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quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

«Capitalism and Freedom»



NA ECONOMIA NEOLIBERAL, QUE QUEREM PPD-PSD, IL & CHEGA, O 'ESTADO SOCIAL' DESAPARECE, OS POBRES VÃO FICAR AINDA MAIS POBRES E DESPROTEGIDOS, E OS RICOS AINDA MAIS RICOS...

- salienta Alfredo Barroso, recordando o que foi o estrondoso fracasso da economia neoliberal no Chile, durante a sangrenta ditadura militar do general Augusto Pinochet, expressamente apoiado e aconselhado por Milton Friedman e Friederich Hayek, teóricos do neoliberalismo

«A contra-revolução neoliberal é essencialmente antidemocrática» – afirmou o economista norte-americano (Prémio Nobel) Paul Krugman. De facto, nenhuma maioria de eleitores desejaria ver reduzida a quase nada a cobertura social que protege a generalidade dos cidadãos. Isso nunca. Por isso mesmo, o único meio de forçar a mão do povo é levá-lo a acreditar que não há alternativa

Na sua obra «Capitalism and Freedom», o economista neoliberal norte-americano Milton Friedman ousa afirmar que, como a obtenção do lucro é a essência da democracia neoliberal, todo o governo que conduza políticas que contrariem o mercado está a portar-se de forma antidemocrática, sendo irrelevante o apoio de que goze por parte da maioria de uma população esclarecida.

Foi esta visão absolutamente perversa da democracia que fez com que ele próprio e Friederich Hayek manifestassem o seu apoio ao golpe de Estado do general Augusto Pinochet, no Chile – que depôs, em 1973, o governo democraticamente eleito do presidente Salvador Allende, dado que este estava a interferir com o controlo dos negócios da plutocracia da sociedade chilena.

Hayek foi mesmo ao ponto de declarar, em defesa do indefensável Pinochet, o seguinte: «Pessoalmente, prefiro uma ditadura liberal a um governo democrático completamente alheado do liberalismo». Foi essa 'ditadura liberal', brutal e selvagem, que os 'Chicago boys' - os discípulos de Milton Friedman - ajudaram a sustentar durante 15 anos, transformando o Chile num laboratório experimental das políticas neoliberais preconizadas por Hayek e Friedman.

Entretanto, ficou a saber-se que Friedrich Hayek, o ‘profeta’ venerado pelo general Pinochet e por Margaret Thatcher, não quis visitar os EUA em 1973 – a convite do milionário norte-americano Charles Koch, um dos pilares do desmantelamento do Estado-Providência – por ter medo de perder os seus direitos à Segurança Social no seu país, a Áustria. De facto, Hayek – que nos seus discursos e palestras proclamava que a Segurança Social é «essencialmente um absurdo» que urge banir – explica com todo o detalhe, na correspondência que trocou com Charles Koch, os benefícios sociais a que tinha direito, e que não queria arriscar-se a perder ausentando-se da Áustria.

Para além da hipocrisia pessoal, o que aqui se manifesta é a hipocrisia de um discurso que consiste em fazer crer às pessoas que aquilo que se pretende é apenas proteger a sua ‘responsabilidade’ e a sua ‘liberdade de escolha’ – quando, afinal, são despojadas dos seus direitos sociais e do seu dinheiro para encher os bolsos da ínfima minoria dos mais ricos do planeta, sem nunca chegarem a ter qualquer ‘liberdade de escolha’ por mais responsáveis que sejam.

Também se tornou patente que o sistema neoliberal gera um perigoso e inevitável subproduto: uma cidadania despolitizada, caracterizada pela apatia e pelo cinismo. O neoliberalismo é, na prática, o primeiro e mais perigoso inimigo de uma genuína democracia participativa. É claro que actua melhor quando existe uma democracia eleitoral meramente formal, mas precisa que a população seja desviada das fontes de informação e dos debates públicos que a habilitem a formar opinião e a intervir nos processos de tomada de decisão.

A partir da noção crucial de «mercado über alles» – «mercado em todo o lado» – a democracia neoliberal cria ‘centros comerciais’ em vez de espaços comunitários e produz ‘consumidores’ em vez de cidadãos. E o resultado prático é uma sociedade atomizada, constituída por indivíduos desenraizados que se sentem desmoralizados e socialmente impotentes.


2024 02 08

ALFREDO BARROSO, no seu livro «Corações de Pedra - a maldição neoliberal» (Porto Editora, 2017)

https://www.facebook.com/somera.simoes 


ADENDA, por Victor Nogueira

Kissinger

  • "Não vejo porque precisamos ficar parados e assistir um país tornar-se comunista por causa da irresponsabilidade do seu povo. As questões são muito importantes para deixarmos os eleitores chilenos decidirem por si mesmos."
Sobre o apoio dos EUA ao golpe que derrubou Salvador Allende, presidente democraticamente eleito do Chile, em 11 de setembro de 1973.
citado em Richard R. Fagen, "The United States and Chile: Roots and Branches", Foreign Affairs, January 1975.

sábado, 2 de dezembro de 2023

Miguel Esteves Cardoso - R.I.P. Henry Kissinger

 CRÓNICA

Kissinger era um intelectual judeu inteligentíssimo com uma pronúncia esquisita, com acesso privilegiado ao poder do império mais poderoso do mundo: o americano. What’s not to like?

* Miguel Esteves Cardoso
30 de Novembro de 2023 

Uma coisa é certa: ainda é cedo para ver a vida de Henry Kissinger como uma comédia. Mas é uma comédia, uma comédia tão antiga como a própria comédia: a história do homem inteligentíssimo rodeado por burros e ignorantes.

Kissinger era inteligentíssimo e entrava em cada problema como se fosse o primeiro, para ser maior o prazer de tentar discuti-lo — e até talvez, quem sabe, resolvê-lo.


Despia-se do que sabia e achava, para poder ver a questão do nada, como alguém a pôr uma venda nos olhos para descobrir a arquitectura interior da própria casa, que conhece de ginjeira e da qual está farta.

A única vez em que as coisas correram bem a Kissinger foi quando pôde conspirar com dois outros homens inteligentíssimos: Nixon e Mao. Mas Nixon era um bêbado paranóico e preconceituoso, com um complexo de inferioridade ainda mais potente do que os próprios Estados Unidos da América. E Mao era pior ainda: era um comunista.

A comédia vem do poder da inteligência contra a teimosia humana de continuar a ser como se é: não é nenhum. A comédia – mais do que negra – está na quantidade de vezes que o inteligentíssimo Kissinger teve de recorrer à força bruta: quase todas.


Kissinger era um académico, uma pessoa que estava bem com outros académicos. Mas, de repente, viu-se no meio de políticos e militares, quase todos broncos, venais e teimosos, que desconfiam tanto das grandes inteligências como dos judeus e das pessoas com pronúncias esquisitas.

Kissinger era um intelectual judeu inteligentíssimo com uma pronúncia esquisita, com acesso privilegiado ao poder do império mais poderoso do mundo: o americano.

Como dizem os americanos, what's not to like?

Kissinger era, acima de tudo, um imperialista. Fez tudo para favorecer os Estados Unidos da América. Foi um patriota americano.

Mas foi um patriota desgostoso, sempre desiludido pela estupidez, pela esperteza saloia e pela arrogância injustificável dos seus fellow americans.

E dos humanos em geral.

O autor é colunista do PÚBLICO

https://www.publico.pt/2023/11/30/opiniao/cronica/rip-henry-kissinger-2072089


Manuel Loff - Kissinger, o mais amado dos criminosos de guerra

 

OPINIÃO


A diferença entre ele e os sucessores foi ter-se mostrado cético e irónico com a retórica dos direitos humanos e da democracia com que quiseram embrulhar o que continua(va) a ser a mesma política.

* Manuel Loff

2 de Dezembro de 2023 

Que dele se digam banalidades como as do ex-primeiro-ministro e atual ministro britânico dos Estrangeiros David Cameron (“grande estadista e um diplomata profundamente respeitado”), e que às homenagens se juntem Putin (que dele guarda “as melhores recordações”) e Zelensky, ainda dou de barato. Valem o que valem. Mas entre o “gigante da História”, como lhe chamou o sempre pomposo Macron, ou o “mentiroso compulsivo” que o neoconservador Edward Luttwak assegura que foi Kissinger, “quase sempre por uma boa causa” ("The two faces of Henry Kissinger", UnHerd, 1/12/2023), fico-me com a tese de Luttwak, não só porque trabalhou na mesma Administração, mas porque ele próprio, ao reproduzir na sua vida uma boa parte do perfil de Kissinger, saberá bem do que fala. É o perfil dos académicos ambiciosos e bem sucedidos nos departamentos de Ciência Política que aplicam ao campo da política internacional (como assessores chorudamente pagos que, no caso de Kissinger, passaram diretamente pela gestão governamental) a intelectualmente mais cínica das teorias das Relações Internacionais, o realismo, a mais adequada para quem quer defender relações de dominação e hegemonia.

vida de Henry Kissinger atravessou os últimos cem anos. Pelo menos em oito deles (1969-77), enquanto foi conselheiro de segurança nacional e depois Secretário de Estado dos presidentes Nixon (outra personagem que estava bem para ele) e Ford, terá sido responsável direto e indireto de milhões de mortos e rios de sangue em tantos pontos do mundo quantos aqueles em que o poder dos EUA era capaz de ser decisivo: Vietname, Laos, Cambodja, Bangladesh, Congo, Chile, Uruguai, Argentina, Chipre, Sara Ocidental, Angola, Timor… É graças a esses anos, e à extraordinária arrogância da personagem, que em quase todo o planeta a memória coletiva conserva o nome dele. Ele é pronunciado, contudo, com emoções muito diferentes consoante a visão do mundo e a posição que se ocupa na ordem internacional que a política de homens como Kissinger impuseram, reproduziram e têm ajudado a conservar.

Terá sido responsável direto e indireto de milhões de mortos e rios de sangue em tantos pontos do mundo quantos aqueles em que o poder dos EUA era capaz de ser decisivo

Para os cultores do realismo neoconservador de Kissinger, para quem “a desordem é pior que a injustiça” e “a ordem é mais importante que a liberdade porque sem ordem não há liberdade para ninguém” (Robert D. Kaplan, The tragedy behind Kissinger’s realpolitik”, UnHerd, 30/11/2023), isto é, para a elite social e de Estado da quase totalidade dos países nesta terceira década do século XXI, ele pode ser o “ser humano amável e a mente brilhante que, ao longo de 100 anos, moldou os [destinos] de alguns dos acontecimentos mais importantes do século”, como publicou Charles Michel, presidente do Conselho da UE, a propósito da sua morte (pergunto-me quem é que em Bruxelas escreve estas coisas aos eurocratas…). Para os muitos que, por todo o mundo, o consideram(os) um criminoso de guerra que saiu desta vida conseguindo evitar ser julgado pelos crimes que cometeu e ajudou a cometer, Kissinger é um dos mais categorizados representantes de uma elite política que apostou (e aposta ainda) tudo quanto pôde na preservação de uma ordem internacional que desde há, pelo menos, 80 anos está em crise, que não conseguiu parar o fim dos impérios coloniais e o avanço da emancipação dos povos do Sul Global, mas que resiste ainda à perda da hegemonia ocidental.

A diferença entre ele e os seus sucessores na diplomacia norte-americana é ter-se mostrado cético e irónico com a retórica dos direitos humanos e da democracia com que os que lhe sucederam quiseram embrulhar o que, afinal, continua(va) a ser a mesma política. Depois de abandonar o governo (1977), com a derrota eleitoral de Gerald Ford, Kissinger continuou a passear-se pelos meandros do poder e dos grupos económicos que melhor lhe pagavam a sua assessoria, receoso, isso sim, daquele que foi efemeramente, no final do século passado, um vento de mudança no direito penal internacional, de que resultou a criação do tribunal homónimo, e que teve na detenção em 1998 de Pinochet, um dos ditadores que Kissinger mais protegeu, um momento simbólico que o obrigou, durante alguns anos, a tomar precauções para evitar ser detido ele também, evitando viajar a alguns países onde magistrados abriram processos contra si.

Além do Chile e da Argentina, Kissinger teve de, em maio de 2001, deixar a França à pressa, depois de ter recebido uma intimação do juiz Roger Le Loire, que investigava o plano Condor, destinado a eliminar os opositores das ditaduras latino-americanas.”(Le Monde, 30/11/2023). Foram os anos em que, como escrevia o seu biógrafo Christopher Hitchins, “o homem rechonchudo de gravata preta na festa da Vogue não é, certamente, o homem que ordenou e sancionou a destruição de populações civis, o assassinato de políticos inconvenientes, o rapto e o desaparecimento de soldados, jornalistas e sacerdotes que se atravessaram no seu caminho? Oh, mas é. É exatamente o mesmo homem” (“Why has he got away with it?”, Guardian, 24/2/2001).

Teve de, em maio de 2001, deixar a França à pressa, depois de ter recebido uma intimação do juiz Roger Le Loire, que investigava o plano Condor, destinado a eliminar os opositores das ditaduras latino-americanas

A mão de Kissinger esteve por detrás do pior, do mais sangrento, do mais cínico que a política norte-americana fez nos anos 1960 e 70. Golpes de Estado, operações de sabotagem, guerra suja contra opositores políticos de aliados dos EUA. You name it e o nome de Kissinger aparece sempre. Em todos os casos, ou houve iniciativa sua, ou foi com o seu conhecimento e autorização.

O caso chileno é seguramente um dos mais evidentes: estratégia de desestabilização social e sabotagem económica do governo de Unidade Popular de Salvador Allende (1970-73); depois de ter tentado impedir que Allende tomasse posse em 1970, promovendo, sem sucesso, uma conspiração que as chefias militares chilenas do momento rejeitaram (o que fez com que Kissinger ordenasse a preparação do sequestro de René Schneider, o chefe do Estado-Maior chileno), é a partir de Washington que se prepara o golpe de 11 de setembro de 1973, com o cerco e bombardeamento do Palácio de La Moneda onde morre Allende. Na brutal repressão que se segue, os mais de 20 mil mortos nada devem ter impressionado o homem que em tantas entrevistas se recordava de ter sido repetidamente agredido por nazis até à sua família fugir da Alemanha, em 1938, onde nascera 15 anos antes. "Você é uma vítima de todos os grupos de esquerda do mundo", disse Kissinger a Pinochet em 1976, "e o seu maior pecado foi ter derrubado um governo que se estava a tornar comunista".


Foto  -  Kissinger numa reunião com o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, em Moscovo, em 2008 EPA/MAXIM SHIPENKOV

Tudo somado, as mais pesadas terão sido as suas responsabilidades na condução da guerra americana do Vietname, e em particular na opção em bombardear o Camboja durante 14 meses seguidos (1969-60), provocando um milhão de mortos e abrindo caminho à tomada do poder pelos Khmeres Vermelhos (que os EUA ajudarão depois contra o Vietname). Mas dois outros casos têm diretamente a ver com a descolonização que a Revolução portuguesa levou a cabo depois do 25 de Abril. É Kissinger que, em visita a Jacarta juntamente com o presidente Ford, dá luz verde ao governo indonésio para invadir Timor-Leste (dezembro de 1975) por forma a impedir que o país se tornasse numa “Cuba do Sudoeste Asiático”. Já tinha feito o mesmo poucos meses antes com o Sara Ocidental, dando o beneplácito dos EUA à invasão marroquina. Quando Timor-Leste se tornou independente, depois de 25 anos de apoio norte-americano à ocupação indonésia e os 300 mil mortos que ela provocou, Kissinger fazia parte do júri que concedeu a Xanana Gusmão um prémio internacional. No discurso de entrega do prémio, escreveu que "os americanos podem orgulhar-se do papel que o seu país desempenhou no culminar destes acontecimentos".

Poucos meses depois, em 1976, perante a intervenção cubana para salvar a independência de Angola ameaçada pela invasão sul-africana com o apoio norte-americano, Kissinger terá ficado “apoplético” e propôs o bombardeamento de Cuba no que seria um gesto que, como em 1962, poderia simplesmente provocar uma confrontação nuclear.

O mais inconcebível de toda a sua biografia foi ter recebido, em conjunto com o negociador vietnamita Lê ĐứcThọ , o Prémio Nobel da Paz em 1973, por ter assinado o acordo de Paris e, segundo a Academia Nobel, ter "acabado com a guerra e restaurado a paz no Vietname". Não só Thọ rejeitou o prémio, lembrando ao mundo que continuava a não haver paz no Vietname (a retirada dos EUA só se dará em 1975), como dois membros abandonaram o Comité Nobel em protesto. Como disse o compositor e humorista Tom Lehrer, "a sátira política tornou-se obsoleta quando Henry Kissinger recebeu o Prémio Nobel da Paz".

Para Tony Blair, “se é possível que a diplomacia ao seu mais alto nível seja uma forma de arte, Henry era um artista” (Expresso, 1/12/2023). Só Blair, outro com pesadas culpas no cartório, para dizer coisas destas... Não. A melhor síntese de todas é o título do artigo que a Rolling Stone publicou: "Henry Kissinger, o criminoso de guerra amado pela classe dominante da América, finalmente morre".

O autor é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico

https://www.publico.pt/2023/12/02/opiniao/opiniao/kissinger-amado-criminosos-guerra-2072293

 

sexta-feira, 1 de dezembro de 2023

Carlos Matos Gomes - Quem é o Kissinger que está de serviço?



* Carlos Matos Gomes


Do Kissinger só vai a enterrar um invólucro com cem anos. O veneno permanece. Os espiritistas dirão que resta a alma, o espirito. Dante quase certamente o colocaria no oitavo círculo do seu Inferno, o dos fraudulentos, dos bajuladores, que são enterrados com esterco, dos que venderam favores divinos e peças sagradas, dos que aceitaram subornos, dos governantes corruptos e desonestos, além dos chantagistas, dos hipócritas, dos conselheiros que aconselharam outros a tomar decisões prejudiciais, dos causadores de discórdia, dos falsificadores, falsários e mentirosos.

Há séculos que existem Kissingers. O apelido mais conhecido é de eminência parda, originalmente atribuída ao abade Leclerc du Tremblay, o “braço direito” do cardeal Richelieu, também ele um “pardo”. Leclerc era um frade capuchinho que usava um hábito bege denominada “parda” na época. Ficou o nome na política. Eminência parda é o nome dado a um sujeito que não é o governante oficial, mas é o verdadeiro poderoso.

Quando não se conhece a origem de um crime, ou de um autor de um ato criminoso é habitual dizer-se: sigam o cheiro do dinheiro, ou, mais seguro, procurem o cheiro do dinheiro e o do maior escroque que estiver junto do criminoso. Kissinger foi a eminência parda de Nixon, ele próprio um dejeto tóxico. Tão repugnante que em 1968 o próprio Kissinger disse que seria “o mais perigoso de todos os homens para ter como presidente!”, isto antes de trair o seu protetor, Nelson Rockefeller, o candidato republicano às primárias, de quem era apoiante. Depois de Nixon ter vencido Rockefeller, enquanto Kissinger trabalhava como conselheiro do Departamento de Estado da administração Johnson — democrata , foi oferecer ao estado-maior de Nixon os seus contactos com a administração Johnson para passar as informações que recebia no Departamento de Estado acerca das conversações de paz com o Vietname do Norte, para pôr fim à guerra, um ponto decisivo na próxima campanha presidencial. Um perfil de traidor. No final de Outubro Kissinger informou os apoiantes da campanha de Nixon que os diplomatas americanos estavam a abrir champanhe em Paris e horas depois Johnson suspendia os bombardeamentos ao Vietname do Norte. Um acordo de paz animaria a campanha do democrata Hubert Humphrey, que estava empatado com Nixon nas sondagens. Os apoiantes de Nixon chantagearam e pagaram aos corruptos dirigentes do Vietname do Sul para atrasarem os acordos até às eleições. Mais umas centenas ou milhares de mortos, americanos ou vietnamitas não tinham qualquer valor para Nixon, ou para Kissinger. Nunca tiveram. A guerra prosseguiu. Após a vitória de Nixon, depois de ter sido nomeado conselheiro de segurança, Kissinger aconselhou Nixon a bombardear o Camboja (um Estado com quem os Estados Unidos não estavam em guerra) para pressionar Hanoi a negociar, porque pretendiam agora abreviar as conversações que tinham sabotado.

Sabemos, as pessoas minimamente informadas sabem muito bem dos grandes crimes que Kissinger cometeu, dos imensos sofrimentos que causou pelo mundo durante os seus anos de eminência parda dando luz verde a golpes de estado, o mais conhecido é o do Chile, genocídios, autorizações a ditadores para matar e torturar, vendeu os curdos, apoiou o rapto do general chileno René Schneider na esperança de derrotar Allende, no pós-Vietname dedicou-se a espalhar o caos no Médio Oriente que ainda hoje se mantem, entre atos menores apoiou a invasão de Timor-Leste pela Indonésia, interveio na política interna portuguesa durante a revolução de 1974, na guerra civil de Angola.

O mundo de hoje, resultante da guerra fria, é um mundo construído pelos Estados Unidos e desenhado por Kissinger. Há seguidores e apóstolos, mas nenhum como Kissinger escapou não só na impunidade como atingiu a glória de ser um oráculo universal, em vez de ser uma cloaca. Nixon foi arrastado para a lama de onde provinha. Kissinger saiu da lama para as delícias da santidade, de Deus ex machina. Elevou-se do matadouro para os altares onde é adorado como um génio da diplomacia pago a peso de oiro pelos sermões. O que diz mais dos valores que presidem aos comportamentos da opinião pública, dos dirigentes políticos, dos manipuladores de opinião do que da criatura. Diz mais de nós do que dele.

Dele restam os truques. Após a queda de Nixon, esse sim, conhecido como o Tricky Dicky, de quem fora o cão de cego, ao aterrar na Áustria a caminho do Médio Oriente, Kissinger convocou uma conferência de imprensa e, quase em lágrimas, ameaçou demitir-se, dizendo com voz embargada que quando as memórias do seu tempo fossem escritas alguém poderia lamentar que por decisões que tomara talvez algumas vidas pudessem ter sido salvas e talvez algumas mães ainda tivessem os seus filhos vivos, “eu levo isso como parte da minha história. O que eu não levo como peso da história é uma discussão sobre a minha honra!” O espetáculo funcionou. Kissinger expôs os crimes de Nixon e os jornalistas e opinion makers incensaram-no; Eis um homem! Enquanto a Casa Branca de Nixon era apresentada como um ninho de víboras, Kissinger continuava a ser alguém em quem a América (e o mundo) podiam acreditar! (Paulo Portas e Durão Barroso, à sua medida, conseguiram ter êxito com o mesmo truque — há quem os leve a sério!)

Ele aproveitou bem essa credibilidade nos anos que ainda viveu, durante quarenta anos como o chefe da Kissinger Associates. Uma empresa de “consultoria” cuja lista de clientes tem sido um dos documentos mais procurados em Washington desde, pelo menos, 1989, quando o senador Jesse Helms exigiu, sem sucesso, vê-la antes de considerar a confirmação de Lawrence Eagleburger (um protegido de Kissinger e funcionário da Kissinger Associates) como vice-secretário de Estado. Mais tarde, Kissinger deixou o cargo de presidente da Comissão do 11 de Setembro em vez de entregar a lista para revisão pública. A Kissinger Associates foi uma das primeiras participantes da onda de privatizações ocorrida após o fim da Guerra Fria, na antiga União Soviética, na Europa Oriental e América Latina, ajudando a criar uma nova classe oligárquica internacional, os que estão hje na Rússia, na Ucrânia, na Polónia, na Hungria, na Checoslováquia, mas também na Alemanha e no Reino Unido e também na China. Kissinger usou os contactos que fez como funcionário público para fundar uma das empresas mais lucrativas do mundo. Tendo escapado da nódoa de Watergate, usou a reputação de sábio da política externa para influenciar o debate público — em benefício dos seus clientes. Kissinger foi um entusiástico defensor de ambas as Guerras do Golfo e trabalhou de perto com o presidente Clinton para impulsionar o NAFTA (Tratado de Livre Comércio da América) através do Congresso dos Estados Unidos, que tornou ainda mais dependentes as economias do Canadá e do México e enfraqueceu a União Europeia, colocando-a contra o Japão. Várias versões de Kissinger conviveram com ele, como co-oficiantes e foram eles que talharam o nosso atual mundo e que estão na origem dos conflitos que vivemos.

O mundo do pós guerra fria é o da era dos Estados Unidos. Não é uma questão ideológica. É uma questão de facto. Houve uma era romana, uma era árabe, uma era portuguesa, curta, talvez de sessenta anos, no século dezasseis, uma era espanhola, uma era inglesa, longa e depois uma era americana, a que estamos a viver. E as eminências pardas desta era são Robert Mc Namara, o homem de Kennedy, são Zbigniew Brzesinski, a eminência parda de Carter, o homem da Trilateral de David Rockefeller (sempre um Rockfeller), o grande fórum de expansão da ideologia neoliberal dominante, e inspirador das ações no Afeganistão e na Ucrânia, Donald Rumsfeld e Dick Cheney, as almas negras de Bush filho, os patrocinadores da invasão do Iraque. E, acima de todos, o patriarca Kissinger. Não se trata de demonizar nem de santificar o homem, mas de caraterizar o tipo de criatura que, de facto, determinou a vida e a morte de milhões de seres humanos, a fome e a miséria, a fortuna, a depredação do ambiente. Trata-se de avaliar o papel das criaturas sombrias que determinam as escolhas que fazemos julgando que estamos a votar livremente, de criaturas que se riem dos discursos de Guterres sobre o ambiente, ou do papa Francisco sobre a fome e a guerra, que se riem da Carta dos Direitos Humanos da ONU, que determinam o valor do dinheiro da Reserva Federal dos EUA, do Banco Mundial, do FMI, do BCE, que criam Netanyahous, Zelenskis, Pinochets, Bin Ladens, Boris Johnsons… marionetas e homens de mão.

Quando falamos em eleições, em democracia, em expressão da vontade popular pelo voto, alguém votou em Kissinger? Mas vivemos na era Kissinger, como há trezentos anos vivemos no sistema de trocas de mercadorias por papel determinado pelas duas famílias mais poderosas e influentes do planeta, os Rockefeller, nos EUA, e os Rothschild na Europa, que ainda há pouco estabeleceram uma nova “aliança estratégica” para unir esforços e, segundo a publicidade, “oferecer oportunidades de investimento e de negócio a seus sócios e clientes”. A nova aliança tem o nome de RIT (Capital Partners). Eles riem-se.

Texto com o apoio de um artigo de Greg Grandin, professor na Universidade de Yale, prémio Pulitzer 2020, publicado na revista Nation — 29/Maio -05/Junho de 2023. Cartoon de Brodner.

01 Dezembro 2023


https://cmatosgomes46.medium.com/quem-%C3%A9-o-kissinger-que-est%C3%A1-de-servi%C3%A7o-7548285d58ca

domingo, 15 de novembro de 2009

Henry Kissinger - «Pérolas»

From Wikiquote





Power is the ultimate aphrodisiac.
Henry Alfred Kissinger (born Heinz Alfred Kissinger on May 27, 1923) is a German-born American diplomat, Nobel laureate and statesman. He served as National Security Advisor and later Secretary of State in the Nixon and Ford administrations.

Contents

 


 Sourced



Covert action should not be confused with missionary work.
  • We fought a military war; our opponents fought a political one. We sought physical attrition; our opponents aimed for our psychological exhaustion. In the process we lost sight of one of the cardinal maxims of guerrilla war: the guerrilla wins if he does not lose. The conventional army loses if it does not win. The North Vietnamese used their armed forces the way a bull-fighter uses his cape — to keep us lunging in areas of marginal political importance.
    • "The Vietnam Negotiations", Foreign Affairs, Vol. 48, No. 2 (January 1969), p. 214

  • Intellectuals are cynical and cynics have never built a cathedral.
    • As quoted in Sketchbook 1966-1971 (1971) by Max Frisch, p. 230

  • It is barely conceivable that there are people who like war.
  • Power is the ultimate aphrodisiac.
    • As quoted in The New York Times (28 October 1973)
    • Lesser known variant: Power is the great aphrodisiac.
      • As quoted in The New York Times (19 January 1971)


  • In the 1950s and 1960s we put several thousand nuclear weapons into Europe. To be sure, we had no precise idea of what to do with them.
    • Said in 1973. Cited in: Ruypers, John, Marion Austin, Patrick Carter, and Terry G. Murphy. Canadian and World Politics. Toronto: Edmond Montgomery Publications, 2005.

  • Covert action should not be confused with missionary work.
    • Said in testimony to the Pike Committee in 1975. Cited in Daugherty, William E. (2006). Executive Secrets: Covert Action and the Presidency. U Pr of Kentucky. pp. 176. ISBN 0-8131-9161-0. 

  • The superpowers often behave like two heavily armed blind men feeling their way around a room, each believing himself in mortal peril from the other, whom he assumes to have perfect vision. Each side should know that frequently uncertainty, compromise, and incoherence are the essence of policymaking. Yet each tends to ascribe to the other a consistency, foresight, and coherence that its own experience belies. Of course, over time, even two armed blind men can do enormous damage to each other, not to speak of the room.
    • The White House Years (1979)



Blessed are the people whose leaders can look destiny in the eye without flinching but also without attempting to play God.
  • Blessed are the people whose leaders can look destiny in the eye without flinching but also without attempting to play God.
    • The End of the Road (1982), Ch. 25 "Years of Upheaval"

  • If you believe that their real intention is to kill you, it isn't unreasonable to believe that they would lie to you.
    • Observation made privately, quoted by Time journalist Michael Kramer, The Case for Skepticism Time, December 26, 1988, in the context of doubts about PLO sincerity in hinting about recognition of Israel.

  • In our "age of the expert" the expert has his constituency — those who have a vested interest in commonly held opinions; elaborating and defining the consensus at a high level has, after all, made him an expert.
    • Cited in Noam Chomsky, Towards a New Cold War (1982), p. 91

  • If Tehran insists on combining the Persian imperial tradition with contemporary Islamic fervor, then a collision with America — and, indeed, with its negotiating partners of the Six — is unavoidable. Iran simply cannot be permitted to fulfill a dream of imperial rule in a region of such importance to the rest of the world.
  • If you mean by "military victory" an Iraqi government that can be established and whose writ runs across the whole country, that gets the civil war under control and sectarian violence under control in a time period that the political processes of the democracies will support, I don't believe that is possible.

Disputed



Kissinger speaking at Gerald Ford's funeral
  • Today, America would be outraged if UN troops entered Los Angeles to restore order. Tomorrow they will be grateful! This is especially true if they were told that there was an outside threat from beyond, whether real or promulgated, that threatened our very existence. It is then that all people of the world will plead to deliver them from this evil. The one thing every man fears is the unknown. When presented with this scenario, individual rights will be willingly relinquished for the guarantee of their well-being granted to them by the world government.
    • This is widely reported on many sites as coming from the "Bilderburg Conference" (1991) Evians, France, purportedly recorded by a Swiss diplomat, but no such recording has ever been provided.

  • I don't see why we need to stand by and watch a country go communist due to the irresponsibility of its own people.
    • Regarding Salvador Allende's election in Chile.
    • Cited as apocryphal in Richard R. Fagen, "The United States and Chile: Roots and Branches", Foreign Affairs, January 1975.[1]

Misattributed

  • Accept everything about yourself — I mean everything, You are you and that is the beginning and the end — no apologies, no regrets.
    • Clark Moustakas, as quoted in Sacred Simplicities: Meeting the Miracles in Our Lives (2004) by Lori Knutson, p. 141

Quotes about Kissinger

  • In Haig's presence, Kissinger referred pointedly to military men as "dumb, stupid animals to be used" as pawns for foreign policy.

External links

Wikipedia
Wikipedia has an article about: Henry Kissinger
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Henry Kissinger

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Henry A. Kissinger
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Prêmio Nobel de Paz (1973)
Henry Alfred Kissinger (27 de maio de 1923 - ). Diplomata e ex-Secretário de Estado dos EUA.

  • "A Europa? Qual é mesmo o prefixo do telefone?"
- Cit. em "Maniere de Voir" 61, 2002, p.6
  • "Se você não sabe para onde vai, todos os caminhos o levarão a lugar nenhum".
- If you don't know where you are going, every road will get you nowhere
- citado em "The Forbes Book of Business Quotations: 14,266 Thoughts on the Business of Life‎" - Página 336, de Edward C. Goodman, Ted Goodman - Publicado por Black Dog & Leventhal Publishers, 1997, ISBN 1884822622, 9781884822629 - 992 páginas
  • "Não vejo porque precisamos ficar parados e assistir um país tornar-se comunista por causa da irresponsabilidade do seu povo. As questões são muito importantes para deixarmos os eleitores chilenos decidirem por si mesmos."
- Sobre o apoio dos EUA ao golpe que derrubou Salvador Allende, presidente democraticamente eleito do Chile, em 11 de setembro de 1973.
- citado em Richard R. Fagen, "The United States and Chile: Roots and Branches", Foreign Affairs, January 1975.
  • "Até os paranóicos têm inimigos reais".
- Even a paranoid has some real enemies.
- Newsweek 13 Jun 83.
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