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segunda-feira, 3 de agosto de 2026

Manuel Loff - A “ameaça” comunista

* Manuel Loff

Desengane-se quem julgava que isto era tudo deles e que a esquerda desapareceu do horizonte de futuro.

 Na véspera da comemoração dos 250 anos da Revolução Americana, Trump decidiu retomar a velha máxima macarthista de que “o comunismo é a maior ameaça ao nosso país, incluindo as duas guerras mundiais, Pearl Harbor ou até o 11 de setembro” (CNN. 3.7.2026). Tal como quando, nos anos 50, McCarthy tinha organizado a campanha mais agressiva da história dos EUA contra esquerda norte-americana, não é simplesmente no contexto do momento (início da Guerra Fria, o avanço dos novos “socialistas democráticos” que ganham hoje apoio popular) que há que interpretar o regresso do anticomunismo como discurso agregador. O que McCarthy então e Trump hoje fazem é reproduzir as mesmas teses com que o fascismo da sua época clássica descreveu o comunismo, “o maior problema humano de todos os tempos”, como dizia Salazar.

 Para a historiadora Ruth Ben-Ghiat, “a nova linha [trumpista] consiste em associar os comunistas a todos os crimes, a todas as infrações” para “criar uma sensação de ameaça comunista para justificar a repressão. É o velho manual utilizado em golpes de Estado e tomadas de poder pelos fascistas.” Para os fascistas dos anos 30 e 40, para quem era de moda a tese de que o marxismo era "o filho mais velho do liberalismo", barrar o caminho do comunismo passava por prescindir dos sistemas liberais e impor novas fórmulas autoritárias.​

 As direitas retomam o anticomunismo como discurso mobilizador sempre e quando a resistência social que se lhes opõe o justifica. A hegemonia das classes historicamente dominantes nas Américas sustentou-se sempre sobre uma violência simultaneamente classista e racial, o que faz com que todos os projetos políticos alternativos, desde a radicalidade da Revolução Cubana, até às muitas variantes da “onda rosa” dos governos Lula, Chávez, Kirchner, Morales, sejam descritos com tons apocalípticos.

 Num recente relatório do Departamento de Estado, Cuba é descrita como a “capital do comunismo do século XXI", capaz de criar “uma infraestrutura revolucionária concebida para virar a América contra si própria”. Por mais que os últimos processos eleitorais na América Latina (Chile, Colômbia, Peru) confirmem uma dramática viragem fascizante, em sintonia com as direitas cubanas e venezuelanas no exílio, Trump tem com que se preocupar. Uma sondagem divulgada em março revelou que o apoio ao socialismo está a crescer, com 38% dos inquiridos (incluídos a grande maioria dos votantes democratas, jovens e afro-americanos) a favor de que os EUA “se afastem do capitalismo”.

Em setembro de 2025, a Gallup detetara já que 66% dos eleitores democratas preferiam o socialismo ao capitalismo. Surpresa? Talvez não: as mesmas sondagens davam resultados semelhantes a meio do primeiro mandato de Trump, o que significa que o triunfo político dos Musks deste mundo favorece alguma consciência crítica do capitalismo – da mesma forma que o genocídio que os israelitas praticam impunemente na Palestina ou o desvario belicista a que assistimos nos últimos anos está a exigir voltar a discutir o que é o imperialismo e o belicismo como lógicas de governo mundial.

Desengane-se quem julgava que isto era tudo deles e que a esquerda desapareceu do horizonte de futuro.

2026 07 28 

quinta-feira, 30 de julho de 2026

A América que é grande


Vistos deste lado da luta de classes, os 250 anos dos EUA contam uma his­tória de opressão, guerra e de­si­gual­dades. Nas úl­timas muitas dé­cadas, a prin­cipal po­tência im­pe­ri­a­lista do mundo re­pre­sentou, como ainda re­pre­senta, o grande ad­ver­sário das forças da paz, da de­mo­cracia e do pro­gresso so­cial. Mas, se­jamos justos, também ali há – sempre houve! – quem tenha to­mado par­tido pelos que todos os dias lutam pela so­bre­vi­vência e a dig­ni­dade, por quem menos tem, pelos povos opri­midos e agre­didos.

Era norte-ame­ri­cano o cam­peão de boxe Muhammad Ali, que se re­cusou a matar os seus “ir­mãos” vi­et­na­mitas, pois par­ti­lhavam um ini­migo comum – e foi por isso cas­ti­gado e im­pe­dido de de­fender o tí­tulo mun­dial. Como também o era o cantor Paul Ro­beson, que con­fessou ter sido na União So­vié­tica a pri­meira vez que não se sentiu ví­tima de ra­cismo e co­locou a sua mag­ní­fica voz ao ser­viço da paz e dos di­reitos dos povos (a sua in­ter­pre­tação das can­ções da Guerra Civil de Es­panha, num Con­gresso Mun­dial da Paz, emo­ciona).

Eram na­tu­rais dos EUA os mem­bros do Ba­ta­lhão Abraham Lin­coln, que atra­ves­saram o Atlân­tico para in­te­grar as Bri­gadas In­ter­na­ci­o­nais que tra­varam ao lado dos re­pu­bli­canos es­pa­nhóis uma ba­talha de­ci­siva contra o fas­cismo – e muitos por lá fi­caram, mortos. Nas­cido em Oklahoma, Woody Guthrie exaltou os de­ser­dados da Grande De­pressão e cantou um país que de­veria ser para todos, em­pu­nhando a sua gui­tarra – essa má­quina que, avi­sava, “mata fas­cistas”. É também pro­fun­da­mente norte-ame­ri­cano Tom Joad, o per­so­nagem de “As Vi­nhas da Ira”, obra-prima de Stein­beck, que ins­pirou cada luta pelo pão e pela jus­tiça num país di­la­ce­rado pela de­si­gual­dade so­cial e ra­cial.

Era norte-ame­ri­cano o jor­na­lista John Reed, que como ne­nhum outro re­latou ao mundo as epo­peias re­vo­lu­ci­o­ná­rias do Mé­xico in­sur­recto e da Rússia bol­che­vique, com a qual se man­teve so­li­dário até ao fim pre­coce da sua vida, pe­rante a in­vasão de 14 po­tên­cias es­tran­geiras, entre as quais os EUA. Tal como o eram Har­riet Tubman e Fre­de­rick Dou­glass, an­tigos es­cravos que de­di­caram as suas vidas a com­bater a es­cra­va­tura e a apoiar os que não ti­veram as mesmas pos­si­bi­li­dades de eman­ci­pação.

Outro norte-ame­ri­cano, o ve­te­rano da Guerra Civil Henry Reeve, vi­ajou para Cuba para com­bater ao lado dos pa­tri­otas que no sé­culo XIX lu­tavam contra o do­mínio es­pa­nhol, luta essa que via como uma ex­tensão da sua pró­pria, contra a es­cra­va­tura (de origem ir­lan­desa, opunha-se também ao co­lo­ni­a­lismo). Nas fi­leiras do exér­cito re­belde cu­bano, Henry Reeve atingiu o posto de Bri­ga­deiro-Ge­neral antes de morrer em com­bate. Mais de um sé­culo pas­sado, a Re­vo­lução cu­bana honrou o herói in­ter­na­ci­o­na­lista dando o seu nome ao Con­tin­gente Mé­dico In­ter­na­ci­onal es­pe­ci­a­li­zado em si­tu­a­ções de emer­gência na­tural e sa­ni­tária.

Esta Amé­rica sim, é grande!

Avante n.º 2748 (30/07/2026)

quinta-feira, 4 de junho de 2026

Jaime Nogueira Pinto - "O Fascismo nunca existiu"

Apesar do anti-parlamentarismo, do anti-comunismo e de algum folclore de “militarização da política”, nem o 28 de Maio, nem a Ditadura Militar, nem o Estado Novo foram fascistas.

04 jun. 2026, 00:24

* Jaime Nogueira Pinto

On est toujours le fasciste de quelqu’un”, escrevia o autor de Qu’est-ce-que le fascisme?, Maurice Bardèche, esse sim, um fascista assumido. Mas há que ter algum rigor.

O regime trazido pelo movimento militar do 28 de Maio de 1926, que há uma semana fez cem anos, não foi um regime fascista. Esclareço que o meu intuito não é “branquear” (como agora se diz) o Estado Novo – que, não sendo fascista, podia até ter sido pior que o fascismo em brutalidade e violência. É só mais uma tentativa de trazer algum rigor a um espaço em que reina a confusão, ora pela má-fé dos que sabem e fazem de conta que não sabem, ora pela ignorância ou desinformação da maioria.

Depois de 1945, o adjectivo “fascista” passou a ser um insulto na linguagem política corrente. Tanto assim foi que, na esquerda maoista e trotskista dos anos 1960, os comunistas soviéticos passaram a “fascistas” ou a “sociais-fascistas”; e também nunca faltaram nem faltam direitistas a chamar “fascistas” aos esquerdistas mais radicais, incluindo aos comunistas, pensando estar, com isso, a prestar um grande serviço à pátria.

A prova de que a esquerda continua vitoriosa na batalha das palavras é o facto de “comunista” não ter o mesmo poder de insulto, apesar de o comunismo deter o recorde das matanças políticas do século XX, com os Estalines, os Maos, os Pol Pots, os Mengistus e outras glórias e referências do comunismo internacional.  Para se medir com eles em criminalidade política só mesmo Adolfo Hitler, que, de resto, encarnou uma deriva de racismo biológico alheia à “doutrina do fascismo”.

A guerra civil europeia

Ao criar, em Outubro de 1917, um regime que implantou a “luta de classes” e o conceito de “inimigo do povo”, à sombra dos quais se criou na Rússia um “terror vermelho” e consequentemente um “terror branco”, o comunismo acabou por desencadear em muitos países europeus a supressão das instituições liberais em crise.

Foi também para responder ao perigo comunista que, em Outubro de 1922, Mussolini e os seus “camisas negras” fizeram a “marcha sobre Roma”, e que o Rei nomeou o “Duce” do fascismo chefe do governo. Uma das instituições de base do fascismo, como do comunismo, é o partido. Nos Estados ideológicos, o Partido comanda a Administração Pública. Mussolini era chefe do governo porque era líder do Partido Nacional Fascista, que adoptava uma ideologia económica e socialmente revolucionária, indissociável do paganismo e da crença num mítico “homem novo”. A infeliz entrada da Itália na guerra em 1940, pressionada pelo Partido, estava também integrada numa cultura futurista que via a violência como força transformadora e a guerra como “higiene do mundo”, perfilhando um nietzscheano “viver perigosamente”.

O 28 de Maio, a Ditadura Militar e o Estado Novo, além do que pudessem ter em comum com o fascismo – o nacionalismo, o autoritarismo, o iliberalismo, o anticomunismo –, eram diferentes. Eram conservadores, religiosos e o seu antiparlamentarismo não era dogmático, mas fundado na experiência histórica da Primeira República. Salazar era um conservador, que não gostava do “viver perigosamente” de Nietzsche e dos fascistas; preferia, como diria a Henri Massis, o “viver habitualmente” de alguns estoicos e da esmagadora parte do povo. Dava-se também que o partido político-institucional de Salazar não era a União Nacional, uma organização que, para ele, tinha só a utilidade instrumental de seleccionar, sob sua aprovação, os candidatos à Assembleia Nacional e à presidência da República.

O Exército e Salazar

O partido único e árbitro constituinte do Estado Novo não era a União Nacional, era o Exército. Por isso o regime caiu pela mão do Exército.

A verdade é que o regime português teve como líder um homem sem partido e que não gostava de partidos, um académico tecnocrata cujas ideias provinham de várias raízes e caudais, mas onde não se vislumbrava o nacionalismo revolucionário fascista, nem o desejo, também fascista, de mobilizar as massas populares na construção de um Estado paratotalitário e social.

O que há em Salazar é um pessimismo antropológico augustiniano, uma visão conservadora e crítica da História e da Vida, com uma hierarquia de valores políticos onde a nação – e o Estado como “nação politicamente organizada” – surgem à cabeça. A sua formação intelectual tem o seu quê de “afrancesado” – Charles Maurras, Gustave le Bon, Maurice Barrès, Paul Bourget – e é inseparável do catolicismo social. Mas baseia-se, acima de tudo, na experiência negativa da Primeira República, das suas fraudes, da sua instabilidade, da sua incoerência entre os princípios proclamados e a política praticada.

Foi esta democracia que os militares do 28 de Maio derrubaram há um século, data que coincidiu com a aparatosa entrada da Polícia Judiciária na sede do Partido Socialista e na detenção de alguns dos seus distintos militantes (totalmente alheios ao partido, dizem-nos, a não ser pelo facto de estarem nele inscritos e de, nessa qualidade, exercerem cargos de confiança).

A cabala

Alguns dirigentes e militantes socialistas viram na incursão policial uma provocação fascisto-salazarista: por que outra razão teria a Judiciária escolhido o 28 de Maio, e logo no ano do centenário do início de “uma das épocas mais negras do nosso país”, senão para enxovalhar o Partido Socialista, ferindo-o na sua sede, santuário anti-fascista por excelência? Só porque militantes contratavam empresas dos seus camaradas para prestar serviços às autarquias onde estavam? E que tinha o Partido que ver com isso?

Não, a Judiciária viera propositadamente ao Largo do Rato com todo o aparato para evocar Gomes da Costa a marchar sobre Lisboa para correr com os Democráticos. E como não ver naqueles polícias PIDES, prontos a conspurcar, sem mandato judicial, um idóneo e idoso lar de antifascistas?

E quanta pequenez! Tanto aparato para dois milhões? O que eram dois milhões, conseguidos em circuito fechado entre companheiros do PS, comparados com os muitos milhões do grande Zapatero, negociados no mercado negro da alta política na China e na Venezuela?

Aqui, onde os verdadeiros fascistas acabaram na oposição

Há cem anos, a maior parte dos regimes iliberais europeus, nascidos de ditaduras militares com recurso ao “estado de excepção”, perante a disfuncionalidade do parlamentarismo liberal e a radicalização das sociedades à esquerda e à direita, tiveram características autoritárias e nacional-conservadoras.  Mas não foram “fascistas”, como tantas vezes são qualificados.

Esta desclassificação não é, insisto, uma forma de tornar os regimes mais benévolos em matéria, por exemplo, de direitos humanos. O nacional conservadorismo húngaro do almirante Horthy foi, em termos de repressão, mais brutal do que o fascismo mussoliniano, até à queda do Duce em Julho de 1943, ao perder a votação no Grande Conselho Fascista. De resto, o fascismo coexistiu com a monarquia dos Sabóia e Mussolini abandonou o poder quando o Rei o demitiu.

Além de um certo folclore de um tempo que era, à esquerda e à direita, de “militarização da política” – nos hinos, nas marchas, nas camisas (negras, castanhas, verdes, azuis ou vermelhas) e nas saudações (do braço ao alto à romana ao punho fechado) – o regime português, apesar de assentar no anti-parlamentarismo e no anti-comunismo, não foi fascista.

Entre 1926 e 1974 houve em Portugal ditadura, censura, repressão, polícia política, anti-parlamentarismo, anti-liberalismo, anti-comunismo? Com certeza que houve. Mas houve fascismo? Não, não houve. Houve uma tentativa fascista ou fascizante, com o nacional sindicalismo de Rolão Preto. E também houve, no “regime fascista”, personalidades verdadeiramente pró-fascistas, como os capitães Henrique Galvão e Humberto Delgado. Acabaram todos na oposição. 

https://observador.pt/opiniao/o-fascismo-nunca-existiu/

Jaime Nogueira Pinto - O 28 de Maio de há um século

Jaime Nogueira Pinto

Indiferentes à agonia de uma República Democrática a que deviam muito pouco, as massas trabalhadoras acabariam colaborar, por acção ou inacção, com os militares da Revolução de Maio.

28 mai. 2026

Há cem anos, deu-se em Portugal um movimento militar por iniciativa de jovens oficiais – capitães e tenentes da guarnição militar de Braga – a que a presença e a voz do general Gomes da Costa emprestaram respeitabilidade institucional. Gomes da Costa foi levado de Lisboa a Braga por um grupo de militares e civis de que faziam parte os tenentes Armando Pinto Correia e João Pereira de Carvalho e os civis Luís Charters de Azevedo e João da Silva, que conduzia o Cadillac.

Braga era a sede da 8ª Divisão do Exército, cujos quadros médios estavam mobilizados para iniciar a revolução. O golpe vinha pouco mais de um ano depois da chamada “revolta dos generais”, que acontecera em Lisboa entre 18 e 21 de Abril de 1925, uma conjura falhada em que tinham participado os generais Gomes da Costa, ex-Comandante do Corpo Expedicionário Português (CEP), e Sinel de Cordes, ex-Chefe de Estado-Maior do CEP na Flandres, apesar de o verdadeiro mentor e alma da revolta ter sido o coronel Raul Esteves.

A República jacobina

Com um record de governos sem precedentes – 45 em 16 anos –, a Primeira República caracterizou-se pela instabilidade e pela quantidade de golpes e confrontos militares. Apesar de ser democrática – ou talvez por isso –, não escapou ao monopólio mais ou menos continuado de uma facção do Partido Republicano Português, a facção jacobina de Afonso Costa, conhecida por “os democráticos”. Costa e os seus copiavam os radicais jacobinos franceses de Émile Combes, que tinham encarnado a política anti-católica em 1905-1906, nacionalizando os bens da Igreja, expulsando as congregações religiosas, usando os jornais para apresentar a Igreja Católica e os fiéis como inimigos da Razão, da Ciência, do Progresso e da Liberdade.

Afonso Costa e os principais dirigentes “democráticos” perseguiram a Igreja e os monárquicos, reprimindo, prendendo e exilando centenas de “inimigos do povo” e fixando-lhes arbitrariamente residência nas colónias. Os jesuítas, como era da praxe, serviram de “bode expiatório” e foram expulsos do país. Bispos e até o cardeal-patriarca de Lisboa, D. António Mendes Belo, foram forçados ao exílio.

Mas a repressão não se ficou pelos conservadores, os da direita. À esquerda, o movimento sindical e os “avançados” também foram perseguidos, as greves reprimidas a tiro pela GNR, os dirigentes enviados administrativamente para o degredo. De certa forma, Afonso Costa e os “democráticos”, apesar do seu posicionamento bem à esquerda, procuraram aparecer como um “centrão” entre extremos, não se inibindo, para tal fim, de usar meios extremistas.

Por isso, além de combaterem as incursões monárquicas de Julho de 1911 e de Julho de 1912, enfrentaram a efémera “ditadura” de Pimenta de Castro, de Janeiro a Maio de 1915. Em Dezembro de 1917, veio o bem-sucedido golpe militar de Sidónio Pais, o “presidente-rei” de Fernando Pessoa que, como D. Carlos, foi assassinado, confirmando uma prática enraizada na esquerda portuguesa: o recurso a formas superiores de luta em caso de necessidade.

A seguir ao sidonismo veio a monarquia do Norte, contra a qual se reuniram “democráticos” e “avançados” pela última vez. Em Outubro de 1921, depois da queda do governo de António Granjo, deu-se a tenebrosa Noite Sangrenta (19-20 de Outubro de 1921); a noite em que, à soviética, os guardas republicanos e os marinheiros em revolta assassinaram republicanos conservadores ou contrários aos “democráticos”, entre eles o próprio Granjo e o herói do 5 de Outubro, Machado Santos.

O Zeitgeist europeu

Dera-se, entretanto, a revolução soviética e, por toda a Europa, o medo do comunismo trouxe uma série de movimentos iliberais de contenção do radicalismo violento da esquerda. A maioria destes movimentos, quer na Europa Oriental, quer em Espanha, foram de natureza nacionalista e conservadora. A excepção foi o fascismo italiano, que chegou ao poder em Outubro de 1922 como expressão de uma “direita revolucionária”, corporativa, intervencionista e monopartidária. A maioria dos movimentos autoritários, embora partilhando com os fascistas o nacionalismo, o anti-parlamentarismo e o anticomunismo, tinham na base militares, como Primo de Rivera em Espanha, o almirante Horthy na Hungria e o general Pilsudski na Polónia, que ali tomou o poder em meados de Maio de 1926, dias antes do 28 de Maio.

Em Portugal também foi assim: o 28 de Maio partiu de Braga contra “uma minoria devassa e tirânica” – como diria Gomes da Costa no seu manifesto à Nação. Era a classe política, os “democráticos” que, na falta de Afonso Costa, que ficara por Paris depois da guerra, eram dirigidos por António Maria da Silva, engenheiro de Minas pela Escola do Exército, e dirigente da Alta Venda Carbonária, organização secreta fundada por Luz de Almeida e muito importante no activismo anti-monárquico.

A tripartição fatal

Os anos finais da República tinham sido de contínua agitação (mais de 150 greves, mais de 300 bombas em Lisboa), com três forças políticas em luta – a oposição conservadora católica, monárquica e nacionalista, o poder republicano dos “democráticos” e a nascente esquerda radical, os “avançados”, “vermelhos” ou “comunistas”. O partido comunista foi fundado em 6 de Março de 1921, dois anos depois da criação da III Internacional dos bolcheviques. Ao contrário do que acontecia em França e em Itália, em Portugal os comunistas não vinham de uma dissidência socialista, mas do meio anarco-socialista operário. Como escreve Pacheco Pereira, o PCP inicial era um “partido de caixeiros, arsenalistas, funcionários públicos, alfaiates e ferroviários”.

Mas o PCP era então, e iria ser até ao fim da URSS, um partido obediente a Moscovo e ao internacionalismo proletário. Assim, as notícias do progressivo centralismo soviético e da liquidação, na Rússia, dos militantes anarquistas pela “troika” Estaline, Zinoviev e Kamenev, da mesma forma brutal usada contra os “brancos”, os “burgueses” e os “inimigos do povo”, levariam a uma forte desconfiança no movimento operário português em relação aos comunistas.

De qualquer modo, as massas trabalhadoras vão ser indiferentes à agonia da República Democrática, o fim de um regime que piorara a situação económica do país, não alargara, antes restringira, o sufrágio e mantivera o analfabetismo nos 70%. Por isso, vão tolerar ou mesmo colaborar com os militares revoltados – não houve qualquer sabotagem dos ferroviários aos comboios que transportaram os cerca de 15.000 homens das divisões sublevadas até Sacavém para o desfile da vitória de Gomes da Costa, do Campo Grande aos Restauradores, em 6 de Janeiro de 1926.

O partido (militar) do Estado Novo

É neste acampamento de Sacavém que vão funcionar, por algum tempo, os “sovietes” de tenentes e capitães que, numa antecipação do Movimento das Forças Armadas de 1974, dominaram a primeira fase da ditadura militar.  E que vão purgando os chefes: primeiro, Mendes Cabeçadas, o marinheiro anti-“democráticos”, herói do 5 de Outubro; depois, Gomes da Costa, exilado para os Açores em 11 de Julho, com a família. Vão ficar Carmona – oficial diplomata, prudente, mais de salão do que do terreno – e Sinel de Cordes, éminence grise que, apesar dos esforços, não vai conseguir resolver o problema central do governo: a crise financeira.

Como em todos os governos da direita iliberal europeia, o congelamento das instituições parlamentares viera a par do apelo às “competências técnicas” fora da política. Foi perante a paralisia institucional, a instabilidade do parlamentarismo e o perigo que vinha da Eurásia bolchevique que há um século, nesses outros anos vinte, metade da Europa recorreu à “ditadura comissarial”, em estado de excepção.

Aqui a diferença foi o tecnocrata das Finanças, que além das “competências técnicas” requeridas, tinha pensamento e valores políticos e estava disposto a aplicar-se, com inteligência, vontade e realismo, na estabilização e reforma do país. E fê-lo num contrato implícito com o Exército, que seria o poder constituinte do seu consulado. O Estado Novo vai ser, à sua imagem, um Estado de ordem, nacional-conservador e autoritário, que proíbe os partidos políticos, institui a censura prévia e mantém uma polícia política.

A esquerda unida e o centrão querem hoje convencer-nos, em estudos orientados e filmes encomendados e subsidiados, que o Estado Novo foi só isso: Salazar, a PIDE, a Censura, o Tarrafal; e que as obras públicas, a segunda industrialização e a modernização, ou não aconteceram ou foram conquistas de Abril. Que Salazar manteve Portugal fora da Segunda Guerra Mundial e reduziu drasticamente o analfabetismo (em 1940, pela primeira vez em Portugal, havia mais gente que sabia ler e escrever do que analfabetos), apesar de serem factos inegáveis, tendem a chumbar nos actuais polígrafos.

Nos anos 50 – não porque fosse, como os primeiros republicanos, um “africanista” ou um “colonial” –, Salazar não seguiu a vaga descolonizadora europeia. Entendia que o império ultramarino era essencial para independência e para importância política de Portugal. Tal levou a que o poder militar se viesse a sublevar – primeiro numa revolta de generais, em Abril de 1961, que Salazar foi capaz de desmontar e vencer; depois, já com o seu sucessor, numa revolta de capitães, em Abril de 1974.

Salazar criara um regime à sua medida, que funcionava, essencialmente, com ele e só com ele, com a sua inteligência e, sobretudo, com a sua vontade e decisão. Um regime que não sobreviveria nem a um tempo em que já se esvaíra a memória da “balbúrdia sanguinolenta” que levara ao 28 de Maio, à ditadura militar e depois ao Estado Novo, nem ao seu sucessor, a quem não faltava a inteligência, mas a quem faltaram o tempo e o modo – a conjuntura, a vontade e a decisão.

https://observador.pt/opiniao/o-28-de-maio-de-ha-um-seculo/

quinta-feira, 28 de maio de 2026

Raquel Varela - 100º aniversário do 28 de Maio de 1926

 * Raquel Varela

Afinal, o que representou o golpe de 28 de maio de 1926? Como este dia, que deu início à mais longa ditadura da Europa, nos ensina a olhar o regime hoje?

Portugal teve desde 1890 um dos principais e mais bem organizados movimentos sindicalistas revolucionários do mundo (a par do norte-americano, italiano, francês e claro, espanhol – era um movimento ibérico). Depois da crise de 1929 e a ameaça revolucionária em Espanha nos anos 1930, o regime torna-se abertamente fascista.

A incapacidade de estabilizar o país para a acumulação de capital no quadro da fase imperialista – a criação de monopólios como condição de existência da burguesia portuguesa no mercado mundial, ou seja, como condição de existência da própria burguesia nacional – vai levar um sector importante desta classe a abdicar do poder político-institucional a partir de 1926, para manter o poder económico-social, ensaiando um clássico regime bonapartista, suprimindo o Parlamento – a Ditadura Militar.

Entre 1926 e 1933, houve uma compreensão clara por parte da maioria dos setores da burguesia portuguesa de que a modernização capitalista e a acumulação de capital, baseada, na metrópole, no “trabalho barato” (assente na proibição de sindicatos e partidos políticos livres) e, nas colónias, na primazia do trabalho forçado, não poderiam ocorrer sob regime democrático, porque, já no século XX, se dá a par da emergência de um novíssimo sujeito social: o moderno proletariado.

O pronunciamento militar deu-se durante um Congresso Mariano em Braga, cidade ultracatólica. Seguindo o figurino da Europa do Sul, veio de fora da capital.

Se a República teve como mote inicial uma unidade contra a monarquia, a ditadura que se instalou dispôs-se, sobretudo, a derrubar a República e seus aliados. Os protestos contra a “partidocracia”, a “balbúrdia” parlamentar, a “instabilidade” governativa, a crise das instituições e a “agitação social” operária, assumem a forma de putsch. Os golpistas são, à proa, Mendes Cabeçadas e Gomes da Costa.

O golpe de 28 de maio de 1926, que inicia a ditadura militar, não é inesperado. A República burguesa tinha sido brutal contra o movimento operário, que, mesmo assim, resistia. Além das prisões, das perseguições, dos batalhões antigreve ou do vagão-fantasma, o ambiente anticomunista, incentivado pelo culto mariano contra a URSS – as “aparições” de Fátima, em 1917, aos três pastorinhos –, abre a via para a ditadura que se segue.

Como lembra César Oliveira: “Todo o período que vai desde o fim da Primeira Guerra Mundial até 1927-1928 é, de facto, muito marcado por uma constante: o apelo sistemático à salvação do país, quer dos desmandos da “ordem republicana”, quer dos eventuais perigos da revolução social”. O “anticomunismo” é a argamassa da contrarrevolução.

Contexto internacional da Ditadura Militar

Não se pode compreender a vitória da contrarrevolução (militar ou fascista) sem compreender o destino da revolução russa, a derrota da revolução alemã e da revolução europeia no início da década de 1920, concomitantes com o boom económico desses anos, “os loucos anos 20”, e a vitória da contrarrevolução estalinista, depois de 1927.

Gramsci sintetizará o fascismo em três dimensões: i) como a ideologia que pretende eliminar o conflito social e unificar a nação como um todo, ii) como uma forma de dominação da transição histórica da sociedade camponesa-industrial para a sociedade industrial de massas e iii) como o produto de uma época histórica de crise orgânica do capitalismo.

Primo de Rivera liderará a Espanha com mão de ferro entre 1923 e 1930, e fundará o novo partido fascista espanhol, a Falange, em 1933. Entre 3 e 12 de maio de 1926, ergue-se com uma força inédita desde as lutas cartistas, em Inglaterra, o movimento social e operário inglês numa greve geral. As classes dominantes foram obrigadas a aceitar, a contragosto, uma aliança entre o Partido Trabalhista e a burguesia para esquivar os efeitos da greve geral de 1926, que começara pela exigência de aumentos salariais para os mineiros, mas tomara proporções insurrecionais, ao atingir 1,7 milhões de trabalhadores em todo o país e envolver estivadores, transportes, etc.

À semelhança de outros países, casos da Alemanha e da Itália, de tardia unificação, que irão constituir as forças do Eixo na Segunda Guerra Mundial, a tardia “democratização liberal” do país leva a que, quando é feita, o proletariado – organizado nas correntes anarcossindicalistas e comunistas, além das socialistas – já tenha expressão suficientemente importante para impedir a estabilização do capitalismo e garantir as taxas de lucro almejadas.

É bonapartista a forma do encerramento do Parlamento, a 31 de maio do mesmo ano; a formação de um novo governo dominado pelos militares (de “salvação nacional”); a forte coerção armada contra os opositores, condenados, sem julgamento, ao desterro para as colónias. As greves operárias e manifestações públicas são proibidas em todo o território. Toda a oposição é fortemente reprimida – a começar pelas revoltas do reviralhismo, republicanas e democráticas. A maçonaria será proibida em 1935.

Após o golpe de Estado, funda-se a Polícia de Segurança Pública (PSP), depois do reordenamento do corpo de polícia cívica de Lisboa e Porto. No mês seguinte é instituída a censura à imprensa. As sedes do PCP são encerradas no Porto e em Lisboa. A Confederação Geral do Trabalho (CGT) é posta na ilegalidade. Dá-se então uma contrarreforma do sistema de educação pública, com a redução do ensino primário de seis para quatro anos.

Em 1928, promulga-se um novo “Código de Trabalho” para os autóctones das colónias portuguesas em África. O documento baseava-se no pressuposto “civilizatório” do trabalho indígena, obrigando ao trabalho, que deveria também prover interesses “públicos”. Fundar -se -á a Polícia de Informação do Ministério do Interior. A 27 de abril de 1928, Oliveira Salazar tomará posse como o novo ministro das Finanças, iniciando a austeridade, liderando o início da mais longa ditadura da Europa Ocidental no século XX. Após a crise de 1929, a burguesia acumula forças que levam à instituição do “Estado Novo”. Com as exportações, fonte central de receita, em queda, o ministro Oliveira Salazar começa um pacote de medidas restritivas, com severos cortes orçamentais, inaugurando uma verdadeira “política de austeridade” no país.

Qual regime?

Mas afinal o que é o regime republicano, entre a monarquia constitucional finda em 1910 e a Ditadura Militar de 1926? É, na síntese de César Oliveira, “um avanço limitado, de carácter não estrutural, no ciclo das transformações burguesas que desde 1820 tiveram lugar na sociedade portuguesa”.

Não houve resistência de vulto do movimento operário ao golpe de 28 de maio de 1926. Exaurido por anos e anos de repressão na Primeira República, logra tornar a República ingovernável, mas não consegue candidatar-se a governá-la ele.

A repressão durante a República, fundamentalmente dirigida contra o movimento operário, tem traços claramente bonapartistas, e que não se resumem às ditaduras de Pimenta de Castro (1915) ou Sidónio Pais (1917-1918). Os republicanos obtiveram o consentimento operário, mas pouco ofereceram aos trabalhadores além da coerção. Houve violência contra o clero, sobretudo os jesuítas, “nunca contra os detentores da propriedade, facto perfeitamente natural dado o Partido Republicano não ser, na sua composição social, muito diverso dos partidos monárquicos”.

A República decapitou as suas tropas, os artesãos da Carbonária, os operários de Alcântara, para finalmente parte das suas frações se reorganizarem em torno da Ditadura Militar e depois no Estado Novo e, aí sim, criarem uma coisa e o seu contrário – os monopólios e o proletariado, que saiu das Beiras para a Lisnave, da aldeia nativa para as plantações da Cotonang, como trabalhadores forçados, em Angola.

Raquel Varela e Roberto Della Santa trecho da nossa Breve História de Portugal (Bertrand). Todas as referências estão no livro

 

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Henrique Raposo - Comunista do interior

* Henrique Raposo

Os doutores do partido, como Cunhal e Urbano, estavam numa situação de conforto, nas praias do mar Negro, enquanto que os comunistas do interior apanhavam da GNR e da PIDE

A tortura é um momento que nos deixa desarmados, dilui as ideologias, humaniza inimigos. Um fascista não deixa de ser fascista só porque foi torturado, mas o seu sofrimento humaniza-o aos nossos olhos e ouvidos: o grito de dor de um fascista é igual ao grito de dor de um democrata. Passa-se o mesmo com um comunista: ele não deixa de ser um inimigo da democracia, mas a tortura que sofreu humaniza-o e até cria um manto acrítico à sua volta, porque na verdade somos todos praticantes de uma vulgata cristã que adora mártires e que assume — erradamente — que o sofrimento santifica, no máximo, ou que cria carácter, no mínimo. Não, não. A tortura ou qualquer outro episódio deste calibre não dá razão nem moral a ninguém. O sofrimento não purifica, nem é livro de autoajuda. Trump não deixa de ser um perigoso quase-fascista só porque já sofreu duas tentativas de assassínio; o rosto rasgado pela bala não lhe dá razão; pensar o contrário é entrar no campo do culto irracional. E, sim, os fiéis trumpistas veem na cicatriz um sinal de superioridade moral de Trump. O comunismo dependia da mesma irracionalidade. Basta olhar para a experiência comunista portuguesa. Como alguns tinham sido torturados pela PIDE, nós sentíamos quase uma obrigação moral de lhes dar razão e até superioridade moral à partida, mesmo antes de qualquer discussão, mesmo quando eles defendiam absurdos antidemocráticos e antidireitos humanos. Aliás, a III República foi fundada neste pressuposto sobretudo a partir do 25 de Novembro: eles, os comunistas, não ficaram com a organização política, mas ficaram com a superioridade moral. E de facto era muito difícil contrariar, por exemplo, um velho comunista alentejano que se imortalizou da seguinte forma: é apanhado pela PIDE com um saco de jornais clandestinos; é levado para os calabouços, vai ser torturado para denunciar os colegas; antes mesmo de qualquer palavra ou ação do pide, ele coloca a mão em cima da mesa e diz: “Vá, podes parti-la à vontadinha que eu não vou falar!” Eu odiava o que ele, o velho comunista, defendia politicamente, mas moralmente era impossível não sentir um certo temor perante este porte. Ou seja, a montante, a parte emocional do meu cérebro respeitava o seu sofrimento crístico, mas a jusante a parte racional não podia aceitar o que ele defendia para a democracia, porque na verdade não queria uma democracia.


Carlos Brito (1933-2026)António Pedro Ferreira

É por isso que eu via em Carlos Brito (1933-2026) alguém especial. Enquanto operacional comunista, Carlos Brito foi torturado pela PIDE, mas — pelo menos no que li e ouvi — Brito não usava esse episódio para criar uma presunção de superioridade moral sobre os outros. O que ele dizia não devia ser aceite no presente com base nesse sofrimento passado; a tortura não é uma carta-branca. O que ele dizia devia ser avaliado pela validade ou invalidade dos seus argumentos, que eram ditos em pé de igualdade com os outros. É por isso, de resto, que Carlos Brito, com o tempo, democratizou o seu pensamento. Sem nunca deixar de ser comunista no sentido mais lato, Brito abandonou a seita irracional que se chama PCP. A essência do PCP e da extrema-esquerda é a ideia da superioridade moral dos comunistas — tese, aliás, defendida em livro por Cunhal; tese, aliás, incompatível com a democracia e por isso contestada por todos os dissidentes comunistas como Brito ou Zita Seabra.


A forma abjeta com que o PCP despreza agora Carlos Brito na hora da sua morte diz tudo sobre a amoralidade leninista da agremiação. É uma enorme ironia do destino: Carlos Brito é mais respeitado da hora da sua morte por democratas de direita do que pelo PCP e pela extrema-esquerda. E saliente-se que Carlos Brito não passou a ser persona non grata na extrema-esquerda só porque passou a acreditar de facto na democracia e — muito antes da ‘geringonça’ — numa aliança de esquerdas dentro da democracia. Não, não. O PCP passou a desprezar Carlos Brito por causa do que ele defendia para o futuro, sim, mas o motivo fundamental do repúdio está naquilo que Brito dizia sobre o passado de Cunhal.

14 maio 2026

https://expresso.pt/opiniao/2026-05-14-comunista-do-interior-a3a58ca3

Vasco Cardoso - A água suja do anti-comunismo

* Vasco Cardoso

Membro da Comissão Política do Comité Central do PCP

Apesar de tanta sentença de morte, de tanto silenciamento e deturpação, de tanta “irrelevância” com que a maioria dos comentadores hoje o tratam, apesar de tudo isto, o PCP e o projecto comunista continua a estar no centro dos grandes debates e das lutas

Perdi a conta à rajada de artigos contra o PCP que foram publicados no seguimento da morte de Carlos Brito. À diversidade de autores – na maioria dos casos repetentes neste tema -, não correspondeu propriamente diversidade de argumentos, quanto muito a disputa por ver quem é que adjectivava de forma mais grotesca, quem fazia a melhor caricatura dos comunistas e do seu Partido. É nessa disputa que o artigo de Henrique Raposo se destaca. Pelo nível do insulto, pelo ódio incontido e, sobretudo, pela mentira grosseira e delirante, que nos vai tomando conta dos dias e que está para lá de Trump ou Ventura, como se sabe e se vê.

Como outros, HR julgou estar perante uma boa oportunidade para dar lastro ao seu anti-comunismo. É uma espécie de obrigação moral que assume e que tem estado presente em muitos dos seus textos. Compreende-se que assim seja, não é fácil viver do que se escreve... “Comunista do interior” - é este o título do artigo – é assim uma espécie de roteiro pelos mais primários preconceitos. Lá encontramos muito do que se destila por aí: comunismo igual a fascismo; comunismo depende da “irracionalidade“; o PCP queria substituir uma ditadura por outra ditadura; comunista bom é um ex-comunista.

Mas onde a mentira se junta com o delírio é quando HR passa à reescrita da história. É aí que HR se superioriza a intelectuais da estirpe de José Milhazes, numa espécie de vale tudo. As teses, mais coisa menos coisa, são estas: Álvaro Cunhal “não queria o 25 de Abril” e tudo fez para o “travar”, ao contrário de CB; AC e outros dirigentes do PCP que se encontravam no exílio (“parisiense”) durante o fascismo vivia no bem bom e “não conhecia o País”, ao contrário de CB que vivia na clandestinidade (no “interior”) e enfrentava a PIDE, pois claro!

HR estará convencido de que a distância temporal que nos separa da Revolução de Abril, somada às sucessivas campanhas contra o PCP (mais uma!) e ao processo de reescrita da história - que visa transformar os fascistas em democratas e os comunistas em inimigos da democracia -, serão suficientes para que as suas mentiras ganhem asas nestes tempos de “pós-verdade”. Mas a consistência dos “argumentos” é tão miserável, tão distante da memória e experiência concreta de milhões de portugueses que corre o risco de se virar contra o próprio autor. Como é comum e recorrente em muitos destes anti-comunistas primários aí está a tentativa de credibilizar o seu texto, invocando ser neto de um membro do PCP. Como se isso lhe desse autoridade suficiente (a ele, ou alguém) para fazer passar o seu contrabando ideológico.

É claro que HR sabe que está a mentir com quantos dentes tem na boca. Um partido que lutou ao longo de 48 anos para derrotar o fascismo, fê-lo para tornar possível o 25 de Abril, não para o impedir, como insinua HR. Um partido que, perante assassinatos, prisões, tortura e mil tentativas de liquidação, colocou alguns dos seus principais quadros no estrangeiro, fê-lo, não por privilégio de alguns, mas como forma de defender o Partido da acção repressiva do fascismo e da PIDE. Um Partido cujos dirigentes e militantes vieram das fábricas e dos campos, que passaram anos a fio nas prisões fascistas, que calcorrearam o País de lés-a-lés, que viviam com as mesmas dificuldades com que vivia a maioria da população, que tinham profunda ligação a sectores intelectuais, não é um partido que desconhecia a realidade, mas aquele que mais profundamente nela tinha mergulhado, facto que poderá ser confirmado na vida e na imensa obra teórica de AC.

Mas não é só, nem fundamentalmente, o passado do PCP que incomoda HR. Quanto muito, dificulta-lhe a vida. O que incomoda verdadeiramente HR é o que o PCP representa hoje, o que o seu ideal e projecto significam no presente e para o futuro. Apesar de tanta sentença de morte, de tanto silenciamento e deturpação, de tanta “irrelevância” com que a maioria dos comentadores hoje o tratam, apesar de tudo isto, o PCP e o projecto comunista continua a estar no centro dos grandes debates, e das lutas, que se travam na nossa sociedade.

O que incomoda é o facto do PCP estar ao lado dos trabalhadores quando lhes querem impingir o Pacote Laboral, é a denúncia do sórdido negócio dos grupos privados que ameaça destruir o SNS, é o combate às privatizações e ao domínio do capital estrangeiro sobre a economia nacional, é a defesa dos interesses de Portugal perante imposições de Washington e Bruxelas, é luta pela paz quando muitos se deixam seduzir pelos tambores da guerra. E é a sua acção prática, quotidiana, aparentemente invisível, que se desenvolve em muitos locais onde vive gente de carne e osso, e que muitos destes escribas, nem suspeitam que possam existir. Uma intervenção corajosa e que, neste tempo de sombras, aponta um caminho de ruptura e alternativa, que não deixa os trabalhadores e o povo à mercê dos que se julgam donos disto tudo. Tudo isto tem muita força, como bem sabe HR, e é um poderoso capital de atracção junto de todos os que vivem mais perto das dificuldades do que dos jornais. No fundo, HR exprime o medo que sempre sentiram as classes dominantes ao longo de séculos. É o medo que empurra HR para o delírio e a mentira.

2026 05 22 

https://expresso.pt/opiniao/2026-05-22-a-agua-suja-do-anti-comunismo-d75124b7

sábado, 23 de maio de 2026

Gonçalo Portocarrero de Almada - Assim se vê como é o PCP!


* Gonçalo Portocarrero de Almada 

Um partido ao serviço do imperialismo da ex-URSS; cúmplice da ditadura em Cuba; e que não reconhece a liberdade de pensamento e de expressão.

23 mai. 2026c

Anda meio mundo zangado com o Partido Comunista Português (PCP), por três intervenções políticas em âmbito parlamentar (ou, melhor dizendo, para lamentar …). Com efeito, este partido, cuja representação na Assembleia da República está agora reduzida a uma troïka, protagonizou três polémicas intervenções. A saber: por ocasião da recente visita do presidente do Parlamento ucraniano a Portugal; a propósito da caracterização política do regime de Cuba; e na sequência do recente falecimento de um seu líder histórico, que presidiu ao seu grupo parlamentar e foi seu candidato à presidência da República. Não obstante a multitudinária desaprovação do modo como os comunistas portugueses reagiram a estes factos recentes, o PCP está de parabéns.

A título de declaração de interesses, devo esclarecer que sempre fui contrário à ideologia do PCP, por tradição familiar, pela educação recebida e pelo meu modo de ser independente e, portanto, incapaz de fazer parte de uma organização de pensamento único. Subscrevo os princípios humanistas e democráticos que aquele partido, com exemplar coerência, sempre repudiou. Graças à minha fé cristã, absolutamente oposta ao ideário comunista, também não posso ter, como é óbvio, nenhuma afinidade com o PCP.

Quando era liceal e jovem militante da juventude do então Partido Popular Democrático (PPD), participei activamente na vida política do Liceu Pedro Nunes, tendo concorrido, em lista com outros colegas da JSD, para o seu conselho de gestão. Depois, por exigência da minha formação universitária, fui para o estrangeiro e abandonei, por completo, a militância partidária. Com a ordenação sacerdotal, abdiquei também de qualquer actuação política, mas sem desistir da intervenção cívica como cidadão, sobretudo em defesa da vida, da dignidade e da liberdade humanas, segundo os princípios da Doutrina Social da Igreja e com total independência de todos os partidos políticos.

O primeiro caso parlamentar recente relativo ao PCP ocorreu quando, no passado dia 6, o presidente da Assembleia da República recebeu o seu homólogo ucraniano. Os deputados comunistas fizeram questão de se ausentar da sala do plenário na sessão de boas-vindas, alegando que “Ruslan Stefanchuk é presidente de um parlamento antidemocrático que é expressão de um poder suportado por forças xenófobas, belicistas, fascizantes e nazis.” Este pretexto não releva os deputados do PCP da indelicadeza da sua atitude, que ofende a dignidade da Assembleia da República e de Portugal, na medida em que esse órgão de soberania representa o povo português.

Tem o seu quê de contraditório, ou de anedótico, que o PCP proteste pelo facto de o Parlamento ucraniano não ser democrático, pois não há nenhum regime comunista que tenha um parlamento eleito livre e democraticamente. Por outro lado, mesmo que o Parlamento ucraniano fosse, como dizem, “suportado por forças xenófobas, belicistas, fascizantes e nazis”, mais belicista é, com toda a certeza, o Estado que invadiu a Ucrânia, que se limitou a reagir em legítima defesa. Por último, é muito infeliz a referência ao suposto carácter “nazi” dos dirigentes ucranianos, pois foi a URSS que pactuou, pelo ignominioso tratado Ribbentrop-Molotov, com o regime nacional-socialista de Hitler, acordando, a 23-8-1939, a invasão e partilha, por nazis e comunistas, da inocente e martirizada Polónia.

O segundo caso respeita à situação de Cuba. Num despacho de 8 de Maio, a Agência Lusa noticiou: “O PCP agendou para hoje um debate sobre a situação política e social de Cuba, que atravessa uma grave crise económica e social, acentuada nos últimos meses pelo bloqueio petrolífero imposto pela administração norte-americana de Donald Trump, que ameaça uma ação militar contra a ilha. O projeto de resolução comunista, que condenava a ‘escalada de agressão e de ameaças dos EUA contra Cuba’ e propunha a ‘exigência do respeito da soberania e dos direitos do povo cubano’ foi chumbado, tal como uma iniciativa do Bloco de Esquerda ‘sobre a crise humanitária em Cuba e a necessidade de Portugal assumir uma posição activa pelo fim das sanções unilaterais e pela proteção da população civil cubana’.”

É significativo que o regime comunista cubano, depois de sessenta e sete anos de revolução, não consiga garantir ao seu povo condições mínimas de sobrevivência. Em nome do bem-estar da população, o comunismo defende e pratica a supressão das liberdades políticas dos cidadãos, impondo um regime ditatorial que, em princípio, deveria resultar numa sociedade justa e igualitária. Não se conhece, contudo, nenhum país que, tendo feito esta experiência, tenha conseguido sequer chegar a uma situação minimamente eficiente em termos socioeconómicos. Ajudar a população cubana não passa, pois, por financiar o regime que a oprime, mas pela aposta na sua reforma política, que se espera que possa acontecer quanto antes, se possível por meios pacíficos e sem intervenção estrangeira. Qualquer apoio prestado ao regime comunista cubano traduz-se, necessariamente, em cumplicidade com o vigente sistema repressivo.

Como era expectável, “o projeto de resolução comunista (…) foi chumbado (…). Por outro lado, os deputados aprovaram em plenário resoluções do Chega, a recomendar ao Governo ‘que realize todos os esforços políticos e diplomáticos no sentido de pressionar o regime cubano e conduzir à plena democratização da República de Cuba’; da Iniciativa Liberal, a propor ao executivo que ‘defenda o povo cubano e promova o respeito pelos direitos, liberdades e garantias fundamentais em Cuba’, e do CDS-PP, ‘em defesa do povo cubano contra a tirania do regime comunista’.”

Em terceiro lugar, foi deplorável a atitude do PCP em relação a um seu líder histórico, cuja memória nem sequer respeitou por ocasião da sua morte, a 7 de Maio passado. Felizmente, o voto de pesar, por unanimidade, da Assembleia da Republica, prestou-lhe a homenagem de que o partido em que militou tantos anos não foi capaz.

Apesar de estas três atitudes deploráveis do PCP, por curiosa coincidência ocorridas nos dias 6, 7 e 8 de Maio de 2026, o partido está de parabéns porque, se fosse a favor da Ucrânia, defendesse a democracia em Cuba, e lamentasse o falecimento de um seu líder histórico, não obstante a sua divergência política, poder-se-ia pensar que é um partido anti-imperialista, democrático e humanista quando, pelo contrário, continua a ser o que sempre foi. Com efeito, é uma força política ao serviço do imperialismo da ex-URSS, pois a sua líder parlamentar teve até a infelicidade de declarar, na Assembleia da República, que “a União Soviética, infelizmente que há muitos anos terminou, infelizmente porque de facto foram anos extraordinários para o povo”. É também um partido cúmplice da ditadura cubana e que não reconhece a liberdade de pensamento e de expressão. Graças a estas suas tão desastradas intervenções, o PCP afirma, de forma inequívoca, o que sempre foi e é e, por isso, está de parabéns. Em formato de slogan, que não destoaria na festa do Avante!, poder-se-ia dizer que assim se vê como é o PCP!

 https://observador.pt/opiniao/assim-se-ve-como-e-o-pcp/ 

quarta-feira, 13 de maio de 2026

O anticomunismo serôdio e as exemplares mistificações dos ilusionistas liberais, até dizer ...chega



* WHISTLEBLOWER.Pt
 ·
O cartaz não mente. 

Está ali, preto no branco: a ausência dos comunistas na receção a um representante do parlamento ucraniano e a citação de Paula Santos a lamentar o fim da União Soviética. 

Para quem desfila no 25 de Abril sob as bandeiras da Liberdade e da Democracia, a contradição é tão estrondosa que só uma cegueira ideológica profunda a pode disfarçar. 

Mas essa cegueira não é uma falha acidental. É o requisito fundamental para manter de pé uma narrativa que a realidade já desmontou há muito.

O verdadeiro hino à hipocrisia não está apenas no gesto de se ausentarem. 

Está no sistema de pensamento que torna esse gesto possível. 

Está na resposta às três perguntas que nenhum comunista consegue responder sem recorrer a ginásticas mentais que insultam a inteligência de quem trabalha.

1. "Fascismo? Em Portugal??"
A pergunta é retórica porque a resposta é óbvia para qualquer pessoa que não tenha a vista queimada pela ideologia. 

Não, não vivemos numa ditadura fascista. Nem no tempo de Salazar. Era um Regime autoritário, nao fascista.

Mas a narrativa precisa do fantasma do "fascismo" para sobreviver. 

Precisam de chamar fascismo ao liberalismo, ao centro-direita, à troika, ao patrão da fábrica, ao senhorio. Porquê? 

Porque sem um inimigo absoluto e desumanizado, a lógica binária do "nós contra eles" desmorona-se. 
Se admitissem que Portugal é uma democracia imperfeita mas real, teriam de admitir que os seus métodos e os seus dogmas são uma resposta para um problema que já não existe nos termos que eles colocam. 

A inflação retórica do termo "fascismo" é o primeiro sintoma da cegueira: para verem o mundo a preto e branco, têm de chamar preto a todos os tons de cinzento.

2. A maioria dos comunistas trabalha para capitalistas.
Esta é a verdade que devia fazer tremer a cátedra de qualquer teórico de gabinete. 

O militante do PCP, a base que enche os comícios, acorda todos os dias e vende a sua força de trabalho a um capitalista. 

Recebe um salário, paga impostos, desconta para a Segurança Social num sistema que o partido quer derrubar. 

A resposta clássica – "é a condição de explorado" – é tecnicamente verdadeira, mas moral e existencialmente vazia. 

O que esta esquizofrenia quotidiana prova não é a exploração do trabalhador (essa é real e combatível), mas a impossibilidade prática do mundo que defendem. 

Vives no capitalismo, sobrevives graças a ele, e ainda assim passas a vida a desejá-lo morto, sem nunca apresentares uma alternativa funcional. 

Não é hipocrisia da pessoa; é a hipocrisia estrutural de uma ideologia que só sobrevive no mundo das ideias, nunca no mundo real do trabalho que diz defender.

3. A pergunta que nenhum congresso responde: os pés que fogem
E aqui chegamos ao ponto onde a cegueira se torna obscenidade moral. 

"Se o imperialismo é tão mau como dizem, porque foge o povo, quando pode, para países capitalistas?".
A pergunta não é só justa; é um tiro de misericórdia. 

Os fluxos migratórios do último século são o referendo silencioso e implacável sobre os dois sistemas. 

Milhões de pessoas arriscaram a vida em botes, arames farpados e desertos não para chegar a uma Cuba, a uma Coreia do Norte ou ao que resta da Venezuela herdeira do "socialismo do século XXI". Fogem para a "Europa imperialista", para os "Estados Unidos opressores", para o "capitalismo selvagem". 

Fogem porque, mesmo na sua exploração, o capitalismo democrático ofereceu historicamente mais pão, mais liberdade e mais futuro do que qualquer paraíso socialista real.

A resposta do PCP a este facto é o cúmulo da ginástica mental: a culpa é do colonialismo, do imperialismo, da NATO. 

Mas isso é responder a uma pergunta com um lamento, não com uma análise. 

Se o teu sistema é tão superior, porque é que ninguém foge para ele? 

Porque é que os cubanos não fogem em massa para a China e os chineses não arriscam a vida para entrar na Rússia? 

A verdade é dura: o socialismo real falhou tão redondamente em criar prosperidade e liberdade que os seus próprios povos, quando puderam, votaram com os pés... em direção ao "inimigo" fascista...

A anatomia da cegueira

A cegueira ideológica não é não ver a realidade. 

É olhar para ela e recusar-se a aceitar o que os factos gritam. 

É precisar de manter viva a chama de uma "União Soviética" que Paula Santos lamenta como um "avanço extraordinário para o povo", ignorando deliberadamente o Gulag, a fome, a repressão, o atraso económico. 

É olhar para um parlamento ucraniano eleito e ver um "bando de neonazis", mas olhar para Moscovo e não ver o poder vertical de Vladimir Putin. É clamar por Liberdade no 25 de Abril e ausentar-se da solidariedade a um povo invadido.

O hino à hipocrisia está completo quando, no mesmo fôlego, se celebra a Revolução dos Cravos – que derrubou uma ditadura e exigiu eleições livres – e se nega a um povo soberano o direito de escolher as suas alianças. 

A falta de vergonha está em instrumentalizar o nome da Liberdade para atacar os que resistem a tanques, enquanto se desce a avenida de braço dado com a memória do império que esmagou tanques na Hungria, em Praga, em Cabul.

Ser "Fascista" é ver isto sem filtros. É aceitar que, por trás da liturgia, do cartaz e da frase feita, há uma corrente de pensamento que trocou a análise da realidade pela repetição de mantras. 

E que insulta todos os que, cá dentro ou lá fora, lutam por uma democracia sem adjetivos.
2026 05 09
 

Verdade e factos
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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

Stalin e o discurso de Churchill sobre a Cortina de Ferro



Iosif Stalin, entrevista sobre o discurso de Churchill sobre a Cortina de Ferro. 14 de março de 1946.

Nesta entrevista encenada para um jornal, Stalin respondeu ao discurso de Winston Churchill em Fulton, "Os Nervos da Paz", com a advertência de que uma "cortina de ferro" havia descido sobre a Europa. Ocorrendo logo após o discurso de Stalin sobre a eleição de 9 de fevereiro e pouco antes do "Longo Telegrama" de George F. Kennan, a troca de mensagens ajudou a definir o vocabulário inicial da Guerra Fria. Stalin retratou Churchill como um belicista que promovia um bloco anglófono, defendeu a predominância soviética na Europa Oriental como uma necessidade de segurança baseada no sacrifício em tempos de guerra e insistiu que a política soviética era pacífica, enquanto a "resistência" ocidental era provocativa.

Fonte original: Pravda, 14 de março de 1946.

P: Qual a sua avaliação do recente discurso do Sr. Churchill nos Estados Unidos da América?

A. Considero isso um ato perigoso, calculado para semear a discórdia entre os estados aliados e dificultar sua colaboração.

P: Pode-se considerar que o discurso do Sr. Churchill causou prejuízo à causa da paz e da segurança?

A. Certamente. A essência da questão é que o Sr. Churchill agora assume a posição de um belicista. E o Sr. Churchill não está sozinho nisso; ele tem amigos não só na Inglaterra, mas também nos Estados Unidos da América.

É importante notar que Churchill e seus aliados lembram muito, nesse aspecto, Hitler e seus aliados. Hitler iniciou a tarefa de desencadear a guerra proclamando a teoria racial, declarando que apenas os povos que falavam alemão constituíam uma nação plena. Churchill também iniciou a tarefa de desencadear a guerra com uma teoria racial, afirmando que apenas as nações que falam inglês são nações plenas, destinadas a governar os destinos do mundo inteiro. A teoria racial alemã levou Hitler e seus aliados ao ponto de que os alemães, como a única nação plena, deveriam dominar as demais nações. A teoria racial inglesa leva Churchill e seus aliados à conclusão de que as nações de língua inglesa, como as únicas nações plenas, deveriam dominar o resto das nações do mundo.

Em essência, o Sr. Churchill e seus amigos na Inglaterra e nos EUA apresentaram às nações não anglófonas algo como um ultimato: reconheçam voluntariamente nossa dominância e então tudo estará em ordem; caso contrário, a guerra é inevitável.

Mas as nações derramaram seu sangue ao longo de cinco anos de guerra cruel pela liberdade e independência de seus países, e não para trocar o domínio de Hitler pelo domínio de Churchill. É totalmente provável, portanto, que as nações não anglófonas, que incluem a grande maioria da população mundial, não concordem em aceitar uma nova escravidão.

A tragédia do Sr. Churchill é que ele, como um conservador inveterado, não entende essa verdade simples e óbvia.

Não há dúvida de que a postura do Sr. Churchill é uma postura de guerra, um apelo à guerra com a URSS...

P: Como o senhor avalia a parte do discurso do Sr. Churchill em que ele ataca a ordem democrática nos estados europeus que são nossos vizinhos e em que critica as relações de boa vizinhança que foram estabelecidas entre essas nações e a União Soviética?

A. Esta parte do discurso do Sr. Churchill é uma mistura de elementos de difamação, grosseria e falta de tato.

O Sr. Churchill declara que "Varsóvia, Berlim, Praga, Viena, Budapeste, Belgrado, Bucareste, Sófia – todas essas cidades famosas e as populações da região circundante estão na esfera soviética e todas estão sujeitas, de uma forma ou de outra, não só à influência soviética, mas também, em grande medida, ao crescente controle de Moscou". O Sr. Churchill caracteriza tudo isso como as ilimitadas "tendências expansionistas" da União Soviética.

Não é preciso muito esforço para demonstrar que aqui o Sr. Churchill difama de forma grosseira e impudente tanto Moscou quanto os estados vizinhos da URSS mencionados anteriormente.

Em primeiro lugar, é completamente absurdo falar de controle exclusivo da URSS em Viena e Berlim, onde existem Conselhos de Controle Aliados compostos por representantes de quatro estados e onde a URSS detém apenas um quarto dos votos...

Em segundo lugar, não se deve esquecer as seguintes circunstâncias. Os alemães lançaram a invasão da URSS através da Finlândia, Polônia, Romênia, Bulgária e Hungria. Os alemães conseguiram lançar a invasão por esses países porque neles existiam governos, na época, hostis à URSS. Como resultado da invasão alemã, a União Soviética perdeu cerca de sete milhões de pessoas para sempre em combate contra os alemães e, também devido à ocupação alemã, no exílio forçado de cidadãos soviéticos para trabalhos forçados na Alemanha. Escusado será dizer que a União Soviética perdeu várias vezes mais pessoas do que a Inglaterra e os Estados Unidos da América juntos. Possivelmente, existe uma inclinação em alguns lugares para relegar ao esquecimento esses sacrifícios colossais do povo soviético, que garantiram a libertação da Europa do jugo de Hitler. Mas a União Soviética não pode esquecê-los. Pode-se perguntar o que há de surpreendente no fato de a União Soviética querer segurança no futuro, em suas tentativas de garantir que nesses países existam governos que mantenham relações leais com a União Soviética? Será possível, sem perder o juízo, caracterizar esses esforços pacíficos da União Soviética como tendências expansionistas do nosso Estado?

O Sr. Churchill declara ainda que "os partidos comunistas, que eram insignificantes em todos esses estados do Leste Europeu, ganharam poder exclusivo..."

Como se sabe, a Inglaterra é agora governada por um governo de partido único, o Partido Trabalhista, que impede os demais partidos de participarem do governo inglês. Churchill chama isso de democratismo autêntico. Polônia, Romênia, Iugoslávia, Bulgária e Hungria são governadas por um bloco de vários partidos — de quatro a seis — que garante à oposição, se mais ou menos leal, o direito de participar do governo. Churchill chama isso de totalitarismo, tirania, estado policial...

O Sr. Churchill quer que a Polônia seja governada por Sosnkowski e Anders, a Iugoslávia por Mikhailovich e Pavelich, a Romênia pelo Príncipe Stirbey e Radescu (todos não comunistas; Pavelich era um nazista croata), a Hungria e a Áustria por algum rei da Casa de Habsburgo, e assim por diante. O Sr. Churchill quer nos assegurar que esses senhores dos esconderijos fascistas podem garantir o "democratismo pleno". Esse é o "democratismo" do Sr. Churchill.

O Sr. Churchill se aproxima da verdade quando fala do crescimento da influência dos Partidos Comunistas na Europa Oriental. Deve-se notar, porém, que ele não é totalmente preciso. A influência dos Partidos Comunistas está crescendo não apenas na Europa Oriental, mas em quase todos os países europeus onde o fascismo já predominou (Itália, Alemanha, Hungria, Bulgária, Romênia, Finlândia) ou onde houve ocupação alemã ou italiana (França, Bélgica, Holanda, Noruega, Dinamarca, Polônia, Tchecoslováquia, Iugoslávia, Grécia, União Soviética, etc.).

O crescimento da influência dos Partidos Comunistas não pode ser considerado acidental. É um fenômeno completamente regular. A influência dos Partidos Comunistas está crescendo porque, nos piores anos da dominação fascista na Europa, os comunistas se mostraram lutadores confiáveis, corajosos e abnegados contra o regime fascista, pela liberdade do povo...

Essas são as leis do desenvolvimento histórico.

É claro que o Sr. Churchill não gosta desse desenrolar dos acontecimentos e, freneticamente, soa o alarme, o chamado às armas... Não sei se o Sr. Churchill e seus amigos conseguirão, após a Segunda Guerra Mundial, organizar uma nova campanha militar contra a "Europa Oriental". Mas, se conseguirem, o que é improvável, visto que milhões de "pessoas comuns" se mantêm vigilantes em defesa da paz, então pode-se afirmar com certeza que serão derrotados, como foram derrotados no passado, há vinte e seis anos.

Fonte: Robert H. McNeal, ed., Lenin. Stalin. Khrushchev. Voices of Bolshevism (Englewood Cliffs: Prentice Hall, 1963), pp. 120-123.

https://soviethistory.msu.edu/1947/cold-war/cold-war-texts/stalin-on-churchills-iron-curtain-speech/

Churchill - Discurso da 'Guerra fria', em Fulton (1946)

 

Em 5 de março de 1946, a presença de Winston Churchill e do presidente Harry Truman transformou o ginásio de uma faculdade em uma pequena cidade do Meio-Oeste americano em um palco mundial, quando Churchill proferiu seu discurso mais famoso do pós-Segunda Guerra Mundial: "Os Nervos da Paz".

O fato de Churchill e Truman terem viajado até Fulton, no Missouri, é a história de um reitor universitário com a audácia de pedir o aparentemente impossível; de um ex-aluno do Westminster College com acesso ao Presidente dos Estados Unidos; de um Presidente dos Estados Unidos disposto a aceitar o convite; e de um primeiro-ministro britânico recém-derrotado com a perspicácia de reconhecer uma oportunidade.

É uma história de coincidência e de um momento aproveitado com ousadia — uma combinação que Churchill explorou ao longo de toda a sua vida.

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Fico feliz em vir ao Westminster College esta tarde e me sinto honrado por me concederem um diploma. O nome "Westminster" me é familiar. Parece que já ouvi falar dele antes. De fato, foi em Westminster que recebi grande parte da minha formação em política, dialética, retórica e mais algumas disciplinas. Aliás, ambos estudamos na mesma instituição, ou em instituições semelhantes, ou, pelo menos, em instituições afins.

É também uma honra, talvez quase única, para um visitante particular ser apresentado a uma plateia acadêmica pelo Presidente dos Estados Unidos. Em meio aos seus pesados ​​encargos, deveres e responsabilidades — não solicitados, mas dos quais não se esquiva — o Presidente viajou milhares de quilômetros para dignificar e abrilhantar nosso encontro aqui hoje e para me dar a oportunidade de me dirigir a esta nação irmã, bem como aos meus compatriotas do outro lado do oceano, e talvez também a alguns outros países. O Presidente disse-lhes que é seu desejo, como tenho certeza que é o de vocês, que eu tenha plena liberdade para oferecer meu conselho sincero e leal nestes tempos de ansiedade e incerteza.

Certamente aproveitarei esta liberdade e sinto-me ainda mais no direito de fazê-lo porque quaisquer ambições pessoais que eu possa ter nutrido na minha juventude foram satisfeitas para além dos meus sonhos mais ousados. Deixe-me, no entanto, deixar claro que não tenho qualquer missão ou posição oficial e que falo apenas por mim. Não há nada aqui além do que você vê.

Posso, portanto, permitir que minha mente, com a experiência de uma vida inteira, reflita sobre os problemas que nos afligem no dia seguinte à nossa vitória absoluta nas armas, e tentar garantir, com toda a força que me resta, que o que foi conquistado com tanto sacrifício e sofrimento seja preservado para a glória e segurança futuras da humanidade.

Os Estados Unidos encontram-se, neste momento, no auge do poder mundial. É um momento solene para a democracia americana, pois a primazia no poder vem acompanhada de uma responsabilidade inspiradora para com o futuro. Ao olhar ao redor, é preciso sentir não apenas a sensação de dever cumprido, mas também a ansiedade de não ficar aquém do nível de realização alcançado.

A oportunidade está aqui agora, clara e brilhante para ambos os nossos países. Rejeitá-la, ignorá-la ou desperdiçá-la trará sobre nós todas as longas reprovações do futuro.

É necessário que a constância de espírito, a persistência de propósito e a grande simplicidade de decisão guiem e regulem a conduta dos povos de língua inglesa em tempos de paz, assim como o fizeram em tempos de guerra. Devemos, e acredito que iremos, provar que estamos à altura dessa exigência rigorosa.

Quando militares americanos se deparam com alguma situação grave, costumam escrever no cabeçalho de suas diretrizes as palavras "Conceito Estratégico Geral". Há sabedoria nisso, pois leva à clareza de pensamento. Qual é, então, o conceito estratégico geral que devemos adotar hoje? Nada menos que a segurança e o bem-estar, a liberdade e o progresso de todos os lares e famílias de todos os homens e mulheres em todas as nações.

E aqui me refiro particularmente às inúmeras casas ou apartamentos onde o assalariado se esforça, em meio aos acidentes e dificuldades da vida, para proteger sua esposa e filhos da privação e criar a família no temor do Senhor, ou segundo concepções éticas que muitas vezes desempenham um papel importante.

Para garantir a segurança dessas inúmeras casas, elas devem ser protegidas dos dois saqueadores impiedosos: a guerra e a tirania.

Todos nós conhecemos os terríveis distúrbios em que a família comum mergulha quando a maldição da guerra se abate sobre o provedor e aqueles para quem ele trabalha e sustenta.

A terrível ruína da Europa, com todas as suas glórias desaparecidas, e de grandes partes da Ásia, nos encara de frente. Quando os desígnios de homens perversos ou o ímpeto agressivo de Estados poderosos dissolvem, em vastas áreas, a estrutura da sociedade civilizada, as pessoas humildes se veem diante de dificuldades insuperáveis. Para elas, tudo está distorcido, tudo está destruído, tudo está reduzido a pó.

Ao estar aqui nesta tarde tranquila, estremeço ao imaginar o que está realmente acontecendo com milhões de pessoas agora e o que acontecerá neste período em que a fome assola a Terra. Ninguém consegue calcular o que tem sido chamado de "a soma incalculável da dor humana". Nossa tarefa e dever supremos são proteger os lares do povo comum dos horrores e misérias de outra guerra. Todos concordamos com isso.

Nossos colegas militares americanos, após terem proclamado seu "conceito estratégico geral" e calculado os recursos disponíveis, sempre passam para a próxima etapa — ou seja, "o método". Aqui também há amplo consenso. Uma organização mundial já foi criada com o objetivo primordial de prevenir a guerra. A ONU, sucessora da Liga das Nações, com a adição decisiva dos Estados Unidos e tudo o que isso implica, já está em funcionamento.

Devemos garantir que seu trabalho seja frutífero, que seja uma realidade e não uma farsa, que seja uma força para a ação e não apenas uma enxurrada de palavras, que seja um verdadeiro templo da paz onde os escudos de muitas nações possam um dia ser erguidos, e não apenas uma arena na Torre de Babel.

Antes de descartarmos as sólidas garantias do armamento nacional em nome da autopreservação, devemos ter certeza de que nosso templo não está construído sobre areias movediças ou pântanos, mas sobre a rocha. Qualquer um pode ver, com os olhos bem abertos, que nosso caminho será difícil e longo, mas se perseverarmos juntos como fizemos nas duas guerras mundiais — embora não, infelizmente, no intervalo entre elas — não tenho dúvidas de que alcançaremos nosso objetivo comum no final.

Tenho, no entanto, uma proposta concreta e prática para ação. Tribunais e magistrados podem ser criados, mas não podem funcionar sem xerifes e agentes da lei. A Organização das Nações Unidas deve começar imediatamente a ser equipada com uma força armada internacional.

Em tal assunto, só podemos proceder passo a passo, mas devemos começar agora. Proponho que cada uma das potências e estados seja convidada a dedicar um certo número de esquadrões aéreos ao serviço da Organização Mundial. Esses esquadrões seriam treinados e preparados em seus respectivos países, mas se deslocariam em sistema de rodízio entre eles. Usariam o uniforme de seus países, porém com distintivos diferentes.

Eles não seriam obrigados a agir contra a própria nação, mas, em outros aspectos, seriam orientados pela Organização Mundial. Isso poderia começar em pequena escala e cresceria à medida que a confiança aumentasse. Eu desejava ver isso realizado após a Primeira Guerra Mundial e confio sinceramente que possa ser feito imediatamente.

Seria, contudo, errado e imprudente confiar o conhecimento secreto ou a experiência com a bomba atômica, que os Estados Unidos, a Grã-Bretanha e o Canadá agora compartilham, à Organização Mundial enquanto esta ainda está em seus primórdios. Seria uma loucura criminosa lançá-la à deriva neste mundo ainda agitado e desunido. Ninguém em nenhum país dormiu menos tranquilo por esse conhecimento, o método e as matérias-primas para aplicá-lo estarem, atualmente, em grande parte, em mãos americanas.

Não creio que teríamos dormido tão tranquilamente se as posições fossem invertidas e algum Estado comunista ou neofascista monopolizasse, temporariamente, essas agências temíveis. O mero medo delas poderia facilmente ter sido usado para impor sistemas totalitários ao mundo livre e democrático, com consequências assombrosas para a imaginação humana. Deus quis que isso não aconteça, e temos pelo menos um respiro para colocar a casa em ordem antes de enfrentarmos esse perigo, e mesmo assim, se não pouparmos esforços, ainda possuiremos uma superioridade tão formidável que nos permitirá impor dissuasões eficazes contra o seu uso, ou a ameaça de seu uso, por outros.

Em última análise, quando a fraternidade essencial da humanidade estiver verdadeiramente incorporada e expressa em uma organização mundial com todas as salvaguardas práticas necessárias para torná-la eficaz, esses poderes serão naturalmente confiados a essa organização mundial.

Agora, passo ao segundo perigo desses dois invasores que ameaça o lar e o cidadão comum: a tirania. Não podemos ignorar o fato de que as liberdades desfrutadas pelos cidadãos em todo o Império Britânico não são válidas em um número considerável de países, alguns dos quais muito poderosos.

Nesses Estados, o controle é imposto ao povo comum por diversos tipos de governos policiais abrangentes,  a um grau opressivo  e contrário a todos os princípios da democracia . O poder do Estado é exercido sem restrições, seja por ditadores, seja por oligarquias coesas que operam por meio de um partido privilegiado e uma polícia política. Não é nosso dever, neste momento, em que as dificuldades são tão numerosas, interferir à força nos assuntos internos de países que não conquistamos em guerra.

Mas jamais devemos deixar de proclamar, em tom destemido, os grandes princípios da liberdade e dos direitos do homem, que são herança comum do mundo anglófono e que, por meio da Magna Carta, da Declaração de Direitos, do Habeas Corpus, do julgamento por júri e do Direito Comum Inglês, encontram sua expressão mais famosa na Declaração de Independência dos Estados Unidos.

Tudo isso significa que o povo de qualquer país tem o direito e deve ter o poder, por meio de ações constitucionais, através de eleições livres e irrestritas com voto secreto, de escolher ou mudar o caráter ou a forma de governo sob o qual vive; que a liberdade de expressão e de pensamento deve prevalecer; que tribunais de justiça, independentes do executivo, imparciais a qualquer partido, devem administrar leis que receberam a ampla aprovação de grandes maiorias ou que foram consagradas pelo tempo e pelo costume. Eis os títulos de propriedade da liberdade, que deveriam estar presentes em cada lar. Eis a mensagem dos povos britânico e americano para a humanidade. Preguemos o que praticamos, pratiquemos o que pregamos.

Já mencionei os dois grandes perigos que ameaçam os lares do povo: a guerra e a tirania. Ainda não falei da pobreza e da privação, que em muitos casos são a principal preocupação. Mas se os perigos da guerra e da tirania forem eliminados, não há dúvida de que a ciência e a cooperação poderão trazer ao mundo, nos próximos anos, e certamente nas próximas décadas, com o conhecimento adquirido na escola da guerra, uma expansão do bem-estar material que ultrapasse qualquer coisa já vista na experiência humana.

Agora, neste momento triste e sufocante, estamos mergulhados na fome e na angústia que são as consequências de nossa luta colossal; mas isso passará, e poderá passar rapidamente, e não há razão, a não ser a insensatez humana ou o crime desumano, que negue a todas as nações a inauguração e o desfrute de uma era de abundância. Muitas vezes usei palavras que aprendi há cinquenta anos com um grande orador irlandês-americano, um amigo meu, o Sr. Bourke Cockran: "Há o suficiente para todos. A terra é uma mãe generosa; ela proverá em abundância alimento para todos os seus filhos, se eles cultivarem seu solo com justiça e paz."

Até o momento, acredito que estamos em total acordo. Agora, enquanto ainda buscamos o método para concretizar nosso conceito estratégico geral, chego ao ponto crucial que me trouxe até aqui.

Nem a prevenção segura da guerra, nem a ascensão contínua da organização mundial serão alcançadas sem o que chamei de associação fraterna dos povos de língua inglesa. Isso significa uma relação especial entre a Comunidade Britânica e o Império Britânico e os Estados Unidos. Não é hora para generalidades, e ousarei ser preciso.

A associação fraterna exige não apenas o crescimento da amizade e da compreensão mútua entre nossos dois vastos, porém afins, sistemas sociais, mas também a continuidade da estreita relação entre nossos conselheiros militares, levando ao estudo conjunto de potenciais perigos, à similaridade de armamentos e manuais de instruções, e ao intercâmbio de oficiais e cadetes em escolas técnicas. Deveria incluir a manutenção das atuais facilidades de segurança mútua por meio do uso conjunto de todas as bases navais e aéreas de ambos os países ao redor do mundo. Isso talvez dobrasse a mobilidade da Marinha e da Força Aérea americanas.

Isso ampliaria consideravelmente as Forças do Império Britânico e poderia muito bem levar, se e quando a situação mundial se acalmar, a importantes economias financeiras. Já utilizamos em conjunto um grande número de ilhas; outras poderão ser confiadas aos nossos cuidados conjuntos num futuro próximo.

Os Estados Unidos já possuem um Acordo de Defesa Permanente com o Domínio do Canadá, que é tão devotamente ligado à Comunidade Britânica e ao Império. Este Acordo é mais eficaz do que muitos dos que foram frequentemente firmados no âmbito de alianças formais.

Este princípio deve ser estendido a todas as comunidades britânicas, com plena reciprocidade. Assim, aconteça o que acontecer, e somente assim, estaremos seguros e aptos a trabalhar juntos pelas causas nobres e simples que nos são caras e que não representam nenhum mal para ninguém. Eventualmente, poderá surgir — e acredito que surgirá — o princípio da cidadania comum, mas talvez nos contentemos em deixá-lo ao destino, cujo braço estendido muitos de nós já conseguimos vislumbrar claramente.

No entanto, há uma questão importante que devemos nos fazer. Uma relação especial entre os Estados Unidos e a Comunidade Britânica seria incompatível com nossa lealdade primordial à Organização Mundial? Respondo que, pelo contrário, é provavelmente o único meio pelo qual essa organização alcançará sua plena estatura e força.

Já existem as relações especiais dos Estados Unidos com o Canadá, que acabei de mencionar, e existem as relações entre os Estados Unidos e as repúblicas sul-americanas. Nós, britânicos, temos o nosso Tratado de Vinte Anos de Colaboração e Assistência Mútua com a União Soviética.

Concordo com o Sr. Bevin, Ministro das Relações Exteriores da Grã-Bretanha, que, no que nos diz respeito, bem poderia ser um Tratado de Cinquenta Anos. Nosso objetivo é apenas a assistência e a colaboração mútuas. Os britânicos têm uma aliança com Portugal ininterrupta desde 1384, que produziu resultados frutíferos em momentos críticos da guerra recente. Nada disso entra em conflito com o interesse geral de um acordo mundial ou de uma organização mundial; pelo contrário, contribui para isso. "Na casa de meu Pai há muitas moradas."

Associações especiais entre membros das Nações Unidas que não têm qualquer propósito agressivo contra outro país, que não abrigam qualquer desígnio incompatível com a Carta das Nações Unidas, longe de serem prejudiciais, são benéficas e, a meu ver, indispensáveis.

Falei anteriormente sobre o Templo da Paz. Trabalhadores de todos os países devem construir esse templo. Se dois desses trabalhadores se conhecem particularmente bem e são velhos amigos, se suas famílias estão interligadas e se eles têm "fé no propósito um do outro, esperança no futuro um do outro e benevolência para com as falhas um do outro" — para citar algumas belas palavras que li aqui outro dia — por que não podem trabalhar juntos na tarefa comum como amigos e parceiros? Por que não podem compartilhar suas ferramentas e, assim, aumentar a capacidade de trabalho um do outro?

Na verdade, eles devem fazê-lo, caso contrário o templo poderá não ser construído, ou, sendo construído, poderá ruir, e todos nós seremos novamente considerados incapazes de aprender e teremos que ir e tentar aprender novamente pela terceira vez em uma escola de guerra, incomparavelmente mais rigorosa do que aquela da qual acabamos de ser libertados.

A Idade das Trevas pode retornar, a Idade da Pedra pode retornar nas asas brilhantes da ciência, e aquilo que agora pode derramar bênçãos materiais imensuráveis ​​sobre a humanidade, pode até mesmo trazer sua destruição total.

Cuidado, eu digo; o tempo pode ser curto. Não deixemos que os acontecimentos se prolonguem até que seja tarde demais.

Se houver uma associação fraterna do tipo que descrevi, com toda a força e segurança adicionais que ambos os nossos países podem obter dela, asseguremo-nos de que esse grande fato seja conhecido pelo mundo e que desempenhe o seu papel na consolidação e estabilização dos alicerces da paz. Esse é o caminho da sabedoria. Prevenir é melhor que remediar.

Uma sombra paira sobre os cenários tão recentemente iluminados pela vitória dos Aliados. Ninguém sabe o que a Rússia Soviética e sua organização internacional comunista pretendem fazer no futuro imediato, ou quais são os limites, se é que existem, de suas tendências expansionistas e proselitistas. Tenho grande admiração e respeito pelo valente povo russo e pelo meu camarada de guerra, o Marechal Stalin. Há profunda simpatia e boa vontade na Grã-Bretanha — e não duvido que também aqui — para com os povos de todos os russos e uma determinação em perseverar, apesar de muitas diferenças e rejeições, no estabelecimento de amizades duradouras. Compreendemos a necessidade russa de ter segurança em suas fronteiras ocidentais, eliminando toda possibilidade de agressão alemã.

Damos as boas-vindas à Rússia ao seu devido lugar entre as principais nações do mundo. Saudamos o hasteamento de sua bandeira nos mares. Acima de tudo, saudamos os contatos constantes, frequentes e crescentes entre o povo russo e o nosso povo em ambos os lados do Atlântico. É meu dever, porém, pois tenho certeza de que desejariam que eu lhes apresentasse os fatos como os vejo, expor-lhes certos fatos sobre a situação atual na Europa.

De Stettin, no Báltico, a Trieste, no Adriático, uma cortina de ferro desceu sobre o continente. Atrás dessa linha encontram-se todas as capitais dos antigos estados da Europa Central e Oriental. Varsóvia, Berlim, Praga, Viena, Budapeste, Belgrado, Bucareste e Sófia, todas essas cidades famosas e as populações ao seu redor estão no que eu chamaria de esfera soviética, e todas estão sujeitas, de uma forma ou de outra, não apenas à influência soviética, mas também a um controle muito elevado e, em muitos casos, crescente por parte de Moscou.

Somente Atenas — a Grécia com suas glórias imortais — tem a liberdade de decidir seu futuro em uma eleição sob a supervisão britânica, americana e francesa. O governo polonês, dominado pela Rússia, foi incentivado a fazer incursões enormes e injustas na Alemanha, e expulsões em massa de milhões de alemães, em uma escala terrível e inimaginável, estão ocorrendo agora. Os partidos comunistas, que eram muito pequenos em todos esses Estados do Leste Europeu, ascenderam a uma preeminência e a um poder muito além de sua representatividade e buscam, em todos os lugares, obter o controle totalitário.

Governos policiais prevalecem em quase todos os casos e, até agora, com exceção da Checoslováquia, não há verdadeira democracia. A Turquia e a Pérsia estão profundamente alarmadas e perturbadas com as exigências que lhes são feitas e com a pressão exercida pelo governo de Moscou. Os russos em Berlim estão tentando construir um partido quase comunista em sua zona da Alemanha ocupada, concedendo favores especiais a grupos de líderes alemães de esquerda.

Ao final dos combates em junho passado, os exércitos americano e britânico recuaram para oeste, de acordo com um acordo prévio, até uma profundidade de 150 milhas em alguns pontos, numa frente de quase quatrocentas milhas, a fim de permitir que nossos aliados russos ocupassem essa vasta extensão de território que as democracias ocidentais haviam conquistado.

Se agora o governo soviético tentar, por meio de ações isoladas, construir uma Alemanha pró-comunista em seus territórios, isso causará novas e sérias dificuldades nas zonas britânica e americana, e dará aos alemães derrotados o poder de se colocarem em leilão entre os soviéticos e as democracias ocidentais. Quaisquer que sejam as conclusões que se possam tirar desses fatos — e são fatos —, certamente esta não é a Europa Libertada pela qual lutamos. Nem é uma Europa que contenha os elementos essenciais para uma paz duradoura.

A segurança do mundo exige uma nova unidade na Europa, da qual nenhuma nação seja permanentemente excluída. É das disputas entre as principais potências europeias que surgiram as guerras mundiais que testemunhamos, ou que ocorreram em tempos passados.

Duas vezes em nossa própria geração vimos os Estados Unidos, contra a sua vontade e as suas tradições, contra argumentos cuja força é impossível não compreender, serem arrastados por forças irresistíveis para essas guerras a tempo de garantir a vitória da boa causa, mas somente depois de terem ocorrido terríveis massacres e devastação.

Por duas vezes os Estados Unidos tiveram que enviar milhões de seus jovens através do Atlântico para combater a guerra; mas agora a guerra pode encontrar qualquer nação, onde quer que esteja entre o crepúsculo e o amanhecer. Certamente devemos trabalhar com propósito consciente por uma grande pacificação da Europa, dentro da estrutura das Nações Unidas e de acordo com a nossa Carta. Considero essa uma causa política aberta de suma importância.

Diante da Cortina de Ferro que se estende por toda a Europa, existem outros motivos de preocupação. Na Itália, o Partido Comunista enfrenta sérias dificuldades por ter que apoiar as reivindicações do Marechal Tito, formado no comunismo, sobre o antigo território italiano na cabeceira do Adriático. Contudo, o futuro da Itália permanece incerto.

Mais uma vez, não se pode imaginar uma Europa regenerada sem uma França forte. Toda a minha vida pública trabalhei por uma França forte e nunca perdi a fé em seu destino, nem mesmo nos momentos mais sombrios. Não perderei a fé agora. No entanto, em um grande número de países, longe das fronteiras russas e em todo o mundo, quintas colunas comunistas estão estabelecidas e atuam em completa unidade e absoluta obediência às diretrizes que recebem do centro comunista. Exceto na Comunidade Britânica e nos Estados Unidos, onde o comunismo está em sua infância, os partidos comunistas ou quintas colunas constituem um desafio e um perigo crescentes para a civilização cristã.

São fatos sombrios para qualquer um ter que recitá-los no dia seguinte a uma vitória conquistada por tanta camaradagem em armas e pela causa da liberdade e da democracia; mas seríamos muito insensatos se não os encarássemos de frente enquanto ainda há tempo.

A situação também é preocupante no Extremo Oriente, especialmente na Manchúria. O Acordo de Yalta, do qual participei, foi extremamente favorável à União Soviética, mas foi firmado num momento em que ninguém podia afirmar que a guerra com os alemães não se estenderia por todo o verão e outono de 1945, e quando se previa que a guerra com os japoneses duraria mais 18 meses após o fim da guerra com os alemães. Neste país, vocês são todos tão bem informados sobre o Extremo Oriente e tão dedicados amigos da China, que não preciso me alongar sobre a situação naquela região.

Senti-me na obrigação de retratar a sombra que, tanto no Ocidente quanto no Oriente, paira sobre o mundo. Eu era ministro na época do Tratado de Versalhes e amigo íntimo do Sr. Lloyd-George, que chefiava a delegação britânica em Versalhes. Eu mesmo não concordava com muitas das coisas que foram feitas, mas guardo uma forte impressão daquela situação, e acho doloroso contrastá-la com a que prevalece agora. Naqueles dias, havia grandes esperanças e uma confiança ilimitada de que as guerras haviam terminado e que a Liga das Nações se tornaria onipotente.

Não vejo nem sinto essa mesma confiança, nem mesmo as mesmas esperanças, no mundo devastado que se encontra atualmente.

Por outro lado, repudio a ideia de que uma nova guerra seja inevitável; e muito menos que seja iminente. É porque tenho certeza de que nosso destino ainda está em nossas próprias mãos e que detemos o poder de salvar o futuro, que sinto o dever de me manifestar agora que tenho a ocasião e a oportunidade de fazê-lo. Não acredito que a Rússia Soviética deseje a guerra. O que eles desejam são os frutos da guerra e a expansão indefinida de seu poder e doutrinas.

Mas o que temos de considerar hoje, enquanto ainda há tempo, é a prevenção permanente da guerra e o estabelecimento de condições de liberdade e democracia o mais rapidamente possível em todos os países. Nossas dificuldades e perigos não serão eliminados se fecharmos os olhos para eles. Não serão eliminados simplesmente esperando para ver o que acontece; nem serão eliminados por uma política de apaziguamento. O que é necessário é um acordo, e quanto mais se adiar esse acordo, mais difícil ele será e maiores serão os nossos perigos.

Pelo que observei de nossos amigos e aliados russos durante a guerra, estou convencido de que nada os encanta tanto quanto a força, e nada inspira menos respeito do que a fraqueza, especialmente a fraqueza militar. Por essa razão, a antiga doutrina do equilíbrio de poder é falha. Não podemos nos dar ao luxo, se pudermos evitar, de trabalhar com margens estreitas, cedendo à tentação de uma demonstração de força. Se as democracias ocidentais se mantiverem unidas, em estrita observância aos princípios da Carta das Nações Unidas, sua influência na promoção desses princípios será imensa e ninguém ousará perturbá-las.

Contudo, se eles se dividirem ou vacilarem no cumprimento do seu dever, e se estes anos tão importantes forem deixados escapar, então, de fato, uma catástrofe poderá nos atingir a todos.

Da última vez, eu vi tudo isso se aproximando e clamei aos meus compatriotas e ao mundo, mas ninguém me deu ouvidos. Até o ano de 1933, ou mesmo 1935, a Alemanha poderia ter sido salva do terrível destino que a atingiu e todos nós poderíamos ter sido poupados das misérias que Hitler desencadeou sobre a humanidade.

Nunca houve na história uma guerra mais fácil de prevenir com uma ação oportuna do que aquela que acaba de devastar vastas áreas do globo. Acredito que ela poderia ter sido evitada sem que um único tiro fosse disparado, e a Alemanha poderia ser hoje poderosa, próspera e honrada; mas ninguém quis ouvir e, um a um, fomos todos tragados pelo terrível turbilhão. Certamente não podemos deixar que isso aconteça novamente.

Isso só poderá ser alcançado se, agora, em 1946, chegarmos a um bom entendimento em todos os pontos com a Rússia, sob a autoridade geral da Organização das Nações Unidas, e se esse bom entendimento for mantido ao longo de muitos anos de paz, por meio do instrumento mundial, apoiado por toda a força do mundo anglófono e todas as suas conexões. Eis a solução que respeitosamente lhes apresento neste discurso, ao qual dei o título "Os Nervos da Paz".

Que ninguém subestime o poder duradouro do Império Britânico e da Commonwealth. Porque vocês veem os 46 milhões de habitantes da nossa ilha afligidos com a falta de alimentos, dos quais produzem apenas metade, mesmo em tempos de guerra, ou porque temos dificuldade em reativar nossas indústrias e o comércio de exportação após seis anos de intenso esforço de guerra, não suponham que não superaremos estes anos sombrios de privação, assim como superamos os gloriosos anos de agonia, ou que, daqui a meio século, vocês não verão 70 ou 80 milhões de britânicos espalhados pelo mundo, unidos na defesa de nossas tradições, nosso modo de vida e das causas mundiais que vocês e nós defendemos.

Se a população dos países de língua inglesa for somada à dos Estados Unidos, com tudo o que essa cooperação implica no ar, no mar, em todo o globo, na ciência, na indústria e na força moral, não haverá um equilíbrio de poder instável e precário que ofereça a tentação da ambição ou da aventura. Pelo contrário, haverá uma garantia de segurança inabalável.

Se aderirmos fielmente à Carta das Nações Unidas e avançarmos com força serena e sóbria, sem buscar as terras ou os tesouros de ninguém, sem tentar exercer controle arbitrário sobre os pensamentos dos homens; se todas as forças e convicções morais e materiais britânicas se unirem às suas em fraternidade, os caminhos do futuro estarão claros, não apenas para nós, mas para todos, não apenas para o nosso tempo, mas para o século vindouro.

Winston Churchill

5 de março de 1946

Faculdade Westminster, Fulton, Missouri

https://www.nationalchurchillmuseum.org/sinews-of-peace-iron-curtain-speech.html