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domingo, 26 de abril de 2026

Graça Castanheira - E o porco gosta

 * Graça Castanheira

 A coragem cívica de Pacheco Pereira está em ter entrado num terreno onde ganhar talvez fosse impossível, mas sabendo que era ali — na televisão — que se criava a oportunidade para a ação imperativa.

A frase de Bernard Shaw que se associou ao debate entre Pacheco Pereira e André Ventura é mais interessante do que a sua leitura moral sugere. Quem a cita fica-se geralmente pelo primeiro movimento — não lutes com um porco, porque te sujas — e esquece o segundo, que é decisivo: e o porco gosta. Gostar, aqui, significa que o terreno da lama é o habitat do adversário, aquele em que ele se move com desenvoltura e onde qualquer gesto do antagonista, mesmo o mais justo, se dissolve no lamaçal.

O problema não é só a sujidade, é a impossibilidade de enquadramento. É aqui que a questão se torna cinematográfica. Há uma diferença de dispositivo entre o combate e o retrato. O combate é um campo-contracampo, exige duas presenças, uma alternância que produz equivalência mesmo quando as posições são assimétricas. Foi este o princípio que o cinema entendeu desde cedo: ao alternar dois planos, o espectador é levado a ler as duas figuras como termos comparáveis de uma mesma equação, independentemente daquilo que cada uma diz. O debate televisivo herda esta gramática, e por isso, antes de qualquer conteúdo, concede ao adversário metade do que ele precisa, que é o estatuto de interlocutor legítimo — e é exatamente esta concessão que se critica a Pacheco Pereira. A alternativa que o cinema conhece é o plano-sequência, e em particular o plano fixo, que obriga a figura a habitar sozinha o enquadramento até a retórica se desmontar pela duração. É a estratégia de muitos documentários observacionais, e a extrema-direita tende a receá-los porque precisa da contracena para a poder interromper e sabotar.

Acontece que o retrato exige condições que se foram perdendo: um espectador disponível para a duração, uma pedagogia do olhar, um espaço de escuta. Num sistema que premeia o fragmento contra a duração, o plano fixo do porco não compete pela atenção política em tempo real. Quem defende o plano sustentado contra o combate televisivo está a defender um recurso cultural que em escala pública já não existe. Entre dois dispositivos imperfeitos, o combate tem pelo menos a virtude de ocupar o terreno; o retrato, na atual paisagem política, corre o risco de não passar de uma forma elegante de desdém.

Foi a forma como André Ventura reagiu — as torções, as fugas, as falsas equivalências, a invenção de uma história sem PIDE, os bebés mortos como licença para a brutalidade colonial, a ridícula acusação de o seu interlocutor estar contra as Forças Armadas — que produziu o conteúdo que circulou a seguir. E é aqui que está o ganho real do debate: na revelação involuntária que o dirigente do Chega fez de si próprio, sob a pressão de ter de defender em tempo real o seu ponto de vista. A coragem cívica de Pacheco Pereira está em ter entrado num terreno onde ganhar talvez fosse impossível, mas sabendo que era ali — no campo-contracampo, na televisão — que se criava a oportunidade para a ação imperativa. À saída do debate, esses momentos tornaram-se cultura pop, contraditório partilhável, companhia argumentativa. Duas semanas passadas, abriram-se discussões laterais que de outro modo não teriam acontecido — a reflexão sobre a crueldade como linguagem política foi uma delas, e não a menor.

A frase de Shaw é uma observação de classe: pressupõe a possibilidade de nos mantermos limpos. E essa hipótese, hoje, em democracias sob pressão como as nossas, é precisamente o privilégio de que se deve duvidar. Pacheco Pereira ter-se-á enlameado, mas transformou a sujidade em prova pública — a lama como revelador fotográfico.

26 de Abril de 2026

domingo, 26 de janeiro de 2025

Graça Castanheira - Um momento arrepiante




* Graça Castanheira  

«A riqueza dos dez homens mais ricos do mundo cresceu, em média, quase 100 milhões de dólares por dia, ou seja, mesmo que perdessem 99% da sua riqueza de um dia para o outro, continuariam a ser milionários. O dinheiro dos super-ricos subiu 2 biliões de dólares só em 2024, o equivalente a cerca de 5700 milhões de dólares por dia, a um ritmo três vezes mais rápido do que no ano anterior, de acordo com um relatório da organização não-governamental de combate à pobreza Oxfam Internacional. Este é o segundo maior aumento anual da riqueza dos bilionários desde que há registos. O anterior maior aumento ocorreu em 2021, durante a pandemia, impulsionado em grande parte pelos triliões que os governos injetaram na economia. No pódio da revista Forbes dos cinco mais ricos do mundo de 2024 encontram-se Bernard Arnault, que gere o império da moda Louis Vuitton e Sephora, com uma fortuna avaliada em 233 mil milhões; seguido dos conhecidos Elon Musk (195); Jeff Bezos (194) Mark Zuckerberg (177) e Larry Ellison (141), cofundador da gigante de software Oracle.

À medida que a quantidade e o património líquido total dos bilionários continua a crescer nos EUA, muitos têm usado a sua riqueza para comprar ilhas — ora inteiras, ora parcelas — ou propriedade edificada. Em 2023, Jeff Bezos gastou 147 milhões de dólares na compra de duas mansões na ilha de Indian Creek, na Florida, onde é, desde então, vizinho do casal Ivanka Trump e Jared Kushner. A pequena ilha havaiana de Lanai, ao largo da costa do Maui, foi comprada por 300 milhões, por Larry Ellison. A Nova Zelândia, encontra-se hoje povoada de casas de pessoas super-ricas da elite tecnológica — Sam Altman, Peter Thiel — que, em caso de um qualquer acontecimento apocalíptico, apanharão um jato para uma das suas casas neozelandesas, de preferência uma que esteja devidamente equipada com um bunker, o último grito nas propriedades bilionárias que se prezem.

Até notícia em contrário, o bunker maior de todos está a ser construído por Zuckerberg na ilha havaiana de Kauai, num terreno de cerca de 6 Km2 que este adquiriu por 250 milhões. Koolau Ranch, de seu nome, organiza-se em torno de duas mansões com a área total de um campo de futebol profissional, unidas por um túnel que se ramifica num abrigo subterrâneo, protegido por uma porta de aço e cimento anti explosão, com espaço habitacional, uma cozinha industrial e abastecimento autónomo de energia e alimentos.

Foram inúmeros os momentos terríveis da cerimónia da tomada de posse de Donald Trump. Mas certamente o mais arrepiante foi aquele em que falou de Gaza, de forma casual, enquanto assinava um dos seus cerca de 200 decretos na sala Oval: “Olhei para imagens de Gaza e aquilo parece um enorme local de demolição. Realmente... tem de ser reconstruída de uma forma diferente. Gaza é interessante, tem uma localização fenomenal. É à beira-mar, tem ótimo clima. Tudo é bom. Podem ser feitas ali coisas bonitas e fantásticas. É muito interessante”. As observações de Trump ecoam os comentários do seu genro Jared Kushner, que já descreveu a propriedade à beira-mar de Gaza como “muito valiosa”. Mais tarde, acrescenta Trump: “Não é possível continuar a ter as pessoas que lá estão — a maior parte delas está morta, de qualquer maneira. Eles não governaram bem Gaza. Dirigiram-na mal e de forma perversa. Isso não pode ser.”

No dia em que se reconstrua Gaza para lá se instalarem os super-ricos, é o dia em que a humanidade se desencontra fatalmente de si própria; é o dia em que perde a cara e se torna a vergonha alheia do universo e mais além. Temos de lutar que nem raparigas e garotos intergaláticos para que esse dia nunca venha a acontecer.»

https://www.publico.pt/2025/01/26/opiniao/