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sábado, 17 de maio de 2008

40 anos de 1968: ''distopias ficam, utopias permanecem*



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13 DE MAIO DE 2008 - 17h11


por Diorge Alceno Konrad*

Em livro lançado há alguns anos, o jornalista Zuenir Ventura caracterizou o ano de 1968 como o ano que não terminou.[1]


Uma análise mais aprofundada daquele processo histórico deve considerar o que realmente se esgotou nos episódios da época e o que ficou para a lembrança dos 40 anos dos movimentos ou para o futuro das diferentes sociedades. Para isso temos que entrar na “memória de 1968. Densa e marcante. Exemplos de luta que inspiram o estudo de seus erros e acertos. Trajetórias que merecem análise, por tudo o que pretenderam, embora quase tudo esteja por conquistar, ainda hoje”.[2]

É cada vez mais necessário o rompimento com duas tradições de interpretação que no fundo se baseiam na mesma forma de ver o passado: a primeira delas é a crítica conservadora, na qual se vê o fracasso de 1968 como o fim das utopias ou o fim das possibilidades de transformação revolucionária das sociedades; a segunda delas é o saudosismo de setores de esquerda que busca nos anos 60 em geral, e de 1968 em particular, uma volta a um passado perdido.

No primeiro caso, o ano de 1968 é referência para estruturar uma visão de mundo de tentativa de negação da História, dando a ela um fim, acompanhada de propósitos que estabelecem também o fim das ideologias, o fim das classes sociais e suas lutas. Essa perspectiva, permeada por um recorte irracionalista, baseada em percepções pós-modernas ou pós-estruturalistas, parte de um paradigma de relativização absoluta da verdade e do conhecimento.

No segundo caso, o ano de 1968 é referência para determinar uma visão de mundo onde uma forma de romantismo estabelece uma idealização de um passado perdido que é perpetuado, não servindo de referência crítica para a possibilidade de transformação do presente.

As visões citadas acima se baseiam em visões conservadoras e tradicionalistas de sociedade, sendo um contraponto as mudanças que a realidade atual exige.

A história da formação sócio-econômica gaúcha, por exemplo, tem sua tradição de volta a um passado perdido, quando as classes dominantes rio-grandenses, diante da crise da pecuária no último quartel do século 19, idealizaram o “gaúcho” ou gaudério marginal do século 18, transformando-o na identidade de todos os nascidos no Rio Grande do Sul. Dessa perspectiva se criou uma história mítica: de uma suposta escravidão amena; de peões e patrões vivendo em harmonia social; de campos (latifúndios) sem aramados e que devem ser mantidos para todo o sempre; de “centauro dos pampas” valorizado por uma cultura patriarcal e machista; de um passado de lutas históricas pela fronteira que naturaliza e determina para sempre um estereótipo de gaúcho tão ao gosto dos que perpetuam formas de dominações sociais.

A formação social brasileira tem outros dois exemplos: as obras românticas indigenistas criaram uma espécie mítica de brasileiro original, modificando o seu conteúdo e a sua forma, voltando a uma idealização de um passado perdido pré-Cabralino.

Já as obras de Gilberto Freyre idealizaram a sociedade nordestina e brasileira, ao criar através de Casa-grande e senzala uma teoria mítica e conservadora de uma pretensa democracia racial na produção açucareira colonial e nas formas sociais posteriores, onde senhores e escravos, trabalhadores e usineiros representam dois lados de um mundo indivisível e complementar.

Por isso, a questão que se põe não é a negação histórica de 1968. Ele foi de importância ímpar para o Brasil e para o mundo.[3] Mas deve-se compreender que os acontecimentos de 1968 se deram em um momento de bipolaridade mundial com diferenças de contextos nos países capitalistas e nos países socialistas.

Nos primeiros, os trabalhadores e setores da pequena burguesia lutavam por melhoria de seus padrões de vida através da busca de inserção no mundo do trabalho, ao mesmo tempo em que, principalmente por parte da juventude, se criticava a massificação do consumo e a concorrência individualista que estabelecia a exclusão de setores da população como os negros, as mulheres, os indígenas, etc, ao defenderem, entre outros a questão da extensão dos direitos civis. Exemplo desse processo foram as greves dos trabalhadores franceses no contexto do Maio de 1968 ou a luta pelos direitos civis dos negros, liderada por Martin Luther King nos Estados Unidos, acompanhada pela radicalização da causa pelos Panteras Negras ou pela liderança de Malcolm X. No segundo, aparecia a crítica as restrições de participação política e a um modelo burocrático de socialismo, como foi o caso da Primavera de Praga.

Nesse contexto, salienta-se a luta dos movimentos estudantis em países como Brasil, México, Uruguai, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Guatemala, Estados Unidos, França, Itália, Espanha, Tchecoslováquia, Suécia, Turquia, Argélia, Marrocos, Tunísia e Japão, os movimentos de contracultura na Inglaterra, Alemanha, França, Brasil e Estados Unidos, os movimentos contra a intervenção militar no Vietnã pelos Estados Unidos e os movimentos pela descolonização da Ásia e da África.

Assim, os anos 1960 ou 1968 não podem ser vistos de forma homogênea em todos os países. Se não estaremos negando a importância daquele momento histórico ou superdimensionando-o. Dessa forma não se cai em visões reducionistas e conservadoras, como aquelas criticadas anteriormente. Muito menos se referenda visões apologéticas e midiáticas que superlativam o maio francês. Não esquecemos que a radicalidade das barricadas de Paris produziram apenas um estudante morto, enquanto que apenas na praça de Tlatelolco, na Cidade do México, em outubro de 1968, se deu o mais violento acontecimento daqueles tempos latino-americanos, através do massacre que resultou em 26 estudantes mortos, 300 feridos e mais de mil aprisionados. Mas disso pouco se fala nos dias atuais.

Enquanto isso, mesmo no Brasil, no combate à reacionária ditadura civil-militar, iniciada desde os primeiros momentos de 1964, quatro anos antes, foram centenas e centenas de mortos, desaparecidos, torturados, exilados, depostos, perseguidos.

No caso do Brasil. 1968 tem significado extraordinário para os estudantes brasileiros (vide o assassinato do estudante Edson Luiz e a Passeata dos Cem Mil, no Rio de Janeiro) e os movimentos políticos da época (principalmente na luta armada e clandestina contra a Ditadura). Mas devemos entender o contexto da época e aprender com eles. No Brasil, as expressões políticas, sociais e culturais do período estavam intrinsicamente relacionados com a realidade de um país envolvido em profundos contrastes. É evidente que parte destes contrastes permanecem até hoje, mas mudaram na forma e na qualidade. Para os que queriam mudanças, o momento era de busca de uma cultura popular aliada à procura de uma identidade nacional no rumo de uma transformação revolucionária para o Brasil. Para os que não queriam, tratava-se apenas de reordenar o país dentro de um modelo de desenvolvimento capitalista associado e dependente sustentado pela aliança conservadora de civis e militares em conjunto com o capital externo, principalmente norte-americano.

Por outro lado, o Maio francês não pode ser ensimesmado. Como não vê-lo influenciado pela Revolução Cultural Proletária da China de 1966 e por um redimensionamento do maoísmo. O combate ao colonialismo e ao neocolonialismo, sobretudo questionando a invasão francesa e norte-americana no Vietnã é anterior aos acontecimentos franceses. Afinal, a Primavera de Praga, iniciada em abril de 1968, não é cronologicamente anterior?

Ainda é preciso entender porque o Maio da França tornou-se um ano mítico, porque “1968” foi o ponto de partida para uma série de transformações políticas, éticas, sexuais e comportamentais, que afetaram as sociedades da época de uma maneira irreversível?[4]

Mas é um erro pensar 1968 como um ano fundador dos movimentos sociais ecológicos, feministas, anti-nucleares, dos movimentos negros e homossexuais.

Eric Hobsbawm, em Era dos Extremos, ao analisar os reflexos dos anos 1960, considera que “a revolução cultural de fins do século 20 pode assim ser mais bem entendida como o triunfo do indivíduo sobre a sociedade, ou melhor, o rompimento dos fios que antes ligavam os seres humanos em texturas sociais”.[5]

Podemos considerar que as visões irracionalistas reforçadas a partir de 1968, principalmente expressadas em segmentos da “Nova História” ou da “Nova Filosofia”, apresentam, nestes tempos neoliberais, boa parte destas perspectivas. Quando se dão as derrotas de 1968, diversos setores intelectuais passam a criticar as transformações globalizantes de mundo e as visões totalizantes de História. Reflexos dessa linha de interpretação são as proposições de visões fragmentárias de mundo, as quais entendem que o conhecimento só pode ser apreendido nas especificidades. Em decorrência, as ações dos movimentos sociais só poderiam se dar no particular, ou nas “tribos sociais”, como considera o sociólogo francês Michel Mafessoli. Estaria estabelecido o fim da utopia, entendida aqui como uma sociedade a ser construída.

A questão final e central que se coloca é: 1968 representou o fim das utopias, sendo um movimento emancipatório do que vivemos hoje. Não se pode negar esta relação, pois os discursos do pos-histoire estão aí para tentar estabelecer a fragmentação definitiva do conhecimento e a microscopia dos movimentos sociais, quando a resistência se daria apenas no âmbito da especificidade. No entanto, em momentos em que em nome de um suposto Estado de Direito se procura terminar com grande parte do direitos sociais e individuais dos trabalhadores e, mesmo assim, em todo o mundo, e em especial na América Latina, diversos setores da sociedade de colocam contra o avanço e as conseqüências do neoliberalismo, está novamente na ordem do dia a volta dos movimentos emancipatórios, no sentido utópico e transformador, a exemplo dos anos 60, sem repetir os erros daqueles tempos. Seria uma forma de conformismo absoluto crer que a única possibilidade de cidadania se restringisse a possibilidade de consumo dos produtos que o mercado tem a oferecer.

Para ultrapassar definitivamente os anos 1960, tem que se ir além da constatação de que aqueles tempos foram o início da crise da globalização centrada no modelo fordista de produção e acumulação. É fundamental considerar o poder do fetiche da mercadoria no capitalismo que pode transformar protestos mais ou menos despolitizados da contracultura e de outros setores sociais, como novas formas de consumismo. Enfim, a lógica que reconhece as diferenças, mas não muda o domínio do capital.

Nunca é demais deixar a pergunta: em tempos da chamada globalização, a quem interessa os discursos que reforçam a incognoscibilidade do real e a impossibilidade de visões globais de mundo? Também não é demais considerar que tais entendimentos são produto da crise de desenvolvimento dos anos 60, que permanecem no início do século 21, quando ainda temos movimentos sociais e políticos desarticulados, os quais não têm conseguido encontrar respostas para os seus dilemas.

Nunca é demais aprofundar sobre o espontaneísmo da “imaginação no poder”, da aparência de ruptura quando se “pedia o impossível” e da efemeridade histórica dos acontecimentos franceses, base material de muitas produções intelectuais idealistas, relativistas, individualistas e fragmentárias do pos-histoire, dos discursos da sociedade pós-industrial, do argumento do fim da sociedade do trabalho, do homem uni-dimensional marcusiano e, sobretudo, do anti-humanismo. Tudo isso poderia ser taxado de simplismo. Mas respondemos a isso com Luc Ferry e Alain Renault: “na verdade, é contudo a crítica do humanismo, do sujeito, da metafísica, da autonomia, da antropologia ou da verdade, que evidencia um impressionante e persistente simplismo”.[6]

Não é por nada que, 40 anos depois de 1968, aumenta a consciência de que hoje as contradições do desenvolvimento capitalista e neoliberal, em sua fase imperialista, ensejam novas rearticulações em torno do social e da grande política, em contraposição às saídas individuais e consumistas. Esta pode ser a retomada, em outros patamares históricos, da velha e tão nova utopia socialista.

Notas

* Este artigo é uma visão ligeiramente modificada e atualizada do artigo “1968: do passado para o futuro”. In. SCHERER, Amanda Eloína; NUSSBAUMER, Gisele Marchiori; DI FANTI, Maria da Gloria (orgs.). Utopias e distopias: 30 anos de maio de 1968. Santa Maria: Departamento de Ciências da Informação/Mestrado em Letras, 1999, p. 41-8.

[1] Ver - VENTURA, Zuenir. 1968: o ano que não terminou. 14ª ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988.

[2] REIS FILHO, Daniel Aarão; MORAES, Pedro de. 68: a paixão de uma utopia. Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1988, p. 52.

[3] Para Patrick Rotman, cineasta e historiador, ‘nos anos pós-Maio de 68, a busca de si tornou-se uma prioridade e as questões relativas à intimidade entraram no debate político. Temas como a família, as relações entre pais e filhos e a liberação sexual entram na ordem do dia. O grande legado do movimento reside nestes questionamentos e transformações incorporados à vida cotidiana de milhões de indivíduos”. Cf. A geração das barricadas. In. História Viva, ano 5, n. 54. São Paulo: Duetto Editorial, abril de 2008, p. 39.

[4] Ver estas referências em SCHLLING, Voltaire. 1968: a revolução inesperada. In. http://www.zaz.com.br/voltaire/mundo/1968.htm. Acesso em 10/05/2008.

[5] Cf. HOBSBAWM, Eric. 1995. Era dos extremos: o breve século XX. 1914-1991. São Paulo: Companhia das Letras, p. 328.

[6] Ver FERRY, Luc; RENAUT, Alain. Pensamento 68: ensaios sobre o anti-humanismo contemporâneo. São Paulo: Ensaio, 1988, p. 264.




*Diorge Alceno Konrad, Doutor em História Social do Trabalho pela UNICAMP



* Opiniões aqui expressas não refletem, necessariamente, a opinião do site.
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terça-feira, 22 de janeiro de 2008

Nosotros no silenciamos: fuera colonialismo y imperialismo



* Diorge Alceno Konrad


El gran error de nosotros los latinoamericanos, es no unirnos para proteger nuestros intereses. Ese es nuestro error, y estar sometidos a los intereses de los europeos, de los yanquis ¡ese es el gran error nuestro! (...) ¿En qué medida nos van a respetar? En la medida que nos demos a respetar nosotros, ¡así de sencillo! Si nosotros nos damos a respetar, nos van respetar; si nosotros nos unimos, vamos a ser más respetados. Ellos se han unido para desarrollar su propuesta, nosotros tenemos que unirnos para poder desarrollar las propuestas de justicias, de paz, y de cohesión social, que demandan transformaciones en América Latina y El Caribe
(Daniel Ortega, na Cúpula Ibero Americana, em 10-11~2007)



O "Por qué no te callas?" (“Por que você não cala a boca?"), pronunciado pelo rei Juan Carlos da Espanha, contra o presidente Hugo Chávez, durante a Cúpula Ibero-americana, em Santiago do Chile, em 10 de novembro de 2007, é emblemático de como a luta de classes vem refletindo-se na atual conjuntura latino-americana e brasileira.


De um lado, os velhos liberais conservadores, submetidos historicamente ao domínio colonial, hoje pajens do imperialismo e das políticas neoliberais. De outro, as forças libertadoras e revolucionárias, em luta por suas independências nacionais, ante-sala de projetos socialistas.


A frase de Juan Carlos foi elogiada em editoriais da grande imprensa, estampada em camisetas para o mercado capitalista, veiculada em sons de chamadas para celulares de gente apegada ao consumismo efêmero. Na forma, reforçou a visão secular daqueles que não admitem os mínimos avanços da luta popular por mais democracia e soberania em nossos países, situados abaixo das linhas divisórias da Califórnia, do Arizona, do Novo México e do Texas.


Desde 1492, quando passamos a servir como colônia produtiva para as metrópoles Espanha e Portugal, depois dominação neocolonial britânica, passando pela autonomia política de nossas independências, sem as respectivas liberdades econômicas e sociais, [1] chegando até a fase imperialista, em especial do domínio inglês e norte-americano, nossos lacaios mantêm a sua estratégia.


Baseados na acumulação interna de capital, cujo montante principal circula e é investido nos centros hegemônicos, geraram em nosso subcontinente classes dominantes heterogêneas, mas com objetivos comuns: a manutenção das estruturas dependentes que geram a miséria e a opressão de maioria de nossas populações.


Séculos de escravidão negra e indígena, milhões de vidas ceifadas pela alta exploração da mão-de-obra, pelo genocídio e pela repressão quando buscavam liberdade, independência e novos modos de produção; décadas de saques, contrabandos, piratarias, ditaduras e golpes de Estado quando a democracia era almejada para muitos; tudo isso ainda não basta para o eurocentrismo e o imperialismo.


Temos que ouvir herdeiros das tiranias monárquicas e do acúmulo do ouro e da prata, hoje representados pelo capital financeiro e pelos grandes monopólios mundiasi, especialmente europeus e dos EUA, resultado de anos de domínio sobre nossas nações, com rompantes e arrogância de vencedores, dizer que temos que nos calar para seus desígnios.


Pior que a “bronca” de Juan Carlos, aquele mesmo que foi conivente com o franquismo espanhol, que de forma condescendente poderia soar como uma gentileza para seu compatriota José Luis Rodríguez Zapatero poder terminar a sua fala, foi a instrumentalização de sua frase como forma de depreciação não só das lutas chavistas, mas de toda a resistência atual da América Latina.


Os mesmos lambe-botas costumeiros do colonialismo das potências européias e dos Estados Unidos, sempre prontos a conotar nossas críticas como “idiotia latino-americana”, foram os primeiros a se agarrar nas madeiras podres da fala joanina, asseverando que o líder venezuelano, eleito, ao contrário do rei espanhol, teve a resposta que merecia.


A maior parte da mídia, serviçal e parcial, como não poderia deixar de ser, aos propósitos dominadores, sequer teve a hombridade de mostrar que outro presidente eleito, Daniel Ortega, da Nicarágua, ainda se manifestava, quando o mesmo Juan Carlos abandonou a reunião da Cúpula. [2] Há, mas isso não é deselegância, não é arrogância, não e topete! A omissão de fatos como esse, além das manipulações grosseiras e cotidianas, estão nas bases das razões porque a RCTV venezuelana não teve a sua concessão pública renovada. Porém, no restante do América Latina, a maior parte dos telespectadores, dos ouvintes das rádios e dos leitores de jornais permaneceu submetida a uma mídia mentirosa, manipuladora e a serviço do capitalismo mundial e seus sócios menores em nível local.


Pois foi esta parcela da mídia, bem como muitos de nossos intelectuais que ficaram ao lado do Rei, estruturada na síndrome do colonizado, que descontextualizou os questionamentos de Chávez a Zapatero. Chávez interpelava sobre o papel do neoliberal José Maria Aznar e sua atitude fascista, provavelmente fazendo referência ao golpe de Estado que a oposição tentou contra o presidente venezuelano, em 2001. Naquele momento, o Embaixador da Espanha, nomeado pelo primeiro ministro Aznar, esteve no Palácio de Miraflores, ao lado do golpista Pedro Carmona, avalizando a destituição do governo chavista.


Por que, então, este conteúdo não ficou explícito para o público que deveria receber a informação? Por que, já sabemos, a forma do “Por qué no te callas?” servia aos propósitos da desqualificação de Chávez e o simbolismo de sua resistência na atual conjuntura latino-americana.


Com Hugo Chávez, Evo Morales e Rafael Correa, somando-se a Fidel Castro e a lembrança de Simon Bolívar, José Martí, Augusto César Sandino, José Carlos Mariátegui, Ernesto “Che” Guevara, temos a linha de frente da resistência popular contra o colonialismo e o imperialismo. São os símbolos contemporâneos da resistência negra e indígena à escravidão, dos libertadores que buscaram a independência e as repúblicas longe dos interesses exploratórios das nobrezas européias e seus sucedâneos, ou seja, toda sorte de imperialismos.


No Brasil, estamos no contexto dos duzentos anos da Fuga da Família Real e o início do Reino Unido de Portugal e Algarves, justamente promovido por integrantes da Dinastia de Borbón, em parte, antepassados de Juan Carlos.


Para os que continuam na luta pela liberdade nacional e da classe que vive do trabalho, o proletariado, muito a rememorar, nada a comemorar. Para os súditos dos reis, muito a festejar.


Entre vários historiadores, intelectuais e tradições do movimento popular são fortes os resquícios da veneração à monarquia. Na atualidade, revisões historiográficas, sobretudo influenciadas por concepções européias, em especial originárias da França, têm reconstruído uma linha de interpretação no mínimo conivente com nosso passado colonial e monárquico.


Assim como o mote do “fim das revoluções” (francesa e, por conseguinte, soviética), defendido pelo conservadorismo romântico de renegados marxistas como os historiadores como François Furet e Emmanuel Le Roy Ladurie [3], muitas biografias de Pedro I e Pedro II, estudos acríticos sobre a monarquia brasileira e as revisões sobre o 1808, no Brasil, têm proliferado em novas edições.


Subjetivamente encantados pelo passado monárquico, enraizados numa tradição restauradora, uma linhagem de intelectuais da academia ou da mídia passam a contentar-se com o passado perdido. Descentram a análise política numa história imóvel, negam a luta de classes como motor da transformação histórica, privilegiam o privado e o mercado que ganham espaço sobre o público e o Estado, enquanto as rupturas dos novos momentos históricos são negligenciadas ou tornadas insignificantes, em prol de um retorno nostálgico a um idílico Antigo Regime. [4]


A restauração conservadora, própria dos tempos neoliberais em que vivemos, procura reconstruir uma história de consolidação do capitalismo sem conflito de classes e sem a intervenção popular no rumo das mudanças, exatamente como certa lenda da história inglesa. Enquanto isso, velhos heróis são reificados dentro de uma lógica anti-revolucionária e pretensamente sem ideologias, quando, em essência, nega-se o universalismo das mudanças em favor do cotidiano da ordem e da harmonia social.


Outro exemplo, o da França e de certo recorte histórico feito por um Guy Chaussinand-Nagaret que “opõe uma nobreza dinâmica e progressista”, inserindo-a no patrimônio nacional “para transferir suas cinzas para nosso panteão”, através de uma noção de liberdade com o intuito de preservar intactos “os privilégios honoríficos contra as aspirações igualitárias”, [5] devem nos servir como aprendizado histórico. Os duzentos anos da Corte Portuguesa no Brasil têm que servir para a reafirmação de uma história que negando o passando, anuncia o que será.


Ou podemos esquecer que foi da Casa de Bragança e Bourbon (Borbón em castelhano, de onde se origina o atual Rei Juan Carlos) que uma família real dominada pelos interesses ingleses, encontrou a “saída diplomática” para fugir para a sua mais importante Colônia, inaugurando, em 1808, o Reino Unido de Portugal e Algarves. Não sem antes retirar mais de metade do dinheiro circulante em Portugal, saquear as riquezas e o ouro de suas igrejas e deixar seu povo à mercê do domínio francês e napoleônico. Chegando aqui, abriram os portos às nações amigas, no caso somente a Inglaterra, e despejaram os habitantes cariocas de seu lares para dar lugar a uma casta de 15 mil nobres parasitas.


Não bastasse tudo isso, em 1810, em novos Tratados, reforçando a submissão com a Inglaterra, que vinha dos tempos de Cromwell e do Tratado de Methuen (aquele que trocava vinhos portugueses por tecidos ingleses, origem da proibição de indústrias no Brasil Colonial do século XVIII), a nobreza brasileira deu mais um passo para a nossa dependência com a Grã-Bretanha. Ali, taxou os produtos ingleses em 15%, enquanto que os próprios produtos portugueses eram fixados com impostos de 16%. Além disso, os ingleses tiveram uma ilha para embarcar produtos sem taxação alguma, no caso, a Ilha de Nossa Senhora do Desterro, atual Florianópolis, uma porto livre para o contrabando e o saque de riquezas.


Foi esta mesma dinastia que, após a Revolução do Porto e a Restauração de 1820, com a expulsão dos franceses de Portugal, voltou à Europa, deixando aqui um herdeiro, aquele que, segundo a história oficial “nos deu a Independência”, porém acatou as imposições da negociata inglesa que por pressão diplomática transformou nossa liberdade política em dependência de uma dívida externa de dois milhões de libras esterlinas, ainda em 1822. Somou-se a isso uma monarquia parlamentar e constitucional que, entre as repúblicas latino-americanas, aprofundou o modo de produção escravista colonial em pleno século XIX, nos legando uma das sociedade mais desiguais da história, marcadas pelo racismo e pelo preconceito, a última a abolir a escravidão, sem falar nas formas privatistas e corruptas de Estado, gerenciado por uma classe dominante perdulária e antipatriótica, primeiro monarquista, agora capitalista.


Esta mesma classe que não titubeou em reprimir todas as revoltas por liberdade e igualdade, direcionada por uma lógica sempre questionável de progresso e modernização, na qual o nacional e o popular só interessa quando é pasteurizado e devolvido de forma harmônica, enquanto que o classista e o revolucionário é reprimido política, social e ideologicamente.


É diante de tudo isso que muitos de nós latino-americanos, cada vez mais, não nos calamos aos reis de plantão. Por isto abrimos nossas bocas e continuamos com nossas insígnias de fora eurocentrismo, fora colonialismo, fora imperialismo e fora seus vassalos. Por isto, nos 200 anos da Corte no Brasil, nosso história pretérita só deixará de ser um fantasma quando continuarmos a parafrasear Moses Finley: “é preciso mudar o mundo, não o passado”.


[1] O grande sociólogo Octávio Ianni sempre questionou que independência política tem um país, quando é mantida a sua dependência econômica.


[2] Numa transcrição de parte do discurso pronunciado por Ortega, na sessão final do Cumbre Ibero-Americana, em Santiago, o presidente nicaragüense afirmou: “privatizaron en Nicaragua la distribución de energía, te lo comentaba ayer José Luis, y le decía también a Su Majestad, que le hice una llamada cuando se encontraba en China, con el tema de Unión Fenosa; desgraciadamente Unión Fenosa, una empresa española y no es culpa tuya, no creo que vos tengás acciones en Unión Fenosa, mucho menos Su Majestad, o el Canciller Moratinos tengan acciones en Unión Fenosa (Neste momento Juan Carlos de Borbón se retira da sala de sessões). Esa empresa española, llega a Nicaragua, dice que a ayudar para que la energía llegue a todo el país, que va a controlar el precio de la energía; llegó con los Gobiernos peleles. Nosotros no hubiéramos dejado entrar a Unión Fenosa, no hubiéramos entregado la distribución. Igualmente, entregaron el 47% de la generación, ¿Qué compraron los inversionistas? No compraron las empresas generadoras que estaban en mal estado, ¿quién las va a comprar? estaban en manos del Estado ¡esas no las compraron! Compraron, en medio de actos de corrupción, las empresas generadoras que estaban en buen estado, donde podían sacar utilidades y ganar en un año lo que estaban dando por la empresa. Sacaron lo que habían invertido y luego, ¡lo que han continuado ganando por años! Toda una mafia, esa es una actitud mafiosa, prácticas gansteriles dentro de la economía global, de la que son víctimas nuestros países, por culpa de los peleles, ¡no de los pueblos! porque ellos no son consultados, Nicaragua no ha sido consultado con estas privatizaciones”. Foi uma clara demonstração de como a exploração imperialista age em nossos países, sob o rótulo dos investimentos. Cf. o discurso na íntegra em http://www.rebelion.org/noticia.php?id=59272. Acesso em 07-01-2008.


[3] Furet, que aderiu ao Partido Comunista Francês em 1947, rompendo com este em 1956, afirmou no pós-1968: “em me sinto bem próximo dos representantes mais esclarecidos do pensamento liberal”. Ladurie, filho do ministro da Agricultura e do Abastecimento do governo colaboracionista de Vichy, em 1942, entrou jovem no PCF, saindo em 1957. Seu argumento: “meu pai tinha 12º vacas, eu gostava muito delas, li em uma revista nos anos 50, na qual se dizia que os russos tinham menos vacas do que em 1913. Eu os considerei uns infelizes com tão poucas vacas”. Em 1978, adere ao Comitê dos Intelectuais para a Europa dos Libertados, dirigido por Eugène Ionesco, que se propõe a mobilizar-se contra toda perspectiva de revolução global da sociedade. Para esta geração de historiadores, a revolução passa a ser considerada impossível, senão totalitária, o engajamento político de esquerda bem como a defesa de uma história comprometida com as transformações sociais a serem negados, “um mergulho frio no passado para preservar-se do futuro”, passando a “enfeitar Clio com o papel vestal da ordem existente”. Cf. sobre estes historiadores em DOSSE, François. Uma história em migalhas: dos Annales à Nova História. São Paulo: Ensaio, Campinas: Ed. da Unicamp, 1992, p. 214-7.


[4] Até o cinema vem fazendo esta retomada. Ver em especial o filme Maria Antonieta (2006), dirigido por Sofia Coppola e sua condescendência com a autora da famosa frase: “"Se o povo está com fome e não tem pão, que coma brioche".


[5] DOSSE, op. cit., p. 239-40.





*Diorge Alceno Konrad, Doutor em História Social do Trabalho pela UNICAMP

in Vermelho - 7 DE JANEIRO DE 2008 - 08h54

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