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segunda-feira, 20 de setembro de 2021

José Mário Branco- Ronda do Soldadinho

* José Mário Branco
 
1.
Um e dois e três
Era uma vez
Um soldadinho
De chumbo não era
Como era
O soldadinho
 
Um menino lindo
Que nasceu
Num roseiral
O menino lindo
Não nasceu
P'ra fazer mal
 
Menino cresceu
Já foi à escola
De sacola
Um e dois e três
Já sabe ler
Sabe contar
 
Menino cresceu
Já aprendeu
A trabalhar
Vai gado guardar
Já vai lavrar
E semear
 
2.
Um e dois e três
Era uma vez
Um soldadinho
De chumbo não era
Como era
O soldadinho
 
Menino cresceu
Mas não colheu
De semear
Os senhores da terra
O mandam p'rà guerra
Morrer ou matar
 
Os senhores da guerra
Não matam
Mandam matar
Os senhores da guerra
Não morrem
Mandam morrer
 
A guerra é p'ra quem
Nunca aprendeu
A semear
É p'ra quem só quer
Mandar matar
Para roubar
 
3.
Um e dois e três
Era uma vez
Um soldadinho
De chumbo não era
Como era
O soldadinho
 
Dancemos meninos
A roda
No roseiral
Que os meninos lindos
Não nascem
P'ra fazer mal
 
Soldadinho lindo
Era o rei
Da nossa terra
Fugiu para França
P'ra não ir
Morrer na guerra
 
Soldadinho lindo
Era o rei
Da nossa terra
Fugiu para França
P'ra não ir
Matar na guerra
 
In: José Mário Branco (1969),  A Ronda do Soldadinho 

quarta-feira, 22 de julho de 2020

José Mário Branco - o charlatão



Numa rua de má fama
faz negócio um charlatão
vende perfumes de lama
anéis d'ouro a um tostão
enriquece o charlatão


No beco mal afamado
as mulheres não têm marido
um está preso, outro é soldado
um está morto e outro f'rido
e outro em França anda perdido

É entrar, senhorias
a ver o que cá se lavra
sete ratos, três enguias
uma cabra abracadabra

Na ruela de má fama
o charlatão vive à larga
chegam-lhe toda a semana
em camionetas de carga
rezas doces, paga amarga

No beco dos mal-fadados
os catraios passam fome
têm os dentes enterrados
no pão que ninguém mais come
os catraios passam fome

É entrar, senhorias
a ver o que cá se lavra
sete ratos, três enguias
uma cabra abracadabra

Na travessa dos defuntos
charlatões e charlatonas
discutem dos seus assuntos
repartem-s'em quatro zonas
instalados em poltronas

Pr'á rua saem toupeiras
entra o frio nos buracos
dorme a gente nas soleiras
das casas feitas em cacos
em troca d'alguns patacos

É entrar, senhorias
a ver o que cá se lavra
sete ratos, três enguias
uma cabra abracadabra

Entre a rua e o país
vai o passo dum anão
vai o rei que ninguém quis
vai o tiro dum canhão
e o trono é do charlatão

É entrar, senhorias
a ver o que cá se lavra
sete ratos, três enguias
uma cabra abracadabra

sábado, 23 de novembro de 2019

Natália Correia - Queixa das jovens almas censuradas

 * Natália Correia



José Mário Branco - "Queixa das almas jovens censuradas"

Dão-nos um lírio e um canivete
E uma alma para ir à escola
Mais um letreiro que promete
Raízes, hastes e corola
Dão-nos um mapa imaginário
Que tem a forma de uma cidade
Mais um relógio e um calendário
Onde não vem a nossa idade
Dão-nos a honra de manequim
Para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
Sem pecado e sem inocência
Dão-nos um barco e um chapéu
Para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
Levado à cena num teatro
Penteiam-nos os crâneos ermos
Com as cabeleiras das avós
Para jamais nos parecermos
Connosco quando estamos sós
Dão-nos um bolo que é a história
Da nossa historia sem enredo
E não nos soa na memória
Outra palavra que o medo
Temos fantasmas tão educados
Que adormecemos no seu ombro
Somos vazios despovoados
De personagens de assombro
Dão-nos a capa do evangelho
E um pacote de tabaco
Dão-nos um pente e um espelho
Pra pentearmos um macaco
Dão-nos um cravo preso à cabeça
E uma cabeça presa à cintura
Para que o corpo não pareça
A forma da alma que o procura
Dão-nos um esquife feito de ferro
Com embutidos de diamante
Para organizar já o enterro
Do nosso corpo mais adiante
Dão-nos um nome e um jornal
Um avião e um violino
Mas não nos dão o animal
Que espeta os cornos no destino
Dão-nos marujos de papelão
Com carimbo no passaporte
Por isso a nossa dimensão
Não é a vida, nem é a morte

Poema de Natália Correia
Música de José Mário Branco
sobre um desenho de Jean Cocteau (1889-1963)

terça-feira, 19 de novembro de 2019

José Mário Branco – Mudar de Vida

* José Mário Branco


José Mário Branco – Mudar de Vida


Hesitei se havia de escrever esta canção,
porque a vida não se pode resumir numa canção.
Mudar de vida?
Mudar de vida é uma questão que ainda não está resolvida.
Mas o que é a minha vida, se não a própria vida que está contida em toda a força perdida, em toda a vida perdida, consumida, passada, repassada, ultrapassada como se não fosse vida…
A minha vida? Não há!

Uma vida mesmo vida só pode ser um espaço que está dentro dum abraço que se dá ou não se dá.
Vida verdadeiramente é sempre a vida da gente que penosamente, insistentemente, inexplicavelmente, vai fazendo andar a roda que fabrica a vida toda.
Uma vida separada se parada
Se a vida seca e mais nada
Se for vida distraída, alienada, sozinha, irrelevante e auto-ignorada, já não é vida vivida.
Uma vida separada, não é vida nem é nada.
São corpos minerais, nem plantas nem animais,
Pois quem vive distraído à conta do seu umbigo,
Quem não é capaz de dar a vida pela vida dum amigo
Está sozinho com os outros, está sozinho consigo,
(pelo menos é assim que eu vejo as coisas).
Então? Mudar de vida pra quê?
Em tudo o que foi vivido procuramos um sentido
O que essa vida nos diz, uma matriz, um pendor, um sonho, um amor ou um desamor, uma paixão, uma razão… ou uma Grande Razão!
Por baixo de cada vida há essa roda que gira com os ratinhos lá dentro a fazer a roda andar.
As coisas materiais, as coisas essenciais,
O pão, a casa, os sinais que são a vida directa,
A existência concreta,
As coisas que estão à mão, que nos parecem normais,
A paz, o pão, a saúde, a habitação.
Então? Mudar de vida?

Mudar de vida
Mudar de vida
Acordar
Acordar o pensamento

Vida verdadeiramente é sempre a vida da gente que penosamente, insistentemente, inexplicavelmente, vai fazendo andar a roda que fabrica a vida toda.
Muitos de nós nem dão conta…
Achamos isso normal…
Mas afinal… e a hora de trabalho que há em cada coisinha?
E o cansaço da mãe com as panelas na cozinha?
Como se chama a Judite que me fez esta camisa?
Onde está o Eduardo que fez este projector?
E onde para o Vladimir que ergueu aquela parede?
Estão não sei onde!
Do outro lado daquilo a que nós chamamos vida!
A vida deles, para nós, não é bem vida…
É, digamos assim, mercadoria produzida…
São umas coisas!
Umas coisas que vivem sei lá onde, sei lá como… Viverão?
Essa gente, tirando alguma excepção, não está confortavelmente aqui sentada à minha frente a ouvir a minha canção.
Vai vendo telenovelas, olhos perdidos no espaço, a digerir o cansaço, a descansar do vazio…
São corpos desbotados, destinados a serem recarregados,
Que amanhã é outro dia em que vão trocar, por pão,
ou tudo ou nada,
mais e mais mercadoria, fabricada, montada, embalada e transportada,
Que para eles não vale nada!
Estes de que falo são 66 % da gente do meu país.
Há mais 24 % que sobrevivem nas pregas do pesadelo.
Sobram 10.
Dos 10%, são 8 os que duma ou doutra forma levam cheios de arrogância as migalhas de biscoito que são o seu resgate de esperança.
Estão nas tintas para tudo, a começar por si próprios…
Ficam os tais 2 %, os que a gente nunca vê, mas que nos vêem a todos.
Quem fabrica um parafuso, uns sapatos, uma estrada, qualquer coisa fabricada
Recebe um x pela hora, pelo gesto, pela vida emprestada,
Que não é vida nem nada.
Amortizado o capital constante
, pagas as despesas todas,
incluindo o esperto que teve a ideia,
fica então a mais-valia,
que é a demasia entre o valor da mercadoria e os gastos do patrão – o esperto que teve a ideia, o “empreendedor” que pôs os outros a viver para ele…
Porquê? Porque os valores são outros…
-Quais são os teus valores, Zé Luis?
-Os meu valores?
-Sim, quais são os teus valores?
-Ah, o amor, a liberdade, a igualdade, a fraternidade,
a amizade,
a justiça, ora aí está, a justiça
Ah e também a honestidade!
-E tu aí, quais são os teus valores?
-Os meus valores?
-Sim, quais são os teus valores?
-Os meus valores estão na bolsa de valores…

(Ao que isto chegou…)

Nos anos 20 do século do mesmo nome,
para tentar deter o flagelo social da sífilis,
que dizimava pobres e exércitos,
o biólogo alemão Ehrlich fechou-se no laboratório.
Tentou uma experiência, e falhou.
Tentou duas, falhou.
Três, quatro, cinco, seis, falhou sempre.
Até que conseguiu um tratamento: Chamou-se tratamento Ehrlich 606.
Mas ainda não conseguia curar a doença sem matar o doente.
Então Ehrlich continuou.
Mais uma, e outra, e outra…
A cura, finalmente conseguida, chamou-se Ehrlich 914.
Quantas vezes já tentámos nós?
914?
Ainda não…
606?
Ainda não…
Mas talvez, quem sabe, dez, vinte?
Qual é o preço da esperança?
Acordai, acordai homens que dormis a embalar a dor dos silêncios vis.
Vinde no clamor das almas viris arrancar a flor que dorme na raiz!
Estamos de punhos fechados, mas temos as mãos nos bolsos…
Então? Mudar de vida?

Mudar de vida
Mudar de vida ….

Não disputeis, curvado o corpo todo, as migalhas da mesa do banquete.
Erguei-vos e tomai lugar à mesa!
Mudar de vida!
Mudar de vida!
Levar o sonho de Antero às mulheres do Vale de Ave, às da “Zara”, às da “Maconde”, às da “Rohde”, Aos homens da Pereira da Costa,
Aos jovens da Cova da Moura, da Arrentela, da Apelação e da Alta de Lisboa, meus irmãos!
Aos homens da Auto-Europa e da Azambuja,
Ao milhão de desprezados,
Ao lixo do capital,
Aos seres humanos dispensáveis, descartáveis, recicláveis,
A esses olhares perdidos dos nossos telejornais,
Levar o sonho de Antero aos humilhados e ofendidos.
Erguei-vos e tomai lugar à mesa!
Libertar a mais valia que está na mercadoria!
Mostrar a vida escondida por baixo do sofrimento!
Recordar a força,
Acordar a força motriz,
A energia matriz,
Donde nasce o movimento,
A raiz…

Mudar de vida!
Mudar de vida!

Mudar de vida,
Mudar de vida
Dar
Dar um pontapé na morte!

Mudar de vida,
Mudar de vida
Romper
Romper o cordão da sorte!

Mudar de vida,
Mudar de vida
Dar
Dar as mãos para o caminho!

Mudar de vida,
Mudar de vida
Mudar
que isto não muda sozinho!

Mudar de vida,
Mudar de vida
Pôr
Pôr em marcha o movimento!

Mudar de vida,
Mudar de vida
Acordar
Acordar o pensamento



José Mário Braco / Luís de Camões - Mudam-se os tempos

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Ref: E se tudo o mundo é composto de mudança,
Troquemo-lhes as voltas que ainda o dia é uma criança.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança;
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem, se algum houve, as saudades.

Mas se tudo o mundo é composto de mudança,
Troquemo-lhes as voltas que ainda o dia é uma criança.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

Mas se tudo o mundo é composto de mudança,
Troquemo-lhes as voltas que ainda o dia é uma criança.

E, afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto:
Que não se muda já como soía.

Mas se tudo o mundo é composto de mudança,
Troquemo-lhes as voltas que ainda o dia é uma criança.



quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

José Mário Branco - Eu vim de longe



Eu vim de longe



Quando o avião aqui chegou
Quando o mês de maio começou
Eu olhei para ti
Então entendi
Foi um sonho mau que já passou
Foi um mau bocado que acabou

Tinha esta viola numa mão
Uma flor vermelha na outra mão
Tinha um grande amor
Marcado pela dor
E quando a fronteira me abraçou
Foi esta bagagem que encontrou

Eu vim de longe
De muito longe
O que eu andei pra aqui chegar
Eu vou pra longe
Pra muito longe
Onde nos vamos encontrar
Com o que temos pra nos dar

E então olhei à minha volta
Vi tanta esperança andar à solta
Que não hesitei
E os hinos cantei
Foram feitos do meu coração
Feitos de alegria e de paixão

Quando a nossa festa se estragou
E o mês de Novembro se vingou
Eu olhei pra ti
E então entendi
Foi um sonho lindo que acabou
Houve aqui alguém que se enganou

Tinha esta viola numa mão
Coisas começadas noutra mão
Tinha um grande amor
Marcado pela dor
E quando a espingarda se virou
Foi pra esta força que apontou

E então olhei à minha volta
Vi tanta mentira andar à solta
Que me perguntei
Se os hinos que cantei
Eram só promessas e ilusões
Que nunca passaram de canções

Eu vim de longe
De muito longe
O que eu andei pra aqui chegar
Eu vou pra longe
P´ra muito longe
Onde nos vamos encontrar
Com o que temos pra nos dar

Quando eu finalmente eu quis saber
Se ainda vale a pena tanto crer
Eu olhei para ti
Então eu entendi
É um lindo sonho para viver
Quando toda a gente assim quiser

Tenho esta viola numa mão
Tenho a minha vida noutra mão
Tenho um grande amor
Marcado pela dor
E sempre que Abril aqui passar
Dou-lhe este farnel para o ajudar

Eu vim de longe
De muito longe
O que eu andei pra aqui chegar
Eu vou p´ra longe
P´ra muito longe
Onde nos vamos encontrar
Com o que temos pra nos dar

E agora eu olho à minha volta
Vejo tanta raiva andar a solta
Que já não hesito
Os hinos que repito
São a parte que eu posso prever
Do que a minha gente vai fazer

Eu vim de longe
De muito longe
O que eu andei prá aqui chegar
Eu vou pra longe
P´ra muito longe
Onde nos vamos encontrar
Com o que temos pra nos dar

http://amusicaportuguesa.blogs.sapo.pt/540307.html

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

A poesia de Natália Correia

o Queixa das almas jovens censuradas (20/05/96)
o Fiz um conto para me embalar (17/09/01)
o Auto-retrato (29/07/02)
o Do sentimento trágico da vida (16/09/02)
o Nuvens correndo num rio (23/09/02)
o O Livro dos Amantes I (30/09/02)
o O Livro dos Amantes II (21/10/02)
o O Livro dos Amantes IX (28/10/02)


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luishgr | 11 de Novembro de 2007 | 26 utilizadores que gostaram deste vídeo, 1 utilizadores que não gostaram deste vídeo
Uma visão pessoal da música de José Mário Branco com letra de Natália Correia
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Queixa das almas jovens censuradas

Dão-nos um lírio e um canivete
e uma alma para ir à escola
mais um letreiro que promete
raízes, hastes e corola

Dão-nos um mapa imaginário
que tem a forma de uma cidade
mais um relógio e um calendário
onde não vem a nossa idade

Dão-nos a honra de manequim
para dar corda à nossa ausência.
Dão-nos um prémio de ser assim
sem pecado e sem inocência

Dão-nos um barco e um chapéu
para tirarmos o retrato
Dão-nos bilhetes para o céu
levado à cena num teatro

Penteiam-nos os crâneos ermos
com as cabeleiras das avós
para jamais nos parecermos
connosco quando estamos sós

Dão-nos um bolo que é a história
da nossa historia sem enredo
e não nos soa na memória
outra palavra que o medo

Temos fantasmas tão educados
que adormecemos no seu ombro
somos vazios despovoados
de personagens de assombro

Dão-nos a capa do evangelho
e um pacote de tabaco
dão-nos um pente e um espelho
pra pentearmos um macaco

Dão-nos um cravo preso à cabeça
e uma cabeça presa à cintura
para que o corpo não pareça
a forma da alma que o procura

Dão-nos um esquife feito de ferro
com embutidos de diamante
para organizar já o enterro
do nosso corpo mais adiante

Dão-nos um nome e um jornal
um avião e um violino
mas não nos dão o animal
que espeta os cornos no destino

Dão-nos marujos de papelão
com carimbo no passaporte
por isso a nossa dimensão
não é a vida, nem é a morte

                   Natália Correia, in "O Nosso Amargo Cancioneiro" 
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Fiz um conto para me embalar

Fiz com as fadas uma aliança.
A deste conto nunca contar.
Mas como ainda sou criança
Quero a mim própria embalar.

Estavam na praia três donzelas
Como três laranjas num pomar.
Nenhuma sabia para qual delas
Cantava o príncipe do mar.

Rosas fatais, as três donzelas
A mão de espuma as desfolhou.
Nenhum soube para qual delas
O príncipe do mar cantou.

                   Natália Correia 
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Do sentimento trágico da vida

Não há revolta no homem
que se revolta calçado.
O que nele se revolta
é apenas um bocado
que dentro fica agarrado
à tábua da teoria.

Aquilo que nele mente
e parte em filosofia
é porventura a semente
do fruto que nele nasce
e a sede não lhe alivia.

Revolta é ter-se nascido
sem descobrir o sentido
do que nos há-de matar.

Rebeldia é o que põe
na nossa mão um punhal
para vibrar naquela morte
que nos mata devagar.

E só depois de informado
só depois de esclarecido
rebelde nu e deitado
ironia de saber
o que só então se sabe
e não se pode contar.

                      Natália Correia 
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Nuvens correndo num rio

Nuvens correndo num rio
Quem sabe onde vão parar?
Fantasma do meu navio
Não corras, vai devagar!

Vais por caminhos de bruma
Que são caminhos de olvido.
Não queiras, ó meu navio,
Ser um navio perdido.

Sonhos içados ao vento
Querem estrelas varejar!
Velas do meu pensamento
Aonde me quereis levar?

Não corras, ó meu navio
Navega mais devagar,
Que nuvens correndo em rio,
Quem sabe onde vão parar?

Que este destino em que venho
É uma troça tão triste;
Um navio que não tenho
Num rio que não existe.

                      Natália Correia 
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O Livro dos Amantes

I

Glorifiquei-te no eterno.
Eterno dentro de mim
fora de mim perecível.
Para que desses um sentido
a uma sede indefinível.

Para que desses um nome
à  exactidão do instante
do fruto que cai na terra
sempre perpendicular
à humidade onde fica.

E o que acontece durante
na rapidez da descida
é a explicação da vida.

                      Natália Correia 
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O Livro dos Amantes

II

Harmonioso vulto que em mim se dilui.
Tu és o poema
e és a origem donde ele flui.
Intuito de ter. Intuito de amor
não compreendido.
Fica assim amor. Fica assim intuito.
Prometido.

                      Natália Correia 
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O Livro dos Amantes

IX

Pusemos tanto azul nessa distância
ancorada em incerta claridade
e ficamos nas paredes do vento
a escorrer para tudo o que ele invade.

Pusemos tantas flores nas horas breves
que secam folhas nas árvores dos dedos.
E ficámos cingidos nas estátuas
a morder-nos na carne dum segredo.

                      Natália Correia 
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olivaisblue | 14 de Maio de 2010 | 7 utilizadores que gostaram deste vídeo, 0 utilizadores que não gostaram deste vídeo
Poesia de Natália Correia - Queixa das almas jovens censuradas
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terça-feira, 4 de agosto de 2009

Eu vim de Longe - José Mário Branco

José Mário Branco : Eu vim de longe


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Letra e música: José Mário Branco
A. Guimarães

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Quando o avião aqui chegou
quando o mês de Maio começou
eu olhei para ti
então entendi
foi um sonho mau que já passou
foi um mau bocado que acabou
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Tinha esta viola numa mão
uma flor vermelha n'outra mão
tinha um grande amor
marcado pela dor
e quando a fronteira me abraçou
foi esta bagagem que encontrou
.
Eu vim de longe
de muito longe
o que eu andei p'ra'qui chegar
Eu vou p'ra longe
p'ra muito longe
onde nos vamos encontrar
com o que temos p'ra nos dar
.
E então olhei à minha volta
vi tanta esperança andar à solta
que não exitei
e os hinos cantei
foram feitos do meu coração
feitos de alegria e de paixão
.
Quando a nossa festa s'estragou
e o mês de Novembro se vingou
eu olhei p'ra ti
e então entendi
foi um sonho lindo que acabou
houve aqui alguém que se enganou
.
Tinha esta viola numa mão
coisas começadas noutra mão
tinha um grande amor
marcado pela dor
e quando a espingarda se virou
foi p'ra esta força que apontou
.
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