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quarta-feira, 22 de julho de 2026

Entrevista de Alexandra Lucas Coelho ao jornal Ágora

 


* Bruna Ribeiro e Lara Viana 

“O que aconteceu em Gaza representa o maior colapso do jornalismo internacional”

Entre Gaza, Afeganistão, Líbano e Palestina, Alexandra Lucas Coelho fez da reportagem um modo de atravessar conflitos e compreender o ser humano nos seus extremos. Nesta entrevista, aborda o drama de Gaza e considera que o mundo falhou por não pressionar Israel a favor do jornalismo.

 Como se apresentaria hoje: mais jornalista, mais escritora?

Continuo a ser jornalista isso não desaparece, tal como um médico nunca deixa de o ser. Mantenho a carteira profissional e volto à reportagem quando é preciso, como no Líbano e na Palestina depois de 7 de Outubro. Mas há vários anos que o meu trabalho principal são os livros: tenho romances em andamento e é nisso que concentro o meu tempo. Por isso, hoje sou sobretudo escritora, embora nunca deixe de ser jornalista.

domingo, 31 de maio de 2026

Ana Sá Lopes entrevista Carmen Garcia: “Chegámos a um ponto em que os animais são confundidos com humanos”

 Entrevista Podcast O que fazer quando tudo arde

Conversa com a enfermeira e colunista do PÚBLICO Carmen Garcia sobre envelhecimento e de como a sociedade trata os mais velhos: “Em Portugal, a entrada no lar é sinónimo da saída da sociedade”.

* Ana Sá Lopes

31 de Maio de 2026

Contrariando os seus pseudónimos “mãe imperfeita” e “enfermeira imperfeita”, Carmen Garcia, colunista do PÚBLICO, é perfeita a falar daquilo a que tem dedicado a sua vida: cuidar de idosos. No seu sotaque doce e alentejano, diz tudo o que está errado nesta sociedade idadista, em que “todos queremos chegar a velhos, mas [em que] ninguém quer ser velho”. E aponta a patologia de uma sociedade animalizada, em que a vida de um humano perdeu o valor face à vida de um animal.

O que é que hoje suscita mais compaixão à maioria das pessoas? Um idoso abandonado num lar ou um cão abandonado num canil?

Um cão abandonado num canil. O cão, obviamente. Ainda bem que temos leis que protegem os animais, mas ainda mal que não temos leis que protegem os mais velhos, porque na verdade não temos. Temos agora um estatuto, mas eu olho para esse estatuto quase como um apanhado de boas vontades. O estatuto, por enquanto, ainda é só uma ideia. Mas entre um velho e um cão eu não tenho nenhuma dúvida que a esmagadora maioria das pessoas escolhe o cão.

Há uma desumanização em curso.

Há uma desumanização em curso e uma animalização. Acho que estamos já um bocadinho dentro do campo da patologia. Há aqui uma parte em que acho que isto já não é normal, nem saudável. Tenho uma gata que adoro. Mas a minha gata não é a minha filha — é a minha gata. Chegámos a um ponto em que os animais são confundidos com humanos.

Há pouco tempo, numa discussão com uma colega, ela dizia que se houvesse um incêndio, não tinha dúvidas nenhumas, que entre uma pessoa que ela não conhecia de lado nenhum e o cão dela, ia tirar de lá o cão. Sou incapaz de compreender isto. Quer dizer, eu teria muita pena se acontecesse uma coisa destas à minha gata, mas, bolas, primeiro iria sempre tirar a pessoa.

Agora, isto piora muito se a pessoa, ainda por cima, for uma pessoa mais velha. Há uns anos, houve na minha cidade, Vendas Novas, no mesmo dia, à porta dos supermercados, duas campanhas. Uma era para angariar comida para os animais lá do canil e a outra tinha a ver com uma iniciativa para ajudar a população mais idosa. Foi uma coisa esmagadora, a diferença de adesão entre as duas coisas. A velhice não é sexy. A velhice é uma coisa que a gente arruma na gaveta, naquela gaveta que está fechadinha ao lado da nossa própria mortalidade.

Nós todos queremos viver muito e todos queremos chegar a velhos, mas ninguém quer ser velho. Vivemos presos nesta dualidade — queremos muito chegar lá, mas não queremos ser. Eu não sei se as pessoas ficam assustadas quando são confrontadas com a velhice dos outros, porque aquilo obriga-as a abrir a gaveta e a pensarem na sua.

Não somos uma sociedade que goste de velhos, e isso é notório para quem trabalha com estas pessoas todos os dias. E são pessoas que não têm voz. Apesar de tudo, os jovens têm alguma voz; apesar de tudo, enfim, alguns reformados que não sejam muito velhos também…

Os idosos que estão em lares não têm voz nenhuma. Até porque em Portugal a entrada no lar é quase sempre sinónimo da saída da sociedade. Eu às vezes tenho a sensação de que as portas dos lares de idosos só têm um sentido, que é o sentido da entrada.

A Carmen defende que os idosos devem ser cuidados em casa o máximo de tempo possível. Porque é que o Estado não coloca isto como prioridade?

Não percebo. Há idosos que objectivamente não podem ficar em casa. Mas a maioria dos idosos em Portugal, cerca de 96%, quando questionados, dizem querer envelhecer na sua casa, na sua rede de vizinhança. É o “aging in place”. Há sempre aqui dois ministérios ao barulho, esse é outro problema, o Ministério da Segurança Social e o Ministério da Saúde. Nós vivemos muitos anos, mas não vivemos assim com tanta saúde. Portanto, começa a ser impossível dissociar o que é segurança social do que é saúde.

Estas coisas têm de caminhar juntas. Só que eu acho que há um problema nestes ministérios; que estas pessoas, no fundo, gostavam mesmo era de trabalhar na IKEA. Gostavam, porque eles gostam mesmo é de gerir camas. Gerir camas, gerir camas, camas, camas. Se as camas fossem um problema real, não é?

Acha que o Governo prefere gerir camas?

Tenho de acreditar nisso, porque nós estamos todos os dias a ouvir: “Há não sei quantos internamentos sociais nos hospitais portugueses que custam não sei quantos milhões por ano ao SNS.” E depois a solução é sempre: “Vamos tirá-los deste internamento para outro.” Vamos abrir mais camas em lares, vamos abrir residências assistidas, vamos criar vagas daqui e dali.

Camas, camas, camas. Em vez de pensarmos “o que é que eu posso fazer para que estas pessoas possam voltar para a sua casa”, que foi o sítio de onde elas vieram?

Por exemplo, esta ideia de pagarmos 1800 euros por cama às instituições. Se calhar, se pegarmos nesses 1800 euros e os entregarmos às famílias, muitas delas conseguem parar de trabalhar, por exemplo. Porque também é esse o problema, não é? Infelizmente, em Portugal temos um longo histórico de não confiar nas famílias. Portanto, a gente prefere entregar o dinheiro às instituições.

Até daria para pagar a um cuidador privado.

Isso é a outra solução que eu defendo, que é um bocado intermédia — a criação dos vouchers. Ou seja, os vouchers poderem ser usados, esses 1800 euros não serem entregues em dinheiro, mas poderem ser descontados em serviços que tivessem sido aprovados previamente, por exemplo, de apoio domiciliário. Um cuidador diurno no horário de trabalho, uma cama articulada, um colchão antiescaras, serviços de reabilitação, de fisioterapia… Portanto, haver um conjunto de serviços previamente aprovados. E, se calhar, não precisavam de ser esses 1800 euros. Se calhar, se o Estado entregasse às famílias 1000, 1500 euros, já ficava a poupar e as pessoas voltavam para o sítio onde elas querem estar e onde deveriam estar, que é a sua casa.

Se calhar, não resolvíamos 100% dos casos, mas resolveríamos muito mais de 50%, seguramente. Mas a gente gosta mais de camas, de criar vagas. Camas, vagas, camas, vagas. É terrível. IKEA, a mentalidade IKEA.

Se a Carmen tivesse poder executivo, quais seriam as suas três primeiras prioridades?
A primeira era a promoção do Aging in Place. Não criava mais comissões. Ouvia quem está no terreno. A minha primeira medida era: criar aqui uma política nacional a sério de promoção do envelhecimento em casa, reforço daquilo que é o serviço de apoio domiciliário. E reforçar a dotação financeira, reforçar estas equipas, obrigar a que estas equipas tenham muito mais valências e garantir uma rede de teleassistência. Trabalho numa coisa dessas, não quero falar em causa própria.

Mas eu quero. Sei que está envolvida num projecto de Inteligência Artificial. Explique como é que a IA se pode adaptar ao cuidado de pessoas mais velhas.

Vou dizer o que é que nós fazemos no Alice, que é um acrónimo: Aging Longer Intelligent Care Environment. Por exemplo, a pessoa usa um relógio que é feito cá em Portugal, foi desenhado por nós. As funcionalidades foram desenhadas por mim. Aquele relógio, por exemplo, avisa a pessoa de que ela já está há muito tempo sem beber água. Avisa cada vez que a pessoa tem medicação para tomar. E a Inteligência Artificial aprende com os dados.

A pessoa anda com um sensor deste tipo, e aquilo, ao fim de duas semanas, já percebeu qual é o padrão de mobilidade da pessoa.

A pessoa tem um movimento qualquer que é incompatível com esse padrão. Ele dá alarme de uma queda. Sempre que a pessoa autoriza, nós damos o local onde a pessoa está e mais quatro coordenadas para trás.

Isto permite-nos o quê? Não só perceber onde é que a pessoa está, mas o trajecto que ela está a fazer. Há um tempo tivemos, por exemplo, um senhor que fugiu do sítio onde estava —​ ele não fugiu, tinha o portão aberto e saiu, na verdade. Era um senhor já demente. E percebeu-se logo, pelo movimento, que ele estava a ir em direcção ao monte onde tinha nascido e onde não vivia há 60 e tal anos.

O nosso call center tem enfermeiros 24 horas. Há um ponto em que a Inteligência Artificial não substitui o humano. Mas o interessante da Inteligência Artificial é isto: ela consegue ir aprendendo com a pessoa, vai-se alimentando dos dados e vai percebendo, acaba por ser muito mais seguro e muito mais personalizado.

Nós sabemos que aquela pessoa é alguém com um grande padrão de mobilidade. De repente, o relógio percebe que aquele padrão do dia não é bem igual.

A gente recebe um alarme, a enfermeira liga. Mas ainda assim tivemos de criar uma coisa chamada SOS Solidão, que tem imensa utilização, eu não esperava que tivesse tanta. Lá está, a tecnologia é muito importante e é uma grande ajuda, mas a parte humana conta.

Eu tornaria estes sensores obrigatórios. A gente fala de muita coisa, pensa em muita coisa e tem muito boa vontade, mas depois, na hora de avançar, criamos mais um gabinete, mais uma comissão, vamos nomear mais não sei quem, e as coisas não andam.

Portanto, se eu mandasse, as minhas três primeiras medidas eram todas direccionadas para o envelhecimento em casa, para permitirmos que as pessoas envelhecessem, as que o desejassem, com o máximo de condições possíveis na sua própria casa.

Como é que consegue fazer tanta coisa? Teve recentemente uma filha, já tem dois filhos, tem dois enteados, escreve para o PÚBLICO, trabalha, faz comida, publica livros...
Estou a escrever um agora, já devia ter acabado a semana passada.

Podemos saber o tema?

É uma história baseada numa história real. Este não fala de velhice, é baseado na história de um burlão, de um português que burlou imensas pessoas muito conhecidas, nomeadamente uma que não é muito conhecida, mas que sou eu, também caí lá. Foi uma burla pequenina, porque a burla também é proporcional à carteira de cada um. Mas vou contar essa história, sim.

Com tanta criança e tanta comida para fazer, caiu no caldeirão da poção mágica quando era pequenina.

Não, não há poção mágica nenhuma, vou tentando, com a consciência de que não consigo sempre. Devia ter acabado o livro há uma semana e não está, ainda me faltam três capítulos, e depois o processo todo de voltar a ler, de edição. As coisas todas que faço são coisas que me fazem feliz. O que eu já deixei cair há muito tempo — acho que deixei cair quando nasceu o Pedro, que é o meu filho mais velho, o meu filho que é surdo —, foi aquela ideia de tentar ser perfeita.

Não me interessa já. Não me interessa se os meus filhos estão com nódoas nas camisolas, não me interessa se a minha casa… eu adorava já ter feito obras na casa… Ou seja, interessa, mas não é prioritário, não me consome, não me tira o sono. Houve muitas coisas que antes me importavam e deixaram de me importar.

E daí a “mãe imperfeita”, o blogue que criou e se tornou um sucesso. Ficou admirada com o sucesso que criou?

Quando comecei a escrever aquilo, achava que estava a escrever para a minha irmã, para a minha outra irmã e para mais três ou quatro amigas. Aquilo foi crescendo mesmo sozinho, de verdade. E percebi que havia mais gente que, tal como eu, estava farta daquelas imagens de influencer, aquelas casas onde é tudo bege, aqueles tons de terra, tudo neutro, as crianças sempre todas vestidas de igual. E depois viajam imenso; eu não sei se consigo ir de férias para Armação de Pêra e aquela gente sempre nas Maldivas e... E o que eu percebi foi que começava a haver um sentimento de identificação do género: “A nossa vida é como a tua, não é como aquelas.”

Tento aproveitar as minhas redes para falar sobre as áreas que domino: para fazer educação para a saúde; para falar sobre envelhecimento; para contrariar a falsa ciência, que é uma praga. Portanto, para combater a desinformação.

Mas a maioria do conteúdo é o dia-a-dia, e o meu dia-a-dia não tem nada de especial: não tenho uma casa muito bonita; não faço comidas daquelas que a gente tem de ir buscar amores-perfeitos e pinças, não... Mas, de alguma forma, as pessoas identificaram-se.


https://www.publico.pt/2026/05/31/sociedade/entrevista/carmen-garcia 

domingo, 26 de abril de 2026

Entrevista a Ricardo Araújo Pereira



Ricardo Araújo Pereira: “A minha avó estabeleceu parâmetros que fazem com que eu tenha uma auto-estima bastante baixa”

Ricardo Araújo Pereira é o convidado da estreia do novo podcast de Ana Sá Lopes, na semana em que estreia o seu espectáculo de stand-up “Verificando se você é humano”.


Ana Sá Lopes e Tiago Orato (edição)

20 de Abril de 2026

Ricardo Araújo Pereira: “A minha avó estabeleceu parâmetros que fazem com que eu tenha uma auto-estima bastante baixa”

Ricardo Araújo Pereira é o primeiro convidado de O Que Fazer Quanto Tudo Arde, um podcast sobre os tempos que correm. Neste episódio, Ricardo Araújo Pereira descreve Donald Trump como uma “criança bêbada” e estávamos ainda em Março quando gravámos, ainda Trump não se tinha mascarado de Jesus Cristo. Falámos do riso e do Chega e da liberdade de expressão.

Há um mês, Ricardo Araújo Pereira estava a preparar o guião do seu espectáculo de stand-up comedy que estreia sexta-feira, no Porto. Na altura, o texto estava a ser “dolorosamente composto”. Ricardo diz que não é homem de palco, que é inseguro, e que tem uma auto-estima baixa: “A minha avó estabeleceu uns parâmetros que fazem com que eu tenha uma auto-estima bastante baixa”. Mas ter auto-estima baixa talvez seja o segredo do seu sucesso: “Tenho de me esforçar mais”.

O que fazer quando tudo arde está disponível na Apple PodcastsSpotifyYouTube e restantes aplicações para podcasts.

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 Ricardo Araújo Pereira: “Trump já é tão grotesco que qualquer deformação que a gente tente, falha”

Ricardo Araújo Pereira diz que não nasceu para o palco. “Há sempre uma relação de amor-ódio com o palco. Eu gosto daquilo, mas também tenho muito receio”. O seu primeiro solo estreou na sexta-feira.

Ana Sá Lopes

26 de Abril de 2026

Esta conversa com Ricardo Araújo Pereira é uma parte da entrevista que o humorista deu ao podcast O que fazer quando tudo arde”, que estreou no PÚBLICO na segunda-feira e que pode ser ouvido em todas as plataformas. A gravação desta conversa aconteceu em Março, quando Araújo Pereira ainda estava a preparar o guião do seu espectáculo de stand-up comedy que estreou no Porto na sexta-feira.

Donald Trump chegou a dizer que iria bombardear o Irão “for fun”, por divertimento. Julgávamos que o divertimento era coisa de humorista, mas parece que isto está estendido.

Sim, pois está. Uma coisa desse tipo não costumava ser frequente num estadista, não é? Dizer "eu vou continuar a bombardear este país "for fun", por diversão, é provavelmente uma das razões que tornam Trump incaricaturável, no sentido em que ele já é uma caricatura de tal modo grotesca que qualquer deformação que a gente tente, falha. Falha perante o original.

Como diz um amigo meu, que tem a mesma profissão que eu: nós estamos habituados a ser o mau aluno, o cábula; nós estamos na última fila a mandar bocas. Esse tipo de intervenção coloca Trump na última fila connosco, mas de uma forma grotesca justamente porque ele não está a brincar.

Já podemos falar em loucura de Trump? Fukuyama disse que o país mais poderoso do mundo está a ser governado por um rapaz de 10 anos…

Eu estava a escrever sobre isso no outro dia. Ele tem elementos de infantilidade e de embriaguez. Parece que estamos a lidar com uma criança bêbada, que é uma ideia muito perturbadora, uma criança estar bêbada. É difícil lidar com ele. Por exemplo, ele tem alguns dos indícios de infantilidade, aquele vocabulário tremendista. É o maior de sempre; são todos mentirosos. E isso é difícil de contrariar no mesmo sentido em que é difícil.

Quando a criança pergunta porque é que o Pai Natal ainda não chegou... Nós não discutimos racionalmente com a criança, não dizemos “olha, o Pai Natal não existe, na verdade, os presentes são...”. Nós dizemos: “Bom, ele está de facto a conduzir o seu trenó voador, mas está a passar em algumas outras casas de crianças antes de chegar à nossa”. Talvez esse seja o modelo para reagir a Donald Trump. Quando ele disse que os imigrantes estão a comer cães, animais de estimação em Springfield, Ohio, os jornalistas tentaram a abordagem racional: não existe nenhuma prova de que haja imigrantes a comer animais de estimação nessa cidade. Eu acho que era mais vantajoso dizer: “Sim, não há dúvida de que eles comem animais de estimação no Ohio, mas só quando o animal de estimação é um dragão”. E fornecer receitas de chanfana de dragão e de arroz de dragão. Isso baralha a criança, porque lhe indica que nós temos uma capacidade de efabulação superior à dela, o que perturba e transforma uma coisa má numa coisa boa.

Posso estar enganado, mas talvez o mundo devesse reagir dessa maneira. Eu até tive uma ideia para, quando ele quer renomear coisas, do género de renomear o Golfo do México. Às vezes é preciso fazer a vontade à criança bêbada, não é? A minha proposta era nós dizermos: “Sim senhor, o Canal do Panamá, vamos renomeá-lo em tua homenagem. Vai passar a chamar-se Canal do Suez, mas com O. Ficava o Canal do Soez, eu achRicardo Araújo Pereira: “Trump já é tão grotesco que qualquer deformação que a gente tente, falha”

Será o riso mais efectivo a combater o Chega do que a indignação? O deputado do PSD Gonçalo Capitão — ​que depois o Ricardo levou ao seu programa — ​desfez o Chega com muita graça.

São duas coisas muito diferentes. Às vezes, tenho até colegas que dizem que eu uso o humor para… eu fico horrorizado com isso, eu não "uso" o humor, o humor não é uma esfregona, não é uma coisa que se "usa". Às vezes os jornalistas perguntam-me isso, o humor serve para quê? Não serve para nada. Se alguém disser assim: para que é que serve a amizade? É uma pergunta absurda. Não se usa esse verbo para uma coisa como a amizade. Eu acho que é o mesmo para o humor. Mas o Gonçalo Capitão, ele sim, é um político que recorre ao humor; e aquilo produziu de facto um efeito espantoso. Até na cara dos deputados do Chega se via, eles estavam meio assarapantados; este tipo, pareciam estar a dizer, “este tipo não se deixou horrorizar por nós”.

O meu momento favorito da intervenção do Gonçalo Capitão foi quando eles estão lá a esbracejar e a gritar, e ele diz: “Ó senhor deputado, esteja à vontade, eu adoro barulhos disruptivos; eu também já pertenci a uma claque organizada”. E isso foi uma coisa mesmo muito desarmante. Muito mais desarmante do que a indignação, acho eu, na qual eles medram.

O riso serve para alguma coisa, serve. O riso é um grande antídoto da tragédia. Quando foi a pandemia de covid, por exemplo...

Na altura, tínhamos acabado de ser contratados pela SIC, e o Daniel Oliveira, o director de programas, disse assim: “Vocês agora com isto da pandemia querem continuar ou esperamos que isto passe?”. Disse ele ingenuamente, não sabendo, ninguém sabia que aquilo ia levar um ano ou dois a passar. E nós, fanfarronamente, dissemos... Não, vamos, é um desafio interessante, precisamente por causa disso. O país e o mundo todo estava numa fase inédita… Nós queríamos era que ficasse claro o seguinte, aqui não há sentimentalismo, ou seja, nós nunca usámos a frase “vai ficar tudo bem”. Nunca. Uma frase que foi inventada por uma criança em Itália... É óbvio que foi uma criança a inventar isso. Era uma coisa de wishful thinking provavelmente bem-intencionada, mas sem nenhuma base.

Interessava-me bastante, na altura, fazer pouco das nossas insuficiências. Há ali um momento em que nos dizem: “O vírus fica nas superfícies”. E a gente começa a lavar as compras, as uvas uma a uma e tal, a desinfectar aquilo, tirar a roupa toda, pôr na fogueira, assim. De repente passam duas semanas e diz a Organização Mundial de Saúde: afinal o vírus não fica nas superfícies, não há problema, não...

E pronto, esses avanços e recuos, essa nossa incapacidade muito humana de lidar com uma coisa inesperada, inédita, andarmos todos a apalpar terreno, incluindo os cientistas, é uma coisa interessante e que me interessa a mim, como palhaço.

Porque, como palhaço, uma das coisas que me interessam é verificar que às vezes a razão, a razão tão importante, tão... tão senhora de si... tem falhas. Às vezes, os sentidos percebem melhor a realidade do que ela. Às vezes, é daí que o riso nasce. Uma espécie de vingança filosófica do pequeno contra o grande. E o facto de os cientistas nessa altura estarem tão à nora como nós em certos momentos era engraçado.

O Ricardo vai fazer agora o seu primeiro espectáculo a solo de stand-up comedy.

Isto é o meu trabalho. O que é estranho é eu nunca ter feito isto. Eu não nasci para isto, sabe?

Não?
Não. Onde eu me sinto confortável é em casa, a escrever o texto, ou com os meus amigos a escrever o texto, no domingo, desde manhã até à noite... quando ninguém nos está a ver, em que valem todos os raciocínios, por mais experimentais que sejam, por mais desrespeitosos que sejam. Esse acto de compor o texto meticulosamente é o que eu entendo como o meu trabalho. Ir apresentar o programa a seguir, eu já estou de férias.

 Eu não nasci para o palco. Há sempre uma relação de amor-ódio com o palco. Eu gosto daquilo, mas também tenho muito receio. Acho que assim percebe melhor: o João Baião nasceu para aquilo, para estar em cima do palco. Compreende a diferença entre mim e o João Baião? Quando se faz stand-up é um microfone e um texto e mais nada, sou eu contra um bicho que tem cinco mil cabeças ou 10 mil cabeças. É um bicho assustador de 15 mil cabeças no caso do Meo Arena, acho eu. E sou eu contra esse bicho. Isso é aterrorizador ao mesmo tempo que é interessantíssimo.

Já tem o guião pronto?

Está a ser dolorosamente composto, com muitas dúvidas existenciais, muito choro no ombro de colegas de profissão. Muita falta de confiança, muita...

O Ricardo tem falta de confiança?

Imensa.

É uma pessoa insegura?

A minha avó estabeleceu uns parâmetros que fazem com que tenha uma auto-estima bastante baixa. E acho que isso é óptimo. O segredo da minha vida é esse. Tendo uma auto-estima bastante baixa, tendo uma noção das minhas incapacidades e da minha insignificância, tenho que me esforçar mais. Tenho que me esforçar mais, tenho que batalhar, tenho que ir mais além. E isso foi óptimo para mim.

Ninguém olha para si e diz que tem auto-estima baixa. Quando aparece aos domingos na televisão, você é o maior.

Ah, tenho de simular confiança, sim. Tenho de simular confiança. Repare, por exemplo, no stand-up do Woody Allen. Ele é titubeante de propósito. Mas ali, apesar de tudo, acho que se pode argumentar que ele demonstra confiança. Eu acho que o público sente isso. Fingir essa confiança é decisivo.

Há vários modos de dominar um palco no stand-up. Há pessoas que são histriónicas como o Robin Williams e enchem o palco. Há outras que são calmas e estão sossegadas no seu sítio e dizem só frases e fazem a gestão de silêncios. E ambas estão a dominar o palco maravilhosamente.

Um método não é superior ao outro. É o método que melhor se afeiçoa à pessoa que está a fazê-lo. Mas, sim, recomendo auto-estima baixa a toda a gente

A minha colega Joana Marques entretém-se e fica maravilhada com pessoas que têm auto-estima muito alta. Quando uma pessoa se tem em grande conta e é o Leonardo da Vinci a gente diz: “Eh pá, Leonardo, está bem, és o maior; já sei, é verdade, mas é feio estares constantemente a dizer isso”. Quando não somos o Leonardo da Vinci, quando estamos muito longe de ser o Leonardo da Vinci, além de feio, é ridículo, não é?


sexta-feira, 24 de abril de 2026

Entrevista a Pedro Lauret: “Há uma intenção política clara de obliterar o 25 de Abril”

Aos 77 anos, em entrevista ao Expresso, o Capitão de Mar e Guerra na reforma lembra o que provocou a Revolução e o trabalho feito pelos militares de Abril para pôr de pé os alicerces do Estado democrático. Um trabalho “sem paralelo” na História que considera nunca ter sido devidamente reconhecido

* Joana Pereira Bastos, Jornalista

Pedro Lauret tinha 25 anos quando se juntou à conspiração de militares que levou ao 25 de Abril, integrando o primeiro grupo de ligação da Marinha ao Movimento dos Capitães. E fez parte da pequena comissão que redigiu o Programa do Movimento das Forças Armadas, no qual ficou escrito o rumo a seguir no país: liberdade e democracia, paz e descolonização. Aos 77 anos, em entrevista ao Expresso, o Capitão de Mar e Guerra na reforma lembra o que provocou a Revolução e o trabalho feito pelos militares de Abril para pôr de pé os alicerces do Estado democrático. Um trabalho “sem paralelo” na História que considera nunca ter sido devidamente reconhecido. E que acusa de estar agora a ser intencionalmente menorizado pelo Governo.

Como interpreta o bloqueio do Governo ao Museu do 25 de Abril?

O 25 de Abril é uma das datas mais importantes da História de Portugal, porque derruba uma ditadura longuíssima, quebra o ciclo colonial e permite que, pela primeira vez, se realizem eleições livres e se institua uma democracia. Era fundamental ter um espaço museológico que preservasse esta memória, mas o Governo não quer que isso aconteça. Há uma intenção política clara de obliterar o 25 de Abril e branquear a ditadura, porque este Governo tem na extrema-direita o seu aliado preferencial e, para isso, convém-lhe menorizar a Revolução. Tudo o que seja feito para enaltecer o 25 de Abril não lhe interessa. Mas este apagar da História é criminoso. E os capitães de Abril, então, estão a ser completamente votados ao esquecimento. Mas isso já acontecia, mesmo antes desta conjuntura

Porque diz isso?

Nunca houve um grande reconhecimento do poder político, no geral, em relação aos capitães que fizeram o 25 de Abril. E isso vê-se em várias coisas. Por exemplo, até ao final do mandato de Jorge Sampaio tinham sido condecorados apenas os militares que fizeram parte do Conselho da Revolução e da Comissão Coordenadora [do MFA] e, mesmo no último dia do mandato, foram condecorados mais 15, que foram os comandantes das unidades que saíram no dia 25 de Abril. O Mário Soares não condecorou, individualmente, um único, mas apenas os estandartes das unidades. E a maioria continua até hoje sem ter a Ordem da Liberdade. Por outro lado, se olharmos para a toponímia de Lisboa, as ruas estão cheias de referências aos heróis do Liberalismo e da República, mas não se veem ruas com nomes dos militares de Abril. As nossas carreiras militares foram todas feitas em cacos. E hoje em dia considera-se que os ‘pais da democracia’ são o Mário Soares, o Freitas do Amaral, o Sá Carneiro... e os capitães são esquecidos. No discurso político e mediático, é como se não existissem. E mesmo no âmbito das Comemorações dos 50 anos, houve muito pouco envolvimento dos capitães no programa. Tudo isto entristece-nos e revolta-nos bastante. E não é por vaidade, mas por uma questão de justiça e de verdade histórica.

A que acha que se deve essa falta de reconhecimento por parte do poder político?

Acho que há razões profundas. A oposição civil à ditadura sempre esteve muito dividida e nunca teve uma estratégia consistente para derrubar o regime. E foram os militares que, sozinhos, conseguiram fazê-lo. Um grupo de miúdos com 25, 30 anos que em nove meses fizeram uma conspiração e em 18 horas deitaram abaixo a ditadura. Acho que os políticos da altura sempre tiveram algum ciúme em relação a isso. E apesar de já terem passado uma ou duas gerações, isso permanece. Para os políticos, os militares são um incómodo. Mas o que fizemos é notável e não há, na história mundial, nenhum outro exemplo de militares que tenham feito um golpe e não tenham querido ficar com o poder. Tal como prometemos, um ano depois fizeram-se as primeiras eleições livres. E tivemos de fazer tudo para as pôr de pé, montando uma operação extraordinária para fazer o recenseamento e os cadernos eleitorais.

A instauração da democracia era consensual entre todos os militares de Abril?

Os militares eram pouco politizados, de um modo geral. Para ser sincero, muitos nem sabiam bem o que era isso da democracia. A vida de um oficial do Exército era muito difícil. Estava dois anos em comissão [na guerra], vinha para cá um ano e pouco e voltava novamente. Uma vida destas não dava para fazer grandes reflexões políticas. A preocupação era sobreviver. O que motivou os militares para o golpe foi a necessidade de acabar com a guerra, a partir do momento em que se tornou evidente que ela estava perdida.

“Os militares eram pouco politizados, de um modo geral. Para ser sincero, muitos nem sabiam bem o que era isso da democracia”

Em que momento isso aconteceu?

Em março de 1973, na Guiné, quando o PAIGC [movimento independentista da Guiné] adquiriu à União Soviética uma nova arma que mudou tudo: os mísseis antiaéreos. No mesmo mês abateram dois Fiat, que eram os nossos aviões mais sofisticados, e logo em maio abateram três no mesmo dia. A partir daí, a nossa Força Aérea deixou de conseguir, com a mesma eficácia, contrariar os ataques e fazer a evacuação de feridos. A guerra estava perdida e não estávamos dispostos a ser sacrificados. Além disso, o regime foi incompetente e criou uns decretos que punham os milicianos à frente dos outros, o que criou ainda mais descontentamento, mas a questão central não foi essa. Foi acabar com a guerra. E, a dada altura, percebemos que a única maneira de o fazer era derrubando o regime. Foi isso que motivou a conspiração.

Participou na conspiração desde o início?

Sim. Fiz parte do primeiro grupo de ligação da Marinha ao movimento dos capitães. O planeamento militar do golpe não teve dificuldade nenhuma e correu rapidamente. Em janeiro de 1974, a estratégia estava delineada. Depois faltava a parte política, que foi mais complicada. Só se começa a falar disso em fevereiro ou março, já às portas do 25 de Abril. E enquanto que a ordem de operações foi muito falada e discutida, o programa [político] foi muito restrito e feito por um núcleo muito pequeno. O Melo Antunes, que era dos oficiais do Exército mais politizados, e alguns oficiais da Marinha, nomea­damente o Martins Guerreiro, o Almada Contreiras e eu próprio, trabalhámos no documento político quase clandestinamente dentro do próprio movimento.

O programa político foi facilmente aceite por todos?

A grande maioria dos militares envolvidos no 25 de Abril não teve conhecimento do programa político até ao golpe. Mas nunca houve nenhuma contestação. A partir do momento em que se dá o 25 de Abril, o programa foi assumido por todos. Foi à militar: “Este é o nosso programa, temos de o cumprir.” E cumprimos. No programa do MFA estava escrito: no prazo máximo de um ano tem de ser eleita uma assembleia constituinte para fazer uma nova Constituição; quando ela estiver pronta, serão eleitos os órgãos de soberania que nela estiverem previstos. Assim foi. No dia 25 de Abril de 1975 formou-se a Assembleia Constituinte por sufrágio universal, no ano seguinte estava pronta a Constituição, que fez este mês 50 anos, e foi eleita a primeira Assembleia da República, o primeiro Presidente da República democraticamente eleito, os Governos Regionais dos Açores e da Madeira e os órgãos das autarquias locais. E os militares saíram de cena. Mas fomos nós que construímos os alicerces da democracia e isso nunca foi devidamente reconhecido. E hoje menos ainda.

23 abril 2026  

https://expresso.pt/politica/2026-04-23-

segunda-feira, 1 de dezembro de 2025

Presidenciais 2026 - Entrevista a André Ventura

Ventura assume que falhar segunda volta das eleições presidenciais "é mau e é uma derrota"

Líder do Chega assume que, para 18 de janeiro, objetivo é "ganhar" ou garantir passagem à segunda volta. "Não há como mascarar a realidade se isso [não passar à segunda volta] acontecer", assume.

* Agência Lusa, Texto

O candidato presidencial André Ventura admite que não passar a uma segunda volta das eleições de janeiro será uma derrota e que, se lá chegar, será uma batalha difícil, porque estarão “todos contra” si.

“Eu estou a levar esta eleição em duas etapas. Há uma meta que é o dia 18 [de janeiro], nessa meta nós queremos vencer ou passar à segunda volta das eleições. Portanto, isto significa ou primeiro ou segundo lugar, e acho que estamos bem encaminhados para isso”, afirmou.

Em entrevista à agência Lusa no âmbito das eleições presidenciais de 18 de janeiro, o candidato a Belém admitiu que, se não conseguir cumprir o objetivo de passar a uma eventual segunda volta, “é mau e é uma derrota”.

“Se não estiver [na segunda volta], é sinal de que o Chega e eu próprio não atingimos nesta eleição o objetivo. Não há como mascarar a realidade se isso acontecer, porque é praticamente impossível ter um valor próximo das legislativas e não ir à segunda volta”, disse, referindo que “não atingir um valor próximo significaria que houve um voto de não acompanhamento por parte do eleitorado”.

“É uma derrota, só em partidos estalinistas ou leninistas é que as derrotas se tornam vitórias. Há momentos que são de derrota e há momentos que são menos bons na vida política. Saber assumi-lo é também um ato de grandeza democrática”, sustentou André Ventura.

O candidato a Presidente da República e líder do Chega indicou que o partido “continuará o seu caminho” e ele próprio fará “a avaliação que tiver que fazer disso”.

“Saberei ler os sinais que o eleitorado transmitir, mas evidentemente que se não for à segunda volta não foi um resultado positivo. Mas estou mesmo convencido que isso não vai acontecer, estou mesmo convencido que vamos ter uma segunda volta e que eu estarei nessa segunda volta”, salientou.

Ventura considerou que essa será a “batalha mais difícil, talvez da [sua] vida toda”, porque acredita que “se vão juntar todos” contra si, que “o sistema todo vai se juntar contra a candidatura”.

“Eu acredito que seja possível ganhá-la, mas vai ser uma luta muito difícil para mim e para o país”, admitiu.

“Seja quem for o adversário, mesmo que o adversário fosse, ou venha a ser, António José Seguro, tenho praticamente a certeza de que o PSD vai recomendar o voto em António José Seguro, porque sabe que eu sou uma ameaça ao ‘statu quo’ e uma ameaça ao domínio das instituições por estes dois partidos”, disse, antecipando que pode acontecer o mesmo com Gouveia e Melo ou até António Filipe.

O candidato mostrou-se também curioso sobre o que fará o PS caso venha a disputar uma segunda volta com Luís Marques Mendes: “Não que eu queira o apoio do PS, o mais distante disso possível, mas é curioso verificar se o PS vai entrar na segunda volta dizendo para se votar em Marques Mendes”.

André Ventura disse também não ter um adversário preferencial para a segunda volta, mas está convencido de que será Henrique Gouveia e Melo, e assumiu-se como “o adversário mais difícil na primeira volta”, mas “o mais fácil” de derrotar numa segunda.

Ventura dissolve Parlamento se houver “suspeita de corrupção grave” envolvendo primeiro-ministro

O candidato presidencial André Ventura dissolvia o parlamento e convocava eleições antecipadas perante um caso de “suspeita de corrupção grave” sem explicação convincente, envolvendo um primeiro-ministro, mesmo que o Governo fosse suportado por uma maioria absoluta.

“Para ser o mais claro e não estar aqui com reservas mentais, se um primeiro-ministro, por muita estabilidade que tivesse, inclusive se tivesse uma maioria absoluta, for suspeito de corrupção, não conseguir explicar essas suspeitas, e a informação que for dada ao Presidente da República é de que estas suspeitas são sérias, fundamentadas, fundadas e com indícios fortes, então eu acho que, nesse caso, com uma suspeita de corrupção grave, nós devemos dissolver a Assembleia da República e chamar o país a votos”, afirma o candidato a Belém em entrevista à agência Lusa.

Ventura admite que, perante novas eleições, o país poderia renovar a confiança no mesmo primeiro-ministro, criando “um drama institucional para um Presidente da República”.

“Eu tenho um perfil ativo, enérgico, e é assim que eu espero ser até ao final da minha vida. E, portanto, se tivesse que agir num caso de corrupção, agiria. Mas serei o mais ponderado possível para garantir que não lanço o país na instabilidade”, assegura.

O também líder do Chega refere-se a um cenário abstrato, apesar de o seu ponto de partida ser o caso da antiga empresa do primeiro-ministro, Luís Montenegro, que este passou aos filhos depois de uma polémica mediática que levou o Ministério Público a abrir um inquérito preliminar ainda sem resultado conhecido.

André Ventura considera que, no caso Spinumviva, acima de tudo “tem faltado a este primeiro-ministro” explicações.

“O caso Spinumviva tem características graves devido às suspeitas, não estou a dizer que elas são reais ou não, mas às suspeitas, enfim, de recebimento do indivíduo de dinheiro, etc. Isso é grave. Se eu fosse Presidente da República e o processo vier a desenvolver-se nos termos em que venha a desenvolver-se e o Ministério Público entender que deve avançar para um inquérito, o que significa que o primeiro-ministro será constituído arguido, acho que era importante, e é o que eu direi ao primeiro-ministro, que dê explicações não só em sede de justiça, mas também ao país”, precisou, acrescentando: “Eu avaliarei a sustentabilidade dessas declarações do ponto de vista da sua razoabilidade e da credibilidade que elas mereçam”.

“Não sou eu o juiz, evidentemente, mas é o Presidente da República, em funções naquele momento, que tem que dar uma palavra ou de confiança ou de entender que as instituições estão em causa e que não deve continuar”, sustenta.

“Eu tenho muitas críticas ao primeiro-ministro atual, mas consigo ter uma conversa com o primeiro-ministro. Acho que conseguiria dizer ao primeiro-ministro ‘isto são suspeitas graves, o que o primeiro-ministro tem que fazer é explicá-las e dar uma explicação sobre elas’ e exigir-lhe que fizesse isso”, acrescenta.

Ventura considera que “seria possível” levar o primeiro-ministro e evitar “um cenário de deterioração permanente”.

Caso se chegasse “a um ponto, enfim, que o primeiro-ministro fosse, tal como outros atores políticos, acusado, aí até há trâmites legais que são próprios, mas se as suspeitas fossem condensadas, evidentes e notórias, então eu acho que nem era preciso dizer ao primeiro-ministro para sair, eu acho que sairia pelo seu próprio pé”.

“Se eu for Presidente da República, espero que nunca aconteça e também não vejo nenhum motivo para isso, e houvesse uma acusação contra mim de corrupção, de desvio de dinheiro público, de enriquecimento ilícito, eu próprio, chegando ao momento de ver que havia coisas fundadas e reais, não tinha outra forma senão ir-me embora e sair”, conclui André Ventura.

Durante a entrevista, o candidato questionou a forma de nomeações para as instituições do Estado e empresas públicas, que considerou deverem ser repensadas, inclusivamente o caso do procurador-geral da República, apesar da consideração que disse ter para com o atual titular, Amadeu Guerra.

“Mas quando temos um sistema que nomeia o procurador-geral da República e é este procurador-geral da República, depois, que vai investigar quem o nomeou, é sempre um sistema frágil e é sempre um sistema que gera dúvidas de independência e de imparcialidade”, sustenta, alegando que o mesmo se passa com os titulares dos tribunais superiores e do Tribunal Constitucional.

“Faz sentido que o tribunal que controla os partidos políticos, e eu agora estou à vontade porque até somos o segundo maior partido, podíamos ter interesse em manter isto como está, derive destes próprios partidos políticos. Não seria de pensar isto como um todo, do ponto de vista de garantir a independência e a imparcialidade destas pessoas? Poderia ser o Presidente?”, questiona, concluindo: “Acho que temos que repensar um sistema que dê garantias de menor interferência política.

Ventura quer revisão constitucional para tornar Presidente um “ator político decisivo”

André Ventura defende uma revisão constitucional que reforce os poderes do Presidente da República, transformando-o num “ator político decisivo”, e promete “conduzir o país politicamente” a partir do Palácio Belém, designadamente com propostas concretas para a Justiça.

“A Constituição tem que consagrar um presidente que tem que ser mais do que um moderador. O presidente tem que ser um ator político decisivo, porque tem uma legitimidade política decisiva” que lhe advém de ser eleito diretamente com mais de 50% dos votos, justifica André Ventura, em entrevista à agência Lusa no âmbito da campanha para as eleições de 18 de janeiro.

O também líder do Chega considera que, no sistema atual, o “poder real” do Presidente da República “é o poder de veto, o poder de promulgar ou não promulgar, e esse poder, se não for utilizado, ou se não tiver capacidade e extensão de ser utilizado, nos casos mais dramáticos da vida nacional, acaba por ter pouca expressão”, tornando o chefe de Estado numa “espécie só de reduto de influência”.

“Se queremos levar a sério o cargo de presidente e justificar o salário que lhe pagamos, e o que gastamos com a presidência da República, então o presidente também tem que ter poderes concretos e reais”, sustenta.

Ventura entende que o presidente “não deve estar a ser um bloqueio, nem uma marioneta, nem uma muleta do Governo”, mas “deve ter os poderes mais especificados do ponto de vista do controlo, do escrutínio, da fiscalização” para que se saiba claramente “em que águas se move”, alegando que “isso hoje não é absolutamente claro”.

A partir de Belém, o também líder do Chega admite que não pode fazer propostas de revisão da lei fundamental, mas pode influenciá-lo.

“Se for Presidente da República, não terei o poder de fazer leis no parlamento, isso é uma evidência. Mas estou convencido de que não há nenhuma outra figura com tanta legitimidade e capacidade de influenciar o parlamento, até num processo de revisão constitucional, como o Presidente da República”, advogou.

Entre críticas a Marques Mendes e a “conversas de chacha” de Marcelo Rebelo de Sousa, André Ventura defende que seria importante eleger, pela primeira vez, um chefe de Estado “fora deste sistema partidário PS-PSD”, que nos 50 anos de vida democrática tem feito pactos na Saúde, Finanças, banca, “em tudo o que é setor público ou com influência pública”. Seria “uma garantia de independência e de luta contra o sistema”.

Mais do que romper com o sistema, o deputado e líder do Chega considera que “talvez a independência aqui até seja mais relevante”, aproveitando para atacar o seu adversário e ex-líder do PSD, Luís Marques Mendes, por “estar sempre a falar de independência”, mas ser “a linha direta, o apoio de Luís Montenegro, que é primeiro-ministro”.

“Ora, os portugueses gostam e querem um presidente que fiscalize a ação do governo, não um presidente que seja ou um pau-mandado, ou alguém condicionado pelo governo”, argumenta, acrescentando: “se é um presidente que tem conluio com o governo, isso não é bom para a democracia, é mau. E por isso eu percebo esta ansiedade [de Marques Mendes], automaticamente, em tentar desligar-se do Governo agora”.

Do mesmo modo, pretende combater a ideia de que o presidente é “uma espécie de senador reformado”.

“Eu não vou ser o Presidente da união fácil, de palavra certa e barata, confortável em todos os momentos. Nós não podemos tapar as clivagens, a polarização, os problemas com conversa de atleta”, disse.

Ventura promete travar uma batalha para convencer a opinião pública de que não é “nem uma jarra de enfeitar”, nem que irá estar “a dizer aquelas coisas banais, politicamente corretas”.

“Se votarem em mim no dia 18 de janeiro, vai haver uma mudança no estilo de Presidente da República”, assegura.

A partir de Belém, terá como prioridades a Justiça, as comunidades e os jovens, não se limitando a alertar que são precisas reformas, mas indicando ele próprio um caminho.

“Quero dar um sinal à reforma da justiça que ela tem que ser feita. E tem que ser feita em que sentido? Temos que garantir o fim destas penas suspensas que existem para muitos crimes, garantindo que as pessoas ficam presas em casos de abusos sexuais de menores, violência doméstica, que é um flagelo que temos em Portugal, o chamado crime contra o património, considerado às vezes pequeno crime, mas que é esse pequeno crime que vai gerando a insegurança nas pessoas”, aponta.

Segundo o candidato, todos os presidentes defendem reformas da Justiça, mas nunca dizem qual. “Eu ao menos digo qual é. É limitar recursos, porque nós temos recursos que nunca mais acabam, e temos que garantir que a pessoa tem direitos e que têm direito a uma justiça que funcione, imparcial, mas não pode ter direito a fazer mil recursos garantindo que as decisões nunca são efetivadas”, concretiza, numa alusão implícita ao processo Marquês.

“Acho que é preciso uma reforma da justiça e o presidente tem que ser o principal protagonista dela do ponto de vista político”, sublinha.

Segundo André Ventura, isso “não é governar, é conduzir o país politicamente”. “Eu estaria a ser um mau presidente e defraudaria completamente as expectativas das pessoas se lhes desse uma entrevista um dia ou dois depois de ser eleito Presidente da República e a minha conversa passasse a ser que temos que agregar vontades, temos que nos juntar todos, pensar a justiça a médio prazo e a longo prazo”, argumenta.

No decorrer da entrevista, quando abordava questões relacionadas com o processo Marquês, que envolve o ex-primeiro-ministro José Sócrates, Ventura reitera críticas à imprensa portuguesa, sem apontar casos concretos, sobretudo ao que chamou o ativismo de muitos jornalistas.

“E acho que também os jornalistas, em grande parte, não são bons. E acho que temos um ativismo muito grande no jornalismo, é a minha opinião. Mas eu seria o último a condicionar a liberdade da imprensa. Mais, digo-lhe outra coisa. Podia ser o órgão de comunicação, não é o caso da Lusa, mas podia ser o órgão de comunicação que eu menos gostasse, eu tudo faria para garantir que ele não é nem censurado, nem silenciado, nem ameaçado com questões económicas ou de natureza societária”, disse.

https://observador.pt/2025/11/30/ventura-assume-que-falhar-segunda-volta-das-eleicoes-presidenciais-e-mau-e-e-uma-derrota/

sábado, 29 de novembro de 2025

25 de Novembro: entrevista a Vasco Louerenço

"Os sobrinhos dos 'falcões' da extrema-direita acham que podem alcançar agora o que não conseguiram alcançar no 25 de Novembro"

Tiago Palma

25 nov,2025

ENTREVISTA A VASCO LOURENÇO || Foi um dos homens que ajudaram a travar a insubordinação de 1975 e que, meio século depois, recusa vê-la promovida a “segundo 25 de Abril”, que também fez. Vasco Lourenço regressa ao dia em que os paraquedistas ocuparam bases, os comandos subiram à Ajuda e a extrema-direita sonhou com um novo 28 de Maio — para explicar porque é que, na sua leitura, quem hoje celebra o 25 de Novembro está, afinal, a comemorar a própria derrota


Cinquenta anos depois, o 25 de Novembro continua a ser um dia em disputa: a direita política tenta elevá-lo a feriado, a esquerda desconfia de qualquer tentativa de o colocar ao lado do 25 de Abril e, pelo meio, sobrevivem memórias de soldados, paraquedistas, comandos, reuniões em Belém e plenários intermináveis em quartéis à volta de Lisboa.

Vasco Lourenço, um dos Capitães de Abril e rosto do chamado Grupo dos Nove — os vencedores de então, em novembro de 1975 —, lembra esse dia como quem fala de uma ferida que não chegou a romper o corpo todo mas deixou cicatriz. “No essencial, foi uma insubordinação militar. Mas, da forma como aconteceu, nós tivemos a perceção de que estávamos perante uma tentativa de golpe de Estado. E respondemos como se fosse um golpe.” Meio século depois, o coronel é taxativo numa linha que o aproxima de muitos dos “derrotados”: “Equiparar o 25 de Novembro ao 25 de Abril é uma injúria ao 25 de Abril". 

Para se perceber o que está em causa é preciso voltar a 1975, ao tempo do PREC, das greves em cadeia, dos parlamentos cercados, das ocupações de terras no Alentejo, dos atentados bombistas da extrema-direita e de uma revolução que ainda não sabia bem onde parar. Nas ruas pesavam o PCP e a extrema-esquerda, nas sombras operavam redes terroristas como o MDLP, nos bastidores moviam-se as embaixadas em plena Guerra Fria e, dentro das Forças Armadas, o MFA (Movimento das Forças Armadas) estava rachado entre quem queria prolongar o ímpeto revolucionário e quem defendia a entrega da democracia aos partidos.

O 25 de Novembro nasce dessa divisão: para uns, um golpe falhado; para outros, uma “clarificação de poderes” entre fações militares. Para quase todos, o episódio que fecha o ciclo revolucionário e estabiliza o sistema saído de Abril.

É neste contexto dividido, outrora divido, que entra a voz de Vasco Lourenço, hoje com 83 anos e para quem o 25 de Novembro começa na crise dos paraquedistas: uma decisão “criminosa” do chefe do Estado-Maior da Força Aérea, que extingue a força paraquedista, deita milhares de militares no limbo e desencadeia uma cadeia de desconfianças, equívocos e manobras partidárias que acaba com bases ocupadas, oficiais presos e quartéis sob cerco.

Otelo Saraiva de Carvalho, na versão de Vasco Lourenço, não estava a preparar um golpe comunista — estava a tentar proteger os seus homens, é traído no caminho e apanhado no olho do furacão. Do outro lado, o Grupo dos Nove, com Eanes à cabeça, reage a uma insubordinação que interpreta como golpe iminente. Entre uns e outros há ainda os “falcões” da direita militar e civil, “que queriam sangue, queriam um novo 28 de Maio, queriam caminhar para uma ditadura” e que chegaram a pressionar para bombardear unidades militares pelo ar. “Não era só um banho de sangue, era o início de uma guerra civil”, considera Vasco Lourenço.

Por isso, quando hoje se fala sobre vencedores e vencidos, o coronel devolve a resposta para fora dos rótulos fáceis. A extrema-esquerda sai do “comboio” institucional, o PCP perde peso mas mantém-se no sistema, a extrema-direita não consegue ilegalizar comunistas nem transformar o contragolpe em contrarrevolução e fica com uma derrota que tenta reescrever meio século depois. “Eles aparecem com o chapéu de vencedores mas foram vencidos porque não atingiram aquilo que queriam”, diz Vasco Lourenco. O que sobra, na sua síntese, é outra coisa: “O vencedor do 25 de Novembro é o 25 de Abril”. O programa do MFA cumpre-se, a Constituição é aprovada, a democracia consolida-se — e é precisamente essa memória que está outra vez em disputa num tempo em que, nas palavras de Vasco Lourenço, “os netos e sobrinhos dos ‘falcões’” regressam ao Parlamento, reivindicam o 25 de Novembro e tentam fazer dele um aríete contra o próprio espírito de Abril.

Lembra-se daquele dia, do 25 de Novembro de 1975?

Perfeitamente. Coincidentemente, foi o dia em que eu mudei para a casa onde ainda hoje vivo. [Risos] Eu vivia numa casa no Estoril, aluguei essa casa nova e fui viver para lá, para a casa onde ainda hoje vivo. Mas o dia foi de tal maneira intenso que, em Belém [no Palácio de Belém], a certa altura, eu disse qualquer coisa como 'epá, lá se vai a minha mudança de casa'. E houve alguém que respondeu 'pá, a gente vai ajudar-te'. Não foi preciso. A minha mulher ficou encarregada da mudança e desenrascou-se. Portanto, de facto, é um dia marcante, um dia muito marcante. Um dia que recordo intensamente, que vivi por dentro e que foi fundamental para a construção do 25 de Abril.

 

Se tivesse de explicar hoje à maioria da população — que já não tem tão presente o que foi o 25 de Novembro — diria que foi uma tentativa de golpe de Estado? Ou sobretudo uma insubordinação militar que ganhou dimensão e que o coronel e outros camaradas conseguiram travar? O que é que foi, exatamente, o 25 de Novembro?

Se me coloca a questão assim, eu diria que, no essencial, foi uma insubordinação militar. Mas, face à forma como foi feita e à perceção que nós tivemos, do lado em que estávamos, a sensação era a de que estávamos perante uma tentativa de golpe de Estado. E, portanto, nós respondemos como se tivéssemos pela frente uma tentativa de golpe de Estado. Felizmente, resolveu-se — faço sempre questão de o sublinhar — mais politicamente do que militarmente, ainda que a existência da força militar tivesse uma importância fundamental. Agora, o objetivo de quem tomou a iniciativa e deu início às ações no 25 de Novembro, na minha leitura, não era o de fazer um golpe de Estado. Era o de alterar a correlação de forças dentro do Conselho da Revolução [órgão político-militar criado após o 25 de Abril]. Mas a forma como tudo se fez — quando prenderam comandantes de unidades e, inclusivamente, um membro do Conselho da Revolução, que era o general Freire, da Força Aérea —, para nós aquilo era um golpe militar. É como digo: depois dos jogos é fácil acertar no Totobola, antes dos jogos é que é difícil. Portanto, quando olhámos para o que tínhamos pela frente, vimos uma tentativa de golpe de Estado. Hoje, analisando com o recuo do tempo, chego à conclusão de que não houve tentativa de golpe de Estado nenhuma.

 

Este episódio é marcante também porque, a seguir ao 25 de Novembro, vem a consolidação do 25 de Abril. Mas, como em quase todos os momentos da História, há vencedores e vencidos — não sei se “derrotados” é uma palavra demasiado dura. O Vasco Lourenço fez parte dos vencedores, unanimemente considerados vencedores, o Grupo dos Nove [ala moderada do MFA], de onde saem figuras que depois marcam a democracia portuguesa, como o general Ramalho Eanes. Otelo Saraiva de Carvalho é um dos vencidos? O coronel já disse que Otelo, mais do que derrotado, foi traído. Porquê?

Vamos lá ver. O Otelo estava numa onda de extremismo também, de radicalização. Ele é confrontado com a decisão do Conselho da Revolução em ser substituído no comando da Região Militar de Lisboa por mim. Porque ele acumulava as duas funções: o COPCON [Comando Operacional do Continente, força militar criada após o 25 de Abril] e a Região Militar de Lisboa. E é substituído apenas no comando da Região Militar de Lisboa. Mas há uma ação que eu considero - apesar de ser feita, teoricamente, do 'nosso' lado - criminosa: a ação do chefe do Estado-Maior da Força Aérea, o general Morais e Silva, que era do meu curso na Academia Militar. Ele extingue a Força Paraquedista, deixa os paraquedistas entregues a cinco oficiais e aos sargentos e leva para Cortegaça [base da Força Aérea na zona de Ovar] 123 oficiais. E, ao mesmo tempo, extingue por despacho a Força Paraquedista. Não tinha poder para o fazer — tinha de ser o Conselho da Revolução —, mas o que é facto é que o fez e começou a pôr as coisas em marcha nesse sentido. Os paraquedistas ficaram aflitos, muitos deles com o espectro do desemprego. Eram cerca de 1500 a 2000, eu já não sei dizer exatamente quantos eram, mas era muita gente. O comandante dos paraquedistas vai pedir ao Otelo proteção, para ver se se encontrava uma solução para eles não serem dissolvidos. E o Otelo prometeu que ia fazer isso e faz, de facto, uma proposta ao Conselho da Revolução, ao Presidente da República e ao chefe do Estado-Maior-General das Forças Armadas, que era o general Costa Gomes, no sentido de a Força Paraquedista, em vez de ser extinta, ser atribuída ao COPCON.

 

Uma solução pacífica, portanto.

Sim, era uma solução relativamente pacífica. Tinha a oposição do Morais e Silva e dos seus apaniguados, mas a generalidade do Conselho da Revolução, a começar no Presidente da República — e comigo incluído —, concordava com isso. Só que se levanta um problema que vem complicar tudo. O COPCON não tinha autonomia administrativa. Não tinha meios para assegurar salários, subsistência, alimentação, etc.. E então qual era a solução possível? Os paraquedistas eram colocados na Região Militar de Lisboa e a Região Militar de Lisboa atribuía-os, operacionalmente, ao COPCON. Mas era a Região Militar de Lisboa que ficava com eles administrativamente. E isso era pacífico. Só que, entretanto, o que estava na ordem do dia era a substituição do Otelo no comando da Região Militar de Lisboa por mim e essa questão foi posta de lado, 'depois tratamos disso'.

 

Mas a tensão foi aumentando.

A questão é que o PCP, nessa luta de provocações permanentes de um lado e do outro - e de querer ganhar peso no Conselho da Revolução, de alterar a correlação de forças -, convence os paraquedistas. O PCP tinha uma estrutura clandestina forte dentro dos sargentos paraquedistas - e não só -, mas neste caso específico dos paraquedistas - de que, se o Vasco Lourenço for nomeado para comandar a Região Militar de Lisboa, ele não vai aceitar essa solução. E vocês ficam tramados, ficam mesmo dissolvidos. O que era falso. O que era falso! E isso leva os paraquedistas a revoltarem-se. A certa altura, convencem o Otelo de que os paraquedistas precisam de mandar equipas de informação, de esclarecimento, às unidades da Força Aérea para defenderem a 'justa luta', como se dizia, contra o chefe do Estado-Maior da Força Aérea. E o Otelo dá-lhes luz verde para isso, para irem fazer sessões de esclarecimento. Inclusivamente, quando lhes dá luz verde, comenta com dois oficiais, dois capitães da Força Aérea que estão com ele, 'oxalá isto não seja o motivo para os ‘Nove’ nos caírem em cima, porque o Vasco Lourenço está farto de me alertar para eu não me meter em aventuras dessas, porque, se nós tentarmos algum golpe, ele tem condições para nos cair em cima, para nos responder, portanto vão lá fazer as sessões de esclarecimento mas façam de maneira que isso não dê essa justificação'.

 

Só que transformaram as sessões de esclarecimento em ocupações, não é? Na Base Aérea de Tancos, na Base Aérea de Monte Real, na Base Aérea do Montijo. E no Comando da 1.ª Região Aérea, em Monsanto. Quatro...

O problema foi esse: elas transformaram-se noutra coisa. E nós, a partir daí, reagimos como se tivéssemos pela frente uma tentativa de golpe de Estado. O Otelo, ao mesmo tempo que diz 'pronto, vão lá fazer os esclarecimentos', vai para casa. Portanto, ele nunca sabe da transformação em ações de força. Vai para casa e, portanto, os paraquedistas — que vão convencidos de que vão fazer sessões de esclarecimento e que não têm noção da manobra interna dos agentes que planeiam isto — ficam convencidos de que o Otelo os abandonou e que os traiu. Quando, no fim, o Otelo é que é traído por quem transforma a ida de equipas de esclarecimento em equipas de ação de força.

 

Ali bem perto do Palácio de Belém, onde muitos de vocês foram chamados pelo Presidente da República, cá mais em cima, na Calçada da Ajuda, acabam por morrer três pessoas: o tenente José Coimbra e o furriel Joaquim Pires, dos Comandos, e o aspirante miliciano José Bagagem. Normalmente fala-se pouco das vítimas destes episódios. Porque é que a violência escalou ali e acabou por não escalar noutros sítios?

Porque, entretanto, as unidades que se sublevaram, que tomaram algumas ações, recuaram todas e todas aceitaram ficar à ordem do Costa Gomes. Todas. Menos a unidade de Lanceiros 2 [Regimento de Lanceiros 2, unidade de cavalaria do Exército], da Polícia Militar. Essa unidade não está metida em golpe nenhum. Eles não perceberam o que é que se estava a passar. E, como a unidade era, enfim, uma balbúrdia — como eu dizia —, ninguém comandava ninguém, eram plenários atrás de plenários, eles não obedeceram à ordem que eu lhes transmiti pelo telefone — ao Campos Andrade, que era o comandante — para se apresentarem em Belém. Era só atravessar a Calçada e apresentarem-se em Belém, ao Costa Gomes. Eles não o fizeram e permitiram que os 'falcões', que estavam a querer sangue, conseguissem sangue.

 

Quando fala de “falcões” está a falar da extrema-direita?

Sim. Porque nós tínhamos depois duas frentes. Tínhamos a frente contra a esquerda, que se resolveu politicamente, como eu disse, e tínhamos, debaixo do nosso chapéu-de-chuva, aparentemente ligados umbilicalmente ao Grupo dos Nove, um grupo que queria sangue, queria um novo 28 de Maio [golpe militar que levou à ditadura em 1926]. E tentou, por exemplo, fazer bombardear, pela Força Aérea, três unidades. E o Eanes [então comandante operacional] conseguiu evitar.

 

E aí seria um banho de sangue.

Não era só um banho de sangue, era o início de uma guerra civil. Se isso começasse, tínhamos a guerra civil à porta.

 

Mas voltemos às mortes na Ajuda.

Foram três minutos.

 

Três minutos?

Se, três minutos antes, o Campos Andrade me tivesse dito 'pronto, vamos aí entregar-nos', não havia nenhuma morte. Mas, quando ele me disse isso, a força dos Comandos já tinha avançado. Tinham combinado, comigo e com o Eanes, que a partir das oito da noite estavam autorizados a avançar com uma força. Mas a força já tinha avançado e, depois, por razões e por formas que eu não explico — não quero entrar em pormenores —, houve transmissões do Eanes para o Jaime Neves [comandante do Regimento de Comandos] que não funcionaram em determinada altura, mas afinal funcionaram muito bem. O que é facto é que não foi possível evitar esse confronto. E o confronto dá-se, morrem — não se sabe bem como — três militares. A ideia que há é que os dois comandos são mortos por atiradores que estavam em Cavalaria 7 [Regimento de Cavalaria 7, unidade estacionada junto a Belém], que era a unidade que estava do lado da Presidência, mesmo ao lado da Presidência. Portanto, daí, os esquerdistas atiram sobre eles. E também há a ideia de que terão sido atiradores civis, que estavam nos prédios ali, que atiraram sobre eles. É uma das dúvidas que ficam: quem é que atirou? Porque não foi a Polícia Militar que atirou contra os Comandos para matar os dois comandos. E há uma bala perdida que mata um oficial de Administração Militar que estava dentro do Regimento de Polícia Militar. Porque aquilo era, de facto, uma balbúrdia, todos os dias ia para lá gente que não pertencia à unidade.

 

Era um aspirante miliciano que pertencia a Queluz.

Sim, sim. Há três mortos, portanto. E depois nós conseguimos — como eu digo, o tal milagre funcionou —... As comunicações do Eanes com o Jaime Neves funcionaram e eu, por telefone, com o Campos Andrade, e o Eanes com o Jaime Neves, conseguimos parar o fogo de um lado e do outro. E pronto, houve essa situação.

 

E, quando a Ajuda cai, quando Lanceiros 2 cai, caiu a tentativa de insubordinação, de “golpe”? Era o último reduto?

Não. A tentativa de insubordinação já tinha caído. Como eu digo, Lanceiros não estava em qualquer tentativa sequer de insubordinação; estavam naquela de 'nós obedecemos ao Presidente da República'. Então, se obedecem ao Presidente da República, apresentem-se aqui. A ordem do Presidente da República — e fui eu que a transmiti ao Campos Andrade — era essa: apresentem-se aqui. E eu estou, desde a meia-noite até às oito e tal da manhã, a chatear o Campos Andrade. E ele é sempre 'mais um plenário, mais um plenário', porque aquilo era uma balbúrdia, ninguém decidia. E pronto, não obedeceram e deram origem a isso.

O coronel Vasco Lourenço tentou, ao longo do tempo, trazer clareza sobre o que foi o 25 de Novembro. Tal como Ramalho Eanes e outras figuras que o viveram por dentro também o fizeram. Mas a verdade é que o 25 de Novembro, 50 anos passados, parece hoje ainda mais politizado. Parece haver uma ala política, no Parlamento, mais à direita do que à esquerda, que tenta transformar o 25 de Novembro em algo talvez maior do que aquilo que ele foi. Ou seja, é importante na consolidação da democracia, mas não é equiparável ao 25 de Abril. É assim?

O que é que se passou? Passou-se, como eu lhe disse, que os 'falcões' — foi assim que eu os designei e continuo a designar — queriam sangue e queriam avançar para um regime de supressão de liberdades. Por exemplo, queriam ilegalizar o PCP, queriam claramente um novo 28 de Maio, queriam caminhar para uma ditadura. Isso é confirmado, inclusivamente, no ano passado numa entrevista que o Pacheco de Amorim [deputado do Chega, antigo quadro do MDLP, movimento bombista de extrema-direita] deu e em que revela que, no dia 29, tem uma conversa telefónica com o Jaime Neves e que o Jaime Neves lhe diz 'conseguimos alguma coisa, não conseguimos tudo aquilo que queríamos mas conseguimos alguma coisa'. Portanto, a extrema-direita queria mais disto, do 25 de Novembro. Mas a imagem que sai dali, a principal imagem, é que os grandes derrotados são o Partido Comunista e a extrema-esquerda. A extrema-esquerda, de facto, é totalmente derrotada, naquela altura sai do “comboio”, sai do processo institucional. O PCP é um vencido aparente mas não deixa de ser também um vencedor, porque se mantém no sistema, não é ilegalizado, mantém-se no Governo, inclusivamente, mantém-se na Assembleia Constituinte [assembleia eleita em 1975 para redigir a Constituição] e a Constituição é aprovada. Mas a imagem que muita gente tentou transmitir é a de que o 25 de Novembro se tinha limitado a correr com o PCP e com a extrema-esquerda.

 

Não é totalmente verdade.

Em parte é. Parou as tentativas do PCP de radicalização. Isso é verdade. Mas só isso. E isso foi o que ficou. Mas, ao mesmo tempo, o que é facto é que parou também a tentativa da extrema-direita, dos 'falcões', de radicalização. Depois, é evidente que a situação política foi derrapando, ou deslizando, lentamente para a direita. Estamos na situação em que estamos hoje. E, então, o que a extrema-direita quer é dizer agora que eles foram os vencedores do 25 de Novembro. Não foram. Eles foram vencidos! Eles aparecem com o chapéu de vencedores mas foram vencidos porque não atingiram aquilo que queriam. E, portanto, o que eu digo — eu, como um dos militares que estiveram envolvidos e que todos os anos, no 25 de Novembro, assumem essa condição — é que o 25 de Novembro foi o que faltou ao 5 de Outubro [de 1910, aquando da proclamação da República] para que não houvesse o 28 de Maio. O 25 de Novembro é aquilo que consegue fazer com que o 25 de Abril seja cumprido no seu essencial. No sentido de 'refundar' tudo: tudo continuou, é aprovada a Constituição, como estava previsto, e entrámos num regime democrático. Mas eles hoje parecem esquecer e querem apresentar-se como vencedores. A narrativa que querem impor é 'a única coisa que se fez no 25 de Novembro foi parar a esquerda'. Não é verdade. E eu pergunto: mas vocês querem comemorar o quê? A vossa derrota? Vocês foram derrotados. E depois há situações absolutamente fantoches, como a nomeação de uma comissão para fazer comemorações que já estão a ser feitas, organizadas pelas comemorações oficiais dos 50 anos do 25 de Abril. Epá, é isso que eu contesto. Porque acho que, de facto, o 25 de Novembro deve ser assinalado, mas o 25 de Novembro tem a particularidade de ser o último acontecimento em que se tentou, claramente, derrubar o 25 de Abril. As outras duas tentativas foram, claramente, da direita: o 28 de Setembro [de 1974, uma crise política em torno de uma manifestação da “maioria silenciosa” convocada por António de Spínola] e o 11 de Março [de 1975, a tentativa de golpe chefiada por Spínola também]. O 25 de Novembro é a última e, aparentemente, quem ataca é só a esquerda, mas a extrema-direita também atacou — e também foi vencida. Não se deu tanto por isso mas aconteceu.

 

Coronel Vasco Lourenço, uma pergunta muito simples. Toda a gente o conhece como um Capitão de Abril, uma figura fundamental da nossa democracia em 1974 e depois em 1975. Para si, quando alguém diz “o 25 de Novembro é igual ao 25 de Abril e tem de ser equiparado” — quando pedem feriado para este dia, por exemplo —, essa posição faz sentido?

Acho que é uma injúria ao 25 de Abril. Mas repare: o problema é que esses que dizem isso, logo no dia 25 de Abril de 1974 começaram a conspirar contra o 25 de Abril. E nós tivemos várias fases de conspiração desses contra o 25 de Abril. Em termos concretos, as fases principais foram o 28 de Setembro e o 11 de Março. O 25 de Novembro acaba com determinada bagunça, acaba com muita confusão, acaba com as tentativas de implantação, no terreno, de um 'poder popular', de uma 'democracia popular', acaba com aqueles que, também no terreno, queriam que aqui se instalasse um regime tipo socialismo ortodoxo. Mas acaba também com a ideia de que os setores à direita podem atingir os seus objetivos.

 

O vencedor do 25 de Novembro é o 25 de Abril, é isso?

Sim, é o 25 de Abril que sai reforçado. O programa que o MFA tinha apresentado a 25 de Abril é cumprido, há finalmente condições para isso. Agora, as democracias são isto: há sempre deslizes, a coisa vai deslizando e continua a deslizar hoje. Eu lembro-me de uma frase que se dizia na altura, quando a situação estava a deslizar, 'nós fomos capazes de fazer frente ao Vasco Gonçalves [general e primeiro-ministro entre 1974 e 1975, figura da ala esquerda do MFA, associado ao “gonçalvismo” e politicamente próximo do PCP] em determinada situação e agora não estamos a ser capazes de fazer frente a este deslizar suave para a direita?' Mas a democracia é isto. Hoje chegamos a um ponto em que há, formalmente, democracia — ainda se vota —, mas está no poder gente que parece querer soluções não democráticas, apesar de lá ter chegado democraticamente.

 

São os netos dos “falcões”?

[Risos] Sim, sim. Sim. São os netos e são os sobrinhos. O Nuno Melo [líder do CDS-PP e atual ministro da Defesa] acho que é sobrinho de um cónego, o cónego Melo [Eduardo Melo Peixoto, padre bracarense ligado à mobilização anticomunista no Minho e frequentemente associado às redes bombistas de extrema-direita ELP/MDLP], que foi um 'falcão' civil mas foi um 'falcão'. Aliás, nos 30 anos do 25 de Abril, deu uma entrevista em que disse que estava preparado um golpe deles para o dia 30 de novembro e, portanto, o 25 de Novembro antecipou-se [risos]. Mas nós temos o Pacheco de Amorim, que foi um dos dirigentes do MDLP [Movimento Democrático de Libertação de Portugal, rede terrorista/bombista de extrema-direita responsável por centenas de atentados no PREC]. Portanto, não são só os netos e os sobrinhos, há alguns próprios 'falcões' que estão no terreno, no poder, e estão a tentar…

 

Insubordinar-se.

Insubordinar-se. E alcançar aquilo que não conseguiram alcançar na altura. Os 'falcões' e os sobrinhos dos 'falcões' da extrema-direita acham que podem alcançar agora o que não conseguiram alcançar no 25 de Novembro. Acham agora que há condições para isso, pronto. No que me diz respeito, faço-lhes frente.

 

https://cnnportugal.iol.pt/25-de-novembro/vasco-lourenco/os-sobrinhos-dos-falcoes-da-extrema-direita-acham-que-podem-alcancar-agora-o-que-nao-conseguiram-alcancar-no-25-de-novembro/20251125/69247264d34e3caad84ba133?