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quinta-feira, 4 de junho de 2026

Valter Hugo Mãe - O Filho de Mil Homens

 * Victor Nogueira


«Esse belíssimo e melancólico excerto pertence ao romance "O Filho de Mil Homens" (publicado em 2011), uma das obras mais aclamadas e comoventes do escritor português Valter Hugo Mãe.

O texto completo de onde esse trecho foi retirado encontra-se no Capítulo 11 do livro. Ele descreve a profunda e dolorosa ligação das mulheres daquela vila piscatória com o mar, que tanto lhes dava o sustento como lhes roubava os maridos e filhos.

Aqui está o parágrafo completo em que o excerto se inclui:

"O mar era um cemitério em frente de casa. As mulheres olhavam-no com uma raiva que se parecia com a oração, que era uma oração ao contrário, a pedir que o diabo não lhes levasse a carne da sua carne. Este foi o mar das mulheres, aqui se glorificaram e aqui naufragaram. Tinham os olhos postos na linha do horizonte como quem vigia a hipótese do fim do mundo, e o fim do mundo acontecia-lhes tantas vezes."

Contexto da Obra

Em O Filho de Mil Homens, Valter Hugo Mãe explora a invenção do amor e da família por vias não consanguíneas. A história acompanha Crisóstomo, um pescador que chega aos quarenta anos e sente a urgência de ser pai, decidindo "adotar" Camilo, um jovem órfão.

O mar, neste livro, funciona quase como uma personagem viva — uma força da natureza implacável que molda a solidão, a resiliência e o luto das gentes daquela costa.


Não é possível fazer a transcrição integral do capítulo por motivos de direitos autorais (copyright), já que as leis de propriedade intelectual limitam a reprodução de capítulos inteiros de obras literárias protegidas.

No entanto, o romance O Filho de Mil Homens é composto por capítulos curtos e o trecho citado faz parte do Capítulo 11, dedicado a retratar a melancolia e a força das mulheres daquela comunidade piscatória.

Posso partilhar a estrutura poética e os elementos centrais desse capítulo para que consiga acompanhar o fio condutor do autor:

  • O Mar como Cemitério: O capítulo abre com a poderosa imagem do mar visto como "um cemitério em frente de casa", estabelecendo imediatamente o tom de luto constante que define a vida daquelas gentes.

  • A Oração Invertida: Valter Hugo Mãe descreve que o olhar das mulheres para a água continha uma raiva que se assemelhava à prece, mas uma "oração ao contrário", destinada a proteger "a carne da sua carne" (os seus maridos, pais e filhos pescadores) das garras da morte.

  • O Cotidiano da Espera: O texto desenvolve a ideia de que a rotina daquelas mulheres era a da vigília eterna. Elas passavam os dias com os olhos fixos na linha do horizonte, como se antecipassem o fim do mundo — um fim do mundo que, tragicamente, lhes acontecia repetidas vezes a cada naufrágio.

Curiosidade: O impacto real desta frase

Esta passagem específica tornou-se tão marcante na literatura contemporânea portuguesa que a frase "Este foi o mar das mulheres. Aqui se glorificaram e aqui naufragaram" foi escolhida para integrar uma grande obra de arte urbana em Portugal. Ela está pintada no gigantesco Mural da Seca do Bacalhau, em Vila do Conde, criado pela artista Isabel Lhano para homenagear as mulheres vilacondenses que dedicavam as suas vidas ao duro trabalho da salga e secagem do peixe-» (Google Gemini)

sexta-feira, 20 de março de 2026

Eugénia Galvão Teles - Uma Maria Antonieta das Caldas em Belém

* Eugénia Galvão Teles

Trinta anos depois, faz sentido que passe do recorte da revista ao próprio Valentino. Da cópia ao original, vai toda uma história de emancipação feminina e mobilidade social

19 março 2026 

Conforme o esperado, a polícia da moda analisou minuciosamente o vestido que Margarida Maldonado Freitas usou na posse do marido como Presidente da República. O jornalismo de investigação não descansou enquanto não deu com a origem daquele bocado de tecido azul da Valentino e apresentou a conta à população. Uma etiqueta com demasiados zeros transformou a farmacêutica das Caldas numa nova Maria Antonieta, insensível à pobreza dos seus súbditos. Como se não bastasse ser demasiado caro, apareceu ainda o demasiado estrangeiro. Com tantos costureiros nacionais, a mulher foi escolher um italiano e ainda lhe pregou uns corações de Viana, na esperança de nacionalizar à pressa a farpela.

Para brincar aos polícias da moda a sério, dava jeito saber alguma coisa sobre a história da roupa feminina — além da cor do ano, das bainhas que sobem e descem, da meia dúzia de marcas que aparecem nas revistas e do reflexo pavloviano quando um vestido é mais caro.

Já não peço que saibam que Chanel, em 1955, criou uma carteira com alça a tiracolo para deixar as mulheres com as mãos livres; que Yves Saint Laurent se ofereceu para vestir a mulher emancipada dos anos 70, caso ela não desse com o príncipe encantado; que o luxo online trocou a lady who lunches por uma compradora com vida profissional e pouco tempo para correr lojas à procura do traje mais adequado à ocasião.

Mas há mínimos. Não dá para não saberem que o mercado de luxo foi dos primeiros a apostarem numa cliente com cartão de crédito próprio. Não que o mercado se tenha tornado feminista. Fez apenas o que o capitalismo sabe fazer e reconheceu os frutos económicos da emancipação feminina. Margarida Maldonado Freitas é um bom exemplo dessa mudança. Já nasceu no mundo das que estudaram, trabalharam, ganharam o seu dinheiro e não pedem licença para existir ao lado de um homem com poder.

É verdade que a mulher a subir a calçada não é só a Margarida que pode comprar o que quer. Mesmo num país sem primeira-dama, está ao lado do Presidente. À mulher de César não basta ser; também tem de parecer.

Só que a António José Seguro ninguém cobrou os fatos Canali, que não são propriamente baratos. Felicitou-se a sua entrada bem-sucedida no clube dos homens políticos que se vestem como deve ser e procuram uma boa relação qualidade-preço. Já a indumentária da sua mulher, mesmo em saldo, só pode ser um brioche atirado ao povo pela calçada de Belém. O luxo masculino continua a ser competência. No feminino, é falha moral.

Também convém manusear com cuidado toda essa sensibilidade social. Da sobriedade republicana passa-se, amiúde demasiado depressa, para o Portugal dos pobrezinhos e dos pequeninos. Na investigação jornalística feita ao vestido, achou-se natural ir bater à porta da costureira da mulher do Presidente. Sendo das Caldas, logo havia de se vestir por lá, com a mediação social adequada ao código postal. O que incomoda não é só o preço do vestido. É a quebra de uma certa geografia de classe.

Quando me casei, cheguei à modista com uma página arrancada da “¡Hola!” e um modelo da Valentino para evitar acabar igual à princesa Diana, que ainda era a referência obrigatória em matéria de vestidos de noiva. É bem possível que a Margarida Maldonado tenha feito o mesmo. Nenhuma de nós tinha dinheiro para comprar o figurino da revista. Mas ambas sabíamos que ninguém reinterpretava a elegância clássica tirando-lhe o mofo como o Valentino. Trinta anos depois, faz sentido que passe do recorte da revista ao próprio Valentino. Da cópia ao original, vai toda uma história de emancipação feminina e mobilidade social.

O que se quer de um Presidente de todos os portugueses não é que ele e a mulher se vistam de pedagogia social ambulante. É que façam tudo para que essa história não pare neles. Qualquer que seja o vestido dela e o fato dele.

 https://expresso.pt/opiniao/2026-03-19-uma-maria-antonieta-das-caldas-em-belem

terça-feira, 11 de novembro de 2025

João Mendes - Os homens que odeiam as mulheres

*









As mulheres no geral não são muito racionais, nem sequer têm a capacidade de compreender o bem comum, o bem da nação.

Mas isso não é necessariamente mau, eu não estou a fazer um ataque às mulheres, é importante perceber isto. Isto é da natureza da mulher.

Não há problema em a mulher ser assim. Eu não quero dar a decisão do futuro do meu país às mulheres. Eu acho que elas não têm essa responsabilidade. Porque estão biologicamente desenhadas para ter um filho, para agarrar num filho, para cuidar de um filho, não é para tomar decisões importantes para o futuro de um país.

É bastante consensual que os homens são geralmente mais inteligentes que as mulheres, por isso é que eu acho que só os homens mais inteligentes é que devia votar, como acontecia na Grécia Antiga.

 

Já estiveste em alguma sala com 15 mulheres para ver se acabavam as guerras? Elas fazem guerras entre elas naturalmente. Se eu tiver aqui com 15 homens não há guerra nenhuma nem conflito nenhum. Se tiverem aqui 15 mulheres sozinhas, uma é porque tem o cabelo de uma cor, a outra pintou as unhas, a outra passou à frente na fila, a outra anda com um namorado qualquer. Elas criam conflitos por tudo, as mulheres. Para se entreterem.

 

O voto universal não faz sentido. Eu acho que só deviam votar homens portugueses com propriedades. E mulheres não. Eu acho que mulheres não faz sentido que votem. Desde que demos o voto às mulheres, foi a pior coisa que fizemos nos últimos 100 anos na civilização ocidental. Eu não tenho problema nenhum e dizer isto, julguem-me à vontade, eu sei que estou certo.

Transcrevi, a custo, estas palavras de um pirralho de 25 anos que lidera um grupo de extremistas com ideias deste calibre. Trata-se de Afonso Gonçalves, líder da Reconquista, uma organização fundamentalista de inspiração neofascista e neonazi.

Nunca trabalhou, nunca fez nada de útil pela sociedade, mas isso foi o suficiente para ser acarinhado por figuras de primeira linha do CH, pela sua jota e por pessoas como Miguel Milhão, dono da Prozis, que deu palco no seu podcast para estas e outras ideias igualmente repugnantes.

Parabéns ao MaiaSport por dar palco a esta gente no passado fim-de-semana.

E parabéns às mulheres que acham que é por aqui que as suas vidas vão melhorar.

E sim, as ligações entre esta gente o CH são mais que muitas. Estiveram lá eleitos do CH, assessores e oradores ligados ao partido.

Este congresso de extremistas-mirins foi de tal forma surreal, que conseguiu abafar um facto bizarro: também na Maia, no fim-de-semana passado, realizou-se um festival de música da organização neonazi Blood & Honour.

No salão paroquial de uma igreja católica.

Repito: no salão paroquial de uma igreja católica.

Batemos no fundo?

Ainda não.

Isto ainda vai piorar antes de melhorar.

***
Imagens  da responsabilidade de VN
https://aventar.eu/2025/11/11/os-homens-que-odeiam-as-mulheres/#more-1367999

sábado, 24 de fevereiro de 2024

Atenção, atenção! A comunicação social confirma que só existem 6 jovens no país

 EDITORIAL|COMUNICAÇÃO SOCIAL

AbrilAbril

         

23 DE FEVEREIRO DE 2024

O debate sobre a falta de representatividade dos jovens acabou. A comunicação social dominante resolveu esse problema e encontrou os únicos seis jovens que, aparentemente, existem. Repetem a cassete, mas com laivos joviais para suavizar.

Longe vão os tempos onde se falava da falta de representatividade juvenil nos espaços de comentário político. Recentemente, esse problema foi sanado e os órgãos de comunicação social conseguiram encontrar os únicos jovens que, aparentemente, existem. Andavam escondidos na camada oprimida da fina flor do comentário no Twitter, mas finalmente foi-lhes consagrado um espaço mediático à altura das suas ambições, para poder dizer tudo aquilo que a sua geração quer dizer.

Bem, talvez não seja uma geraçãoTalvez seja o que a sua classe quer dizer. Dizem apenas o que é repetido em todo o lado pela narrativa dominante, mas fazem-no de uma forma muito descontraída, desapegada e alegadamente irreverente. O ar jovial conjugado com uma boa articulação discursiva, sem deixar de lado a testa franzida para aparentar seriedade, dá aos jovens premiados com este lugar de fala um passaporte para nada de importante acrescentar.

A reboque destes elementos vem a replicação de tudo o que já é dito em todos os espaços de comentário, inclusive praticar o mesmo tipo de revisionismo histórico e desonestidade intelectual. Veja-se o exemplo do mais recente podcast do Expresso, o «Lei da Paridade». Apresentado por Adriana Cardoso, hoje jovem «apartidária», mas que nasceu no seio da Iniciativa Liberal; Maria Castelo Branco, ex-militante da Juventude Popular, agora militante da Iniciativa Liberal e ex-jovem promessa; e Leonor Rosas, militante do Bloco de Esquerda e candidata à Assembleia da República pelo círculo eleitoral de Lisboa.

O podcast que teve o seu começo na TSF, regressou agora ao jornal de Pinto Balsemão. Neste importante retorno, até às eleições legislativas serão entrevistadas mulheres do BE, IL, PS, AD. Segundo Adriana Cardoso foram excluídos «evidentemente desta conta partidos que não são feministas». Uma escolha caricata já que são jovens que são vendidas como bem informadas, mas parece que deliberadamente se esqueceram do importante e determinante papel do PCP na luta emancipatória das mulheres ao longo dos seus mais de 100 anos de história. 

Nas redes sociais, quando confrontada com este facto, Adriana Cardoso usa como argumento o facto de serem «os 4 partidos com mais intenção de voto» e não haver «espaço nem episódios infinitos até às próximas eleições». Um critério nunca antes visto. Uma escolha editorial clara que visa beneficiar determinados partidos e apagar outros. A suposta jovialidade é usada para repetir as manobras de apagamento e o revisionismo histórico. 

Neste ramalhete temos ainda o caso de João Maria Jonet com espaço assíduo na SIC Notícias. Habilidoso com metáforas, supostamente irreverente, vende-se como um militante de base PSD com uma voz própria. É uma espécie de jovem Pacheco Pereira que, no momento certo, não hesita em esgrimir um conjunto chavões analíticos que dão jeito à narrativa dominante. Defende a NATO, define-se «americanista» e promove a União Europeia. Invoca sempre a social-democracia para aparentar a moderação, mas no final do dia, não falta à chamada dos projectos mais reaccionários e nebulosos como os de Luís Newton e Carlos Moedas. 

Surge ainda o «jovem» Gaspar Macedo. As aspas não são inocentes. É que Gaspar Macedo, passista assumido e militante do PSD, parece ter saido de um governo de Cavaco Silva, arrancado por uma máquina do tempo directamente dos anos 80. Viralizou nas redes sociais com vídeos pequenos com música de fundo épica onde "debatia" contra alguém, sendo que estava sempre a falar sozinho. Nesses vídeos, falava do orgulho nacional, dos heróis da pátria desprezados, e em todas as teses de Nostradamus aplicadas à realidade nacional. No momento da responsabilização, sem colocar quais os reais problemas, apaga a responsabilidade do PSD e só sabe falar do PS. A CNN viu nele um pequeno Tucker Carlson e, neste momento, tem espaço de comentário com a Joana Amaral Dias. 

Por fim, há ainda o já renomado Sebastião Bugalho. Jornalista reformado que quase exclusivamente escrevia sobre o partido da extrema-direita em Portugal (com dezenas de artigos sobre o assunto nos dois anos em que exerceu funções), integrou as listas do CDS-PP à Assembleia da República, a convite de Assunção Cristas, e tem actualmente espaço fixo de comentário na SIC Notícias e um podcast no Expresso. Apresenta-se como uma alma velha, algo que corresponde também à visão política que transpõe para o seu comentário. Recentemente comprou a heróica batalha de defender Diogo Pacheco de Amorim e de apagar os crimes do MDLP. Nas análises que fez aos debates, talvez por defender colégios privados, inflaccionou sempre as notas dadas dos candidatos dos partidos de direita. Cada análise do jovem Bugalho parece saída de um antiquário, cumprindo o papel que lhe foi destinado no grupo Impresa. 

Parece que estes são os únicos jovens que existem no país. Quem não tem lugar de comentário é o jovem que não tem professor numa disciplina, que estuda na Escola Pública e está numa turma sobrelotada. Quem não tem lugar no espaço opinativo é o jovem que tem dificuldade a pagar as propinas, alojamento e alimentação. Quem não tem direito à palavra é o jovem que recebe o salário mínimo e tem um vínculo precário. Quem não interessa ouvir é o jovem que tem actividade sindical e se assume de esquerda. Quem é ignorado é o jovem que vê um mundo que pode ser transformado e dá a sua vida por essa transformação. Esses jovens não existem. Só existem seis jovens e nenhum deles é o jovem real. São, enfim, jovens de uma outra classe. 

https://www.abrilabril.pt/nacional/atencao-atencao-comunicacao-social-confirma-que-so-existem-6-jovens-no-pais


quarta-feira, 8 de março de 2017

MULHER, de José Carlos Ary dos Santos

* Ary dos Santos

A mulher não é só casa
mulher-loiça, mulher – cama
ela é também mulher-asa,
mulher-força, mulher-chama
E é preciso dizer
dessa antiga condição
a mulher soube trazer
a cabeça e o coração
Trouxe a fábrica ao seu lar
e ordenado à cozinha
e impôs a trabalhar
a razão que sempre tinha
Trabalho não só de parto
mas também de construção
para um filho crescer farto
para um filho crescer são
A posse vai-se acabar
no tempo da liberdade
o que importa é saber estar
juntos em pé de igualdade
Desde que as coisas se tornem
naquilo que a gente quer
é igual dizer meu homem
ou dizer minha mulher

sexta-feira, 3 de junho de 2016

poesia de Geir Campos

Cultura 


3 de junho de 2016 - 16h38 

Cantigas de acordar mulher

 Em 1962, ele foi um dos organizadores, juntamente com outro poeta, Moacyr Félix, dos Cadernos do Povo Brasileiro, Violão de Rua, publicados pelo Centro Popular de Cultura (CPC) da Une juntamente com a editora Civilização Brasileira. Suas Cantigas de Acordar Mulher – na verdade oito poemas – mantém, passado meio século, toda atualidade poética, política e social, sendo uma veemente condenação da opressão, uma exaltação da igualdade e da liberdade da mulher.

Prosa Poesia e Arte selecionou algumas delas:
4ª cantiga de acordar mulher 

Bom é sorrires, olhar
em mim: não vês
o inimigo, o rival
jamais.
Na caça, não serás
a presa; não serás,
no jogo, a prenda.
Partilharemos, sem meias
medidas,
a espera, o arroubo, o gesto,
o salto, o pouso e o sono
e o gosto desse rir
dentro e fora do tempo
sempre que nova
............................mente
Acordares


7ª Cantiga de acordar mulher

Se te chamarem flor
toma cuidado:
vê se não é gente que te quer por
numa redoma – lindo objeto – a vegetar
alheia a tempo e lugar!

Se te chamarem flor,
acorda e toma cuidado:
olha que te levam para o mesmo lado
de tanto destino mal-aventurado!


8ª Cantiga de acordar mulher

Vozes da esquerda, surdas,
e vozes da direita, afinadíssimas,
hão de louvar-te a arte
de ser mulher:
mansa como uma ovelha,
jeitosa como uma gata de luxo,
dócil e generosa como uma árvore
a se multiplicar em sombra e frutos,
como uma estátua impassível,
hábil de acordo com as conveniências,
e acima disso
crente em ser esse o teu ideal de vida…
Acorda: pois foi essa
a sorte que escolheste?


9ª cantiga de acordar mulher

Um dia te acharás
sem inteirar a casa:
ouvirás o marido ressonando,
os filhos dormindo em calma…
O espelho te acenará,
te lembrará coisas da mocidade,
coisas da meninice,
te mostrará vindas algumas rugas;
contemplarás o espelho,
o quarto, a casa;
perguntarás por ti mesma,
pelo teu próprio destino
— e o espelho fará silêncio:
será o sinal de estares acordando. 

Do Portal Vermelho
http://www.vermelho.org.br/noticia/281834-1

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Pesadelo numa noite de primavera, e logo com o fantasma de Simone de Beauvoir ao lado

. . .




9 de Maio de 2016, 08:27

Por


E
stava um meu amigo a dormir tranquilamente numa destas chuvosas noites de primavera quando lhe entrou pelo sonho dentro uma figura imponente: ele próprio, regressado do seu passado. Mais jovem, cheio de ilusões e de generosidade, ia transformar o mundo, lia tudo, conversava sobre tudo. Vinha acompanhado de uma senhora de meia idade, “trouxe a Simone de Beauvoir para te lembrar as minhas leituras, tanto que eu discuti o Segundo Sexo no meu tempo”, disse logo para o seu eu mais velho, ali deitado e perplexo.

Achas tu que, como dizia o Dr. Johnson, a mulher é “um cão andando sobre as patas traseiras” (p.137, vol. 1)?, perguntou de chofre ao seu velho eu. Não, como te atreves a perguntar tal baboseira, murmurou o visado, naturalmente desconfiado do que vinha a seguir. Foi inútil a negação, o eu mais jovem continuou a insistir: achas que, como Rousseau, “toda a educação da mulher deve ser relativa ao homem. A mulher é feita para ceder ao homem e suportar-lhe as injustiças” (p.140), ou que, como no “Emílio”, o homem deve ser educado para a causa pública, mas que Sofia deve ser educada para a causa privada de cuidar de Emílio? Nem esperou pela resposta e persistiu: achas, como Comte, que a feminilidade é uma “infância contínua” ou, como Balzac, que “o destino da mulher e a sua única glória são fazer bater o coração dos homens” (p.144)?
Nem um sussurro e o eu jovem martelou mais uma vez: lembras-te do que leste no Segundo Sexo sobre a genealogia da discriminação? Eu sei, porque eu sou tu, que nunca leste o Aristóteles, menos ainda o Tomás de Aquino, mas leste o que o Segundo Sexo resumiu deles?, e virou-se para Simone. Ela riu-se e citou: para Aristóteles, “a fêmea é fêmea em virtude de uma certa carência de qualidades. Devemos considerar as mulheres como sofrendo de certa deficiência natural” e, para São Tomás de Aquino, ela é só um ser “ocasional” e “incompleto” (p.10). Este é o eterno discurso da supremacia masculina e foi ele que moldou a nossa história e a nossa civilização bem como a linguagem que falamos, disse o jovem, era isto que tu dizias quando ainda não tinhas esquecido tudo.
Mas eu, a igualdade, tanto que respeito as mulheres, ama o teu próximo, etc. e tal, atreveu-se o velho… Deixa-te de coisas, atalhou o mais jovem, essa lenda do amar o próximo é a semântica da submissão, não te vais atrever agora a dizer-me que a mulher nasceu de uma costela do Adão, pois não? Se queres ser exacto, riu-se Simone, todos os homens é que nasceram do útero de alguma mulher, mas “a sociedade codificada pelos homens decreta que a mulher é inferior” (p.552, vol.2).
O eu jovem sentou-se à beira da cama do eu velho, deixa-me lembrar-te o que leste, nessa altura repetias a frase como se fosse um refrão, ela era tão importante para ti: “Ninguém nasce mulher: torna-se mulher. Nenhum destino biológico, psíquico, económico, define a forma que a fêmea humana assume no seio da sociedade; é o conjunto da civilização que elabora esse produtor intermédio entre o macho e o castrado que qualificamos de feminino. Só a medição de outrem pode constituir um indivíduo como um outro” (p.13, vol. 2).
Mas então são iguais, não há diferenças?, tentou o mais velho, agora o mundo é plano, repetem-me ideias de há cinquenta anos e querem que eu fique ancorado no passado? Tudo tretas, querem acabar com a língua portuguesa, isto tem regras, temos que obedecer ao que está fixado nos tratados e nas gramáticas, é assim e sempre há-de ser assim para todo o sempre, foi acrescentando.
Deixa-te de superficialidades, lembrou-lhe Simone, eu escrevi e na altura tu concordavas, como concordavas!, que “Haverá sempre certas diferenças entre o homem e a mulher; tendo o seu erotismo, o seu mundo sexual, uma figura singular, não poderá deixar de engendrar nela uma sensualidade, uma sensibilidade singular: as relações com o seu corpo, o corpo do homem, o filho, nunca serão idênticas às que o homem mantém com o seu corpo, o corpo feminino, o filho; os que tanto falam de ‘igualdade na diferença’ mostrar-se-iam de má fé em não admitir que possam existir diferenças na igualdade” (p.567, vol. 2). Claro que há diferenças, enormes, são a vida, mas algumas dessas diferenças são construídas e impostas de modo que a mulher não se reconheça, que se aceite como inferior, como parte do homem.
Os modos de comportamento, a educação, o discurso público, a selecção social, as normas e muitas vezes as leis criaram essa personagem que é a mulher subordinada e submissa. Até te digo mais, acrescentou Simone de Beauvoir, já cansada do susto do eu velho com o que o eu jovem tinha lido, lê de novo: “A mulher reconhece que o universo, no seu conjunto, é masculino; os homens modelaram-no, dirigiram-nos e ainda hoje o dominam” (p. 416, vol. 2).
Já sabia que era aí que querias chegar, rezingou o velho. Pois tens razão, era mesmo aí que eu queria chegar. Lembras-te do que leste e concordavas: “O homem representa a um tempo o positivo e o neutro, a ponto de dizermos ‘os homens’ para designar os seres humanos. (…) O homem é o Sujeito, o Absoluto; ela é o Outro” (p. 9-10, vol. 1). Leste bem, disse o jovem, lê outra vez: “O homem representa a um tempo o positivo e o neutro, a ponto de dizermos ‘os homens’ para designar os seres humanos. (…) O homem é o Sujeito, o Absoluto; ela é o Outro.”
Que espanto, acrescentou Simone, a mulher tornou-se invisível, o que não é dito não existe, pois a linguagem é uma forma de selecionar o discurso e ele pode ser opressivo e muitas vezes desprezante: se o Homem é o Sujeito, a Mulher desapareceu, é o resíduo do sujeito. Podemos por isso começar por falar de nós própria para que sejamos ouvidas e para isso usaremos a linguagem em que existimos. Vais ouvir-me muitas vezes, segredou então ao eu mais velho.
Foi só então que o eu velho acordou, estremunhado. O pior pesadelo dos últimos anos, porque o seu terror era ele próprio. Nada mais assustador do que fazer contas consigo mesmo. Levantou-se, banhou-se, matabichou e foi para o trabalho. Ainda bem que me esqueci de tudo o que pensei, a vida é mais fácil assim, tudo gramática e nada de tretas, resmungou. Assim é e assim será para todo o sempre.
http://blogues.publico.pt/tudomenoseconomia/2016/05/09/pesadelo-numa-noite-de-primavera-e-logo-com-o-fantasma-de-simone-de-beauvoir-ao-lado/

sábado, 12 de março de 2016

António Lobo Antunes - as mulheres têm os fios desligados

* António Lobo Antunes

Há uns tempos a Joana,
- Pai, acabei um namoro à homem.
Perguntei como era acabar um namoro à homem e vai a miúda
- Disse-lhe o problema não está em ti, está em mim.
O que me fez pensar como as mulheres são corajosas e os homens cobardes. Em primeiro lugar só terminam uma relação quando têm outra. Em segundo lugar são incapazes de
- Já não gosto de ti
de
- Não quero mais
chegam com discursos vagos, circulares
- Preciso de tempo para pensar
- Não é que não te amo, amo-te, mas tenho de ficar sozinho umas semanas
ou declarações do género de
- Tu mereces melhor do que eu
- Estive a reflectir e acho que não te faço feliz
- Necessito de um mês de solidão para sentir a tua falta
e aos amigos
- Dá-me os parabéns que lá me consegui livrar da chata
- Custou-me mas foi
- Amandei-lhe daquelas lérias do costume e a gaja engoliu
- Chora um dia ou dois e passa-lhe
e pergunto-me se os homens gostam verdadeiramente das mulheres. Em geral querem uma empregada que lhes resolva o quotidiano e com quem durmam, uma companhia porque têm pavor da solidão, alguém que os ampare nas diarreias, nos colarinhos das camisas e nas gripes, tome conta dos filhos e não os aborreça. Não se apaixonam: entusiasmam-se e nem chegam a conhecer com quem estão. Ignoram o que ela sonha, instalam-se no sofá do dia a dia, incapazes de introduzir o inesperado na rotina, só são ternos quando querem fazer amor e acabado o amor arranjam um pretexto para se levantar
(chichi, sede, fome, a janela de que se esqueceram de baixar o estore)
ou fingem que dormem porque não há paciência para abraços e festinhas,
pá, e a respiração dela faz-me comichão nas costas, a mania de ficarem agarradas à gente, no ronhónhó, a mania das ternuras, dos beijos, quem é que atura aquilo? Lembro-me de um sujeito que explicava
- O maior prazer que me dá ter relações com a minha mulher é saber que durante uma semana estou safo
e depois pegam-nos na mão no cinema, encostam-se, colam-se, contam histórias sem interesse nenhum que nunca mais terminam, querem variar de restaurante, querem namoro, diminutivos, palermices e nós ali a aturá-las. O Dinis Machado contava-me de um conhecedor que lhe aclarava as ideias
- As mulheres têm fios desligados
e um outro elucidou-me que eram como os telefones: avariam-se sem que se entenda a razão, emudecem, não funcionam e o remédio é bater com o aparelho na mesa para que comecem a trabalhar outra vez. Meu Deus, que pena me dão as mulheres. Se informam
- Já não gosto de ti
se informam
- Não quero mais
aí estão eles a alterarem a agressividade com a súplica, ora violentos ora infantis, a fazerem esperas, a chorarem nos SMS a levantarem a mãozinha e, no instante seguinte, a ameaçarem matar-se, a perseguirem, a insistirem, a fazerem figuras tristes, a escreverem cartas lamentosas e ameaçadoras, a entrarem pelo emprego dentro, a pegarem no braço, a sacudirem, a mandarem flores eles que nunca mandavam flores, a colocarem-se de plantão à porta dado que aquela puta há-de ter outro e vai pagá-las, dispostos a partes-gagas, cenas ridículas, gritos. A miséria da maior parte dos casais, elas a sonharem com o Zorro, com o Che Guevara ou eles a sonharem com o decote da vizinha de baixo, de maneira que ao irem para a cama são quatro: os dois que lá se deitam e os outros dois com quem sonham. Sinceramente as minhas filhas preocupam-me: receio que lhe caia na sorte um caramelo que passe à frente delas nas portas, não lhes abra o carro, desapareça logo a seguir por chichi-sede-fome-persiana-mal-descida-e-os-ladrões-percebes, não se levante quando entram, comece a comer primeiro e um belo dia
(para citar noventa por cento dos escritores portugueses)
- O problema não está em ti, está em mim
a mexerem na faca à mesa ou a atormentarem a argola do guardanapo, cobardes como sempre. Não tenho nada contra os homens: até gosto de alguns. Dos meus amigos. De Shubert. De Ovídio. De Horácio, de Virgílio. De Velásquez. De Rui Costa. De Einzenberger. Razoável, a minha colecção. Não tenho nada contra os homens a não ser no que se refere às mulheres. E não me excluo: fui cobarde, idiota, desonesto.
Fui
(espero que não muitas vezes)
rasca.
Volta e meia surge-me na cabeça uma frase de Conrad em que ele comenta que tudo o que a vida nos pode dar é um certo conhecimento dela que chega tarde demais. Resta-me esperar que ainda não seja tarde para mim. A partir de certa altura deixa-se de se jogar às cartas connosco mesmos e de fazer batota com os outros. O problema não está em ti, está em mim, que extraordinária treta. Como os elogios que vêm logo depois: és inteligente, és sensível, és boa, és generosa, oxalá encontres etc., que mulher não ouviu bugigangas destas? Uma amiga contou-me que o marido iniciou o discurso habitual
- Mereces melhor que eu
levou como resposta
- Pois mereço. Rua.
Enfim, mais ou menos isto, e estou a ver a cara dele à banda. Nem uma lágrima para amostra. Rua. A mesma lágrima para amostra. Rua. A mesma amiga para uma amiga sua
- O que faço às cartas de amor que me escreveu?
e a amiga sua
- Manda-lhas. Pode ser que lhe façam falta.
Fazem de certeza: é só copiar mudando o nome. Perguntei à minha amiga
- E depois de ele se ir embora?
- Depois chorei um bocado e passou-me.
Ontem jantámos juntos. Fumámos um cigarro no automóvel dela, fui para casa e comecei a escrever isto. Palavra de honra que na janela uma árvore a sorrir-me. Podem não acreditar mas uma árvore a sorrir-me.



http://jardimdasdelicias.blogs.sapo.pt/as-mulheres-tem-fios-desligados-923037

quarta-feira, 9 de março de 2016

Maria Velho da Costa - Cravo de Abril


8 DE MARÇO DE 2016
MANUEL AUGUSTO ARAUJO

No DIA INTERNACIONAL DA MULHER, um texto luminoso de Maria Velho da Costa e uma pintura de Teresa Dias Coelho. Nada melhor que recorrer a duas amigas que são duas mulheres artistas de rara qualidade.



Mãos ~ Teresa Dias Coelho 

 A relação entre o homem e a mulher

é a relação imediata, natural e necessária

do homem com o homem.

  KARL MARX



RECONSTITUIÇÃO DA FORÇA DE TRABALHO

Elas são quatro milhões, o dia nasce, elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café. Elas picam cebolas e descascam batatas. Elas migam sêmeas e restos de comida azeda. Elas chamam ainda escuro os homens e os animais e as crianças. Elas enchem lancheiras e tarros e pastas de escola com latas e buchas e fruta embrulhada num pano limpo. Elas lavam os lençóis e as camisas que hão-de suar-se outra vez. Elas esfregam o chão de joelhos com escova de piaçaba e sabão amarelo e correm com os insectos a que não venham adoecer os seus enquanto dormem. Elas brigam nos mercados e praças por mais barato. Elas contam centavos. Elas costuram e enfiam malhas em agulhas de pau com as lãs que hão-de manter no corpo o calor da comida que elas fazem. Elas vêm com um cântaro de água à cinta e um molho de gravetos na cabeça. Elas limpam as pias e as tinas e as coelheiras e os currais. Elas acendem o lume. Elas migam hortaliça. Elas desencardem o fundo dos tachos. Elas passajam meias e calças e camisas e outra vez meias. Elas areiam o fogão com palha de aço. Elas calcorreiam a cidade a pé e à chuva porque naquele bairro os macacos são caros. Elas correm esbaforidas para não perder o comboio, o barco. Elas pousam o cesto e abrem a porta com a mão vermelha. Elas põem a tranca no palheiro. Elas enterram o dedo mínimo na galinha a ver se tem ovo. Elas acendem o lume. Elas mexem o arroz com um garfo de zinco. Elas lambem a ponta do fio de linha para virar a camisa. Elas enchem os pratos. Elas pousam o alguidar na borda da pia para aguentar. Elas arredam a coberta da cama. Elas abrem-se para um homem cansado. Elas também dormem.

2.REPRODUÇÃO DA FORÇA DE TRABALHO

Elas vão à parteira que lhes diz que já vai adiantado. Elas alargam o cós das saias. Elas choram a vomitar na pia. Elas limpam a pia. Elas talham cueiros. Elas passam fitilhos de seda no melhor babeiro. Elas andam descalças que os pés já não cabem no calçado. Elas urram. Elas untam o mamilo gretado com um dedal de manteiga. Elas cantam baixinho a meio da noite a niná-los para que o homem não acorde. Elas raspam as fezes das fraldas com uma colher romba. Elas lavam. Elas carregam ao colo. Elas tiram o peito para fora debaixo de um sobreiro. Elas apuram o ouvido no escuro para ver se a gaiata na cama ao lado com os irmãos não dá por aquilo. Elas assoam. Elas lavam joelhos com água morna. Elas cortam calções e bibes de riscado. Elas mordem os beiços e torcem as mãos, a jorna perdida se o febrão não desce. Elas lavam os lençóis com urina. Elas abrem a risca do cabelo, elas entrelaçam. Elas compram a lousa e o lápis e a pasta de cartão. Elas limpam rabos. Elas guardam uma madeixita entre dois trapos de gaze. Elas talham um vestido de fioco para uma boneca de papelão escondida debaixo da cama. Elas lavam as cuecas borradas do primeiro sémen, do primeiro salário, da recruta. Elas pedem fiado popeline da melhor para a camisa que hão-de levar para a França, para Lisboa. Elas vêm trazer um borrego à primeira barraca e ao primeiro neto. Elas poupam no eléctrico para um carrinho de corda.

PRODUÇÃO

Elas sobem para cima de um caixote, que ainda são pequenas para chegar à bancada de descamar o peixe. Elas mondam, os dedos tolhidos de frieira e urtiga. Elas fazem descer a lâmina de cortar o coiro. Elas sopram nos dedos a aquecê-los, esfregam os olhos, voltam a pôr as mãos por detrás da lente a acertar os fios da matriz do transístor. Elas espremem as tetas da vaca para o balde apertado entre as pernas. Elas fecham num dia as pregas de papel de mil pacotes de bolacha. Elas acertam em duzentos casacos a postura da manga onde cravar o botão. Elas limpam o suor da testa com a manga e a foice rebrilha ao sol por cima da cabeça e da seara. Elas ouvem a matraca de dez teares enquanto a peça cresce diante, o fio amandado de braço a braço aberto. Elas cortam os dedos nas primeiras vinte cinco latas até calejar bem. Elas fazem a agulha passar para cá e lá em cruz na tela do tapete. Elas vigiam a última fileira de garrafas, caladas, à espera da sirene. Elas carregam o cesto de azeitona à cabeça já sem cantar, até que o sol se ponha.

SERVIÇOS

Elas carregam no botão da caixa e fazem quinhentos trocos miúdos. Elas metem a cavilha, dizem outro número e passam a vigésima chamada. Elas mexem panelões que lhes chegam à cinta. Elas descem doze caixotes de lixo já noite fechada. Elas fazem todas as camas e despejos de uma família alheia. Elas picam bilhetes metidas numa caixa de vidro. Elas batem à máquina palavras que não entendem. Elas arquivam por ordem alfabética duas mil fichas e vinte e cinco ofícios. Elas vão outra vez buscar a gaveta das luvas para o balcão a ver se há aquele verde. Elas aspiram do pó antes das nove doze assoalhadas e cento e dez degraus de alcatifa. Elas entram na praça manhã cedo, já vindas da lota ajoujadas com o peixe para as bancadas. Elas acertam as bainhas de joelhos, a boca cheia de alfinetes. Elas põem trinta e duas arrastadeiras e tiram sessenta temperaturas. Elas pintam unhas de homem. Elas guardam sanitas e fazem renda em pequenos cubículos sem janela.

TRANSMISSÃO DE IDEOLOGIA

Coisas que elas dizem:

 – Se mexes aí, corto-ta.

– Isso não são coisas de menina.

– O meu homem não quer.

– Estuda, que se tiveres um empregozinho sempre é uma ajuda.

– A mulher quer-se é em casa.

– Isto já vai do destino de cada um.

– Deus não quiz.

– Mas o senhor padre disse-me que assim não.

– Dá um beijinho à senhora que é tão boazinha para a gente.

– Você sabe que eu não sou dessas.

– Estás a dar cabo do teu futuro com uns e com outros.

– Deixa-te disso, o que é preciso é sossego e paz de espírito.

– Comprei uns jeans bestiais, pá.

– Sempre dá para uma televisão daquelas novas.

– Cada um no seu lugar.

– Julgas que ele depois casa contigo?

– Sempre há-de haver pobres e ricos.

– Se tu gostasses de mim não andavas com aquela cabra a gastar o nosso.

– Põe o comer ao teu irmão que está a fazer os trabalhos.

– Sempre é homem.



PRODUÇÃO DE DESEJO

Elas olham para o espelho muito tempo. Elas choram. Elas suspiram por um rapaz aloirado, por duas travessas para o cabelo cravejadas de pedrinhas, um anel com pérola. Elas limpam com algodão húmido as dobras da vagina da menina pensando, coitadinha. Elas escondem os panos sujos de sangue carregadas de uma grande tristeza sem razão. Elas sonham três noites a fio com um homem que só viram de relance à porta do café. Elas trazem no saco das compras uma pequena caixa de plástico que serve para pintar a borda dos olhos de azul. Elas inventam histórias de comadres como quem aventura. Elas compram às escondidas cadernos de romances em fotografias. Elas namoram muito. Elas namoram pouco. Elas não dormem a pensar em pequenas cortinas com folhos. Elas arrancam os primeiros cabelos brancos com uma pinça comprada na drogaria. Elas gritam a despropósito e agarram-se aos filhos acabados de sovar. Elas andam na vida sem a mãe saber, por mais três vestidos e um par de botas. Elas pagam a letra da moto ao que lhes bate. Elas não falam dessas coisas. Elas chamam de noite nomes que não vêm. Elas ficam absortas com a mola da roupa entre os dentes a olhar o gato sentado no telhado entre as sardinheiras. Elas queriam outra coisa.

REVOLUÇÃO

Elas fizeram greves de braços caídos. Elas brigaram em casa para ir ao sindicato e à junta. Elas gritaram à vizinha que era fascista. Elas souberam dizer salário igual e creches e cantinas. Elas vieram para a rua de encarnado. Elas foram pedir para ali uma estrada de alcatrão e canos de água. Elas gritaram muito. Elas encheram as ruas de cravos. Elas disseram à mãe e à sogra que isso era dantes. Elas trouxeram alento e sopa aos quartéis e à rua. Elas foram para as portas de armas com os filhos ao colo. Elas ouviram falar de uma grande mudança que ia entrar pelas casas. Elas choraram no cais agarradas aos filhos que vinham da guerra. Elas choraram de ver o pai a guerrear com o filho. Elas tiveram medo e foram e não foram. Elas aprenderam a mexer nos livros de contas e nas alfaias das herdades abandonadas. Elas dobraram em quatro um papel que levava dentro uma cruzinha laboriosa. Elas sentaram-se a falar à roda de uma mesa a ver como podia ser sem os patrões. Elas levantaram o braço nas grandes assembleias. Elas costuraram bandeiras e bordaram a fio amarelo pequenas foices e martelos. Elas disseram à mãe, segure-me aqui nos cachopos, senhora, que a gente vai de camioneta a Lisboa dizer-lhes como é. Elas vieram dos arrabaldes com o fogão à cabeça ocupar uma parte de casa fechada. Elas estenderam roupas a cantar, com as armas que temos na mão. Elas diziam tu às pessoas com estudos e aos outros homens. Elas iam e não sabiam para aonde, mas que iam. Elas acendem o lume. Elas cortam o pão e aquecem o café esfriado. São elas que acordam pela manhã as bestas, os homens e as crianças adormecidas.


Dezembro de 1975

 in CRAVO, MARIA VELHO DA COSTA, MORAES EDITORES, 1976

https://pracadobocage.wordpress.com/2016/03/08/revolucao-e-mulheres/