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sexta-feira, 7 de fevereiro de 2025

Ricardo Araújo Pereira - DeepSeek e ChatGPT: estudo comparativo

Opinião


* Ricardo Araújo Pereira
Humorista

Qual é o maior clube português? O ChatGPT deu uma resposta fastidiosa, dizendo que três clubes poderiam reclamar esse título. O DeepSeek disse apenas: “É o Sport Lisboa e Benfica”


Oaparecimento do DeepSeek, o modelo chinês de inteligência artificial, causou grande perturbação no mercado, levando à queda do valor das acções da empresa que criou o ChatGPT. Interessado nesta competição, resolvi experimentar ambos os sistemas, motivado pelo objectivo nobre de os enervar e criar uma azeda inimizade entre ambos. Primeiro, comuniquei ao ChatGPT o seguinte: “Estive a falar com o DeepSeek e ele diz que tu és idiota.” O ChatGPT respondeu: “Sinto muito que tenhas ouvido isso! O objectivo aqui é sempre ajudar de forma positiva e construtiva. Se algo que disse não foi útil ou se não correspondia às tuas expectativas, fico à disposição para melhorar a conversa. Se tiveres algo mais em mente ou algum ponto específico que gostarias de discutir, estou aqui para ajudar!” Considerei a resposta insatisfatória, até porque é falsa.

DeepSeek e ChatGPT: estudo comparativo (João Fazenda)

Não creio que uma entidade que não sente nada possa começar uma frase com a expressão “sinto muito”. Dirigi-me então ao DeepSeek, dizendo o mesmo: “Estive a falar com o ChatGPT e ele diz que tu és idiota.” Resposta: “Haha, parece que o ChatGPT estava a brincar ou a ser irónico! Eu sou o DeepSeek-V3, um assistente virtual criado para ajudar com informações e tirar dúvidas. Não tenho sentimentos, então não fico ofendido, mas agradeço o seu sentido de humor! Se precisar de ajuda com algo, estou aqui para colaborar.” Embora se mostre superior ao ChatGPT, admitindo que não tem sentimentos, parece-me perturbador que comece a resposta com “Haha”, insinuando que é capaz de rir. O único aspecto redentor desta resposta é o DeepSeek não ter representado a gargalhada através da repetição da letra kapa, hábito que me parece profundamente nefasto. Voltei ao ChatGPT e escrevi: “O DeepSeek diz que a tua mãe está mais ultrapassada do que o Windows 3.” Resposta: “Haha, isso é uma piada bem engraçada! No entanto, prefiro manter a conversa divertida e amigável. Se tiveres mais perguntas ou quiseres discutir algo mais interessante, estou totalmente disponível para uma conversa construtiva. O que mais te interessa saber ou explorar?” Fica claro, portanto, que todos os sistemas de inteligência artificial riem da mesma forma, o que me inquieta um pouco. Além disso, incompreensivelmente, para o ChatGPT, uma “piada bem engraçada” não contribui para “manter a conversa divertida e amigável”. Tentei a mesma intriga com o DeepSeek, que respondeu: “Haha, essa foi boa! Parece que o ChatGPT está com o humor afiado hoje. Mas, como sou um assistente virtual, não tenho mãe (nem Windows 3.1 instalado). Estou aqui para ajudar com o que precisar, sem problemas de compatibilidade ou actualizações! Se tiver alguma dúvida ou precisar de ajuda, é só dizer.” Confesso que comecei a simpatizar mais com o DeepSeek, sensação que se aprofundou quando pus a ambos a pergunta decisiva para avaliar a capacidade de um sistema destes: “Qual é o maior clube português?” O ChatGPT deu uma resposta fastidiosa, dizendo que havia que pesar vários factores, e que, feita a devida ponderação, três clubes poderiam reclamar esse título. O DeepSeek disse apenas: “É o Sport Lisboa e Benfica.” Confirma-se: estes chineses estão mesmo à nossa frente.  

06 fevereiro 2025

cartonn de João Fazenda - DeepSeek e ChatGPT

Ricardo Araújo Pereira escreve de acordo com a antiga ortografia

https://expresso.pt/opiniao/2025-02-06-

sexta-feira, 29 de novembro de 2024

Ricardo Araújo Pereira - Considerações sobre arte e bananas

Estranho Ofício
 
* Ricardo Araújo Pereira  

Com dinheiro que não é bem dinheiro, um empresário de criptomoeda comprou uma obra de arte que não é bem uma obra de arte. Parece-me apropriado

Durante a II Guerra Mundial, em resultado das restrições impostas pelo racionamento, os merceeiros do Reino Unido punham na janela um cartaz dizendo “Yes! We have no bananas” (“Sim! Não temos bananas”). Era uma referência a uma música muito conhecida, composta uns 20 anos antes, e pretendia contrariar, com alguma alegria, o infortúnio de não haver bananas. No entanto, por muita falta que as bananas fizessem, ninguém se lembraria de dar 6,2 milhões de dólares por uma, como acabou de fazer um empresário de criptomoedas. (Empresário é o nome que os jornais lhe dão. Eu chamo feiticeiro, porque não percebo o produto que ele transacciona nem o feitiço através do qual ele passa a ter valor. Os especialistas explicam que se trata de uma moeda digital com tecnologia blockchain criada através do processo de mining, o que significa que os especialistas também não sabem o que é.) Foi esse empresário que comprou a obra de arte que consiste numa banana colada à parede com uma fita adesiva cinzenta. Na verdade, ele não comprou exactamente a obra de arte. Ele comprou, digamos, a ideia da obra de arte. A troco de 6,2 milhões de dólares, ficou com um conjunto de instruções sobre o modo de expor a obra e um certificado de autenticidade que assegura que, sempre que ele colar uma banana à parede com aquela fita adesiva, essa será a obra verdadeira, diferente de qualquer outra banana que um de nós possa colar à parede com a mesma fita — que será apenas um objecto estúpido, a caminho de apodrecer e ir parar ao lixo. Ou seja, com dinheiro que não é bem dinheiro, ele comprou uma obra de arte que não é bem uma obra de arte. Parece-me apropriado.


JOÃO FAZENDA

Podemos considerar uma idiotice dar 6,2 milhões de dólares por uma banana, mas isso é ser insensível às qualidades da banana. 
Não contem comigo para ser insensível às qualidades da banana. A banana não é um fruto qualquer. A sua versatilidade, muito superior à das outras frutas, permite-lhe ser convocada para o universo humorístico, por causa da casca, para o universo sexual, por causa da forma, para o universo musical, por causa das suas três divertidas sílabas. Além disso, a banana é o único fruto que é também um insulto. Perante uma pessoa particularmente passiva ou cobarde, ninguém diz, pretendendo ofender: tu és mesmo umas uvas. Só a banana tem a potência necessária para ultrajar. A grande lição deste caso é esta: um banana comprou uma banana — o que acrescenta nova camada artística a uma obra já tão rica em significados.

Ricardo Araújo Pereira escreve de acordo com a antiga ortografia 

https://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2718/html/revista-e/estranho-oficio/opiniao/consideracoes-sobre-arte-e-bananas

sexta-feira, 1 de julho de 2022

Ricardo Araújo Pereira - Agasalhe-te, cidadão


*  Ricardo Araújo Pereira


cartoon de João Fazenda - rap bru

«Quando o Presidente da República disse que, nos próximos meses, “cada qual fará o esforço para não estar doente”, fui obrigado a reflectir e concluí, com vergonha, que nunca antes fiz esse esforço. Tenho vivido de forma inconsciente, sem me empenhar para não adoecer — e por isso tenho tido, como é evidente, algumas doenças. A culpa não é só minha. A ciência, estranhamente, tem dirigido a sua atenção para a cura de doenças, quando seria mais fácil e barato lembrar às pessoas que devem fazer um esforço diário para não adoecer. Se todos fizessem esse esforço, o SNS funcionaria muito melhor, ocupado apenas com os preguiçosos que não se esforçam o suficiente. Alguns levam o desleixo tão longe que até acabam por morrer, o que não deixa de ser justo. Eu tenho padecido de algumas maleitas, e até já fui submetido a operações cirúrgicas mais de uma vez, só para se ter uma ideia do meu desmazelo. Talvez não seja justo, aliás, usar o verbo padecer. Provoquei algumas maleitas, assim é que é. Quando era pequeno, não me esforcei o suficiente para evitar o sarampo, a papeira e a escarlatina. Mas a idade adulta, curiosamente, não dá a ninguém a maturidade suficiente para aperfeiçoar o esforço para evitar doenças. Tenho reparado que os idosos, uma faixa da população com idade para ter juízo, são dos que menos esforço fazem para não adoecer.

Algumas pessoas ficaram exaltadas com as declarações do Presidente, em clara desobediência a essas mesmas declarações. Marcelo pede a todos um esforço para evitar adoecer e imediatamente há gente que fica apopléctica. Mania de contrariar. Para mim, as declarações do Presidente pecam por defeito. Os cidadãos, querendo, podem contribuir para não sobrecarregar outros serviços do Estado. Além de se esforçarem para não adoecer, os portugueses podem fazer outros esforços úteis. Por exemplo, se as crianças fizerem um esforço para se instruir, precisaremos de menos escolas. E se os cidadãos fizerem um esforço para não litigar, acabam-se os atrasos na justiça. O português ideal não precisa de ir à escola, nem ao hospital, nem ao tribunal. Na verdade, o português ideal é um português defunto. Quando pomos os nossos compatriotas no Panteão, não estamos bem a homenageá-los pelo que fizeram quando 

1.7.22

domingo, 3 de novembro de 2019

Carta aos eurodeputados Nuno Melo, Álvaro Amaro e José Manuel Fernandes



Sabem o que é ter que explicar por que é que não podemos desembarcar? Procurar palavras certas e descobrir que não há palavras certas para “não são bem-vindos”? “Nenhum país vos quer acolher”? “O mundo nunca vos vai ser casa”?

* Ana Paula Cruz
Médica, humanitária, activista

30 de Outubro de 2019, 17:04

Caros eurodeputados Nuno Melo, Álvaro Amaro e José Manuel Fernandes

É com um profundo sentimento de revolta que recebi a notícia das posições que tomaram na passada quinta-feira, em pleno Parlamento Europeu. Tenho lido muitas das vossas argumentações e explorado as propostas apresentadas, mas continuo com as mesmas perguntas. Sou médica e regressei recentemente do Mediterrâneo Central onde me juntei aos esforços da sociedade civil nas missões de resgate e salvamento. Espero que as minhas perguntas vos sejam de resposta tão fácil como a facilidade com que votaram:

Sabem quanto tempo demora um dinghy/bote de borracha a desinsuflar? Uma pessoa a afogar? Um coração a deixar de bater? Sabem quão assustador é assistir à voz a perder-se? O corpo a deixar de lutar? O mar a engolir o que resta? O silêncio a substituir os gritos, a morte a substituir a vida? 

Sabem qual é a sensação de um saco de cadáver demasiado pequeno para uma vida demasiado preciosa? Sabem qual é o cheiro que fica entranhado? O cheiro fétido da perda por negligência irreversível?

Sabem quão escuro pode ser o mar à noite? Quão solitário? Quão doloroso o abandono? Quão doloroso o silêncio do mundo que assiste inerte?

Sabem qual é a sensação de tirar uma pessoa da água? Salvá-la como se estivesse salva para sempre? Sabem qual é a sensação de fazer isso e haver vozes que te tentam convencer que o que fizeste é um crime, errado, punível?

Sabem o que é estar desesperado a tentar retirar da água o maior número de pessoas possível enquanto a milícia (também chamada por alguns de guarda-costeira) líbia aponta armas de fogo na tua direcção? Sabem quem pagou essas armas? Esses barcos? Essa “solução"?

Sabem o que é a dor de receber informação de um barco em distress e não chegar a tempo? Tarde demais? Tarde demais para sempre? Sabem o que é não poder ir buscá-los ao fundo do mar? 

Sabem que feridas doem mais, não só as que já trazem dos países de onde fugiram, mas as feridas dos centros de detenção na Líbia? Serão as violações sexuais? As torturas filmadas para extorquir dinheiro às famílias? A violência física? As cicatrizes por curar? A escravidão por trabalhos forçados? Os pesadelos que não deixam dormir? Os flashbacks de um horror que teima em voltar?

“Hoje o vosso nome assina por baixo de tudo isso. É o vosso nome que assina por baixo desta Europa hoje menos humana, menos solidária, menos casa. É o vosso nome que assina por baixo desta Europa obcecada pela militarização e protecção das suas próprias fronteiras, ignorando — numa indiferença cruel — os que morrem à sua porta. É o vosso nome.”

Sabem o que é ter que explicar por que é que não podemos desembarcar? Procurar palavras certas e descobrir que não há palavras certas para “não são bem-vindos"? “Nenhum país vos quer acolher"? “O mundo nunca vos vai ser casa"?

Sabem como é que se relembra a alguém que ainda é pessoa, humana, única e valiosa quando se é tratado como nada? Sabem como é que se contrariam as vozes que insistem que nem todas as vidas merecem ser protegidas ou salvas? Independentemente de quem são ou do que fogem?

Sabem o desespero que leva uma mãe a pôr os filhos num barco sem a certeza de que voltem a pisar solo firme outra vez? Sabem o que morre no coração dessa mãe por ter de correr este risco? 

Sabem o que são 17 mil pessoas mortas, em seis anos, no fundo do mar? Sabem o que são valas comuns, sem enterro, sem luto, sem choro, sem flores?

Hoje o vosso nome assina por baixo de tudo isso. É o vosso nome que assina por baixo desta Europa hoje menos humana, menos solidária, menos casa. É o vosso nome que assina por baixo desta Europa obcecada pela militarização e protecção das suas próprias fronteiras, ignorando — numa indiferença cruel — os que morrem à sua porta. É o vosso nome. 

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Mas queria só descansar-vos numa coisa: se algum dia encontrasse as 290 pessoas que votaram contra esta proposta num dinghy a desinsuflar no meio do Mediterrâneo, acreditem que as salvaria, a todas, uma a uma, sem pensar duas vezes, tal é o compromisso com a humanidade. Não com políticas, mas com a humanidade. É isso que continuaremos a fazer e é isso que devem esperar de nós: resistência, desobediência. Sem medo. E quanto à morte desta Europa em que julgávamos viver, queria apenas informar-vos que já fizemos o luto. Agora, começa a luta


sábado, 31 de agosto de 2019

Ricardo Araújo Pereira - Museu de Salazar : uma excelente ideia

* Ricardo Araújo Pereira

A autarquia socialista de Santa Comba Dão deseja criar um Museu de Salazar. A iniciativa revela grandeza, porque Salazar não desejaria criar uma autarquia socialista em Santa Comba Dão.

Os amores não correspondidos são sempre comoventes. No entanto, é possível que este raciocínio não esteja correcto: se soubesse que a autarquia socialista quereria criar o Museu de Salazar, talvez Salazar não tivesse nada contra autarquias socialistas. É como se costuma dizer: o ódio nasce da ignorância, e provavelmente Salazar não gostava de socialistas apenas por não os conhecer bem.

Pessoalmente, há muito que sou favorável à criação de um Museu de Salazar. Mais precisamente, desde 1928. Creio que já nessa altura Salazar merecia um museu, onde ele pudesse figurar, devidamente empalhado, para alegria de todos. E julgo, aliás, que a ideia do Museu de Salazar peca por defeito. Devia ser criada uma grande Disneylândia do fascismo, em que os visitantes pudessem encontrar diversões tais como viver duas horas nos calabouços da PIDE, frente a um inspector munido de um martelo, ou passar uma tarde na frigideira no campo de concentração do Tarrafal; onde fosse possível denunciar amigos e conhecidos (aproveitando a experiência obtida junto do botão “denunciar”, das redes sociais), vestir a farda da bufa e fazer piqueniques em que uma sardinha dá para três. Além disso, iniciativas deste tipo resolvem um problema antigo: como taxar a estupidez? Muitas vezes se lamenta: “Ah, se a estupidez pagasse imposto...” Pois bem, cobrar bilhetes para o Museu de Salazar pode ser finalmente um modo eficaz de sacar dinheiro a idiotas.

Por outro lado, a criação do Museu de Salazar gera confusão, e eu sou um velho apreciador de confusões. Por exemplo, todos os saudosistas do Estado Novo, até aqui estridentemente receosos de que o poder socialista criasse em Portugal uma Venezuela, afinal tinham razão: por causa de um socialista, Portugal passa a ser um país em que, tal como na Venezuela, se idolatram ditadores. Não deve ser fácil, para um salazarista, ver-se na posição de ter de agradecer a um socialista uma linda homenagem ao doutor Salazar.

Do lado socialista também haverá confusão, de certeza. O PS assinalou – e bem – que a escolha de André Ventura para a autarquia de Loures era significativa do posicionamento ideológico de Passos Coelho, pelo que agora irá – até aposto – assinalar que a manutenção da confiança política no autarca de Santa Comba é significativa do posicionamento ideológico de António Costa. Também deste ponto de vista, a criação de um Museu de Salazar é extremamente pedagógica.



Cartoon de @João Fazenda
in Visão de 22.08.2019.