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quinta-feira, 30 de julho de 2026

A América que é grande


Vistos deste lado da luta de classes, os 250 anos dos EUA contam uma his­tória de opressão, guerra e de­si­gual­dades. Nas úl­timas muitas dé­cadas, a prin­cipal po­tência im­pe­ri­a­lista do mundo re­pre­sentou, como ainda re­pre­senta, o grande ad­ver­sário das forças da paz, da de­mo­cracia e do pro­gresso so­cial. Mas, se­jamos justos, também ali há – sempre houve! – quem tenha to­mado par­tido pelos que todos os dias lutam pela so­bre­vi­vência e a dig­ni­dade, por quem menos tem, pelos povos opri­midos e agre­didos.

Era norte-ame­ri­cano o cam­peão de boxe Muhammad Ali, que se re­cusou a matar os seus “ir­mãos” vi­et­na­mitas, pois par­ti­lhavam um ini­migo comum – e foi por isso cas­ti­gado e im­pe­dido de de­fender o tí­tulo mun­dial. Como também o era o cantor Paul Ro­beson, que con­fessou ter sido na União So­vié­tica a pri­meira vez que não se sentiu ví­tima de ra­cismo e co­locou a sua mag­ní­fica voz ao ser­viço da paz e dos di­reitos dos povos (a sua in­ter­pre­tação das can­ções da Guerra Civil de Es­panha, num Con­gresso Mun­dial da Paz, emo­ciona).

Eram na­tu­rais dos EUA os mem­bros do Ba­ta­lhão Abraham Lin­coln, que atra­ves­saram o Atlân­tico para in­te­grar as Bri­gadas In­ter­na­ci­o­nais que tra­varam ao lado dos re­pu­bli­canos es­pa­nhóis uma ba­talha de­ci­siva contra o fas­cismo – e muitos por lá fi­caram, mortos. Nas­cido em Oklahoma, Woody Guthrie exaltou os de­ser­dados da Grande De­pressão e cantou um país que de­veria ser para todos, em­pu­nhando a sua gui­tarra – essa má­quina que, avi­sava, “mata fas­cistas”. É também pro­fun­da­mente norte-ame­ri­cano Tom Joad, o per­so­nagem de “As Vi­nhas da Ira”, obra-prima de Stein­beck, que ins­pirou cada luta pelo pão e pela jus­tiça num país di­la­ce­rado pela de­si­gual­dade so­cial e ra­cial.

Era norte-ame­ri­cano o jor­na­lista John Reed, que como ne­nhum outro re­latou ao mundo as epo­peias re­vo­lu­ci­o­ná­rias do Mé­xico in­sur­recto e da Rússia bol­che­vique, com a qual se man­teve so­li­dário até ao fim pre­coce da sua vida, pe­rante a in­vasão de 14 po­tên­cias es­tran­geiras, entre as quais os EUA. Tal como o eram Har­riet Tubman e Fre­de­rick Dou­glass, an­tigos es­cravos que de­di­caram as suas vidas a com­bater a es­cra­va­tura e a apoiar os que não ti­veram as mesmas pos­si­bi­li­dades de eman­ci­pação.

Outro norte-ame­ri­cano, o ve­te­rano da Guerra Civil Henry Reeve, vi­ajou para Cuba para com­bater ao lado dos pa­tri­otas que no sé­culo XIX lu­tavam contra o do­mínio es­pa­nhol, luta essa que via como uma ex­tensão da sua pró­pria, contra a es­cra­va­tura (de origem ir­lan­desa, opunha-se também ao co­lo­ni­a­lismo). Nas fi­leiras do exér­cito re­belde cu­bano, Henry Reeve atingiu o posto de Bri­ga­deiro-Ge­neral antes de morrer em com­bate. Mais de um sé­culo pas­sado, a Re­vo­lução cu­bana honrou o herói in­ter­na­ci­o­na­lista dando o seu nome ao Con­tin­gente Mé­dico In­ter­na­ci­onal es­pe­ci­a­li­zado em si­tu­a­ções de emer­gência na­tural e sa­ni­tária.

Esta Amé­rica sim, é grande!

Avante n.º 2748 (30/07/2026)

quarta-feira, 1 de julho de 2026

Domingos Lobo - “Felizmente Há Luar”, a propósito do centenário de Luís de Sttau-Monteiro



* Domingos Lobo

É pa­rá­bola dos tempos som­brios da dé­cada de 60, do País sob Sa­lazar

O te­atro épico é a ten­ta­tiva mais ampla e mais ra­dical de cri­ação de um grande te­atro mo­derno; cabe-lhe vencer as mesmas imensas di­fi­cul­dades que, no do­mínio da po­lí­tica, da fi­lo­sofia, da ci­ência e da arte, todas as forças com vi­ta­li­dade têm de vencer.1

Ber­tolt Brecht e o seu con­ceito de te­atro épico teve in­fluência de­ter­mi­nante, em início dos anos 1960, em al­guns au­tores pro­gres­sistas como José Car­doso Pires, com “O Render dos He­róis”; Luís Sttau Mon­teiro, com “Fe­liz­mente Há Luar” e “As Mãos de Abraão Zacut”; Luzia Maria Mar­tins, com “Bo­cage”, “Alma Sem Mundo” e “O Judeu”, de Ber­nardo San­ta­reno.

Destes cinco textos dra­má­ticos, só “Fe­liz­mente Há Luar” e “O Judeu”, face às in­cur­sões cen­só­rias, não ti­veram es­treia entre nós antes de 25 de Abril de 1974.

sexta-feira, 5 de junho de 2026

Gustavo Carneiro - Num bairro, a História



* Gustavo Carneiro

Es­teve pa­tente até à se­mana pas­sada, no Te­atro Ave­nidas, em Lisboa, a ex­po­sição “As ja­nelas que Abril abriu”, que in­cluía tra­ba­lhos de es­tu­dantes do 9.º ano da Es­cola Bá­sica 2, 3 Pro­fessor Delfim Santos e iden­ti­fi­cava as casas clan­des­tinas do PCP no Bairro do Rego, onde hoje está si­tuada a sede na­ci­onal do Par­tido. Foram oito as casas, só neste bairro po­pular da ca­pital.

Numa delas viveu Álvaro Cu­nhal em 1937, quando era di­ri­gente da Fe­de­ração das Ju­ven­tudes Co­mu­nistas Por­tu­guesas. Ou­tras duas, uma ti­po­grafia e uma ha­bi­tação de mi­li­tantes clan­des­tinos, foram as­sal­tadas pela po­lícia po­lí­tica no mesmo dia: 10 de Ja­neiro de 1938. Neste final de dé­cada, o fas­cismo pa­recia im­pa­rável, em Por­tugal e em grande parte da Eu­ropa. A re­pressão des­feria rudes golpes nas or­ga­ni­za­ções do Par­tido e na sua im­prensa, e no Tar­rafal mor­riam já muitos an­ti­fas­cistas.

Mas a his­tória não acabou aí, como de­monstra a exis­tência de ou­tras casas iden­ti­fi­cadas na ex­po­sição: uma serviu de ponto de apoio a Pedro So­ares e talvez a Jo­a­quim Pires Jorge, que nesse ano de 1942 se em­pe­nhavam na re­or­ga­ni­zação do Par­tido, que ha­veria de lhe con­ferir uma di­mensão na­ci­onal e torná-lo na van­guarda da re­sis­tência e da uni­dade an­ti­fas­cistas. Na­quele bairro viveu também Oc­távio Pato em 1946, ano do IV Con­gresso do Par­tido, re­a­li­zado num mo­mento de forte ex­pansão das lutas ope­rá­rias e da or­ga­ni­zação par­ti­dária: em apenas três anos, o nú­mero de mi­li­tantes au­mentou seis vezes e a ti­ragem do Avante! mul­ti­pli­cara-se por quatro. Este mesmo di­ri­gente vol­taria mais tarde ao Bairro do Rego, onde em 1959 tinha um ponto de apoio, jun­ta­mente com An­tónio Dias Lou­renço. Nesses tempos em que o fas­cismo en­con­trava nos EUA e na NATO o apoio de que pre­ci­sava para so­bre­viver, a luta so­fria re­veses, era menos ampla do que nou­tros mo­mentos – mas não ces­sava. Quem sabe se na­quela casa da Rua Tomás Ca­breira não se ajudou a pla­near a fuga de Pe­niche, que no início de 1960 de­volveu à luta an­ti­fas­cista ac­tiva Álvaro Cu­nhal e ou­tros nove des­ta­cados di­ri­gentes co­mu­nistas?

Certo é que em 1963, uma casa clan­des­tina na­quele bairro fora aban­do­nada por ra­zões de se­gu­rança. Vivia-se já uma nova fase, de as­censo re­vo­lu­ci­o­nário: o 1.º de Maio de 1962 fora uma jor­nada ex­tra­or­di­nária; nos campos do sul os ope­rá­rios agrí­colas con­quis­taram a jor­nada de oito horas, pondo fim ao es­cra­vi­zante tra­balho de sol a sol; o início da guerra co­lo­nial abrira uma nova frente de luta an­ti­fas­cista. A úl­tima casa iden­ti­fi­cada al­bergou um casal de fun­ci­o­ná­rios do Par­tido em 1968, quando a di­ta­dura fingia mudar para deixar tudo na mesma e a luta crescia, alar­gava-se e agre­gava gente nova e nova gente.

Cen­trada num bairro, e em tantos ou­tros foi também assim, esta é a his­tória da luta de um povo, que con­tinua nos exi­gentes tempos em que vi­vemos. Com avanços e re­cuos – e onde sempre, mas sempre, se en­con­tram os co­mu­nistas.

https://www.avante.pt/pt/2740/opiniao/183927/Num-bairro-a-Hist%C3%B3ria.htm

Foto em
https://www.instagram.com/p/DYXpSZVCOjj/?img_index=4

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avenidas.umteatroemcadabairro
 
// EXPOSIÇÃO 
As janelas que abril abriu, ou não!
15 A 30 MAI

INAUGURAÇÃO 
🗓 15 MAI | SEX | 17h 
📍Avenidas - Um Teatro em Cada Bairro 

A exposição “As Janelas que Abril abriu, ou não!”, apresenta trabalhos realizados pelos alunos da turma A, do 9.º ano da Escola Básica 2,3 Professor Delfim Santos – Agrupamento de Escolas das Laranjeiras. 

Partindo de passeios pelo Bairro do Rego, em Lisboa, visitámos a Coletividade “Os Económicos” e observámos janelas de casas que outrora acolheram opositores ao regime. Tomámos essas janelas como testemunhos de tempos de vigilância, mas também de esperança e como símbolos de transição da abertura que abril tornou possível.

Parceria: Escola Básica 2,3 Professor Delfim Santos - Agrupamento de Escolas das Laranjeiras. Alunos 9.º A, Professores Dilar Pereira e João Pedro Martins; Biblioteca Escolar e Projeto Descolar Com.

https://www.instagram.com/p/DYMZmJogsLw/

sábado, 23 de maio de 2026

António Santos - Eleições intercalares nos EUA: a trafulhice é a lei

* António Santos

À me­dida que se apro­ximam as elei­ções in­ter­ca­lares de No­vembro nos EUA, a ad­mi­nis­tração Trump, que co­lec­ciona re­cordes his­tó­ricos de im­po­pu­la­ri­dade, não poupa es­forços para ga­rantir an­te­ci­pa­da­mente a vi­tória elei­toral, mesmo que ela ocorra na se­cre­taria, ou no sé­culo XIX. No mês pas­sado, uma mai­oria de juízes ultra-re­ac­ci­o­ná­rios do su­premo tri­bunal feriu com gra­vi­dade a Lei do Di­reito ao Voto que, em 1965, es­ta­be­leceu o fim da dis­cri­mi­nação elei­toral dos ne­gros. Apro­vei­tando-se da am­bi­gui­dade ine­rente ao con­ceito de “raça”, o su­premo es­can­carou a porta ao ra­cismo nas pró­ximas elei­ções.

Em causa está, por exemplo, o “Ger­ry­man­de­ring” – a prá­tica de al­terar os mapas dos cír­culos elei­to­rais para ga­rantir mais eleitos. Os Re­pu­bli­canos não in­ven­taram a per­versa arma do “Ger­ry­man­de­ring”, tão an­tiga como a de­mo­cracia bur­guesa, e os De­mo­cratas também a dis­param sempre que o alvo lhes é con­ve­ni­ente. O que aqui há de novo é que, por um lado, o “Ger­ry­man­de­ring” volta a ser no­va­mente usado para ga­rantir que os votos dos ne­gros não contam e que, por outro lado, à me­dida que Trump con­so­lida o do­mínio sobre o apa­relho ju­di­cial, o Par­tido De­mo­crata tem cada vez mais di­fi­cul­dade a ri­postar na mesma moeda. Esta se­mana, por exemplo, o prin­cipal dis­trito elei­toral negro de Memphis, no Ten­nessee, foi dis­sol­vido e dis­tri­buído por três dis­tritos de mai­oria branca e con­ser­va­dora. No Mis­sis­sipi, na Loui­siana e na Vir­ginia, os mapas elei­to­rais também estão a ser re­de­se­nhados no mesmo sen­tido. Con­tra­ri­a­mente, esta se­mana, o Par­tido De­mo­crata viu chum­badas pelos tri­bu­nais quatro ten­ta­tivas de al­terar os mapas a seu favor.

Nos EUA, as elei­ções acon­tecem em dias la­bo­rais (as in­ter­ca­lares, por exemplo, serão numa terça-feira) e só em 21 dos 50 Es­tados os pa­trões são le­gal­mente obri­gados a per­mitir que os tra­ba­lha­dores vão votar sem perda de ven­ci­mento, o que só por si já é ex­tre­ma­mente di­fícil ga­rantir e fis­ca­lizar. Nou­tros sete Es­tados, os tra­ba­lha­dores até podem parar de tra­ba­lhar para irem votar, mas perdem o dia de sa­lário, um con­vite a que os tra­ba­lha­dores mais po­bres não votem. Para pi­orar tudo, a ge­o­grafia dos EUA faz com que votar exija fre­quen­te­mente de­mo­radas e cus­tosas vi­a­gens de carro. Sem sur­presas, a taxa de par­ti­ci­pação dos mais ricos já é ac­tu­al­mente o dobro da dos mais po­bres, que até aqui se de­fen­diam vo­tando por cor­res­pon­dência.

Para tornar o voto dos tra­ba­lha­dores ainda mais di­fícil, Trump quer agora li­mitar quase por com­pleto o voto por cor­reio: deu or­dens ile­gais aos cor­reios pú­blicos para não en­tre­garem cartas com bo­le­tins de voto, ex­cep­tu­ando as dos “elei­tores pré-apro­vados” – por ele, claro está. No mesmo sen­tido, apre­sentou no con­gresso a Lei SAVE, que con­si­derou aliás «pri­o­ri­dade nú­mero um» e que, se avançar, tor­nará obri­ga­tória a apre­sen­tação do pas­sa­porte ou do bo­letim de nas­ci­mento para poder votar, ex­cluindo 21 mi­lhões de elei­tores que nunca ti­veram estes do­cu­mentos. Steve Bannon, ex-con­se­lheiro de Trump, foi mais longe e su­geriu mo­bi­lizar para as mesas de voto o ICE; a in­fame po­lícia mi­gra­tória, para ater­ro­rizar quem tenha ar de imi­grante.

 Avante n.º 2737 (14/05/2026)

https://www.avante.pt/pt/2737//183689
https://www.odiario.info/eleicoes-intercalares-nos-eua-a-trafulhice/

António Santos - 10 factos chocantes sobre os EUA

* António Santos

1. Os Es­tados Unidos têm a maior po­pu­lação pri­si­onal do mundo, com­pondo menos de 5% da hu­ma­ni­dade e mais de 25% da hu­ma­ni­dade presa. Em cada 100 ame­ri­canos um está preso.A subir em flecha desde os anos 80, a sur­real taxa de en­car­ce­ra­mento dos EUA é um ne­gócio e um ins­tru­mento de con­trolo so­cial: à me­dida que o ne­gócio das pri­sões pri­vadas alastra, uma nova ca­te­goria de mi­li­o­ná­rios con­so­lida o seu poder po­lí­tico. Os donos destes cár­ceres são também donos dos es­cravos que tra­ba­lham em fá­bricas dentro da prisão por sa­lá­rios in­fe­ri­ores a 50 cên­timos por hora. Uma mão-de-obra tão com­pe­ti­tiva que muitos mu­ni­cí­pios hoje so­bre­vivem fi­nan­cei­ra­mente das suas pri­sões ca­ma­rá­rias e graças a leis que vul­ga­rizam sen­tenças até 15 anos de prisão por crimes como roubar pas­tilha elás­tica. Os alvos destas leis são in­va­ri­a­vel­mente os mais po­bres, mas so­bre­tudo os ne­gros, que re­pre­sen­tando apenas 13% da po­pu­lação ame­ri­cana, com­põem 40% da po­pu­lação pri­si­onal do país.

2. 22% das cri­anças ame­ri­canas vivem abaixo do li­miar da po­breza.Cal­cula-se que cerca de 16 mi­lhões de cri­anças ame­ri­canas vivam sem «se­gu­rança ali­mentar», ou seja, em fa­mí­lias sem ca­pa­ci­dade eco­nó­mica para sa­tis­fazer os re­qui­sitos nu­tri­ci­o­nais mí­nimos de uma dieta sau­dável. As es­ta­tís­ticas provam que estas cri­anças têm pi­ores re­sul­tados es­co­lares, aceitam pi­ores em­pregos, não fre­quentam a uni­ver­si­dade e têm uma maior pro­ba­bi­li­dade de, quando adultos, serem presos.

3. Entre 1890 e 2014 os EUA in­va­diram ou bom­bar­de­aram 151 países.
São mais os países do mundo em que os EUA já in­ter­vi­eram mi­li­tar­mente do que aqueles em que ainda não o fi­zeram. Nú­meros con­ser­va­dores apontam para mais de oito mi­lhões de mortes cau­sadas pelas guerras im­pe­riais dos EUA só no sé­culo XX. E por de­trás desta lista es­condem-se cen­tenas de ou­tras ope­ra­ções se­cretas, golpes de es­tado e pa­tro­cí­nios a di­ta­dores e grupos ter­ro­ristas. Se­gundo Obama, lau­reado do Nobel da Paz, os EUA têm neste mo­mento mais de 70 ope­ra­ções mi­li­tares se­cretas a de­correr em vá­rios países do mundo. O mesmo pre­si­dente criou o maior or­ça­mento mi­litar de qual­quer país do mundo desde a Se­gunda Guerra Mun­dial, ba­tendo de longe Ge­orge W. Bush.

4. Os EUA são o único país da OCDE sem di­reito a qual­quer tipo de sub­sídio de ma­ter­ni­dade.
Em­bora estes nú­meros va­riem de acordo com o Es­tado e de­pendam dos con­tratos re­di­gidos pela em­presa, é prá­tica cor­rente que as mu­lheres ame­ri­canas não te­nham di­reito a ne­nhum dia pago antes nem de­pois de dar à luz. Em muitos casos, não existe se­quer a pos­si­bi­li­dade de tirar baixa sem ven­ci­mento. Quase todos os países do mundo con­tem­plam entre 12 e 50 se­manas pagas em li­cença de ma­ter­ni­dade. Os Es­tados Unidos fazem com­pa­nhia à Papua Nova Guiné e à Su­a­zi­lândia com zero se­manas.

5. 125 ame­ri­canos morrem todos os dias por não po­derem pagar o acesso à saúde.
Quem não tiver se­guro de saúde (como 50 mi­lhões de ame­ri­canos não têm) tem boas ra­zões para re­cear mais a am­bu­lância do que o ino­cente ataque car­díaco. Com vi­a­gens de am­bu­lância a cus­tarem em média 500 euros, a es­tadia num hos­pital pú­blico mais de 200 euros por noite e a mai­oria das ope­ra­ções ci­rúr­gicas si­tu­adas nas de­zenas de mi­lhares, é bom que se possa pagar um se­guro de saúde pri­vado.

6. Os EUA foram fun­dados sobre o ge­no­cídio de 10 mi­lhões de na­tivos. Só entre 1940 e 1980, 40% de todas as mu­lheres em re­servas ín­dias foram es­te­ri­li­zadas contra sua von­tade pelo go­verno.
Es­queça a his­tória do Dia de Acção de Graças, com ín­dios e co­lonos a par­ti­lhar pa­ca­ta­mente um peru. A his­tória dos EUA co­meça no pro­grama de er­ra­di­cação dos ín­dios: du­rante dois sé­culos, os na­tivos foram per­se­guidos e as­sas­si­nados, des­po­jados de tudo e em­pur­rados para mi­nús­culas re­servas de terras in­fér­teis, em li­xeiras nu­cle­ares e sobre solos con­ta­mi­nados. Em pleno sé­culo XX, os EUA pu­seram em marcha um plano de es­te­ri­li­zação for­çada das mu­lheres na­tivas, pe­dindo-lhes para as­si­narem for­mu­lá­rios es­critos num língua que não com­pre­en­diam, ame­a­çando-as com o corte de sub­sí­dios ou, sim­ples­mente, cor­tando-lhes o acesso à saúde.

7. Todos os imi­grantes são obri­gados a jurar não serem co­mu­nistas para po­derem viver nos EUA.
Para além de ter que jurar que não é um agente se­creto nem um cri­mi­noso de guerra nazi, vão-lhe per­guntar se é ou al­guma vez foi membro do «Par­tido Co­mu­nista», ou se de­fende in­te­lec­tu­al­mente al­guma or­ga­ni­zação con­si­de­rada «ter­ro­rista». Se res­ponder que sim a qual­quer destas per­guntas, pode ser-lhe ne­gado o di­reito de viver e tra­ba­lhar nos EUA por «prova de fraco ca­rácter moral».

8. O preço médio de uma li­cen­ci­a­tura numa uni­ver­si­dade pú­blica é 80 000 dó­lares.
O En­sino Su­pe­rior é uma au­tên­tica mina de ouro para os ban­queiros. Vir­tu­al­mente todos os es­tu­dantes têm dí­vidas as­tro­nó­micas que, acres­cidas de juros, le­varão em média 15 anos a pagar. Du­rante esse pe­ríodo, os alunos tornam-se servos dos bancos e das suas dí­vidas, sendo amiúde for­çados a con­trair novos em­prés­timos para pagar os an­tigos. Entre 1999 e 2014, a dí­vida total dos es­tu­dantes es­tado-uni­denses as­cendeu a 1.5 tri­liões de dó­lares, su­bindo uns as­sus­ta­dores 500%.

9. Os EUA são o país do mundo com mais armas: para cada 10 ame­ri­canos, há nove armas de fogo.
Não é de es­pantar que os EUA levem o pri­meiro lugar na lista dos países com a maior co­lecção de armas. O que sur­pre­ende é a com­pa­ração com o resto do mundo: no resto do pla­neta há uma arma para cada 10 pes­soas. Nos Es­tados Unidos, nove para cada 10. Nos EUA po­demos en­con­trar 5% de toda a hu­ma­ni­dade e 30% de todas as armas, qual­quer coisa como 275 mi­lhões.

10. São mais os ame­ri­canos que acre­ditam no Diabo do que aqueles que acre­ditam em Darwin.
A mai­oria dos ame­ri­canos são cép­ticos, pelo menos no que toca à te­oria da evo­lução, em que apenas 40% da po­pu­lação acre­dita. Já a exis­tência de Sa­tanás e do in­ferno soa per­fei­ta­mente plau­sível a mais de 60% dos ame­ri­canos. Esta ra­di­ca­li­dade re­li­giosa ex­plica as «con­versas diá­rias» do ex-pre­si­dente Bush com Deus e mesmo as ines­go­tá­veis di­a­tribes sobre a na­tu­reza te­o­ló­gica da fé de Obama.

Avante n.º 2105 (3/04/2014)
https://www.avante.pt/pt/2105//129683

quinta-feira, 21 de maio de 2026

Manuel Augusto Araújo - João Abel Manta, cronista de Abril


* Manuel Augusto Araújo

32 anos depois da Revolução de Abril, rever os «cartoons» de João Abel Manta, é reviver alguns dos momentos fortes que balizaram a história daquele tempo que se viveu em aceleração apaixonada, entre o 25 de Abril e o 25 de Novembro.

Se naquela altura radiografavam à velocidade do pensamento o que estava a acontecer, hoje são parte imprescindível da história da Revolução. Não perderem a ironia, feroz e subtil, com que João Abel Manta dissecava os sucessos desses dias traçando um mapa que nos continua a orientar pelas estradas vertiginosas do que ficou conhecido por PREC.

Eram comentários urgentes e acutilantes, feitos em cima do acontecimento e o que era e continua a ser espantoso, é nunca perderem o norte e acertarem sempre no alvo com uma precisão tão rigorosa que só é comparável à certeza cinematográfica dos golpes de kung-fu.

Em João Abel Manta a inteligência cortante, ancorada numa vasta e sempre actualizada cultura, distingue os seus «cartoons» desde os primeiros publicados na revista de Arquitectura aos que se seguiram no Al­ma­naque ou no suplemento literário do Diário de Lisboa ou nas ilustrações do «Di­nos­sauro Ex­ce­len­tís­simo», personagem que criou em parceria com José Cardoso Pires em que se retratava Salazar-o-Botas, parceria que continuou no «Burro em pé», uma peregrinação pelas comarcas de Portugal em demanda dessa personagem difusa mas muito popular por essas paragens.

Arquitecto de profissão (um dos melhores conjuntos arquitectónicos de Lisboa, os blocos na avenida Infante Santo, são projecto que realizou com Alberto Pessoa e Hernani Gandra), pintor e desenhador por vocação, cartonista por gozo pessoal e para nosso gozo, o traço mesmo quando é grosso é de um rigor deslumbrante e filia João Abel Manta entre os Bordalos, os Steinbergs, os Daumier ou os François, colocando-o como um dos melhores cartonistas de todos os tempos

É evidente que não é indiferente ao risco dos «cartoons» o saber adquirido enquanto desenhador e pintor onde evidencia um saber, um talento e uma originalidade que o destacam mesmo quando deliberadamente procura um academismo palpável, para se demarcar de uma pintura que só existe como arte pelo que se diz sobre ela.

A história contemporânea de arte portuguesa, ensarilhada nas contradanças dos mar­ke­tings mais diversos, não tem dado a devida atenção a este artista que ocupa um lugar destacado na pintura, no desenho, na ilustração, no cartoon, nas maquetas de cenários, na tapeçaria e na arquitectura. Raramente alguém verteu o seu talento invulgar por tão diversas áreas, realizando obras como, por exemplo, os cenários para Shakespeare, a tapeçaria que foi premiada e figura no salão nobre da Gulbenkian, as ilustrações da «Arte de Furtar», o desenho distinguido na II Exposição Gulbenkian ou o já referido bloco de habitações na avenida Infante Santo.

Já é tempo de se realizar uma retrospectiva de toda a sua obra.

Em Abril há que lembrar que a história de Portugal entre Junho de 1969 e Novembro de 1975 pode sofrer um terramoto, pode ser objecto das melhores ou das piores rescritas, mas existindo os «cartoons» de João Abel Manta, a nossa memória e a memória do país está garantida pelo registo e o selo branco de um dos nossos maiores artistas.

Olhar hoje para os «cartoons» de João Abel é reviver um tempo que alguns de nós vivemos exaltantemente, mas é igualmente descobrir como o seu fazedor coloca o cartonismo entre as artes maiores.

Avante nº 1602 - 2006 94 27

200https://www.avante.pt/pt/1691//13990

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O regresso dos cartoons de João Abel Manta

A Tinta da China re­e­dita, hoje, o livro com os «icó­nicos car­toons» (1969-1975) de João Abel Manta, um dos «me­lhores de­se­nha­dores e ilus­tra­dores por­tu­gueses» das úl­timas dé­cadas do sé­culo XX, que, desde cedo, re­velou a sua opo­sição à di­ta­dura fas­cista.

«Ao fim de 48 anos, esta é a pri­meira re­e­dição deste tí­tulo: levou, pois, quase tanto tempo a que estes de­se­nhos re­gres­sassem ao con­vívio dos lei­tores por­tu­gueses como o que durou o re­gime der­ru­bado pela Re­vo­lução de Abril de 1974. Fe­chados já os jor­nais para onde eles foram en­vi­ados, ama­re­le­cidos ou apo­dre­cidas as edi­ções onde foram im­pressos, es­que­cidos até al­guns dos mo­mentos ou per­so­na­gens neles re­pre­sen­tados, aqui os temos de novo, tão bri­lhantes e per­ti­nentes como quando saíram do es­ti­rador de João Abel Manta», des­creve a edi­tora, no texto de apre­sen­tação da obra.

Neste livro in­cluem-se car­toons an­te­ri­ores a 1975 que não cons­tavam da pri­meira edição e todos os pos­te­ri­ores a esse ano, com notas, da­tação ri­go­rosa, or­ga­ni­zação cro­no­ló­gica e uma in­tro­dução con­tex­tu­a­li­zada deste tra­balho.

Avante nº 2577 - 2023 04 20 

https://www.avante.pt/pt/2577//171296

quinta-feira, 14 de maio de 2026

Marta Pinho Alves - Cinema de Abril


Marta Pinho Alves

Quando chega Abril, o ci­nema e os seus cri­a­dores ex­plodem de emoção

Por­tugal. Abl. Ci­nema.

A Re­vo­lução de 1974 que ter­minou com os 48 anos de di­ta­dura fas­cista a que Por­tugal fora sub­me­tido abriu ca­minho à cri­ação cul­tural que tanto tempo havia es­tado amor­da­çada ou con­fi­nada a fron­teiras rí­gidas. No caso do ci­nema, a his­tória é bas­tante par­ti­cular e com­plexa, mas ten­ta­remos sin­te­tizar. Por­tugal co­meça o seu labor ci­ne­ma­to­grá­fico no final do sé­culo XIX, ali­nhado com o que acon­tece na Eu­ropa e nos EUA. Quando se inicia o ci­nema so­noro no nosso país, este surge já en­fi­lei­rado com o Es­tado fas­cista recém-criado e como ins­tru­mento de pro­pa­ganda. É o tempo das “co­mé­dias à por­tu­guesa” ou “co­mé­dias de Lisboa”, de que são exemplo filmes como Canção de Lisboa (José Cot­ti­nelli Telmo, 1933) ou Pátio das Can­tigas (Fran­cisco Ri­beiro, 1942), e dos filmes de­di­cados à his­tória e li­te­ra­tura na­ci­o­nais eleitas por An­tónio Ferro, tais como Amor de Per­dição (An­tónio Lopes Ri­beiro, 1943) ou Ca­mões (An­tónio Leitão de Barros, 1946). Es­go­tadas estas fór­mulas junto do pú­blico, facto que cul­minou em 1955, no cha­mado ano zero do ci­nema por­tu­guês, com a não pro­dução de ne­nhuma longa-me­tragem co­mer­cial, fruto de ini­ci­a­tivas es­ta­tais que pre­ten­diam re­a­bi­litar o in­te­resse do pú­blico pelo ci­nema feito em Por­tugal e formar pro­fis­si­o­nais, em par­ti­cular para a te­le­visão, cujo apa­re­ci­mento em Por­tugal, apesar de adiado, era cada vez mais ine­vi­tável, o ci­nema por­tu­guês é alvo de uma mu­dança sig­ni­fi­ca­tiva. Ex­pressar essas mu­danças e a re­cepção desse ci­nema numa só frase é im­pos­sível, mas talvez se possa tentar re­fe­rindo a cor­rente do Novo Ci­nema Por­tu­guês, que contém obras como Os Verdes Anos (Paulo Rocha, 1963) ou Be­lar­mino (Fer­nando Lopes, 1964), filmes que aban­donam o re­gisto épico dos filmes his­tó­rico-li­te­rá­rios ou fan­ta­siado da “co­média à por­tu­guesa”, para mos­trarem um país real, os seus ver­da­deiros ci­da­dãos e os seus de­sa­fios, an­gús­tias e im­posta imo­bi­li­dade.

Quando chega Abril, o ci­nema e os seus cri­a­dores ex­plodem de emoção como pra­ti­ca­mente todas as di­men­sões da so­ci­e­dade. É pre­ciso dizer agora aber­ta­mente o que antes não era pos­sível, é pre­ciso de­mons­trar o que antes era apenas su­ge­rido, é pre­ciso gritar a raiva do pas­sado e a pro­messa do fu­turo. “Ci­nema de Abril” é a de­sig­nação en­con­trada para o pe­ríodo, curto, em que o ci­nema se or­ga­nizou, saiu à rua, mo­bi­lizou todos com uma câ­mara na mão. Nesta época, or­ga­nizou-se um sin­di­cato de ci­nema, co­o­pe­ra­tivas, rei­vin­dicou-se mais di­nheiro para a pro­dução, o PCP criou no seio do seu Sector In­te­lec­tual uma Cé­lula de Ci­nema, de­di­cada a pro­duzir filmes sobre Abril, tudo isto tendo em vista o es­cla­re­ci­mento e a po­li­ti­zação das massas. Ler e es­crever ima­gens podia e devia ser di­reito de todos, não apenas dos já en­ten­didos e ini­ci­ados como au­tores1. Vale muito a pena re­gressar ao ci­nema pro­du­zido nesse pe­ríodo e per­ceber como foi re­latar, no mo­mento em que acon­tecia, aquele mo­mento his­tó­rico e a sua po­tência.

Para fi­na­lizar, uma nota de ac­tu­a­li­dade. O que per­ma­nece do ci­nema de Abril no ci­nema por­tu­guês? Quando evo­cámos os filmes da época é de pas­sado que fa­lamos ou também é do que somos hoje? Qual o le­gado para os filmes que fa­zemos no Por­tugal de 2026? Qual a marca dei­xada nos seus au­tores? É pos­sível não fa­larmos de Abril e con­ti­nu­armos a evocar as con­quistas de Abril? Há uma es­pe­ci­fi­ci­dade na­quilo que fre­quen­te­mente de­sig­namos como o ci­nema au­toral por­tu­guês – para o dis­tin­guir da cor­rente que afirma que o “ci­nema deve ir para o mer­cado”, estar ali­nhado com as in­dús­trias cul­tu­rais –, que o apro­xima da in­tenção da ci­ne­ma­to­grafia ini­ciada em Abril de 1974?

Ten­ta­remos, em pró­ximos textos, apro­xi­marmo-nos de uma res­posta quase im­pos­sível à per­gunta: o que é o ci­nema por­tu­guês (con­tem­po­râneo)?

1Sobre este tó­pico, ver o tra­balho vasto e di­verso dos in­ves­ti­ga­dores José Fi­lipe Costa e Paulo Cunha


https://www.avante.pt/pt/2733//183358

Marta Pinho Alves - “Estado Velho”




* Marta Pinho Alves

O filme re­alça a de­cre­pi­tude e a de­for­mi­dade do fas­cismo por­tu­guês

Fa­lamos neste texto do mais re­cente filme de João Bo­telho, in­ti­tu­lado O Velho Sa­lazar. O ci­ne­asta tem mos­trado nos úl­timos anos uma abun­dante pro­dução ci­ne­ma­to­grá­fica. Quase em si­mul­tâneo a esta obra es­treou outra ainda não su­fi­ci­en­te­mente co­nhe­cida e di­fun­dida, As Me­ninas Exem­plares, uma adap­tação muito livre do livro ho­mó­nimo de Con­dessa de Ségur, com uma ima­gé­tica for­te­mente ins­pi­rada no tra­balho da ar­tista plás­tica Paula Rego. No mo­mento ac­tual, entre as es­treias dos dois antes men­ci­o­nados, filmou já outro filme (em fase de pós-pro­dução), O Rei Lear, de Wil­liam Sha­kes­peare, ba­seado na tra­dução para por­tu­guês de Álvaro Cu­nhal, e en­contra-se a pre­parar o do­cu­men­tário Dan­cing Pe­ople Are Never Wrong.

Neste afã cri­ador, surge então um filme que se de­dica, mais do que à fi­gura do di­tador por­tu­guês, a pensar o que foi o Es­tado fas­cista que vi­gorou du­rante 48 anos e qual o seu le­gado. Longe de poder ser en­ten­dido como um bi­opic, ati­tude ci­ne­má­tica que o re­a­li­zador de­clara des­prezar, O Velho Sa­lazar é um exer­cício de ca­ri­ca­tura e des­cons­trução de um con­junto de nar­ra­tivas que não só per­duram e pa­recem re­cru­descer no mo­mento pre­sente face a dis­cursos nos­tál­gicos e de de­tur­pação do real. Bo­telho es­cla­rece que há uma pre­pa­ração do­cu­mental para as in­for­ma­ções que nos apre­senta no filme, todas estas fac­tuais e de­mons­tradas, mas que não obe­dece à mesma pre­o­cu­pação quando in­tervêm as falas de Sa­lazar. Essa per­so­nagem, que é apenas vista através de al­gumas fo­to­gra­fias co­nhe­cidas, não é cor­po­ri­zada em ne­nhum actor, ex­pressa-se oral­mente através de mo­nó­logos cri­ados por fer­ra­mentas de in­te­li­gência ar­ti­fi­cial, pre­ten­dendo assim in­va­lidar a sua ex­pressão, não fazer eco da mesma, mas antes evi­den­ciar os pa­ra­doxos entre o que afir­mava e a sua acção, assim como o seu alhe­a­mento face à re­a­li­dade e a sua na­tu­reza ca­duca e amoral (apesar da cons­tante evo­cação de uma mo­ra­li­dade vi­gente, en­ten­dida como ori­en­ta­dora da con­duta do­mi­nante).

Não obs­tante o nome do di­tador que compõe o tí­tulo e as per­so­na­gens que surgem no filme lhe es­tarem as­so­ci­adas quer na es­fera ín­tima (a go­ver­nanta?, a jovem amante fran­cesa, o ca­lista, o en­fer­meiro), quer na es­fera po­lí­tica (a go­ver­nanta?, o car­deal, o mi­nistro da pro­pa­ganda), não é sobre a pessoa que se quer falar, mas sobre um re­gime per­so­ni­fi­cado na­quela fi­gura. A forma como se ad­jec­tiva o su­posto pro­ta­go­nista – velho – as­si­nala fun­da­men­tal­mente a de­cre­pi­tude e a de­for­mi­dade de um sis­tema po­lí­tico mar­cado pelo mal, pela pro­funda vi­o­lência e re­ti­rada de dig­ni­dade ao povo tra­ba­lhador, e pelo apro­fun­da­mento das de­si­gual­dades entre classes, no que diz res­peito aos di­reitos mais ele­men­tares e à li­ber­dade, im­postos não apenas aos por­tu­gueses, mas também a todas as na­ções co­lo­ni­zadas, em nome de uma moral pe­dante e im­pi­e­dosa e de uma au­to­ri­dade pe­na­li­zante e pa­ra­li­sa­dora. De “Novo”, o Es­tado por­tu­guês de então tinha apenas a sua de­sig­nação, com pro­pó­sitos pro­pa­gan­dís­ticos. “Velho”, como aqui se de­signa o di­tador, é a me­lhor forma de com­pre­ender este re­gime e de o res­sig­ni­ficar.

Tratar um tema como este com re­curso ao humor, ao exa­gero, à am­pli­fi­cação e à ca­ri­ca­tura, é talvez es­tra­tégia que possa deixar al­guns des­con­for­tá­veis. Con­tudo, ne­nhuma das per­so­na­gens te­ne­brosas que des­filam no ecrã são hu­ma­ni­zadas ou re­a­bi­li­tadas, antes são ex­postas ao ri­dí­culo, ob­ser­vadas à lupa nos seus des­vios, ex­cen­tri­ci­dades e ali­e­nação.

A sá­tira tem sido um bom ins­tru­mento de aná­lise de si­tu­a­ções que dei­xaram marcas pro­fundas nas suas ví­timas e com as quais é di­fícil lidar. Du­rante o breve pe­ríodo do Ci­nema de Abril de que fa­lámos em texto an­te­rior, a Cé­lula de Ci­nema do Par­tido Co­mu­nista Por­tu­guês pro­duziu, em 1977, uma curta-me­tragem as­si­na­lável in­ti­tu­lada As Des­ven­turas do Drá­cula Von Bar­reto nas Terras da Re­forma Agrária, que tra­tava de forma jo­cosa, em­bora com um claro po­si­ci­o­na­mento po­lí­tico, o tema re­fe­rido no tí­tulo.

João Bo­telho cita o di­tador no início do filme quando este afirma «Hão-de dizer muito mal de mim». O ci­ne­asta con­firma a in­tenção do seu filme, afir­mando «Assim será».

https://www.avante.pt/pt/2737/argumentos/183651/%E2%80%9CEstado-Velho%E2%80%9D.htm

quinta-feira, 23 de abril de 2026

Manuel Pires da Rocha - Cantar a liberdade


Manuel Pires da Rocha

Per­ma­nece o apelo po­de­roso da “terra da fra­ter­ni­dade”



Rei­vin­di­camos a ale­gria.
Rei­vin­di­camos as can­ções de li­ber­dade.
Rei­vin­di­camos a mú­sica or­de­na­dora do uni­verso.
Rei­vin­di­camos as mãos dadas dos amantes.
Rei­vin­di­camos o sabor des­co­berto de todas as coisas.
Rei­vin­di­camos as pontes tran­quilas.
Rei­vin­di­camos a in­venção das ci­dades ha­bi­tá­veis.
Rei­vin­di­camos a pa­lavra, o poema, o livro.
Rei­vin­di­camos a festa.
Rei­vin­di­camos esta arma.
(Mário Cas­trim)

Quando Adriano Cor­reia de Oli­veira, José Afonso, Ma­nuel Freire, Carlos Pa­redes e Fer­nando Alvim, José Ba­rata-Moura, Carlos Moniz e Maria do Am­paro, Ary dos Santos, entre ou­tros, su­biram ao palco do Co­liseu, na noite de 29 de Março de 1974, já as can­ções que ali le­varam ti­nham ecoado pelas co­lec­ti­vi­dades de cul­tura e re­creio, nos en­con­tros da opo­sição de­mo­crá­tica, nas reu­niões an­ti­fas­cistas que eram acam­pa­mento, pi­que­nique e ho­me­nagem.

Na­quela noite de quase-Abril, cinco mil an­ti­fas­cistas e uma dúzia de pides, uns can­tando e aplau­dindo, os ou­tros to­mando notas, as­sis­tiam à ante-es­treia de Grân­dola, Vila Mo­rena nos ca­mi­nhos da His­tória, no mesmo ta­buado em que Ary dos Santos de­cla­mava “aqui nin­guém me põe a pata em cima / porque é de baixo que me vem acima / a força do lugar que for o meu”.

Vozes mais an­tigas se­riam, porém, ini­ci­a­doras deste canto que quis ser arma li­ber­ta­dora. No Ou­tono de 1945, Fer­nando Lopes-Graça juntou na casa de al­deia de João José Co­chofel, perto de Coimbra, os também po­etas Carlos de Oli­veira e José Gomes Fer­reira, dando início à es­crita de um pro­jecto ins­pi­rado nos can­ci­o­neiros re­vo­lu­ci­o­ná­rios his­tó­ricos da Re­vo­lução Fran­cesa e da Re­vo­lução de Ou­tubro. Mar­chas, Danças e Can­ções seria o pri­meiro can­ci­o­neiro po­lí­tico da luta an­ti­fas­cista por­tu­guesa, a que se­gui­riam oito ca­dernos mais, que Lopes-Graça in­ti­tu­laria Can­ções He­róicas, Dra­má­ticas, Bu­có­licas e Ou­tras.

As He­róicas se­riam ini­ci­al­mente di­vul­gadas pelo Coro do Grupo Dra­má­tico Lis­bo­nense, cons­ti­tuído no seio do Mo­vi­mento de Uni­dade De­mo­crá­tica (MUD). Em 1946, após uma apre­sen­tação pú­blica na Bi­bli­o­teca da In­crível Al­ma­dense, a cen­sura proibiu o re­per­tório. Tarde de­mais, porém – as He­róicas vi­viam já nas vozes de grupos for­mais e in­for­mais, juntas e afi­nadas na luta contra o fas­cismo. Tanto, que não ha­verá me­mória de lugar cons­pi­ra­tivo, das salas do as­so­ci­a­ti­vismo po­pular às celas das pri­sões, onde não tenha ha­vido um cantar de “vozes ao alto, unidos como os dedos da mão”.

O sé­culo XX das lutas an­ti­co­lo­niais, an­ti­fas­cistas e anti-im­pe­ri­a­listas viria a ser o mo­mento da ex­pansão geral da mú­sica de com­bate pela li­ber­dade e pela cons­trução do so­ci­a­lismo. Em Woody Guthrie, Luigi Nono, Vi­o­leta Parra, Mikis The­o­do­rakis, Hanns Eisler, Victor Jara, Sil­vestre Re­vu­eltas, Chos­ta­ko­vitch e Carlos Pa­redes, entre tantos ou­tros, a mú­sica as­sumiu opção de classe à es­cala uni­versal, in­de­pen­den­te­mente da na­tu­reza dos palcos e do vo­ca­bu­lário pró­prio de cada gé­nero mu­sical.

Em Por­tugal, o sé­culo pas­sado é também o lugar da des­co­berta da mú­sica po­pular das co­mu­ni­dades ru­rais, con­du­tora de si­nais ci­vi­li­za­ci­o­nais que também são os da cons­ci­ência so­cial (“Ó minha mãe dos tra­ba­lhos / Para quem tra­balho eu / Tra­balho mato o meu corpo / Não tenho nada meu”). Por isso é que, em Lopes-Graça, a Jor­nada é com­pa­nheira da Canção da Vin­dima, em José Afonso o Cantar Alen­te­jano (em ho­me­nagem a Ca­ta­rina Eu­fémia) di­vide in­ten­ções com Milho Verde e, no canto de Adriano Cor­reia de Oli­veira, Tejo Que Levas As Águas om­breia com ‘Inda Eu Era Pe­que­nino.

Che­gados aqui, cons­tata-se que o cantar que (também) abriu ca­minho à Li­ber­dade que em cada Abril se ce­lebra, não perdeu ac­tu­a­li­dade. Nestes dias de ameaça à paz, ao pão, à ha­bi­tação, à saúde e à edu­cação, de­mo­cratas de todas as idades en­toam o velho re­frão de Li­ber­dade – pa­lavra de ordem in­tem­poral da exi­gência de um tempo de jus­tiça. E cantam Os Vam­piros de­nun­ci­ando o saque, o Acordai cha­mando para a luta, o Hino de Ca­xias cer­rando fi­leiras. E aco­lhem cantos emer­gentes, que são mornas e di­zeres de hip hop, so­mando-se ao cantar his­tó­rico nas lutas dos mo­vi­mentos Vida Justa e Casa Para Viver, nas ac­ções do mo­vi­mento sin­dical, nas ini­ci­a­tivas pela paz, nas ac­ções de so­li­da­ri­e­dade com a Pa­les­tina e com Cuba.

Juntam-se, no rumor do nosso tempo, tim­bres e so­ta­ques di­versos, mas o es­tri­bilho geral per­ma­nece o apelo po­de­roso da “terra da fra­ter­ni­dade" q”e, can­tando “junta a tua à nossa voz”, marca en­contro com o fu­turo.

https://www.avante.pt/pt/2734/argumentos/183422/Cantar-a-liberdade.htm

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Soneto presente, de Ary dos Santos

Não me digam mais nada senão morro
aqui neste lugar dentro de mim
a terra de onde venho é onde moro
o lugar de que sou é estar aqui.
Não me digam mais nada senão falo
e eu não posso falar eu estou de pé.
De pé como um poeta ou um cavalo
de pé como quem deve estar quem é.
Aqui ninguém me diz quando me vendo
a não ser os que eu amo os que eu entendo
os que podem ser tanto como eu.