CARNE E OSSO

- Alfredo Barroso narra este inesperado encontro

Sempre fui imensas vezes à praia e nadava bastante bem (modéstia à parte) até há poucos anos, mas agora, quando vou (fui hoje pela primeira vez em 2020) apercebo-me, quando olho para as ondas do mar, que estou quase como as gravuras de Foz Côa (que não sabem nadar). Mas ao chegar à belíssima Praia da Adraga, tive o prazer de reencontrar um velho amigo que já não via há alguns anos: o magnífico escritor Almeida Faria. Ele é queirosiano e eu camiliano, mas sempre muito bem nos entendemos. E o inesperado aconteceu quando Almeida Faria me incitava a continuar a escrever sobre Camilo. Um sujeito que ouvia a nossa conversa a pequena distância social (como agora se diz) pediu-nos licença para se intrometer e explicar que, apesar de não ser homem de leituras grandes ou pequenas, era descendente directo de Camilo por via da mãe e de seus inúmeros ascendentes. Mostrou-nos o seu CC, disse-nos que só lera, de Camilo, "A queda dum anjo", e que viera de Famalicão, mais concretamente, de São Miguel de Ceide, para ver Lisboa e as praias para onde os políticos descritos por Camilo vinham com 'mulheres da vida' (ou seriam as 'espanholas'?) e que ficou muito espantado ao ouvir dois sujeitos citadinos a falarem do Camilo à boca da Praia da Adraga... O inesperado acontece, e quando é divertido e insólito não faz nenhum mal à saúde... Pois é, não acreditam, mas garanto-vos que foi mesmo verdade, juro!

Praia da Adraga, 3 de Setembro de 2020

https://www.facebook.com/somera.simoes

terça-feira, 17 de dezembro de 2024

Carlos Coutinho - Literatura(s)

* Carlos Coutinho
 
NUM domingo gélido como o de ontem, é verdadeiramente insensato sair da cama a meio da manhã, mas eu saí. Já muito perto do meio-dia, com sol a rodos e um ventinho maligno a afagar os ramos trémulos das árvores por baixo da minha janela, fui comprar o jornal e, a seguir, já com um bom café engolido, lembrei-me daquela hora antiga em que irrompi pela leitura intercalada das “Confissões” do bispo de Hipona e de “O Sorriso aos Pés da Escada”, de Henry Miller, que tinha levado comigo, para apurar certas diferenças.

   Recordo-me da alegria que senti,  ao percorrer os pecados de Santo Agostinho, nascido em 430 d.n.e., alternados com capítulos enternecedores do malandreco Miller que foi parido em Brooklyn, nos Estados Unidos, a 26 de dezembro de 1891, e, em 1930, respondendo a um espírito aventureiro e ao desejo de se dedicar à escrita, partiu para a Europa e se fixou em Paris. Foi aí, na exaltada e exaltante capital gaulesa, que, em 1934, publicou o seu primeiro romance autobiográfico,  o "Trópico de Câncer", a que se seguiu, em 1939, o "Trópico de Capricórnio", ambos banidos durante quase três décadas nos EUA. 

    Enquanto o bispo se deleita na revisitação das suas horas de fulgor mental e luxúria vivida milímetro a milímetro, Miller, em 1942, pouco após se instalar definitivamente na Califórnia, iniciou a escrita da trilogia 'Rosa-Crucificação' - “Sexus”, “Plexus”, “Nexus” - considerada uma das suas obras maiores, onde conjuga reflexão metafísica com um erotismo explícito que, traduzido para português, nem sempre se mastiga bem. 

   Foi, como é bem sabido, um dos mais extraordinários autores americanos do século XX, cuja insubmissão, quer na vida, quer na literatura, viria a influenciar fortemente a chamada 'beat generation'. Faleceu em casa a 7 de junho de 1980 e eu, desta deriva, recordo a minha juventude e o olhar avisado do meu pai, que preferia Camilo, e, perdendo o controlo da memória, desenterro a minha primeira abordagem às suas “Novelas do Minho” e ao romance de Aquilino “Quando os Lobos Uivam” .

   Na “Maria Moisés” o suicida de S. Miguel de Seide põe “o pequeno pegureiro a contar as cabras à porta do curral; e, dando pela falta de uma, desatou a chorar com a maior boca e bulha que podia fazer. Era noite fechada. Tinha medo de voltar ao monte, porque se afirmava que a alma do defunto capitão¬mor andava penando na Agra da Cruz, onde aparecera o cadáver de um estudante de Coimbra, muitos anos antes. O povo atribuia aquela morte ao capitão-mor de Santo Aleixo de além-Támega, por vingança de ciúmes, e propalava que a alma do homicida, de fraldas brancas e roçagantes, infestava aquelas serras. O moleiro das Poldras contrariava a opinião pública, asseverando que a aventesma não era alma, nem a tinha, porque era a égua branca do vigário. A maioria, porém, pôs em evidência o facto psicológico, divulgando que o moleiro era homem de maus costumes, tinha sido soldado na guerra do Rossilhão, não se desobrigava anualmente no rol da igreja, nem constava que tivesse matado algum francês”. 

   E também me saltou na memória a lacrimosa Mariana do “Amor de Perdição”, talvez porque da Antena 2 brotavam as notas doridíssimas do “Stabat Mater”, de Gioachino Rossini, exprimindo a dor daquela senhora excelsa que, em pé e de mãos enclavinhadas no peito,  era a mãe do sacrificado, a “mãe dolorosa, junto da cruz, lacrimosa, donde pendia o filho” (Stabat mater dolorosa, iuxta crucem lacrimosa, dum pendebat filius.)

   Foi para me salvar deste sufoco que a minha memória me fez imaginar “O Malhadinhas”, do beirão de Sernancelhe que, em forma de monólogo, nos conta a história de um almocreve, o ardiloso e jocoso Malhadinhas, que é um serrano rústico, grosseiro, matreiro e não tem quaisquer problemas em usar a “faquinha” que traz à cintura para corrigir o que entende por injusto.

   Foi, aliás, tendo em conta inúmeros casos de manha e crueldade que conhecia, típicas dos britânicos seus patrícios, que o filósofo John Lock, tido ainda hoje como o “pai do liberalismo”, já dizia no século XVII: “Sempre considerei as ações dos homens as melhores intérpretes dos seus pensamentos.”

2024 12 16

https://www.facebook.com/carlos.coutinho.7186896

quarta-feira, 13 de setembro de 2023

Luís Miguel Queirós - Amor de Perdição: um bom romance canonizado pelas razões erradas

 


No prefácio que escreveu, em 1879, para acompanhar a 5.ª edição de Amor de Perdição, Camilo Castelo Branco termina com uma profecia dubitativa: "Se, por virtude da metempsicose, eu reaparecer na sociedade do século XXI, talvez me regozije de ver outra vez as lágrimas em moda nos braços da retórica, e esta 5.ª edição do Amor de Perdição quase esgotada."

Sugerir que a tiragem então acabada de sair levaria mais de um século a esgotar-se era, da parte de Camilo, um óbvio e pouco convincente lance de modéstia, mas o que nem ele, que nunca se teve propriamente em baixa conta, se atreveria a prever, nesses anos em que os favores da crítica começavam a inclinar-se para a nova escola realista de Eça de Queiroz, era que essa "sociedade do século XXI" não apenas não esqueceria os amores contrariados de Simão Botelho e Teresa Albuquerque, como iria mesmo celebrar, e com assinalável pompa e circunstância, os 150 anos da publicação, em 1862, da primeira edição do Amor de Perdição.

Com o bem achado título de CCB no CCB - leia-se Camilo Castelo Branco no Centro Cultural de Belém -, a instituição dirigida por Vasco Graça Moura dedicou, no final de Outubro, uma semana de intensa programação ao romancista, e em particular ao Amor de Perdição, promovendo debates, conferências, sessões de cinema, e ainda exposições, como aquela que reuniu os estudos de Júlio Pomar para as ilustrações do Romance de Camilo, de Aquilino Ribeiro. E os festejos prosseguem em breve em São Miguel de Seide, na Casa de Camilo, onde a Câmara de Vila Nova de Famalicão organiza, de 16 a 18 deste mês, um colóquio internacional intitulado Amor de Perdição: Olhares Cruzados. O ministro da Educação, Nuno Crato, é um dos que já confirmaram a presença, a par de Mário Cláudio, Vasco Graça Moura, José Pacheco Pereira ou Laborinho Lúcio.

O tributo mais original fica todavia a dever-se à autarquia portuense, que aprovou recentemente a proposta de se baptizar com o nome de Largo do Amor de Perdição a praceta fronteira à Cadeia da Relação, onde Camilo esteve preso com Ana Plácido, e onde escreveu, ao que parece em apenas 15 dias, a história dos contrariados amores de Simão Botelho e Teresa Albuquerque. É a primeira vez que a cidade concede a um romance a honra de figurar na respectiva toponímia.

A arte da sugestão
Por que motivo, entre os tantos livros que o génio compulsivo de Camilo nos deixou, haveria este romance em particular de conquistar os favores da posteridade e alcançar um estatuto suficientemente icónico para se lhe renderem preitos geralmente reservados aos autores, e não às obras? O ensaísta e camilianista Abel Barros Baptista acredita que o próprio escritor, com o já referido prefácio de 1879, possa ter "contribuído para criar a ideia de que este livro é mais importante do que os outros". Baptista lembra que Camilo, nesse texto, caracteriza o sucesso editorial da obra como "um êxito fenomenal e extralusitano". À sua escala, o Amor de Perdição foi, de facto, aquilo a que hoje chamaríamos um best-seller: no primeiro quartel do século XX, já atingira vinte edições. Mas o próprio Camilo sempre lhe preferiu O Romance de Um Homem Rico, que publicara no ano anterior, e os camilianistas de várias épocas foram assumindo predilecções diversas. Não há na vasta bibliografia de Camilo algo que corresponda a Os Maias, de Eça de Queiroz, um título que seja a sua obra-prima consensual.

Se Amor de Perdição se foi aproximando desse estatuto, deve-o a um complexo conjunto de motivos, nem todos especialmente válidos. Barros Baptista começa por desmontar a ideia de que sucessivas gerações de estudantes estudaram o livro no ensino secundário: "É uma ideia bastante ilusória", garante o ensaísta, já que "o livro só integrou os programas escolares durante um período muito curto". Entre os elementos que confluíram na lenda gerada em torno da obra conta-se ainda o suposto paralelismo entre a paixão contrariada dos protagonistas e os amores que tinham lançado no cárcere o próprio Camilo e Ana Plácido. Uma comparação que Barros Baptista igualmente desmonta, lembrando que a vida do romancista na cadeia portuense não era bem a que se julga: "Saía de lá para apanhar sol, comprava pantufas para Ana Plácido..."

Mesmo a tendência para se ver no Amor de Perdição uma espécie de tradução da peça Romeu e Julieta, de Shakespeare, para o romantismo português do século XIX - em ambos os casos, a inimizade de duas famílias constitui o obstáculo principal à consumação do amor que une os jovens protagonistas - esquece a dimensão triangular que a paixão de Mariana por Simão vem trazer à novela de Camilo. Barros Baptista acha que o livro é "bastante moderno" e "muito menos linear e convencional" do que geralmente se pensa, argumentando que "é difícil apontar-se uma causa única para o que vai acontecendo". A título de exemplo, o ensaísta sugere que, no final, Simão, a caminho do exílio, está já "mais interessado no seu destino do que na ligação amorosa com Teresa", que definha no convento de Monchique.

"É um dos livros mais interessantes para se conhecer a criatividade de Camilo como romancista, incluindo a sua veia cómica", diz Barros Baptista, apontando um diálogo entre Mariana e Simão como exemplo do talento do autor para sugerir conotações sexuais numa frase de circunstância aparentemente inócua: preocupada com a relutância de Simão em alimentar-se, Mariana leva-lhe um "caldinho" e diz: "(...) coma sem nojo, que esta [malga] nunca serviu." Uma tensão erótica que, na sua adaptação do livro ao cinema, Manoel de Oliveira traduzirá numa cena quase "pornográfica", com Mariana a apresentar a Simão uma galinha de pernas escachadas, numa travessa que transporta à altura da sua própria vagina.

Um ritmo vertiginoso
Também o romancista Mário Cláudio acha que "o Amor de Perdição é um romance extraordinário" por méritos diversos dos que geralmente se atribuem ao livro. Mas os pontos fracos e fortes que enumera não coincidem exactamente com os que aponta Abel Barros Baptista, o que só confirma que estamos perante uma obra bastante mais aberta e discutível do que a sua precoce canonização deixaria prever.

No seu romance Camilo Broca, Cláudio dá um lugar central a Simão Botelho, o tio de Camilo que serviu de inspiração ao Amor de Perdição, e que, na vida real, "foi um valdevinos, um canalha que chulou uma mulher casada, muito feia e muito rica". Mesmo o Simão protagonista do romance de Camilo "não é muito mais do que um pinga-amores que mata por paixão", observa Mário Cláudio, lamentando que "Simão não seja uma figura mais contraditória", mas reconhecendo que "seria exigir a Camilo uma modernidade que este não poderia ter".

Vendo Simão como "mais um decalque do Werther, de Goethe, mas sem o lado reflexivo, filosófico, do original", Cláudio não o distingue das restantes personagens de Camilo, que, afirma, "são um pouco estereotipadas, de cartão recortado, com um conteúdo relativamente pobre", o que se "torna claro", acrescenta, "quando as comparamos com as figuras de Eça". O romancista, diz, estava "deformado pela escrita do folhetim literário, que, antes de Balzac, era um desfile de estereótipos: em Camilo, a mulher fatal é sempre muito fatal, o amoroso é muito amoroso, o brasileiro de torna-viagem é sempre burro, perverso e feio".

Mas Mário Cláudio reconhece que Amor de Perdição "tem um ritmo vertiginoso" - a análise do manuscrito levou os especialistas à convicção de que Camilo escreveu mesmo o livro em duas semanas - e que a obra mostra "um grande conhecimento da técnica novelística". Valoriza ainda o modo como, no Amor de Perdição, a transcrição de cartas "é um engenho mobilizador da acção", algo que "já se fizera lá fora, mas era inédito em Portugal", e elogia "o estudo da triangularidade" oferecido pela relação das personagens de Simão, Teresa e Mariana.

https://www.publico.pt/2012/11/05/culturaipsilon/noticia/amor-de-perdicao-um-bom-romance-canonizado-pelas-razoes-erradas-1570134

sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

Camilo Castelo Branco - Maria da Fonte

Casa de Camilo




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Maria da Fonte

A cada um seu Camilo, está visto. Na verdade, a obra do nosso escritor é um mundo tão vasto e proteico que dificilmente se poderá encontrar alguém que o não admire e aprecie em alguma das suas facetas. Há quem prefira nele as histórias de amores contrariados e lágrimas. Há quem prefira as páginas de sarcasmo ou, quando em maré de benevolência, de ironia – de toda a maneira, troça implacável. Há quem prefira o manejar do varapau de polemista invencível. Há até quem prefira o coca-bichinhos de miuçalhas históricas e genealógicas. Há sempre um Camilo que nos diz qualquer coisa.

Pessoalmente, aprecio-o e admiro-o visto de qualquer ângulo – tirante, confesso, o da poesia. Tanto me comovo com o Amor de perdição, como me divirto com a Queda dum anjo, como pasmo da mestria narrativa das Novelas do Minho ou de A Brasileira de Prazins, como passo duas horas entretidas com as suas obras ditas menores, tipo Cavar em ruínas ou Cousas leves e pesadas.

Mas obviamente há sempre um livro de Camilo que, por um motivo ou outro, nos fala mais. Às vezes nem nós sabemos exactamente porquê. O certo é que fala e prende. Acontece-me isso com Maria da Fonte. É como se sabe uma obra simultaneamente de reminiscências históricas e de polémica contra um outro livro, aparecido em 1884, com o título de Apontamentos para a História da Revolução do Minho em 1846 ou da Maria da Fonte, da autoria do ultramontano Padre Casimiro José Vieira, que a si mesmo se intitulava «defensor das cinco chagas e general das duas províncias do norte» e que – Camilo o cita com ironia – «acaudilhou trinta mil homens e abalou por duas vezes o trono».

O padre é ao mesmo tempo mitómano e megalómano. Reescreve a história ao sabor e à medida da sua auto-estima e do seu ódio aos pedreiros-livres. Claro que Camilo reduz metodicamente a cisco as patacoadas do padre, usando armas que tinha sempre à mão de semear: vigor de raciocínio e de argumentação, segurança nos dados históricos, cultura vasta e vastas leituras, sarcasmo e ironia em doses equivalentes.

É impossível ler o livro sem espirrar aqui e ali frouxos de riso (expressão bem camiliana) à custa das bordoadas com que Camilo deslomba (outra expressão bem camiliana) o padre Casimiro. A técnica usada é bem ao jeito do nosso polemista e deu bons resultados em ocasiões anteriores: reduzir os dislates do adversário a estilhaços e brincar depois com eles, por vezes quase até à crueldade.

A Maria da Fonte termina com um “Pós-escrito” que constitui, a meu ver, uma das páginas mais admiráveis de Camilo. Mantém o tom geral do livro, ora sarcástico, ora irónico, mas tempera-o agora de severidade e indignação. Ainda não li em parte alguma – salvo talvez em A velhice do Padre Eterno, em todo o caso num registo diferente – um requisitório tão enérgico e tão sentido contra um certo clericalismo sectário e de vistas estreitas como acontece ser o do padre Casimiro, que acaba por não distinguir entre política e religião e vaticina que todos os adversários hão-de dar «pulos no inferno». O “Pós-escrito” é uma cúpula primorosa para as duzentas e tal páginas do livro. Termina assim:

«[...]As modernas angústias do homem que chama os deuses à imitação do terror antigo que os criara, são sagradas e tamanhas que é pouco menos de infame afrontar com vitupérios o incrédulo atormentado pelo seu materialismo. É isso a esponja chegada aos lábios desses Cristos que se dilaceram nas presas da sua dúvida para se resgatarem pela morte. Se não pode compadecer-se, padre, seja ao menos egoísta. Arranje o paraíso eterno da sua pessoa, e deixe os ateus, deixe-os padecer e morrer. Não lhes faça pressão crudelíssima nos espinhos da sua coroa, injuriando-os porque eles não podem crer que haja um deus a contemplar, com a impassibilidade de um Nero divino, as suas criaturas estorcidas entre as labaredas do incêndio que Sua Majestade Suprema assoprou sem ter primeiramente consultado a vontade das vítimas. Cale-se, padre, por honra de Deus, se o acredita!»

Pires Cabral


http://casadecamilo.wordpress.com/2008/09/19/maria-da-fonte/



Jornal Maria da Fonte


Fundação do Jornal Maria da Fonte

Quando em 1871 José Joaquim Ferreira de Melo e Andrade remete a Camilo Castelo Branco o “esboço” de um Romance que titula de “A Herança de Londres” mas que virá a ser publicado em 2 volumes (1873/1874) sob o título “O Demónio do Ouro”, iniciava-se uma relação que acabaria por revelar-se determinante de muito do futuro de uma Vila e de um Concelho, a Póvoa de Lanhoso.

De facto, após esse momento, as relações de Camilo Castelo Branco e de Ferreira de Mello acabariam por fazer emergir um desejo íntimo daquele que viria a comprovar-se, ser um dos principais protagonistas, e determinantes, da eclosão da Revolta da Maria da Fonte na Póvoa de Lanhoso na Primavera de 1846. José Joaquim Ferreira de Melo e Andrade exerceu as funções de Administrador do Concelho da Póvoa de Lanhoso entre 1841 e 1847, fazendo-o na assumpção de uma perspectiva fundamentalmente política, dando primazia absoluta aos interesses político-partidários sobre os interesses da população, e contra quem se levantam as vozes e os actos das mulheres de Fontarcada que determinariam o início do que ficaria para a História de Portugal como a Revolução da Maria da Fonte.

Será Ferreira de Mello, Cartista convicto, quem faculta a Camilo a sua versão dos acontecimentos da Revolução da Maria da Fonte, como aliás expressa numa carta que lhe dirige, a acompanhar os documentos, datada de Março de 1874, quase em simultâneo com a publicação de “O Demónio do Ouro”...

O Livro de Camilo Castelo Branco

A publicação do livro de Camilo Castelo Branco “A Maria da Fonte”, mais um trabalho ensaístico do autor do que propriamente Romance, acontece em res-posta ao Livro “Apontamentos para a História da Revolução do Minho em 1846 ou da Maria da Fonte”, do Pe. Casimiro José Vieira, publicado com data de 1883… pela Typographia Lusitana de Braga.

De facto, “A Maria da Fonte” de Camilo Castelo Branco não se trata de um romance histórico, sequer de um romance, assumindo dar à estampa a versão dos acontecimentos de José Joaquim Ferreira de Mello e Andrade, um também seu correligionário político. Neste relato, adoptado por Camilo Castelo Branco como a versão mais autêntica dos acontecimentos, publica textualmente a versão que 11 anos antes Ferreira de Melo lhe remetera, e no qual opta por não mexer, transpondo ipsis verbis, talvez por Ferreira de Mello ter já falecido 4 anos antes (1881).

No discorrer das suas interpretações, de muitos dos factos da Revolução, Camilo vai procurar res-ponder a diversos “interlocutores”; para além do Pe. Casimiro José Vieira, a muitos dos seus adversários políticos, de Almeida Garrett a Oliveira Martins… contribuindo muito vivamente para a mitificação da figura da Maria da Fonte, a Amazona de Ferreira de Mello, de tamancos para os herdeiros da versão “camiliana”, o que provocará uma forte reacção das gentes da Póvoa de Lanhoso, agora já não com foices e roçadoiras... ou de clavina em riste…

Sabendo-se do alcance da obra de Camilo, mesmo em pleno séc. XIX, o que poderiam as gentes ou a comunidade da Póvoa de Lanhoso fazer em defesa do seu bom nome e dos actos heróicos das suas mulheres…? Como poderia uma comunidade repor a sua verdade se tinha sido um dos seus (Ferreira de Mello) a facultar uma visão política dos acontecimentos, ainda que um personagem suspeito no que respeita a isenção…? Como poderia a Póvoa de Lanhoso recolocar as palavras de Ferreira de Mello, que chegam mesmo a ser insultuosas e não apenas para com as mulheres da Póvoa de Lanhoso, afinal “o rodeiro dos engeitados da Póvoa”, de uma das suas figuras e cujos descendentes continuavam a ser referência social na mesma Póvoa de Lanhoso...

A “Maria da Fonte”
na Póvoa de Lanhoso

Não obstante os ecos deste relato não terem sido os desejados, o mesmo será objecto de sucessivas reedições nas páginas dos jornais e em textos de autores locais embora apenas documentalmente confirmados 110 anos depois (em 1996) com a publicação do trabalho de José Viriato Capela e Rogério Borralheiro “A Maria da Fonte na Póvoa de Lanhoso – Novos Documentos para a Sua História” que valida a informação “oral” veiculada ao longo de mais de um século pelo jornal e recolocando muitas das questões em torno da historiografia da Revolução de 1846.

Após 03 de Janeiro de 1886 e até aos nossos dias, 125 anos volvidos, com muito poucas e muito curtas interrupções, o jornal e o título “Maria da Fonte”, entram em casa dos Povoenses, sedimentando e solidificando a ligação, que se torna “umbilical”, da Póvoa de Lanhoso aos feitos de 1846...


http://jornalmariadafonte.blogspot.pt/2011/01/fundacao-do-jornal-maria-da-fonte.html

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Amor de Perdição: um bom romance canonizado pelas razões erradas







Literatura

Amor de Perdição: um bom romance canonizado pelas razões erradas

05.11.2012 - 15:27 Por Luís Miguel Queirós

A praceta frente à Cadeia da Relação, onde Camilo esteve preso, vai chamar-se Largo do Amor de Perdição
A praceta frente à Cadeia da Relação, onde Camilo esteve preso, vai chamar-se Largo do Amor de Perdição (Paulo Pimenta)
 Os 150 anos da primeira edição do livro que Camilo escreveu na prisão estão a ser festejados com pompa e circunstância. A obra até poderá merecer, mas não pelos motivos que a tornaram mítica.

No prefácio que escreveu, em 1879, para acompanhar a 5.ª edição de Amor de Perdição, Camilo Castelo Branco termina com uma profecia dubitativa: "Se, por virtude da metempsicose, eu reaparecer na sociedade do século XXI, talvez me regozije de ver outra vez as lágrimas em moda nos braços da retórica, e esta 5.ª edição do Amor de Perdição quase esgotada." 

Sugerir que a tiragem então acabada de sair levaria mais de um século a esgotar-se era, da parte de Camilo, um óbvio e pouco convincente lance de modéstia, mas o que nem ele, que nunca se teve propriamente em baixa conta, se atreveria a prever, nesses anos em que os favores da crítica começavam a inclinar-se para a nova escola realista de Eça de Queiroz, era que essa "sociedade do século XXI" não apenas não esqueceria os amores contrariados de Simão Botelho e Teresa Albuquerque, como iria mesmo celebrar, e com assinalável pompa e circunstância, os 150 anos da publicação, em 1862, da primeira edição do Amor de Perdição

Com o bem achado título de CCB no CCB - leia-se Camilo Castelo Branco no Centro Cultural de Belém -, a instituição dirigida por Vasco Graça Moura dedicou, no final de Outubro, uma semana de intensa programação ao romancista, e em particular ao Amor de Perdição, promovendo debates, conferências, sessões de cinema, e ainda exposições, como aquela que reuniu os estudos de Júlio Pomar para as ilustrações do Romance de Camilo, de Aquilino Ribeiro. E os festejos prosseguem em breve em São Miguel de Seide, na Casa de Camilo, onde a Câmara de Vila Nova de Famalicão organiza, de 16 a 18 deste mês, um colóquio internacional intitulado Amor de Perdição: Olhares Cruzados. O ministro da Educação, Nuno Crato, é um dos que já confirmaram a presença, a par de Mário Cláudio, Vasco Graça Moura, José Pacheco Pereira ou Laborinho Lúcio. 

O tributo mais original fica todavia a dever-se à autarquia portuense, que aprovou recentemente a proposta de se baptizar com o nome de Largo do Amor de Perdição a praceta fronteira à Cadeia da Relação, onde Camilo esteve preso com Ana Plácido, e onde escreveu, ao que parece em apenas 15 dias, a história dos contrariados amores de Simão Botelho e Teresa Albuquerque. É a primeira vez que a cidade concede a um romance a honra de figurar na respectiva toponímia. 

A arte da sugestão
Por que motivo, entre os tantos livros que o génio compulsivo de Camilo nos deixou, haveria este romance em particular de conquistar os favores da posteridade e alcançar um estatuto suficientemente icónico para se lhe renderem preitos geralmente reservados aos autores, e não às obras? O ensaísta e camilianista Abel Barros Baptista acredita que o próprio escritor, com o já referido prefácio de 1879, possa ter "contribuído para criar a ideia de que este livro é mais importante do que os outros". Baptista lembra que Camilo, nesse texto, caracteriza o sucesso editorial da obra como "um êxito fenomenal e extralusitano". À sua escala, o Amor de Perdição foi, de facto, aquilo a que hoje chamaríamos um best-seller: no primeiro quartel do século XX, já atingira vinte edições. Mas o próprio Camilo sempre lhe preferiu O Romance de Um Homem Rico, que publicara no ano anterior, e os camilianistas de várias épocas foram assumindo predilecções diversas. Não há na vasta bibliografia de Camilo algo que corresponda a Os Maias, de Eça de Queiroz, um título que seja a sua obra-prima consensual. 

Se Amor de Perdição se foi aproximando desse estatuto, deve-o a um complexo conjunto de motivos, nem todos especialmente válidos. Barros Baptista começa por desmontar a ideia de que sucessivas gerações de estudantes estudaram o livro no ensino secundário: "É uma ideia bastante ilusória", garante o ensaísta, já que "o livro só integrou os programas escolares durante um período muito curto". Entre os elementos que confluíram na lenda gerada em torno da obra conta-se ainda o suposto paralelismo entre a paixão contrariada dos protagonistas e os amores que tinham lançado no cárcere o próprio Camilo e Ana Plácido. Uma comparação que Barros Baptista igualmente desmonta, lembrando que a vida do romancista na cadeia portuense não era bem a que se julga: "Saía de lá para apanhar sol, comprava pantufas para Ana Plácido..."Mesmo a tendência para se ver no Amor de Perdição uma espécie de tradução da peça Romeu e Julieta, de Shakespeare, para o romantismo português do século XIX - em ambos os casos, a inimizade de duas famílias constitui o obstáculo principal à consumação do amor que une os jovens protagonistas - esquece a dimensão triangular que a paixão de Mariana por Simão vem trazer à novela de Camilo. Barros Baptista acha que o livro é "bastante moderno" e "muito menos linear e convencional" do que geralmente se pensa, argumentando que "é difícil apontar-se uma causa única para o que vai acontecendo". A título de exemplo, o ensaísta sugere que, no final, Simão, a caminho do exílio, está já "mais interessado no seu destino do que na ligação amorosa com Teresa", que definha no convento de Monchique. 

"É um dos livros mais interessantes para se conhecer a criatividade de Camilo como romancista, incluindo a sua veia cómica", diz Barros Baptista, apontando um diálogo entre Mariana e Simão como exemplo do talento do autor para sugerir conotações sexuais numa frase de circunstância aparentemente inócua: preocupada com a relutância de Simão em alimentar-se, Mariana leva-lhe um "caldinho" e diz: "(...) coma sem nojo, que esta [malga] nunca serviu." Uma tensão erótica que, na sua adaptação do livro ao cinema, Manoel de Oliveira traduzirá numa cena quase "pornográfica", com Mariana a apresentar a Simão uma galinha de pernas escachadas, numa travessa que transporta à altura da sua própria vagina. 

Um ritmo vertiginoso
Também o romancista Mário Cláudio acha que "o Amor de Perdição é um romance extraordinário" por méritos diversos dos que geralmente se atribuem ao livro. Mas os pontos fracos e fortes que enumera não coincidem exactamente com os que aponta Abel Barros Baptista, o que só confirma que estamos perante uma obra bastante mais aberta e discutível do que a sua precoce canonização deixaria prever. 

No seu romance Camilo Broca, Cláudio dá um lugar central a Simão Botelho, o tio de Camilo que serviu de inspiração ao Amor de Perdição, e que, na vida real, "foi um valdevinos, um canalha que chulou uma mulher casada, muito feia e muito rica". Mesmo o Simão protagonista do romance de Camilo "não é muito mais do que um pinga-amores que mata por paixão", observa Mário Cláudio, lamentando que "Simão não seja uma figura mais contraditória", mas reconhecendo que "seria exigir a Camilo uma modernidade que este não poderia ter". 

Vendo Simão como "mais um decalque do Werther, de Goethe, mas sem o lado reflexivo, filosófico, do original", Cláudio não o distingue das restantes personagens de Camilo, que, afirma, "são um pouco estereotipadas, de cartão recortado, com um conteúdo relativamente pobre", o que se "torna claro", acrescenta, "quando as comparamos com as figuras de Eça". O romancista, diz, estava "deformado pela escrita do folhetim literário, que, antes de Balzac, era um desfile de estereótipos: em Camilo, a mulher fatal é sempre muito fatal, o amoroso é muito amoroso, o brasileiro de torna-viagem é sempre burro, perverso e feio". 

Mas Mário Cláudio reconhece que Amor de Perdição "tem um ritmo vertiginoso" - a análise do manuscrito levou os especialistas à convicção de que Camilo escreveu mesmo o livro em duas semanas - e que a obra mostra "um grande conhecimento da técnica novelística". Valoriza ainda o modo como, no Amor de Perdição, a transcrição de cartas "é um engenho mobilizador da acção", algo que "já se fizera lá fora, mas era inédito em Portugal", e elogia "o estudo da triangularidade" oferecido pela relação das personagens de Simão, Teresa e Mariana. 

    segunda-feira, 1 de novembro de 2010

    Alexandre Cabral: Camilo, mas também Ferreira de Castro

    Monday, November 01, 2010


    Os grandes escritores valem pela obra que legaram. Não precisam de apologetas exaltados e podem bem haver-se, de além-túmulo, com certa casta de detractores ou com um aparente esquecimento (o «injustamente esquecido» é um dos chavões recorrentes da imprensa cultural) que sobre eles se teria abatido. O nome e a obra de Camilo também foram vítimas desta pecha que atinge, póstuma mas temporariamente quando se trata de alguém de real valor, a quase totalidade dos nossos poetas e romancistas. Não obstante o proverbial desleixo luso, há sempre quem -- por vezes solitariamente -- não resista ao apelo duma escrita que continua a interpelar os leitores, surgindo homens como Alexandre Cabral, que porfiadamente estudam e iluminam obras que são acervos do nosso património cultural, consagradas pelo tempo, pelo público e pelos seus méritos intrínsecos.

    Vária Escrita #6, Sintra, Câmara Municipal, 1999.
     
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