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sexta-feira, 29 de maio de 2026

António Rodrigues - A estupidez da inteligência artificial

O mundo que se conta a partir do que se diz.

 * António Rodrigues

8 de Dezembro de 2022

 “O problema não é só o de que a maioria de nós luta para conseguir viver com o salário médio, mas o facto de o trabalho incansável nos ser apresentado como uma virtude em si mesmo, independentemente dos rendimentos” Matthew Neale, jornalista inglês

A inteligência da desigualdade

É o furor da semana no domínio dos avanços tecnológicos, um programa de inteligência artificial (IA) que consegue escrever ensaios, notícias, criar histórias ou poesia a partir das sugestões dos utilizadores. Não é o primeiro programa do género, mas os avanços demonstrados pelo ChatGPT deixam antever que muitas tarefas básicas de escrita passarão a ser feitas por máquinas num futuro não muito distante.

O entusiasmo infantil com que olhamos para estes novos desenvolvimentos de IA não esconde que, depois do divertimento de experimentar, nos comece a amargar a boca pelas consequências do seu impacto no futuro. E não se trata apenas de questões éticas ou existenciais à Blade Runner, imaginando uma qualquer revolta de autómatos angustiados com a mortalidade.

Tem mais que ver com o impacto da máquina no mercado laboral. O parafuso que Charlie Chaplin apertava em Tempos Modernos ou a mercadoria que um trabalhador chinês embala em versão autómato em longas jornadas de fastidioso trabalho podem passar a ser feitas por máquinas, mas o que acontece a esses trabalhadores dispensados? São despedidos? Reciclados? Rejeitados?

Como lembra o professor Bernardo Guimarães na Folha de S. Paulo, as inovações tecnológicas provocam efeitos na sociedade como um todo. Permitem produzir mais ou trabalhar menos (ou um conjunto dos dois), mas também “afectam o valor de mercado das diferentes ocupações”, ao tornar “menos valiosos trabalhos com remuneração menor e mais valiosos os trabalhos mais especializados”. E esse tem sido sempre “um factor-chave” para o aumento da desigualdade nos países mais desenvolvidos.

O Peru aboliu a escravatura há 168 anos; porém, grande parte dos peruanos sobrevive como se o conceito ainda existisse. Segundo o director da organização não governamental Capital Humano y Social, Ricardo Valdés, a percentagem de trabalhadores sem contrato no Peru anda à volta de 75% e em certas zonas do país chega aos 90%.

Esta informalidade económica, em que os direitos dos trabalhadores são grandemente negados ou ignorados (mesmo pelos próprios: de acordo com o Instituto de Estudos Peruanos, citado pela Swiss Info, 54% da população não está familiarizada com o conceito de trabalho forçado), em que a precariedade laboral joga a favor de quem a multiplica e contra quem a divide, esvai-se a dignidade do ser humano com a cumplicidade do Estado.

Mais de 3,4 milhões de trabalhadores peruanos declararam que já foram obrigados a trabalhos forçados, mas o Ministério Público regista apenas 25 casos de 2017 a 2020 e ainda culpa as vítimas por não denunciarem os crimes.

Mesmo que o próprio ministro do Trabalho, Alejandro Salas, na segunda-feira, no discurso de abertura de um encontro sindical, a que a agência de notícias espanhola EFE assistiu e a Swiss Info reproduziu, mostre vontade em “lutar contra este flagelo de trabalho forçado”, os números da informalidade são tão avassaladores no Peru que retiram peso às palavras.

 “Aqui temos um assunto de dignidade do ser humano, um assunto em que as liberdades do ser humano estão expostas e temos de fazer alguma coisa como sociedade e envolvermo-nos todos”, disse o ministro, que, ao incluir toda a gente, “como sociedade”, se encarregou, ao mesmo tempo, de tornar o esforço épico e generalizado e menorizar a culpa do Estado na sua manutenção.

Em 2016, Salomé Lamas, no seu documentário El Dorado XXI, filmou os mineiros de ouro de La Rinconada que a 5100 metros de altitude na região andina peruana trabalham seis dias em troco de nada, nas condições climatéricas mais adversas para no sétimo poderem ficar com o ouro que eventualmente encontrarem.

Oito horas

Quase 140 anos passados desde que o sindicalista inglês Tom Mann reinventou a jornada de trabalho que isto não há maneira de melhorar. Prometeram-nos (e continuam a prometer) uma revolução tecnológica que tornaria a vida do ser humano mais prazenteira, permitindo mais horas de lazer e menos preocupações e chegámos a este século XXI com a maioria ainda a praticar jornadas laborais de oito horas ou mais.

As 35 horas semanais em França ainda são mal vistas, mesmo agora que já se começam a dar os primeiros passos para a semana das 32 horas em alguns países, com apenas quatro dias de trabalho.

Quando as oito horas laborais, oito horas de descanso e oito horas para fazer o que nos dá na real veneta, defendidas por Mann, se tornam hoje incomportáveis para muita gente, a braços com a diminuição do valor do trabalho e o aumento do custo de vida, sentimos que nos trocaram as voltas. O capitalismo, que nos vendeu o tal dito “sonho” americano do mata-te a trabalhar que terás a recompensa (escondido sob a capa da busca do eterno progresso), vem paulatinamente diminuindo o valor do trabalho e multiplicando fortunas dos que mandam trabalhar.

Como refere Matthew Neale, no Independent, “o aumento do número de pessoas com segundos e terceiros empregos, ou mesmo a tirar sabáticas anuais para conseguir trabalhar mais, parece sugerir que alguma coisa, em determinado momento, correu horrivelmente mal”.

E a pandemia, que acentuou o teletrabalho, não veio ajudar em nada, ao diluir as fronteiras entre a casa e o trabalho e o trabalho é como o eucalipto, seca tudo à sua volta e potencia a (auto)combustão – porque, mesmo com tanto trabalho, nunca nos livramos da sensação que ficou algo por fazer, que deveríamos ter feito mais, que aqui ou ali cedemos à procrastinação. E daí vem a culpa e o eterno mal-estar físico e mental.

Amanhã, tenho 15 minutos para ti

As aplicações para gerir a nossa vida tornaram-se tão omnipresentes que o sector deverá valer mais de 100 mil milhões de euros em 2027, escreve o Brussels Times. Com o tempo a acelerar à frente dos nossos olhos e a quantidade de ofertas que se nos apresentam, o ser humano do século XXI, incapaz de estar sem fazer nada, recorre à tecnologia para maximizar o seu horário e fugir à angústia de não conseguir fazer tudo. E mesmo assim queda curto.

 “A gestão do tempo não é a solução, na verdade é parte do problema”, escreve o psicólogo empresarial Tony Crabbe no seu livro Busy: How to Thrive in a World of Too Much, citado pelo diário belga em língua inglesa.

ocupação dos minutos, não visa ajudar-nos a respirar, beber descansado um café, caminhar descalço na relva, fechar os olhos e não pensar em nada. Na verdade, poupamos tempo numas tarefas para arranjar tempo para encaixar outras.

E o mais incrível é que, se calhar por influência dessas aplicações eficientes, tudo se horizontaliza e na mesma dimensionalidade da nossa agenda de tarefas diárias uma reunião de trabalho, a compra de nabos na mercearia, a aula de ioga, o encontro com amigos, o filme na Netflix e o beijo aos pais se equiparam no mesmo nível burocrático-existencial. Como num discurso mental próprio de auto-ajuda, são tudo fragmentos do nosso enriquecimento pessoal.

A auto-ajuda, o empreendedorismo, “o ser capaz de fazer tudo desde que uma pessoa se esforce”, quando transformados em filosofia de vida tornam-se obsessões que podem fazer mais mal do que bem. E não deixam de ser ferramentas na mão do mercado, um deus ex machina do ateísmo capitalista: nunca descanses, amanhã tenho 15 minutos para ti.


António Rodrigues - A minha vida por um ecrã — apagado

O mundo que se conta a partir do que se diz.

* António Rodrigues

29 de Maio de 2026

 “Algumas das maiores empresas da história da humanidade não lutam para ganhar a sua atenção ou para merecer a sua atenção. Estão a tentar roubá-la”, Jonathan Haidt, psicólogo social norte-americano

A Suécia assumiu a vanguarda no que diz respeito à digitalização da sua educação e quase tão depressa como deu ecrãs às crianças para substituir o papel e a caneta, diminuir a interacção pessoal e fornecer as bases para navegação à bolina dos seus filhos nos mares da tecnologia está a arrepiar caminho e a regressar ao básico da educação: livros, cadernos, esferográficas e professores de carne e osso, com ecrãs desligados e fora da sala de aula.

A Suécia tinha criado a educação do futuro até se ver a braços com um presente envenenado. Depois de quedas abruptas nas provas internacionais de compreensão leitora, o Ministério da Educação voltou aos manuais em papel, proibiu os ecrãs para menores de seis anos e restringiu o uso de telemóveis durante o período de aulas.

Os suecos não são os únicos a sentir na pele a necessidade de regressar em força ao analógico. Estavam mais avançados que muitos outros, por isso, tiveram os resultados antes, mas noutras latitudes começa-se a chegar às mesmas conclusões.

Randi Weingarten, presidente de uma das mais importantes associações de professores dos Estados Unidos, a Federação Americana de Professores (AFT, na sigla em inglês), dizia nesta semana, num discurso intitulado Devices down, eyes up, hands-on: 10 points to boost student learning and success in the AI era, que “as crianças são resistentes, mas muitas vezes, não estão bem”, e uma das principais causas para isso é que “estão afundadas em tecnologia”.

“O ritmo desta revolução tecnológica tem sido vertiginosamente rápido e as crianças estão a ficar queimadas”, disse Weingarten, antes de recomendar dez medidas para defender os estudantes da disrupção causada pela inteligência artificial (IA). “A ubiquidade da IA torna ainda mais importante o pensamento crítico e o conhecimento aplicado. Os estudantes têm de ir além da memorização de factos e aprender a verificá-los, desafiá-los e sintetizá-los em novas ideias.”

Higienização

O tema está aberto a papers de investigadores até 25 de Setembro de 2026 e pretende ajudar à discussão crítica sobre a forma como as imagens de guerra são geradas, propagadas e recebidas nos ambientes de media, e como a sua “circulação, enquadramento e modulação” acabam por influir na perspectiva da opinião pública sobre os conflitos.

Criado pelo Frontiers, um dos maiores sites abertos de estudos científicos de revisão por pares, o tópico abre um leque enorme de possibilidades de abordagem na cobertura de guerras, que podem ir da simples adulteração de imagens até aos critérios editoriais usados na selecção do que transmitir e não transmitir, dos ângulos para olhar e das perspectivas de análise.

 “Os ritmos mediáticos e a densidade narrativa não afectam só a percepção; podem também ter um papel no processo de tomada de decisão política, da construção da legitimidade e a governança da informação em tempos de conflito”, lê-se no site.

 “À força de fazer desfilar as notificações, os alertas e as imagens de guerra nos nossos ecrãs, muitos dão por si a não sentir absolutamente nada”, escreve Nina Parage no site Psychologes. “Catástrofes climáticas, conflitos armados, acontecimentos violentos: a actualidade ansiógena parece produzir um ruído de fundo cruelmente banal.”

 O uso cada vez maior de meios digitais para travar as guerras, e a mediação editorial cada vez mais acentuada para as mostrar, correm o risco de higienizar a morte e a destruição transformando aquilo que deveria ser o último recurso da política, como uma forma banal de impor as perspectivas de uns às perspectivas de outros.

 E, como lembravam ainda recentemente, Lee-Ann d’Alexandry, Fabien Girandola e Lionel Souchet num artigo no site The Conversation: “A psicologia social mostra que aquilo que julgamos ‘aceitável’ não é nem natural nem estável: constrói-se colectivamente, ao longo das interacções, dos discursos e das repetições.”

Atenção

A Meta, a empresa de Mark Zuckerberg que detém o Facebook, o Instagram, o WhatsApp e o Threads, está avaliada em mais de um bilião de dólares (trillion em inglês), mesmo não cobrando aos seus seguidores para interagirem na rede social. Tudo porque “inventou um modelo de negócio que extrai atenção de quase metade de todos os seres humanos e a vende a anunciantes”, diz Jonathan Haidt, autor de A Geração Ansiosa.

“Outros sectores seguiram o mesmo caminho: videojogos, encontros, apostas — até o investimento foi ludificado e optimizado para nos manter a olhar e a deslizar o ecrã. Todos já tivemos a experiência de pegar no telemóvel, talvez por uma boa razão, e, uma hora depois, darmos por nós a fazer scroll de forma automática. Não é um acidente. É isso que os nossos telemóveis e aplicações foram concebidos para fazer.”

Na sua intervenção, na formatura da Universidade de Nova Iorque no dia 14, publicada na revista The Atlantic, Haidt lembra o famoso discurso do escritor David Foster Wallace na formatura do Kenyon College em 2005: “O verdadeiro significado da educação para pensar, que supostamente devemos receber num lugar como este, não é, realmente, sobre a capacidade de pensar, mas sim sobre a escolha daquilo em que pensar.” Mais de 20 anos depois, há muito sem Foster Wallace entre nós, “muitos homens poderosos e grandes empresas estão a tentar tirar-vos essa opção”, afirmou Haidt.

 Dar valor à nossa atenção é importante porque se para a Meta vale um bilião de dólares, para nós é incalculável. Aceitar a informação de mão beijada, os pensamentos já digeridos, os caminhos que os ecrãs luminosos nos apontam como única via, condenam-nos à dependência, a escolher lados, a atirar argumentos automáticos como bolas de neve (ou granadas de mão), a perder tempo com o acessório quando outros ditam o essencial.

Como disse Foster Wallace naquele dia, no Kenyon College, “as realidades mais óbvias e importantes são, muitas vezes, as que mais custa ver e discutir”.

Empatia

Uma das piores expressões que o capitalismo cunhou é essa ideia de que nada é pessoal, são só negócios. Argumento terrível que desresponsabiliza as empresas do seu papel social, arranca-lhes o humanismo e prescinde da ética no seu comportamento, pois tudo se resume à garantia do lucro para os seus accionistas.

Nestes tempos política e economicamente conturbados, marcados pela instabilidade geopolítica e pela aceleração tecnológica, os líderes empresariais precisam de tomar decisões com janelas cada vez mais curtas e instáveis. “Nestas condições, a carga cognitiva associada à tomada de decisões aumenta e a tolerância à ambiguidade diminui”, escreve Merete Wedell-Wedellsborg, psicóloga clínica especialista em psicologia organizacional. “Do ponto de vista da liderança, aquilo que, em contextos estáveis, podia ser visto como ponderado e inclusivo pode começar a parecer lento, indeciso ou avesso ao conflito.”

A empatia já não abunda em muitos ambientes empresariais extremamente competitivos, em que se tomam decisões com a faca nos dentes e a disposição de matar ou morrer. Nestes tempos difíceis e de alto grau de imprevisibilidade, com muitas relações profissionais estabelecidas e mantidas através de meios tecnológicos, os terrenos para a empatia medrar tornam-se ainda mais estéreis.

No entanto, como refere Wedellsborg no site do International Institute for Management Development, “correr para declarar o fim da empatia arrisca criar uma falsa dicotomia”, porque o que está em causa não é se “a empatia interessa, mas como é integrada”. Abandonar a empatia na gestão poderá “erodir a confiança, reduzir o esforço discricionário e estreitar a perspectiva — tudo factores que podem tornar-se estrategicamente perigosos”.

Para a autora de Battle Mind: How to Navigate in Chaos and Perform Under Pressure, a inteligência emocional ainda é necessária. Neste mundo de força bruta e fria tecnologia, é o garante da manutenção do lado humano do gestor. Até porque, se se limitar a ser apenas máquina, máquinas haverá para o substituir.

segunda-feira, 17 de março de 2025

António Rodrigues - “Mulheres” é uma das palavras censuradas pela Administração Trump

 

EUA 

Médicos de Harvard apresentam queixa na justiça pelo desaparecimento de ensaios de um site médico federal. Departamento de Defesa manda militares apagar milhares de fotos e textos.

António Rodrigues 

16 de Março de 2025, 17:39

No final deste artigo, veja a lista de palavras coligida pelo New York Times

Investigadores da Faculdade de Medicina da Universidade de Harvard apresentaram queixa na justiça na semana passada por causa da decisão da Administração Trump de fazer desaparecer uma série de artigos destinados a investigação médica do site governamental Patient Safety Network. Dizem os médicos que ensaios científicos com palavras como “trans” ou com a sigla LGBTQ foram pura e simplesmente apagados.

A ferramenta online destina-se aos profissionais de saúde e visa partilhar informações sobre erros médicos, diagnósticos erróneos e resultados de tratamentos. No entanto, por mais que a saúde precise de informação para trabalhar, o uso de determinadas palavras, mesmo em documentação científica, choca com as directrizes da Administração Trump no domínio da linguagem.

Há dias o New York Times trazia uma lista de quase 200 palavras proibidas que havia compilado de directivas e emails internos partilhados por membros do Governo. E a palavra “trans” e a sigla LGBTQ figuram nessa lista, junto com "racismo" e "anti-racismo", "diversidade", "igualdade", "discriminação" ou "discriminatório", expressões como "biologicamente feminino" ou "biologicamente masculino", "discurso de ódio", "pessoa que amamenta", "apropriação cultural", etc., etc.  

Em declarações à plataforma GBH, Cneleste Royce, professora assistente de obstetrícia, ginecologia e biologia reprodutiva na Faculdade de Medicina de Harvard, mostrava-se chocada pelo desaparecimento súbito de um artigo, escrito há cinco anos, de que tinha sido co-autora. “Não me lembro de nada no artigo que possa ser controverso, para além do facto de se centrar na saúde das mulheres. E, sabe, acho que 'mulheres' é uma das palavras que está a ser censurada nessa lista”, disse.

E Celeste Royce tem toda a razão, a palavra “mulheres” faz parte da lista das palavras censuradas, tal como "fêmea", "fêmeas" e "feminismo". Para o acaso de alguém perguntar, a palavra “homens” ou “macho”, “machos” ou “masculinidade tóxica” não constam da lista ou expressões a silenciar.

"Golfo do México"

Na lista também consta a proibição de utilizar Golfo do México para designar o Golfo… do México. No seu primeiro dia de regresso ao cargo de Presidente, Trump emitiu uma ordem executiva a nomeá-lo Golfo da América, como se a toponímia pudesse variar quando uma pessoa quisesse. Mas, pelos vistos, nestes estranhos tempos em que nos toca viver, isso acontece e a uma velocidade estonteante.

Ainda não pssados dois meses desde que Trump tomou posse e o Departamento de Educação do Luisiana, estado que até agora era banhado pelo Golfo do México, já passou a incluir, desde a passada quarta-feira, no programa para as escolas primárias e secundárias que à costa do estado chegam agora as águas do Golfo da América e não do México.

“O Golfo é um motor de sustentação para o Luisiana – ajuda a alimentar o nosso sector energético e a indústria alimentar e de marisco e sustenta gerações de famílias”, afirmou Cade Brumley, superintendente de Educação do estado, que recomendou a alteração curricular, em declarações disponíveis no site do Departamento de Educação estadual. “A actualização dos nossos padrões académicos garante o alinhamento com a liderança do Presidente Trump e do governador Landry, ao mesmo tempo que reforça a importância do golfo para o futuro do nosso estado.”

É prática comum dos novos governos, nos Estados Unidos e noutros países, estabelecerem directivas sobre os termos da sua comunicação oficial, mas a longa lista de palavras censuradas por esta nova Administração mostra que a guerra contra aquilo a que chamam mentalidade woke assentou arraiais no executivo.

Como refere o New York Times, as palavras e frases listadas “representam uma mudança marcada – e assinalável – no corpus da linguagem utilizada tanto nos corredores do poder do Governo federal como entre os seus funcionários. São um reflexo inequívoco das prioridades desta administração.”

Desde “preconceito” ou “preconceituoso”, passando por “ciências climáticas”, “desfavorecido” ou “património cultural”, até acabar em “nativo americano” ou “multicultural”, o caderno censório da Administração Trump é alargado no léxico, mas transparente na ideologia.

"Enola Gay"

Timothy Noah, num artigo publicado na semana passada na New Republic, confirmava que a lista do New York Times não era exaustiva, tal como os autores do artigo salientavam, lembrando que o secretário da Defesa, Pete Hegseth, havia acrescentado Enola Gay à lista de expressões censuráveis, apagando assim o nome do avião que lançou a primeira bomba atómica (Hiroxima) dos sites oficiais. E com ele, provavelmente, o grande êxito homónimo dos Orchestral Manoeuvers in the Dark.

Hegseth, homem com longo passado de alcoolismo, acusações de assédio sexual e suspeitas de abusos de mulheres, pode até concordar com o bombardeamento de Hiroxima, o que não considera adequado é usar a palavra “gay” no nome do avião. “O lançamento da primeira bomba atómica foi durante muito tempo objecto de controvérsia, mas nunca por ter sido woke”, diz Noah.

De acordo com Associated Press, Hegseth enviou uma directiva às chefias militares a pedir que fossem apagadas pelo menos 26 mil imagens ou textos que constam dos sites oficiais, mas o número pode ascender a 100 mil.

“Referências a um galardoado com a medalha de honra da Segunda Guerra Mundial, ao avião Enola Gay que lançou uma bomba atómica sobre o Japão e às primeiras mulheres a passar o treino de infantaria dos fuzileiros navais estão entre as dezenas de milhares de fotografias e publicações online marcadas para serem eliminadas, à medida que o Departamento da Defesa trabalha para eliminar conteúdos sobre diversidade, igualdade e inclusão”, escreve a agência.

Até palavras aparentemente neutrais como "institucional" fazem parte da lista termos indesejados por esta nova Administração dos EUA. “Todos sabemos que Trump está determinado a destruir todas as instituições governamentais a que consegue deitar a mão, mas proibir a própria palavra eleva as coisas a um nível superior de fanatismo”, conclui Timothy Noah.



https://www.publico.pt/2025/03/16/mundo/noticia/

sábado, 9 de setembro de 2023

António Rodrigues - Museu da resistência e liberdade

4 ESQUINAS - 

* António Rodrigues 

8 de Setembro de 2023

O mundo que se conta a partir do que se diz.

But it'll never come close/ To the rage built up inside of me/ Fist in the air, in the land of hypocrisy!”, em Wake Up, dos Rage Against the Machine

A raiva entronizada

Tom Morello foi convidado para as comemorações oficiais dos 50 anos do golpe de Pinochet no Chile, que se assinalam na segunda-feira. O guitarrista dos Rage Against the Machine (RATM) e dos Audioslave é um activista (criou a Axis of Justice com Serj Tankian, dos System of a Down) que sempre assumiu a música como uma questão política. “Todos os concertos que dei foram uma celebração da resistência”, dizia em Abril, numa entrevista à Rádio Rock.

Num concerto no Chile em Junho afirmou-se como um “Víctor Jara com uma guitarra eléctrica” a tentar falar com as pessoas para lhes dizer: “O mundo não vai mudar por si mesmo, depende de ti.” O mesmo Morello disse esta semana, numa entrevista a Paul Brannigan para a Louder, que um disco dos Sex Pistols lhe mudou a vida: “Comecei a tocar guitarra numa banda 48 horas depois de ouvir Never Mind the Bollocks.

Armado com “as ideias da solidariedade, igualdade, luta pela justiça e o antifascismo”, Morello e os RATM construíram uma carreira de desafio ao capitalismo e ao neoliberalismo, contra o racismo enraizado e a violência policial nos mesmos Estados Unidos que em Novembro os vão entronizar no Rock & Roll Hall of Fame, o museu de Cleveland que documenta a história do rock’n’roll.

Na tournée de reencontro da banda no ano passado, depois do primeiro concerto no Wisconsin, alguns dos fãs criticaram as mensagens políticas da banda, nomeadamente a posição assumida em palco contra a decisão do Supremo Tribunal de reverter a decisão Roe v. Wade e abrir caminho à proibição do aborto nos Estados Unidos.

Que os fãs de uma banda, que sempre assumiu o activismo político como essencial à sua criação musical (começando pelo próprio nome: raiva contra a máquina), só descubram 30 anos depois que a banda tem ideias políticas radicais deixa-nos a pensar: ou os RATM foram muito bons na passagem subliminar das suas mensagens ou, então, e estou mais tentado para esta hipótese, desde que toques muito alto e com energia, até o Livro Vermelho do Mao pode ser cantado integralmente num palco em Wall Street.

O golpe como jogo de vídeo

Cinquenta anos depois, o Chile do presente continua extremamente marcado pelo passado, pelos acontecimentos de 11 de Setembro de 1973, cujos 50 anos se assinalam na segunda-feira. Um país que passou a segunda década deste século em movimentos de protesto contra a sociedade cada vez mais desigual deixada pelos anos de chumbo político-militar, eivados do mais puro neoliberalismo versão Escola de Chicago (o Chile foi o seu laboratório na terra, com o beneplácito do ditador e milhões de cobaias à disposição), e que hoje se mantém dividido.

Apesar de ter um Presidente, Gabriel Boric, que saiu directamente dos movimentos estudantis que ocuparam as ruas, o seu principal adversário é o filho de um antigo ministro das Finanças da ditadura e pinochetista convicto e assumido, José Antonio Kast.

E é nesse contexto que surge Dirty Wars: 11 de Septiembre, um jogo de vídeo agora lançado para chegar a tempo da data redonda dos 50 anos. Criado, desenhado e desenvolvido pelo sociólogo Jorge Olivares, é a história de um casal (Maximiliano e Abigail) que depois do golpe opta por entrar na clandestinidade para lutar contra o regime militar.

"Os personagens principais são basicamente inspirados na história dos meus pais", disse Olivares à Reuters.

Lançado na plataforma online Steam, Dirty Wars (guerra suja é o termo usado para definir as acções ilegais levadas a cabo por um regime para combater um determinado grupo social ou político) é um jogo stealth que demorou seis anos a ser desenvolvido e que pretende “mostrar o contexto daquele tempo”: um tempo em que os espectros invadiram a luz do dia para enterrar a sociedade mais justa que Salvador Allende não teve tempo de construir.

Bisnagas

O seu nome esteve envolvido numa polémica que o levou a deixar o jornal Le Monde em 2021, onde durante quase duas décadas publicou os seus pinguins da série Os Inegáveis. Um cartoon que falava das novas famílias feitas de pais que já tiveram outras famílias e de como as definições da lei ficam aquém desses novos vínculos desatou uma tempestade por apologia da pedofilia.

Não foram as críticas que o empurraram para a porta de saída, mas a atitude da direcção do jornal, que resolveu pedir desculpa por ter publicado um desenho que tinha aceitado publicar, e sem o ouvir.

Para Xavier Gorce, numa entrevista publicada esta semana pela webzine franco-belga ActuaBD, tratou-se de “uma reacção de medo do jornal” perante a “tempestade digital” criada pelo desenho. “Acho que foi uma atitude cobarde recuar perante a pressão das redes sociais”, uma decisão “cobarde e tola” que deixou o jornal e a imprensa mais frágeis: “Quando se dá um passo atrás neste caso, só estamos a apontar o caminho para mais recuos.”

O criador compreende que a imprensa vive sob pressão, que as polémicas nas redes sociais podem chamuscar ou mesmo deitar abaixo um projecto, mas que aderir sem questionar a todo esse fenómeno de cancelamento pode trazer consequências negativas. Para a imprensa em particular, como mediador na transmissão de informação, e para a evolução da sociedade em geral, usar a indignação na Internet como barómetro pode empurrar-nos para vielas esconsas.

Os cartoons sempre foram “contrapoder, político, religioso e económico”, tentam “chocar, sacudir um pouco”, “procuram despertar as pessoas que estão um tanto ou quanto apáticas”, desafiam a ordem com a simples arma da caneta. Querer domesticar os cartoonistas é trocar-lhes a caneta por uma bisnaga, e já se sabe como as bisnagas ajudaram tanto à evolução da espécie humana.

Pedro Sánchez e um poema sufista

Publicado em 2019, é um livro de memórias políticas que fala de um socialista que chegou à liderança do seu partido, foi empurrado para fora pelos barões e acabou a regressar pelas mãos da militância até se vingar com a sua chegada a primeiro-ministro. É, pois, um Manual de Resistência, assinado em nome próprio por Pedro Sánchez, mas cuja escrita foi entregue a Irene Lozano, com quem o ainda Presidente do Governo espanhol teve longas conversas e a quem reconhece no prefácio a autoria.

A razão pela qual se volta a falar do livro esta semana nada tem a ver com a controvérsia causada pela escritora-fantasma, nem pelas qualidades literárias da obra ou o ajuste de contas nela contido. A divulgação pelo Congresso espanhol da declaração de bens, rendimentos e interesses económicos dos deputados esta semana deu a saber que o primeiro-ministro ganhou 42 mil euros com os direitos de autor, mas não ficou com nenhum. Depois de pagar impostos, entregou a verba à Obra Social Nur. Tal como aliás tinha feito em 2022, embora até aí o livro só lhe só tivesse rendido 8900 euros.

A associação ligada ao Centro Sufí Nematollah entrega comida a pessoas necessitadas desde 2009 em Córdova e Madrid. E apesar de estar ligada ao sufismo, a corrente mística e contemplativa do Islão, a Nur diz que está ao “serviço de todas as pessoas, qualquer que seja o seu credo, cultura, etnia ou nacionalidade”.

Além de comida, a associação também envia medicamentos a centros médicos em África - em Porto Novo (Benim) e Abidjan (Costa do Marfim) - e presta apoio à manutenção e desenvolvimento dos projectos da Casa Esperanza, em San Miguel de Allende (México).

Ibn Marzuq, que chegou de Marrocos no século XIV para ser pregador da mesquita do Alhambra, em Granada, foi um dos grandes influenciadores de Ibn Zamrak, o maior poeta do Alhambra, a quem dava lições de sufismo. É de Zamrak o longo poema na Sala das Duas Irmãs, de que extraímos estes versos: “Por autorização do juiz da beleza/ paga, a duplicar, o imposto em duas moedas/ porque se à alba, o Zéfiro que nas mãos/ deixa dracmas de luz, bastaria/ logo atira no espesso, entre os troncos/ dobras de ouro de sol, que o engalanam.”

tp.ocilbup@seugirdor.oinotna

https://www.publico.pt/2023/09/08/mundo/cronica/museu-resistencia-liberdade-2062582


sábado, 12 de agosto de 2023

António Rodrigues - É a dignidade, estúpido!

António Rodrigues

4 ESQUINAS -  

11 de Agosto de 2023 (Público)

O mundo que se conta a partir do que se diz.

“Quando pedimos trabalho, pedimos dignidade, porque o trabalho faz a dignidade da pessoa”, bispo Oscar Ojea, presidente da Conferência Episcopal Argentina

“Guerra aos pobres”

O Governo italiano, liderado pela pós-fascista Giorgia Meloni, avisou, a 31 de Julho, 169 mil agregados familiares que vão deixar de receber o equivalente italiano do rendimento social de inserção. Com uma simples mensagem do Instituto Nacional de Previdência Social italiano, enviada por telemóvel no fim de Julho, ficaram a saber que já não poder contar com os 780 euros mensais do “rendimento de cidadania”, atribuídos desde 2019 e destinados sobretudo a pessoas no desemprego.

O instituto garante na mensagem que o corte não é generalizado, distinguindo aquilo que são “as pessoas empregáveis e aquelas que o não são”, incluindo nesta última categoria as famílias com pessoas portadoras de deficiência, com menores a seu cargo ou de mais de 60 anos. Para estas haverá um subsídio de 500 euros mensais. Os outros passam a receber 350 euros e apenas durante um ano.

Num país onde não há salário mínimo, a mensagem do executivo é simples: o pobre que não quiser morrer de fome terá de aceitar qualquer tipo de emprego, por mais mal remunerado que este seja.

A oposição apelidou a medida do Governo italiano como “uma guerra aos pobres”.

“Esta decisão não irá fazer mais do que aumentar a pobreza e o desemprego em plena inflação”, dizia esta semana o economista Henri Sterdyniak ao jornal francês l’Humanité. É o “triunfo da ideologia neoliberal, com a ideia subjacente de que, se as pessoas são pobres, a culpa é delas.”

A medida do Governo, prometida na campanha eleitoral de Outubro e anunciada com simbolismo no Dia do Trabalhador, agregada com a promoção de contratos de curta duração, transforma-se num maná para as empresas que podem assim relativizar o valor do trabalho nos seus custos fixos, ao mesmo tempo que a precariedade dos trabalhadores lhes permite esmagar ainda mais o pagamento por esse trabalho.

O poderoso cobarde de Peshawar

Em Peshawar, no Leste do Paquistão, um líder político local galvanizava a multidão com um discurso ultraconservador, agressivo, desafiador. Estávamos a poucos dias da invasão do Afeganistão pelas forças aliadas com os Estados Unidos à cabeça, no Outono de 2001, em resposta ao ataque terrorista contra o World Trade Center e o Pentágono.

Quem o via de longe no seu estrado, entusiasmado com o seu radicalismo de apoio aos taliban e de ataque ao imperialismo corrupto, teria dele uma ideia de líder corajoso, disposto a encabeçar uma multidão contra o demónio ocidental com a faca entre os dentes.

Finda a manifestação, a polícia interveio. As pessoas dispersaram, os oradores dispersaram, a imprensa dispersou, até que um dos jornalistas se viu de repente perante um agente da autoridade brandindo com raiva o pingalim e pensou que iria sentir na pele os lanhos abertos por essa herança do Império Britânico. Só quando sentiu nas costas uma mão se apercebeu de que, atrás de si, chorando, dobrado de medo, balbuciando desculpas, estava o mesmo orador que, minutos, no contrapicado do palco, parecia um gigante vociferador.

Cada vez que se ouve a extrema-direita expelindo perdigotos contra os migrantes como os grandes causadores de todos os males do mundo, é preciso recordar a imagem do poderoso cobarde de Peshawar. Esta semana, veio-me à memória o episódio quando o vice-presidente do Partido Conservador britânico, Lee Anderson, usou linguagem colorida para dizer aos requerentes de asilo que se não gostam de ser metidos na “prisão flutuante” que o Governo de Rishi Sunak lhes arranjou, “they should fuck off back to France”.

Como escreve Andrew Stroehlein, director dos media europeus da Human Rights Watch, estamos perante “a mais preguiçosa forma de política”, praticada pelos “políticos sem escrúpulos” que estão sempre prontos a aproveitar-se da fragilidade alheia para ganho pessoal. Até porque “atacar os vulneráveis é simples; resolver problemas é difícil”.

Mãe migrante

A década de 1930 transformou a América. Foram anos duros. De pobreza extrema, fome, exploração. Foram os anos de As Vinhas da Ira, de John Steinbeck (prémio Pulitzer em 1940), das famílias de agricultores que perderam as terras, por causa da seca e das tempestades de pó, e partiram em busca de trabalho à jorna nas terras dos outros.

Foi também a década do New Deal, de Roosevelt, ambicioso programa de projectos públicos e reformas legislativas destinadas a aquecer a economia americana depois do desastre da Grande Depressão. A agência encarregada de promover o programa, a Farm Security Administration, contratou na altura 15 fotógrafos de renome para documentar o êxodo dos agricultores em busca de trabalho nas plantações.

Entre eles estava Dorothea Lange, que já tinha fotografado as condições dos desempregados e sem-tecto da Califórnia. Do trabalho comissionado a Lange saiu uma das imagens mais icónicas dessa época e da história da fotografia, o retrato Mãe Migrante, de 1936. Uma das imagens da série que a fotógrafa fez com Florence Owens Thompson, num acampamento em Nipomo, Califórnia.

“Vi e aproximei-me de uma mãe faminta e desesperada, como se tivesse sido atraída por um íman. Não me lembro como lhe expliquei a minha presença ou a minha câmara, mas lembro-me de que não me fez qualquer pergunta”, contou, anos mais tarde, a fotógrafa, citada no site do MoMA.

Mãe Migrante e as cinco outras imagens que fez de Florence e dos filhos são parte importante da exposição que lhe é dedicada em Turim, Dorothea Lange. Racconti di Vita e Lavoro, em exibição no Camera – Centro Italiano para a Fotografia, até 8 de Outubro.

Um jornalista localizou a mulher 40 anos depois, a viver num parque de atrelados em Modesto, Califórnia. Sentia-se envergonhada por essa imagem que a transformara em ícone de uma época de desesperança. Os filhos dela tinham outra perspectiva, viam na imagem a dignidade de uma mulher em tempos de adversidade e angústia.

A angústia e o aviso

São Caetano é o padroeiro do pão e do trabalho. A cada 7 de Agosto, pobres e desempregados passam pelas igrejas para pedir ao santo que lhes traga emprego e comida. Em situações de profunda crise económica, como a que a Argentina hoje atravessa (a inflação chegou, em Junho, a 115,6%), as filas de crentes multiplicam-se.

O trabalho “não é um objecto de compra e venda, não é um objecto de consumo”, afirmava esta semana o presidente da Conferência Episcopal Argentina, Oscar Ojea, ao diário Página/12. “Quem não trabalha sente que sobra, que não vale nada; sente-se ferido na sua dignidade.”

Entre quem não tem emprego, quem é explorado no trabalho ou não consegue chegar ao fim do mês, a angústia generaliza-se. Com a existência cada vez mais fragilizada, o elo mais fraco no mercado laboral torna-se presa fácil na luz maximizada dos faróis empresariais: coelhos atordoados a que se pode oferecer até a ilusão de uma cenoura em troca de trabalho.

“Quando falamos de paz, falamos de justiça”, explicava o bispo. “Quando falamos do pão, falamos de um direito universal de todos os seres humanos.” E deixava o aviso: “Quando lutamos verdadeiramente para que todos possam ter trabalho e para que sejam respeitados todos os trabalhadores, mesmo aqueles que não podem viver na plenitude dos seus direitos”, estamos a trabalhar em prol da paz.

“Na verdade, quando pedimos ao santo do pão e do trabalho pão e trabalho, estamos a pedir paz”, porque a paz não é uma coisa abstracta, uma palavra com significado teórico sem realização física. “A paz constrói-se no concreto, no amor do concreto”, sublinhava o bispo. Não esqueçamos que 85% das pessoas que passam fome hoje no mundo vivem em países afectados por guerras e conflitos.

https://www.publico.pt/2023/08/11/mundo/cronica/dignidade-estupido-2059877