Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
sábado, 27 de junho de 2026
José Pacheco Pereira - Memórias da Biblioteca Pública Municipal do Porto
sábado, 6 de junho de 2026
José Pacheco Pereira - Comer em tempos difíceis
No Dia Internacional dos Arquivos, um padre, pescadores e conserveiras vão lembrar-nos daquilo que não é para ser esquecido.
* José Pacheco Pereira
6 de Junho de 2026
Ao dar-se o nome ao debate de que
vou falar, oscilou-se entre “comer em tempos em crise” e eu, para o lado
excessivo, preferia “comer em tempos de fome”. De que é que estou a falar? Dum
debate que vai ocorrer no Barreiro, no Dia Internacional dos Arquivos, 9 de
Junho, integrado num dia dominado por uma exposição com o título Gastronomia
na Cidade dos Arquivos, de responsabilidade, e muito mérito, de Nuno
Teixeira.
quinta-feira, 14 de maio de 2026
José Duarte - Restaurar o serviço militar obrigatório?
Pacheco Pereira parece não ter conseguido expressar qual era a sua preocupação quanto à guerra: receia que a guerra se expanda para os países da União Europeia? Será medo de que a frente de batalha passe de Kiev para Berlim? Para Lisboa? Restaurar o SMO em Portugal não parece responder a nenhum destes problemas.
* José Duarte
• Maio 12, 2026
ilustração: Mantraste
Assistimos há dias à publicação de um artigo de opinião um quanto triste no Público, da autoria do historiador Pacheco Pereira, em que ele defende a importância de restaurar o serviço militar obrigatório em Portugal face à crescente agressão da Rússia na frente ucraniana.
Pacheco Pereira começa por argumentar que, nas circunstâncias presentes em território europeu, a invasão da Ucrânia coloca às democracias europeias uma discussão importante sobre militarização. Porém, o nosso historiador parece não ter conseguido expressar qual era a sua preocupação quanto à guerra: receia que a guerra se expanda para os países da União Europeia? Será medo de que a frente de batalha passe de Kiev para a Berlim? Para Lisboa? Será a Rússia uma ameaça às democracias europeias?
O serviço militar obrigatório em Portugal não parece responder a nenhum destes problemas. Será importante mencionar que a expansão da guerra para o resto da Europa é um cenário altamente improvável. Mesmo que fosse provável, números publicados indicam que os países da UE possuem meios armados suficientes, tanto em número de efetivos como em gastos militares, para fazer frente ao exército russo. Não há um cenário de vitória para a Rússia numa guerra contra os países europeus. E ninguém sabe porque quereria a Rússia invadir o resto da Europa. Pacheco Pereira também parece ter uma preocupação um quanto cínica no que toca à democracia na Europa. Para ele, o desinvestimento na saúde e na educação, a pior crise da habitação na UE, o ataque aos direitos laborais e a omissão dos financiadores dos partidos parece que são algo com que a “nossa democracia” consegue conviver: não parecem preencher requisitos de “maior ataque à democracia”.
domingo, 26 de abril de 2026
Graça Castanheira - E o porco gosta
A coragem cívica de Pacheco Pereira está em ter entrado num terreno onde ganhar talvez fosse impossível, mas sabendo que era ali — na televisão — que se criava a oportunidade para a ação imperativa.
A frase de Bernard Shaw que se associou ao debate entre Pacheco Pereira e André Ventura é mais interessante do que a sua leitura moral sugere. Quem a cita fica-se geralmente pelo primeiro movimento — não lutes com um porco, porque te sujas — e esquece o segundo, que é decisivo: e o porco gosta. Gostar, aqui, significa que o terreno da lama é o habitat do adversário, aquele em que ele se move com desenvoltura e onde qualquer gesto do antagonista, mesmo o mais justo, se dissolve no lamaçal.
O problema não é só a sujidade, é a impossibilidade de enquadramento. É aqui que a questão se torna cinematográfica. Há uma diferença de dispositivo entre o combate e o retrato. O combate é um campo-contracampo, exige duas presenças, uma alternância que produz equivalência mesmo quando as posições são assimétricas. Foi este o princípio que o cinema entendeu desde cedo: ao alternar dois planos, o espectador é levado a ler as duas figuras como termos comparáveis de uma mesma equação, independentemente daquilo que cada uma diz. O debate televisivo herda esta gramática, e por isso, antes de qualquer conteúdo, concede ao adversário metade do que ele precisa, que é o estatuto de interlocutor legítimo — e é exatamente esta concessão que se critica a Pacheco Pereira. A alternativa que o cinema conhece é o plano-sequência, e em particular o plano fixo, que obriga a figura a habitar sozinha o enquadramento até a retórica se desmontar pela duração. É a estratégia de muitos documentários observacionais, e a extrema-direita tende a receá-los porque precisa da contracena para a poder interromper e sabotar.
Acontece que o retrato exige condições que se foram perdendo: um espectador disponível para a duração, uma pedagogia do olhar, um espaço de escuta. Num sistema que premeia o fragmento contra a duração, o plano fixo do porco não compete pela atenção política em tempo real. Quem defende o plano sustentado contra o combate televisivo está a defender um recurso cultural que em escala pública já não existe. Entre dois dispositivos imperfeitos, o combate tem pelo menos a virtude de ocupar o terreno; o retrato, na atual paisagem política, corre o risco de não passar de uma forma elegante de desdém.
Foi a forma como André Ventura reagiu — as torções, as fugas, as falsas equivalências, a invenção de uma história sem PIDE, os bebés mortos como licença para a brutalidade colonial, a ridícula acusação de o seu interlocutor estar contra as Forças Armadas — que produziu o conteúdo que circulou a seguir. E é aqui que está o ganho real do debate: na revelação involuntária que o dirigente do Chega fez de si próprio, sob a pressão de ter de defender em tempo real o seu ponto de vista. A coragem cívica de Pacheco Pereira está em ter entrado num terreno onde ganhar talvez fosse impossível, mas sabendo que era ali — no campo-contracampo, na televisão — que se criava a oportunidade para a ação imperativa. À saída do debate, esses momentos tornaram-se cultura pop, contraditório partilhável, companhia argumentativa. Duas semanas passadas, abriram-se discussões laterais que de outro modo não teriam acontecido — a reflexão sobre a crueldade como linguagem política foi uma delas, e não a menor.
A frase de Shaw é uma observação de classe: pressupõe a possibilidade de nos mantermos limpos. E essa hipótese, hoje, em democracias sob pressão como as nossas, é precisamente o privilégio de que se deve duvidar. Pacheco Pereira ter-se-á enlameado, mas transformou a sujidade em prova pública — a lama como revelador fotográfico.
26 de Abril de 2026
domingo, 19 de abril de 2026
O pecado original de Pacheco Pereira
Pacheco
Pereira não se arrepende do frente-a-frente com Ventura: “Se fosse hoje,
repetiria”
Em
declarações ao DN, José Pacheco Pereira defende sem hesitações a decisão de
desafiar André Ventura para um debate e rejeita as críticas de quem considera
que saiu a perder. Para o historiador, discutir o populismo à distância é um
erro: “Tem mesmo de se meter a mão na massa”, diz, depois de ter enfrentado o
líder do Chega. E recusa uma “espécie de snobismo intelectual”.
16 Abr 2026,
“Estou muito
contente com o que fiz e se fosse hoje repetiria”. José Pacheco Pereira defende
sem reservas a decisão de desafiar André Ventura para um debate e rejeitou as
críticas de quem entende que o historiador perdeu ao aceitar o frente-a-frente
transmitido pela CNN Portugal na noite de 13 de abril, depois de Ventura ter
insistido na tese de que houve mais “presos políticos” após o 25 de Abril do
que em vésperas da revolução, afirmação que Pacheco Pereira classificou
publicamente como uma “comparação absurda”.
“Sim, tem
mesmo de se meter a mão na massa”, afirmou, sublinhando que não aceita a ideia
de que o combate político ao populismo se faça à distância. “Não alinho nessa
posição. Se as pessoas têm pruridos em sujar as mãos, fazem mal. Em casos
destes, é preciso sujar as mãos”, acrescentou.
O historiador
respondeu assim à metáfora, repetida nos últimos dias em artigos de opinião e
comentários nas redes sociais, de que “nunca se deve lutar com um porco”,
fórmula usada por vários observadores para criticar o tom do confronto com o
líder do Chega, com comentadores a argumentarem que o frente-a-frente
acabou por arrastar Pacheco Pereira para o terreno preferido de Ventura.
Mas o antigo
dirigente do PSD recusa a conclusão. “A ideia de que não devemos rebaixar-nos
tem a ver com medo. Há muito medo”, diz o historiador. E vai mais longe: “A
história diz-nos que, nos anos 30 e, mais recentemente, em França, com a Frente
Nacional, esse caminho, inicialmente seguido, foi depois revertido por
uma razão: não se pode deixar que digam certas coisas sem reação.”
Para Pacheco
Pereira, o erro está precisamente em deixar o espaço público livre para esse
tipo de discurso. “Há uma esquerda que assume uma espécie de snobismo
intelectual - eles são maus, discutem à bruta e, portanto, não se fala com
eles. Sabe qual é o efeito que isso tem? Encontro esse efeito na rua, nas
pessoas que me abordam depois daquele debate”, relatou. “É um número muito
significativo de pessoas que vem ter comigo, que saem da mesa do restaurante
para me cumprimentar. Não são apenas pessoas da elite. São pessoas que
não se sentem representadas.”
Segundo o
historiador, a reação popular ao debate mostrou que existe um sentimento de
vazio no campo democrático perante a ascensão do discurso populista. “Vêm ter
comigo com uma certa dose de emoção e essa emoção tem a ver com o facto de não
se sentirem representadas nesses outros debates”, afirmou, defendendo que o
confronto direto é uma forma de responder a esse mal-estar.
Pacheco
Pereira considera ainda que o frente-a-frente teve uma utilidade concreta:
"expor afirmações de Ventura sobre o 25 de Abril que nunca tinha dito. E
só isso foi uma enorme vantagem”, concluiu Pacheco Pereira, sustentando que o
debate permitiu tornar visível, de forma mais nítida, a leitura que o líder do
Chega faz da democracia saída da Revolução dos Cravos. Ainda que lamente: “O
mais grave é que as frases mais significativas que o Ventura disse,
inclusivamente que o 25 de Abril era miserável, ninguém as reproduziu”.
O pecado
original de Pacheco Pereira
Paulo Guinote, Professor do
Ensino Básico
16 Abr 2026
Não sou dos que
acha que não vale a pena “debater com fascistas”, estando em causa André
Ventura. Porque ele é, antes de mais, um político oportunista, demagogo mais do
que populista (ele só promete tudo às “pessoas de bem”, o que reduz muito o
universo…) e porque, em alguns contextos, é essencial desmascarar as mentiras e
mistificações que algumas figuras apresentam como verdades irrevogáveis e,
nesse particular, Ventura está longe de ser o único mistificador no activo.
André Ventura
só é “fascista” nos momentos em que esse tipo de discurso ou atitude se revelam
vantajosos para a angariação de votos. Ou de apoios de bastidores. Ou de
financiamentos. Porque já o vimos ser um pouco de tudo: cristão devoto (mais ou
menos católico), proto-sindicalista empedernido (do apoio a sindicatos de
polícias, ao esquecido anúncio da criação de uma nova federação sindical),
nacionalista dos quatro costados, a par de atlantista bissexto. Pactua com
grupos neo-nazis, desde que isso não ganhe destaque público e é acérrimo
inimigo dos corruptos, a menos que lhe facilitem ancoragem financeira. Ora,
qualquer “fascista” digno desse apodo teria vergonha de colocar cartazes com
mensagens que depois se tentam reinterpretar de forma manhosa.
O “verdadeiro
fascista” não pratica o toca-e-foge ou o desdisse-o-que disse. Ventura é apenas
um simulacro para os tempos que temos, marcados pela promoção de produtos para
consumo mediático de massas, se possível com aroma a “sangue”, não interessando
se é coerente no percurso, desde que pareça “assertivo” de cada vez que faz uma
curva ou inversão de marcha. Se pode ser perigoso, chegando-se muito ao poder?
Sim, se isso corresponder ao abrir de portas à peculiar confederação de
interesses que congregou graças ao seu sucesso no mercado político-mediático.
Pacheco Pereira
sabe isto, pois foi claro quando declarou que nunca qualificou Ventura como
fascista. Mas equivocou-se ao considerar que um debate entre os dois serviria
para algo mais do que produzir audiências ao canal anfitrião. Porque podem
muitos bater no peito que nunca assistiriam a tal confronto que a curiosidade
mórbida vence quase sempre essas proclamações. O único “vencedor” do debate
foi, pois, a CNN Portugal.
Ao desafiar
Ventura, Pacheco Pereira cometeu um duplo erro de cálculo: concedeu ao seu
interlocutor um estatuto de equivalência intelectual que, gostemos mais ou
menos do trajecto de JPP, muito poucos reconhecem e achou que seria possível
uma espécie de “duelo de cavalheiros”. Achou que apresentando “regras”, isso
impediria o atropelamento no discurso ou o escorregar para a luta na lama
retórica. Acreditou que apelando à apresentação de “factos” isso teria o mesmo
significado para o seu oponente. Considerou que levando livros e documentação
variada conseguiria “provar” uma verdade, cuja validade a outra parte não
reconhece. A Ventura chega um punhado de fotocópias para fazer o seu número e
exibir indignação. Pacheco Pereira pensou que a racionalidade calma venceria a
emoção encenada. Enganou-se.
Todos cometemos
erros, por arrogância intelectual, por inconsciência das circunstâncias ou má
avaliação das qualidades, próprias e alheias. Pacheco Pereira parece não ter
percebido que nada tinha a ganhar com este debate e Ventura nada a perder. Foi
esse o seu pecado original.
Escreve sem
aplicação do novo Acordo Ortográfico
https://www.blogger.com/blog/post/edit/7624295442706210520/3893848410623296261
Ventura sabe que mentiu?
Pedro Tadeu, Jornalista
17 Abr 2026,
No debate,
segunda-feira na CNN, com Pacheco Pereira, André Ventura disse que os políticos
“do sistema” não admitem os crimes políticos do pós-25 de Abril e citou
conclusões do Relatório da Comissão de Averiguação de
violências sobre presos sujeitos às autoridades militares”, o chamado
“Relatório das Sevícias” – mas ao fazê-lo desmentiu-se a si próprio.
Esse relatório,
publicado em julho de 1976, foi elaborado por indicação do Conselho da
Revolução no rescaldo do 25 de Novembro de 1975. Este facto foi omitido por
Ventura.
O documento foi
um instrumento político dos vitoriosos desse último golpe e muito do que lá se
diz não está devidamente sustentado, nem inclui a defesa das pessoas e
instituições acusadas de serem autoras das ditas sevícias. É parcial e
duvidoso, mas, sem dúvida, também conterá verdades.
O ponto central
para esta discussão não é esse. O ponto é que, ao contrário do argumento de
Ventura, o regime democrático que o 25 de Abril criou em 1974 já discutia
abertamente, a nível oficial e menos de dois anos depois, os abusos que o
próprio regime teria cometido, coisa que durante 48 anos de fascismo português
nunca aconteceu – de resto, o dito relatório está disponível, para toda a
gente, no site da Presidência da República, não está escondido.
Portanto,
quando André Ventura afirma que em 50 anos de democracia a classe política
dominante não admitiu a existência de abusos de Direitos Humanos no pós-25 de
Abril está a mentir e contradiz-se quando apresenta como prova um relatório que
até foi elaborado por alguns atores do dia 25 de Abril de 1974, como, por
exemplo, o jornalista Francisco Sousa Tavares.
Outra
manipulação de André Ventura é a de dizer que nunca Salazar e Caetano assinaram
ordens de prisão, o que só teria acontecido no pós-25 de Abril.
Nem Salazar,
nem Caetano precisavam de escrever ordens de prisões políticas porque as davam
verbalmente. Por exemplo, Silva Pais, que foi diretor da PIDE a partir de 1962,
aparece mencionado 119 vezes nas agendas de audiências individuais de Salazar,
que saiu do poder seis anos depois. Dá quase 20 vezes por ano.
Ventura
queixou-se de que houve três mil presos políticos a seguir ao 25 de Abril e que
30 mil pessoas fugiram do país.
Em 1974,
segundo a Comissão de Extinção da PIDE/DGS, havia 3000 agentes da polícia
política e mais de 20 mil informadores (os chamados “bufos”). Se a isto
somarmos vários militares, polícias, membros da Legião Portuguesa, muitas
outras autoridades como governadores civis, ministros, secretários de Estado,
altos funcionários públicos, quadros das comissões de censura, juízes dos
tribunais plenários e alguns outros milhares de pessoas que participavam
ativamente, mesmo de forma indireta, nas estruturas de repressão política do
regime fascista, teremos de perguntar: “Poderia uma revolução que deita abaixo
um regime repressor manter as pessoas que exerciam essa repressão em
liberdade?”
Na verdade, até
seria de esperar que houvesse mais prisões e mais fugas, mas, apenas 17 meses
depois, tal como André Ventura acabou por dizer, quase todos estavam livres ou
começavam a voltar. E isso demonstra a tolerância do 25 de Abril.
Mais de 30 mil
resistentes e patriotas não tiveram essa sorte durante o fascismo. Álvaro
Cunhal, por exemplo, amargou mais de 11 anos na cadeia e só se libertou porque
fugiu do Forte de Peniche. Esteve 14 anos fora do seu país... até ao 25 de
Abril.
Como é que se
pode comparar uma coisa com a outra?!
terça-feira, 14 de abril de 2026
Em tormo do 25 de Abril, entre Pacheco Pereira e André Ventura
Uma palmatória, comparações
"absurdas" e "traições à pátria": o debate entre Pacheco
Pereira e Ventura sobre presos políticos
Uma frase de Ventura que levou os deputados constituintes a abandonarem uma sessão no Parlamento levou a um debate tenso, longo, com relatórios pelo meio e até uma palmatória.
Mariana Lima Cunha. Texto
14 abr. 2026
A premissa era simples: contrariar
a ideia, lançada por André Ventura na sessão solene pelos 50 anos da
Constituição portuguesa, de que houve mais presos políticos a
seguir ao 25 de Abril do que (imediatamente) antes. O repto foi lançado por
Pacheco Pereira, Ventura aceitou, e o que se seguiu foi 1h20 de debate (e
alguns gritos) em que os dois discutiram as prisões, a descolonização e a
corrupção durante a ditadura portuguesa, com diferentes armas: muitos livros,
um dossiê com relatórios e uma palmatória, levada por Pacheco
Pereira para ilustrar as torturas levadas a cabo pelos portugueses nas antigas
colónias.
O debate organizado pela CNN andou
sempre à volta da mesma ideia: André Ventura queria defender que houve prisões
políticas e tortura no período da transição para a democracia, o que
significaria que nem tudo na democracia é bom e “nem tudo [na ditadura] foi
mau”; Pacheco Pereira considerava a comparação “absurda”, uma vez
que punha em confronto as prisões, torturas e outras restrições às liberdades
que aconteceram durante 48 anos de ditadura e a “turbulência própria” dos meses
seguintes, a que se pôs termo com a normalização do regime democrático.
O líder do Chega explicou
inicialmente que o que “quis dizer” no dia da sessão da Constituição foi que
especificamente no dia 24 de Abril de 1974 havia menos presos
políticos em Portugal do que haveria uns meses depois, referindo-se também aos
expatriados que foram “perseguidos pelos novos donos de sistema”. Falou da
forma como cresceu em Mem Martins, sem “privilégio”: “Estou à vontade para dizer:
o sistema anterior errou mas o que veio não trouxe naqueles meses tudo de bom.
Eu gostava era de ter uma democracia plena, em que não houvesse
presos políticos e torturados e expropriações”.
Ouça
aqui a reportagem da Rádio Observador
Além disso, Ventura arrancou o
debate contestando a ideia de que todas as pessoas presas nas colónias fossem
presos políticos, mostrando as imagens de bebés mortos pela UPA em 1961 e
defendendo que alguns presos o foram por estarem a “atacar os
nossos militares”.
“Você mete-se em cada sarilho…”,
cometou Pacheco Pereira, lembrando o número de presos a 24 de Abril — 127 em
Portugal continental, 4249 nas colónias — e lembrando também que o número de
guerrilheiros presos era relativamente baixo, até porque muitos eram
executados; grande parte dos presos seriam “enfermeiros, funcionários dos
correios, pastores protestantes, professores, estudantes aliciados a
regressarem a Portugal”. Além disso, argumentou, quem se defendia da “ocupação
portuguesa” deveria ser considerado preso político. “Se Espanha invadisse
Portugal o que fazia? É uma atitude política”, frisou. “Como bom
nacionalista que é, admite que estavam a lutar pelo seu país”.
Por entre ataques vários — “hoje
não tem aqui a Alexandra Leitão, é o André Ventura”; “Eu gosto muito do meu
país, em muitos aspetos mais do que o André Ventura” — os debatentes foram
comparando números e também os castigos corporais que
existiram, em muito maior número durante o Estado Novo. “Trouxe uma palmatória
que era usada nos castigos corporais”, mostrou Pacheco Pereira, lendo
descrições de torturas da PIDE em Moçambique: “Violação anal com
garrafas, mutilação do pénis com queimaduras, choques elétricos, suspensão do
tecto de cabeça para baixo, Sabe qual é o problema? É que estes são pretos.
Eram tratados como sub-homens. Vários deles desapareceram. Estas
violências eram sistemáticas e aconteceram durante todo o período do império
colonial”.
Já Ventura leu as descrições de
torturas que aconteceram já depois do 25 de Abril, incluindo de “carpinteiros,
comerciantes, advogados e reformados, pessoas que discordavam da
extrema-esquerda”, e ironizou: se a ditadura era “tão feroz”, não
poderiam existir apenas “cento e tal presos em Lisboa” (número que se referia
apenas à véspera do 25 de Abril).
“Podemos concordar que tudo o que
é tortura é mau, mas não me venham com a história de que a violência de direita
é má e a de esquerda é boa”, foi repetindo o líder do Chega, enquanto o
historiador defendia que há “comparações que são elas próprias mentira“,
como a que Ventura faz entre 48 anos de ditadura e os dois anos posteriores. “É
tão pontual que é incomparável”, disse, frisando que não nega que tenha havido
violência e tortura já no período da liberdade, mas que a da ditadura foi “sistemática”.
“Sabe o que são 48 anos de tortura sistemática, de humilhação das pessoas
comuns, de violência, de censura? Isso cria uma situação em que a transição
portuguesa, mesmo com esses casos, foi relativamente pacífica. Deixou uma
enorme herança de vingança e ressentimento“.
Inevitavelmente, a
discussão passou por nomes particularmente controversos — Pacheco Pereira
descreveu Marcelino da Mata como um “assassino” que se
“gabava” de matar homens, mulheres e crianças, Ventura respondeu que Otelo
Saraiva de Carvalho é que era “um assassino e um bandido”. Ventura
defendeu que PCP e UDP deviam pagar as “expropriações erradas” do pós-25 de
Abril e que em toda a ditadura não se encontra uma ordem de Salazar ou Marcelo
Caetano para mandar prender alguém — não precisavam, já que
tinham uma polícia política ao dispor, contrapôs o historiador.
Houve ainda tempo, num debate com
mais meia hora do que o anunciado, para falar da descolonização,
que Ventura considerou “criminosa” (“Queriam tanto a independência e hoje estão
a vir para cá viver”) e para Pacheco Pereira concluir que o interlocutor
“justifica a ditadura”. “Com esse tipo de afirmação de extrema-direita, [o
Chega] é um partido fascista“. “Eu nasci em 1983, não quero saber
da ditadura para nada”, respondeu Ventura. “É a história da Humanidade, temos
de estar do lado da nossa pátria”, exclamou, confrontado com o número de
pessoas mortas na guerra colonial.
Com Pacheco Pereira a culpar
Salazar pelos erros na descolonização, Ventura acusou-o de “trair a
sua pátria”. “Devíamos ter tido uma transição democrática, não comunistas a
assaltar o poder. Os senhores, incluo-o a si, estavam tão cheios de chama do
espírito de comunista não olharam a meios. Por isso Portugal está na cauda da
Europa”. “Essa ‘revolução miserável’ deu a liberdade a Portugal e para dizer o
que diz. Quem lutou contra a ditadura lutou por Portugal. Eu amo o
meu país”, respondeu Pacheco Pereira.
A discussão passou ainda pelos
grupos terroristas de extrema-esquerda e extrema-direita após o 25 de Abril,
tendo a ELP “beneficiado” da condescendência “gigantesca” das
autoridades e sido, como as FP-25, “amnistiada com a ideia de
que se ia pacificar a sociedade”. Os últimos, frisou Pacheco Pereira, chegaram
a ser condenados porque “a democracia nessa altura estava a funcionar”.
Ainda houve tempo para uma breve
incursão pelo tema da corrupção, com Ventura a dizer que na
ditadura “havia corrupção como agora há” — “Então porque é que não pôs um
cartaz a dizer 100 anos de corrupção?”, questionou Pacheco Pereira,
referindo-se ao cartaz em que o Chega diz que já lá vão “50 anos de corrupção”
— isto é, referindo-se apenas ao tempo de democracia. Ventura acabou por dizer
que “Sócrates roubou muito mais do que Salazar” e que o “sistema
está podre de corrupção”, acabando por prometer que se tivesse nascido mais
cedo, no tempo da ditadura, lá estaria também a lutar contra o problema.
A troca de acusações final teve a
ver com cristianismo — “eu sou ateu”, disse Pacheco Pereira; “faz mal”,
respondeu Ventura”; “o seu partido é o mais anticristão. Não há uma
declaração dos dois últimos Papas que não seja diretamente contra as posições
do Chega na imigração”, atirou o historiador; “Não me dá lições de cristianismo
porque fazemos (…) luta contra a islamização”, respondeu o líder partidário.
Teriam continuado por ali fora, mas já não havia mais tempo.
quarta-feira, 26 de novembro de 2025
Mistificações em torno do 25 de Novembro
José Pacheco Pereira- PONTOS NOS II DO 25 DE NOVEMBRO
domingo, 16 de novembro de 2025
José Pacheco Pereira - O papel destrutivo do deslumbramento tecnológico na educação
sábado, 14 de junho de 2025
José Pacheco Pereira - Onde estamos e para onde vamos
sábado, 27 de julho de 2024
José Pacheco Pereira - Porque é que na “geração mais preparada de sempre” a ignorância cresce?
Opinião
A ascensão da ignorância agressiva e o ataque ao
saber são perigosos para a democracia e liberdade.
* José Pacheco Pereira
27 de Julho de 2024
Este é o tipo de artigos em que já se sabe de antemão as críticas, mais “bocas”
do que críticas, que vai receber. Passadista, “velho do Restelo”, velho tout court, arrogante,
reaccionário, antiquado, com incompreensão do que é a “nova” geração e as
mudanças culturais em curso, com uma visão ultrapassada do que são as novas
“competências”, não compreendendo os novos “saberes”, preso a um mundo que já
acabou e a um elitismo sem sentido numa sociedade muito mais igualitária, em
que os “saberes” do passado são inúteis. Muito bem, é tudo isto, mas, mesmo
assim, reafirmo que o mundo cultural circulante nos dias de hoje é
particularmente pobre, é pobre de referências, é pobre de “histórias”, é pobre
de vocabulário, e alimenta uma ignorância agressiva, em particular nas redes
sociais, e isso é péssimo para a democracia. Ainda mais, é um mundo que pela
sua fragilidade cultural é particularmente sensível às modas, sem qualquer
distanciação e consistência.
Tenho consciência de que este tipo de catastrofismo cultural, ainda por cima com uma componente geracional, é recorrente na história, tem características comuns que se repetem e tem-se revelado muitas vezes errado. É cíclico nas suas lamentações dos “velhos” para as gerações mais novas, mas se há coisa que a história também revela é que, às vezes, existe mesmo decadência. É um pouco aborrecido estar com estes caveats todos – aqui está uma palavra em desuso –, mas a ascensão da ignorância agressiva e o ataque ao saber são perigosos para a democracia e liberdade. Decadência é outra palavra maldita. 250 palavras gastas com prevenções.
Aqui há alguns anos eu dei aulas partilhadas com Jaime Gama sobre “relações
internacionais” no ensino superior. Nos dias de exames, verifiquei que muitos
alunos corriam à secretaria para obter um adiamento, “porque fazia muitas
perguntas difíceis”. Tentei perceber quais eram as “perguntas difíceis” e de
onde vinha o medo. Consegui identificar a origem num exame em que o tema que o
aluno estava a expor eram os eventos da Revolta Húngara de 1956, que ele
conhecia minimamente. De repente, suspeitei de algo estranho e perguntei-lhe
esta simples coisa: onde é que é a Hungria. Pânico, e completa ignorância onde
era a Hungria, onde estava o Danúbio, e após tentativas e erros a Hungria
ficava para os lados do Cazaquistão. Comecei então a fazer perguntas deste tipo
e estas eram as “perguntas difíceis”.
Daumier DR
Tratava-se de estudantes do ensino superior prestes a acabar a licenciatura. Mas, andando para trás e para a frente, tenho as mais sérias dúvidas que seja possível hoje ler a grande maioria da grande literatura portuguesa, Camões, Camilo, Eça, por exemplo, mesmo que, no caso de Eça, seja um dos raros autores ainda presente numa lista de leituras em grande parte jornalística. Em linhas gerais, a parte narrativa de alguns livros que ainda sobrevivem talvez subsista, mas duas grandes fontes da nossa cultura ocidental desapareceram do saber circulante: a Bíblia e a cultura greco-latina. Ora, duvido muito que textos literários que falam como quem respira de Orfeu, Sísifo, David, Golias, da Guerra do Peloponeso, de Marte, de Salomão, do Bom Samaritano, de Péricles, da “voz clamando no deserto”, de Abraão, de Ulisses, do Cavalo de Tróia, de Homero, mesmo de Caim e Abel, de César Augusto, de Esparta, do Hades, de Diana, a caçadora, de Herodes, etc., etc., hoje signifiquem alguma coisa. O mesmo para muitas lendas, metáforas, ditos, alcunhas, etc.
O mundo cultural da “geração mais preparada” é como o das conversas dos participantes do Big Brother. Vale a pena ouvir, uma mistura que não passa de uma espécie de psicologia barata. E tem um público jovem
É importante saber-se isto? Claro que é, por uma razão muito simples: é que não
se sabendo é-se mais pobre da cabeça, até porque com esta ignorância vem um
pacote de um mundo mais desértico. Há excepções, como é óbvio, mas as excepções
não contam. O mundo cultural da “geração mais preparada” é como o das conversas
dos participantes do Big Brother. Vale a pena ouvir, uma mistura que não passa
de uma espécie de psicologia barata, e não é por acaso que uso esta comparação
porque um dos alicerces desta ignorância agressiva é mesmo esse tipo de
conversa, que vai muito para além da Casa e dos comentadores em estúdio. Ele
estende-se aos/às influencers e ao mundo das redes do
Chega, raiva, ressentimento, sentimentalismo barato, pseudodepressões, “bocas”,
erros de ortografia, escasso vocabulário, e muita, muita ignorância. E tem um
público jovem.
O mundo não está brilhante, porque este tipo de gente é particularmente fácil
de manipular.
O autor é colunista do PÚBLICO
sábado, 17 de fevereiro de 2024
José Pacheco Pereira - A São na campanha do PS
* José Pacheco Pereira
17 de Fevereiro de 2024
Pedro Nuno Santos não é único, a São está por todo o lado nos textos
eleitorais, mas ele pôs-se mais a jeito.
Por que raio quer ele mais a São? Não sei, mas
duvido que haja muitas razões benévolas para isso, e as perversas ficam para as
redes sociais. Repito o plebeísmo, que é sempre apropriado para estas coisas
enquanto não for proibido. Por que raio Pedro Nuno Santos resolveu, logo no seu
primeiro cartaz de propaganda eleitoral, usar uma das palavras que ficaram mais
estragadas com o novo acordo ortográfico? Indiferença é de
certeza, ignorância também, mas fico-me pela primeira, que é, junto com a
inércia, a grande força motora do novo acordo ortográfico, em bom rigor, a
única. Pedro Nuno Santos não é único, a São está por todo o lado nos textos
eleitorais, mas ele pôs-se mais a jeito.
Por que raio Pedro Nuno Santos resolveu, logo
no seu primeiro cartaz de propaganda eleitoral, usar uma das palavras que
ficaram mais estragadas com o novo acordo ortográfico? Indiferença é de
certeza, ignorância também, mas fico-me pela primeira
O Acordo Ortográfico de 1990, pomposamente assinado pela maioria dos países de
língua portuguesa, foi um dos maiores desastres diplomáticos dos últimos anos,
com países como Angola e Moçambique a continuarem na mesma e todos os outros
com diferentes graus de implementação. E, mesmo no Brasil, cada um escreve como
quer, o que é aliás um dos factores do dinamismo do português do Brasil, fruto
da pujança da sociedade brasileira, para o bem e para o mal.
Os resultados do Acordo foram separar
ainda mais, uns dos outros, os países cuja língua oficial é o português e,
dentro de cada um, haver na prática duas ortografias, como se vê neste jornal.
Mesmo quando todos os passos legais para a sua implementação foram dados, quem
escreve português bem, recusa o Acordo. E mais: considera uma questão de
princípio escrever com a ortografia antiga, o que torna muito mais radical a
divisão. Basta comparar os jornais dos vários países da CPLP para perceber
isso, já para não falar de Portugal. Só que em Portugal deu-se um passo, cuja
legalidade é contestada, de obrigar instituições, escolas e outras dependências
do Estado a usar esse abastardamento da língua portuguesa que é o Acordo de
1990. E isso trouxe, como aliás a decisão de fazer o Acordo, muitos interesses
económicos em jogo, que só se têm reforçado e hoje são um lóbi poderoso.
Apesar de uma enorme contestação, por
que razão não se volta a escrever o português que tem a riqueza da memória da
língua? A razão principal é que os nossos governantes, do PSD ao PS, estão-se
literalmente nas tintas para o que é importante na nossa identidade cultural,
mesmo quando se mostram muito indignados com a bandeirinha vermelha e verde,
cuja história também desconhecem, ou se esquecem de colocar no orçamento as
verbas para comemorar o Camões.
(No Arquivo Ephemera não nos ensaiamos nada
para colocar o episódio do Velho do Restelo em painéis pelas cidades com estes
versos em negrito
"Ó glória de mandar! Ó vã cobiça
Desta vaidade, a quem chamamos Fama!”
para envergonhar a São…)
A memória de uma língua, que muitas
vezes se traduz na ortografia – e não me venham com o “pharmacia”, que é outra
coisa –, faz parte da sua riqueza, nunca impediu ninguém que fale português no
Brasil, em Angola, em Moçambique, em Cabo Verde ou na Guiné, de ler Camões,
Vieira, Camilo, Eça de Queirós ou Pessoa. Aliás, são mais lidos no Brasil do
que cá. O que atenta contra essa capacidade de ler é outra coisa, é o ataque à
leitura em papel, é a progressiva desaparição dos livros nas escolas, como se
os ecrãs os substituíssem, é a desaparição da herança cultural das histórias da
mitologia clássica ou da Bíblia, que são indispensáveis para ler, por exemplo, Os
Maias, que é suposto ser lido nas escolas e que eu duvido muito se possa
ler sem essas histórias, e, por fim, a progressiva limitação do vocabulário
circulante, que empobrece a capacidade de expressão, logo, o poder de quem fala
ou escreve.
Quando o Ministério Público está a espatifar o
sistema político e a democracia, entre a intencionalidade e a
irresponsabilidade, quando a campanha eleitoral foge de tudo o que é importante
cá dentro e lá fora, quando Trump apela à invasão russa da Europa, quando a
traição à Ucrânia e aos palestinianos mostra a nossa cobardia e vergonha,
quando Putin assassina na cadeia o seu principal opositor, porque é que a São é
relevante? Porque a diferença entre a São e a Acção tem que ver connosco, com a
nossa identidade, com a nossa língua, com a nossa cultura, com a nossa
capacidade de falar bem, logo, de pensar bem, logo, de sermos mais fortes. E
vamos muito precisar de ser mais fortes nos tempos que aí vêm.
O autor é colunista do PÚBLICO
https://www.publico.pt/2024/02/17/opiniao/opiniao/sao-campanha-ps-2080597
sábado, 6 de janeiro de 2024
José Pacheco Pereira - A destruição da razão
OPINIÃO
O contínuo político-mediático muda o carácter daquilo a que chamávamos jornalismo. Nãodianta virem-me dizer que essa relação existiu desde sempre em democracia, porque a resposta é não.
6 de Janeiro de 2024, 6:26
Há muitos anos
que escrevo sobre um dos factores que penso estar na origem da crise das
democracias, o domínio da política democrática pela sua transformação num
contínuo político-mediático, que diminui a autonomia da decisão política e a
torna cada vez mais dependente dos mecanismos da comunicação social e da sua
evolução. Seguindo as tendências actuais, da ignorância agressiva, à
culpabilidade afectiva, à colocação da racionalidade como uma coisa do passado
e de velhos, sem capacidade de competir com o glamour da
superficialidade, tudo puxando para baixo, a política foi pelo mesmo caminho de
vulgaridade e comodismo.
Isso afecta a
qualidade da democracia, e o contínuo político-mediático muda o carácter
daquilo a que chamávamos jornalismo. Não adianta virem-me dizer que essa
relação existiu desde sempre em democracia, porque a resposta é não.
Na forma
actual, é um fenómeno recente porque não temos, de um lado a política, os
partidos, os políticos e, do outro, os jornais, a rádio e a televisão,
influenciando-se mutuamente pela mediação da chamada “opinião pública”, mas
apenas um lado, o sistema político-mediático, em que cada vez mais os factos,
as opiniões, as interpretações são moldados por mecanismos mediáticos em que
participam políticos e jornalistas, cada vez mais com uma cultura de acção
semelhante e dependente de efeitos comunicacionais tais como a novidade,
o timing, o tipo de resposta, a rapidez, a frase assassina, a falta
de estudo e de rigor. As redes sociais e novas formas de acesso àquilo que
passa por ser informação, mas que é pouco mais do que entretenimento afectivo,
apagaram o ethos e o logos, a favor do pathos.
Mergulhadas
numa pasta emotiva e lúdica, as pessoas são mais pobres na cabeça e remediadas
no corpo. E como há quem saiba aproveitar-se disto, são usadas e perdem a
liberdade de decidir. Isso aproxima o contínuo político-mediático de formas
modernas de propaganda, chamada agora marketing político, em que, de novo, mais
uma vez, a principal perda é a da autonomia da política, mas também do
jornalismo. E facilita a manipulação por interesses sociais, económicos e
culturais, nacionais e geopolíticos. A interferência russa nas eleições
americanas de 2016 e no “Brexit”, o papel de empresas como a Cambridge
Analitics, fornecendo estudos que permitem manipulações de grupos
seleccionados, são mais a regra do que a excepção, e esse mundo só se combate
pela cultura, pelo saber, e pela firmeza na acção.
O que se passa
em Portugal, um pouco como na Europa, tem relação directa com o alimentar do
populismo. Sim, os governos fazem asneiras, há políticos corruptos e apanhados
em mentiras, tudo isto é verdade. Têm uma enorme responsabilidade. Mas nada
disso seria tão eficaz a alimentar o populismo sem a existência deste contínuo
político-mediático que produz a chuva de migalhas que alimenta a
extrema-direita.
A informação
torna-se muito pobre, a manipulação muita. Isto permite a quem tenha meios e
recursos recorrer a profissionais da desinformação ou, no caso dos Estados, a
serviços secretos, para obter resultados usando todas as técnicas, das fake
news à inteligência artificial, para moldar segundo os seus interesses
a opinião pública, logo, o voto.
Parte da
nossa esquerda abandonou a luta social em nome das modas 'fracturantes',
deixando os milhões de portugueses que são pobres, excluídos e explorados fora
de moda, num limbo comunicacional como 'pobres, sujos e maus'
No caso
português, a dominação da vida mediática pela direita política não é de agora.
Embora se continue a dizer que a maioria dos jornalistas são de esquerda, isso
tem um pequeno papel face àquilo a que antes se chamava as ideias dominantes.
Uma parte da nossa esquerda abandonou a luta social em nome das modas
“fracturantes”, falando assim para pequenas minorias intelectuais urbanas,
fazendo um enorme serviço à direita canalizando para as “guerras culturais” de
elite a sua energia e deixando os milhões de portugueses, que são pobres,
excluídos e explorados, fora de moda, o que também significa apagá-los da sua
condição existencial num limbo comunicacional como “pobres, sujos e maus”.
Esses portugueses não brilham no escuro como as novas vedetas do neocapitalismo
triunfante, como as start-ups, os “unicórnios”, os empreendedores,
os nerds das novas tecnologias, as influencers,
heróis do jetset e das redes sociais. O resultado é que muitas
ideias da direita política ficaram na moda, dominaram jornais e televisões, num
terrível mecanismo de não-pensamento e de ignorância.
Veja-se um
exemplo dos anos da troika, em que a chamada TINA, a ideia de que
não havia alternativa a uma política de austeridade tendo como alvos os “de
baixo”, se tornou na vulgata ideológica que políticos, jornalistas, lobistas
repetiram da direita à esquerda. Quando alguém apresentava uma proposta, a
primeira pergunta era “quanto custa?”, em vez de ser “qual o mérito da
proposta?”, mesmo que custasse algum dinheiro. E poderia também ser “quem é que
a vai pagar?”. “Quanto custa?” é uma pergunta que tem sentido, principalmente
em tempos de escassez, mas teria de ser sempre a segunda pergunta, e não a
primeira. A partir daqui estamos num terreno de legitimação da TINA, que depois
se somava à apresentação selectiva de alvos nas despesas de segurança social,
nos pensionistas e nos idosos, a “peste grisalha” que ameaçava o futuro dos
jovens.
O contínuo
político-mediático é um excelente instrumento para a manipulação do
justicialismo
Nos dias de
hoje, o contínuo político-mediático é um excelente instrumento para a
manipulação do justicialismo, que sabe para quem orientar as suas fugas de
informação – jornalistas e órgãos de comunicação –, escolhendo o tempo dessas
fugas para obter ou efeitos políticos ou efeitos de autojustificação dos seus
actos quando fez asneiras, mas acima de tudo escolhendo os interlocutores das
fugas que sabe que lhes darão de imediato a máxima publicidade e as apontarão
aos alvos escolhidos. Antes de alguém parar para pensar e ver o que há de
substancial, já títulos e frases estão por todo o lado e a sua impressão não é
apagável.
É que, no
passado, a política em democracia era suposto servir o bem-estar das pessoas, e
o jornalismo a informação e o escrutínio do poder. Hoje, o sistema
político-mediático serve interesses e intenções dos poderosos, mas deixa as
pessoas comuns com menos liberdade e menos poder. É, para alguns, trabalho bem
feito. Para a democracia, é péssimo.
O autor é
colunista do PÚBLICO
https://www.publico.pt/2024/01/06/opiniao/opiniao/destruicao-razao-2075882
sábado, 23 de dezembro de 2023
José Pacheco Pereira - O que aprendemos no nosso gabinete de curiosidades
Nós sabemos coisas que ninguém sabe, e isto pode parecer arrogância, mas não é.
* José Pacheco Pereira
23 de Dezembro de 2023, 6:34
Hoje é dia de festas e como o
mundo não está para festas aqui vai outra coisa de menos sinistro. No Arquivo
Ephemera costumamos dizer que não há um momento de aborrecimento, never
a dull moment. Mas, mais do que isso, aprende-se imenso. Nós sabemos coisas
que ninguém sabe, e isto pode parecer arrogância, mas não é. Tem que ver com o
que recebemos, estudamos e estimamos. Eis alguns exemplos.
Vida de um boxeur
Sabemos, nós, os “de cima”, como
era a vida de um boxeur que vem “de baixo”? Como eram e quem
eram os praticantes de boxe em associações populares? Sabem qual era a
farmacopeia de um boxeur? Sabem como se recrutava para empresas de
segurança há 40 anos?
Nós sabemos, porque temos um
espólio de um boxeur.
Diário de uma prostituta
Um diário de uma prostituta, de
casa e não de rua, ou de uma “trabalhadora do sexo”, como agora se diz, o que é
que regista? Nomes dos clientes, local dos encontros, ementa de “serviços” com
os preços detalhados, algumas observações sobre a actividade. Mas também poemas
e desenhos.
Nós sabemos, porque temos um
diário de uma prostituta.
Inventar o colchete português
João Paulo Martins (1870-1960),
operário modelo, era serralheiro mecânico numa fábrica de colchetes. A fábrica
trabalhava com colchetes com patente inglesa, o que lhe desagradava, porque
achava que era capaz de fazer melhor. Propôs à administração uma nova técnica
de fabrico, mas colocou como condição ser ele a concretizá-la. Recebeu um não.
Não se ficou e num fim-de-semana alterou as máquinas e passou a fazer um novo
tipo de colchetes. Recebeu uma dura repreensão, mas mais tarde percebeu-se a
qualidade do colchete nacional e foi registada uma nova patente.
Nós sabemos, porque temos o seu
espólio.
Biblioteca de um bruxo e TSF
Uma biblioteca com cerca de 150
livros que veio de França, pertencia a um astrólogo, alquimista, bruxo, que nos
anos 20-30 do século passado se dedicava a estas práticas nos arredores de
Paris entrou no Ephemera. Para além das notas manuscritas, este discípulo de
Fulcanelli tinha livros sobre horóscopos em cavalos e em plantas, magia negra
(o que me permite dizer que é um risco meterem-se comigo e connosco, porque
podem ficar transformados em ratinhos), e… livros sobre a nascente TSF, a
Telegrafia Sem Fios. Porquê? Porque se percebe que quem acredita que um meio
qualquer invisível de influência podia ir de uma constelação do Zodíaco até um
humano ou uma árvore, que acreditava na telepatia e na telequinésia achava que
a ciência que permitia a TSF demonstrava o papel de um mundo de ondas
invisíveis que estavam à nossa volta. A TSF legitimava com uma aura de ciência,
o que o nosso bruxo praticava.
Nós sabemos, porque temos a sua
biblioteca.
Como se tem uma profissão
altamente especializada sem manuais
Em certas profissões
especializadas com uma forte componente manual, mas que implicavam também lidar
com máquinas, tornos, fresas, engates de vagões, peso e dimensão, prensas e
resistência de materiais, soldaduras, com uma forte dimensão de conhecimento de
física e de matemática, em particular de trigonometria, a formação de operários
implicava manuais técnicos, tabelas e quadros, gráficos, desenhos e esquemas de
peças de máquinas, etc. A formação, mas também a execução ou a operação com
máquinas, como, por exemplo, locomotivas, vagões, engates de composições, etc.
Sabem como é que se lidava com estes problemas quando não havia manuais
disponíveis para acompanhar, por exemplo, um operário ferroviário? Fazendo-os
manuscritos em pequenos cadernos escolares de linhas, com páginas e páginas de
desenhos e números, copiados de algum manual impresso, num trabalho enorme de
um bom profissional, sem apoios e sem ser pago.
Nós sabemos, porque temos alguns
desses cadernos.
Podíamos acrescentar muitos mais
exemplos. Como era a vida de um rapaz solteiro numa pensão nos anos 30. O que
era ser cega e viver em instituição de assistência nos anos 40. Como é que um
pai, operário, comunista, preso, nos anos 50, falava com a filha ainda criança
em esperanto. A história de uma noiva anticlerical que queria casar pelo civil
mas com um vestido de casamento “diferente dos da Igreja”. Como é que um
administrador de posto numa localidade do interior de Angola, próxima da
fronteira do Congo, passa de ter o seu nome próprio Tostoi para ser o escritor
“Tolstoi Lusitano”. Como era volumoso um catálogo de mordidelas para
administração da vacina da raiva, e quem eram os “mordidos”.
Isto são “curiosidades” em
sentido pejorativo, em vez dos nobres espólios e arquivos dos “de cima”? São e
são um grande motor para saber de muitas vidas e experiências que não estão em
lado nenhum, a não ser no Arquivo Ephemera. Ah! E também sabemos como era a
decoração das mansões dos mais ricos…
Por isso, não há de facto, um
minuto de aborrecimento.
O autor é colunista do PÚBLICO
Historiador
https://www.publico.pt/2023/12/23/opiniao/opiniao/aprendemos-gabinete-curiosidades-2074683








