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domingo, 10 de maio de 2026

Porfírio Silva - Podemos travar o revisionismo histórico da internacional reacionária


* Porfírio Silva 

Passou despercebida em Portugal, mas a fracassada visita de Ayuso ao México foi uma derrota de uma provocação colonialista, instrumentalizada para a direita radical espanhola dar uma ajuda à direita radical mexicana, num fundo de revisionismo histórico típico de certas guerras culturais. A coisa correu mal à senhora Ayuso, mas o episódio serve para mostrar que vale a pena desmontar as manobras dos revisionistas reacionários. 

Vamos fazer uma revisão dos acontecimentos em torno da viagem de Ayuso ao México.

No centro da controvérsia da viagem esteve a leitura histórica defendida por Isabel Díaz Ayuso, presidente da Comunidade de Madrid, dirigente do Partido Popular (PP) e uma das figuras mais destacadas da direita conservadora espanhola, sobre Hernán Cortés, a Conquista e a relação entre Espanha e México. Ayuso apresentou a história comum como uma trajetória de cinco séculos de mestiçagem, língua, laços familiares e continuidade cultural. Defendeu que essa história deveria ser lida mais como encontro civilizacional do que como genocídio, e descreveu a mestiçagem como uma mensagem de esperança e alegria. No ato “Celebração pela Evangelização e a Mestiçagem no México: Malinche e Cortés”, na Cidade do México, afirmou que a relação entre Espanha e México era uma história de “cinco séculos de amor, não de ódio”, e pediu que a liberdade nunca tivesse de pedir perdão por ser liberdade. A tese de Ayuso, portanto, era que Cortés, Isabel a Católica, Malinche e a evangelização faziam parte de uma herança hispânica comum que não devia ser julgada apenas pela linguagem da culpa, do saque ou da reparação histórica.

A presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, contestou essa leitura. Para ela, reivindicar Cortés significava minimizar a violência da Conquista contra os povos indígenas. Em 5 de maio, durante a comemoração da Batalha de Puebla, Sheinbaum afirmou que aqueles que reavivam a Conquista como salvação estão destinados à derrota, e que aqueles que procuram reivindicar Hernán Cortés e as suas atrocidades também estão destinados à derrota. Dois dias depois, em 7 de maio, na sua conferência diária, disse que a homenagem a Cortés revelava ignorância da própria história espanhola, sustentando que a violência exercida por Cortés e pelo seu exército contra os povos indígenas tinha sido documentada em Espanha, e caracterizando o conquistador como um dos invasores mais cruéis. Sheinbaum contrapôs a essa visão a ideia de que a grandeza do México vem dos valores dos seus povos originários. 

A viagem de Ayuso ao México estava prevista para decorrer de 3 a 12 de maio de 2026. A Comunidade de Madrid apresentou-a como uma visita institucional destinada a reforçar laços económicos e culturais com o país. A agenda anunciada incluía atos na Cidade do México, Aguascalientes, Monterrey e Riviera Maya, além da presença prevista nos Prémios Platino Xcaret, marcados para 9 de maio, no Parque Xcaret, na Riviera Maya. 

Ayuso iniciou a deslocação em 3 de maio, na Basílica de Guadalupe, na Cidade do México, onde assistiu à missa dominical. O cardeal Carlos Aguiar Retes saudou a comitiva espanhola e disse que rezavam pela relação entre Espanha e México. 

No dia 4 de maio, na Cidade do México, estava previsto o ato sobre “Evangelização e Mestiçagem no México: Malinche e Cortés”, inicialmente associado à Catedral Metropolitana. O ato acabou por ser transferido para o Frontón México, espaço ligado ao musical Malinche. A Arquidiocese explicou que a produção não reunia a totalidade das autorizações necessárias. Nesse contexto, Ayuso defendeu a mestiçagem, rejeitou leituras baseadas, segundo ela, no ódio, e afirmou que a liberdade não devia pedir perdão por ser liberdade. Há sempre quem preze a liberdade de explorar e esmagar o outro...

Em 5 de maio, durante a comemoração da Batalha de Puebla, em Puebla, Sheinbaum respondeu politicamente ao discurso de Ayuso, sem a nomear diretamente. Disse que aqueles que reavivam a Conquista como salvação estão destinados à derrota, e que aqueles que procuram reivindicar Hernán Cortés e as suas atrocidades estão igualmente destinados à derrota. No mesmo dia, Ayuso participou num encontro na Universidad de la Libertad, na Cidade do México.

Em 6 de maio, quando Ayuso chegou ao aeroporto de Aguascalientes, foi abordada pela deputada mexicana Anayeli Muñoz, do Movimiento Ciudadano, que lhe pediu que reconhecesse os abusos da Conquista. Mais tarde, no Palácio do Congresso do Estado de Aguascalientes, na Plaza de la Patria 109, Ayuso recebeu a **Medalla de la Libertad** do Congresso estadual.

Ainda em Aguascalientes, houve protestos no exterior e uma interrupção durante um ato por Martha Márquez, regidora de Morena, que exibiu uma faixa com a frase “Não temos água”. A contestação juntava críticas locais, ligadas à gestão da água, com objeções ao discurso de Ayuso sobre a Conquista e o período colonial.

Em 7 de maio, na sua conferência diária no México, Sheinbaum voltou a criticar diretamente o ato em torno de Hernán Cortés. Disse que a homenagem revelava ignorância histórica, argumentou que Cortés se caracterizara por ordenar massacres e afirmou que a grandeza do México vinha dos povos originários. Ao mesmo tempo, sublinhou que Ayuso tinha podido falar livremente no país, dizendo que ela tinha ido dizer o que quis e que no México há liberdade e democracia. 

Entre 7 e 8 de maio, Ayuso deslocou-se para a Riviera Maya, onde estava prevista a sua presença nos Prémios Platino Xcaret. A imprensa espanhola noticiou que a agenda institucional pública ficara sem atos nesse trecho da viagem.

O episódio central ocorreu em 8 de maio. A Comunidade de Madrid publicou um comunicado acusando o Governo mexicano de ter boicotado a presença de Ayuso nos Prémios Platino. Segundo essa versão, o Governo mexicano teria ameaçado fechar o complexo onde se realizaria a gala caso Ayuso comparecesse. No mesmo comunicado, a Comunidade de Madrid anunciou que Ayuso não iria à gala e que suspendia a parte final da viagem, incluindo a deslocação prevista a Monterrey, regressando a Madrid. 

Também em 8 de maio, o Grupo Xcaret, anfitrião do evento, negou ter recebido ameaças ou instruções da presidente mexicana ou de qualquer funcionário do Governo do México. A empresa afirmou que pedira aos organizadores a retirada do convite a Ayuso para evitar que a gala fosse usada como plataforma política, depois das suas declarações públicas durante a viagem.

No mesmo dia, a Secretaría de Gobernación mexicana também negou qualquer tentativa de impedir atos de Ayuso. Afirmou que a visita decorrera num ambiente de total liberdade e que em nenhum momento se tentara evitar qualquer uma das suas apresentações públicas ou privadas. 

A gala dos XIII Premios Platino Xcaret realizou-se em 9 de maio, no Teatro Gran Tlachco, no Parque Xcaret, na Riviera Maya, sem a presença de Ayuso.

Podemos, portanto, concluir: há um agressivo revisionismo de direita, querendo rever a história para promover as guerras culturas; é possível fazer frente a esse revisionismo; a ferramenta do revisionismo histórico faz parte da estratégia da internacional reaccionária; isso exige que sejamos, nós também, atentos a essa dimensão internacional.

Porfírio Silva, 10 de Maio de 2026

https://maquinaespeculativa.blogspot.com/2026/05/podemos-travar-o-revisionismo-historico.html

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A Conquista de Tenochtitlán (representação da queda da capital do Império Asteca em 1521). Autor mexicano desconhecido da segunda metade do século XVII. Biblioteca do Congresso, Washington - DC

  • A Queda de Tenochtitlan: A obra representa o cerco final e a conquista da capital asteca, Tenochtitlan, pelas forças espanholas lideradas por Hernán Cortés em 1521.
  • Contexto Artístico: Esta pintura faz parte da série "Conquista do México", datada da segunda metade do século XVII.
  • Alianças Indígenas: A vitória espanhola não foi alcançada sozinha; ela dependeu crucialmente de aliados indígenas, notavelmente os Tlaxcaltecas, que buscavam se libertar do domínio asteca.
  • Fatores de Vitória: Além da superioridade tática e alianças, a conquista foi facilitada pela introdução de doenças europeias, como a varíola, que devastaram a população local  (AI Overview)

terça-feira, 27 de abril de 2021

Fernanda Câncio - "E manda ainda o Senhor Deus pretos a este mundo"

COLONIALISMO

Relatórios da administração colonial que denunciam "o bafio da escravatura" e uma diplomacia que tenta negar as acusações internacionais e adiar ao máximo a mudança: Portugal e a Questão do Trabalho Forçado, de José Pedro Monteiro, é um testemunho poderoso sobre o ocaso do Império português.

Fernanda Cânciocoo

29 Dezembro 2018 — 15:00 

"Tratados como animais bravios", agrilhoados, chicoteados, espancados, "arrebanhados no mato", com alta taxa de morte no transporte, mantidos décadas longe da família, à qual eram por vezes devolvidos em "estado de morto de pé", "grávidas e mulheres com filhos monstruosamente espancadas por abandonarem o trabalho": as descrições e observações encontradas nos relatórios da administração colonial portuguesa chocam pela crueza e naturalização daquilo a que um inspetor chama, em 1949, "o cheiro a bafio da escravatura".

Apesar de os castigos físicos serem proibidos por lei e de o próprio trabalho forçado ter sido, a partir da publicação do Código de Trabalho Indígena, de 1928, interditado exceto "para fins públicos" - e mesmo assim apenas quando estivesse em causa o interesse das populações que eram para ele mobilizadas --, as autoridades coloniais continuaram, pelo menos até aos anos 1960 (o Código de Trabalho Indígena só é revogado em 1962, sendo substituído pelo Código de Trabalho Rural, que deixa de ter referência racial e proíbe todas as formas de trabalho forçado, incluindo para fins públicos), a servir de recrutadoras compulsivas para privados - tratava-se, na linguagem de então, de "contratos com facilidades" -- e a aceitar as punições corporais com naturalidade, como vários relatórios reconhecem.

A candura destes relatórios e a forma como alguns inspetores ou outros membros da administração colonial exprimem a sua discordância e até revolta face à situação - um deles chega a escrever, referindo, em 1949 em S. Tomé, a existência de "grilhetas superiores a dois metros" e o facto e de o governador certificar que "só ele podia ordenar punições": "E manda ainda o Senhor Deus pretos a este mundo!" - é, para o leitor não especialista, uma das grandes surpresas que resulta da leitura de Portugal e a Questão do Trabalho Forçado/Um império sob escrutínio (1944-1962), do historiador José Pedro Monteiro, publicado este mês, e que, nas palavras do próprio, "mobilizando fontes inéditas, ilustra, pela voz de administradores imperiais e locais e de testemunhas autóctones, algumas realidades laborais e sociais vigentes nas colónias, permitindo, deste modo, cotejá-las tanto com as denúncias que se produziram internacionalmente como com os esforços de refutação oficial, frequentemente de natureza propagandística."

"É impressionante, no mapa das transgressões do Código de Trabalho Indígena, o número de processos por ofensas corporais" ", escrevia, por exemplo, em 1944, o inspetor Nunes de Oliveira; noutro relatório, referente a São Tomé e Príncipe, em 1947, lia-se: "Os serviçais vivem e trabalham contrafeitos, a tal ponto que já tem havido casos de suicídio entre eles, por essa razão; eles constituem uma considerável multidão, de algumas dezenas de milhar, dispersos pela densa floresta, e os agentes dos patrões que têm de os conduzir, só tal conseguem impondo-lhes uma disciplina severa, disciplina que só se consegue por meio de sanções expeditas e bem sentidas."

"É impressionante, no mapa das transgressões do Código de Trabalho Indígena, o número de processos por ofensas corporais" ", escrevia em 1944 um inspetor; noutro relatório, referente a São Tomé e Príncipe, em 1947, lia-se: "Os serviçais vivem e trabalham contrafeitos, a tal ponto que já tem havido casos de suicídio entre eles,"

É, recorda José Pedro Monteiro, o mesmo ano do célebre relatório choque que o inspetor-geral da Administração Colonial Henrique Galvão apresenta à Comissão das Colónias da Assembleia Nacional (o nome então dado ao parlamento), no qual informa que "o trabalho forçado ou "contratado" era a norma, as condições de vida miseráveis, a corrupção entre as autoridades generalizada", chegando mesmo a dizer que os escravos eram melhor tratados que os trabalhadores forçados, já que aos primeiros, sendo sua propriedade, o dono se esforçava por manter vivos e com saúde, enquanto que os segundos, se morriam de fome ou exaustão, eram substituídos por mais trabalhadores "recrutados" pelo Estado. Um excerto do relatório de Galvão: "A mortalidade infantil atingia a percentagem de 60%. O índice de mortalidade era de 40%, mesmo entre os trabalhadores na plenitude da vida. As figuras era mudas, estáticas. Não gritavam, não falavam de dor. Era preciso ver com os próprios olhos, era preciso encorajar até aqueles que queriam ver"

"Grilhetas ao pescoço" e chicote

Nada que devesse surpreender quem vinha lendo os documentos das inspeções "normais". Seis anos antes, diz José Pedro Monteiro, "um relatório do Curador Geral dos Indígenas de Angola relatava que os "indígenas" sentiam tal "horror" pelo contrato que, no Lobito, se tinha dado um episódio em que uns quantos se tinham lançado ao mar para lhe escapar. (...) O mesmo curador relembrava uma nota confidencial, relativa à intendência do Moxico, em que se informava que não havia capacidade para recrutar trabalhadores para a Companhia de Diamantes de Angola porque todos os "indígenas" que podiam ser recrutados tinham desaparecido. "A excepcional mortalidade entre os indígenas em serviço naquela companhia e o "Estado de Morto em pé" com que todos têm sido repatriados, alguns indígenas que morrem pouco depois [de aqui] chegar, e, ainda, os que com o corpo mutilado conservam a vida e vivem actualmente pedindo esmola, sem receber qualquer indemnização da Companhia, constituem, como todos nós sabemos, a razão da relutância que os indígenas mostram por aquele serviço"".

E em 1945, lê-se em Portugal e a Questão do Trabalho Forçado, o Curador de S. Tomé dava nota de que alguns serviçais tinham ali estado 13 anos, "muito além do estabelecido pela lei como limite máximo de permanência em "contrato", a receber metade do salário (...). Invocava-se ainda um relatório do Inspetor Superior de Serviços Judiciais, em missão a S. Tomé, em que se relatava a existência de trabalhadores presos com "grilhetas" ao pescoço. (...) Turistas estrangeiros tinham fotografado serviçais a ser chicoteados, do que decorria, segundo o raciocínio do inspetor, que era preciso pensar estes incidentes à luz do que vinha ocorrendo nos fora internacionais, onde os Estados Unidos vinham censurando a solução colonial."

"Em 1945 o Curador de S. Tomé dava nota de que alguns serviçais tinham ali estado 13 anos, "muito além do estabelecido pela lei como limite máximo de permanência em "contrato", a receber metade do salário (...)". Num relatório do Inspetor Superior de Serviços Judiciais, em missão a S. Tomé, relatava-se a existência de trabalhadores presos com "grilhetas" ao pescoço. (...) Turistas estrangeiros tinham fotografado serviçais a ser chicoteados."

Já em 1951, o encarregado de serviços da Inspeção Superior de Negócios Indígenas, após um introito no qual "enaltecia a essência humanista e benévola da intervenção portuguesa em territórios coloniais", prosseguia "desfiando um rol de iniquidades e abusos. Referia-se à taxa de mortalidade no transporte de 650 indígenas que era de 15,38 por mil quando comparados com os 4,25 por mil registados nas minas da África do Sul, um trabalho, já de si, extremamente perigoso; aos acidentes de trabalho que eram dados como ocorridos nas horas de descanso, como forma de desresponsabilização, o mesmo recurso estatístico usado também para os classificar como "agonias e congestões"; aos inválidos que eram obrigados a trabalhar em S. Tomé ("verdadeiros farrapos humanos") por salários miseráveis; que não eram pagas às famílias as indemnizações por morte de trabalhadores em S. Tomé; que milhares de "indígenas" ficaram mais de uma década para além do termo oficial do seu contrato sem serem repatriados; que os salários em Moçambique e especialmente em Angola chegavam a constituir cerca de um sétimo dos valores na África do Sul e menos de metade dos salários da Rodésia; que mulheres de trabalhadores eram sistematicamente violadas por grupos de serviçais enquanto outras grávidas e mulheres com filhos eram "monstruosamente espancadas com mais de 50 palmatoadas" por terem abandonado o trabalho.""

Muito impressionante também é um relato de 1949, referente ao "caso dos Tongas" (filhos de trabalhadores deslocados de outras colónias para trabalho em São Tomé, que nunca tinham vivido na colónia dos seus pais): "Muitos deles alegavam que desejavam reencontrar suas famílias, mas o governador-geral de S. Tomé simplesmente entendia que era um desejo descabido, visto não conhecerem as famílias, não saberem onde estavam nem sequer se ainda existiam. Ressalve-se que eram indivíduos com todas as obrigações fiscais e militares cumpridas. Mas eram também "fortes e saudáveis, educados numa vida de trabalho" e, como tal, o seu repatriamento devia-lhes ser negado, justificava o governador."

Não é possível saber, escreve José Pedro Monteiro, "o destino destas populações, mas a simples ideia de que o governador entendia possível mantê-las em S. Tomé revela os termos do debate em matéria de liberdade de trabalho. O relatório é ainda ilustrativo no sentido em que o funcionário da ISNI, no ensejo de contrariar a vontade do governador, elencava um conjunto de informação crítica. Desde logo, referia que serviçais havia que tinham estado entre 10 a 30 anos nas ilhas e que, se o seu contrato tivesse sido cumprido, o problema dos "Tongas" simplesmente não se punha. Recuperava um trecho do relatório do curador que os descrevia como "acabrunhados e tristes" e sem qualquer ideia do que era um contrato livre. Como finalizava o relator: "As expressões "os meus tongas" ou "tongas das roças" "embora se autorizem a mudar de situação", como se diz no ofício, cheiram ainda a bafio de escravatura"."

As descrições são arrasadoras, e muitas até agora inéditas. Constituindo uma versão editada e revista da tese de doutoramento do autor, investigador do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, o livro procura dar a compreender "como e porquê as modalidades de trabalho coercivo se mantiveram política e socialmente aceitáveis no seio da burocracia imperial portuguesa por um período consideravelmente mais longo que noutros impérios europeus; porque estavam as propostas que procuravam pôr-lhes termo tão recuadas face às normas internacionais; e, finalmente, porque e como foi finalmente concretizada a reforma que lhes pôs termo, ainda que de modo meramente formal."

O historiador, de 34 anos, que investigou em vários arquivos -- no arquivo Histórico Diplomático, no Arquivo Histórico Ultramarino, na Torre do Tombo ("Onde havia pouca coisa"), e também nos da Organização Internacional do Trabalho em Genebra, da ONU, nos National Archives nos EUA bem como nos arquivos britânicos, em Kew - conversou com o DN sobre o seu trabalho.

Houve alguma coisa que o tenha surpreendido ou chocado particularmente nas suas leituras?

Houve relatórios que li, que fiquei... Uma pessoa pode-se chocar. Nos debates sobre a escravatura diz-se muito que é preciso olhar com os olhos daquele tempo. Curiosamente esse é um dos motivos pelos quais o facto de a abolição da escravatura ter resultado na generalização do trabalho forçado faz com que com que nas discussões públicas a questão do trabalho forçado quase não apareça. Porque se torna um bocadinho mais complicado poder dizer "ah, temos de olhar com os olhos daquele tempo." Não, aos olhos daquele tempo o trabalho forçado já era condenado de forma unânime. Não é por acaso que nos debates sobre a escravatura se alguém quer falar do trabalho forçado vem o "isso era outra coisa". Reforçando uma distinção legal que não é confirmada pela continuidade das práticas.

https://www.dn.pt/pais/e-manda-ainda-o-senhor-deus-pretos-a-este-mundo-10343094.html


terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

Rui Diogo - O colonialismo matou muito mais que o Holocausto

OPINIÃO

O investigador e professor da Universidade de Howard Rui Diogo analisa o colonialismo europeu e compara-o, em termos de mortos, com o extermínio em massa perpetrado pelo regime nazi

23 FEVEREIRO 2021 9:18
Rui Diogo*

João Miguel Tavares escreveu, na última pagina da edição de quinta-feira (dia 18) do "Público", o qual leio diariamente desde há anos, um artigo com o titulo: "Mais uma comparação com o nazismo e eu grito." É preciso notar que o artigo estava na última página do jornal, a qual é facilmente visionada por todos os que compram este jornal, ou outros.

Sendo eu português, especialista em temas ligados ao racismo e colonialismo - que são o tema principal do meu último livro -, e professor na Howard University, uma universidade mundial constituída principalmente por alunos descendentes de africanos e com prestígio e influência mundiais precisamente por chamar a atenção para estes temas - é preciso lembrar que Kamala Harris, agora vice-Presidente dos E.U.A., foi aluna de Howard -, este artigo parece-me totalmente indigno de um jornal de prestígio internacional como o "Público". Por ser não só uma falta de respeito para as centenas de milhões de mortos resultantes do colonialismo europeu - muitíssimos mais que o número atroz e horripilante de mortos de judeus - e também ciganos, e pessoas com deficiência, não podemos esquecer - causados pelo horrível Holocausto, mas também para os sobreviventes e descendentes dos que foram colonizados, como os meus alunos em Howard, e muitos milhares de alunos, professores e outras pessoas a viver em Portugal.

Que o colonialismo europeu matou muito mais que o Holocausto é um facto histórico consensualmente reconhecido por historiadores internacionais. Mas na Europa, e sobretudo em Portugal - contrariamente ao que se faz por exemplo na Alemanha, em que se reconhecem muito mais, a nível público, as atrocidades feitas pelos nazis e também pelo colonialismo alemão - continua a nem querer sequer fazer uma comparação entre o Holocausto e o colonialismo. Isto porque o primeiro é visto como o 'mal absoluto', e o segundo como algo que no fundo "não foi tão mau" - ou, como escreveu João Miguel Tavares, que foi muito mais "rico" do que simplesmente "brutalidade e opressão".

Não há dúvida que o Holocausto é um dos eventos mais horríveis da humanidade: entre 1941 e 1945, os nazis e os seus colaboradores mataram cerca de 6 milhões de judeus, ou mesmo mais, segundo os números consensualmente aceites hoje em dia, e isso envolveu um planeamento frio, totalmente inumano, desde tirar as pessoas das suas casas, construir linhas de caminho de ferro e ter comboios para as transportar, e criar campos de concentração, de extermínio para os matar, e câmaras de gás para as gazear: o mal absoluto, sem dúvida - cerca dois terços dos judeus Europeus foram mortos, nesses 4 anos.

No realidade, o facto de pessoas como João Miguel Tavares, e no fundo uma grande maioria dos portugueses, continuarem a nem aceitar que se façam comparações entre o colonialismo europeu e o Holocausto, tem precisamente a ver com este último ponto: porque o Holocausto afetou-nos sobretudo a "nós", os europeus, enquanto o colonialismo afetou os "outros". Porque na realidade, uma comparação factual revela que não só o colonialismo matou muito mais que o Holocausto, mas que também envolveu planeamento igualmente horripilante e inumano: como construir barcos para levar escravos, aglomerados, acorrentados, em viagens de meses, sabendo de antemão que em muitos casos um terço, ou mesmo dois terços, deles iriam morrer nessas viagens. Nesse sentido, essas condições foram ainda mais horríveis que aquelas terrivelmente inumanas que ocorreram nos comboios usados pelos nazis para transportar judeus durante o Holocausto
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E, sim, acima de tudo, temos os dados mais nefastos de todos: o colonialismo matou mais, muito mais - entre 10 e 20 vezes mais, no mínimo - que o Holocausto. Por exemplo: consensualmente aceita-se que só em relação aos povos indígenas das Américas, entre 1492 e as primeiras décadas de 1600 morreram cerca de 56 milhões de indígenas, devido às armas usadas e aos germes levados pelos colonizadores europeus. Esse número é, por si só, 10 vezes maior que o número horrivelmente atroz de mortos do Holocausto. E se compararmos em números relativos as coisas são ainda piores: enquanto a chamada "grande morte" desses indígenas representa a morte de cerca de 10% da população total do planeta, nesse tempo, o Holocausto causou a morte de cerca de 0,2% da população global, no meio do século passado: 50 vezes pior, em termos comparativos.

E o colonialismo foi, infelizmente, muitíssimo mais que a "grande morte" indígena. É consensualmente aceite que, entre os séculos XV e XIX, morreram cerca de 18 milhões de escravos africanos, ou mais. Mais: dezenas de milhões de africanos morreram em África devido ao colonialismo, não só em inúmeras guerras coloniais, mas por outros fatores, incluíndo a existência de campos de concentração.

Na verdade, se João Miguel Tavares realmente quisesse saber de verdade sobre História, saberia que as comparações entre colonialismo europeu e Holocausto são totalmente justificadas: é um facto histórico reconhecido internacionalmente que o genocídio dos hererós e namaquas, que ocorreu no Sudoeste Africano Alemão onde hoje se localiza a Namíbia, entre 1904 e 1907, foi precisamente onde se criaram muitos dos métodos atrozes que os alemães usaram depois durante o Holocausto.

E não foram só os alemães que usaram campos de concentração: durante a "partilha de África" foram usados por vários países europeus, como ocorreu no "Estado Livre do Congo", onde, em apenas 23 anos, entre 1885 e 1908, morreram cerca de 10 milhões de africanos - ou seja, mais que o número horrível de mortos de todo o Holocausto. Repito, num único país africano. Isto tudo quer dizer que é consensualmente aceite, por peritos internacionais, que no total o colonialismo europeu matou mais de 100 milhões de pessoas, ou seja, efetivamente, cerca de 20 vezes mais que o Holocausto em termos absolutos - e, ademais, levou a um número ainda maior de gente a viver vidas oprimidas, em condições de extrema pobreza, e de fome.

Claro que, em Portugal, pessoas como João Miguel Tavares dirão, em resposta a este artigo: mas o colonialismo português não tem nada a ver com o do resto dos países europeus, nós não somos como os alemães ou os belgas - ou, como ele escreveu, o "colonialismo (português ou outro)" não foi simplesmente uma "história de brutalidade e opressão", pois não se pode "roubar ao passado a sua riqueza, a sua complexidade e a sua espessura".

Não se pode reduzir a brutalidade e opressão, e esquecer a "riqueza, complexidade e espessura" do colonialismo? Então o que foi o colonialismo? Tentemos os antónimos: foi liberdade, e brandura, um termo tão usado pelos portugueses para descrever o colonialismo do "povo dos brandos costumes"? Vejamos então o que fez este povo de "brandos costumes", em termos factuais. Por exemplo, na região que é hoje o Brasil, segundo estimativas oficiais, havia pelo menos entre 3 e 5 milhões - e segundo dados mais recentes, até 11 milhões - de indígenas antes do colonialismo: em pouco mais de um século, no princípio de 1600, já eram só uns 900 mil. Ou seja, se usamos a estimativa de 11 milhões da Survival-International, uma respeitada organização internacional que trabalha especificamente sobre estes temas, a presença dos - ou seja, as armas, e os germes levados pelos - portugueses no Brasil levou a um extermínio de cerca de 9,9 milhões de indígenas, ou seja, mais que todo o Holocausto.

E, mesmo que o número eventualmente seja menor, é preciso notar que isto é só no Brasil, uma das muitas colónias de Portugal, e sem contar com os milhões de mortes de escravos africanos que também morreram aí, e de africanos que morreram nas colónias portuguesas em África, e sobretudo, sem ter em conta que, como referi acima, os portugueses foram os grandes catalisadores, originalmente, do colonialismo europeu e da escravatura transatlântica que, sem dúvida nenhuma, mataram pelo menos 20 vezes mais, e provavelmente muito mais, do que o horrível, horripilante, indesculpável Holocausto.

Como salientou Ignacio Ellacuria, há cinco séculos com a 'descoberta' do chamado 'novo mundo' o que realmente se descobriu foi a realidade da Europa, a sua verdadeira cara - "a realidade da cultura ocidental, colonizadora e dominadora": factos são factos, por mais que eles sejam difíceis de aceitar para o nosso país, que terá de ter a ousadia de se olhar ao espelho e 'descobrir' - ou seja, aceitar, de uma vez por todas, em vez de "gritar", olhar para o lado, e negar factos históricos inegáveis - o que realmente foi, e fez, o nosso país durante tantos séculos.

* Rui Diogo é professor na Universidade de Howard, em Washington D.C., EUA

https://expresso.pt/opiniao/2021-02-23-O-colonialismo-matou-muito-mais-que-o-Holocausto

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Pedro Cardim Para uma visão mais informada e plural do padre António Vieira

* Pedro Cardim

25.06.2020 às 9h30

A estátua de Vieira retrata de uma forma caricatural a colonização portuguesa na América e o papel desempenhado pelo jesuíta, em especial no que respeita aos ameríndios. Aqueles que se revêem nesta estátua demonstram ignorar grande parte da investigação mais recente sobre o tema

Omonumento em honra do padre António Vieira, erigido em Lisboa defronte da igreja de São Roque, não faz jus à sua figura. Vieira merecia ser recordado por uma intervenção artística que desse melhor conta da riqueza da sua obra e da complexidade da sua vida.

Antes de mais, porque representar António Vieira segurando numa cruz e rodeado de crianças indígenas é uma forma caricatural de retratar o Brasil colonial e a ação que Vieira nele desempenhou, em especial no que respeita às populações ameríndias. A estátua nada diz sobre o que realmente se passou ali a partir de 1500. Desembarcados na América do Sul, os portugueses levaram a cabo uma "conquista", ou seja, a apropriação – frequentemente violenta – de terras que eram dos povos autóctones.

Depois de consolidarem o seu domínio sobre as primeiras parcelas de terra, as autoridades portuguesas, seculares e religiosas, definiram a forma como iriam lidar com os autóctones da América. Quanto aos indígenas que foram submetidos pelos portugueses, as autoridades coloniais trataram-nos como miserabile personae, como uma espécie de crianças ou de pessoas desprovidas de autonomia e de autossuficiência. Foram vistos como seres que careciam da tutela dos colonizadores, acabando por ser reduzidos a uma condição de menoridade, cívica, jurídica e política. No que respeita aos muitos povos indígenas que viviam nas vastas áreas que escapavam ao controlo dos conquistadores e que contra eles resistiam, foram encarados como "selvagens", "rebeldes" e inimigos.

Foi com base na ideia de que os indígenas eram miserabile personae que se conformou o relacionamento entre os colonizadores e as populações autóctones que não foram consideradas inimigas. A esses indígenas foi dada a possibilidade de entrarem na sociedade colonial, mas impôs-se-lhes como condição a sua subordinação aos portugueses e a sua submissão a um intenso processo de conversão ao catolicismo.

António Vieira é produto desta maneira de entender os povos ameríndios e identifica-se plenamente com ela. À semelhança do que vários missionários antes dele tinham feito, Vieira também promoveu a deslocação maciça de comunidades indígenas e a sua concentração em aldeias situadas nas proximidades das zonas de colonização, aldeias essas administradas pelos próprios jesuítas e por outras ordens religiosas.

E para que é que serviam essas aldeias? Serviam, antes de mais, para impor aos indígenas, muitas vezes com violência, o modo de vida português e a religião católica. Além disso, o sistema das aldeias impunha aos "índios aldeados" um regime de trabalho obrigatório. Tanto os jesuítas, quanto os colonos que viviam nas redondezas serviam-se dos "índios aldeados", empregando-os quase sempre nas ocupações mais aviltantes como trabalhadores forçados. Quando eram pagos, os indígenas recebiam um salário em geral miserável. Um exemplo: em 1654 Vieira estabeleceu um acordo com o governador e as câmaras do Maranhão para regulamentar o trabalho compulsório dos "índios aldeados". Segundo esse acordo, os índios realizariam seis meses de serviço por ano nas propriedades dos moradores e receberiam, em troca, pouco mais de dois metros de pano por mês...

A par do trabalho pago desta forma miserável, os índios concentrados nas aldeias foram também frequentemente mobilizados contra os inimigos dos portugueses, como os holandeses ou os franceses. Além disso, os colonos também os utilizaram na luta quer contra os escravos negros que fugiam das zonas coloniais e que se concentravam em quilombos, quer contra os demais povos indígenas que resistiam contra a colonização. Para os portugueses a guerra fazia parte do quotidiano colonial, não só para conquista de mais terras, mas também para a captura de indígenas e sua conversão em escravos ou em trabalhadores forçados.

A estátua nada diz sobre isto e tão-pouco mostra que, para além de serem submetidos ao trabalho forçado, havia muitos indígenas escravizados. Convém lembrar que, para as autoridades portuguesas, a escravização de ameríndios continuou a ser legal até à segunda metade do século XVIII. Para Vieira, como para os demais jesuítas (com poucas divergências internas), a escravidão de índios e, também, de negros era aceitável desde que fossem respeitados os títulos de escravização reconhecidos como legítimos (guerra justa, comutação da pena de morte, extrema necessidade e condição do ventre materno).

Numa sociedade marcada por uma forte discriminação racial, os índios eram relegados para um dos seus escalões mais baixos. Ou seja, os indígenas cristianizados que conseguiam sair das aldeias ou livrar-se da escravidão, quando iam viver entre os portugueses só se conseguiam empregar em atividades desprestigiantes e mal pagas, ficando praticamente privados de qualquer hipótese de ascensão social. A mestiçagem estava presente, mas costumava ser ativamente escondida por todos os mestiços que tinham a ambição de ascender socialmente.

Não há dúvida de que, ao longo da sua vida, Vieira se destacou na defesa de certos povos indígenas e denunciou alguns abusos dos colonos. Contudo, é preciso notar que tais denúncias foram quase sempre uma boa ocasião – política – para Vieira reivindicar que, na relação entre colonos e indígenas, a tutora e a intermediária privilegiada, ou mesmo exclusiva, deveria ser a Companhia de Jesus, a ordem à qual ele pertencia.

A par disso, não se pode esquecer que, em vários momentos, o mesmo Vieira apelou às forças portuguesas para que atacassem e submetessem, por vezes com muita violência, os ameríndios que resistiam à invasão das suas terras, ou que recusavam o catolicismo. Aliás, e à semelhança dos seus contemporâneos, Vieira usou termos como "gentio bárbaro" ou "selvagem" para denominar os indígenas que continuavam a resistir contra os portugueses. Tais palavras, como se sabe, estavam carregadas de preconceitos a respeito dos seres humanos assim designados.

Tudo isto é factual, baseia-se na documentação existente e está plenamente demonstrado pelos estudos dos últimos trinta anos. No entanto, a escultura que pretende homenagear Vieira é completamente omissa a respeito destes factos. Ela reflete, acima de tudo, uma visão benigna da colonização portuguesa das terras sul americanas e da relação com as suas populações autóctones. Para além de nada dizer sobre estes temas, o monumento a Vieira tem também o condão de ocultar a resposta dada pelos indígenas à agressão portuguesa. Apresenta os índios como seres passivos, uma espécie de crianças que nem sequer eram capazes de se defender, carecendo de um português para os proteger. Nada mais distante da realidade. Ao longo dos trezentos anos de colonização os indígenas defenderam-se de um modo inteligente e encarniçado. A resistência – armada, e não só – dos ameríndios contra os portugueses foi muito mais eficaz do que habitualmente se pensa, e foi precisamente graças a ela que muitos desses povos conseguiram manter os colonizadores fora das suas terras durante toda a dominação portuguesa no Brasil. Além disso, muitas mulheres e homens indígenas rapidamente aprenderam a utilizar os recursos trazidos pelos portugueses a fim de com eles alcançar a liberdade ou resistir contra a opressão colonial.

Para quem estuda a história da colonização portuguesa em terras americanas, nada disto é novidade. O alcance e os limites da ação de Vieira relativamente aos indígenas são bem conhecidos, e o mesmo se poderia dizer da sua posição sobre a escravização de africanos subsaarianos. A sua concordância com a escravidão de afrodescendentes não difere daquilo que era a opinião corrente na época. Vieira não era contrário ao sistema esclavagista, defendia-o na medida em que, do seu ponto de vista, ele permitia o trânsito de pessoas pagãs para terras cristãs e, subsequentemente, a sua suposta salvação, mas sempre sob a autoridade dos seus proprietários.

As suas críticas à violência com que os senhores de escravos tratavam as pessoas escravizadas não diferem muito do que várias pessoas há muito diziam, tanto no Brasil como na América espanhola. Mas havia quem, naquele mesmo período, e ao contrário de Vieira, condenasse a escravatura. Vários dos jesuítas com os quais Vieira entrou em conflito no final da sua vida fizeram muito mais do que ele para melhorar a condição dos afrodescendentes escravizados. O mesmo se pode dizer de alguns franciscanos e, também, de capuchinhos em missão pelas Caraíbas e pela América do Sul. Comparados com estes, Vieira não se distinguiu na defesa dos afrodescendentes escravizados. Por exemplo, ao contrário de outros, não se destacou no apoio à sua importante luta para terem acesso ao sacramento do matrimónio. Foi sempre fiel à ideia de que os escravizados deveriam aceitar submissamente o cativeiro em troca da liberdade das suas almas.

Compreende-se, pois, que Vieira se tenha oposto tenazmente à cristianização dos habitantes do quilombo de Palmares. Alegou que tal equivalia reconhecer a existência dessa comunidade "rebelde" que estava há anos a resistir contra a dominação colonial portuguesa. Com esta atitude Vieira visava, acima de tudo, castigar os que pegavam em armas contra a ordem colonial e não dar esperança aos escravizados de que poderiam alcançar, pela luta, a liberdade. Para Vieira, a liberdade não devia ser conquistada pelas armas, mas sim eventualmente concedida pelos senhores.

Tudo isto são factos conhecidos, e não propriamente um julgamento acusatório de António Vieira, figura que, aliás, sempre me interessou como objeto de investigação. O jesuíta tem sido muito estudado e tem de continuar a ser estudado, pois é uma figura com uma trajetória riquíssima e, em alguns aspetos, única. No entanto, sou contra o uso abusivo de António Vieira como um "defensor dos direitos humanos". Essa ideia, lamentavelmente inscrita na placa que acompanha a estátua que foi erigida em Lisboa em 2017, está completamente desfasada dos quadros mentais da época de Vieira. Também não me parece que se deva retratar o jesuíta como um protetor desinteressado dos índios, uma espécie de Bartolomé de las Casas português, forma de dizer que, no fundo, o colonialismo português não era assim tão mau... Vieira estava ao serviço de um projeto de colonização que visava submeter o maior número possível de indígenas e mantê-los em situação de menoridade e sob a tutela da Companhia de Jesus. Quanto à ordem colonial e esclavagista que, no Brasil, foi criada pelos portugueses e doutrinalmente sancionada pela Igreja, não era nada aprazível para os índios e, muito menos, para os afrodescendentes. Vieira jamais teve como finalidade alterá-la de uma forma substantiva.

Durante demasiado tempo, sob a ditadura de Salazar e não só, vários historiadores portugueses esqueceram estes e outros factos, insistindo numa imagem fundamentalmente benigna da colonização portuguesa, no Brasil e em outros continentes. Hoje, felizmente, a situação mudou. Muitos dos que se ocupam do passado colonial português defendem uma abordagem mais rigorosa e mais bem fundamentada. E percebem, para além disso, que pior do que não falar sobre esse passado é substituí-lo por uma narrativa apologética do colonialismo português, ou por uma comemoração simplista e caricatural de figuras como o padre António Vieira.

A estátua que me levou a escrever este texto foi erigida em Lisboa há escassos três anos, e não propriamente no século XIX ou sob o Estado Novo. Há alguns dias o atual presidente da câmara lisboeta reiterou que se revia na estátua porque esta mostrava que Vieira tinha uma "dimensão humanista e de tolerância num tempo em que isso não era de todo regra". Nessa ocasião, voltou a anunciar a criação de um "Museu da Descoberta", qualificando de "gratuita" toda a polémica gerada por este seu projeto. Mais ou menos pela mesma altura, o mayor de Londres anunciava que iria promover um debate aberto, informado e plural sobre a presença, na cidade, das marcas do império britânico. Em Portugal esta atitude mais crítica sobre o passado colonial já existe em vários sectores da sociedade. Seria importante que chegasse às autoridades políticas e religiosas, bem como à sociedade civil. E seria também importante que uma análise crítica de figuras como o padre Vieira deixasse de ser vista como antipatriótica. A finalidade destas análises é contribuir para uma sociedade melhor, assente numa relação com o passado mais informada, mais plural e mais justa.

https://expresso.pt/opiniao/2020-06-25-Para-uma-visao-mais-informada-e-plural-do-padre-Antonio-Vieira

sábado, 21 de agosto de 2010

Memorabilia ultramarina

Vítor Ferreira
Dossier

Memorabilia ultramarina

12.08.2010 - Eduardo Pitta
 
Ípsilon
 

Resgate de um passado sem futuro, esta literatura não se desembaraça do eterno retorno de si mesma
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O que define um retornado? Existe uma literatura de retornados? Os franceses chamam "pied-noir" aos franceses naturais da Argélia, categoria que inclui Althusser, Camus, Derrida e outros. Nós inventamos o termo "retornado" para designar os colonos de Angola e Moçambique. Dos retornados da Guiné ou São Tomé ninguém se lembra. Cabo Verde não encaixa nestes parâmetros.
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Realidades diferentes, de facto.
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Em Angola, a luta entre os movimentos independentistas (MPLA, UNITA, FNLA) teve expressão urbana na Batalha de Luanda, que a 9 de Julho de 1975 mergulhou a cidade num banho de sangue. Como refere Tiago Rebelo, "Na população branca dissolveu-se de vez a ilusão de que seria possível ter um lugar no futuro de Angola." (cf. "O Último Ano em Luanda", Presença, 2008) Em consequência, o governo português organizou uma ponte aérea de proporções homéricas: durante 140 dias, entre 17 de Julho e 3 de Dezembro de 1975 (a independência de Angola, a 11 de Novembro, não estancou o êxodo), centenas de aviões evacuaram para Portugal meio milhão de refugiados. A sociedade portuguesa não voltaria a ser a mesma.
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A ponte aérea é o tema do livro de Júlio Magalhães, "Os Retornados. Um amor nunca se esquece" (Esfera dos Livros, 2008), inspirado no caso verídico de uma hospedeira da TAP que fez onze voos em duas semanas. Como metáfora, é impressiva a imagem de um país a ser escoado de avião.
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Em Moçambique, a tentativa de secessão branca de 7 de Setembro de 1974, gorada ao fim de quatro dias, provocara a fuga de milhares de secessionistas para a África do Sul e a Rodésia. Quase nenhuns os que vieram para Portugal, onde a política do MFA era objecto da sua ira.
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Testemunha próxima dos acontecimentos, Ricardo de Saavedra escalpeliza o golpe e respectivas sequelas em duas obras: "Aqui Moçambique Livre" (Livraria Moderna, 1975; o título apropria-se do nome do movimento rebelde) e o romance "Os Dias do Fim" (1995; edição revista em 2008, Casa das Letras). Isto para dizer que, ao contrário de Angola, a saída dos portugueses de Moçambique fez-se à revelia das autoridades portuguesas, por iniciativa e risco dos interessados.
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O mundo desaparecido
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Feito o intróito, vejamos de que modo esta literatura do eterno retorno fixou o destino das populações deslocadas.
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Ao "boom" da literatura da guerra colonial, tema a que o Ípsilon dedicou dossier (4-4-2008), seguiu-se a publicação de livros que fazem o inventário dos dias de vinho e rosas vividos nas "províncias ultramarinas", com enfoque em Angola. Sem a pretensão de ser exaustivo, destacaria, além dos citados, os livros de António Trabulo, "Retornados - O Adeus a África" (Cristo Negro, 2009), e Manuel Acácio, "A Balada do Ultramar" (Oficina do Livro, 2009). Denominador comum, vénia a um mundo desaparecido.
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Vista do Índico, a borrasca imperial tem outros matizes. As suas balizas são eloquentes: "A Sombra dos Dias" (Bertrand, 1981), romance autobiográfico de Guilherme de Melo, sobre 50 anos da vida de uma família em Moçambique; e o corrosivo "Caderno de Memórias Coloniais" (Angelus Novus, 2009), de Isabela Figueiredo. Quando "A Sombra dos Dias" chegou às livrarias, a opinião pública não estava, como está hoje, receptiva a memórias coloniais. A crítica de referência ignorou o livro, o que não impediu fortuna de público, traduzida em sucessivas reedições.
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A partir da sua experiência pessoal (círculo familiar, homossexualidade, carreira jornalística, inflexão ideológica, ligações amorosas) Guilherme de Melo faz um "tour d'horizon" ao modo de vida moçambicano e à sociedade laurentina em particular. A nostalgia é temperada pela consciência dos factos, sem cedências de natureza "passadista". O que não é de admirar, se nos lembrarmos do primeiro romance do autor, "As Raízes do "dio" (Arcádia, 1965), que circulou em Portugal mas foi retirado do mercado em Moçambique, onde a guerra de libertação tinha começado menos de um ano antes.
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Ao contrário, Isabela Figueiredo faz o relato de uma menina de 12 anos acossada pela memória dos massacres de Setembro de 1974: "a negralhada perdeu o freio [...] chacinou, cega, tudo o que era branco". Também se lembra de ter visto os restos de um vizinho (desmembrado à catanada) espalhados no milheiral. Sobre a sociedade local, de que guarda recordações de infância, o discurso, mordaz, constrói um "patchwork" do que terá ouvido ou intuído em casa: "Os brancos iam às pretas. [...] As pretas tinham a cona larga e essa era a explicação para parirem como pariam, de borco, todas viradas para o chão, onde quer que fosse, como os animais. A cona era larga. A das brancas não, era estreita, porque as brancas não eram umas cadelas fáceis, porque à cona sagrada das brancas só lá tinha chegado o do marido, e pouco, e com dificuldade, que elas eram muito estreitas, portanto muito sérias, e convinha que umas soubessem isto das outras." Pela primeira vez, alguém questiona o mito da "multirracialidade". Os retornados não gostaram, fazendo de Isabela um alvo a abater.
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A falência do modelo de independência com que muitos colonos sonharam para Angola foi o detonador da literatura jubilatória que associamos à "saga" dos retornados. Isso é nítido nos livros de António Trabulo e Manuel Acácio. De certo modo também o é nos de Ricardo de Saavedra, mas o tom difere: lá onde Trabulo e Acácio tecem loas ao "paraíso perdido", Saavedra regista com secura o atropelo dos dias: "Há pouco mais de uma hora saiu a primeira edição daquele que deve ser caso único na história da imprensa em língua portuguesa. Para explicar um jornal do povo, este 'Diário' será paradigma. Redigido por profissionais que nunca trabalharam juntos, composto por linotipistas que só de vista se conheciam, montado e impresso por quem apareceu [...] sem artigos assinados ou nome de director, está agora a ser distribuído por populares que o anunciam como o jornal da liberdade."
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O traço distintivo destas obras é o de estabelecerem um contraponto entre a sociedade portuguesa, moldada pela política do Estado Novo, e o modo de vida de Angola e Moçambique, menos opressivo que na "Metrópole". Não cabe aqui desenvolver o tema da colonização dos territórios de África sob administração portuguesa, nem é essa a preocupação dos autores visados. No seu conjunto, são obras de fim de ciclo. Indiferentes ao juízo da História, os autores lamentam a perda de um mundo julgado imutável.
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Vastos territórios, Angola e Moçambique designaram-se, sucessivamente, por Colónias (até 1951), Províncias Ultramarinas (1951-72) e Estados (1972-75; por força da revisão marcelista da Constituição que mudou a Lei Orgânica do Ultramar). O desenvolvimento económico (em Angola) e um cosmopolitismo pautado por costumes "anglo-saxónicos" (em Moçambique, país que faz fronteira com seis países de língua inglesa), deram origem a sociedades abertas. Forçados ao cinzentismo do Portugal dos anos 1970, os autores da "memorabilia" ultramarina tentam resgatar o brilho de um passado sem futuro. Isabela Figueiredo não poupa nos adjectivos: "A metrópole era suja, feia, pálida, gelada. [...] Que triste gente! Divertiam-se a mofar connosco, atirando-nos à cara que estava difícil, pois estava, que aqui não havia pretinhos para nos lavarem os pés e o rabinho..."
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Afinal, a maioria destes autores deixou África no início da adolescência. Isabela Figueiredo e Júlio Magalhães nasceram em 1963, Manuel Acácio e Tiago Rebelo em 1964. Sem perceberem porquê, todos viram fugir a possibilidade de outro destino. Dos quatro, só Isabela não culpa o devir histórico. (O seu ressentimento é de outra índole.) São diferentes os casos de Guilherme de Melo (n. 1931), Ricardo de Saavedra (n. 1941) e António Trabulo (n. 1943), homens feitos quando o Império enfim ruiu.
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Num país onde "tudo demora muito tempo a mudar" (cf. "Caderno de Memórias Coloniais", 2009), o desencanto foi "de rigueur". Nem outra coisa seria de esperar. Na síntese certeira de Guilherme de Melo, tinha secado "o esplendor da relva."
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Os retornados estão a abrir o baú

Ípsilon

Um império encaixotado: a foto de Alfredo Cunha (1974) é simbólica. Caixotes de retornados amontoam-se junto ao Padrão dos Descobrimentos
Dossier

Os retornados estão a abrir o baú

12.08.2010 - Raquel Ribeiro


Foi preciso esperar mais de 30 anos para que as feridas abertas pelo retorno dos colonos em África começassem a sangrar. Muitos decidiram agora escrever sobre o estigma de "retornado". Fundamental para se perceber o que é ser português, hoje
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Há 35 anos, após 14 anos de guerra colonial, mais de meio milhão de pessoas regressava das colónias portuguesas em África, pondo fim a 500 anos de império ultramarino português. "Nós fomos, nós somos uma pequena nação que desde a hora do nascimento se recusou a sê-lo sem jamais se poder convencer que se transformara em grande nação", escreveu Eduardo Lourenço, em "O Labirinto da Saudade". "Mesmo na hora solar da nossa afirmação histórica, essa grandeza era, concretamente, uma ficção. Nós éramos grandes (...), mas éramos grandes longe, fora de nós, no Oriente de sonho ou num Ocidente impensado ainda."
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Portugal, um país que se tinha imaginado grande, com vastos territórios nos trópicos que eram uma extensão da sua diminuta dimensão europeia, viu-se enfiado numa ponte aérea de vários meses. No final de 1975, com a independência das suas províncias ultramarinas, o país estava novamente confinado a um rectângulo na costa europeia do Atlântico.
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A balada do Ultramar tem sido cantada por vários escritores desde o final da década de 70, mas foi preciso esperar 30 anos para que as feridas abertas por um retorno abrupto começassem a sangrar. A história não mentiu ao dizer que muitos vieram com a roupa que tinham no corpo para um país aonde nunca tinham estado e onde foram rotulados de "retornados".
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Agora, muitos decidiram escrever sobre isso - sobre como era a vida na colónia, sobre o que perderam, sobre o que ficou, sobre como foi "regressar" e viver com o estigma de "retornado" -, buscando a sua identidade nos meandros de uma memória pessoal que era também uma história colectiva e tentando perceber o que é ser português hoje. Nos últimos anos, têm vindo a lume livros sobre a presença portuguesa em África: diários de guerra, ficções e autobiografias, mas também livros escritos por retornados (ou não) evocando a tragédia da ponte aérea ou as consequências do retorno na vida de muitos portugueses.
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O quotidiano na colónia
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António Mateus partiu para o Lobito com a família aos cinco anos. Aos 25 saía de Angola. Chegou ao Brasil via ponte aérea por Lisboa, "com uma mão na frente e outra atrás, e 180 dólares no bolso". Aos 61 anos, reformado, a viver em Palma de Maiorca, é autor de "Lobito" (Guerra e Paz, 2009) e "Lubango, Paris, Mavinga" (2010). Porquê escrever? "É uma questão de aritmética: 25 mais 35 são 60. Muita gente saiu de África com cerca de 25 anos, passaram-se 35, e muitos temos 60 anos hoje."
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Tinha estas histórias há anos na cabeça, mas uma vida intensa de trabalho impediu-o de se sentar a escrever - Brasil, Espanha, América Latina, Paris, andou um pouco por todo o lado. Não é um nómada, mas um cidadão do mundo, mistura de "lobitanga" (do Lobito) e "chicoronho" (de Sá da Bandeira, actual Lubango), português mas também maiorquino.
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África só está lá nos livros, explica, porque foi aí a sua juventude: "A minha adolescência passei-a lá. As namoradas, o primeiro beijo; foi lá que conheci a minha mulher e que o meu filho nasceu. Isso marca de tal maneira uma pessoa porque são transformações profundas da juventude."
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Muitas destas novas narrativas sobre África são circulares: nos anos 50, dá-se a partida para Angola ou Moçambique, a bordo dos paquetes.
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Colonos vindo das Beiras, de Trás-os-Montes, do Alentejo, das enormes "bolsas de miséria do interior", refere Mateus. Depois, a vida na colónia passa-se, com mais ou menos sobressaltos, até ao regresso forçado em 1975. Neste caso, "Lobito" é excepção (há uma partida, mas não se dá o "retorno", porque a narrativa não chega a esse tempo histórico).
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Nos primeiros capítulos, Mateus fala criticamente do Estado português que se limitava a "meter as pessoas nos navios, onde, amontoadas como animais, seriam levadas a povoar as colónias". Só a "amizade e solidariedade dos portugueses já desterrados substituíam as obrigações de um Estado omisso", escreve. Depois, a horrenda viagem de barco, em terceira classe: "O enjoo levava ao vómito constante (...). Numa mesma camarata, dez ou quinze pessoas a vomitar ao mesmo tempo." A viagem era degradante, "fazendo lembrar as viagens dos escravos nos barcos negreiros". Remata com ironia: "Os portugueses tinham demonstrado ser grandes especialistas nesse tipo de travessias."
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Em "Lobito" seguimos os passos do jovem mulato Zé Beto e dos seus dois amigos, Zeca (negro) e Zé Lisboa (branco). A questão da raça está lá, premente (sem a violência de outros textos, é certo), mas Mateus cartografa igualmente outras barreiras, de classe, que marcavam a sociedade estratificada do Lobito, bairro a bairro. Na cidade, diz ao Ípsilon, "havia mais diferença entre ricos e pobres do que entre pretos e brancos. Era uma sociedade de castas". Continua: "Não quero fazer um paraíso disto: os pretos na classe média eram uma minoria, de facto, mas a violência do racismo está mais na geração anterior à minha, nos mais velhos, um racismo gutural, de uma violência verbal no trato e na humilhação".
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Para quem esteve no Lobito, as referências locais são familiares: dança-se ao som de merengue, bebem-se Cucas geladas, o ponto de encontro era no Pic-Nic, ia-se à taberna do Peralta, banhos de mar era na ponta da Restinga, e via-se cinema ao ar livre nas noites quentes. Este era o quotidiano dos colonos em África, sobretudo em Angola, como o livro de Ana Sofia Fonseca, "Angola, Terra Prometida" (Esfera dos Livros, 2009) tão bem mostra. A jornalista, de 32 anos, recolheu depoimentos de mais de 80 pessoas, antigos colonos e não só, para compor um livro que é, em muitos aspectos, um documento exaustivo da vida na colónia.
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Durante anos, conta ao Ípsilon, foi ouvindo histórias sobre os "melhores anos" em África. Perguntava-se "como é que se podia falar dos 'melhores anos' quando esta foi uma época em que a maioria da população vivia muito mal, e a partir de 1961, de guerra também? Os 'melhores anos' são referidos por pessoas que viviam numa 'redoma dourada'. Tinha interesse em compreender a complexidade desse fenómeno."
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Estas pessoas "trazem Angola presa à alma" e, juntas, "revelam o retrato de um período que ainda é uma noite escura", escreve Fonseca. É o retrato de um tempo que não existe mais. "Como era a vida das pessoas? Diziam que era maravilhosa, mas como era? Havia mais liberdade ou não? A PIDE era mais ou menos interventiva do que cá? A rádio como funcionava? O que é que as pessoas faziam à noite? Como era a vida das mulheres?", pergunta. De Luanda às outras cidades, nas fazendas, nas plantações de café e de algodão, no mato, nas caçadas, no entretenimento (futebol, corridas de carros, música, cinema, praia, noite), "Angola, Terra Prometida" mostra até que ponto o dia-a-dia em Angola antecipa um duro contraste com o "retorno" a um Portugal rural, atrasado, pequeno.
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Quando escreveu o livro, fez tudo para "não cair em nostalgias, nem tão-pouco em culpas por expiar". Não há aqui qualquer branqueamento: Fonseca admite que este é um retrato das elites numa sociedade profundamente injusta, cheia de desigualdades. Acredita que é à sua geração que cabe contar estas histórias, "sem saudosismo, sem tabus".
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Para a investigadora Sheila Khan, o livro de Ana Sofia Fonseca faz uma "sociologia das ausências", tal como Khan o fez no seu livro "Imigrantes Africanos Moçambicanos" (Colibri, 2009). Ou seja: "Transforma em existente palpável aquilo que é produzido como ausente e mostra que esses silêncios não estão nada calados", diz. Ao coligir estas histórias num enquadramento social, histórico e cultural, "este é um livro-útero porque cria um espaço de conforto e de sossego suficiente para que as pessoas tenham possibilidade de assimilar, absorver e pensar nestas narrativas de vida".
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O marketing da nostalgia
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É provável que o leitor já se tenha deparado com muitos destes livros: capas em tom sépia, postais ilustrados com imagens nostálgicas de uma África que não existe mais. Para a professora Isabel Ferreira Gould, da Universidade de Notre Dame, nos Estados Unidos, estes livros são o resultado de um trabalho de marketing com uma missão concreta: "Criar uma noção de familiaridade, fazer um apelo emocional ao leitor e à sua saudade. As editoras têm claramente um público em vista: pessoas que viveram em África."
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Só que as capas enganam, porque nem todos os livros apresentam a ideia de um império perdido mas idílico, de tempos idos mas felizes. Estes livros estabelecem um contraste importante entre o que é o "colonialismo" e a "colonialidade", diz Sheila Khan. "O colonialismo é a ideologia, a regra; a colonialidade é esse colonialismo reduzido no seu dia-a-dia, na prática, no seu agenciamento, nas relações entre as pessoas. Tem a ver com a forma como um mesmo fenómeno é sentido, vivido e imposto." Estes livros, argumenta, traduzem o quotidiano colonial e "os sentimentos que estavam colados a ele, as vivências, a forma como cada um percebia e sentia essa forma de estar num lugar que, não sendo seu, era seu; como cada um se apropriava dele e como é que a sua identidade se transformava a partir deste".
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Nesta literatura está a colónia em toda sua complexidade, mas também a nostalgia: "A nossa relação com a casa, o espaço e o tempo, ansiando por um lugar de pertença. Nostalgia pelo perdido, pelo que África poderia ter sido, e pelo que não tínhamos e queríamos ter tido", explica Isabel Ferreira Gould.
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Antes, a literatura portuguesa contemporânea portuguesa já tinha ido a África, visitando o período da guerra colonial nos livros de Lídia Jorge, António Lobo Antunes, João de Melo; só no final dos anos 90, surgem as primeiras obras sobre a experiência do Império e do colonialismo. Há aqui um salto e não se pode ignorá-lo. Estes livros são importantes: "Não podemos escamotear esta narrativa de nostalgia." A qualidade literária não está em causa: "É uma narrativa muito próxima do testemunho, e muitos são novos autores a estrear-se."
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No livro que Ferreira Gould vai publicar, "Império na Primeira Pessoa: Memória, Família e Colonialismo na Narrativa Portuguesa Contemporânea", estas obras vão figurar porque falam "da relação de pertença e não-pertença sob a perspectiva do colono. Porque há vários colonos. Ele é muito importante enquanto figura literária: é colonialista, é colonizador, mas também é imigrante e as pessoas têm muito pudor em falar nisto." O colono é um imigrante fruto e veículo de uma ideologia: "O pai de família, o pai português, o racista."
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Este livros, sublinha a investigadora, não devem ser lidos com o preconceito com que o Portugal europeu, continental, sempre tratou os retornados. "Lidamos melhor com a memória do soldado que fez a guerra colonial do que com a do colono. Como pensá-la, como rememorá-la? É legítima a sua memória? Estes romances trazem notícias ao pensar de forma legítima a memória da colónia e do retorno, hoje."
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Por isso, o que se apaga ou se omite é tão importante como o que está escrito. "Sim, muitos apagam, mas também reconstroem. No discurso da memória, as falhas são tão importantes como o que está lá. São testemunhos que rompem com a narrativa histórica porque o narrador pode dizer 'fui eu, vivi, perdi, estava lá', mas, por outro lado, essas narrativas são prisioneiras da identidade, o que limita o que podemos dizer sobre o outro".
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Sheila Khan chama-lhe literatura de "retornados" (e sublinha as aspas).
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A violência da linguagem
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Os livros de Isabela Figueiredo, "Cadernos de Memórias Coloniais" (Angelus Novus, 2009) e de Ricardo de Saavedra, "Os Dias do Fim" (edição de 1995 revista e aumentada, Casa das Letras, 2008) rompem com uma certa imagem da colónia, e demonstram a violência do quotidiano e do período de independência com a força crua da linguagem.
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Exemplos: "Uma branca não admitia que gostasse de foder, mesmo que gostasse. E não admitir era uma garantia de seriedade para o marido, para a imaculada sociedade toda." (Figueiredo, 47 anos) "O jornalista que sou percorreu os trilhos da guerra. Foi treinado para se defender e para matar, se necessário. Empurraram-no contra um inimigo impiedoso.
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Cumpriu o que lhe mandaram, na atitude ingénua e cómoda de prestar um serviço à Pátria. O homem que sou é o resultado laboratorial de um equívoco (...). Eis porque, neste poiso africano que antecede a aerogare da Portela de Sacavém, me contorço. Deprimido e soturno, pareço uma galinha pedrês, a sacudir as asas, no terreiro da aldeia de colmo a que ateiam fogo." (Saavedra, 58 anos)
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Figueiredo e Saavedra saíram de Moçambique com a independência e estes livros são os seus diários - autobiográfico, no caso de Isabela; ficcional (?), no caso de Saavedra - da colónia, da violência, do retorno e do exílio. "Tive de cortar com o passado, e cortei mesmo. Não sou saudosista, não quero reconstituir nada, não quero vingança, mas gostaria que os meus netos soubessem que sofremos", diz Saavedra ao Ípsilon.
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O livro de Figueiredo foi uma "pedrada no charco", diz Sheila Khan. "Isabela é a filha desobediente" que vem romper com o "status quo" da literatura sobre a colónia, e essa ruptura é feita de uma forma muito violenta: "A maneira como ela entra no texto, ninguém quer ouvir aquilo. Tínhamos uma ideia muito pacífica e paradisíaca do colonialismo português em África." A autora tem recebido mensagens de leitores que se identificam com a sua visão da colónia - racista, violenta, profundamente injusta. "Sinto-me bem porque sinto que não sou só eu, não fui só eu que tive de ouvir aquilo, muitas mais pessoas ouviram as mesmas coisas. Durante muito tempo senti-me muito sozinha relativamente ao que eu sentia sobre a minha realidade africana, sobre as minhas memórias".
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Estes são exemplos do que Isabel Ferreira Gould chama de "narrativas de decantação", ou seja, "textos escritos na primeira pessoa" sobre memórias "que estão estruturadas entre uma visão crítica do colonialismo e a necessidade de exaltar, para o bem e para o mal, as figuras fundamentais da identidade dos sujeitos da narrativa". São, em muitos casos, "obras de filhos a rever as suas memórias e as das suas famílias, estabelecendo tensões e conflitos dentro da sua própria geração e com a geração dos seus progenitores". Mas, ao tentar filtrar o passado, ao decantá-lo, "como o próprio nome indica, também estão a homenagear, louvar, a elogiar: há uma tensão entre quem critica e ao mesmo tempo louva o progenitor".
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Os silêncios guardados no baú ainda por abrir são o resultado de "pactos de amor nas famílias, que não podem ser quebrados", diz Isabela Figueiredo, que esperou pela morte do seu pai para poder dizer tudo. "Só dentro de alguns anos é que estas histórias poderão vir à tona. Os filhos que viveram esta realidade e que podem contá-la estão presos a esse pacto, comprometidos na teia de afectos."
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Retornado ou refugiado?
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"Vim sem nada, só com a roupa que tinha vestida"; "Nós estivemos dois dias no aeroporto de Luanda"; "Nós vivíamos em Nova Lisboa. Quando saímos já havia tiros"; "Nós éramos do Uíje... deixámos lá tudo"; "Eu nem sei do resto da minha família"; "E agora o que vai ser de nós nesta terra?"
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É através deste mosaico de vozes que Carlos Vale Ferraz descreve em "Fala-me de África" (Casa das Letras, 2007) a tragédia do retorno. O romance tornou-se série de televisão, "Regresso a Sizalinda", agora em estreia na RTP. Não é sobre o retorno em si, diz o autor, "mas uma história de busca de identidade. E também da relação dos portugueses com África". A questão dos retornados, nota, sempre o tocou: "Não apenas aqueles milhares de pessoas que vieram em 1975, mas a vivência do retorno. A ideia de Portugal de 1975 para cá é a que está reflectida no livro, a de que encerrámos um ciclo".
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O ciclo fechou-se, mas ainda estamos todos com a cabeça em África. Diz Vale Ferraz: "Num determinado momento, a expansão foi como aquelas crianças que andaram a juntar as carruagens num comboiozinho. Numa determinada fase, fomos perdendo carruagens, primeiro a Ásia, depois o Brasil, depois a Índia, e finalmente perdemos a carruagem de África. De repente, vimo-nos todos dentro da mesma carruagem, e há uma certa sensação de sufoco. É isso que faz as pessoas escrever: não temos para onde fugir." Perante a impossibilidade de fuga, "agora, vamos ter de pensar em nós, aqui, como nos relacionamos com os outros".
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É por isso que Isabel Ferreira Gould afirma que estes livros são "sobre Portugal, sobre nós e a nossa relação com África, sobre o eu português e como este vê o outro". África está lá enquanto espaço e cenário, "paisagem, campo de batalha, de encanto e desencanto".
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Carlos Vale Ferraz, 64 anos, não é um retornado. Foi militar e cumpriu comissões em Angola, Moçambique e Guiné. De seis romances, três são sobre África. Escreve sobre o continente porque, explica, "na segunda metade do século XX, é o assunto determinante da história de Portugal": "Se não escrevemos sobre África, não percebemos nada do que se passou em Portugal, não percebemos nada do que foi o Estado Novo, nem o que foram as transformações a seguir. Escrever sobre África é escrever sobre o nosso tempo. O Lobo Antunes não conseguiria escrever sobre as pessoas suburbanas que vão para os centros comerciais ao domingo se, na sua maioria, não fossem pessoas que vieram de África, quer sejam aquelas que foram combater e depois vieram da província para aqui, quer sejam aquelas que regressaram em 1975."
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Os "retornados" (mais aspas) foram bodes expiatórios do colapso do império, e esta literatura que está a aparecer em Portugal (de, para ou sobre retornados) está a abrir as feridas. "Estas pessoas não são retornados, muitos não retornam a lugar nenhum. São refugiados de guerra", diz António Mateus. "Retornado" é a palavra "inventada para contornar uma realidade". Dizerem-se "refugiados", explica Khan, é a "forma como as pessoas tentam descolar-se da imagem de retornado, de mágoa e de exílio. Dizer que se é um refugiado é dizer que se foi expulso da sua terra, que não se pertence a Portugal e que Portugal não se lhes pertence." Ricardo de Saavedra foi um refugiado político, "tout court", exilado na África do Sul. A sua personagem Luís Ribeiro Sales escreve, em "Dias do Fim": "Estou no campo de refugiados de Nelspruit. Não se trata de reportagem, não vim como observador. Sou um deles. Sentado numa pedra, escrevo. Tudo o que me resta cabe debaixo do braço."
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Os "de cá", explica Isabela Figueiredo, "diziam que os retornados andavam a explorar os negros. Eram ataques muito fortes, batia na ferida das pessoas, porque era uma metáfora, mas era verdade; era um eu colectivo que se enquadrava nessa imagem". "Retornado" soava "assim como quando se diz 'ó preto' como ofensa: 'ó retornado!' soava mal, porque queria dizer fascista, explorador." Ela olha para a palavra de outra maneira: "Como se ela quisesse dizer: pessoa que veio de África a seguir à independência."
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Cartografia emocional
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Todos estes escritores são "órfãos desse grande progenitor que foi o colonialismo português. Ao não ser capaz de dar a nenhuma destas pessoas o sentido de cordão umbilical, o colonialismo vai tocar na debilidade estrutural do que é ser-se português", diz Khan.
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A literatura do retorno é uma forma especial de luto. Um luto que ainda não foi verdadeiramente feito, porque não se "pode pensar em luto sem se sepultar um corpo, e nós não temos lá nada sepultado porque viemos embora", e que é descrito em "A Balada do Ultramar", de Manuel Acácio (Oficina do Livro, 2009). Jornalista na TSF, Acácio, 46 anos, não é retornado e nunca foi a África. Foi casado com uma portuguesa que se dizia angolana, retornada. Admite que "A Balada do Ultramar" é o seu luto pela morte da mulher (há cinco anos), mas também o luto que milhares de portugueses não fizeram.
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As palavras de Khan vão ao encontro do seu romance: "É um silêncio insepulto que nos diz que aparentemente está tudo bem e está tudo resolvido (porque afinal Portugal recebeu de forma pacífica e 'gloriosa' estas pessoas). Mas se elas têm necessidade de escrever, é porque alguma coisa não está bem."
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Foi por sentir que alguma coisa não estava bem que Acácio escreveu. Partiu com "muitos preconceitos para este livro". Tinha medo do que as pessoas iam pensar: "Que sou saudosista e colonialista, que estou a tentar reescrever a história". É o seu primeiro romance, sobre um homem que está a contar a história do regresso. "Quis pôr-me no papel de quem se sentiu injustiçado, mal recebido. Alguém que sente que é de África e está de certa forma a fazer um ajuste de contas com o seu passado."
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Nove anos à frente do Fórum TSF fizeram-no perceber que a memória pacificada da mulher com Angola não coincidia com a memória de muitos outros retornados. (Ou)viu que "as feridas não estavam nada saradas, estavam todas em carne viva. Havia uma grande revolta silenciada naquelas pessoas. Os fóruns eram uma oportunidade de falarem." "['A Balada do Ultramar'] é o filho desse espanto com que fiquei quando percebi que havia uma enorme revolta de pessoas que tiveram de deixar tudo e depois chegaram cá e foram apontadas, criticadas, estigmatizadas", continua.
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Não ter contas a ajustar com o "seu" passado colonial poderia à partida ser um impedimento, mas acabou por ser uma vantagem: "Não estou preso às recordações da minha família, não estou amarrado a laços".
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Talvez por isso, esse homem velho conta a história das suas vivências em África sem o pudor do afecto. O livro passa esse saudosismo do passado colonial (propositado, diz), mas também toca de forma clara na questão da sexualidade, "na ida às cubatas, no racismo, na violência verbal, no trabalho escravo".
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No fundo, os retornados são isto: "Às vezes penso que devíamos ser como as cobras. Elas aprenderam a largar a pele envelhecida e deixam-na para trás sem qualquer remorso", escreve Acácio. Mas o remorso, a vergonha, a mágoa ainda estão lá. Esta é "a dor de uma geração", diz. "Há uma cartografia emotiva que está por fazer."
 

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1 a 10 de um total de 15
comentario20.08.2010 - 15:12 - Anónimo, angola
ja vi mais ou menos o q foi ca deixado e o q existe hoje, é apenas um povo q n sabe viver com outras raças, ou mesmo pq é de outro bairro ou do outro lado da estrada. esqece-se a incapacidade propria no odio ao de fora empreendedor, sem solução proxima-
comentario20.08.2010 - 11:12 - PT, PT
Sou filho da leva de imigrantes dos meados dos anos sessenta. Nasci em Luanda e vivi, do que a memória se lembra, em Carmona-Uíge. O meu pai era capataz na JAEA e a minha mãe doméstica e vivíamos num anexo. Mais tarde mudamo-nos para um prédio onde a minha mãe foi ser porteira! Como pudemos ser chamados de colonos? Como pude ser chamado de retornado?
comentario20.08.2010 - 09:11 - Anónimo, Angola
Onde está a responsabilidade politica de tudo isto? Onde estão os responsáveis pela miséria de milhares de cidadãos? Como se reparam os danos e sofrimento causados a tantos jovens que sem culpa alguma foram enxovalhados no seu dia-a-dia? Aqui já li a minha história escrita na primeira pessoa por outro comentador, e como eu existem milhares... Quem vai esquecer de chegar ao ciclo preparatório e ao secundário e por ter nascido em Angola, Moçambique, Cabo Verde, Guiné-Bissau ou São Tomé e Príncipe ouvia sistemática mente da boca de colegas de escola frases como "Ó branco de pele virada ao contrário!", "Vai para a tua terra!", "Retornado de segunda!", etc., etc., Etc.. Recordo-me como se fosse hoje a chegar à estação dos comboios e a mãe a querer apanhar um táxi com os seus quatro filhos. Depois de entrados indicou o local, o "bom" do taxista apenas referiu, para o bairro dos retornados? Não, não vou. E a mãe a ter de sair com os seus quatro filhos e voltar para a praça à espera que houvesse algum bom taxista que nos iria deixar à porta de casa. Recordo-me por debaixo da Ponte 25 de Abril da quantidade de caixotes que foram roubados, vandalizados, saqueados com os pertences de muitas famílias que ainda conseguiram enviar ao abandonarem a sua vida. Recordo-me de a própria polícia mal tratar quem nascesses nas ex-colónias. Hoje vivo em Angola, um regresso que esperava mais amistoso, mas "simpaticamente" me tratam por branco, pula, e repetem aquilo que na infância e juventude ouvia, "Vai para a tua terra!". pergunto-me vezes sem conta, de onde sou afinal?
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comentario20.08.2010 - 07:13 - Anónimo, PORTO
Quando cheguei a portugal com os meus pais tinha eu 5 anos de idade , os meus pais nascidos em portugal eu e os meus irmãos nascidos e moçambique mas com nacionalidade portuguesa ou não foce moçambique uma colonia portuguesa , no entanto a minha alcunha na escola era o retornado era assim que me chamavam e muitas das vezes com despreso e odio , medo e egnorancia . Como muitos outros portugueses nós perdemos todos os bens de um dia para o outro ,chegamos a lisboa desolados sem ter para onde ir , no entanto os meus pais não cruzaram os braços e logo se desenrrascaram , vivemos tempos menos bons ,eu e os meus irmãos fomos criados , educados sem nunca pedirmos um centimo ao nosso governo portugues , hoje todos nós temos negocios em ramos diferentes e vivemos bem e confortavelmente para inveija de muitos , é que a honestidade o trabalho e a força de vontade de lutar acaba por dar frutos , é uma questao de honrra e de sacudir a miseria que nos caiu em cima dos ombros , os meus pais encinaram-me a olhar as pessoas olhos nos olhos com coragem pois quem não deve nao teme , passem bem pois o retornado fará o mesmo... 
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comentario20.08.2010 - 07:13 - Anónimo, PORTO
Quando cheguei a portugal com os meus pais tinha eu 5 anos de idade , os meus pais nascidos em portugal eu e os meus irmãos nascidos e moçambique mas com nacionalidade portuguesa ou não foce moçambique uma colonia portuguesa , no entanto a minha alcunha na escola era o retornado era assim que me chamavam e muitas das vezes com despreso e odio , medo e egnorancia . Como muitos outros portugueses nós perdemos todos os bens de um dia para o outro ,chegamos a lisboa desolados sem ter para onde ir , no entanto os meus pais não cruzaram os braços e logo se desenrrascaram , vivemos tempos menos bons ,eu e os meus irmãos fomos criados , educados sem nunca pedirmos um centimo ao nosso governo portugues , hoje todos nós temos negocios em ramos diferentes e vivemos bem e confortavelmente para inveija de muitos , é que a honestidade o trabalho e a força de vontade de lutar acaba por dar frutos , é uma questao de honrra e de sacudir a miseria que nos caiu em cima dos ombros , os meus pais encinaram-me a olhar as pessoas olhos nos olhos com coragem pois quem não deve nao teme , passem bem pois o retornado fará o mesmo... 
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comentario20.08.2010 - 06:46 - Rui, Saint Helena, E.U.A.
Eu nasci no Lobito. A minha Mae nasceu no Lobito. Fomos corridos em 1975 e 1976. Por mais que tente, sinto-me nao pertencer a nenhum sitio em particular. Apesar de ter saido com apenas 6 anos, tudo a minha volta daquele tempo esta ainda hoje presente; as cascatas agua em Sa da Bandeira, o fazer carrinhos de arame e caricas com os meus amigos da sanzala, a restinga, o gelado cassata do Veneza, a Ginha (a minha babysitter), os tiros ha noite na rua, as balas a entrarem pelo quarto ha noite, o esperar no hangar em Luanda pelo voo da Aeroflot para nos levar a Lisboa... Sao memorias que marcam e que magoam. Tal como a minha mae, nao era retornado, era Angolano sem patria.
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comentario20.08.2010 - 06:26 - Paulo, Luanda, Angola
Retornados? Muitos não o eram pois não tinham nascido em Portugal e retornados parecem-me ser assim os que regressam agora a Angola 
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comentario20.08.2010 - 03:01 - Manuel Ayres, Estoril, Portugal
Todos os grandes povos, passaram por situações que normalmente resultam do fim de ciclos civilizacionais, muitos deles bem mais dramáticos. Mas ao ler este artigo, compartilho do alívio que resulta dessa capacidade de catarse que provavelmente só com o tempo se alcança.
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comentario19.08.2010 - 20:08 - Ricardo Martins Soares, Curitiba - Brasil
Interessantíssimo! Mas há uma pergunta que não quer - e não deve - calar: Quando será que o Estado português, que hoje se tem como livre e democrático, vai começar a indenizar os retornados que contra a própria vontade foram obrigados a fugir da Africa? A França, a Inglaterra, a Itália e até Israel já indenizaram seus cidadãos que foram lesados no continente africano. É só seguir o exemplo...
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comentario19.08.2010 - 17:42 - Alexandre, Évora
Bom... fui uma vez a África, durante uma semana ali a Marrocos. Mas habituei-me aos comentários caçados em criança aos adultos (nasci em 74) menos lisonjeadores para com esta gente. Não obstante, os meus pais acolheram um jovem casal em casa proveniente de Moçambique. Ainda hoje somos amigos. As coisas são o que são e as circunstâncias (históricas, políticas, económicas) moldaram muita da nossa percepção do fenómeno antes e agora. Eu, simplesmente, fico feliz por termos exibirmos alguma maturidade para colocar estas questões em cima da mesa. Mesmo quando se trata de comportamentos inaceitáveis socialmente mas que foram tolerados ou encorajados por um regime já naquela época anacrónico. Ainda que para isso tenha sido preciso passar um terço de século. 
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comentario20.08.2010 - 07:13 - Anónimo, PORTO
Quando cheguei a portugal com os meus pais tinha eu 5 anos de idade , os meus pais nascidos em portugal eu e os meus irmãos nascidos e moçambique mas com nacionalidade portuguesa ou não foce moçambique uma colonia portuguesa , no entanto a minha alcunha na escola era o retornado era assim que me chamavam e muitas das vezes com despreso e odio , medo e egnorancia . Como muitos outros portugueses nós perdemos todos os bens de um dia para o outro ,chegamos a lisboa desolados sem ter para onde ir , no entanto os meus pais não cruzaram os braços e logo se desenrrascaram , vivemos tempos menos bons ,eu e os meus irmãos fomos criados , educados sem nunca pedirmos um centimo ao nosso governo portugues , hoje todos nós temos negocios em ramos diferentes e vivemos bem e confortavelmente para inveija de muitos , é que a honestidade o trabalho e a força de vontade de lutar acaba por dar frutos , é uma questao de honrra e de sacudir a miseria que nos caiu em cima dos ombros , os meus pais encinaram-me a olhar as pessoas olhos nos olhos com coragem pois quem não deve nao teme , passem bem pois o retornado fará o mesmo...
comentario20.08.2010 - 03:01 - Manuel Ayres, Estoril, Portugal
Todos os grandes povos, passaram por situações que normalmente resultam do fim de ciclos civilizacionais, muitos deles bem mais dramáticos. Mas ao ler este artigo, compartilho do alívio que resulta dessa capacidade de catarse que provavelmente só com o tempo se alcança.
comentario20.08.2010 - 06:26 - Paulo, Luanda, Angola
Retornados? Muitos não o eram pois não tinham nascido em Portugal e retornados parecem-me ser assim os que regressam agora a Angola
comentario19.08.2010 - 14:02 - Eduardo Magalhães, Lisboa, Portugal
Não concordo com a frase de Khan "Mas se elas têm necessidade de escrever, é porque algo não está bem". A necessidade de escrever não tem só a ver com sentimentos negativos. Talvez seja verdade que ainda não esteja descrita de uma maneira desapaixonada a vivência africana, o que é interessante é o actual reencontro de ex-residentes, que ocorre cada vez mais frequentemente, o prazer que o estimula, menos que um sentimento de nostalgia de uma terra perdida ou de tempos que não voltam. Para mim, revela a satisfação de termos atravessado o tempo e agora mais disponíveis queremos partilhá-lo com os outros. Como forma de agradecimento.
comentario19.08.2010 - 20:08 - Ricardo Martins Soares, Curitiba - Brasil
Interessantíssimo! Mas há uma pergunta que não quer - e não deve - calar: Quando será que o Estado português, que hoje se tem como livre e democrático, vai começar a indenizar os retornados que contra a própria vontade foram obrigados a fugir da Africa? A França, a Inglaterra, a Itália e até Israel já indenizaram seus cidadãos que foram lesados no continente africano. É só seguir o exemplo...
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