Mostrar mensagens com a etiqueta Literatura Policial. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Literatura Policial. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, 31 de janeiro de 2024

Novo livro da saga Millennium, sem Stieg Larsson

LITERATURA

Novo livro da saga Millennium, sem Stieg Larsson, editado em Portugal em 2015

Oceanos editará o quarto livro da saga best-seller, que será escrito pelo sueco David Lagercrantz, autor da biografia do futebolista sueco Zlatan Ibrahimovic

Joana Amaral Cardoso

18 de Dezembro de 2013, 13:2

Um novo livro da saga Millennium de Stieg Larsson, já assinado por um novo escritor, será editado em Portugal em 2015, confirmou esta quarta-feira ao PÚBLICO a LeYa, que através da sua chancela Oceanos publicou já Os Homens que Odeiam as MulheresA Rapariga que Sonhava com uma Lata de Gasolina e um Fósforo e A Rainha no Palácio das Correntes de Ar. Na terça-feira, a editora sueca Norstedts anunciou que a trilogia terá uma sequela, desta feita assinada pelo sueco David Lagercrantz – autor da biografia I am Zlatan, do futebolista sueco Zlatan Ibrahimovic, que se tornou no livro mais rapidamente vendido da Suécia em 2011.

O livro de Lagercrantz está previsto para Agosto de 2015 na Suécia, exactamente dez anos depois do lançamento do primeiro volume da trilogia Millennium, que vendeu mais 75 milhões de livros em todo o mundo e é um dos fenómenos literários da primeira década do século XXI. Em Portugal, segundo dados da LeYa, os três livros venderam já mais de 157 mil exemplares (119 mil na sua edição original e quase 38 mil na versão BIS, a colecção de livros de bolso).

Pouco se sabe ainda sobre o caminho que a história da hacker Lisbeth Salander e do jornalista de investigação Mikael Blomkvist tomará nas mãos de Lagercrantz, também ele um ex-jornalista que começou a sua carreira a cobrir casos de crimes e serial-killers, como diz o britânico Telegraph. A BBC escreve que o novo livro contará com as personagens centrais da história de Larsson e que algumas das linhas narrativas da intriga dos três primeiros livros serão recuperadas.

Mas a directora da editora sueca, Eva Gedin, garantiu à Associated Press (AP) que este quarto livro é independente dos anteriores tomos e que será uma obra original que nada contém do esboço não terminado deixado por Larsson antes da sua morte. Para ela, citada pelo diário sueco Aftonbladet, as personagens criadas por Larsson são tão fortes que hoje se sustentam por si e agora terão uma segunda vida às mãos de Lagercrantz. Eva Gabrielsson, companheira de Larsson até à sua morte, manifestou ao jornal sueco a sua preocupação com o facto de Lagercrantz poder não lidar correctamente com os temas sociais e políticos subjacentes à intriga policial da obra de Larsson. E foi taxativa: “Stieg nunca o teria permitido. Ele era muito cuidadoso com a sua obra”, disse, acrescentando que “é de mau gosto tentar fazer mais dinheiro” a partir destes livros.  

A história da feitura da trilogia Millennium, ela própria digna de um romance com uma intriga finalizada com um revés dramático, é bem conhecida: Stieg Larsson, jornalista e escritor, terminou os primeiros três de uma série que planeava que tivesse dez livros e morreu de ataque cardíaco em Novembro de 2004, aos 50 anos, antes de ver a saga de Lisbeth Salander e do seu suposto alter-ego Mikael Blomkvist explodir em popularidade em 50 países e dar origem a quatro filmes - três suecos e um made in Hollywood.

Os policiais, e típicos page turners, viram-se envoltos na luta judicial entre o pai e o irmão de Larsson e a sua companheira Eva Gabrielsson em torno dos direitos sobre o legado literário do escritor - Gabrielsson terá o computador portátil em que o escritor tinha esboçado cerca de três quartos de um quarto volume de Millennium. Stieg Larsson morreu sem deixar em testamento os seus desejos quanto ao seu espólio e obra e, como não eram casados, a batalha judicial adensou-se e Eva Gabrielsson, também ela escritora, recusou revelar mais detalhes sobre a obra inacabada até que lhe sejam atribuídos os direitos sobre o legado literário de Larsson. 

O amigo e colega de Larsson, Kurdo Baksi, contou há três anos ao diário sueco Expressen alguns desses detalhes que Gabrielsson quererá manter em segredo, nomeadamente que os planos de Larsson nesse quarto volume davam mais protagonismo à irmã gémea de Lisbeth,Camilla, e que levaria Blomkvist a vários países, como Irlanda, Suécia e EUA. No livro de Gabrielsson, Millennium, Stieg et moi (2011), ela própria avança que o título de trabalho para o livro inacabado seria A Vingança de Deus.

À BBC, Eva Gedin explicou agora: “Decidimos deixar alguém tomar conta [da saga] e contar o que aconteceu a seguir”. "Obviamente estamos muito entusiasmados. Acreditamos ter encontrado um autor soberbo para este projecto”, disse a directora, desta feita à AP. Lagercrantz, que aos 51 anos é autor de vários romances e de livros de não-ficção como I Am Zlatan, é também citado pela BBC dizendo que “já começou a escrevê-lo” e que “é terrivelmente divertido. É um mundo fantástico onde entrar”.

Lagercrantz vive no bairro sueco de Södermalm que Larsson retratou nos seus policiais e que é agora uma espécie de local de romaria para turistas literários que visitam os cenários dos livros e dos filmes. A Nordstedts descreve-o em comunicado como alguém que “procurou constantemente na sua escrita personagens bizarras e génios complexos”.
 
 

 https://www.publico.pt/2013/12/18/culturaipsilon/noticia/quarto-livro-da-saga-millennium-sem-stieg-larsson-editado-em-portugal-em-2015-1616751


A saga Millennium continua – o 7º volume

LIVROS

A saga Millennium continua – a Pipi das Meias Altas tem tatuagens e piercings

Os três primeiros livros da série foram um fenómeno. As preocupações sociais de Stieg Larsson inovaram. O 7.º volume chama-se A Rapariga nas Garras da Águia, foi escrito por Karin Smirnoff.

José Riço Direitinho

31 de Janeiro de 2024, 20:30

Quase vinte anos depois de ter sido publicado na Suécia o primeiro volume da saga Millennium – Os Homens Que Odeiam as Mulheres (D. Quixote, 2009) – do malogrado jornalista e escritor sueco Stieg Larsson (1954-2004), os livros desta série já venderam mais de cem milhões de exemplares em todo o mundo. Que fenómeno é este? Para se responder, é necessário recuar ao tempo da publicação do primeiro livro e à mudança de paradigma que representou na literatura policial.

Nos meses seguintes à sua publicação, esse volume vendeu cerca de dois milhões de exemplares num país que tem uma população de nove milhões de habitantes. Anos depois, em 2007, e de acordo com a revista The Bookseller, o seu autor ocupou o segundo lugar da lista dos mais vendidos em todo o mundo, à frente de Ken Follet, Stephenie Meyer e J. K. Rowling.

Quais foram as razões do sucesso internacional (países nórdicos à parte, pois aí elas serão mais ou menos óbvias) dos três livros de Larsson – a série continuou depois da sua morte, mas pelas mãos de David Lagercrantz e de Karin Smirnoff, mas já lá iremos – que falam apenas da sociedade sueca, da cartografia de Estocolmo, da solidão e da frieza nórdicas, mas sobretudo das falhas de um Estado que se supunha modelar e que afinal parece ser controlado por poderosas e ocultas forças malévolas? Porque é que um leitor português, grego ou israelita – e não apenas os suecos, ou os nórdicos – também corre o risco de ficar agarrado (literalmente) aos livros lendo-os sem pensar na manhã seguinte? Fez esta trilogia de Larsson parte da onda de romances policiais nórdicos que se tornou moda um pouco por todo o mundo? O que é mesmo o “policial nórdico”?

Comecemos então pelo princípio. Os hábitos de leitura são parte da tradição cultural dos nórdicos desde há muito tempo. Eles são tidos como os maiores leitores do mundo, não apenas de livros, mas também em números de jornais e de revistas existentes. Nos anos 1970, uma dupla de autores suecos, marido e mulher, Per Wahlöö e Maj Sjöwall, assinaram os primeiros êxitos de livros policiais e criaram a figura do primeiro “inspector” sueco, Martin Beck. O modelo usado para a personagem principal e para a arquitectura dos romances estava ainda muito preso ao que era tido (e ainda é) como canónico no género, o hard-boiled norte-americano, muito estereotipado, apesar de já aflorar questões sociais. 


A Rapariga nas Garras da Águia

Autoria: Karin Smirnoff
Tradução de Maria de Fátima Carmo
Editora: Dom Quixote
496 págs., 23,30€


Efeito Olof Palme

Segundo alguns críticos e outros estudiosos do género, foi só a partir de finais da década de 80 que o “policial” escrito por autores nórdicos se começou a alterar, e houve uma razão forte para isso: a sociedade sueca não se refez do assassinato do primeiro-ministro social-democrata Olof Palme numa rua do centro de Estocolmo, em 1986, quando, perto da meia-noite, regressava a casa com a mulher, a pé e sem guarda-costas dirigindo-se para o metro, depois de terem assistido a uma sessão de cinema.

O crime continuou por resolver durante décadas, apesar das muitas pistas de teorias da conspiração seguidas (desde os independentistas curdos do PKK aos que se opunham ao fim do apartheid na África do Sul, passando pela CIA e por vários delinquentes menores com problemas de drogas e de alcoolismo). As questões emocionais relativas a este caso demoraram a ser esquecidas, não apenas pela ausência de resposta à pergunta “quem foi?”, mas sobretudo por ter levantado pela primeira vez entre os escandinavos problemas mais complexos sobre a sociedade moderna, o espaço privado, a tolerância e a violência.

O género policial foi o único que quase de imediato abordou estas questões, e tentou, de uma maneira ou de outra, minimizar todos aqueles estragos emocionais. O modelo foi-se alterando aos poucos, os autores suecos (e por extensão também os dos outros países nórdicos) deixaram de estar apenas interessados em resolver o puzzle constituído pelos factos mais ou menos óbvios de um crime, ou na montagem de uma experiência voyeurista violenta para oferecer ao leitor, e passaram a centrar-se mais nas causas e nos efeitos de um acto violento no tecido social, aprofundando um pouco mais as personagens, obviamente nunca deixando de lado o importante aspecto lúdico. Como se o novo romance policial tivesse vindo ocupar na Escandinávia o lugar do romance realista do século XIX.

O “crime nórdico” passou a ter quase sempre uma inscrição no campo social. Na literatura policial que se escreveu na década de 2010, raros foram os casos de histórias em que o acto violento era apenas passional, ou familiar, ou então entre sócios desavindos por alguns milhões roubados. Houve sempre a presença extra de uma qualquer força dificilmente controlável, quer fosse política, económica ou mesmo religiosa. E, como consequência, as personagens principais deixaram de ser obrigatoriamente apenas os habituais polícias ou detectives privados, homens de meia-idade com alguns problemas com álcool, e passaram a ser também os advogados intuitivos, os jornalistas de investigação ou os hackers (esta foi a novidade trazida pela série Millennium).

Alguns escritores que até então se dedicavam à escrita de livros da literatura chamada “séria” converteram-se em autores de best-sellers – é o caso do sueco Henning Mankell e da norueguesa Karin Fossum, até então uma aclamada poeta. Com este input cultural, o género fortaleceu-se e em muitos casos as fronteiras entre literatura “séria” e “policial” desapareceram; um dos primeiros casos surgidos foi o do dinamarquês Peter Høeg com o romance A Senhora Smilla e a Sua Especial Percepção da Neve. A juntar a isto tudo, há ainda a tradição cultural das sagas nórdicas, de que foi recuperado o seu “grande sentido de tragédia”, como referiu o norueguês Jo Nesbø numa entrevista.

A continuação

Mas a série Millennium continuou após a morte do seu criador, que no início a tinha previsto para dez volumes (escreveu apenas três). Para a continuar, foi escolhido um sueco, David Lagercrantz (n. 1962), que até então era conhecido por escrever biografias de importantes figuras suecas, entre as quais o futebolista Zlatan Ibrahimovic. Manteve as duas personagens centrais: o par do jornalista cínico (Mikael Blomkvist) e da hacker abusada, vulnerável, que transforma agonia em energia, a carismática Lisbeth Salander, uma das mais originais heroínas romanescas dos últimos tempos, uma espécie de reconversão da Pipi das Meias Altas (foi o próprio Stieg Larsson quem faz a comparação) em justiceira pós-moderna, num “factor de entropia no caos”.

Os livros escritos por Lagercrantz não deixaram de ter essa inscrição social que caracterizava a trilogia inicial, tendendo mesmo a actualizar os assuntos para adequar os romances a tempos mais actuais. Por exemplo, no sexto volume, A Rapariga que Viveu Duas Vezes, a morte de um sem-abrigo vai aos poucos ficando inesperadamente associada ao ministro da Defesa sueco; Lagercrantz continuou a ligar escândalos políticos e jogos de poder com novas tecnologias, genética, "fábricas" de trolls que criam e difundem notícias falsas, influenciadores de resultados de eleições, etc. A personagem Lisbeth Salander é, entretanto, dada como desaparecida, mas o leitor encontra-a em Moscovo a ajustar contas com a irmã Camilla, e "desta vez será o caçador e não a presa, será o gato e não o rato".

Stieg Larsson deu uma nova direcção à ficção policial escandinava, com um olhar frio do mundo expresso num tom jornalístico e furioso

Mais recentemente foi publicado o sétimo volume da série, A Rapariga nas Garras da Águia, escrito por Karin Smirnoff, uma das autoras de maior sucesso na Suécia. Ela continua o registo de Larsson no submundo do crime. O jornalista cínico vai casar a filha ao norte do país; o noivo é um dos políticos mais influentes da região, e mais uma vez os temas da corrupção e do poder político estão no centro do romance: corrupção ligada à exploração de energias renováveis num ambiente político em que a extrema-direita está em imparável ascensão. O tema do combate à violência contra as mulheres não está ausente.

Com a trilogia inicial, Stieg Larsson deu uma nova direcção à ficção policial escandinava. A escrita seguríssima de Larsson, o olhar frio do mundo expresso num tom jornalístico e furioso, aliados ainda à construção narrativa assente num puzzle de emoções, com sucessivas analepses ao passado das personagens, fizeram de cada livro da série Millennium um verdadeiro achado viciante.

Durante quase uma década esta foi a matriz de escrita de muitos autores de policiais nórdicos, não apenas suecos, mas também noruegueses. No entanto, há alguns anos que esta preocupação da "inscrição social" apenas se vai mantendo nos livros desta série, tendo vindo a ser abandonada por autores que voltaram aos seus polícias-inspectores de meia-idade com problemas de álcool, como os criados por Jo Nesbø e Jørn Lier Horst.

https://www.publico.pt/2024/01/31/culturaipsilon/noticia/saga-millennium-continua-pipi-meias-altas-tatuagens-piercings-2078474


sábado, 3 de outubro de 2020

Cem anos de Hercule Poirot: a história e o legado do genial detetive



*  Carlos Maria Bobone
 
Picuinhas, guloso, sensível e vaidoso até ao limite. Ao mesmo tempo, anormalmente inteligente e perspicaz, Poirot, criação perfeita de Agatha Christie, é referência obrigatória da literatura policial.

04 out 2020, 18:06

A 6 de Agosto de 1975 o New York Times abria com um estranho obituário. Agatha Christie tinha acabado de publicar Curtain: Poirot’s last case e o famoso detetive, que se deixara morrer no desenlace do mistério, tem direito a um elogio fúnebre nas páginas do jornal.

Esta despedida dá ideia do lugar que o pequeno detetive ocupou no imaginário contemporâneo: nunca personagem alguma tivera direito a um obituário no New York Times e mais nenhuma voltou a ter. Poirot, o grande detetive, conquistou o seu lugar entre as pessoas de carne e osso graças a umas brilhantes células cinzentas e à resolução dos mais intrincados mistérios.

Poirot teve direito a uma biografia escrita por Anne Hart e a uma imensa quantidade de adaptações televisivas. Tudo porque se há detetive que encarna na perfeição as delícias da literatura policial, esse detetive é Hercule Poirot.

Agatha Christie, na sua Autobiografia, conta que Poirot — que apareceu pela primeira vez no livro The Mysterious Affair at Styles, publicado em outubro de 1920 .. é escrito na esteira da literatura policial mais clássica: um detetive excêntrico, apressado na resolução dos casos pela competição com um inspetor da polícia menos capaz mas com mais meios ao seu dispor, e ajudado por um ingénuo seguidor que, como um provedor do leitor, obriga constantemente o herói a explicar os seus raciocínios.




[alguns dos melhores momentos de David Suchet como “Poirot”, na série televisiva feita a partir das histórias de Agatha Christie:]


Nisto, não é Poirot muito diferente do mais clássico dos clássicos, o detetive Sherlock Holmes; Agatha Christie, no entanto, dota o seu próprio detetive de uma subtileza que o torna, em certa medida, o oposto de Sherlock Holmes. Holmes é, nas obras de Conan Doyle, um positivista; Chesterton, num dos seus ensaios sobre literatura policial, já denuncia os limites de Sherlock Holmes: na verdade, não precisamos que o cérebro com as capacidades dedutivas mais exercitadas de que há memória seja ainda um apóstolo da ciência e da pura lógica sensível; não só a personagem se torna, mais do que coerente, redundante, como o próprio método diminui os mistérios. Não há nada de lógico em relevar pormenores desconsiderados; a notícia do mais vulgar, daquilo que escapa aos outros, é na verdade mais próprio de um cérebro imaginativo do que de um cérebro dedutivo. Agatha Christie percebeu isto ao fazer do seu detetive um homem ao mesmo tempo picuinhas e guloso, hiper-sensível e vaidoso até ao limite.


O que está em questão na vaidade é precisamente o exacerbar daquilo que aparentemente tem pouca importância. O orgulho de Poirot no seu cérebro torna-se ao mesmo tempo ridículo e interessante porque é uma variação pouco óbvia da personalidade interessada pelo pormenor. Da mesma maneira que Miss Marple é até um pouco aborrecida e tacanha, como se concentrasse a atenção naquilo que já não interessa, Poirot é um esteta dedicado aos pequenos prazeres – com uma óbvia ligação com a ideia de importância dada aos pormenores – e um vaidoso, isto é, alguém que remói os seus feitos (como os indícios) por mais tempo do que à partida seria necessário.

A vida de Poirot tem uma coerência surpreendente para uma personagem de ficção a quem a autora nunca dedicou uma biografia de facto. Embora Christie diga que já nos primeiros livros o imaginava velho, característica que as longas décadas de mistérios obrigaram a matizar, a verdade é que é possível traçar uma biografia coerente de Poirot sem grandes contradições entre os livros. Um antigo inspetor da polícia belga, refugiado em Inglaterra depois da invasão alemã na primeira guerra mundial, Poirot instala-se primeiro em Styles, lugar do seu primeiro mistério, e vai ganhando fama e dinheiro com a resolução de novos crimes. Começa por trabalhar para o governo, mas é como detetive privado que ganha a folga financeira que lhe permite viver com o requinte que deseja.

Poirot disserta várias vezes sobre os tipos de crimes e sobre a psicologia dos criminosos, sobre os tipos de arma usados nos crimes premeditados e nos crimes passionais, sobre os meios tipicamente femininos ou masculinos, mas pouco tem a dizer sobre a moral.

Com o passar dos anos, a galeria de personagens vai-se tornando mais complexa: Hastings, Miss Lemon, todos vão cumprindo os seus papéis no mundo de Poirot; o processo, no entanto, é sempre parecido e é esse que torna os livros de Poirot uns dos mais interessantes no que toca ao enredo policial propriamente dito. Pode haver detetives mais complexos, como Perry Mason ou o espião George Smiley; mas não histórias policiais com um enredo tão bem montado quanto as de Poirot.

A grande força dos enredos de Christie-Poirot está na montagem de uma galeria de personagens cheia de segredos, muitas delas dispostas a sacrificar reputações para proteger aqueles que amam, muitas outras a viver segundas vidas incógnitas, de tal maneira que os segredos se intrometem no crime e dificultam a sua resolução. O processo passa, assim, pela resolução de um encadeado de mal-entendidos e mistérios paralelos que tornam a História mais do que a resolução de um momento. Aquele que é o grande defeito da literatura policial – o facto de ser uma literatura concentrada num momento, de tal modo que toda a história funciona apenas como uma ferramenta para alcançar uma resolução – é nas histórias de Poirot ultrapassado pelo complexo de tramas paralelas que obscurecem a visão do detetive.

Agatha Christie tem sempre a preocupação de, não apenas encontrar um criminoso plausível, mas de encontrar o único criminoso possível. Ora, esta preocupação retira alguma arbitrariedade ao jogo de enganos e compromete o leitor com a história. A necessidade de termos aquele criminoso e não outro faz com que a resolução não se torne uma escolha da autora, a que o leitor assiste passivo, mas sim uma espécie de consequência necessária da história, que o leitor pode por isso descobrir.


▲ Os mistérios de Poirot são prova da capacidade de Agatha Christie resistir à cristalização do seu modo de raciocinar e implicam uma montagem que é, só por si, um tratado de engenharia

À medida que a mestria de Agatha Christie se foi aprimorando os casos foram, do ponto de vista técnico, ganhando cada vez mais complexidade. Dos casos em que um jogador de Bridge é assassinado numa sala fechada, tornando suspeitos apenas os 3 jogadores vivos, ao caso em que a culpa do narrador é escondida até ao fim, Agatha Christie vai explorando a sua capacidade inventiva num jogo de possibilidades cada vez menores, em que as possibilidades de resolução se vão tornando cada vez mais apertadas.

Dos grandes detetives que a ficção nos trouxe, Poirot é provavelmente aquele em que o magnetismo do crime produz menos efeito ao longo da vida. É certo que Poirot admira a “inteligência” de alguns crimes; no entanto, a ideia de impunidade para aqueles capazes de perceber as estruturas dos grandes crimes, a tentação do outro lado, tudo isso parece em Poirot – pelo menos até à sua morte – algo distante. A estrutura moral de Poirot, um refugiado, a quem o despeito de se encontrar sem emprego antes de abrir a sua agência podia levar para lados mais negros, é por isso bastante curiosa. Poirot disserta várias vezes sobre os tipos de crimes e sobre a psicologia dos criminosos, sobre os tipos de arma usados nos crimes premeditados e nos crimes passionais, sobre os meios tipicamente femininos ou masculinos, mas pouco tem a dizer sobre a moral.

Mais do que os mistérios, porém, fica a personagem. Poirot é ainda hoje o protótipo do detetive, a suprema demonstração do poder da inteligência, capaz de ver ao mesmo tempo com o máximo pormenor e a maior largueza.

A ideia de justiça em Poirot é bastante sui generis. Poirot não é propriamente um detective amoral, no sentido em que, ao contrário de Holmes, por exemplo, sofre com os crimes, mas é sobretudo um detective à maneira iluminista, isto é, alguém que acredita que o bem está no esclarecimento. Mais do que o bem, Poirot quer a verdade, e é dessa verdade que virá o bem. Juntam-se os pares amorosos tornados suspeitos pelos segredos, reconciliam-se pais e filhos, numa ideia de que o segredo e a ocultação acabam por provocar o mal, de um modo que a clareza impede.

Há casos de Poirot verdadeiramente ontológicos, prodígios de inventividade da parte da criadora e provas excecionais de inteligência da parte do detetive. Os crimes do ABC, Roger Ackroyd, o Crime do Expresso do Oriente, Cartas na Mesa, todos estes mistérios são prova da capacidade de Agatha Christie resistir à cristalização do seu modo de raciocinar e implicam uma montagem que é, só por si, um tratado de engenharia.

Mais do que os mistérios, porém, fica a personagem. Poirot é ainda hoje o protótipo do detetive, a suprema demonstração do poder da inteligência, capaz de fazer de uma figura de palmo e meio, de bigode levantado e sotaque carregado, um grande Homem, capaz de ver ao mesmo tempo com o máximo pormenor e a maior largueza.

observador.pt/especiais/cem-anos-de-hercule-poirot-a-historia-e-o-legado-do-genial-detetive/

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Pepe Carvalho de Manuel Vázquez Montalbán

Pepe Carvalho es el protagonista de una serie de novelas y relatos de ficción escritos por Manuel Vázquez Montalbán.

El personaje

Carvalho es un atípico detective privado de personalidad rica, compleja y contradictoria, cuyas aventuras sirven al autor para retratar, y a menudo criticar, la situación política y cultural de la cambiante sociedad española de la última mitad del siglo XX. Por ejemplo, el proceso autodestructivo del Partido Comunista en los primeros tiempos de la transición se describe en Asesinato en el Comité Central, la caída del felipismo en los años noventa es el telón de fondo de El premio, o el discutido proceso de transformación de Barcelona con motivo de las Olimpiadas de 1992 está presente en Sabotaje Olímpico.
Carvalho es en su juventud (durante los años 50) militante del Partido Comunista de España y, de hecho, su activismo contra el régimen franquista le lleva a la cárcel. Después, desengañado sentimental e ideológicamente, cada vez más desencantado y siempre contradictorio, acaba ejerciendo durante cuatro años como agente de la CIA.
Hombre de vasta cultura, otro chocante rasgo de su personalidad es su cínica afición por condenar a la hoguera libros de su nutrida biblioteca desde comienzos de los años 70.
De origen gallego, Barcelona es su ciudad y, aunque es un gran viajero y muchas aventuras transcurren en otros lugares, la notoriedad del personaje ha dado a la capital catalana ese aire de ciudad literaria mítica que tanto aprecia él mismo en otras, como el Singapur de William Somerset Maugham.
La pasión gastronómica de Carvalho y su ayudante Biscuter es la de su creador, por lo que no faltan en las novelas apasionadas descripciones culinarias de los platos más diversos.
La saga tiene su punto final con la publicación póstuma de Milenio Carvalho, donde el protagonista, acompañado de su inseparable Biscuter, se autoimpone una última aventura en forma de vuelta al mundo que acaba convirtiéndose en una mirada amarga y melancólica sobre la situación sociopolítica mundial y el paso del tiempo.1

Adaptaciones a la pantalla

Diversas novelas y relatos protagonizados por Carvalho son adaptados para la televisión, sin excesivo éxito de crítica ni de público.2​ Primero es una serie de TVE protagonizada por Eusebio Poncela en los años ochenta, después otra, esta vez de producción hispano-argentina, que se cancela tras del primer episodio, con Juan Diego en el papel de Carvalho y, finalmente, dos series distintas, una italo-española de seis episodios y otra de sólo cuatro producida por las televisiones catalana, gallega y francesa, ambas protagonizadas por Juanjo Puigcorbé y con guion de Pedro Molina Temboury.
En cuanto al cine, cuatro son las películas realizadas:
Además, en 1985 se realiza la película Olímpicament mort directamente para el mercado televisivo (se estrenó en TV3 el 15 de octubre de 1986), donde Constantino Romero interpreta al detective y el propio Manuel Vázquez Montalbán es el narrador. La película cuenta con la dirección de Manuel Esteban, la colaboración en el guion de Jean-Claude Izzo y con las apariciones estelares del cineasta Pere Portabella y del escritor español de novela negra Andreu Martín.3

Obra

Manuel Vázquez Montalbán

Una desconocida que viajaba sin documentación
El barco fantasma
Pablo y Virginia
  • Historias de padres e hijosPlaneta, 1987
Desde los tejados
Buscando a Sherezade
Hice de él un hombre
  • Tres historias de amorPlaneta, 1987
Las cenizas de Laura
De lo que pudo haber sido y no fue
La muchacha que no sabía decir no
  • Historias de política ficciónPlaneta, 1987
Federico III de Castilla y León
La guerra civil no ha terminado
Aquel 23 de febrero
  • Asesinato en Prado del Rey y otras historias sórdidasPlaneta, 1987
Asesinato en Prado del Rey
Cita mortal en Up and Down
Jordi Anfruns, sociólogo sexual
El signo del Zorro
El hermano pequeño
La soledad acompañada del pavo asado (Cuento de Navidad)
El exhibicionista
Tal como éramos
El coleccionista
Puzzles (Dos homenajes a Agatha Christie)
1. El caso de la abuelita fusilada
2. El cofre de las tres joyas
Por una mala mujer
  • Roldán, ni vivo ni muertoPlaneta, 1994, ilustraciones de Alfonso Font
  • El premioPlaneta, 1996
  • Antes de que el milenio nos separe. Carvalho contra Vázquez Montalbán (en Carvalho 25 años. Estuche conmemorativoPlaneta, 1997)
  • Quinteto de Buenos AiresPlaneta, 1997
  • El hombre de mi vidaPlaneta, 2000
  • Carvalho gastronómico, vols. 1 a 10Ediciones B, 2002 y 2003
  • Milenio Carvalho I. Rumbo a KabulPlaneta, 2004
  • Milenio Carvalho II. En las antípodasPlaneta, 2004
  • Cuentos negrosGalaxia Gutenberg, 2011
La muchacha que pudo ser Emmanuelle
Cuentos negros
Los kamikazes de la autopista
La viajera
La diosa desnuda
El caso del espía posmoderno
Pepe Carvalho en la ciudad de los espías y los héroes
Poética carvalhiana
Barcelona: la ciudad de Pepe Carvalho
¿Quién es el asesino?

Quim Aranda

  • Pepe Carvalho, una noticia biográfica I. El país de la infancia (en Carvalho 25 años. Estuche conmemorativoPlaneta, 1997)
  • Pepe Carvalho, una noticia biográfica II. Viaje de ida y vuelta (en Carvalho 25 años. Estuche conmemorativoPlaneta, 1997)
  • 101 preguntas sobre Carvalho. Test del perfecto carvalhista (en Carvalho 25 años. Estuche conmemorativoPlaneta, 1997)

Otros

  • A Carvalho y Vázquez Montalbán. Dedicatorias I, varios autores (en Carvalho 25 años. Estuche conmemorativoPlaneta, 1997)
  • A Vázquez Montalbán y Carvalho. Dedicatorias II, varios autores (en Carvalho 25 años. Estuche conmemorativoPlaneta, 1997)
  • Un paseo visual, fotografías de escenarios de la serie (en Carvalho 25 años. Estuche conmemorativoPlaneta, 1997)

Referencias
  1. Volver arriba↑ Manuel Vázquez MontalbánSerie Carvalho, 25 volúmenes, Planeta, 1972-2004
  2. Volver arriba↑ Las páginas negras de Pepe Carvalho, Pepe Carvalho en la pequeña pantalla
  3. Volver arriba↑ Olímpicament mort: Carvalho y la metaficción
  4. Volver arriba↑ Barcelona Cultura, El escritor Andreu Martín gana el premio Pepe Carvalho, Ajuntament de Barcelona, 2011
  5. Volver arriba↑ Rosa Mora. Petros Márkaris gana el VII Premio Pepe CarvalhoEl País, 03.10.2011; acceso 01.11.2011
  6. Volver arriba↑ Premio Pepe Carvalho: Maj Sjöwall, la dama del policial
Enlaces externos

https://es.wikipedia.org/wiki/Pepe_Carvalho

Guía Turística de Barcelona
Guía de Barcelona >  Rutas Por Barcelona >  La Ruta de Pepe Carvalho


Curiosamente, una de las rutas menos conocidas en Barcelona es también una de las más significativas. Sobre todo, para los aficionados a la literatura y, en concreto, a uno de los escritores de mejor letra en el panorama español: Manuel Vázquez Montalbán. El escritor falleció en octubre de 2003, pero sus libros y los personajes que creó siguen presentes en ciudades como Barcelona.

Entre todos ellos, el detective Pepe Carvalho fue uno de los que creó escuela. Sus correrías por la ciudad y los lugares que el personaje (y el propio Vázquez Montalbán) frecuentaron han dado lugar a una ruta que hoy podemos seguir todos los que nos movemos por Barcelona.

Para no perderse ni un detalle del itinerario lo mejor es comenzar en la Rambla, justo a la altura de la Plaça Catalunya. El lugar más indicado para encontrarse con alguien en este punto y al que nos sabrá guiar cualquiera al que preguntemos es la Fuente de Canaletes. No se trata de un monumento en sí, pero los barceloneses la han convertido en una parte popular de la ciudad y es prácticamente imposible encontrar a alguien que no la conozca.

Muy cerca, bajando la Rambla a la derecha, se llega al Mercat de la Boqueria. Es el mercado más grande de España y en Barcelona, toda una institución en su género. No sólo destaca por la cantidad de productos que ofrece, sino por su ambiente (una rara mezcla entre lo popular y lo exótico), sus colores y sus olores. La Boqueria fue una constante en las andanzas del detective Pepe Carvalho, ya que tanto el personaje en la ficción como Vázquez Montalbán en la realidad, eran unos asiduos del bar Pinocho. El establecimiento todavía se encuentra dentro del mercado y, aparte de la fama que le han reportado los libros del escritor, su numerosa clientela está más que justificada.
Las aventuras de Pepe Carvalho se desarrollaban, entre otros lugares, en el barrio del Raval. Hasta el mismo Carvalho, al que nada parecía sorprenderle, miraría el barrio con otros ojos al ver cómo ha evolucionado en los últimos años. Es uno de los mejores ejemplos de la mezcla étnica, racial y cultural de Barcelona, donde parece que tiene cabida todo tipo de público. Se extiende a la derecha de la Rambla y la calle Pintor Fortuny, en la que hace esquina el hotel Le Meridien, puede ser un buen punto de partida.

Para seguir el itinerario hay que continuar por la Rambla, pero justo en su margen izquierda. Después de pasar la calle Ferran unos arcos anuncian la entrada de la Plaça Reial. Es el lugar perfecto para los que buscan la mezcla de ambientes, ya que tanto por el día como por la noche, el público de la plaza es de lo más heterogéneo. El bar Glaciar, uno de los muchos que se encuentran bajo los típicos porches de la plaza, también apareció en las entregas de Montalbán y también hoy es uno de los clásicos bares en los que tomar la primera copa... o alargar la noche.

Desde aquí, en dirección a Via Laietana, es muy fácil entrar en el barrio de la Ribera. Igual que el Raval, su transformación urbanística y cultural en los últimos años ha sido muy llamativa. Entre los diferentes espacios que se pueden visitar, el Espai Brossa es uno de los más adecuados para los que busquen una de las carteleras teatrales más alternativas de la ciudad.

La ruta acaba en el restaurante Casa Leopoldo, en la calle Sant Rafael, número 23. Sin duda, es el lugar más representativo de las correrías de Carvalho y son muchos los que se acercan al lugar tan sólo para verlo en persona después de haberlo imaginado en las novelas de Montalbán. Al Casa Leopoldo no le ha hecho falta el reconocimiento de guías gastronómicas (que también lo tiene) para hacerse un hueco entre los mejores restaurantes de la ciudad. Incluso, dicen que para asegurarse de que nos van a servir lo mejor de lo mejor hay que mencionar una consigna: "Vengo de parte de Pepe Carvalho y pueden ustedes ponerme lo que quieran". El acierto está asegurado, así que lo mejor es probarlo.


https://web.archive.org/web/20070312035823/http://www.bcninternet.com/es/touristinfo.php?contentid=504