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sexta-feira, 11 de novembro de 2016

(chamava-se Mariana Torres ...)

História esquecida
de uma operária assassinada
pela Guarda Republicana
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(chamava-se Mariana Torres ...)
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Há 96 anos, as mulheres das fábricas de Setúbal, com sa­­lários que oscilavam entre os 350 e os 400 reis, exigiam au­­mentos de 50 reis por hora. O advento das máquinas de sol­dar e a crise da indústria conserveira ameaçavam pôr no desemprego milhares de operários. Declarada a greve a 21 de Fevereiro de 1911 – tinha a República cinco meses –, de­pressa se revelou a intransigência dos patrões. Sucederam--se os incidentes violentos, ao ponto de o administrador do concelho encerrar duas associações operárias e banir da cidade dois sindicalistas. No dia 25 de Fevereiro, o opera­ria­do de Setúbal declarou a greve geral. Foram enviados para a cidade vários contingentes militares e a canhoneira Zaire. Os trabalhadores, intimidados, regressaram ao traba­lho no dia 28, mas não as mulheres: recusavam retomar o tra­balho enquanto não lhes dessem os aumentos de salário. Os industriais respondem então com o lock-out. A 13 de Março, dão-se confrontos na fábrica Costa e Carvalho, in­va­dida pelas grevistas quando se apercebem de que mulheres da família do patrão as substituíam no trabalho de enlatar o peixe. São insultadas e agredidas por alguns dos 50 solda­dores presentes (os soldadores, categoria mais bem paga, não tinham aderido à greve). Paulino de Oliveira, re­publi­cano conhecido e irmão da proprietária, chega ao pon­to de dar chibatadas a várias mulheres. Em seguida, co­mo as mu­lheres vaiassem os soldados da Guarda Repu­blicana que protegiam as carroças de peixe em serviço na fá­brica, a guar­da carregou, dispersando as grevistas a tiro e à coronhada. Entre os operários, muitos feridos e dois mor­tos: Mariana Torres e António Mendes. Todas as fábricas reabriram na segunda semana de Abril, com as operárias e os operários derrotados e de luto. Signifi­ca­tivamente, da jovem operária assassinada nada se sabe, e até o seu nome se perdeu nos relatos, só muito mais tarde tendo sido recuperado.Dois dias depois dos assassinatos de Setúbal tinha-se rea­­lizado em Lisboa uma reunião de protesto de represen­tantes das associações operárias e a 20 de Março foi procla­mada uma paralisação do trabalho por 24 horas, reclaman­do a demissão do administrador do concelho de Setúbal, a readmissão de alguns dos despedidos e a libertação dos ope­rários que tinham sido presos. Muitos milhares de ope­rários de Lisboa abandonaram as fábricas e oficinas em apoio dos seus camaradas setubalenses.Aquela tarde de 13 de Março, ao fim de três semanas de con­flito, foi “a primeira nódoa de sangue na República”(1) e “um dos [seus] mais tremendos pesadelos”(2) . E também um grande revés para as mulheres, que passaram a trabalhar 9 horas em vez de 8, e para os moços de fábrica, que pas­sa­ram a receber pelo trabalho nocturno 40 reis, quando antes recebiam 50. O sindicalista Carlos Rates, que animara a greve, foi detido(3).

Uma feminista contraditória

A sangrenta repressão na fábrica Costa e Car­va­lho pôs em causa Ana de Castro Osório, a mais ilus­tre feminista da época, pela sua ligação familiar à dona da fábrica e a Paulino de Oliveira, seu marido. Criticada no Germinal de Se­túbal pelo anarquista Martins dos Santos(4), Ana de Castro Osório respondeu, em artigo no Radical (propriedade de seu marido), que “a greve das mulheres das fábricas de con­serva foi extemporânea e, mais ainda, injusta”. Discorda­va que se transformasse a associação num órgão reivindicativo e aconselhava antes as operárias a cotizar-se para fundar uma escola primária para elas e para os filhos. Acusava a gre­­ve de “ser estimulada e aproveitada pelos que nutrem ódio à República” e as grevistas de serem manipuladas como “carne de canhão para o triunfo dos superiores”, isto é, os ope­rários soldadores das fábricas de conservas. Em resposta à alegação das operárias de que defendiam o pão dos seus filhos, Ana de Castro Osório justificava que “os fabricantes também defendem o dos seus” e “lutam para sustentar uma indústria que não tem grandes condições de resistência”. Como os sindicalistas, em resposta, organizam o boicote à venda do jornal, O Radical contra-ataca, a 6 de Abril: “O pouco senso, menos desculpável até que o das mulheres, de todo incultas e inexperientes, chegou à loucura de tenta­rem uma greve geral – querendo bloquear burgueses e não bur­gueses, a cidade inteira, pela fome, pela sede, e até pela… imundície amontoada!” Por último, numa derradeira edição, o jornal republicano ataca “As mulheres… desgovernadas”: “Até as mais intransigentes, as mais danadas, já vão solicitar bilhetinho, um cartão misericordioso, que lhes permita obter trabalho noutras fábricas!… (…) Malditos!(5)”A amargura veemente desta praga estava relacionada com a iminente partida do casal e o fecho inesperado do jor­nal. Com efeito, em Maio, Ana de Castro Osório acom­panhou ao Brasil o marido, subitamente nomeado cônsul de Portu­gal em S. Paulo, numa ausência que alguns equi­pararam a exí­lio. Regressada a Portugal em 1913, a feminista não mais retornou a Setúbal e passou a residir em Lisboa.Na cidade sadina, e durante vários anos, a data do 13 de Mar­ço foi assinalada com concorridas manifestações públi­cas de protesto junto às campas dos grevistas mortos, segui­das de sessões de propaganda promovidas pelas associações operárias.A República e as mulheres do povoA Liga Republicana das Mulheres Portuguesas, organizada em 1909 por Ana de Castro Osório, nunca teve mais de 500 aderentes. A sua desmoralização ter-se-á acen­tuado quando, a 14 de Março desse ano de 1911, o Partido Re­pu­blicano aprovou a lei eleitoral sem consagrar o sufrágio uni­versal, como sempre prometera, deixando de fora pratica­mente todas as mulheres. Os incidentes da greve e a polémi­ca gerada em volta das posições assumidas por Ana de Cas­tro Osório terão contribuído também para este afasta­mento em massa.Dias depois dos dramáticos incidentes de Setúbal, esta es­­crevia, em resposta a uma operária que se queixava do de­­sinteresse das intelectuais em educar as operárias: “A mu­lher do povo é que, em geral, não tem correspondido à boa vontade que as intelectuais têm tido para com ela, malsinan­do-lhe os seus intuitos umas vezes, desconhecendo-os ou­tras, e ainda outras acolhendo todas as iniciativas que lhes cum­pria auxiliar com a sua presença e boa vontade, com a mais escarninha indiferença”. E concluía, numa nota em que fica patente a decepção: “Em todas as terras onde as senhoras que pertencem à Liga têm tentado chamar a si a mulher do povo, pouco ou nada se tem conseguido”(6).Esta atitude reflecte o sentimento geral das restantes re­­pu­­blicanas daquele tempo. Longe ia já o tempo em que Ana de Castro Osório via com entusiasmo a luta social: “…A mulher tem o direito, mais, tem o dever de entrar na lide e, ao lado do oprimido, do fraco, pugnar pela felicidade ou pela menor desgraça dos que sofrem”.(7) Aliás, por esta al­tura, e certamente para marcar a sua distância em relação a determinadas sensibilidades na Liga, ela fundou, com ou­tras, a Associação de Propaganda Feminista, cujo fim era “ele­­var a mulher pela educação e pela instrução”. Num dis­curso de 1912, dirá: “A nossa luta não é, por agora, a cam­panha frondista das ruas e dos comícios. Não! Deixemos a outras esse papel glorioso e ruidoso que é necessário tam­bém, e caminhemos nós, sem nos hostilizarmos mutuamen­te, porque todas as propagandas femininas são úteis…”(8) O núcleo de 200 a 300 burguesas combativas que antes de 1910 liderava esse movimento de opinião – irmãs de lu­ta dos políticos republicanos – prosseguirá, agora virado para dentro, a sua estratégia de classe, que deixava de fora a grande maioria das portuguesas. A visibilidade da causa fe­minista declina a partir de 1913, quando se torna claro que o grupo parlamentar republicano nunca consagrará o di­reito de voto para todas as mulheres, já para não falar na igual­dade na família, no trabalho e na educação.O feminismo anti-operário, tornado dominante, limitará a sua actividade aos aspectos associativos e assistenciais e ao apoio incondicional à política dos dignitários republica­nos (incluindo a campanha para o alistamento no Corpo Ex­­pedicionário Português que irá combater em França), ape­­sar do apoucamento das suas reivindicações mais avança­das por parte daqueles. As mulheres das outras classes fi­ca­ram votadas ao ostracismo.À medida que se ia afirmando o carácter burguês do mo­­vimento de emancipação, também nas lutas operárias dei­­xaram de ter lugar os ideais feministas, tornados impopulares e considerados como uma causa estranha à classe. Co­mentários deste género eram frequentes: “A mulher quer o voto? Não! Faço-lhe essa justiça. Quem o pretende é uma re­duzida minoria de ambiciosas de espírito tacanho, que nada mais vêem que a bonita figura que poderiam vir a fa­zer num parlamento, falando e discutindo, rubras, indi­gnadas, em rasgos sublimes de oratória.”(9) Foi o descaso dos republicanos em geral pela condição fe­minina nas camadas laboriosas e o desprezo dos seus su­ces­­sivos governos pelas cidadãs que proporcionou a Salazar, em 1928, um forte apoio das mulheres do povo. A “penúria agradável” da “casa portuguesa” em que o dita­dor as quis fazer viver, sendo já outra história, é no entanto a conse­quência desta.
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Texto de Ana Barradas
In "Greve das conserveiras de Setúbal"
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Fontes :


(1) O Radical, 19 de Março.
(2) O operariado e a República Democrática, 1910-1914, p. 265.
(3) Carlos Rates, mais tarde fundador do Partido Comunista, era então dirigente da Associação dos Trabalhadores e da União Local de Trabalhadores.
(4) Germinal, 25/2/1911.(5) O Radical, a 27 de Abril.
(6) O Radical de 6/4/1911,

http://isabelvictor150.blogspot.pt/2007/11/blog-post_22.html



terça-feira, 8 de março de 2016

Nuno Marques - 8Março # Operárias Conserveiras # Setúbal



Mariana

8 DE MARÇO DE 2016
NUNO MARQUES
FICÇÃO, MARIANA TORRES, OPERÁRIAS CONSERVEIRAS, SETÚBAL


A propósito das comemorações do Dia Internacional da Mulher e da inauguração de um merecido Monumento a Mariana Torres e às Operárias Conserveiras de Setúbal, dediquei a hora do almoço a rabiscar um pequeno texto de ficção, em jeito de singela homenagem a essas mulheres, que estendo a todas as outras neste dia em que é imperativo lembrar as tremendas desigualdades ainda existentes. E com a minha avó, operária conserveira toda a vida, no pensamento.

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Acordou sobressaltada com o ecoar da longa sirene no silêncio da noite. Reconheceu o chamamento da Firmin Julien. Aconchegou os miúdos e deixou sorrateiramente a casa, feita de madeira e zinco. Desceu a encosta em passo apressado, mergulhando os pés descalços na terra argilosa e húmida. Quem se demora não tem trabalho. Uma vizinha, já velha e antiga conserveira, olha pelas crianças quando há trabalho. Se o cerco é bom a jornada pode durar vinte horas e estamos na época da sardinha. Tem de aproveitar se há trabalho.

No Tróino abrem-se portas donde saem outras mulheres para a escuridão da noite. Lembra-se, pesarosa, que Irene já não as acompanha. Era escorchadora, mas foi despedida, há tempos, por trazer embrulhadas num trapo escondido no regaço duas sardinhas, para matar a fome aos filhos. Aos 19 anos é viúva e tem a cargo três filhos. O homem da Irene, o Manel, faz sete meses que desapareceu no mar da terra nova, na pesca do bacalhau. A vida ficou ainda mais difícil. Uma mulher só aguenta a fome até que esta seja maior que os filhos. Vive agora da solidariedade de outras camaradas da fábrica e da caridade que, por vezes, desesperada implora às senhoras que passeiam na Avenida da Praia. Uma amiga, Odete, que tem marido soldador na fábrica dos Senhores Bentinhos, era quem mais ajudava, mas muitos soldadores estão a ser despedidos, desde que chegaram as máquinas. É vê-los deambular pela Fonte Nova, famintos, com as mãos feridas pelo rabo do chicharro.

Pela Irene e por todas as mulheres das fábricas, especialmente as cento e quinze que foram despedidas por não furar a greve, saíram para a rua, há semanas, a exigir aumento. Com elas vieram também os moços. Só os soldadores ficaram com os encarregados. Não viam as mulheres como suas camaradas, embora estas sempre tivessem sido solidárias com eles, em todas as lutas. Queriam apenas melhor pagamento pelo duro trabalho, que os patrões logo negaram. Fizeram demorada greve, e dolorosa, pois sem trabalho não há sustento. Mas com o insultuoso soldo que lhes pagavam também não havia futuro.

Sem as operárias para fazer a conserva, quiseram vender o peixe para fora, carregado em carroças. As mulheres saíram à rua para impedir a passagem, mas os industriais tinham a nova guarda da República a defender-lhes o lucro. Mariana, embora jovem, era a mais decidida e corajosa. Atravessou-se à frente da caravana e gritou “Não passarão!”, e todas atrás de si, em humana muralha. Mas a guarda carregou e da cabeça da luta fez o exemplo para furar o bloqueio. Mariana foi violentamente espancada à coronhada, mas não arredou. As demais vieram em seu auxílio e também os moços. Brandiam as espingardas no ar, distribuindo furiosas agressões. Ouviram-se tiros também, até que cada uma e cada um correram como puderam, a proteger-se. As carroças de sardinha seguiram, ladeadas pela guarda.

No chão ficaram mulheres e moços feridos, gritando de raiva e de dor. Mariana jazia imóvel e em silêncio. Quando as mulheres se abeiraram já só restava um corpo e rosto desfigurados pelo cunho do ódio. Alguém gritou “Mataram o António!” O moço fora fuzilado a tiro.

Mulheres e moços carregaram os seus camaradas defuntos. A terra da avenida ficará para sempre manchada com as marcas da vergonha dos assassinos e da memória daqueles que entregaram a vida pelos seus e pela luta de todos à sobrevivência. Os heróis dum povo que vive ajoelhado são os anónimos marianas e antónios que morrem de pé, porque a dignidade não tem preço.

Recorda com profunda mágoa estes acontecimentos. No Tróino agora as gentes caminham soturnas. Uns por tristeza, outros por desonrado pudor. No ar respira-se a tristeza e a fome.

Chega à fábrica e dão-lhe trabalho. Vai engrelhar, como é hábito. Dizem que a enviada veio carregada, pelo que a jornada vai ser longa. Quando a época da sardinha terminar escasseia o trabalho e aperta mais a miséria no estômago. Por enquanto, empilham-se à porta da fábrica caixas de latas de conserva, que seguem para França, carregadas de sangue e de vidas.

https://pracadobocage.wordpress.com/2016/03/08/8marcooperariasconserveirassetubalficcao/