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segunda-feira, 26 de maio de 2025

Agostinho Neto - "Quitandeira" e "Kinaxixi"


Hipólito de Andrade - Quitandeira



* Agostinho Neto

Quitandeira 

A quitanda
Muito sol
a quitandeira à sombra
da mulembá

- Laranja, minha senhora
laranja boa!

A luz brinca na cidade
de claros
o seu quente jogo
e a vida brinca
em corações aflitos
o jogo da cabra-cega

A quitandeira
que vende fruta
vende-se

- Minha senhora
Laranja, laranjinha boa!

Compra laranjas doces
Compra-me também o amargo
desta tortura:
a vida a restejar.

Compra-me a infância de espírito
este botão de rosa
que não abriu;
princípio impelido ainda para um início.

Ah!
Laranja, minha senhora!
Esgotaram-se os sorrisos
Com que chorava
Eu já não choro.

E aí vão as minhas esperanças
como foi o sangue dos meus filhos
amassado no pó das estradas,
enterrado nas roças
e o meu suor
embebido nos fios de algodão
que me cobrem;
como o esforço foi oferecido
à segurança das máquinas,
à beleza das ruas asfaltadas,
de prédios de vários andares
e à comodidade de senhores ricos.

à alegria dispersa por cidades

e eu
me fui
com os próprios problemas da existência.

Aí vão as laranjas
como eu me ofereci ao álcool
para me anestesiar
e me entreguei às religiões
para me insensibilizar
e me atordoei para viver.

Tudo tenho dado
até mesmo a minha dor
e a poesia dos meus seios nus
entreguei-a aos poetas.

Agora,
vendo-me eu própria.
- Compra laranjas,
minha senhora!

Leva-me para as quitandas da Vida.
O meu preço é único:
- sangue.

- Laranja, minha senhora
laranja boa!

Talvez vendendo-me
eu me possua.

- Compra laranjas! 

Kinaxixi  

Gostava de estar sentado
num banco do kinaxixi
às seis horas duma tarde muito quente
e ficar...

Alguém viria
talvez sentar-se
sentar-se ao meu lado

E veria as faces negras da gente
a subir a calçada
vagarosamente
exprimindo aus6encia no kimbundu mestiço
das conversas

Veria os passos fatigados
dos servos de pais também servos
buscando aqui amor ali glória
além uma embriagues em cada álcool

Nem felicidade nem ódio

Depois do sol posto
acenderiam as luzes
e eu
iria sem rumo
a pensar que a nossa vida é simples afinal
demasiado simples
para quem está cansado e precisa de marchar.

domingo, 10 de maio de 2020

Agostinho Neto - Meia noite na quitanda

* Agostinho Neto


- Cem reis de jindungo
Sá Domingas
O sol
entrega Sá Domingas à lua
nas quitandas dos musseques
E a quitandeira esperando
- Cinquenta reis de tomate
três tostões de castanha de cajú
Um doce de coco
Sá Domingas
Ela vende na quitanda à meia noite
que o filho
está na estrada
precisa de cem mil reis
para pagar o imposto
O sol deixa Sá Domingas
na quitanda
e ela deixa o luar
Um tostão
dois tostôes
três tostões
que o coração de Sá Domingas
sofre mais do que o corpo na quitanda

gravura: Quitandeira, por Neves e Sousa


segunda-feira, 11 de maio de 2015

Agostinho Neto - MEIA-NOITE NA QUITANDA



* Agostinho Neto

- Cem réis de jindungo
Sá Domingas.
O sol
entrega Sá Domingas à lua
nas quitandas dos musseques

E a quitandeira esperando

-Cinquenta réis de tomate
três tostões de castanha-de-caju
um doce de coco
Sá Domingas

Ela vende na quitanda à meia-noite
que o filho
está na estrada
precisa de cem réis para pagar o imposto

O sol deixa Sá Domingas
na quitanda
e ela deixa o luar

Um tostão
dois tostões
três tostões
que o coração de Sá Domingas
sofre mais ainda do que o corpo na quitanda.

partilhado por Clara Esteves

sexta-feira, 15 de janeiro de 2010

Mayombe - Pepetela



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São poucos os escritores da África Meridional conhecidos do grande público. Pepetela (cujo nome verdadeiro é Arthur Maurício Pestana dos Santos) é angolano. Angola, país de colonização portuguesa, conseguiu a independência apenas em 1975. Depois da guerra de libertação, mergulhou num período de guerra civil, em que lutavam de um lado os afiliados ao Movimento pela Libertação de Angola (MPLA), liderado por Agostinho Neto e apoiado pela União Soviética, e de outro os seguidores de Jonas Savimbi, líder da União Nacional pela Libertação Total de Angola (Unita), que contava com o apoio dos Estados Unidos. Essa guerra acabou somente em 2005, com a morte de Savimbi, e o país ainda se encontra arrasado, coberto de minas e carente de infra-estrutura.
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Em Mayombe, um de seus inúmeros romances, Pepetela conta a história de um grupo guerrilheiro acampado no meio da mata. É gente sem recursos de toda a espécie. Faltam comida, armas, estratégia. A maior parte dos soldados é analfabeta. Muitos não se entendem, pois pertencem a comunidades diferentes que falam línguas diversas. Até hoje, em Angola, há 36 idiomas, além do português.
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Há problemas de hierarquia. Algumas etnias se consideram superiores às outras, e não aceitam receber ordens de comandantes considerados inferiores do ponto de vista cultural ou genético.
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A aventura dessa gente, o medo, as superstições, a corrupção, o ambiente político, geográfico e psicológico, compõem uma história de aventura emocionante. Pepetela sabe do que fala. Lutou na guerrilha, como suas personagens. Dá ao leitor o privilégio de conhecer um universo muito particular, pouco divulgado. O da África negra, pobre, abandonada. E de conhecer as raízes de problemas que persistem até os dias atuais.
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http://www.netsaber.com.br/resumos/ver_resumo_c_2325.html
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Mayombe (1970)


Local
Cabinda


Autor
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Sinopse
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"O Mayombe começa com um comunicado de guerra. Eu escrevi o comunicado e...o comunicado pareceu-me muito frio, coisa para jornalista, e eu continuei o comunicado de guerra para mim, assim nasceu o livro." - Pepetela.
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Escrito em 1970/71, em Cabinda e publicado em 1980. Se outras obras têm o ir buscar à história a explicação para problemas diversos, Mayombe conta história. é um livro de construção da história.
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Pepetela é, com esta obra, um dos primeiros sinais de critica interna no MPLA, ao racismo, corrupção, machismo, isto levou a que vários problemas se levantasse à publicação do livro. O escritor teve que fazer muitas explicações e palestras sobre a obra. Ela foi o primeiro testemunho público e assumido por um militante, de que o MPLA não era perfeito embora tenhamos sempre que ter em conta que é uma crítica feita dentro do limite possível de quem vê as coisas do ponto de vista do participante. Será um livro de história na medida em que é a realidade vivida pelo autor tornada ficção. O único documento escrito que legitima a presença do MPLA em Cabinda é esta obra de Pepetela - diz a história oficial que o MPLA teria mandado os seus melhores guerrilheiros para Cabinda.
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A publicação da obra tem também a sua história. Pepetela havida dado a obra a Agostinho Neto para que este a lê-se, à semelhança do que havia feito com outros trabalhos seus. Durante muito tempo o próprio autor hesitou em publicar a obra, as razões eram políticas, "será que é útil, a revolução era ainda muito recente... Poderia o livro servir os inimigos?" - Pepetela. Quando se decidiu enfim a publicação da obra, a nível interno do MPLA foi importante o facto de testemunhas terem ouvido Neto dizer que concordava politicamente com o conteúdo de Mayombe.
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Quanto ao conteúdo de Mayombe em Mayombe temos o traço filosófico do homem como indivíduo e o seu comportamento como guerrilheiro. É a história do guerrilheiro, da guerrilheira, mas sempre dos indivíduos nas suas ideias.
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Pepetela joga, nesta obra com outro tipo de legados, os culturais. Veja-se a dedicatória do livro: a ogum o prometeu africano - Ogum é Yoruba e foi para o Brasil na rota dos escravos, em Angola não é conhecido. É com estes diversos legados culturais que o autor joga.
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Mayombe é uma grande epopeia, a épica dos guerrilheiros. Relembra alguns escritores franceses que escreveram sobre a guerrilha da Indochina, especialmente " A condição Humana" de André Malraux.
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Mayombe é a primeira obra angolana que dessacraliza os heróis.
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"É uma obra também contra o dogmatismo, o Sem-Medo era um Anarquista, não podia ser mas de facto era. A obra tem já uma série de advertências sobre o partido único mas a grande contribuição do Sem-Medo foi a da religião na política." - Pepetela
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Publicado em 1980.

.Read more: http://www.portaldaliteratura.com/livros.php?livro=3591#ixzz0cib7VBGb
 .


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Pepetela nasceu em Benguela, Angola, em 1941.

18
Jun 08
 

«O Mayombe tinha aceitado os golpes dos machados, que nele abriram uma clareira. Clareira invisível do alto, dos aviões que esquadrinhavam a mata, tentando localizar nela a presença dos guerrilheiros.
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As casas tinham sido levantadas nessa clareira e as árvores, alegremente, formaram uma abóbada de ramos e folhas para as encobrir.
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Os paus serviram para as paredes. O capim do tecto foi transportado de longe, de perto do Lombe. Um montículo foi lateralmente escavado e tornou-se forno para pão. Os paus mortos das paredes criaram raízes e agarraram-se à terra e as cabanas tornaram-se fortalezas. E os homens, vestidos de verde, tornaram-se verdes como as folhas e castanhos como os troncos colossais.»
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publicado por pepetela às 07:59
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http://pepetela.blogs.sapo.pt/1703.html
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terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Agostinho Neto - Poesia


Preso 2ª vez pela PIDE em 9 de Fevereiro de 1955,


Agostinho Neto


"Ó negro esfarrapado do Harlem / ó dançarino de Chicago / ó negro servidor do South / Ó negro de África / negros de todo o mundo / eu junto ao vosso canto / a minha pobre voz / os meus humildes ritmos."




Biografia

Poemas:


Biografia
Nasceu em Catete, Angola, em 1922, faleceu em 1979. Estudos primários e secundários em Angola, licenciado em Medicina pela Universidade de Lisboa. Em Portugal, sempre esteve ligado à actividade política, onde com Lúcio Lara e Orlando de Albuquerque fundou a revista Momento, em 1950. Como aconteceu a outros escritores africanos foi preso e desterrado para Cabo Verde, tendo mais tarde conseguido a fuga para o continente. Presidente do MPLA, foi o primeiro presidente de Angola.
Obra Poética:
Quatro Poemas de Agostinho Neto, 1957, Póvoa do Varzim, e.a.;
Poemas, 1961, Lisboa, Casa dos Estudantes do Império;
Sagrada Esperança, 1974, Lisboa, Sá da Costa (inclui os poemas dos dois primeiros livros);
A Renúncia Impossível, 1982, Luanda, INALD (edição póstuma).


Quitandeira
A quitanda.
Muito sol
e a quitandeira à sombra
da mulemba.

- Laranja, minha senhora,
laranjinha boa!

A luz brinca na cidade
o seu quente jogo
de claros e escuros
e a vida brinca
em corações aflitos
o jogo da cabra-cega.

A quitandeira
que vende fruta
vende-se.

- Minha senhora
laranja, laranjinha boa!

Compra laranja doces
compra-me também o amargo
desta tortura
da vida sem vida.

Compra-me a infância do espírito
este botão de rosa
que não abriu
princípio impelido ainda para um início.

Laranja, minha senhora!

Esgotaram-se os sorrisos
com que chorava
eu já não choro.

E aí vão as minhas esperanças
como foi o sangue dos meus filhos
amassado no pó das estradas
enterrado nas roças
e o meu suor
embebido nos fios de algodão
que me cobrem.

Como o esforço foi oferecido
à segurança das máquinas
à beleza das ruas asfaltadas
de prédios de vários andares
à comodidade de senhores ricos
à alegria dispersa por cidades
e eu
me fui confundindo
com os próprios problemas da existência.

Aí vão as laranjas
como eu me ofereci ao álcool
para me anestesiar
e me entreguei às religiões
para me insensibilizar
e me atordoei para viver.

Tudo tenho dado.

Até mesmo a minha dor
e a poesia dos meus seios nus
entreguei-as aos poetas.

Agora vendo-me eu própria.
- Compra laranjas
minha senhora!
Leva-me para as quitandas da Vida
o meu preço é único:
- sangue.

Talvez vendendo-me
eu me possua.

- Compra laranjas!

(Sagrada esperança)

Voz do sangue
Palpitam-me
os sons do batuque
e os ritmos melancólicos do blue

Ó negro esfarrapado do Harlem
ó dançarino de Chicago
ó negro servidor do South

Ó negro de África

negros de todo o mundo

eu junto ao vosso canto
a minha pobre voz
os meus humildes ritmos.

Eu vos acompanho
pelas  emaranhadas áfricas
do nosso Rumo

Eu vos sinto
negros de todo o mundo
eu vivo a vossa Dor
meus irmãos.

(A renúncia impossível)

Mussunda amigo
Para aqui estou eu
Mussunda amigo
Para aqui estou eu

Contigo
Com a firme vitória da tua alegria
e da tua consciência

O ió kalunga ua mu bangele!
O ió kalunga ua mu bangele-lé-leleé...

Lembras-te?

Da tristeza daqueles tempos
em que íamos
comprar mangas
e lastimar o destino
das mulheres da Funda
dos nossos cantos de lamento
dos nossos desesperos
e das nuvens dos nossos olhos
Lembras-te?

Para aqui estou eu
Mussunda amigo

A vida a ti a devo
à mesma dedicação ao mesmo amor
com que me salvaste do abraço
da jibóia

à tua força
que transforma os destinos dos homens

A ti Mussunda amigo
a ti devo a vida

E escrevo versos que não entendes
compreendes a minha angústia?

Para aqui estou eu
Mussunda amigo
escrevendo versos que tu não entendes

Não era isto
o que nós queríamos, bem sei

Mas no espírito e na inteligência
nós somos!

Nós somos
Mussunda amigo
Nós somos

Inseparáveis
e caminhando ainda para o nosso sonho

No meu caminho
e no teu caminho
os corações batem ritmos
de noites fogueirentas
os pés dançam sobre palcos
de místicas tropicais
Os sons não se apagam dos ouvidos

O ió kalunga ua mu bangele...

Nós somos!

(Sagrada esperança)

Contratados
Longa fila de carregadores
domina a estrada
com os passos rápidos

Sobre o dorso
levam pesadas cargas

Vão
olhares longínquos
corações medrosos
braços fortes
sorrisos profundos como águas profundas

Largos meses os separam dos seus
e vão cheios de saudades
e de receio
mas cantam

Fatigados
esgotados de trabalhos
mas cantam

Cheios de injustiças
calados no imo das suas almas
e cantam

Com gritos de protesto
mergulhados nas lágrimas do coração
e cantam

Lá vão
perdem-se na distância
na distância se perdem os seus cantos tristes

Ah!
eles cantam...

(Sagrada esperança)

Aspiração
Ainda o meu canto dolente
e a minha tristeza
no Congo, na Geórgia, no Amazonas

Ainda
o meu sonho de batuque em noites de luar

ainda os meus braços
ainda os meus olhos
ainda os meus gritos

Ainda o dorso vergastado
o coração abandonado
a alma entregue à fé
ainda a dúvida

E sobre os meus cantos
os meus sonhos
os meus olhos
os meus gritos
sobre o meu mundo isolado
o tempo parado

Ainda o meu espírito
ainda o quissange
a marimba
a viola
o saxofone
ainda os meus ritmos de ritual orgíaco

Ainda a minha vida
oferecida à Vida
ainda o meu desejo

Ainda o meu sonho
o meu grito
o meu braço
a sustentar o meu Querer

E nas sanzalas
nas casas
no subúrbios das cidades
para lá das linhas
nos recantos escuros das casas ricas
onde os negros murmuram: ainda

O meu desejo
transformado em força
inspirando as consciências desesperadas.

(Sagrada esperança)

Poesia Africana
Lá no horizonte
o fogo
e as silhuetas escuras dos imbondeiros
de braços erguidos
No ar o cheiro verde das palmeiras queimadas

Poesia africana

Na estrada
a fila de carregadores bailundos
gemendo sob o peso da crueira
No quarto
a mulatinha dos olhos meigos
retocando o rosto com rouge e pó de arroz
A mulher debaixo dos panos fartos remexe as ancas
Na cama
o homem insone pensando
em comprar garfos e facas para comer à mesa

No céu o reflexo
do fogo
e as silhuetas dos negros batucando
de braços erguidos
No ar a melodia quente das marimbas

Poesia africana

E na estrada os carregadores
no quarto a mulatinha
na cama o homem insone

Os braseiros consumindo
consumindo
a terra quente dos horizontes em fogo.

(No reino de Caliban II -  antologia
panorâmica de poesia africana de ex-
pressão portuguesa)

Fogo e ritmo
Sons de grilhetas nas estradas
cantos de pássaros
sob a verdura úmida das florestas
frescura na sinfonia adocicada
dos coqueirais
fogo
fogo no capim
fogo sobre o quente das chapas do Cayatte.
Caminhos largos
cheios de gente cheios de gente
em êxodo de toda a parte
caminhos largos para os horizontes fechados
mas caminhos
caminhos abertos por cima
da impossibilidade dos braços.
Fogueiras
dança
tamtam
ritmo

Ritmo na luz
ritmo na cor
ritmo no movimento
ritmo nas gretas sangrentas dos pés descalços
ritmo nas unhas descarnadas
Mas ritmo
ritmo.

Ó vozes dolorosas de África!


(Sagrada esperança)
Fire and rhythm
The sound of chains on the roads
the songs of birds
under the humid greenery of the forest
freshness in the smooth symphony
of the palm trees
fire
fire on the grass
fire on the heat of the Cayatte plains
Wide paths
full of people full of people
an exodus from everywhere
wide paths to closed horizons
but paths
paths open atop
the impossibility of arm
fire
dance
tum tum
rhythm

Rhythm in light
rhythm in color
rhythm in movement
rhythm in the bloody
cracks of bare feerhythm on torn nails
yet rhythm
rhythm

Oh painful African voices


(Sacred hope)

kinaxixi
Gostava de estar sentado
num banco do kinaxixi
às seis horas duma tarde muito quente
e ficar...
Alguém viria
talvez sentar-se
sentar-se ao meu lado
E veria as faces negras da gente
a subir a calçada
vagarosamente
exprimindo ausência no kimbundu mestiço
das conversas
Veria os passos fatigados
dos servos de pais também servos
buscando aqui amor ali glória
além uma embriagues em cada álcool
Nem felicidade nem ódio
Depois do sol posto
acenderiam as luzes
e eu
iria sem rumo
a pensar que a nossa vida é simples afinal
demasiado simples
para quem está cansado e precisa de marchar.

(Sagrada esperança)

Noite
Eu vivo
nos bairros escuros do mundo
sem luz nem vida.

Vou pelas ruas
às apalpadelas
encostado aos meus informes sonhos
tropeçando na escravidão
ao meu desejo de ser.

São bairros de escravos
mundos de miséria
bairros escuros.

Onde as vontades se diluíram
e os homens se confundiram
com as coisas.

Ando aos trambolhões
pelas ruas sem luz
desconhecidas
pejadas de mística e terror
de braço dado com fantasmas.

Também a noite é escura.

(Sagrada esperança)
Noche
yo vivo
en los barrios oscuros del mundo
sin luz ni vida.

voy por las calles
a tientas
apoyado en mis informes sueños
tropezando con la esclavitud
a mi deseo de ser.

barrios oscuros
mundos de miseria
donde las voluntades se diluyeron
con las cosas.

ando a los tropezones
por las calles sin luz
desconocidas
impregnadas de mística y terror
del brazo con fantasmas.

también la noche es oscura.


(Sagrada esperanza)

Consciencialização
Medo no ar!

Em cada esquina
sentinelas vigilantes incendeiam olhares
em cada casa
se substituem apressadamente os fechos velhos
das portas
e em cada consciência
fervilha o temor de se ouvir a si mesma

A historia está a ser contada
de novo

Medo no ar!

Acontece que eu
homem humilde
ainda mais humilde na pele negra
me regresso África
para mim
com os olhos secos.

(Sagrada esperança)


Civilização ocidental
Latas pregadas em paus
fixados na terra
fazem a casa

Os farrapos completam
a paisagem íntima

O sol atravessando as frestas
acorda o seu habitante

Depois as doze horas de trabalho
Escravo

Britar pedra
acarretar pedra
britar pedra
acarretar pedra
ao sol
à chuva
britar pedra
acarretar pedra

A velhice vem cedo

Uma esteira nas noites escuras
basta para ele morrer
grato
e de fome.

(Sagrada esperança)

Adeus à hora da largada
Minha Mãe
(todas as mães negras
cujos filhos partiram)
tu me ensinaste a esperar
como esperaste nas horas difíceis

Mas a vida
matou em mim essa mística esperança

Eu já não espero
sou aquele por quem se espera

Sou eu minha Mãe
a esperança somos nós
os teus filhos
partidos para uma fé que alimenta a vida

Hoje
somos as crianças nuas das sanzalas do mato
os garotos sem escola a jogar a bola de trapos
nos areais ao meio-dia
somos nós mesmos
os contratados a queimar vidas nos cafezais
os homens negros ignorantes
que devem respeitar o homem branco
e temer o rico
somos os teus filhos
dos bairros de pretos
além aonde não chega a luz elétrica
os homens bêbedos a cair
abandonados ao ritmo dum batuque de morte
teus filhos
com fome
com sede
com vergonha de te chamarmos Mãe
com medo de atravessar as ruas
com medo dos homens
nós mesmos

Amanhã
entoaremos hinos à liberdade
quando comemorarmos
a data da abolição desta escravatura

Nós vamos em busca de luz
os teus filhos Mãe
(todas as mães negras
cujos filhos partiram)
Vão em busca de vida.

(Sagrada esperança)

.

in
.
ver aqui  

Resumo fotobiográfico de Agostinho Neto

Agostinho Neto - A poesia como arma de Combate

 


-->

A poesia como arma de combate

Outra das vozes denunciadoras da violência colonial, e que de Lisboa ecoaria nas matas do Norte angolano, foi Agostinho Neto, poeta de rara capacidade discursiva, lúcido e sensível, autor de uma poesia alicerçada nas raízes mais fundas da terra angolana, desvendando angústias, silêncios, cantos sofridos da terra-mãe, com enorme despojamento estético, prodigiosa de ritmo discursivo; um canto linear para se tornar perceptível, um canto para as massas, para o despertar das consciências, transportando outras violências, outras latitudes onde o homem sofra os horrores da fome, da opressão, das injustiças: no Congo, na Geórgia, no Amazonas – uma escrita profundamente humana e solidária.
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Como Neruda, Agostinho Neto sabe que a poesia é ainda e sempre uma arma a usar e a manejar antes de todos os combates, para que o combatente reserve para si essa bagagem, esse cadinho de alma nas atrocidades da luta: ou seja, que a revolta seja justa e ideologicamente consequente; as vontades só se mobilizam se apetrechadas, também, com os instrumentos da arte e da cultura. Toda a revolução é um acto cultural, sabemos isso desde a Comuna de Paris, passando por Lenine, até ao Sartre. Porque, sobretudo, é necessário que o verbo se transmude em acto, que a poesia se transforme em acção criadora e fecunda, redentora, anunciadora do novo: Criar criar/criar nos espírito criar no músculo criar no nervo/criar no homem criar na massa/criar/criar com os olhos secos, mesmo sobre os temores mais fundos, o mais duro e irracional arbítrio, é preciso Criar criar/sobre a profanação da floresta/sobre a fortaleza impudica do chicote/criar sobre o perfume dos troncos serrados, criar sem que a dor se espelhe, junto com a natureza e os homens, com os punhos acesos, com as lágrimas tolhidas, Criar/criar com os olhos secos, para que os opressores não rejubilem, não se julguem eternamente vencedores e isentos de expiação.

Uma luta dos povos

É essa aspiração do direito inalienável a uma pátria livre e justa, a uma luta que o poeta sabia não ser apenas do povo Angolano mas mais larga, juntando nessa frente os povos de África ainda sujeitos à exploração e jugo coloniais, que determina o poema Aspiração, no qual Agostinho Neto regressa às origens do seu espaço, às suas memórias da terra mãe, para nos dar a pungência do inevitável, o desejo de libertação que é, ao mesmo tempo, aspiração soberana de nessa pátria poder inscrever as raízes culturais e identitárias do seu Povo: «Ainda/o meu sonho de batuque em noites de luar//(…) Ainda o meu espírito/Ainda o quissange/a marimba/a viola/o saxofone/ainda os meus ritmos de ritual orgíaco//(…) Ainda o meu sonho/o meu grito/o meu abraço/a sustentar o meu Querer// E nas sanzalas/nas casas/nos subúrbios das cidades/para lá das "linhas"/nos recantos escuros das casas ricas/onde os negros murmuram: ainda// o meu Desejo/transformado em força/inspirando as consciências desesperadas».
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E em registo de revolta íntima, o poema «Sagrada Esperança», traça os contornos perenes de uma luta internacionalista que, no dizer de Oscar Lopes, «é a esperança que, hoje, faz realmente a história, a história de cada pátria que se quer livre (…): todas as mães negras/ cujos filhos partiram. (…) Eu já não espero/ sou aquele por quem se espera/ sou eu minha mãe/ a esperança somos nós.
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De Agostinho Neto, enquanto poeta empenhado no estudo e incremento da nossa língua comum, escreveu Oscar Lopes: Agostinho Neto, que escreveu originalmente algumas poesias em quimbundo, é hoje um poeta apenas publicado em português, para que nenhum compatriota o sinta como especialmente ligado a uma só das etnias da sua pátria. A língua portuguesa funcionava, para Agostinho Neto e outros intelectuais revolucionários, como factor de coesão nacional. Ainda Oscar Lopes: Agostinho Neto, como Amílcar Cabral (…) participou na resistência portuguesa ao fascismo antes da sua luta directamente anticolonial. (…) Ouvi-o a ele fazer distinções características de uma plena maturidade política angolana que a tantos de nós, portugueses, nos falta. Neto distinguia entre os laços culturais luso-angolanos de objectiva raiz histórica – e a barbárie do colonial-fascismo português.
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Amílcar Cabral, Agostinho Neto, Samora Machel, sabiam que a sua luta não se dirigia «ao Povo português», mas ao regime que a todos explorava e oprimia.

Bibliografia: Resistência Africana – antologia poética org. por Serafim Ferreira (Diabril-1975)
«Cifras do Tempo», de Oscar Lopes (ed. Caminho)
.