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sábado, 23 de abril de 2016

Urariano Mota - Miguel de Cervantes e o Brasil

23 de abril de 2016 - 10h24 

Urariano Mota: Miguel de Cervantes e o Brasil

Neste sábado, completam-se 400 anos do falecimento do gênio Miguel de Cervantes. É claro que só no sentido do corpo físico dizemos que falece um artista máximo da humanidade. O fundamental é que no mundo inteiro hoje se lembra a continuação viva de Cervantes em sua obra-prima, o Dom Quixote. Sem dúvida, o maior e melhor romance já escrito, digno de ser prova da existência do homem, quando mais nada existir.

Por Urariano Mota*




  

Perdoem o que pode parecer uma orquestra de clarins. Se assim parece, compreendam. Um clássico da altura de Miguel de Cervantes é sempre moderno, para nós ele acaba de escrever agora mesmo, nesta hora. Assim, penso não ser um abuso a relação que estabeleço entre o Dom Quixote e o Brasil destes dias, quando uma presidenta honesta sofre impeachment comandado por um desonesto notório. Se não, observem na primeira parte da obra:.


“ – Seja Vossa Mercê servido, meu Senhor Dom Quixote, de me dar o governo da ilha que acabou de ganhar nesta rigorosa pendência; pois, por grande que seja, me sinto com forças de a saber governar, tal e tão bem como qualquer outro que haja governado ilhas no mundo. 


Ao que Dom Quixote respondeu: 


- Sabei, irmão Sancho, que esta aventura e outras semelhantes não são aventuras de ilhas, mas de encruzilhadas, nas quais não se ganha outra coisa senão uma cabeça quebrada, ou uma orelha de menos. Tende paciência, que outras aventuras se nos oferecerão, em que eu vos possa não só fazer governador, como até mesmo coisa melhor”. 


Nem é preciso estabelecer uma relação primária entre a ilha prometida a Sancho Pança, que só existia na imaginação do cavaleiro Dom Quixote, e o Brasil, um continente maior que a fantasia mais delirante. Importa mais o sentido de que o agir político mais de uma vez nos deixa todos em situação de encruzilhadas, nas quais se ganham cabeças quebradas, orelhas de menos e traições a mais. Ao mesmo tempo, como acompanharnosso Brasil, a não ser com a riqueza da literatura, os discursos e votos em nome da honestidade proferidos por corruptos?


“As histórias inventadas tanto têm de boas e deleitosas quanto mais se aproximam da verdade ou de sua semelhança; e as verídicas, quanto mais verdadeiras, melhores são”. Assim falou o augusto cavaleiro na pena de Cervantes. Que belo pensamento e lição literária, que alcança todas as falsificações até hoje, no Congresso e nos livros. As histórias inventadas são boas quanto mais próximas forem da verdade. Quem escreverá sobre estes dias? 


Então cheguemos ao fim: 


“— Ai! — respondeu Sancho Pança, chorando — não morra Vossa Mercê, senhor meu amo, mas tome o meu conselho e viva muitos anos, porque a maior loucura que pode fazer um homem nesta vida é deixar-se morrer sem mais nem mais, sem ninguém nos matar, nem darem cabo de nós outras mãos que não sejam as da melancolia .... Vossa Mercê há-de ter visto nos seus livros de cavalarias ser coisa ordinária derribarem-se os cavaleiros uns aos outros, e o que é hoje vencido ser vencedor amanhã.”


Em seu autorretrato, escreveu um dia o gênio:


"Este, que aqui vedes, boca pequena, dentes nem de mais nem de menos, porque são apenas seis e, ainda assim, em má condição, muito mal dispostos, pois não têm correspondência uns com os outros... que se chama Miguel de Cervantes Saavedra, foi soldado durante muitos anos, escravo por cinco anos e meio e foi aí que aprendeu a ter paciência na adversidade.”


Grato, Cervantes. Com paciência, a dor de hoje também vai passar. 



*Urariano Mota é escritor, pernambucano, jornalista e colunista do Vermelho 

http://www.vermelho.org.br/noticia/279752-1

terça-feira, 8 de março de 2016

Maria, por Urariano Mota



8 de março de 2016 - 9h21 

Dona Maria era o que era, e com isso os homens queriam dizer que ela era a pessoa física apenas, carnes. Deste modo e maneiras eles a viam: mulher – e aqui vai um gênero e universo de entendimento bárbaro -, gorda, baixinha, mas com um aspecto, ar, que não devia ser o da sua condição.

Por Urariano Mota* 

O Filho Renegado de Deus, livro de Urariano.O Filho Renegado de Deus, livro de Urariano. Viam como um contrassenso absoluto aquela pessoa, digo, aquela mulher gorda e baixa, que não se dava conta da sua espécie. Num tempo das divas glamorosas do cinema, num tempo de massacre da beleza anônima dos subúrbios, dona Maria não passava de “uma albacora”. Crua, essa palavra além da redução a um peixe, pois mulheres apenas se comiam e se tornar alimento era sua razão de ser, tal definição, difamação, amesquinhava-a numa coisa aquém do que entendiam o gênero feminino, pois era, além de mulher, gorda e baixinha, larga como as albacoras, que não eram uma dieta ideal para os comedores de carne bovina. Peixe gordo, congelado, a se comer apenas nas sextas-feiras santas, em sinal de penitência. 

É curioso, no entanto, como as mulheres vizinhas possuíam de Maria outra visão. Elas a reconheciam como uma senhora decidida, solidária e resguardada de merecer piedade. Ela rejeitava, “me repugna”, como dizia, qualquer piedade para a sua condição. Mulher brava, de coragem e de raiva. Do gênero e da forma daqueles bravos a quem os fracos não temem, porque sabem que essa bravura se dirige somente contra o injusto mais forte. Lídia, a sua jovem comadre, dela falaria na lembrança em 2012: “Ela era uma mulher bonita, de rostinho redondo, com os olhos pequeninos, muito vivos. Para mim, era uma boneca índia”. E com os olhos rasos d’água se balançava na cadeira, como a lembrar em silêncio a injustiça que atravessa a vida de mulheres como Maria, uma injustiça que também era feita contra Lídia, depois de passar por fracassados casamentos. “Dona Maria era muito bonita, com os olhos miúdos, negrinhos”, repete. E cala, e embarga a voz. “Vocês não querem sapoti? Tá fresquinho”, oferece. 

No filho de Maria dá uma brutal vontade de abraçar Lídia, de lhe dizer “eu compreendo os seus sapotis, eu compreendo a sua dor, eu sei da sua infelicidade, eu sei do que você não se queixa, do que a magoa, eu sei, amiga da minha mãe”. E mais, amarga como uma proposta e uma promessa que é uma formulação de princípio: “Eu não vou calar o seu mundo”. Ele sabe, e não diz nem a si mesmo, que revê em Lídia aquela mulher que se foi tão pletórica, vermelha, no vigor e sangue farto na altura dos seus 30 anos. Ah, é da sua natureza a reencarnação, ah, é do seu gênero, gênese e ser de transmigração, como se o espírito quisesse um novo corpo para uma vida que não foi possível. Dói nele uma dorzinha doce e fina porque Lídia não é a sua mãe, mas por ela será capaz de a ouvir e de lhe falar. Com a intensidade aguda de um violino em uma romanza, naquela, ele sabe, guardada em silêncio, naquela maldita e fina romanza número 2 em fá maior. Porque tudo então lhe recorda a senhora gorda, albacora, brava e bonita como uma bonequinha índia. Para o filho, sempre como uma mulher toda e tão só ternura. Desde 1956, passando por 1957, 1958, os anos da sua terra de felicidade, ele a guardaria nos traços e feições. Uma guarda de modo inconsciente. Era um modo retrato, daqueles no porta-retratos, em que só aparecem definidas as linhas do rosto até o pescoço, o que era um modo geral dos porta-retratos, e ao mesmo tempo, em Maria, uma exclusão, pois lhe negavam a totalidade do corpo. Ele a veria, fortalecido na lembrança por aquele retrato, como o rosto da mulher brava que era só suavidade.

Nota: Para o Dia Internacional da Mulher, recorto um trecho do romance O Filho Renegado de Deus. 

*Publicado originalmente no Diário de Pernambuco, 8 de março de 2016

http://www.vermelho.org.br/noticia/277295-11

sábado, 7 de novembro de 2015

Urariano Mota: Dom Quixote, o aniversário do maior clássico

6 de novembro de 2015 - 12h25 


O mundo culto celebra neste 2015 os 400 anos da publicação da segunda parte do Dom Quixote. A primeira edição foi publicada em 1605, a segunda em 1615. Na wikipédia o resumo das simplificações na internet se escreve:


Arquivo
 




O Dom Quixote é considerado a grande criação de Cervantes. O livro é um dos primeiros das línguas européias modernas e é considerado por muitos o expoente máximo da literatura espanhola.” 

É muita modéstia para um dos maiores gênios que já houve. Ele é o expoente de toda literatura moderna. 

Como lembra a jornalista Sylvia Colombo:

“Esta segunda parte, que se celebra agora, traz a particularidade de levantar questões em torno do conceito de ‘autor’ e ‘personagem’, assim como sobre o significado a autoria naqueles tempos em que releituras e apropriações eram tão comuns. É preciso lembrar que Cervantes não tinha intenção de escrever esse segundo volume do Quixote até que o sucesso do primeiro provocasse uma enxurrada de obras apócrifas protagonizadas por seu herói. Quando veio à tona a de um Alonso Fernández de Avellaneda, publicada em 1614, fazendo imenso sucesso, Cervantes se incomodou e contra-atacou com a sua versão da continuação das aventuras do cavaleiro. Nela, denunciava de maneira irônica a versão apócrifa dentro da própria narrativa. A Espanha que surge nessa segunda parte também já é uma Espanha diferente, menos rural e migrando para as cidades.”

E aqui eu cito o maior criador da literatura que já houve, quando faz o seu personagem criticar a falsificação do Dom Quixote

“... seu dia de São Martinho há de chegar, como o chega a todo porco, pois as histórias inventadas tanto têm de boas e deleitosas quanto mais se aproximam da verdade ou de sua semelhança; e as verídicas, quanto mais verdadeiras, melhores são.” Que belo pensamento e lição literária, que alcança todas as falsificações literárias até hoje, em escritores vazios de experiência mas cheios da pretensão de possuírem uma fantasia imensa. As histórias inventadas são boas quanto mais próximas forem da verdade. 

Mas espero que por favor se evitem, no grande aniversário da segunda parte do Dom Quixote, as linhas de Cervantes recontadas, um crime não faz muito cometido por Ferreira Gullar. Como declarou Gullar ao Estadão: “Os diálogos longos e as descrições foram enxugadas”. Isso lembra mais um copidesque na velha redação do jornal. Brincadeira. A pretexto de um didatismo que pressupõe incapacidades, penso que não se deve adaptar um clássico para versões em quadrinhos ou a leituras mais simplificadas. Será o mesmo que furtar uma riqueza, na vã presunção de que um adolescente não entenda a imensa diversão que é ler Cervantes. E teremos um crime de falsificação, enfim. Todo jovem que ler essa adaptação pensará que conhece o Dom Quixote. 

No original de Cervantes, por exemplo, está escrito: 

“y más cuando llegaba a leer aquellos requiebros y cartas de desafíos, 
donde en muchas partes hablaba escrito: La razón de la sinrazón que a mi razón se hace, de tal manera mi razón enflaquece, con que con razón me quejo de la vuestra fermosura. Y también cuando leía: los altos cielos que de vuestra divindad divinamente con las estrellas os fortifican y os hacen merecedora del merecimiento que merece la vuestra grandeza. Con estas razones perdía el pobre caballero el juicio. .”

Mas em Ferreira Gullar para o mesmo trecho:

“Encantado com a clareza da prosa e os volteios do estilo, o pobre cavaleiro foi perdendo o juízo”. 

Viram? Perderam-se a graça e a ironia magnífica de Cervantes. 

E aqui lembro o que observei uma vez sobre as adaptações de Machado de Assis para jovens: 

“Adaptar um clássico é o mesmo que esconder dos jovens o melhor do escritor, porque não se acredita que um adolescente seja tão inteligente quanto o indivíduo que adapta. Imaginem, é exatamente o contrário. Note-se que o problema não é só de forma, de linguagem, dos dribles, firulas e recursos de linguagem, é da visão de mundo enformada nessa prosa, inseparável.”

Quem assim age é semelhante ao personagem da anedota em que Einstein foi solicitado por um repórter, que insistente pedia A Teoria da Relatividade mais palatável. O paciente cientista se pôs então a explicar a sua teoria em palavras mais simples, recorrendo a imagens do cotidiano. E perguntava:

– Entendeu?

E o repórter respondia:

– Doutor Einstein, eu, sim. Mas os leitores… não haverá um modo mais simples na Relatividade? 

E o cientista voltava com novos recursos de imagens, para perguntar depois de bom tempo:

– Entendeu?

E o repórter, finalmente satisfeito:

– Sim, agora, sim.

E o grande Einstein desalentado:

– É, mas já agora não é a Teoria da Relatividade. 

Ou seja, o Dom Quixote recontado pode ser tudo, mas já não será o Dom Quixote. Espero que a celebração entre nós se dê pelo original, que é impagável.