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domingo, 2 de agosto de 2026

Miguel Szymanski - A União Europeia a desintegrar-se de acordo com os planos dos EUA

* Miguel Szymanski
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Um chefe de Estado ou de Governo, seja português ou espanhol, não pode, no meio de uma crise cuja solução depende da boa vontade de um país vizinho — um regime policial e autoritário —, apontar-lhe o dedo e acusá-lo daquilo que, de facto, fez, e não pela primeira vez: instrumentalizar nas fronteiras uma multidão de milhares de pessoas desesperadas para fazer avançar a sua agenda. Mas é lamentável que um chefe de Estado na frase com que é citado pareça reforçar a tese central da extrema-direita. Foi o que Seguro fez, ou pelo menos assim é citado, quando um órgão de comunicação social resume a posição nesta crise à exigência de "mão forte contra a imigração ilegal". 

sexta-feira, 31 de julho de 2026

Miguel Sousa Tavares - Sinais de fogo

*  Miguel Sousa Tavares

1.  Enquanto a França e a Espanha começavam a arder, no que viriam a ser os piores incêndios de ambos os países em décadas, Luís Montenegro estava em viagem oficial a Itália — que juntamente com Portugal e Grécia, completa o eixo de fogo que todos os Verões, em simultâneo ou à vez, devasta o sul da Europa. Mas em Roma, Montenegro e Meloni conversaram sobre outro tipo de fogo, que de tal forma aqueceu os seus corações que Montenegro declarou mesmo que ali se tinha atingido o ponto mais alto das relações Portugal-Itália, também em décadas. Porém, este novo êxito da nossa diplomacia e esta renovada amizade vêm com um custo: 3,9 mil milhões de euros, que é o preço que iremos pagar pelas três fragatas que encomendámos em Itália para a nossa Marinha de Guerra. O custo representa mais de metade do que Portugal prometeu gastar a armar-se para a anunciada guerra contra a Rússia e para cumprir as ordens de Trump, e é assumido ao abrigo da estratégia consagrada pelo programa de rearmamento europeu SAFE: encomende agora, pague depois. E o depois não será provavelmente apenas um problema financeiro, mas também operacional: quem nos diz que quando as fragatas forem entregues elas ainda farão algum sentido na guerra do mar, se já hoje os drones submarinos e os avanços militares com a IA estão a mudar tudo? (Veja-se como, sem nenhuma fragata, o Irão anda há cinco meses a humilhar a força naval e aérea, carregadas de testosterona, dos Estados Unidos…) Seria mais prudente, pensarão, começar por encomendar apenas uma fragata e esperar para ver, mas tal é impossível, pois que se dá com as fragatas o mesmo que com os submarinos: é preciso comprar três de uma vez, porque enquanto uma está no mar, outra está de prevenção acostada na base e a terceira está no estaleiro em reparação. São brinquedos muito caros. São tão caros e o negócio é de tal maneira rentável para os vendedores — mais ainda que o tráfico de droga — que desta vez anunciaram-nos que seria nomeada uma das tais “comissões independentes”, para tentar garantir “transparência” e seriedade nos negócios em que seremos sempre compradores. Porém, ainda nem a comissão está composta e Montenegro já gastou €3,9 mil milhões sem dar justificações do essencial: porquê fragatas, porquê italianas e porquê a pressa.

Valha a verdade que o nosso primeiro-ministro se limita a acompanhar e cumprir o que ficou acordado com a NATO, a UE e os EUA de Donald Trump (as três entidades confundem-se hoje em dia). Devagar e passo a passo, encomenda a encomenda, comprometemo-nos a caminhar em direcção aos 5% do PIB em gastos militares, ao mesmo tempo que se anunciam investimentos públicos de há muito não vistos: um novo aeroporto para Lisboa, o TGV Lisboa-Porto, uma nova ponte no Porto e outra e mais um túnel no Tejo, em Lisboa, mantendo intactos o sistema de pensões e os restantes apoios sociais, bem como a satisfação, sempre premente, das reivindicações das corporações do Estado. A perspectiva é de tal maneira insana que, aqui ao lado, Pedro Sánchez declarou logo que a Espanha governada por ele não cumpriria os 5%. Mas foi o único entre todos os dirigentes europeus, reduzidos voluntariamente à condição de capachos obedientes do ‘aliado’ americano, com quem não poupam gestos de apaziguamento, todavia inúteis, como se viu na recente Cimeira da NATO em Ancara. Muitas vezes, e até para justificar este desvario guerreiro, esta gente e os seus propagandistas têm defendido as suas decisões com a necessidade de não repetir o erro de Chamberlain em Munique, tentando fazer-nos acreditar que a inacção perante a ameaça que Putin representará é igual à que Hitler representava em 1938. Mas não só a Europa, no seu conjunto, dispõe de muito mais poderio militar convencional do que a Rússia (a qual, ao mesmo tempo, nos garantem estar exaurida por quatro anos de guerra na Ucrânia), como também as duas situações não são nem objectiva nem subjectivamente comparáveis. Aliás, não fosse esta uma geração lastimável de dirigentes europeus — de que o defunto Keir Starmer era o perfeito exemplo do líder plastificado, desde o cérebro até aos sapatos — e poderiam dar-se uma pausa para meditação sobre os verdadeiros grandes problemas e grandes inimigos que a Europa tem de enfrentar. Se o fizessem, se por um momento quisessem pensar pela própria cabeça, esquecendo as ordens de Trump ou do seu capacho Mark Rutte, talvez chegassem à conclusão de que os dois grandes inimigos da Europa chamam-se Donald Trump e alterações climáticas.


Sinais de fogo, por Hugo Pinto
 
1Sobre o primeiro inimigo da Europa, Donald Trump, já tudo foi dito e sabido e só não vê o perigo que ele representa quem não quer ver ou está interessado em não ver. Sobre a ameaça presente do descontrolo do clima (clear and present danger, chamar-lhe-iam os americanos, no tempo em que ainda eram uma democracia decente), tem-se visto como a UE tem recuado e abandonado todas as suas metas definidas e ajuramentadas para enfrentar as consequências das alterações climáticas. A Europa, o continente mais exposto ao aquecimento global, o território do fogo descontrolado, corta nas verbas destinadas a combatê-lo, em benefício das verbas destinadas a combater a Rússia, no dia em que nos juram que Putin virá por aí abaixo. Portugal é um bom exemplo disso mesmo: na necessidade que houve de realocar verbas do PRR, tirando de um lado para pôr no outro, os dois maiores cortes, ambos de 15%, foram nos investimentos previstos para a transição climática e a transição digital da economia — outro sector crítico, em que a Europa não se limita a ficar para trás relativamente à China e Estados Unidos, mas assim cava a sua dependência futura, como já a tem na energia, entusiasmada que anda, por exemplo, a sequestrar navios-fantasmas da frota petroleira russa — verdadeiros actos de pirataria, sem qualquer sustentação legal.

Em França, cujo Presidente passou de intermediário para tentar evitar a guerra na Ucrânia a defensor da continuação e agravamento da mesma, anunciando o reforço extraordinário das capacidades militares da França, Emmanuel Macron acabou esta semana a ter de recorrer aos militares para ajudarem a dominar o grande incêndio de Bordéus. Afinal, parece que, na hora da verdade, aquilo que os cidadãos esperam da sua República é que lhes garanta a segurança de pessoas e bens contra um perigo real e presente e não contra um hipotético perigo futuro. Daqui a uns anos os nossos filhos e netos hão-de perguntar-nos o que andámos nós a fazer, gastando fortunas em armamento e alimentando os lucros das multinacionais das armas e da energia, enquanto víamos, fingindo surpresa, as terras a arder, o gelo dos pólos a derreter e as temperaturas a subir sempre.

2.  2Sinal destes tempos de mentira organizada e desinformação planeada, o Governo de Israel, depois de matar todos os jornalistas árabes que conseguiram estar em Gaza (para cima de 150!) e proibir a entrada da imprensa ocidental independente, aposta agora em profissionais da aldrabice, dispostos a serem contratados para negar o que vimos e sabemos: Gaza reduzida a cinzas, 73 mil mortos, dos quais mais de 20 mil crianças, a Cisjordânia transformada num faroeste, onde os colonos israelitas, apoiados pela IDF, caçam palestinianos, ocupam as suas terras, destroem as suas casas e culturas. Vemos, ouvimos e lemos. Mas é possível fingir ignorar: entre os €500 milhões que o Governo de Netanyahu já destina anualmente para propaganda amiga, estão verbas para convidar uns mercenários da verdade a visitarem a “única democracia do Médio Oriente”. Oito tristes patetas portugueses, ditos influencers, responderam assim à chamada e lá foram eles, descobrindo, cito, que “o mais fixe em Israel é que eles não têm a intenção de se vingar de ninguém. O amor é a palavra que mais usam”. E lá foram recebidos por um anfitrião, dito jornalista, Henrique Cymerman, a quem chamaram um “anjo da paz” e o qual lhes fez uma prelecção sobre as mentiras que a imprensa ocidental veicula sobre Israel, sobrepondo-se ao silêncio cúmplice dos dirigentes europeus. Os 73 mil mortos vítimas do amor de Israel, de facto, é como se nunca tivessem existido.

2026 Julho 31

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Nate Bear - MENTIRAS POR OMISSÃO




MENTIRAS POR OMISSÃO ENQUANTO NOVOS CRIMES DE GUERRA AMERICANOS SE APROXIMAM

* Nate Bear, 
Substack. Trad. O’Lima.

Os EUA reuniram a maior força militar no Médio Oriente desde a invasão do Iraque há quase 23 anos e estão novamente preparados para cometer assassinatos em massa e perpetrar alegremente uma quantidade impressionante de crimes de guerra.

Ontem, [18 de fevereiro] um grande número de aviões, desde caças a tanques de reabastecimento aéreo e aviões de comando e controlo, partiram dos EUA com destino ao Médio Oriente. Os aviões fizeram escalas em bases militares americanas na Inglaterra e na Alemanha, porque nenhum crime de guerra imperial está completo sem o envolvimento da Europa.


Captura de ecrã (às 11.27 de 18 de fevereiro de 2026)de aviões militares dos EUA a voar dos EUA para a

Um ataque dos EUA ao Irão, uma violação flagrante do direito internacional, se é que isso ainda vale a pena mencionar, parece iminente. Porquê? Por Israel, pelo petróleo, pela projeção de poder, pelo legado de Trump. Porque a lógica do complexo militar-industrial exige que 1 bilião de dólares por ano e uma impressionante variedade de máquinas de matar não fiquem paradas. Porque é isso que os impérios fazem. Porque os EUA são violência. E não há demonstração mais impressionante da violência americana do que uma grande guerra.

Os EUA estiveram em guerra durante 222 dos 239 anos desde 1776. O país dificilmente vai parar agora, especialmente com as estrelas a alinharem-se para um projeto que o eixo EUA-Israel-sionista tem procurado desesperadamente realizar há quase 50 anos.

E apesar do facto de uma nação em guerra quase constante ir atacar um país que iniciou a última guerra há quase 300 anos, os EUA e Israel vão-se apresentar como salvadores e pacificadores. Os líderes desses países vão autoproclamar-se como tal, enquanto os ocidentais submeterão os seus leitores e telespectadores a uma exibição vertiginosa de propaganda para permitir os assassinatos e encobrir os crimes.

O trabalho preparatório

Mas a propaganda não começará no dia do ataque. A verdade é que não estaríamos nesta situação sem o trabalho preparatório realizado pela mídia ao longo dos anos. Não estaríamos à beira de outra grande guerra dos EUA sem as mentiras por omissão, muitas vezes subtis, que há décadas caracterizam a cobertura ocidental sobre o Irão e que têm sido especialmente evidentes nos últimos meses. Vamos examinar algumas delas.

Mudança de narrativas

Em primeiro lugar, e mais importante, a premissa para um ataque. Em junho passado, Trump disse que os EUA tinham «destruído» as instalações nucleares do Irão. Mas agora, oito meses depois, os EUA aparentemente precisam de travar uma guerra muito maior para eliminar o programa nuclear do Irão. Ninguém fará a pergunta óbvia. A premissa de que o programa nuclear do Irão é uma ameaça permanecerá firme e inquestionável na mente do consumidor ocidental dos media propagandísticos, que há apenas oito meses foi informado de que tudo havia sido destruído.

Termos carregados

«Programa nuclear do Irão». As próprias palavras estão carregadas de uma intenção que raramente é examinada ou explicada. Nunca vêm acompanhadas de qualquer contexto e são propositadamente concebidas para silenciar qualquer pensamento crítico. Os media ocidentais nunca explicam que o Irão é um dos maiores produtores mundiais de radiofármacos utilizados no diagnóstico e tratamento do cancro. E para diagnosticar o cancro e fabricar medicamentos contra o cancro, são necessários isótopos médicos. E não é possível fabricar isótopos médicos sem enriquecer urânio. O Irão está entre os cinco maiores exportadores mundiais de medicamentos radioativos, fornecendo medicamentos nucleares a quinze países, incluindo países europeus. E as sanções contra o Irão proíbem a importação de radiofármacos. Portanto, sem o seu «programa nuclear» deliberadamente deturpado, o Irão teria dificuldade, se não impossibilidade, em diagnosticar e tratar pessoas com cancro e outras doenças.

O acordo nuclear

Os media nunca explicam isso e também nunca explicam os antecedentes das ameaças dos EUA ao Irão em relação a esse programa. No quadro da cobertura das negociações e possíveis acordos, os media ocidentais nunca mencionam o facto de que, em 2018, o próprio Trump rasgou um acordo, assinado em 2016, que estava funcionando muito bem. Esse acordo, ratificado pelo Conselho de Segurança da ONU, facilitava inspeções regulares ao local e permitia ao Irão fabricar material nuclear para medicina e energia. Os media nunca nos lembram disso, nem que a última inspeção da Agência Internacional de Energia Atómica relatou que o Irão estava em total conformidade com as suas obrigações.

Nunca nos dizem que Trump, sob pressão dos seus apoiantes sionistas para criar uma crise que pudesse levar os EUA e Israel à guerra, e ansioso por desfazer um raro sucesso de Obama, criou deliberadamente um problema para resolver. E, como estamos prestes a descobrir, nunca houve qualquer intenção de resolvê-lo pacificamente.

Mas os media continuarão fingindo que essas foram negociações de boa-fé que fracassaram por causa das exigências do Irão. E não nos dirão que essas exigências incluíam a capacidade de diagnosticar e tratar o cancro.

Unilateralismo

O facto de os EUA se terem retirado unilateralmente do acordo anterior também é uma omissão importante na cobertura. Porque lembrar aos leitores que a crise foi desencadeada pelos EUA pode fazer com que os EUA, e não o Irão, pareçam o Estado rebelde.

O facto do unilateralismo americano é frequentemente ocultado pelos media ocidentais. É por isso que ouvimos tão pouco sobre as 66 organizações e tratados internacionais dos quais os EUA anunciaram em janeiro que se retirariam. E caso você se sinta tentado a pensar que esse unilateralismo é culpa exclusiva de Trump, o governo Biden retirou-se do Tratado sobre Forças Nucleares de Alcance Intermédio e do Tratado de Céus Abertos, ambos elementos-chave de uma estrutura internacional para evitar a guerra nuclear.

Os EUA são um Estado pária que opera deliberadamente, e tenta-se a todo o custo para ocultar esse facto. Porque se as pessoas compreendessem os EUA como um Estado pária, poderiam questionar se a sua violência constante não é a violência de um pacificador ou de um combatente pela liberdade, mas sim a violência de um delinquente. Poderiam questionar quem, na verdade, são os vilões.

As armas nucleares de Israel

Ao falar de Estados rebeldes, os media nunca examinam a premissa fundamental subjacente a toda a questão da capacidade nuclear iraniana. Nunca questionarão por que Israel tem permissão para ter armas nucleares, mas o Irão não. Nunca levarão os leitores ou telespectadores a questionar por que o agressor proeminente da região, perpetrador de genocídio e violador constante de leis e normas, é aquele a quem se confia a arma mais destrutiva da história da humanidade. Porque então teriam de enquadrar Israel como o agressor. Então teriam de explicar o império. Então, teriam de examinar os evidentes padrões duplos e hipocrisias e introduzir as pessoas ao pensamento crítico, que não leva ao apoio reflexivo ao império.

E isso é um grande tabu. Afinal, é muito mais fácil fabricar consentimento para a guerra se uma grande parte da população pensa que vocês são os bons que defendem a liberdade e a paz.

Novos pretextos

Se tem acompanhado as notícias, deve estar ciente de que as últimas negociações vão além do programa nuclear e introduzem novos pretextos para a guerra, um dos quais é o programa de mísseis balísticos do Irão.

Israel, chocado com a capacidade do Irão de atacar o seu território em junho passado, quer que o novo acordo inclua a eliminação de todos os mísseis de longo alcance do Irão.

Quando os EUA e Israel atacarem, dir-nos-ão que a culpa é do Irão. Dir-nos-ão que querer manter a capacidade defensiva face a um inimigo expansionista e genocida, que se comprometeu abertamente a destruir-nos, é uma posição irracional. O Guardian, entre outros, já começou a defender esta linha.

Em contrapartida, não nos pedirão para refletirmos sobre por que razão Israel pode ter todas as armas que desejar. Não nos pedirão para refletirmos sobre por que razão os EUA entrariam em guerra para impedir um país de se defender de Israel. Isto será simplesmente apresentado como a ordem natural das coisas.

Violência americana

A guerra que se aproxima contra o Irão será uma guerra completamente ilegal de agressão não provocada cometida pelos EUA contra um país a 7200 km de distância que não representa nenhuma ameaça.

No entanto, duvido que um único americano a servir nas Forças Armadas dos EUA se oponha. Porque crimes de guerra em massa são uma tradição americana. Porque os EUA são violência. Será que os EUA algum dia vão prestar contas pela natureza fundamentalmente violenta e imperialista da sua sociedade? A julgar pelas alternativas políticas atualmente disponíveis, não.

Alexandria Ocasio Cortez, considerada por muitos como a principal figura de esquerda do Partido Democrata e uma viável candidata à presidência no futuro, acaba de participar na conferência de segurança de Munique para estabelecer as suas credenciais imperiais. Falando numa sessão patrocinada pela Palantir, ela recusou-se a condenar o reforço militar de Trump, enquanto espalhava propaganda anti-Irão a favor de uma mudança de regime. Ao mesmo tempo, tentou flanquear Trump pela direita em relação à Venezuela, dizendo que ele deveria ter-se comprometido com uma mudança de regime e derrubado todo o governo. Com amigos esquerdistas amantes da paz como AOC, quem precisa de inimigos belicistas como Trump, não é?

Liberdade

À medida que a guerra começa e as bombas caem, os políticos e os media vão regurgitar propaganda falsa sobre atrocidades relacionadas com o número de mortos nos recentes protestos para nos convencer de que a violência que vemos nos nossos ecrãs é a violência do libertador. Vamos ouvir falar dos «mullahs», dos aiatolás e do autoritarismo. O consumidor médio dos media ocidentais ficará convencido de que os iranianos vivem numa sociedade sem cor, liderada por fanáticos religiosos que rotineiramente apedrejam mulheres até a morte, quando uma simples pesquisa no YouTube mostra uma realidade muito diferente. Cenas das ruas e centros comerciais de Teerã que poderiam ter sido filmadas em qualquer cidade ocidental estão a um clique de distância, mas os consumidores dos media nunca serão direcionados a essas fontes.

Tudo o que ouviremos é sobre a necessidade da violência imperial. Ouviremos que o Irão não conseguiu chegar a um acordo em histórias fora do contexto. Ouviremos que os americanos estão a ajudar a libertar os iranianos da tirania e que isso será bom para o mundo, quando, na realidade, o único caminho para a paz é libertar os americanos da tirania do seu próprio império.

https://onda7.blogspot.com/2026/02/leituras-marginais_0361484924.html
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Posted by OLima at sexta-feira, fevereiro 20, 2026 

Martin Jay - Bond está de volta

 

* Martin Jay

19 de fevereiro de 2026
 
A história de Alexei Navalny apresentada aos jornalistas ocidentais em Munique poderia muito bem ter sido um roteiro de filme de James Bond, dada a sua falta de fatos e o seu romantismo desmedido.

Em artigos recentes, tenho destacado o declínio do jornalismo – o que o jornalismo realmente é, ou era, e como ele transformou sua identidade essencial em algo completamente diferente hoje. Recentemente, vimos a chefe de notícias da CBC admitir que o jornalismo tradicional, que produzia "furos de reportagem" avidamente consumido por um amplo público que desejava que a mídia responsabilizasse as elites, não é mais popular. Ela afirmou que simplesmente não há o mesmo número de pessoas que assistiam aos programas de jornalismo investigativo do 60 Minutes de antigamente, assistindo hoje em dia. Pessoalmente, acho essa afirmação difícil de acreditar, já que, ao mesmo tempo, a mesma chefe de mídia justifica um novo estilo de jornalismo que se alinha muito mais à narrativa do governo vigente. Difícil imaginar que as pessoas prefiram este último. Na realidade, o que ela provavelmente está tentando dizer é que, para que os grandes veículos de comunicação sobrevivam e se agarrem aos poucos anunciantes restantes que os impedirão de desaparecer completamente, eles precisam se aliar ao Estado profundo e esquecer completamente a verdade. Afinal, quem precisa da verdade? Isso só vai te trazer estresse, te deixar com raiva e provavelmente te fazer bater o carro voltando do supermercado, causando uma briga enorme com sua esposa e arruinando o fim de semana.

A verdade é tão antiquada, tão alheia às tendências modernas, e é praticamente considerada um veneno sul-americano que pode matar em segundos. Não é de se admirar que um novo departamento do governo britânico, responsável pela censura de textos jornalísticos, tenha um léxico completamente novo de palavras ofensivas para rotular jornalistas independentes e marginais que se apegam aos métodos tradicionais do jornalismo.

A verdade sempre foi o ponto de partida do jornalismo. Sempre foi mais fácil de lembrar e sempre serviu como um excelente ponto de referência para jornalistas que haviam perdido o rumo da história em que estavam trabalhando. Às vezes, pode ser terrivelmente constrangedora e, muitas vezes, é simplesmente uma grande dor de cabeça para governos, mídia, órgãos de fiscalização, o Estado profundo e qualquer um que se importe com a democracia.

Mas sempre foi importante.

Hoje em dia, porém, trabalhamos em um ambiente completamente novo, e os jornalistas estão sob enorme pressão para simplesmente divulgar informações. Quaisquer informações. As informações são como latas de feijão empilhadas em caixas carregadas em contêineres destinados ao consumo. A verdade simplesmente não faz mais parte do interesse ou da consciência prática dos principais veículos de comunicação.

E, claro, isso funciona como um novo mecanismo de apoio para funcionários do governo cada vez mais negligentes, preguiçosos e ineptos, eleitos ou não. Nunca antes fomos governados por ministros tão incompetentes e fracos como hoje, que precisam de uma mídia servil para manipular e disseminar a verdade percebida, sem contestação da verdade real.

Nesta nova ordem midiática mundial, tudo é possível. Qualquer história pode ser fabricada, já que o mecanismo de checagem de fatos foi abandonado há muito tempo. Eu, pessoalmente, desisti de tentar escrever notícias internacionais décadas atrás, quando o maior obstáculo que enfrentei para publicar essas investigações foi a exigência hilária de editores mais jovens de que o cerne da matéria fosse verificado pelo departamento de imprensa do Ministério das Relações Exteriores do Reino Unido! Essa exigência era sempre feita, sem qualquer ironia, por um editor de 25 anos que simplesmente não estava preparado para ouvir de um jornalista da minha experiência que "isso seria uma completa perda de tempo, já que aqueles filhos da p*** do Ministério das Relações Exteriores mentem descaradamente e vão negar tudo". Muitas matérias eram simplesmente vetadas porque a negação oficial do departamento de imprensa do Ministério das Relações Exteriores era suficiente para assustar o editor do dia e fazê-lo não publicar a matéria, nem perder tempo com ela dali em diante. Essa prática começou no final dos anos 90 e foi intensificada nos últimos anos pelo Ministério das Relações Exteriores, quando perceberam o quão eficaz era para simplesmente bloquear todas as boas matérias sobre a Síria, o Iraque e a Líbia.

Assim, nesse contexto, o jornalista que, em 2015, telefona para a emissora e reporta que o governo americano está financiando cerca de uma dúzia de grupos afiliados à Al-Qaeda na Síria, ou que, na verdade, Assad não está jogando cloro em seu próprio povo, mas sim que os grupos terroristas apoiados pelo Ocidente estão fazendo isso para falsificar as notícias, é ridicularizado. Na melhor das hipóteses, ele é orientado a enviar suas alegações ao departamento de imprensa do Ministério das Relações Exteriores, que, naturalmente, emite um comunicado ininteligível descartando-as como mentiras ou propaganda.

Na realidade, jornalistas britânicos escreveram centenas de vezes sobre a história de Assad sem qualquer prova, simplesmente porque, ao contrário do que se pensa, quando o governo em exercício tem uma narrativa para divulgar, não precisa de qualquer tipo de comprovação. Assim, o fato de Assad ter lançado armas químicas contra o seu próprio povo torna-se um facto, que é então estabelecido e consagrado como tal para que outros jornalistas o propaguem. Uma vez que os jornalistas se sentem confortáveis ​​com uma narrativa, como vimos na guerra da Síria, qualquer tipo de notícia amadora e falsa pode ser inserida nas suas caixas de correio eletrónico e é processada em poucas horas, sendo divulgada como notícia verídica e verificada.

Durante o mesmo período, a BBC apresentou-nos imagens reais de crianças em idade escolar sendo queimadas vivas durante um desses ataques químicos. Imagens horríveis de crianças gritando de agonia, com os olhos revirando loucamente, como se estivessem possuídas pelo demônio.

Mas o diabo estava nos detalhes, ou melhor, na falta deles. Na verdade, aquela reportagem infame era completamente falsa e foi produzida por rebeldes sunitas a soldo do Ocidente na Síria, que sabiam que ela teria um enorme impacto no público ocidental. Os rebeldes simplesmente instruíram as crianças a atuarem enquanto filmavam, e depois enviaram as imagens brutas aos "correspondentes" da BBC em Beirute, que ficaram encantados em fazer uma reportagem sobre o assunto, sem se darem ao trabalho de verificar os fatos.

O consenso fabricado dos jornalistas ocidentais atingiu um nível escandaloso e alarmante. Praticamente tudo o que escrevem sobre assuntos internacionais é ditado pelos governos que os controlam. São tantas histórias que seria impossível enumerá-las todas, mas, claro, as principais são lendárias e foram consagradas para que os estudantes de jornalismo as estudem nas gerações futuras. Saddam Hussein possui armas de destruição em massa, Assad usa armas químicas contra seu próprio povo, as Torres Gêmeas do 11 de setembro foram derrubadas por dois aviões comerciais, o atentado de Lockerbie foi perpetrado pela Líbia, o genocídio em Gaza é uma guerra contra o terror. A lista é interminável. Mas, mais recentemente, uma grande manchete que ganhou força é: "Os russos estão vindo nos invadir".

Dizem-nos que os russos invadiram a Ucrânia porque estavam entediados numa tarde qualquer e queriam passar o tempo. Quase. Os jornalistas britânicos têm demonstrado uma notável incapacidade de nuance desde o início da guerra na Ucrânia e evitaram a todo o custo apontar alguns factos incómodos, como o facto de os EUA terem derrubado o governo eleito da Ucrânia em 2014 e estarem a preparar-se para a tornar um país da NATO, armado com equipamento ocidental da NATO, enquanto permitem que ucranianos de etnia russa sejam bombardeados nas suas próprias casas. Ou como um tratado de paz que o Ocidente assinou com a Rússia era, na verdade, uma grande mentira e ninguém no Ocidente tinha qualquer intenção de o respeitar.

Mas, atualmente, o nível de desespero das elites ocidentais em relação à Ucrânia está atingindo patamares alarmantes. A Ucrânia está perdendo terreno na guerra e os chefes da OTAN estão com dificuldades para explicar isso. Assim, surgem mensagens confusas e contraditórias. Num instante, uma figura da OTAN afirma que os russos perderam um número recorde de tropas e que seus estoques de munição estão desesperadamente baixos, enquanto, no mesmo fôlego, outro figurão da OTAN, ou até mesmo um líder da UE, declara: "Os russos estão prestes a invadir e devorar a cabeça dos seus bebês". Essa contradição absurda ainda persiste e se repete. O próprio chefe da OTAN, Mark Rutte, que certa vez chamou Donald Trump de "papai", é um bufão da pior espécie e se destaca sozinho nessa competição de falar besteira. Recentemente, ele falou depreciativamente do ministro das Relações Exteriores da Rússia, ao mesmo tempo em que chamava o exército russo de "caracol de jardim". É claro que nenhum jornalista na sala iria lhe perguntar como ele conectava a lógica banal de a Rússia ser uma grande ameaça quando invade a Europa com o fato de ser tão insignificante e patética que seu próprio exército não consegue nem fazer um sanduíche de queijo para jogar no inimigo no campo de batalha. Ou, aliás, se o exército russo era tão insignificante, como o chefe da OTAN explica que, com trilhões de dólares em dinheiro e equipamentos militares, o Ocidente, junto com o exército ucraniano, não consegue derrotá-lo?

Perguntas constrangedoras. Algo que jornalistas não fazem mais. O mesmo pode ser dito sobre checagem de fatos e busca por especialistas. Simplesmente não se faz mais isso.

Tomemos como exemplo Alexei Navalny e a história absurda de que ele teria sido envenenado na prisão com uma toxina de rã. Coisa de filme de James Bond, você poderia dizer. Mas como é possível que nenhum jornalista ocidental se mostre cético em relação a essas últimas alegações, apresentadas estrategicamente a jornalistas ocidentais reunidos na Conferência de Munique? Jornalistas costumavam ser céticos em relação a qualquer informação que lhes fosse entregue livremente. Costumávamos fazer perguntas óbvias como "por que Putin se daria ao trabalho de assassinar um dissidente político quando, primeiro, ele já está preso e, segundo, devem existir milhares de outras maneiras mais práticas de eliminá-lo?". Por que o suco de rã? E, em segundo lugar, onde estão os especialistas? Sou velho o suficiente para me lembrar de que, sempre que uma história desse tipo era apresentada, a primeira reação de qualquer jornalista era procurar um especialista. É curioso como, em meio à enxurrada de artigos britânicos apontando o dedo para Putin e suas rãs sul-americanas, nenhum especialista foi consultado sobre a veracidade dessa alegação. Se o fizessem, talvez alguns deles pudessem simplesmente apontar que os sintomas que Navalny apresentou pouco antes de sua morte são completamente incompatíveis com o que a toxina do sapo faz quando entra em contato com a vítima. Ou, em segundo lugar, que para a dose ser administrada, seria necessário literalmente coletar a toxina de milhares de sapos? Ou, talvez o mais interessante, que não há dados algum sobre a persistência da toxina no corpo de alguém após dois anos. Apenas pontos menores que meus colegas poderiam ter incluído em seus artigos se tivessem se dado ao trabalho de consultar um especialista de alguma das renomadas universidades do Reino Unido.

A história de Navalny é apenas isso. Uma história que nunca será verificada e, portanto, se torna fato, assim como a recente ideia divulgada pela imprensa britânica de que a operação de sedução de Epstein foi, na verdade, uma operação da inteligência russa. Nenhuma informação foi apresentada, nenhum especialista foi consultado. A mídia agora é apenas uma estenógrafa das mentiras do Estado profundo, e a história da toxina do sapo venenoso é um bom exemplo de até onde essa nefasta campanha de desinformação pode chegar, assim como a ligação russa com Epstein. A imprensa britânica, ao que parece, está apaixonada por James Bond e seu papel em "Moscou Contra 007" e, por enquanto, está feliz em se entregar a esse espaço de Alice no País das Maravilhas, onde uma boa história é o que a torna boa. Ah, James.

As opiniões expressas pelos colaboradores individuais não representam necessariamente as da Strategic Culture Foundation.

https://strategic-culture.su/news/2026/02/19/bond-is-back-how-british-press-still-in-love-with-russian-movie-scripts/

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Helder Moura - (570) A arte de virar o bico ao prego

 * hélder moura

Sabíamos que essa história da ordem internacional baseada em regras era parcialmente falsa, Mark Carney, 1º Ministro do Canadá.

 Se não estão à mesa, estão no menu, Mark Carney.

Isto não é soberania. É a performance da soberania enquanto se aceita a subordinação.

  

No dia 20 de janeiro de 2026, Mark Carney, ex-banqueiro central e atual primeiro-ministro do Canadá, proferiu um notável discurso (vídeotranscrição) no Fórum Económico Mundial, em Davos.

Tratou-se aparentemente de um ataque à “ordem internacional baseada em regras”, o conceito que as nações ocidentais com impérios impuseram, promoveram e utilizaram para poderem justificar os seus inúmeros desvios e abusos ao direito internacional. Eis, o que entre outros, Carney disse:

 

“Esta noite falarei de uma rutura na ordem mundial, do fim de uma ficção agradável e do início de uma dura realidade onde a geopolítica – onde a grande potência dominante – não está sujeita a limites nem restrições. […]”

“[…] Parece que todos os dias somos recordados de que vivemos numa era de rivalidade entre grandes potências. De que a ordem baseada em regras está a desaparecer. De que os fortes fazem o que podem e os fracos devem sofrer o que devem.”

“[…] Durante décadas, países como o Canadá prosperaram sob aquilo a que chamávamos uma ordem internacional baseada em regras. Aderimos às suas instituições, elogiámos os seus princípios e beneficiámos da sua previsibilidade. Pudemos seguir políticas externas baseadas nesses valores sob a sua proteção.

Sabíamos que essa história da ordem internacional baseada em regras era parcialmente falsa. Que os mais fortes se isentariam quando lhes conviesse. Que as regras comerciais eram aplicadas de forma assimétrica. E que o direito internacional se aplicava com rigor variável consoante a identidade do arguido ou da vítima.

Esta ficção era útil, e a hegemonia americana, em particular, ajudou a fornecer bens públicos: rotas marítimas abertas, um sistema financeiro estável, segurança coletiva e apoio a mecanismos de resolução de litígios.

Assim, pendurámos a placa na janela. Participámos nos rituais. E, em grande parte, evitámos apontar as discrepâncias entre a retórica e a realidade.

Este acordo já não funciona.

Deixem-me ser direto: estamos no meio de uma rutura, não de uma transição.

Nas últimas duas décadas, uma série de crises nas áreas das finanças, da saúde, da energia e da geopolítica expuseram os riscos da integração global extrema.

Mais recentemente, as grandes potências começaram a utilizar a integração económica como arma. As tarifas como forma de pressão. Infraestrutura financeira como coerção. Cadeias de abastecimento como vulnerabilidades a explorar.

Não se pode “viver na mentira” do benefício mútuo através da integração quando a integração se torna a fonte da sua subordinação.”

“[…] E há outra verdade: se as grandes potências abandonarem até a pretensão de regras e valores em prol da busca irrestrita do seu poder e interesses, os ganhos do “transacionalismo” tornar-se-ão mais difíceis de replicar. As potências hegemónicas não podem monetizar continuamente os seus relacionamentos.

Os aliados diversificar-se-ão para se protegerem contra a incerteza. Contratarão seguros. Aumentarão as opções. Isto reconstrói a soberania – soberania que antes se baseava em regras, mas que estará cada vez mais ancorada na capacidade de resistir à pressão.

Como disse, esta gestão clássica do risco tem um preço, mas este custo da autonomia estratégica, da soberania, também pode ser partilhado. Os investimentos coletivos em resiliência são mais baratos do que cada um construir a sua própria fortaleza. Os padrões partilhados reduzem a fragmentação. As complementaridades são um resultado positivo.

A questão para as potências médias, como o Canadá, não é se se devem adaptar a esta nova realidade. Devemos. A questão é se nos adaptamos simplesmente construindo muros mais altos – ou se podemos fazer algo mais ambicioso.”

 

Mas, atenção: Carney não defende um regresso completo ao Estado de Direito. Não pede que o direito internacional seja aplicado de forma igual a todas as nações. Defende uma colaboração entre as "potências médias" para resistir à hegemonia e poderem continuar a explorar o resto do mundo:

 

“As potências médias devem agir em conjunto porque, se não estão à mesa, estão no menu.

As grandes potências podem dar-se ao luxo de agir sozinhas. Têm a dimensão do mercado, a capacidade militar, a influência para ditar as regras. As potências médias não. Mas quando negociamos apenas bilateralmente com uma potência hegemónica, negociamos a partir da fraqueza. Aceitamos o que nos é oferecido. Competimos entre nós para sermos os mais complacentes.

Isto não é soberania. É a performance da soberania enquanto se aceita a subordinação.

Num mundo de rivalidade entre grandes potências, os países intermédios têm uma escolha: competir entre si pela influência ou unir-se para criar um terceiro caminho com impacto.”

“[…] Não devemos permitir que a ascensão do poder coercivo nos impeça de ver que o poder da legitimidade, da integridade e das regras se manterá forte — se optarmos por exercê-lo em conjunto.”

 

Carney está a implorar aos vassalos da potência hegemónica que resistam coletivamente ao seu poder e, ao mesmo tempo, apelando às "médias potências" para que se juntem ao Canadá no novo clube.

Descartar a “ordem baseada em regras”, expô-la como a mentira que sempre foi, é um bom passo na direção certa. É uma mudança fundamental na forma de ver o mundo.

Mas também há que ter cuidado para não se cair na armadilha do significado que querem atribuir à ovação de pé que Carney escutou em Davos.

Recorde-se que os “liberais” como Carney, depois de patrocinarem o genocídio em Gaza, de saudarem o rapto de Nicolás Maduro, de celebrarem o bombardeamento do Irão, de apoiarem os ataques mortais contra Beirute e Iraque e aplaudirem o assassinato do governo do Iémen, de repente, quando Trump tenta tomar a Gronelândia, pregam a adesão ao direito internacional.

Recorde-se que estes mesmos líderes da França, Alemanha, Itália, Polónia, Reino Unido e outros, que numa declaração conjunta, afirmaram que o futuro da Gronelândia só poderia ser decidido “respeitando os princípios da Carta da ONU, incluindo a soberania, a integridade territorial e a inviolabilidade das fronteiras”, que pouco mais de duas semanas antes, tinham apoiado o ataque dos EUA à Venezuela e o rapto de Maduro.

A "ordem internacional baseada em regras" foi útil para alguns até deixar de o ser. Agora que foi declarada morta, fica a dúvida sobre que outro conceito fictício será inventado.

E quando os tidos como principais órgãos de comunicação social relatam que o discurso, escrito pelo próprio Carney, foi recebido com aplausos de pé, talvez queiram com isso dizer que os aplausos de pé possam ser tomados como prova de legitimidade, quando são meramente sinais de aprovação da elite.

É que talvez seja desta forma eficiente, educada e sob aplausos estrondosos que o modelo avança.  Provavelmente já nem está na fase de modelo ….

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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

Vladimir Putin - Discurso na 43ª Conferência de Segurança de Munique (2007)

 * Vladimir Putin 

Muito obrigado, estimada Senhora Chanceler Federal, Sr. Teltschik, senhoras e senhores!

Agradeço imensamente o convite para participar de uma conferência tão representativa, que reuniu políticos, militares, empresários e especialistas de mais de 40 países.

O formato de conferência me permite evitar a “polidez excessiva” e a necessidade de falar em clichês diplomáticos rebuscados, agradáveis, porém vazios. O formato de conferência me permite dizer o que realmente penso sobre os problemas de segurança internacional. E se meu raciocínio parecer aos nossos colegas excessivamente polêmico ou impreciso, peço que não se irritem comigo – afinal, isto é apenas uma conferência. E espero que, após dois ou três minutos da minha fala, o Sr. Telchik não acenda o “sinal vermelho” ali.


A natureza abrangente da segurança internacional
Assim, sabe-se que os problemas de segurança internacional são muito mais amplos do que as questões de estabilidade político-militar. Incluem a estabilidade da economia mundial, a superação da pobreza, a segurança econômica e o desenvolvimento do diálogo intercivilizacional.

Essa natureza abrangente e indivisível da segurança também se expressa em seu princípio básico: “a segurança de cada um é a segurança de todos”. Como disse Franklin Roosevelt nos primeiros dias da eclosão da Segunda Guerra Mundial: “Onde a paz é quebrada, a paz está em perigo e ameaçada em todos os lugares”.

Essas palavras continuam relevantes hoje. Aliás, isso também fica evidente pelo tema da nossa conferência, que está escrito aqui: “Crises globais – responsabilidade global”.

O Fim da Guerra Fria e suas Consequências
Há apenas duas décadas, o mundo estava dividido ideológica e economicamente, e sua segurança era garantida pelo enorme potencial estratégico de duas superpotências.

O confronto global relegou questões econômicas e sociais extremamente agudas à periferia das relações internacionais e da agenda política. E, como qualquer guerra, a “Guerra Fria” nos deixou com “balas não detonadas”, figurativamente falando. Refiro-me a estereótipos ideológicos, padrões duplos e outros padrões de pensamento de bloco.


O mundo unipolar proposto após a Guerra Fria também não se materializou.

A história da humanidade, é claro, conhece períodos de unipolaridade e desejo de dominação mundial. O que não aconteceu na história da humanidade?

As falhas de um mundo unipolar
Mas o que é um mundo unipolar? Não importa como esse termo seja rebuscado, na prática ele significa, em última análise, apenas uma coisa: um único centro de poder, um único centro de força, um único centro de tomada de decisões.

Este é um mundo de um único mestre, um único soberano. E isso é, em última análise, destrutivo não apenas para todos dentro deste sistema, mas também para o próprio soberano, porque o destrói por dentro.

E isso não tem nada a ver, obviamente, com democracia. Porque democracia é, como sabemos, o poder da maioria, levando em consideração os interesses e opiniões da minoria.


Aliás, na Rússia, nós somos constantemente ensinados sobre democracia. Mas aqueles que nos ensinam, por algum motivo, não querem realmente aprender.

Acredito que, para o mundo moderno, um modelo unipolar não é apenas inaceitável, mas também impossível. E não apenas porque, com uma liderança única no mundo moderno – precisamente no mundo moderno –, não haverá recursos militares, políticos ou econômicos suficientes. Mas, o que é ainda mais importante: o próprio modelo não funciona, pois não se baseia, nem pode ter, uma base moral e ética para a civilização moderna.

As consequências da unipolaridade
Ao mesmo tempo, tudo o que está acontecendo no mundo hoje – e nós apenas começamos a discutir isso – é consequência das tentativas de introduzir precisamente esse conceito nos assuntos mundiais: o conceito de um mundo unipolar.

E qual é o resultado?

Ações unilaterais, muitas vezes ilegítimas, não resolveram um único problema. Além disso, tornaram-se geradoras de novas tragédias humanas e focos de tensão. Veja você mesmo: não há menos guerras, conflitos locais e regionais. O Sr. Telchik mencionou isso de forma muito branda. E não há menos pessoas morrendo nesses conflitos, e até mais do que antes – significativamente mais, muito mais!


Hoje, testemunhamos um uso quase desenfreado e descontrolado da força nas relações internacionais, força militar, força que mergulha o mundo no abismo de conflitos sucessivos. Como resultado, não há forças suficientes para uma solução abrangente para nenhum deles. Sua solução política está se tornando impossível.

A Erosão do Direito Internacional
Observamos um crescente desrespeito aos princípios fundamentais do direito internacional. Além disso, normas individuais e, na verdade, quase todo o sistema jurídico de um Estado, principalmente os Estados Unidos, ultrapassaram suas fronteiras nacionais em todas as áreas: econômica, política e humanitária, e estão sendo impostas a outros Estados. Quem gostaria disso?

Nas relações internacionais, observa-se um desejo cada vez mais comum de resolver uma questão específica com base na chamada conveniência política, ou seja, de acordo com a conjuntura política vigente.

E isso é, obviamente, extremamente perigoso. E leva ao fato de que ninguém mais se sente seguro. Quero enfatizar: ninguém se sente seguro! Porque ninguém pode se esconder atrás do direito internacional como se fosse uma muralha de pedra. Tal política é, sem dúvida, um catalisador para a corrida armamentista.

O domínio do fator força inevitavelmente alimenta o desejo de vários países de possuir armas de destruição em massa. Além disso, surgiram ameaças fundamentalmente novas que já eram conhecidas, mas que hoje adquirem um caráter global, como o terrorismo.


A necessidade de uma nova arquitetura de segurança
Estou convencido de que chegamos a um ponto de virada em que devemos pensar seriamente sobre toda a arquitetura da segurança global.

E é aqui que devemos começar pela busca de um equilíbrio razoável entre os interesses de todos os agentes da comunicação internacional. Especialmente agora, quando o “cenário internacional” está mudando tão visivelmente e tão rapidamente – mudando devido ao desenvolvimento dinâmico de diversos estados e regiões.

O Chanceler Federal já mencionou isso.

Assim, o PIB combinado da Índia e da China, em termos de paridade do poder de compra, já é superior ao dos Estados Unidos da América. E o PIB dos países BRIC – Brasil, Rússia, Índia e China – calculado segundo o mesmo princípio, supera o PIB combinado da União Europeia. E, de acordo com especialistas, essa diferença só tende a aumentar na perspectiva histórica previsível.
 
Não há dúvida de que o potencial econômico dos novos centros de crescimento global se converterá inevitavelmente em influência política e fortalecerá a multipolaridade.

A importância da diplomacia multilateral
Nesse sentido, o papel da diplomacia multilateral está se tornando cada vez mais importante. Abertura, transparência e previsibilidade na política são imprescindíveis, e o uso da força deve ser uma medida verdadeiramente excepcional, assim como a pena de morte nos sistemas jurídicos de alguns Estados.

Hoje, pelo contrário, testemunhamos uma situação em que países onde a pena de morte é proibida até mesmo para assassinos e outros criminosos perigosos, participam facilmente de operações militares que dificilmente podem ser consideradas legítimas. E pessoas morrem nesses conflitos – centenas, milhares de pessoas pacíficas!

Mas, ao mesmo tempo, surge a questão: devemos observar com indiferença e covardia os diversos conflitos internos em cada país, as ações de regimes autoritários, tiranos, a proliferação de armas de destruição em massa? Essa foi, em essência, a base da pergunta feita ao Chanceler Federal pelo nosso estimado colega, o Sr. Lieberman. (Dirigindo-se ao Sr. Lieberman) Entendi sua pergunta corretamente? E, claro, esta é uma pergunta séria! Podemos observar com indiferença o que está acontecendo? Tentarei responder à sua pergunta também. É claro que não devemos observar com indiferença. É claro que não.


O papel da ONU na tomada de decisões internacionais
Mas será que temos os meios para combater essas ameaças? Claro que sim. Basta lembrar a história recente. Afinal, houve uma transição pacífica para a democracia em nosso país! Afinal, houve uma transformação pacífica do regime soviético – uma transformação pacífica! E que regime! Com que quantidade de armas, incluindo armas nucleares! Por que agora precisamos bombardear e atirar a cada oportunidade? Será mesmo verdade que, na ausência da ameaça de destruição mútua, nos falta cultura política, respeito pelos valores da democracia e da lei?

Estou convencido de que o único mecanismo para tomar decisões sobre o uso da força militar como último recurso é a Carta da ONU. E, a esse respeito, ou não entendi o que foi dito recentemente pelo nosso colega, o Ministro da Defesa italiano, ou ele se expressou de forma imprecisa. De qualquer forma, ouvi dizer que o uso da força só pode ser considerado legítimo se a decisão for tomada na OTAN, na União Europeia ou na ONU. Se ele realmente pensa assim, então temos pontos de vista diferentes. Ou talvez eu tenha entendido mal. O uso da força só pode ser considerado legítimo se a decisão for tomada com base e no âmbito da ONU. E não há necessidade de substituir as Nações Unidas pela OTAN ou pela União Europeia. E quando a ONU realmente unir as forças da comunidade internacional, que podem de fato responder aos acontecimentos em cada país, quando nos livrarmos do desrespeito ao direito internacional, então a situação poderá mudar. Caso contrário, a situação só chegará a um beco sem saída e multiplicará o número de erros graves. Ao mesmo tempo, é claro, devemos nos esforçar para garantir que o direito internacional tenha um caráter universal, tanto na compreensão quanto na aplicação das normas.

E não devemos esquecer que uma forma democrática de atuação política pressupõe necessariamente debate e tomada de decisões criteriosa.

A importância do desarmamento
Prezadas senhoras e senhores!

O potencial perigo de desestabilização das relações internacionais também está associado à evidente estagnação na área do desarmamento.


A Rússia defende a retomada do diálogo sobre essa questão crucial.

É importante manter a estabilidade do quadro jurídico internacional do desarmamento, garantindo ao mesmo tempo a continuidade do processo de redução das armas nucleares.

Concordamos com os Estados Unidos da América em reduzir nosso potencial nuclear em porta-aviões estratégicos para 1.700 a 2.200 ogivas nucleares até 31 de dezembro de 2012. A Rússia pretende cumprir rigorosamente suas obrigações. Esperamos que nossos parceiros também ajam com transparência e não guardem algumas centenas de ogivas nucleares extras por precaução, para uma “tempo de chuva”. E se hoje o novo Secretário de Defesa dos EUA anunciar que os Estados Unidos não esconderão essas ogivas extras em depósitos, nem “debaixo do travesseiro” ou “debaixo do cobertor”, sugiro que todos se levantem e aplaudam. Esta seria uma declaração muito importante.

A Rússia adere estritamente e pretende continuar a aderir ao Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares e ao regime multilateral de controle da tecnologia de mísseis. Os princípios estabelecidos nesses documentos são de natureza universal.

A necessidade de tratados universais de desarmamento
A este respeito, gostaria de lembrar que, na década de 1980, a URSS e os Estados Unidos assinaram um Tratado sobre a Eliminação de Toda uma Classe de Mísseis de Médio e Curto Alcance, mas este documento não teve caráter universal.


Atualmente, diversos países já possuem mísseis desse tipo: a República Popular Democrática da Coreia, a República da Coreia, a Índia, o Irã, o Paquistão e Israel. Muitos outros países do mundo estão desenvolvendo esses sistemas e planejam colocá-los em serviço. E somente os Estados Unidos da América e a Rússia são obrigados a não criar tais sistemas de armas.

É evidente que, nessas condições, somos obrigados a pensar em garantir nossa própria segurança.

O Perigo da Militarização do Espaço
Ao mesmo tempo, não podemos permitir o surgimento de novas armas de alta tecnologia desestabilizadoras. Nem estou falando de medidas para prevenir novas áreas de confronto, especialmente no espaço. “Guerra nas Estrelas”, como sabemos, não é mais ficção científica, mas realidade. Em meados da década de 80 [do século passado], nossos parceiros americanos interceptaram seu próprio satélite.

A militarização do espaço, na opinião da Rússia, poderia provocar consequências imprevisíveis para a comunidade internacional – nada menos que o início da era nuclear. E temos apresentado repetidamente iniciativas com o objetivo de impedir a entrada de armas no espaço.

Gostaria de informar hoje que elaboramos um projeto de tratado sobre a prevenção da colocação de armas no espaço sideral. Ele será enviado aos parceiros como uma proposta oficial em breve. Vamos trabalhar juntos nisso.


Preocupações com a defesa antimíssil na Europa
Também não podemos deixar de nos preocupar com os planos de implantação de elementos de um sistema de defesa antimíssil na Europa. Quem precisa de mais uma rodada da corrida armamentista que é inevitável neste caso? Duvido seriamente que os próprios europeus precisem.

Nenhum dos chamados países problemáticos possui armas de mísseis que possam realmente ameaçar a Europa, com um alcance de cerca de 5 a 8 mil quilômetros. E isso não deve acontecer num futuro próximo, nem mesmo é esperado. Um hipotético lançamento, por exemplo, de um míssil norte-coreano contra o território dos EUA através da Europa Ocidental contradiz claramente as leis da balística. Como dizemos na Rússia, é o mesmo que "tentar alcançar a orelha esquerda com a mão direita".

A crise no controle de armas convencionais
E, estando aqui na Alemanha, não posso deixar de mencionar o estado de crise do Tratado sobre Forças Armadas Convencionais na Europa.

O Tratado Adaptado sobre Forças Armadas Convencionais na Europa foi assinado em 1999. Ele levou em consideração a nova realidade geopolítica – a dissolução do Pacto de Varsóvia. Sete anos se passaram desde então, e apenas quatro Estados ratificaram este documento, incluindo a Federação Russa.

Os países da OTAN declararam abertamente que não ratificarão o Tratado, incluindo as disposições sobre limitações de flanco (sobre o destacamento de um certo número de forças armadas nos flancos), até que a Rússia retire suas bases da Geórgia e da Moldávia. Nossas tropas estão sendo retiradas da Geórgia, inclusive de forma acelerada. Resolvemos essas questões com nossos colegas georgianos, e todos sabem disso. Um grupo de 1.500 militares permanece na Moldávia, desempenhando funções de manutenção da paz e guardando depósitos de munição remanescentes da era soviética. O Sr. Solana e eu discutimos constantemente essa questão; ele conhece nossa posição. Estamos prontos para continuar trabalhando nessa direção.


Mas o que está acontecendo ao mesmo tempo? Simultaneamente, surgem na Bulgária e na Romênia as chamadas bases avançadas americanas, equipadas com cinco mil baionetas cada. Acontece que a OTAN está deslocando suas forças avançadas para as fronteiras do nosso país, e nós, cumprindo rigorosamente o Tratado, não reagimos a essas ações de forma alguma.

Expansão da OTAN e promessas quebradas
Creio que seja óbvio: o processo de expansão da OTAN nada tem a ver com a modernização da própria aliança ou com a garantia da segurança na Europa. Pelo contrário, é um fator de séria provocação que reduz o nível de confiança mútua. E temos todo o direito de perguntar francamente: contra quem se dirige esta expansão? E o que aconteceu às garantias dadas pelos parceiros ocidentais após a dissolução do Pacto de Varsóvia? Onde estão essas declarações agora? Ninguém sequer se lembra delas. Mas permitirei-me relembrar a esta plateia o que foi dito. Gostaria de citar o discurso do Secretário-Geral da OTAN, Sr. Wörner, em Bruxelas, a 17 de maio de 1990. Ele disse então: “O próprio facto de estarmos dispostos a não destacar tropas da OTAN para fora do território da RFA dá à União Soviética firmes garantias de segurança”. Onde estão essas garantias?

As pedras e os blocos de concreto do Muro de Berlim há muito se tornaram lembranças. Mas não devemos esquecer que sua queda também foi possível graças a uma escolha histórica, inclusive a do nosso povo – o povo da Rússia, uma escolha em favor da democracia e da liberdade, da abertura e da parceria sincera com todos os membros da grande família europeia.

Agora, eles estão tentando nos impor novas linhas divisórias e muros – virtuais, mas ainda assim divisivos, atravessando nosso continente comum. Será que realmente serão necessários muitos anos e décadas, uma mudança de várias gerações de políticos, para “desmantelar” e “desmontar” esses novos muros?

Não Proliferação Nuclear e Independência Energética
Prezadas senhoras e senhores!


Também somos a favor do fortalecimento do regime de não proliferação. O atual quadro jurídico internacional permite a criação de tecnologias para a produção de combustível nuclear para fins pacíficos. E muitos países, com razão, querem criar sua própria energia nuclear como base para sua independência energética. Mas também entendemos que essas tecnologias podem ser rapidamente transformadas em materiais para armas nucleares.

Isso está causando sérias tensões internacionais. Um exemplo claro disso é a situação com o programa nuclear iraniano. Se a comunidade internacional não desenvolver uma solução razoável para esse conflito de interesses, o mundo continuará sendo abalado por crises desestabilizadoras como essa, porque existem países mais vulneráveis ​​do que o Irã, e nós sabemos disso. Enfrentaremos constantemente a ameaça da proliferação de armas de destruição em massa.

No ano passado, a Rússia apresentou uma iniciativa para criar centros multinacionais de enriquecimento de urânio. Estamos abertos à ideia de que tais centros sejam criados não apenas na Rússia, mas também em outros países onde a energia nuclear pacífica exista em bases legítimas. Os Estados que desejam desenvolver energia nuclear poderiam ter a garantia de receber combustível por meio da participação direta nas atividades desses centros, sob o rigoroso controle da AIEA.

As últimas iniciativas do Presidente dos Estados Unidos da América, George Bush, estão em consonância com a proposta russa. Acredito que a Rússia e os Estados Unidos têm interesse objetivo e igual em reforçar os regimes de não proliferação de armas de destruição em massa e seus meios de lançamento. São os nossos países, líderes em potencial nuclear e de mísseis, que também devem liderar o desenvolvimento de novas e mais rigorosas medidas na área da não proliferação. A Rússia está pronta para esse trabalho. Estamos em consulta com nossos amigos americanos.

De um modo geral, deveríamos estar falando sobre a criação de todo um sistema de mecanismos políticos e incentivos econômicos – incentivos que fariam com que os Estados não tivessem interesse em criar suas próprias capacidades de ciclo de combustível nuclear, mas sim em ter a oportunidade de desenvolver energia nuclear, fortalecendo seu potencial energético.


Cooperação Internacional em Energia
A este respeito, abordarei com mais detalhes a cooperação energética internacional. A Chanceler Federal também mencionou brevemente este assunto, mas apenas de forma superficial. No setor energético, a Rússia está focada na criação de princípios de mercado e condições transparentes e uniformes para todos. É evidente que o preço dos recursos energéticos deve ser determinado pelo mercado e não ser objeto de especulação política, pressão econômica ou chantagem.


Estamos abertos à cooperação. Empresas estrangeiras participam dos nossos maiores projetos de energia. Segundo diversas estimativas, até 26% da produção de petróleo na Rússia — pensem bem nesse número — até 26% da produção de petróleo na Rússia é financiada por capital estrangeiro. Tentem, tentem me dar um exemplo de uma presença tão ampla de empresas russas em setores-chave da economia de países ocidentais. Não existem exemplos assim! Não existem exemplos assim.

Gostaria também de lembrar a vocês da proporção entre os investimentos que entram na Rússia e os que saem da Rússia para outros países do mundo. Essa proporção é de aproximadamente quinze para um. Eis um exemplo visível da abertura e da estabilidade da economia russa.

A segurança econômica é uma área em que todos devem aderir aos mesmos princípios. Estamos prontos para competir de forma justa.

A economia russa está a receber cada vez mais oportunidades para tal. Esta dinâmica é avaliada objetivamente por especialistas e pelos nossos parceiros estrangeiros. Assim, a classificação da Rússia na OCDE foi recentemente elevada: o nosso país passou do quarto para o terceiro grupo de risco. E gostaria de aproveitar esta oportunidade, hoje em Munique, para agradecer aos nossos colegas alemães pela sua colaboração na tomada da referida decisão.


A seguir. Como sabem, o processo de adesão da Rússia à OMC entrou em sua fase final. Gostaria de observar que, durante as longas e difíceis negociações, ouvimos mais de uma vez palavras sobre liberdade de expressão, liberdade de comércio e igualdade de oportunidades, mas, por alguma razão, exclusivamente em relação ao nosso mercado russo.

Pobreza global e desigualdade econômica
E outro tema importante que afeta diretamente a segurança global. Hoje, muito se fala sobre o combate à pobreza. Mas o que realmente acontece? Por um lado, recursos financeiros são destinados a programas de auxílio aos países mais pobres – e, às vezes, recursos consideráveis. Mas, honestamente, e muitos aqui também sabem disso, muitas vezes o objetivo é o “desenvolvimento” de empresas dos próprios países doadores. Ao mesmo tempo, por outro lado, nos países desenvolvidos, os subsídios à agricultura são mantidos e o acesso à alta tecnologia é limitado para outros.

E sejamos francos: acontece que a “ajuda humanitária” está sendo distribuída com uma mão, enquanto com a outra, não só o atraso econômico é preservado, como também os lucros são acumulados. A tensão social que surge nessas regiões deprimidas inevitavelmente resulta no crescimento do radicalismo e do extremismo, alimentando o terrorismo e os conflitos locais. E se tudo isso também acontecer, digamos, no Oriente Médio, em um contexto de crescente percepção de injustiça por parte do mundo exterior, então surge o risco de desestabilização global.

É óbvio que os principais países do mundo precisam reconhecer essa ameaça e, consequentemente, construir um sistema de relações econômicas mais democrático e justo no mundo – um sistema que dê a todos uma chance e uma oportunidade de desenvolvimento.

O papel da OSCE
Ao discursar em uma conferência sobre segurança, senhoras e senhores, não se pode deixar de mencionar as atividades da Organização para a Segurança e Cooperação na Europa. Como se sabe, ela foi criada para considerar todos – e eu enfatizo – todos os aspectos da segurança: político-militar, econômico, humanitário e suas inter-relações.


O que vemos na prática hoje? Vemos que esse equilíbrio está claramente violado. Estão tentando transformar a OSCE em um instrumento vulgar para garantir os interesses de política externa de um ou mais países em relação a outros. E o aparato burocrático da OSCE, que não tem absolutamente nenhuma ligação com os Estados fundadores, foi “adaptado” para essa tarefa. Os procedimentos de tomada de decisão e o uso das chamadas organizações não governamentais foram “adaptados” para essa tarefa. Formalmente, sim, independentes, mas financiadas propositalmente e, portanto, controladas.

De acordo com os documentos fundamentais na área humanitária, a OSCE é chamada a auxiliar os Estados-membros, a seu pedido, na observância das normas internacionais de direitos humanos. Esta é uma tarefa importante. Nós a apoiamos. Mas isso não significa interferir nos assuntos internos de outros países, muito menos impor a esses Estados como eles devem viver e se desenvolver.

É óbvio que tal interferência não contribui para a maturação de Estados verdadeiramente democráticos. Pelo contrário, torna-os dependentes e, consequentemente, instáveis ​​em termos políticos e econômicos.

Esperamos que a OSCE se guie pelas suas tarefas imediatas e que construa relações com os Estados soberanos com base no respeito, na confiança e na transparência.

Conclusão: O papel da Rússia nos assuntos mundiais
Prezadas senhoras e senhores!


Em conclusão, gostaria de observar o seguinte. Frequentemente, e eu pessoalmente, ouvimos apelos de nossos parceiros, incluindo parceiros europeus, para que a Rússia desempenhe um papel cada vez mais ativo nos assuntos mundiais.

A este respeito, permito-me fazer uma pequena observação. É improvável que precisemos ser pressionados ou estimulados a fazê-lo. A Rússia é um país com mais de mil anos de história e quase sempre gozou do privilégio de conduzir uma política externa independente.

Não vamos mudar essa tradição hoje. Ao mesmo tempo, vemos claramente como o mundo mudou, avaliamos realisticamente nossas próprias capacidades e nosso potencial. E, claro, também gostaríamos de trabalhar com parceiros responsáveis ​​e independentes, com quem pudéssemos construir uma ordem mundial justa e democrática, garantindo segurança e prosperidade não apenas para alguns privilegiados, mas para todos.

Obrigado pela sua atenção.

10 de fevereiro de 2007

https://singjupost.com/putins-famous-munich-speech-2007/
http://kremlin.ru/events/president/transcripts/24034]
tradução po AI

sexta-feira, 23 de janeiro de 2026

A barganha de Mark Rutte sobre a Groenlândia

A barganha de Mark Rutte sobre a Groenlândia
E a Dinamarca? E a UE? Não têm nada a dizer?

Há dias acabei um artigo com um poema de Fernando Pessoa (heterónimo Alberto Caeiro) . Hoje começo este com outro poema, no caso de Eduardo Alves da Costa, um poeta brasileiro não muito conhecido, texto que é erroneamente muitas vezes atribuído a Maiakovsky, talvez por causa de seu título:

NO CAMINHO, COM MAIAKOVSKI

Assim como a criança
humildemente afaga
a imagem do herói,
assim me aproximo de ti, Maiakósvki.
Não importa o que me possa acontecer
por andar ombro a ombro
com um poeta soviético.
Lendo teus versos,
aprendi a ter coragem.

Tu sabes,
conheces melhor do que eu
a velha história.
Na primeira noite eles se aproximam
e roubam uma flor
do nosso jardim.
E não dizemos nada.
Na segunda noite, já não se escondem:
pisam as flores,
matam nosso cão,
e não dizemos nada.
Até que um dia,
o mais frágil deles
entra sozinho e nossa casa,
rouba-nos a luz e,
conhecendo nosso medo,
arranca-nos a voz da garganta.
E já não podemos dizer nada.

Nos dias que correm
a ninguém é dado
repousar a cabeça
alheia ao terror.
Os humildes baixam a cerviz:
e nós, que não temos pacto algum
com os senhores do mundo,
por temor nos calamos.
No silêncio de meu quarto
a ousadia me afogueia as faces
e eu fantasio um levante;
mas amanhã,
diante do juiz,
talvez meus lábios
calem a verdade
como um foco de germes
capaz de me destruir.

Olho ao redor
e o que vejo
e acabo por repetir
são mentiras.
Mal sabe a criança dizer mãe
e a propaganda lhe destrói a consciência.
A mim, quase me arrastam
pela gola do paletó
à porta do templo
e me pedem que aguarde
até que a Democracia
se digne aparecer no balcão.
Mas eu sei,
porque não estou amedrontado
a ponto de cegar, que ela tem uma espada
a lhe espetar as costelas
e o riso que nos mostra
é uma tênue cortina
lançada sobre os arsenais.

Vamos ao campo
e não os vemos ao nosso lado,
no plantio.
Mas no tempo da colheita
lá estão
e acabam por nos roubar
até o último grão de trigo.
Dizem-nos que de nós emana o poder
mas sempre o temos contra nós.
Dizem-nos que é preciso
defender nossos lares,
mas se nos rebelamos contra a opressão
é sobre nós que marcham os soldados.

E por temor eu me calo.
Por temor, aceito a condição
de falso democrata
e rotulo meus gestos
com a palavra liberdade,
procurando, num sorriso,
esconder minha dor
diante de meus superiores.
Mas dentro de mim,
com a potência de um milhão de vozes,
o coração grita - MENTIRA!

Vem isto a propósito de como Mark Rutte decidiu entregar parte da Groenlândia aos EUA, concedendo-lhes o direito de instalar por lá as bases militares que entendessem e possuindo DE FACTO os territórios onde tais bases vierem a ser construídas.

Naturalmente, na versão de Donald Trump além dos locais onde tais bases venham a ser instaladas, os EUA possuiriam também todo o direito de explorar os recursos energéticos e minerais da grande ilha. Estamos portanto na fase em que os ladrões do poema de Maiakovsky já pisaram as flores.

Deve Mark Rutte ficar preocupado? Foi ele foi o cão que não ladrou quando a primeira flor foi roubada. Ele será a próxima vítima? Talvez não, dependendo de quem seja o seu dono.

De qualquer forma, está a esgotar-se o tempo da Dinamarca e seus supostos aliados europeus dizerem alguma coisa, antes que suas vozes lhes sejam arrancadas das gargantas

https://antoniojfgil.substack.com/p/mark-ruttes-greenland-bargain?