Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
quinta-feira, 30 de julho de 2026
A América que é grande
quarta-feira, 1 de julho de 2026
Domingos Lobo - “Felizmente Há Luar”, a propósito do centenário de Luís de Sttau-Monteiro
sexta-feira, 5 de junho de 2026
Gustavo Carneiro - Num bairro, a História
sábado, 23 de maio de 2026
António Santos - Eleições intercalares nos EUA: a trafulhice é a lei
António Santos - 10 factos chocantes sobre os EUA
quinta-feira, 21 de maio de 2026
Manuel Augusto Araújo - João Abel Manta, cronista de Abril
quinta-feira, 14 de maio de 2026
Marta Pinho Alves - Cinema de Abril
Quando chega Abril, o cinema e os seus criadores explodem de emoção
Portugal. Abl. Cinema.
A Revolução de 1974 que terminou com os 48 anos de ditadura fascista a que Portugal fora submetido abriu caminho à criação cultural que tanto tempo havia estado amordaçada ou confinada a fronteiras rígidas. No caso do cinema, a história é bastante particular e complexa, mas tentaremos sintetizar. Portugal começa o seu labor cinematográfico no final do século XIX, alinhado com o que acontece na Europa e nos EUA. Quando se inicia o cinema sonoro no nosso país, este surge já enfileirado com o Estado fascista recém-criado e como instrumento de propaganda. É o tempo das “comédias à portuguesa” ou “comédias de Lisboa”, de que são exemplo filmes como Canção de Lisboa (José Cottinelli Telmo, 1933) ou Pátio das Cantigas (Francisco Ribeiro, 1942), e dos filmes dedicados à história e literatura nacionais eleitas por António Ferro, tais como Amor de Perdição (António Lopes Ribeiro, 1943) ou Camões (António Leitão de Barros, 1946). Esgotadas estas fórmulas junto do público, facto que culminou em 1955, no chamado ano zero do cinema português, com a não produção de nenhuma longa-metragem comercial, fruto de iniciativas estatais que pretendiam reabilitar o interesse do público pelo cinema feito em Portugal e formar profissionais, em particular para a televisão, cujo aparecimento em Portugal, apesar de adiado, era cada vez mais inevitável, o cinema português é alvo de uma mudança significativa. Expressar essas mudanças e a recepção desse cinema numa só frase é impossível, mas talvez se possa tentar referindo a corrente do Novo Cinema Português, que contém obras como Os Verdes Anos (Paulo Rocha, 1963) ou Belarmino (Fernando Lopes, 1964), filmes que abandonam o registo épico dos filmes histórico-literários ou fantasiado da “comédia à portuguesa”, para mostrarem um país real, os seus verdadeiros cidadãos e os seus desafios, angústias e imposta imobilidade.
Quando chega Abril, o cinema e os seus criadores explodem de emoção como praticamente todas as dimensões da sociedade. É preciso dizer agora abertamente o que antes não era possível, é preciso demonstrar o que antes era apenas sugerido, é preciso gritar a raiva do passado e a promessa do futuro. “Cinema de Abril” é a designação encontrada para o período, curto, em que o cinema se organizou, saiu à rua, mobilizou todos com uma câmara na mão. Nesta época, organizou-se um sindicato de cinema, cooperativas, reivindicou-se mais dinheiro para a produção, o PCP criou no seio do seu Sector Intelectual uma Célula de Cinema, dedicada a produzir filmes sobre Abril, tudo isto tendo em vista o esclarecimento e a politização das massas. Ler e escrever imagens podia e devia ser direito de todos, não apenas dos já entendidos e iniciados como autores1. Vale muito a pena regressar ao cinema produzido nesse período e perceber como foi relatar, no momento em que acontecia, aquele momento histórico e a sua potência.
Para finalizar, uma nota de actualidade. O que permanece do cinema de Abril no cinema português? Quando evocámos os filmes da época é de passado que falamos ou também é do que somos hoje? Qual o legado para os filmes que fazemos no Portugal de 2026? Qual a marca deixada nos seus autores? É possível não falarmos de Abril e continuarmos a evocar as conquistas de Abril? Há uma especificidade naquilo que frequentemente designamos como o cinema autoral português – para o distinguir da corrente que afirma que o “cinema deve ir para o mercado”, estar alinhado com as indústrias culturais –, que o aproxima da intenção da cinematografia iniciada em Abril de 1974?
Marta Pinho Alves - “Estado Velho”
quinta-feira, 23 de abril de 2026
Manuel Pires da Rocha - Cantar a liberdade
Manuel Pires da Rocha
Permanece o apelo poderoso da “terra da fraternidade”
Reivindicamos a alegria.
Reivindicamos as canções de liberdade.
Reivindicamos a música ordenadora do universo.
Reivindicamos as mãos dadas dos amantes.
Reivindicamos o sabor descoberto de todas as coisas.
Reivindicamos as pontes tranquilas.
Reivindicamos a invenção das cidades habitáveis.
Reivindicamos a palavra, o poema, o livro.
Reivindicamos a festa.
Reivindicamos esta arma.
(Mário Castrim)
Quando Adriano Correia de Oliveira, José Afonso, Manuel Freire, Carlos Paredes e Fernando Alvim, José Barata-Moura, Carlos Moniz e Maria do Amparo, Ary dos Santos, entre outros, subiram ao palco do Coliseu, na noite de 29 de Março de 1974, já as canções que ali levaram tinham ecoado pelas colectividades de cultura e recreio, nos encontros da oposição democrática, nas reuniões antifascistas que eram acampamento, piquenique e homenagem.
Naquela noite de quase-Abril, cinco mil antifascistas e uma dúzia de pides, uns cantando e aplaudindo, os outros tomando notas, assistiam à ante-estreia de Grândola, Vila Morena nos caminhos da História, no mesmo tabuado em que Ary dos Santos declamava “aqui ninguém me põe a pata em cima / porque é de baixo que me vem acima / a força do lugar que for o meu”.
Vozes mais antigas seriam, porém, iniciadoras deste canto que quis ser arma libertadora. No Outono de 1945, Fernando Lopes-Graça juntou na casa de aldeia de João José Cochofel, perto de Coimbra, os também poetas Carlos de Oliveira e José Gomes Ferreira, dando início à escrita de um projecto inspirado nos cancioneiros revolucionários históricos da Revolução Francesa e da Revolução de Outubro. Marchas, Danças e Canções seria o primeiro cancioneiro político da luta antifascista portuguesa, a que seguiriam oito cadernos mais, que Lopes-Graça intitularia Canções Heróicas, Dramáticas, Bucólicas e Outras.
As Heróicas seriam inicialmente divulgadas pelo Coro do Grupo Dramático Lisbonense, constituído no seio do Movimento de Unidade Democrática (MUD). Em 1946, após uma apresentação pública na Biblioteca da Incrível Almadense, a censura proibiu o repertório. Tarde demais, porém – as Heróicas viviam já nas vozes de grupos formais e informais, juntas e afinadas na luta contra o fascismo. Tanto, que não haverá memória de lugar conspirativo, das salas do associativismo popular às celas das prisões, onde não tenha havido um cantar de “vozes ao alto, unidos como os dedos da mão”.
O século XX das lutas anticoloniais, antifascistas e anti-imperialistas viria a ser o momento da expansão geral da música de combate pela liberdade e pela construção do socialismo. Em Woody Guthrie, Luigi Nono, Violeta Parra, Mikis Theodorakis, Hanns Eisler, Victor Jara, Silvestre Revueltas, Chostakovitch e Carlos Paredes, entre tantos outros, a música assumiu opção de classe à escala universal, independentemente da natureza dos palcos e do vocabulário próprio de cada género musical.
Em Portugal, o século passado é também o lugar da descoberta da música popular das comunidades rurais, condutora de sinais civilizacionais que também são os da consciência social (“Ó minha mãe dos trabalhos / Para quem trabalho eu / Trabalho mato o meu corpo / Não tenho nada meu”). Por isso é que, em Lopes-Graça, a Jornada é companheira da Canção da Vindima, em José Afonso o Cantar Alentejano (em homenagem a Catarina Eufémia) divide intenções com Milho Verde e, no canto de Adriano Correia de Oliveira, Tejo Que Levas As Águas ombreia com ‘Inda Eu Era Pequenino.
Chegados aqui, constata-se que o cantar que (também) abriu caminho à Liberdade que em cada Abril se celebra, não perdeu actualidade. Nestes dias de ameaça à paz, ao pão, à habitação, à saúde e à educação, democratas de todas as idades entoam o velho refrão de Liberdade – palavra de ordem intemporal da exigência de um tempo de justiça. E cantam Os Vampiros denunciando o saque, o Acordai chamando para a luta, o Hino de Caxias cerrando fileiras. E acolhem cantos emergentes, que são mornas e dizeres de hip hop, somando-se ao cantar histórico nas lutas dos movimentos Vida Justa e Casa Para Viver, nas acções do movimento sindical, nas iniciativas pela paz, nas acções de solidariedade com a Palestina e com Cuba.
Juntam-se, no rumor do nosso tempo, timbres e sotaques diversos, mas o estribilho geral permanece o apelo poderoso da “terra da fraternidade" q”e, cantando “junta a tua à nossa voz”, marca encontro com o futuro.
https://www.avante.pt/pt/2734/argumentos/183422/Cantar-a-liberdade.htm



,%20de%20Paulo%20Rocha.jpeg)

