Mostrar mensagens com a etiqueta José Fanha. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta José Fanha. Mostrar todas as mensagens

domingo, 2 de julho de 2017

José Fanha - BALANÇO PROVISÓRIO

* José Fanha


Estamos mais gordos mais magros
talvez mais denso
ou mais pesado o nosso olhar
temos pressa de ternura
angústias de vez em quando
e umas contas de telefone atrasadas
para pagar.

Temos falta de cabelo
três ou quatro cicatrizes
sofremos de inquietação.
Muitas vezes nos disseram
como é rápido o deslize
mesmo assim nunca deixámos
de dar corda ao coração.

Daqueles que já partiram
guardamos silêncio e nome
e uma improvável mistura
de amargura e rebeldia
nas palavras desordeiras
que dizem redizem cantam
relembrando dia a dia
como é feita de azinheiras
a capital da alegria.

Muitas ondas já morreram
outras tantas vão nascer
muitos rios já se cansaram de correr até á foz
águas claras que se foram
outras águas se turvaram
e agora restamos nós.

Somos muitos somos poucos
calmamente radicais
sabemos vozes antigas
trazemos a lua ao peito
amamos sempre demais.

Neste caminho tomado
fomos traídos trocados
vendidos ao deus dará.
Nem por isso desistimos
e assim nos vamos achando
perdidos de andar às voltas
nas voltas que a vida dá.

Somos uns bichos teimosos
peixes loucos aves rindo
plantas poetas palhaços
e portanto resumindo
somos mais do que nos querem
estamos vivos
somos lindos.


sexta-feira, 8 de abril de 2016

PIEDAD BONETT - DO REINO DESTE MUNDO

 * Piedad Bonett

Falo 
da menina desfigurada pelo fogo
e dos seios erguidos e doces como janelas de luz,
do menino cego a quem a mãe descreve uma cor
inventando palavras,
do beijo leporino nunca dado,
das mãos que não chegaram a saber que um chuvisco é frágil 
como o pescoço de um pássaro,
do idiota que olha o caixão em que será enterrado o seu pai.
Falo de Deus, perfeito como um círculo, e todo poderoso e
justo e sábio. 

(Tradução de José Fanha)


http://queridasbibliotecas.blogspot.pt/2016/04/piedad-bonett.html

sábado, 19 de março de 2016

José Fanha - Asas

* José Fanha


Nós nascemos para ter asas meus amigos.

Não se esqueçam de escrever por dentro do peito: nós nascemos para ter asas.

No entanto, em épocas remotas vieram com dedos pesados de ferrugem para gastar as nossas asas assim como se gastam tostões.

Cortaram-nos as asas como se fôssemos apenas operários obedientes, estudantes atenciosos, leitores ingénuos de notícias sensacionais, gente pouca, pouca e seca.

Apesar disso, sábios, estudiosos do arco-íris e de coisas transparentes, afirmam que as asas dos homens crescem mesmo depois de cortadas, e, novamente cortadas de novo voltam a ser.

Aceitemos essa hipótese, apesar de não termos dela qualquer confirmação prática.

Por hoje é tudo. Abram as janelas. Podem sair.



José Fanha, 1985, Cartas de Marear
http://www.josefanha.com/

domingo, 8 de abril de 2012

Um poema de José Fanha

* José Fanha

Dr
Doi-me o peito
do cigarro
do bagaço
do catarro
do cansaço
doi-me o peito
do caminho de ida e volta
do meu quarto à oficina
sem parar
sempra a andar
sempre a dar
doi-me o peito
destes anos, tantos anos
de trabalho e combustao
doi-me o luxo
doi-me os fatos
doi-me os filhos
doi-me o carro de quem pode
e eu a pé
sempre a pé
doi-me a esperança
doi-me a espera pelo aumento
pela reforma
pelo transporte
pela vida e pela morte
Dr.
Ja estou farto de nao ser mais que um braço para alugar
foi-se a força
e o meu corpo é como mosto pisado
como um passaro insultado
por nao poder mais voar
Dr.
eu nao sei ler os caminhos dos hospitais
mas alguem ha-de aprender
entre rugas do meu rosto
o que nao vem nos jornais
e nao ha nada no mundo
nem discurso
nem cartaz
capaz de gritar mais alto
que as palmas de minhas maos
que o meu sorriso sem jeito
Dr.
Doi-me o peito..

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

José Fanha ~ Eu sou português, aqui



Segunda-feira, 25 de Abril de 2011


José Fanha, o meu Poeta de Abril


"Eu Sou Português Aqui"


Eu sou português
aqui
em terra e fome talhado
feito de barro e carvão
rasgado pelo vento norte
amante certo da morte
no silêncio da agressão.

Eu sou português
aqui
mas nascido deste lado
do lado de cá da vida
do lado do sofrimento
da miséria repetida
do pé descalço
do vento.

Nasci
deste lado da cidade
nesta margem
no meio da tempestade
durante o reino do medo.
Sempre a apostar na viagem
quando os frutos amargavam
e o luar sabia a azedo.

Eu sou português
aqui
no teatro mentiroso
mas afinal verdadeiro
na finta fácil
no gozo
no sorriso doloroso
no gingar dum marinheiro.

Nasci
deste lado da ternura
do coração esfarrapado
eu sou filho da aventura
da anedota
do acaso
campeão do improviso,
trago as mãos sujas do sangue
que empapa a terra que piso.

Eu sou português
aqui
na brilhantina em que embrulho,
do alto da minha esquina
a conversa e a borrasca
eu sou filho do sarilho
do gesto desmesurado
nos cordéis do desenrasca.

Nasci
aqui
no mês de Abril
quando esqueci toda a saudade
e comecei a inventar
em cada gesto
a liberdade.

Nasci
aqui
ao pé do mar
duma garganta magoada no cantar.

Eu sou a festa
inacabada
quase ausente
eu sou a briga
a luta antiga
renovada
ainda urgente.

Eu sou português
aqui
o português sem mestre
mas com jeito.
Eu sou português
aqui
e trago o mês de Abril
a voar
dentro do peito.



Poesia in Eu sou português aqui - Obras de José Fanha - Ulmeiro – 1995

Imagem in Google




Vídeo in YouTube


quinta-feira, 15 de julho de 2010

José Fanha - dr. dói-me o peito

* Notas sobre Lia Branco

Hoje às 13:26

Dr.

dói-me o peito

do cigarro

do bagaço

do catarro

do cansaço

dói-me o peito

do caminho

de ida e volta

do meu quarto

à oficina

sem parar

sempre a andar

sempre a dar

dói-me o peito

destes anos

tantos anos

de trabalho

e combustão

dói-me o luxo
dói-me os fatos

dói-me os filhos

dói-me o carro

de quem pode

e eu a pé

sempre a pé

dói-me a esperança

dói-me a espera

pelo aumento

pela reforma

pelo transporte

pela vida e pela morte.



Dr.

já estou farto
de não ser

mais que um braço

para alugar

foi-se a força

e o meu corpo

é como o mosto pisado

como um pássaro insultado

por não poder mais voar.



Dr.

eu não sei ler

os caminhos

por dentro

dos hospitais

mas alguém há-de aprender

entre as rugas do meu rosto

o que não vem nos jornais

e não há nada no mundo

nem discurso

nem cartaz

capaz de gritar mais alto

que as palmas das minhas mãos

que o meu sorriso sem jeito,



Dr.

Dói-me o peito…



José Fanha,

Eu sou Português aqui, ed. Ulmeiro
.
.