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segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Manuel Loff - A “ameaça” comunista

* Manuel Loff

Desengane-se quem julgava que isto era tudo deles e que a esquerda desapareceu do horizonte de futuro.

 Na véspera da comemoração dos 250 anos da Revolução Americana, Trump decidiu retomar a velha máxima macarthista de que “o comunismo é a maior ameaça ao nosso país, incluindo as duas guerras mundiais, Pearl Harbor ou até o 11 de setembro” (CNN. 3.7.2026). Tal como quando, nos anos 50, McCarthy tinha organizado a campanha mais agressiva da história dos EUA contra esquerda norte-americana, não é simplesmente no contexto do momento (início da Guerra Fria, o avanço dos novos “socialistas democráticos” que ganham hoje apoio popular) que há que interpretar o regresso do anticomunismo como discurso agregador. O que McCarthy então e Trump hoje fazem é reproduzir as mesmas teses com que o fascismo da sua época clássica descreveu o comunismo, “o maior problema humano de todos os tempos”, como dizia Salazar.

 Para a historiadora Ruth Ben-Ghiat, “a nova linha [trumpista] consiste em associar os comunistas a todos os crimes, a todas as infrações” para “criar uma sensação de ameaça comunista para justificar a repressão. É o velho manual utilizado em golpes de Estado e tomadas de poder pelos fascistas.” Para os fascistas dos anos 30 e 40, para quem era de moda a tese de que o marxismo era "o filho mais velho do liberalismo", barrar o caminho do comunismo passava por prescindir dos sistemas liberais e impor novas fórmulas autoritárias.​

 As direitas retomam o anticomunismo como discurso mobilizador sempre e quando a resistência social que se lhes opõe o justifica. A hegemonia das classes historicamente dominantes nas Américas sustentou-se sempre sobre uma violência simultaneamente classista e racial, o que faz com que todos os projetos políticos alternativos, desde a radicalidade da Revolução Cubana, até às muitas variantes da “onda rosa” dos governos Lula, Chávez, Kirchner, Morales, sejam descritos com tons apocalípticos.

 Num recente relatório do Departamento de Estado, Cuba é descrita como a “capital do comunismo do século XXI", capaz de criar “uma infraestrutura revolucionária concebida para virar a América contra si própria”. Por mais que os últimos processos eleitorais na América Latina (Chile, Colômbia, Peru) confirmem uma dramática viragem fascizante, em sintonia com as direitas cubanas e venezuelanas no exílio, Trump tem com que se preocupar. Uma sondagem divulgada em março revelou que o apoio ao socialismo está a crescer, com 38% dos inquiridos (incluídos a grande maioria dos votantes democratas, jovens e afro-americanos) a favor de que os EUA “se afastem do capitalismo”.

Em setembro de 2025, a Gallup detetara já que 66% dos eleitores democratas preferiam o socialismo ao capitalismo. Surpresa? Talvez não: as mesmas sondagens davam resultados semelhantes a meio do primeiro mandato de Trump, o que significa que o triunfo político dos Musks deste mundo favorece alguma consciência crítica do capitalismo – da mesma forma que o genocídio que os israelitas praticam impunemente na Palestina ou o desvario belicista a que assistimos nos últimos anos está a exigir voltar a discutir o que é o imperialismo e o belicismo como lógicas de governo mundial.

Desengane-se quem julgava que isto era tudo deles e que a esquerda desapareceu do horizonte de futuro.

2026 07 28 

sexta-feira, 7 de março de 2025

Manuel Loff - O Comodoro e as coisas



* Manuel Loff


Verdade se diga que o país era pequeno, bem pequeno mesmo. Era o que ele lembrava aos seus compatriotas desde que, chegado à Presidência, enxotava os escrevedores de discursos que havia no Palácio. Ele por ele tinha “fome de vencer e sou muito ambicioso e não gosto de perder.” Mas o país que aprendesse a trabalhar, porque isto de “distribuir a riqueza inexistente, que não produzimos”, não podia ser!

Triunfara contra dois figurões dos velhos partidos. Pelo Partido Alcrata (popularmente conhecidos como “alcatras”), o comendador Parques Tendes, que se achava velha raposa dos tempos idos do professor Tamanco. No Partido Lista, como era habitual, não se tinham entendido, ofuscados muitos deles pelo brilho do uniforme do Comodoro, com quem se tinham dado tão bem. De entre eles, em bicos de pés, lá fizera o seu número o soporífero Dr. Apólice.

Foi a desgraça para eles. O Comodoro resolveu tudo logo à primeira volta. Irritara-se, isso sim, com o palavroso Porventura. O Comodoro tratava-o como quem trata um aspirante; todos conheciam os pedagógicos raspanetes públicos que gostava de dar aos praças. Mas sabia que precisava dele para livrar-se dos velhos partidos. E ainda por cima, o outro tratava-o com o mesmo grau de reverência com que despachava despautérios contra o resto do mundo. O Comodoro achava que o tinha posto na linha.

 Depois veio o rearmamento, o serviço militar obrigatório e a crise. O país era pequeno, tinha de poupar, a guerra vinha aí, e de guerras sabia ele. “Tempos de emergência” tinham chegado; aliás, a vida devia ser vivida toda ela como uma emergência, único meio ambiente no qual um povo desleixado compreende o seu dever. Chamou-se os constitucionalistas. Disse-lhes o que queria. Presidencialismo, o único regime das nações dignas desse nome. E que se reduzisse o número de deputados, 70 chegavam muito bem. Poucos mas bons. Os listas e os alcatras balbuciaram algumas dúvidas mas disseram que sim. Afinal, explicou-lhes o Comodoro, os tempos eram outros, e todos estavam de acordo que “já não estamos em 1975!”, a frase preferida dos comentadores. O Porventura disse que nunca tinha querido outra coisa, pudesse o Comodoro dar-lhe uma chance para demonstrar a sua valia no governo.

 Numa comemoração do 25 de Novembro – cuja passagem a feriado nacional o Comodoro aplaudira -, o Presidente fardado (por que não podia ele usar a farda como presidente?) apresentou o projeto. Os poucos deputados da esquerda abandonaram a sala. Vários cantavam uma canção sobre uma “vila morena”. O Comodoro queixou-se de “falta de respeito!”. Estava na altura de os pôr na ordem. O Porventura foi o primeiro a levantar-se para o aplaudir. “Sempre à disposição do senhor Comodoro para limpar a Pátria!”, garantiu. O Comodoro sorriu. Achou que o tinha no bolso. O Porventura achava que era ele que tinha o Presidente no bolso. Coisas da política, eles lá saberiam.

Depois, veio a guerra com a China. E mais austeridade. Agora assumia-se que era mesmo austeridade, e que tinha de ser. Quando começaram as greves, o Comodoro disse “Basta! Isto assim não pode ser!”, e a imprensa aplaudiu a linguagem genuína, a voz de comando, o caráter decidido! Impôs o estado de emergência, coisa que o país já conhecia. Explicaram-lhe que tinha de ser só por 15 dias e que depois havia que perguntar aos deputados se podia ser por mais tempo. “Claro que tem de ser, ou os senhores deputados acham que as guerras têm calendário?!” Fizeram-lhe a vontade. Proibiram-se as greves nos serviços públicos. Ele, militar, a servir a Nação, nunca tinha feito uma greve, por que haveriam os outros poder fazê-la?
 
E agora era assim. Como dizia o ele, no seu habitual “Colóquio à Lareira” pela televisão: “Para a frente, compatriotas! A pátria nos contempla e o passado nos espera.”

2025 03 05

https://www.publico.pt/2025/03/05/opiniao/opiniao/comodoro-212469

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2025

Manuel Loff - Gaza e Auschwitz, 80 anos depois

É hora de fazer o balanço dos 471 dias de massacre, limpeza étnica e execução de um projeto genocida para Gaza e o conjunto da Palestina.

 * Manuel Loff 

22 de Janeiro de 2025 

Ironia da história, o cessar-fogo foi declarado em Gaza quase 80 anos depois da libertação de Auschwitz (27 de janeiro de 1945) pelos soldados soviéticos. Confirmadas pelo Tribunal Penal Internacional as acusações de crimes de guerra e contra a humanidade praticados por Israel, emitidos mandados de captura de Netanyahu e do seu ex-ministro Yoav Gallant, aberta a investigação pelo Tribunal Internacional de Justiça sobre o crime de genocídio, é hora de fazer o balanço dos 471 dias de massacre, limpeza étnica e execução de um projeto genocida para Gaza e o conjunto da Palestina.

O TPI acusou a cúpula do Estado de Israel de crimes de guerra (provocar a “fome como método de guerra” e “intencionalmente dirigir um ataque contra a população civil”) e dos crimes contra a humanidade de “assassinato, perseguição e outros atos desumanos”. Pelos registos das autoridades sanitárias de Gaza, julgava-se que estaríamos a chegar aos 50 mil palestinianos mortos desde outubro de 2023, 40% deles crianças e adolescentes. “É como se uma sala de aulas cheia de crianças fosse bombardeada todos os dias, (…) e todas essas crianças são mortas”, dizia há meses Marta Lorenzo, da UNRWA, ao PÚBLICO. Ora os dados estão subestimados. Um estudo publicado na The Lancet estima em 64 mil os mortos só até 30 junho de 2024, isto é, 41% mais do que o registado (“Traumatic injury mortality in the Gaza Strip from Oct 7, 2023, to June 30, 2024: a capture–recapture analysis”, 9/1/2025). Se compararmos apenas os números oficiais (isto é, dos corpos encontrados e registados, excluindo, portanto, todos aqueles desaparecidos que possam estar sob as ruínas) com os dos períodos mais mortíferos de outras guerras, os palestinianos mortos pelos israelitas em Gaza no 1.º ano da invasão são o triplo dos ucranianos mortos em 2022 (cálculos do Uppsala Conflict Data Program, El País, 19/1/2025). A intenção genocida amplamente documentada nos relatórios do Conselho de Direitos Humanos da ONU foi passada à prática “numa das campanhas de bombardeamentos mais devastadoras da história” (Robert Pape, Foreign Affairs, 6/12/2023).

Limpeza étnica: 90% da população foi deslocada à força, “várias vezes, para territórios cada vez mais reduzidas, sem infraestruturas básicas, obrigando as pessoas a viver em condições que as expunham a uma morte lenta e calculada. [Israel] obstruiu ou negou deliberadamente a importação e a entrega de ajuda humanitária para salvar vidas. Restringiu o fornecimento de eletricidade (…), levando ao colapso dos sistemas de água, saneamento e cuidados de saúde. Submeteu centenas, senão milhares, de palestinianos de Gaza a detenção em regime de incomunicabilidade e a atos de tortura e outros tratamentos cruéis, desumanos ou degradantes que”, só esses, “terão causado pelo menos 53 mortes até agosto de 2024.” (Amnistia Internacional,‘You Feel Like You Are Subhuman’. Israel’s Genocide Against Palestinians in Gaza, 2024)

Que os responsáveis por tudo isto invoquem a memória do Holocausto, isto é, do genocídio judeu (e cigano, e de populações eslavas) perpetrado pelos nazis até 1945, está a impedir, como diz Marianne Hirsch, que o “Holocausto possa voltar a servir como 'referência moral universal', se é que alguma vez o foi" (Rethinking Holocaust Memory After October 7, Public Books, 15/7/2024). Um dos sobreviventes de Auschwitz, Primo Levi, recordava-se de como os SS, cientes da derrota próxima, diziam aos prisioneiros: “Seja qual for o fim desta guerra, nós ganhámos; (...) mesmo que algum de vocês escape, o mundo não acreditará em vocês. Talvez haja suspeitas, discussões, investigação de historiadores, mas mas não haverá certezas (...). [A]s pessoas dirão que os factos que vocês contam são demasiado monstruosos para serem acreditados: dirão que são exageros da propaganda (...), e acreditarão em nós, que negaremos tudo. Nós é que da UE face ao genocídio, é que sejam os israelitas a contar a história do que aconteceu em Gaza.  vamos ditar a história dos campos [de extermínio]” (Os que sucumbem e os que se salvam, 1986). O que nos arriscamos hoje, depois de ano e meio de cumplicidade e/ou silêncio dos EUA e

O autor é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico  

https://www.publico.pt/2025/01/22/opiniao/ 


sexta-feira, 4 de outubro de 2024

Manuel Loff - Um ano de completa impunidade

 * Manuel Loff  

Até ontem, os países NATO, um após o outro, exortavam Israel a não invadir o Líbano e enviavam a este país aviões... para recolher o seu pessoal diplomático e os cidadãos que queiram e, num país onde um milhão de pessoas (uma em cada cinco) tiveram de fugir de casa, consigam sair. Mas não enviaram aviões de combate para reforçar as Forças Armadas libanesas contra o invasor israelita, como fizeram com a Ucrânia. O que vale para a Ucrânia não vale para o Líbano. Num ano inteiro não valeu para Gaza, a Cisjordânia, territórios invadidos não há dois, mas há 67 anos. Num ano morreram incomparavelmente mais civis em Gaza do que em mais de dois anos e meio na Ucrânia — e Biden e Von der Leyen pedem aos países árabes a mesma desescalada e diplomacia cujo oposto praticam intensamente há anos na Ucrânia.

É insólito este medo de uma guerra generalizada na boca de quem governa deste lado do mundo. Ontem mesmo, Biden deu as ordens necessárias para comprometer (mais ainda) os EUA nas guerras de agressão israelitas. Depois de terem justificado a chuva de mísseis sobre Beirute como uma merecida punição do Hezbollah, os EUA substituíram-se aos israelitas na interceção dos mísseis iranianos para proteger Netanyahu e os genocidas que o acompanham. E disponibilizam para a guerra os 43 mil soldados que, por vezes contra a vontade dos respetivos governos, têm na região. E assim se procura “evitar a guerra”...

A discussão da dualidade de critérios não é apenas moral. Ela tem implicações diretas nas vidas de milhões de pessoas. A dualidade mata. Em Gaza, na Cisjordânia, Israel comporta-se como um dos ocupantes mais sinistros da história, perpetrando represálias sobre a população civil em termos que reproduzem as represálias nazis sobre as populações dos países ocupados na II Guerra Mundial, ou as dos norte-americanos no Vietname, dos franceses na Argélia. Neste momento, com o fluxo imparável de material bélico ocidental, Israel dispara (e mata) em todas as direções: Irão, Síria, Iémen, e agora, sobretudo o Líbano. Por enquanto ordena deslocações de populações; depois passará diretamente às deportações, seguindo o exemplo de Gaza. Bombardeia cidades e campos de refugiados – dos milhões de palestinianos que na Nakba de 1948 expulsaram das suas casas, dos sírios que procuraram fugir da guerra que o Estado Islâmico e as guerrilhas que a Turquia (membro da NATO) e os EUA armaram em 2011.

Os EUA e Israel são há muito aquilo que no glossário imperial se tem chamado “Estados párias”: sequestros em prisões ilegais, tortura sistemática, assassinatos contrariando qualquer forma de direito, nacional ou internacional. Israel é o Estado do planeta que mais resoluções da ONU incumpre, o seu chefe de governo tem um mandado de captura internacional, ataca estruturas e instalações das agências da ONU e assassina os seus funcionários (e médicos, e jornalistas, e crianças...). E, contudo, aí estão os governos UE a proibir por “antissemitas” manifestações de solidariedade com as vítimas palestinianas e exigindo boicote e sanções a Israel.

Somos um mundo de impunidade e de desigualdade, lembrou há dias Guterres, onde muitos governos “podem invadir outro país, devastar sociedades inteiras ou ignorar totalmente o bem-estar do seu próprio povo” e passar por cima de “decisões dos tribunais internacionais”. Não vale a pena é imaginar que a impunidade imperial dos nossos dias é nova. O que é nova é a coerência desta “necropolítica”, deste exercício do poder de “ditar quem pode e não pode viver” como “expressão máxima de soberania” (Achille Mbembe), com esta narrativa tipicamente fascista e colonial que nos fazem das guerras expansionistas de Israel. Não somente tratando os povos árabes da região como “animais humanos”, mas contando tudo nos mesmos termos socialmilitaristas com que no Brasil se narra a entrada da polícia militar numa favela ou como na imprensa nazi se falava da “bestialidade” dos ciganos, dos judeus e dos eslavos que “ameaçavam a existência da Alemanha”.

As guerras israelitas, a sua necropolítica genocida, as décadas de ocupação impune, aplaudida, justificada, dizem tudo do que é hoje o Ocidente. A nossa posição perante elas diz tudo de cada um de nós.


2 de Outubro de 2020

quinta-feira, 3 de outubro de 2024

Carlos Coutinho - artigo de opinião

 * Carlos Coutinho

2024 10 03

ASSIM se vê a força da TV, isto é, a força das imagens que ontem fez um milagre na página 8 do “Público”, escarrapachando a opinião de dois historiadores, personalidades muito informadas, mas simétricas, que sentiram necessidade de convergir publicamente, já que as guerras nos estão a sair a todos muito caras e ninguém sabe como elas vão acabar. Ao fim da tarde, já noite em Beirute, vimos os clarões róseos e brancos do fogo no centro de Beirute, em direto, instantes depois de mais um bombardeamento ao centro da capital libanesa.

   Eis o que escreve o académico e ex-ministro da Administração Interna, num governo do PS, Nuno Severiano Teixeira”:

   “O Médio Oriente está a ferro e fogo. Gaza está arrasada e o Líbano em convulsão. Israel ébrio de vitórias táticas e o Irão condicionado por um dilema estratégico- Os Estados Unidos apelam à paz e Netaniahu faz a guerra. Sob a vertigem do dos acontecimentos e a ameaça de um conflito em larga escala, é difícil ver claro. Mas há duas perguntas fundamentais: como é que tudo começou? E como é que vai acabar?

   “Começou há mais de um século. É um conflito que atravessou várias fases e diferentes configurações. Entre as duas guerras, ainda sob o mandato britânico da Sociedade das Nações, assumiu a forma de uma guerra civil. Nos anos 30, os palestinianos revoltaram-se contra a instalação de judeus em Israel e contra os britânicos que a facilitaram.

   “Depois da fundação do Estado de Israel, entre 1948 e 1973, o conflito assume a forma de um conflito clássico interestatal. Os palestinianos desapareceram da equação e as grandes resoluções do Conselho de Segurança da ONU nem sequer os mencionam. O conflito é entre exércitos regulares de Israel e dos estados árabes. É tempo da chamada ‘guerra israelo-árabe’. E das grandes vitórias israelitas: 1948, 1956 e, sobretudo, a Guerra dos Seis Dias, em 1967, e do Yom Kippur, em 1973. A partir de então, o conflito muda uma vez mais de configuração e aproxima-se de uma guerra assimétrica entre as forças palestinianas e o Estado de Israel. Este processo é acompanhado por uma ampla dinâmica: de desarabização do conflito e apropriação palestiniana da sua causa. Desde os acordos de paz de Camp David, em1978, que, primeiro o Egito, depois os outros estados árabes se vão afastando do conflito. Em 1993, nos acordos de Oslo, são os próprios palestinianos, através da OLP, que assinam, a paz com Israel.
 
  “Em casa, enquanto Israel vai consolidando o seu poderio militar, os palestinianos vão alimentando a sua revolta nas sucessivas intifadas 1987-1993, e 2000-2005. Uma coisa é certa: a desarabização do conflito e reapropriação palestiniana é acompanhada pelo desenvolvimento da guerra assimétrica. E é a retirada dos estados árabes que permite a entrada do Irão. Em 1988, depois da guerra Irão-Iraque, o Irão decide substituir os estados árabes no apoio à causa palestiniana e construir uma rede de influência regional de atores não esttais, explorando, precisamente, a guerra assimétrica: o Hamas, ;o Hezbollah; a Jihad Islâmica e os houtis. 

   “Agora, como é que tudo isto voa acabar?”

   O professor da Nova não sabe e eu também não. Sei que, capciosamente o Nuno Severiano finge desconhecer que Israel financiou o Hamas, porque era a forma de atacar por dento a OLP. Arafat acabou por morrer envenenado E Telavive até já tem ogivas nucleares… Adiante.

   Eis agora o que escreve o académico o ex-deputado do PCP Manuel Loff:

   “Até ontem, os países da NATO, um após outro, exortavam Israel a não invadir o Líbano e enviavam a este país aviões… para recolher o seu pessoal diplomático eos cidadãos que queiram e, num país onde um milhão de pessoas (uma em cada cinco) tiveram de fugir de casa, se conseguiam sair. Mas não enviaram aviões de combate para reforçar as Forças Armadas libanesas contra o invasor israelita, como fizeram com a Ucrânia. O que vale para a Ucrânia não vale. Num ano inteiro não valeu para Gaza, a Cisjordânia, territórios invadidos não há dois mas há 67 anos. Num ano morreram incomparavelmente mais civis em Gaza do que em mais de dois anos e meio na Ucrânia – e Biden e Von der Leyen pedem aos países árabes a mesma desescalada e diplomacia cujo oposto praticam intensamente há anos na Ucrânia. 

   “É insólito este medo de uma guerra generalizada na boca de quem governa deste lado do mundo. Ontem mesmo, Biden deu as ordens necessárias para comprometer (mais inda) os EUA nas guerras de agressão israelitas. Depois de terem justificado a chuva de mísseis sobre Beirute como uma merecida punição do Hezbollah, os EUA substituíram-se aos israelitas na interceção dos mísseis iranianos para proteger Netanyahu e os genocidas que o acompanham. E disponibilizam para a guerra os c43 mil soldados que, por vezes contra a vontade dos respetivos governos, têm na região. E assim se procura ‘evitar a guerra’.

   “A discussão da dualidade de critérios não é apenas moral. Ela tem implicações diretas nas vidas de milhões de pessoas. A dualidade mata. Em Gaza, na Cisjordânia, Israel comporta-se como um dos ocupantes mais sinistros da história, perpetrando represálias sobre população a população civil em termos que reproduzem as represálias nazis sobre as populações dos países ocupados na II Guerra Mundial, ou as dos norte-americanos no Vietname, dos franceses na Argélia. Neste momento, com o fluxo imparável de material bélico ocidental, Israel dispara (e mata) em todas as direções: Irão, Síria, I énen e agora, sobretudo o Líbano. Por enquanto ordena deslocações de populações; depois passará diretamente às deportações, seguindo o exemplo de Gaza. Bombardeia cidades ed campos de refugiados - dois milhões de palestinianos que na Nakba de 1948 expulsaram das suas casas, dos sírios que procuraram fugir da guerra que o Estado Islâmico e as guerrilhas que a Turquia (membro da NATO) e os EUA armaram em 2011.
   “Os EUA e Israel são há muito aquilo que no glossário imperial se tem chamado ‘Estados párias’: sequestros em prisões ilegais, tortura sistemática, assassinatos contrariando qualquer forma de direito nacional ou internacional. Israel é o Estado do planeta que mais resoluções da ONU incumpre, o seu chefe de governo tem um mandado de captura internacional, ataca estruturas e instalações das agências da ONU e assassina os seus funcionários (e médicos e jornalistas. E crianças…). E, contudo, aí estão os governos da EU a proibir por ‘antissemitas’ manifestações de solidariedade com as vítimas palestinianas e exigindo boicote e sanções a Israel. (…) As guerras israelitas, a sua necropolítica genocida, as décadas de ocupação impune, aplaudida, justificada, dizem tudo o que é hoje o Ocidente. A nossa posição perante elas diz tudo de cada um de nós.”

https://www.facebook.com/carlos.coutinho.7186896

quarta-feira, 24 de julho de 2024

Manuel Loff - Uma cultura comum

 

Opinião

Falsificações históricas é o que mais há. O grave é que os seus autores cheguem ao poder e por lá se pavoneiem.

* Manuel Loff

24 de Julho de 2024


O regresso da direita ao poder trouxe consigo curiosas personagens cujos percursos intelectuais e profissionais comprovam bem como à direita se partilha uma cultura comum, feita de continuidades políticas estruturais (nacionalismo, monarquia, reacionarismo moral e cultural, elogio do autoritarismo e do colonialismo) e de leituras puramente voluntaristas (para não dizer simplesmente manipuladas) da história. Ela transcende as “linhas vermelhas” do “não é não” e demonstra que extrema-direita e direita tradicional neoliberal podem disputar entre si o poder, mas convergem na visão do mundo, desde media como o Observador ou o Correio da Manhã, até obras coletivas como o já famoso, e lamentável, Identidade e Família que Passos Coelho apresentou, reunindo intelectuais da ultradireita e dirigentes do PSD.


Entre estas personagens está o chefe de gabinete do secretário de Estado da Presidência do Conselho de Ministros, nada menos. Pedro Velez é um monárquico desde sempre militante do PSD que, entre outras coisas, participou em 2019 num colóquio (depois livro) sobre o jornalista e astrólogo Olavo de Carvalho, o guru de Bolsonaro, com o título de “O Magistério de Olavo de Carvalho: para uma Paideia Integral”. Considerando que Olavo, inspirador de todo aquele circo com que o bolsonarismo povoou o governo brasileiro, não possuía qualquer percurso académico, no mínimo surpreende que se sinta tentado a escrever sobre ele alguém que agora ocupa no Governo um lugar desta relevância.


Outra destas personagens, reemersa há dias ao ser nomeado “secretário privado” de José Cesário, o eterno secretário de Estado das Comunidades dos governos do PSD, é um tal Vitório Cardoso, outro destes improvisados intelectuais orgânicos da direita que, sem qualificações específicas para coisa alguma, progride à sombra de nomeações políticas para lugares periféricos no aparelho de poder ou para atividades habitualmente descritas como lobbying. A História é, contudo, para eles um terreno irresistível para fazer propaganda.


VItório elogia rasgadamente a polícia política por esta, justamente na fase em que a repressão foi mais brutal, ter tido “um papel fundamental para combater os atos subversivos da oposição política, nomeadamente dos comunistas que poderiam pôr em causa a unidade, liberdade e soberania nacionais”


Vitório é destes que acusa Aristides de Sousa Mendes de “[pôr] em risco a vida de todos os portugueses”, reiterando insinuações sem base documental, que outros já fizeram, de como os alemães ameaçariam invadir Portugal para perseguir em 1940 os refugiados ajudados pelo cônsul. Noutro texto, o mesmo homem sustenta um chorrilho de disparates que contrariam todas as provas reunidas pela investigação historiográfica portuguesa e internacional sobre a ditadura de Salazar nos anos da Guerra de Espanha (1936-39). Para fazer um elogio bacoco da política de Salazar durante a Guerra de Espanha, comete erros garrafais, confundindo 1936 com 1975, errando nas datas de início da guerra de Espanha, da criação da PVDE ou da “ilegalização do PCP” (e dos demais partidos), e assegurando que “o Estado Novo manteve [na guerra] uma postura de não intervenção”. Ora César Oliveira, Iva Delgado, Fernando Rosas e eu próprio abundantemente comprovámos a violação sistemática do direito internacional através do apoio financeiro, logístico e diplomático (em articulação com o Eixo nazifascista) aos golpistas de Franco; as campanhas de Salazar para impedir qualquer negociação de paz proposta pelo Vaticano, França ou Reino Unido; ou as críticas feitas ao próprio Papa Pio XI por este pedir a suspensão de bombardeamentos aéreos contra populações civis (a começar por Guernica, em 1937).


Salazar incumpriu todas as regras do direito de asilo, não só ao entregar aos franquistas republicanos espanhóis que procuravam refúgio em Portugal, mas também, como demonstra a recente tese doutoral de Maria José Oliveira, abandonando milhares de emigrantes portugueses em Espanha que participaram na defesa da República contra o golpe de Franco, presos ou fuzilados.


Por último, este dirigente do PSD elogia rasgadamente a polícia política por esta, justamente na fase em que a repressão foi mais brutal, ter tido “um papel fundamental para combater os atos subversivos da oposição política, nomeadamente dos comunistas que poderiam pôr em causa a unidade, liberdade e soberania nacionais.”

Falsificações históricas é o que mais há. O grave é que os seus autores cheguem ao poder e por lá se pavoneiem.

O autor é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico

 


quinta-feira, 18 de abril de 2024

Manuel Loff - Uma festa muito prática

Por mais que tentem descafeinar a Revolução, as direitas deste país não têm motivos para querer comemorá-la.

* Manuel Loff

17 de Abril de 2024

Nos 50 anos do 25 de Abril e da democracia em Portugal, é de novo a direita que está no Governo. Parece a maldição dos anos terminados em 4: salvo nos 25 anos (1999), os aniversários redondos da democracia foram comemorados em contracorrente com governos de direita que se sentiram sempre incomodados com quase tudo quanto o 25 de Abril significou nas nossas vidas. Foi assim em 1994 (Cavaco) e em 2004 (Durão); duas das comemorações (1984, Bloco Central PS/PSD, e 2014, Governo Passos PSD/CDS) coincidiram com os dois piores períodos de devastação social provocada por políticas de austeridade que obrigaram a reavaliar o que restava da democracia que o 25 de Abril criara.

Por mais que tentem descafeinar a Revolução, as direitas deste país não têm motivos para querer comemorá-la. A memória da Revolução continua a irritá-las de sobremaneira (veja-se 25 de Abril. Revolução e mudança em 50 anos de memória, livro que está prestes a sair e que coordenei com Miguel Cardina). A libertação de Portugal e das colónias não foi simplesmente uma mudança de regime com o desmantelamento da polícia política (ao contrário da transição espanhola, por exemplo) e o reconhecimento da independência dos novos países africanos – o que já não seria pouco! O 25 de Abril foi a conquista de direitos dos trabalhadores das cidades e dos campos, “A terra a quem a trabalha!”, o direito à habitação, o início do longo processo de emancipação das mulheres (ainda que muito ficasse por conquistar nos direitos sexuais reprodutivos) – justamente o que enfurece a falange de ressentidos que Passos juntou há dias em torno de um livro rançoso. O 25 de Abril foi a derrota do autoritarismo e da violência de Estado nas suas formas herdadas do fascismo dos anos 30; e foi o fim da guerra, produto da denúncia do colonialismo, que mudou, ainda antes da Revolução, a forma como a imensa maioria dos jovens imaginavam Portugal e se definiam como portugueses. Na admirável síntese que o Presidente Costa Gomes fez em 1974 perante as Nações Unidas, tomara-se a decisão coletiva de “não mais admitir trocar a liberdade de consciência coletiva por sonhos grandiosos de imperialismo estéril”.

O 25 de Abril não foi de forma alguma um “golpe de Estado” clássico. Resultou da iniciativa de uma geração de jovens capitães, 30 e poucos anos, formados todos nas escolas militares impregnadas de colonialismo, nacionalismo autoritário e lições mal aprendidas da Argélia e do Vietname, valores que, em África, na guerra, começaram a repudiar. Derrubada a ditadura, sustentada, afinal, apenas sobre o medo da repressão e a opção irreversível pela guerra, mas sem que ninguém se quisesse bater por ela, a Revolução irrompe pela força irreprimível de todo aquele povo que, contra a vontade (ou a expectativa) do MFA, invadiu não apenas as ruas, entre cravos e aplausos, mas cercou a sede da PIDE/DGS e as prisões políticas para exigir a libertação dos presos. Da mesma forma, se se chegou, ao fim de poucos dias, a um cessar-fogo nas colónias, foi por vontade dos oficiais e soldados que, na mata, desesperavam por uma solução política para a guerra, e dos guerrilheiros africanos que não ficaram à espera do que se decidisse em Lisboa. O MFA vinha prometer o fim da guerra (era essa a mensagem essencial do seu programa); mas o calendário que alguma vez terá imaginado foi antecipado pela vontade das centenas de milhares de jovens empurrados, ano após ano, para África. O 25 de Abril foi a vontade simultânea dos capitães de fazer a paz e a perceção do povo português de se ter aberto uma oportunidade única de democracia genuína, sem medo e sem guerra.

Desde Sá Carneiro, que comparou aqueles anos a uma “opressão siberiana”, até Cavaco, que achava que quem fez a Revolução era “gente [que] não [estava] boa da cabeça” e que Portugal se “[parecia] um país de loucos” (Autobiografia Política, 2002), as direitas continuam a detestar o 25 de Abril. Nada de mais natural: a nossa democracia nasceu num “dia inicial inteiro e limpo” que abriu as portas de uma Revolução. E é por isso que comemorá-la não é, nem por um minuto, um ritual oco e sem utilidade. Nos tempos que correm, poucas festas podem ter mais valor prático!

 

O autor é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico


quarta-feira, 7 de fevereiro de 2024

Manuel Loff - Votos a sério, e não sondagens

OPINIÃO

Como se percebe desde 2019, os governos PS-contas-ditas-certas foram verdadeiras fábricas de extremistas de direita.

Manuel Loff

7 de Fevereiro de 2024 

Num país em que votam 40 a 60% dos eleitores, e onde as empresas de sondagens veem dois terços dos inquiridos a não lhes responder, vale a pena ver com atenção como votou meio milhão de pessoas nos Açores e, em setembro passado, na Madeira. Muito mais fiável que sondagens.

As eleições nas ilhas mostram que, ao contrário dos últimos anos, há muito mais gente a votar. Mais do que nas regionais de 2019 e 2020, mas mais ainda do que nas legislativas de 2022. Motivo de sobra para tomar estas eleições como indício fiável das tendências políticas. E confirmam o que já sabíamos: que o PS está irremediavelmente em queda. Muito pronunciada na Madeira: em setembro perdeu 40% dos votos das regionais de 2019 e um terço dos votos que obteve para a Assembleia da República (AR) em 2022. Nos Açores, o PS perde menos, compensado em parte pela descida do BE. Por outro lado, a AD não descola do que já tinha: já estava em perda (-2%) na Madeira, está estancada nos Açores (+0,1%), onde, é verdade, reúne muito mais apoio do que nas legislativas. A IL estancou também, com resultados sempre muito abaixo dos que obtém nas mesmas regiões para a AR.

Isto é também o que tradicionalmente acontece com o BE, que, ao contrário dos demais partidos, teve resultados muito diferentes num arquipélago e no outro: subida na Madeira em setembro, descida muito pronunciada nos Açores. É já comum que o BE obtenha maus resultados quando o PS pretende recuperar o poder à direita, como agora acontecia. À CDU acontece, normalmente, o mesmo, mas desta vez as coisas correram melhor: contrariou tudo o que as sondagens para a AR têm previsto, subindo significativamente na Madeira e conservando o que tinha nos Açores, em ambos os casos acima dos maus resultados das legislativas de 2022. A campanha eleitoral vai ser decisiva para recuperar muitos dos votos que se perderam para a maioria absoluta do PS – e que, afinal, serviram só para facilitar o caminho ao Chega.

Os resultados da extrema-direita confirmam que (ainda) está em fase ascendente, mas nada a ver com o que as sondagens indicam. Recordemos que há dias o estudo do Iscte/ICS dizia que o Chega poderia triplicar a sua votação (de 7% para 21%) para a AR, quando os resultados finais, reais, das eleições regionais dão-no a ficar muito abaixo disso: com menos abstenção agora que em 2022, o Chega sobe de 6,1% para 8,9% na Madeira e de 5,9% para 9,2% nos Açores. Ventura fez ambas as campanhas, o escândalo Albuquerque já se tinha dado quando os açorianos votaram. Não há bola de neve alguma. O Chega só conta porque sem ele não há maioria de direita. Mais nada.

Todos os estudos dizem que não são os trabalhadores pobres que votam Chega; exatamente como aconteceu nos anos do fascismo clássico (1922-45), é nestes setores das classes médias e médias altas que há muita gente disponível para votar neles

Apoiado na cultura política do ressentimento e do ódio que povoa as redes sociais, levado ao colo por muitos dos media que fazem capas sucessivas com os seus dirigentes e que sobrerrepresentam Ventura como se ele já tivesse os resultados que só as sondagens lhe dão, o Chega tem sido muito beneficiado por um mal-estar difuso, especialmente nas classes médias baixas e em setores profissionais da administração e dos serviços públicos que pagam hoje o preço que há muito pagam já os trabalhadores precários e/ou do salário mínimo, esmagados por salários baixos, por privatizações que tudo encarecem e pela omissão do Estado em limitar preços e rendas que a maioria não consegue suportar. Todos os estudos dizem que não são os trabalhadores pobres que votam Chega; exatamente como aconteceu nos anos do fascismo clássico (1922-45), é nestes setores das classes médias e médias altas que há muita gente disponível para votar neles. A aposta de Ventura é evitar discutir políticas sociais que corrijam a desigualdade e puxar o debate para o medo da perda de estatuto, ou para a demonização dos mesmos trabalhadores imigrantes que asseguram uma grande parte do bem-estar da classe média.

Como se percebe desde 2019, os governos PS-contas-ditas-certas foram verdadeiras fábricas de extremistas de direita. Não são os únicos: Macron é melhor ainda do que eles. Para travar a extrema-direita, qual PS nem meio PS. Como aconteceu sempre que o fascismo avançou, só uma frente social construída em torno dos direitos do trabalho, da luta por todas as formas de igualdade e contra o racismo. É um dever democrático nos 50 anos do 25 de Abril.

O autor é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico

https://www.publico.pt/2024/02/07/opiniao/opiniao/votos-serio-nao-sondagens-2079496

quarta-feira, 27 de dezembro de 2023

Manuel Loff - “O gueto está a ser liquidado”

OPINIÃO

Feitas as devidas proporções de tempo e população total, por cada ucraniano morto morreram já 246 palestinianos em Gaza. Parecem poucos?

Manuel Loff

27 de Dezembro de 2023, 7:00 


2022, 2023. Dois anos, duas guerras. Há um ano, com a propaganda macarthista, a preto e branco, a propósito da guerra na Ucrânia, já se percebia bem que, na narrativa dominante ocidental, a vida não tem o mesmo valor dependendo de quem a perde. Era assim no colonialismo, é assim hoje. Um ano depois, os mesmos governos ocidentais que asseguravam ver genocídio no comportamento das tropas russas (9,7 mil civis mortos nos territórios sob controlo da Ucrânia em 19 meses de guerra) ainda não viram nada que os levasse a denunciar Israel (como denunciaram a Rússia) no Tribunal Penal Internacional, depois de as tropas israelitas terem matado o dobro (19,7 mil) de palestinianos em Gaza só nos primeiros 2,5 meses desta nova campanha de represália, de terrorismo de Estado. Feitas as devidas proporções de tempo e população total, por cada ucraniano morto morreram já 246 palestinianos em Gaza. Parecem poucos?

Para Biden, Von der Leyen (ou para António Costa), quanto custa uma vida palestiniana? Quanto custa a vida de milhares de crianças, das centenas de profissionais de saúde, jornalistas, trabalhadores e voluntários das agências das Nações Unidas e das ONG humanitárias que, todos os dias, as bombas do ocupante israelita eliminam com, até agora, total impunidade? Face a todas as provas de um genocídio em curso contra um povo sujeito a ocupação, nenhum governo da NATO ou da UE impôs sanções a Israel (que viola o direito internacional há 75 anos e ocupa ilegalmente territórios palestinianos há 56) como impôs à Rússia ao fim de horas da invasão de território ucraniano. Não se abriram de par em par fronteiras para acolher refugiados palestinianos como se abriram para milhões de ucranianos, não se romperam relações comerciais, não se montou esquema algum de boicote cultural contra Israel como, de forma precipitada e desproporcionada, se montou contra escritores, artistas ou orquestras russas – pelo contrário, a campanha de boicote (BDS) que desde há anos está organizada contra a ocupação israelita é criminalizada em vários estados ocidentais (EUA, Alemanha) por ser “antissemita”!

Gaza ilumina com uma luz muito crua a nossa visão ocidentalista, preconceituosa, supremacista, do mundo e de quem o habita. Podem os israelitas matar, sequestrar (prender sem acusação nem julgamento é o quê?), violar todos os dias direitos humanos, que os Estados NATO não deixam de lhes fornecer, desde há décadas, apoio militar. Se se aplicasse a mesma retórica que se aplica na Ucrânia, não deveriam os mesmos Estados enviar armas para apoiar os palestinianos e o seu direito à autodeterminação, reconhecido em todos os tratados e resoluções das Nações Unidas?

Gaza ilumina com uma luz muito crua a nossa visão ocidentalista, preconceituosa, supremacista, do mundo e de quem o habita

Gaza proporciona todos os dias, de forma trágica, esse permanente “momento da verdade” de que falou Guterres. Hoje percebemos melhor até onde está a chegar a censura e o ataque à democracia que se sustenta neste discurso “choque de civilizações” que Israel tem imposto aos seus aliados ocidentais. Um dos mais extraordinários episódios é o da censura da escritora judia Masha Gessen. Por ter considerado “o termo 'gueto' mais adequado (...) para descrever o que está a acontecer em Gaza agora. O gueto está a ser liquidado” (The New Yorker, 9/12/2023), uma fundação ligada aos Verdes alemães suspendeu a entrega do prémio que lhe havia concedido. Teve sorte: por muito menos, professores têm sido expulsos das suas universidades, manifestantes presos, trabalhadores despedidos.

Os governos dos países NATO, na sua tradicional arrogância, falam como se pela voz deles falasse a “comunidade internacional”. Na sua descarada duplicidade, esta voz é mesmo só deles, e o que se ouve é pura hipocrisia. Até um antigo assessor para questões de segurança do governo israelita percebeu que “a Palestina ocupa atualmente um espaço simbólico. É uma espécie de metamorfose de rebelião contra a hipocrisia ocidental, contra esta inaceitável ordem global e contra a ordem pós-colonial” (David Levy, Guardian, 26/12/2023). E contra a crescente “israelização” a que assistimos do Ocidente: consenso nacional-religioso contra o “inimigo” interno, paranoia racista e muros contra os inimigos da “civilização”. A receita da extrema-direita.

O autor é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico

https://www.publico.pt/2023/12/27/opiniao/opiniao/gueto-liquidado-2074897


sábado, 2 de dezembro de 2023

Manuel Loff - Kissinger, o mais amado dos criminosos de guerra

 

OPINIÃO


A diferença entre ele e os sucessores foi ter-se mostrado cético e irónico com a retórica dos direitos humanos e da democracia com que quiseram embrulhar o que continua(va) a ser a mesma política.

* Manuel Loff

2 de Dezembro de 2023 

Que dele se digam banalidades como as do ex-primeiro-ministro e atual ministro britânico dos Estrangeiros David Cameron (“grande estadista e um diplomata profundamente respeitado”), e que às homenagens se juntem Putin (que dele guarda “as melhores recordações”) e Zelensky, ainda dou de barato. Valem o que valem. Mas entre o “gigante da História”, como lhe chamou o sempre pomposo Macron, ou o “mentiroso compulsivo” que o neoconservador Edward Luttwak assegura que foi Kissinger, “quase sempre por uma boa causa” ("The two faces of Henry Kissinger", UnHerd, 1/12/2023), fico-me com a tese de Luttwak, não só porque trabalhou na mesma Administração, mas porque ele próprio, ao reproduzir na sua vida uma boa parte do perfil de Kissinger, saberá bem do que fala. É o perfil dos académicos ambiciosos e bem sucedidos nos departamentos de Ciência Política que aplicam ao campo da política internacional (como assessores chorudamente pagos que, no caso de Kissinger, passaram diretamente pela gestão governamental) a intelectualmente mais cínica das teorias das Relações Internacionais, o realismo, a mais adequada para quem quer defender relações de dominação e hegemonia.

vida de Henry Kissinger atravessou os últimos cem anos. Pelo menos em oito deles (1969-77), enquanto foi conselheiro de segurança nacional e depois Secretário de Estado dos presidentes Nixon (outra personagem que estava bem para ele) e Ford, terá sido responsável direto e indireto de milhões de mortos e rios de sangue em tantos pontos do mundo quantos aqueles em que o poder dos EUA era capaz de ser decisivo: Vietname, Laos, Cambodja, Bangladesh, Congo, Chile, Uruguai, Argentina, Chipre, Sara Ocidental, Angola, Timor… É graças a esses anos, e à extraordinária arrogância da personagem, que em quase todo o planeta a memória coletiva conserva o nome dele. Ele é pronunciado, contudo, com emoções muito diferentes consoante a visão do mundo e a posição que se ocupa na ordem internacional que a política de homens como Kissinger impuseram, reproduziram e têm ajudado a conservar.

Terá sido responsável direto e indireto de milhões de mortos e rios de sangue em tantos pontos do mundo quantos aqueles em que o poder dos EUA era capaz de ser decisivo

Para os cultores do realismo neoconservador de Kissinger, para quem “a desordem é pior que a injustiça” e “a ordem é mais importante que a liberdade porque sem ordem não há liberdade para ninguém” (Robert D. Kaplan, The tragedy behind Kissinger’s realpolitik”, UnHerd, 30/11/2023), isto é, para a elite social e de Estado da quase totalidade dos países nesta terceira década do século XXI, ele pode ser o “ser humano amável e a mente brilhante que, ao longo de 100 anos, moldou os [destinos] de alguns dos acontecimentos mais importantes do século”, como publicou Charles Michel, presidente do Conselho da UE, a propósito da sua morte (pergunto-me quem é que em Bruxelas escreve estas coisas aos eurocratas…). Para os muitos que, por todo o mundo, o consideram(os) um criminoso de guerra que saiu desta vida conseguindo evitar ser julgado pelos crimes que cometeu e ajudou a cometer, Kissinger é um dos mais categorizados representantes de uma elite política que apostou (e aposta ainda) tudo quanto pôde na preservação de uma ordem internacional que desde há, pelo menos, 80 anos está em crise, que não conseguiu parar o fim dos impérios coloniais e o avanço da emancipação dos povos do Sul Global, mas que resiste ainda à perda da hegemonia ocidental.

A diferença entre ele e os seus sucessores na diplomacia norte-americana é ter-se mostrado cético e irónico com a retórica dos direitos humanos e da democracia com que os que lhe sucederam quiseram embrulhar o que, afinal, continua(va) a ser a mesma política. Depois de abandonar o governo (1977), com a derrota eleitoral de Gerald Ford, Kissinger continuou a passear-se pelos meandros do poder e dos grupos económicos que melhor lhe pagavam a sua assessoria, receoso, isso sim, daquele que foi efemeramente, no final do século passado, um vento de mudança no direito penal internacional, de que resultou a criação do tribunal homónimo, e que teve na detenção em 1998 de Pinochet, um dos ditadores que Kissinger mais protegeu, um momento simbólico que o obrigou, durante alguns anos, a tomar precauções para evitar ser detido ele também, evitando viajar a alguns países onde magistrados abriram processos contra si.

Além do Chile e da Argentina, Kissinger teve de, em maio de 2001, deixar a França à pressa, depois de ter recebido uma intimação do juiz Roger Le Loire, que investigava o plano Condor, destinado a eliminar os opositores das ditaduras latino-americanas.”(Le Monde, 30/11/2023). Foram os anos em que, como escrevia o seu biógrafo Christopher Hitchins, “o homem rechonchudo de gravata preta na festa da Vogue não é, certamente, o homem que ordenou e sancionou a destruição de populações civis, o assassinato de políticos inconvenientes, o rapto e o desaparecimento de soldados, jornalistas e sacerdotes que se atravessaram no seu caminho? Oh, mas é. É exatamente o mesmo homem” (“Why has he got away with it?”, Guardian, 24/2/2001).

Teve de, em maio de 2001, deixar a França à pressa, depois de ter recebido uma intimação do juiz Roger Le Loire, que investigava o plano Condor, destinado a eliminar os opositores das ditaduras latino-americanas

A mão de Kissinger esteve por detrás do pior, do mais sangrento, do mais cínico que a política norte-americana fez nos anos 1960 e 70. Golpes de Estado, operações de sabotagem, guerra suja contra opositores políticos de aliados dos EUA. You name it e o nome de Kissinger aparece sempre. Em todos os casos, ou houve iniciativa sua, ou foi com o seu conhecimento e autorização.

O caso chileno é seguramente um dos mais evidentes: estratégia de desestabilização social e sabotagem económica do governo de Unidade Popular de Salvador Allende (1970-73); depois de ter tentado impedir que Allende tomasse posse em 1970, promovendo, sem sucesso, uma conspiração que as chefias militares chilenas do momento rejeitaram (o que fez com que Kissinger ordenasse a preparação do sequestro de René Schneider, o chefe do Estado-Maior chileno), é a partir de Washington que se prepara o golpe de 11 de setembro de 1973, com o cerco e bombardeamento do Palácio de La Moneda onde morre Allende. Na brutal repressão que se segue, os mais de 20 mil mortos nada devem ter impressionado o homem que em tantas entrevistas se recordava de ter sido repetidamente agredido por nazis até à sua família fugir da Alemanha, em 1938, onde nascera 15 anos antes. "Você é uma vítima de todos os grupos de esquerda do mundo", disse Kissinger a Pinochet em 1976, "e o seu maior pecado foi ter derrubado um governo que se estava a tornar comunista".


Foto  -  Kissinger numa reunião com o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, em Moscovo, em 2008 EPA/MAXIM SHIPENKOV

Tudo somado, as mais pesadas terão sido as suas responsabilidades na condução da guerra americana do Vietname, e em particular na opção em bombardear o Camboja durante 14 meses seguidos (1969-60), provocando um milhão de mortos e abrindo caminho à tomada do poder pelos Khmeres Vermelhos (que os EUA ajudarão depois contra o Vietname). Mas dois outros casos têm diretamente a ver com a descolonização que a Revolução portuguesa levou a cabo depois do 25 de Abril. É Kissinger que, em visita a Jacarta juntamente com o presidente Ford, dá luz verde ao governo indonésio para invadir Timor-Leste (dezembro de 1975) por forma a impedir que o país se tornasse numa “Cuba do Sudoeste Asiático”. Já tinha feito o mesmo poucos meses antes com o Sara Ocidental, dando o beneplácito dos EUA à invasão marroquina. Quando Timor-Leste se tornou independente, depois de 25 anos de apoio norte-americano à ocupação indonésia e os 300 mil mortos que ela provocou, Kissinger fazia parte do júri que concedeu a Xanana Gusmão um prémio internacional. No discurso de entrega do prémio, escreveu que "os americanos podem orgulhar-se do papel que o seu país desempenhou no culminar destes acontecimentos".

Poucos meses depois, em 1976, perante a intervenção cubana para salvar a independência de Angola ameaçada pela invasão sul-africana com o apoio norte-americano, Kissinger terá ficado “apoplético” e propôs o bombardeamento de Cuba no que seria um gesto que, como em 1962, poderia simplesmente provocar uma confrontação nuclear.

O mais inconcebível de toda a sua biografia foi ter recebido, em conjunto com o negociador vietnamita Lê ĐứcThọ , o Prémio Nobel da Paz em 1973, por ter assinado o acordo de Paris e, segundo a Academia Nobel, ter "acabado com a guerra e restaurado a paz no Vietname". Não só Thọ rejeitou o prémio, lembrando ao mundo que continuava a não haver paz no Vietname (a retirada dos EUA só se dará em 1975), como dois membros abandonaram o Comité Nobel em protesto. Como disse o compositor e humorista Tom Lehrer, "a sátira política tornou-se obsoleta quando Henry Kissinger recebeu o Prémio Nobel da Paz".

Para Tony Blair, “se é possível que a diplomacia ao seu mais alto nível seja uma forma de arte, Henry era um artista” (Expresso, 1/12/2023). Só Blair, outro com pesadas culpas no cartório, para dizer coisas destas... Não. A melhor síntese de todas é o título do artigo que a Rolling Stone publicou: "Henry Kissinger, o criminoso de guerra amado pela classe dominante da América, finalmente morre".

O autor é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico

https://www.publico.pt/2023/12/02/opiniao/opiniao/kissinger-amado-criminosos-guerra-2072293

 

terça-feira, 25 de abril de 2023

Manuel Loff . Discurso em nome do PCP, na sessão de celebração do 25 de Abril na AR

«Praticamente meio século depois do 25 de Abril, a democracia está sob ameaça»

 * Manuel Loff


Senhor Presidente da República,

Senhor Presidente da Assembleia da República,

Senhor Primeiro-Ministro,

Senhores Presidentes do Supremo Tribunal de Justiça, do Tribunal Constitucional e do Supremo Tribunal Administrativo,

Senhor Representante dos Capitães de Abril, Senhoras e Senhores convidados,

Senhoras e Senhores deputados,

“Libertar Portugal da ditadura, da opressão e do colonialismo representou uma transformação revolucionária e o início de uma viragem histórica da sociedade portuguesa.” É assim que no Preâmbulo da Constituição da República se descreve o que foi o 25 de Abril. Ao contrário da grande maioria dos processos democratizadores que lhe foram contemporâneos, desde a Grécia e a Espanha até à América Latina, a libertação de Portugal em 1974 da longa ditadura fascista de 48 anos foi, não uma transição mais ou menos arrancada a ferros de dentro de uma ditadura em fase degenerativa, mas uma Revolução, exatamente como são descritas as grandes mudanças políticas da modernidade, justamente porque nela se rompeu definitivamente com o passado, se abriu as portas aos anos de maior participação política e social que os portugueses alguma vez viveram e porque dela saiu uma mais arrojadas democracias do mundo, em que, em simultâneo, se rompia com séculos de sangrentas ilusões imperiais e de opressão social e política.

A Revolução portuguesa que hoje aqui comemoramos, contudo, não é feita simplesmente memória. Muito pelo contrário: quando dizemos “25 de Abril sempre!” estamos a dizer que não renunciaremos em cada dia que passa ao que se conquistou em Abril – direitos, liberdades e garantias cívicas que não aceitaremos nunca mais ver restringidas, direitos sociais como os de uma educação, um SNS e uma Segurança Social públicas, que assegurem o bem estar de todos e não apenas de alguns, como continuará a ocorrer se não cumprirmos o que acordámos quando aprovámos a Constituição de 1976. O direito a defender publicamente os nossos direitos enquanto cidadãos e trabalhadores, a nos manifestarmos livremente para o fazer. O direito a defender a paz contra a guerra, hoje como há 50 anos. O direito a dizer, hoje como então, “Fascismo nunca mais!”

Retomar a memória de uma das mais extraordinárias e generosas revoluções da história, retomar a memória da resistência e do que ela permitiu conseguir, tem hoje, em 2023, um papel muito prático: reforça a capacidade de resistência e de exigência de mudança, porque se já foi possível conseguir o que, há 50 anos, a maioria achava ser impossível ou inviável conseguir, significa que se pode voltar a conseguir o que o novo pensamento único dos nossos dias nos quer convencer ser impossível realizar.

Praticamente meio século depois do 25 de Abril e das melhores esperanças que nele depositaram milhões de portugueses, milhões de democratas por todo o mundo que sentiram a nossa Revolução como sua, a democracia está sob ameaça. Em todos os lugares, a começar por Portugal, onde reiteradamente se não cumprem as naturais, justíssimas, expectativas de quem espera que a democracia seja sempre acompanhada de bem estar e de justiça social, de direitos universais à saúde, à educação, à habitação, ao trabalho com direitos e garantias, de salários e pensões dignos, do direito a uma infância feliz longe do espetro da pobreza, a uma velhice com dignidade e qualidade de vida. Sempre que algum ou todos estes direitos se não concretizam nas nossas vidas, alimenta-se a descrença na democracia e esta estará sempre ameaçada. Sempre que o autoritarismo patronal precariza impunemente a vida de quem trabalha, chantageia os trabalhadores para impedir que se sindicalizem, que defendam, que exerçam os seus legítimos direitos, a democracia, mais do que ameaçada, é atacada. Não podemos andar a lamentar a baixa participação eleitoral e fingir não perceber a que esta se deve. Não pode quem tem responsabilidades de governo comemorar o 25 de Abril, a Revolução e a democracia e ao mesmo tempo deixar degradar a condição de vida dos portugueses depois de se terem enterrado incontáveis recursos públicos no apoio aos grandes grupos económicos e financeiros ou a cativar dinheiro do Estado, de todos nós, para lograr as chamadas “contas certas”, as mesmas que nunca estarão certas sem se assegurar condignamente o funcionamento dos serviços públicos de que se faz para todos nós a democracia no dia a dia.

A democracia está há anos ameaçada, de novo, pelo fascismo de cuja sombra nos julgávamos ter libertado por todo o mundo há 80 anos, ou, justamente, há 49 anos em Portugal. É ilusório julgarmos que o assalto da extrema-direita fascista está a fazer ao poder deixa incólume a democracia. O exemplo da luta que os democratas brasileiros tiveram de travar para, graças à extraordinária persistência humana do Presidente Lula da Silva que aqui esteve presente esta manhã, derrotar o que foi a maior ameaça, absolutamente real, contra a democracia brasileira desde o fim da ditadura civil-militar, diz bem dos perigos que a extrema-direita representa. Violência e ameaças sobre adversários políticos, ataque aos direitos sociais e cívicos, assassinato de ativistas. Importa, pois, que quando se celebra a democracia e a liberdade não se desvalorize o significado desta ameaça, trivialize a mentira, a manipulação, o racismo, o branqueamento dos crimes e da violência fascista e colonial do passado, o oportunismo descarado ao fingir defender hoje o que no passado sempre rejeitou.

Permitam-me que me dirija diretamente a todos e todas as cidadãs do meu país e a todas as pessoas que, independentemente da sua nacionalidade, aqui constroem o seu futuro. O 25 de Abril foi feito para todos nós que aqui estamos 49 anos depois. Foi feito pelos militares de Abril cansados de guerra a quem devemos o ato fundador do resgate deste país da ditadura, da guerra e do colonialismo. Foi feito por gerações de resistentes, e os comunistas em primeiro lugar, que deram o melhor de si, e tantas vezes a própria vida, para conseguir liberdade e direitos, uma sociedade justa com os valores que a Constituição de Abril consagrou. O 25 de Abril tem agora de continuar a ser feito por nós, por quem acredita nesses valores que permanecem, sabemo-lo hoje melhor do que nunca, a solução para os problemas estruturais do nosso país. As multidões saem por estes dias à rua para celebrar a Revolução fazem-no com a força inesgotável dos valores de Abril. Fazem-no recordando que não há democracia sem justiça social, exigem respeito pelos direitos dos trabalhadores, das mulheres, dos jovens, de todos independentemente da sua origem étnica e identidade de género, dos reformados que trabalharam para o bem estar das gerações que se lhes seguiram e que hoje têm direito à solidariedade de quem trabalha e ao respeito do Estado. A Grândola de Zeca Afonso, a “terra da fraternidade” onde “o povo é quem mais ordena” tem de ser cada uma das nossas cidades e aldeias de um país verdadeiramente democrático.

Viva o 25 de Abril!

Fonte: https://www.pcp.pt/nao-renunciaremos-em-cada-dia-que-passa-ao-que-se-conquistou-em-abril

domingo, 1 de agosto de 2021

Manuel Loff - Otelo

OPINIÃO

* Manuel Loff
27 de Julho de 2021, 0:15
 
“Há em mim uma série de contradições imensas”, confessou há anos a Paulo Moura, que dele fez a sua última biografia (Otelo, o revolucionário, 2012). Tinha toda a razão. Tal é seguramente verdade com a maior parte de nós, mas a biografia de Otelo Saraiva de Carvalho é feita de muitas.

A primeira delas é apenas aparente mas é a que fez com que tivéssemos uma dívida de gratidão para com ele. A de, sem antecedente algum que possa ser descrito como democrático ou rebelde, se ter transformado num protagonista central do MFA que, coletivamente, organizou o 25 de Abril de 1974 mas que entregou a Otelo em particular a preparação do plano de operações. Participar num movimento de jovens oficiais rapidamente transformado em conspiração para, ao fim de doze anos de guerra colonial, derrubar uma ditadura que, ao fim de 47 anos, lhes devia parecer confundir-se com a identidade do seu próprio país, não foi, de forma nenhuma, pouca coisa. Naqueles meses de preparação do 25 de Abril, Otelo conquistou um lugar na História e na nossa memória coletiva, e é isso mesmo que lhe reconhecem hoje todos quantos, com mais ou menos reservas ao seu percurso posterior, sabem bem como esse momento foi decisivo nas vidas dos portugueses e dos povos sujeitos ao nosso domínio colonial.

Nada havia no percurso biográfico anterior de Otelo que o fadasse para, aos 36 anos, romper a hierarquia castrense, montar a única conspiração que conseguiu derrubar a ditadura e que se viesse a transformar no revolucionário que nele reconheceram muitos portugueses. O mesmo, aliás, se pode dizer da grande maioria dos capitães de Abril, o que torna ainda mais admirável o ato de rebeldia deles todos: formados no seio de umas Forças Armadas intrinsecamente reacionárias às grandes mudanças do séc. XX, garantes da ditadura que elas próprias instauraram e do império colonial que preenchia o imaginário da instituição, estes oficiais constituíram-se como rebeldes e, contra as ordens dos seus superiores, acabaram com o regime para acabar com a guerra em que eles próprios tinham combatido durante mais de uma década.


Outra contradição é, afinal, uma das características centrais do processo revolucionário português – aliás, de qualquer processo intenso de mudança, que tende a fazer com que os atores políticos e sociais procurem não perder o pé. O jovem capitão que manteve sempre admiração por Spínola (como confessou a Paulo Moura, PÚBLICO, 24.4.2009) começou por ser tido como um spinolista, para, depois do 28 de Setembro, passar a autodefinir-se como social-democrata, como lembra Sánchez Cervelló; é só depois do 11 de Março que Otelo passa a ser aquilo que a maior parte de nós se lembra: o comandante do COPCON por ele descrito como “vanguarda e braço armado do MFA”, o homem que julgava que “se tivesse mais cultura política seria o Fidel Castro da Europa”, o candidato presidencial que, no verão de 1976, galvanizou a maioria do povo de esquerda que queria a revancha do 25 de Novembro, apesar de este não ter, longe disso, impedido o avanço da Reforma Agrária e a consagração constitucional de muitas das conquistas de Abril.

Pelo meio, depois de ser o comandante militar com mais poder em Portugal, permanentemente enfrentado com Vasco Gonçalves e com o PCP, referência da maioria das correntes da extrema-esquerda, sem, contudo, queimar as pontes com os moderados do Grupo dos 9, foi preso por ordem das Forças Armadas dos tempos de Eanes duas vezes, em 1976 e outra em 1977. Todo aquele capital político esfumou-se em pouco tempo. Nos anos seguintes, desde a criação da FUP e o desastre da sua segunda campanha presidencial (1980) ao seu envolvimento na concretização do Projeto Global que, em 1975, havia sido concebido por militantes do PRP-BR, sob a forma das FP-25 – processo no qual ele sempre rejeitou qualquer participação –, a biografia de Otelo está marcada pela irrelevância política, o esmagamento policial e judicial e a batalha pela sua reabilitação.

Os últimos 25 anos de Otelo são feitos de bonomia, da sua habitual loquacidade, da surpreendente reconciliação com a maioria dos camaradas de armas com que havia rompido em 1975-76, a inesperada exposição pública da sua vida privada. E, creio, também pela confirmação de muita da sua inconsistência quando, por exemplo, disse a Paulo Moura que, afinal, “foi o 25 de Novembro que restituiu ao país a pureza dos ideais do 25 de Abril”.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

Historiador

https://www.publico.pt/2021/07/27/opiniao/opiniao/otelo-1971917

terça-feira, 27 de abril de 2021

Manuel Loff - Uma história “sem álibis nem omissões”

OPINIÃO


Pela minha parte, eu e muitos investigadores estamos disponíveis para “estudar o passado e nele dissecar tudo”. Mas “tudo” é tudo mesmo, e é importante que inclua, de uma vez por todas, aquilo que, por envolver crimes nunca julgados, o Estado e a maioria da sociedade nunca quis assumir.

Manuel Loff

27 de Abril de 2021, 0:15

Lamento mas, se chegou a haver alguma unanimidade quanto ao discurso de Marcelo Rebelo de Sousa no 25 de Abril, eu não me junto a ela. Por mais corajosa que possa ter parecido a atitude do homem que nos falou como filho de “governante na ditadura e no Império”, e que entende ser “prioritário assumir tudo, todo o passado, sem auto-justificações ou auto-contemplações globais indevidas”, deveria, ele que me desculpe, começar por si próprio.

É compreensível que o filho de Baltazar Rebelo de Sousa, cuja carreira política esteve associada até à medula à gestão colonial nos anos da guerra, nos recorde que, como “constituinte, [viveu] o arranque do novo tempo democrático (...) como milhões de portugueses [situado] entre duas histórias da mesma história” – mas já não é aceitável ser quem nos peça que, ao “revisitarmos a história”, não a julguemos com os valores do presente. Porque é isso mesmo que ele faz, como fizeram os anteriores presidentes da República todos os dias 10 de Junho, 1.º de Dezembro, 5 de Outubro e, claro está, 25 de Abril.

Chama-se a isso o uso político do passado, que Marcelo usa como usam representantes de Estados que queiram dar lições aos cidadãos do presente a propósito dos atos dos cidadãos de ontem, e que, em nome da honestidade, não deveria pretender que é coisa apenas daqueles que discutem o passado nos termos que lhe não agradam.

Quando Marcelo nos pede para não “[exigir] aos que viveram esse passado que pudessem antecipar valores (...) agora tidos por evidentes, intemporais e universais”, persiste num dos mais velhos erros metodológicos da leitura reacionária do passado: o de inventar um tempo em que os valores dominantes seriam tão consensuais que nenhuns outros teriam sido enunciados. Em todas as épocas os valores dominantes tiveram alternativas; todas as ordens tiveram resistência; todas as verdades do tempo tiveram quem as denunciasse.

Marcelo, que em 2017 foi a Gorée (Senegal) elogiar precocidade portuguesa na história da abolição da escravatura, pretendendo que Pombal a teria abolido em 1761, não só sabia que o Estado português o não fez antes de passados mais de cem anos – eis o (ab)uso político do passado – como sabia também que a condenação da escravatura, do papel pioneiro e persistente que portugueses tiveram no tráfico, ou a denúncia do trabalho forçado que se manteve até aos anos 1960 nas colónias portuguesas, foi contemporânea dos próprios fenómenos e não é um “juízo do passado com os olhos de hoje”. Como o anticolonialismo foi contemporâneo do colonialismo, e contemporânea da guerra foi a recusa em fazê-la (sobre a qual Marcelo não pronunciou uma palavra) e foi a contestação da resistência antifascista portuguesa à escolha de Salazar em fazê-la. Nenhuma destas batalhas é recente, pelo que é inaceitável qualquer insinuação de que estas podem ser “campanhas de certos instantes”.

Era bom que o Presidente esclarecesse se “dissecar tudo” abriria, afinal, essas discussões que ele entende não serem “prioritárias para os portugueses”, e que é “duvidoso que o sejam alguma vez"

Com toda a razão, o Presidente diz que “o 25 de Abril foi feito para libertar, sem esquecer nem esconder”. Deveria, contudo, lembrar-se como o seu partido e todo o universo conservador da sociedade portuguesa, que, logo desde 1974, amaldiçoaram a Revolução e descreveram a descolonização como uma traição, não simplesmente procuraram “esconder”, mas pura e simplesmente negaram a natureza intrínseca da dominação colonial e toda a violência que ela significou. Se hoje, como Presidente da República, pretende que se faça uma História “sem álibis nem omissões”, pode desde já ajudar à desclassificação de muita documentação militar que continua inacessível.

Pela minha parte, eu e muitos investigadores estamos disponíveis para “estudar o passado e nele dissecar tudo”. Mas “tudo” é tudo mesmo, e é importante que inclua, de uma vez por todas, aquilo que, por envolver crimes nunca julgados, atos inaceitáveis à luz da moral e do Direito (não apenas os de hoje, mas também os do momento em que foram praticados), o Estado e a maioria da sociedade nunca quis assumir e não quer que se investigue.

Era bom que o Presidente esclarecesse se “dissecar tudo” abriria, afinal, essas discussões que ele entende não serem “prioritárias para os portugueses”, e que é “duvidoso que o sejam alguma vez”. Se assim fosse, teríamos de duvidar da sinceridade do discurso. É que só esclarecendo essas “omissões” seria verdade que, enquanto sociedade, “nos responsabilizamos” pelos nossos “fracassos” históricos da mesma forma como “assumimos as glórias que nos honram”.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

 https://www.publico.pt/2021/04/27/opiniao/noticia/historia-alibis-omissoes-1960136