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domingo, 22 de março de 2026

Jaime Nogueira Pinto - O estreito de Ormuz: dos capitães da Índia aos capitães de Abril

Jaime Nogueira Pinto 

Nestes dias em que tanto se fala do estreito de Ormuz, talvez valha a pena lembrar esses obscuros princípios do século XVI em que Portugal se iniciava na conquista e na opressão além-fronteiras.

21 mar. 2026

Os portugueses de hoje, criados nas alegrias da democracia e do progresso que lhes trouxe Abril, são capazes de ter alguma dificuldade em conceber esse outro país que Portugal já foi. Mais, confrontados com a liberalidade e a democraticidade dos políticos, pode até parecer-lhes impensável, quando não impossível, a resistência a Castela no século XIV e a conquista do império do Oriente no século XVI, protagonizadas por homens tão iliberais e tão pouco inclusivos como Nun’Álvares ou Afonso de Albuquerque.

Por isso, nestes dias em que, a propósito da nova guerra do Irão, tanto se fala de Ormuz e do estreito de Ormuz, talvez valha a pena lembrar esses obscuros princípios do século XVI em que um Portugal oprimido pelo autoritarismo monárquico e católico, talvez para desviar as atenções de problemas internos (ou para os resolver), se iniciava na opressão além-fronteiras a que alguns saudosistas ousam chamar epopeia de navegação e conquista.

As chaves dos mares

D. Manuel I, o venturoso e feliz herdeiro do Príncipe Perfeito, coordenou uma política de expansão no Índico que tinha como linha de rumo a conquista das chaves daquele Oceano, por onde passava o precioso e estratégico tráfico das especiarias. E essas chaves eram Ormuz, Ádem, Goa e Malaca.

Em Abril de 1506, saiu de Lisboa para a Índia uma armada de dezasseis navios, onze sob o comando de Tristão da Cunha (que capitaneava toda a expedição) e cinco sob o comando de Afonso de Albuquerque. Albuquerque já passava dos cinquenta anos. Nascera em 1453, fora próximo de D. João II e combatera no Norte de África. Ao que parece, D. Manuel não o estimava muito e Albuquerque e Tristão da Cunha não primavam pelo entendimento. Mas a longa viagem foi correndo: passaram o Cabo da Boa Esperança e seguiram com combates, ataques e saques de cidades da costa oriental africana; depois, já no Índico, a sul da península arábica, tomaram a ilha de Socotra ou Socotorá.

A partir daí, Tristão da Cunha rumou para a Índia e Albuquerque, com seis navios e quatrocentos e cinquenta homens, decidiu conquistar Ormuz. A cidade de Ormuz dominava as ilhas do Golfo Pérsico e a costa de Omã. Albuquerque deixou Socotra a 10 de Agosto e, levando a bordo pilotos árabes, conhecedores dos mares e terras da região, foi tomando posições – Calayate, Curiate, Mascate – e avançou para Ormuz. Pelo meio, teve conselhos de guerra difíceis com os seus capitães, que exprimiam dúvidas e receios perante a sua audácia e preferiam esperar e pilhar os barcos dos peregrinos de Meca. A cena repetiu-se em Ormuz, quando Albuquerque exigiu ao regente, Khodja-Atar, que prestasse vassalagem ao rei de Portugal.

Começaram as negociações, mas o capitão português, entendendo que os de Ormuz esperavam reforços da costa e procuravam ganhar tempo, ordenou aos comandantes da frota portuguesa que abrissem fogo sobre os navios inimigos parados no porto. Ao mesmo tempo, ordenou o desembarque, enquanto, das naus portuguesas, a artilharia flagelava a cidade e os barcos adversários. Khodja-Atar não tardou em pedir uma trégua para negociar.

Nas negociações, pelo lado dos locais, falou o primeiro-ministro Seif-ed-Din, que aceitou, a troco da paz, pagar ao rei de Portugal, anualmente, “quinze mil xerafins de ouro”. Além disso, devia desembolsar imediatamente uma quantia de cinco mil xerafins para as despesas da esquadra portuguesa e, mais importante, permitir que os portugueses edificassem na ilha uma fortaleza. Prontamente, contra as objecções dos seus capitães e dos chefes muçulmanos, Albuquerque iniciou a construção da fortaleza de Nossa Senhora da Conceição de Ormuz, que levaria trinta anos a ser concluída (ficaríamos em Ormuz até a perdemos para os ingleses, em 1622).

Albuquerque abandonou então Ormuz, onde só voltaria em 1515, no seu último ano de vida. Seria, entretanto, nomeado governador da Índia por D. Manuel I em 1509; em 1510 conquistaria Goa e, em 1511, Malaca.

Com estas três praças, assegurara posições terrestres a partir das quais os portugueses dominariam o comércio do Índico até ao fim do século XVI.

Para fechar o controlo português, apenas lhe faltava Adem, uma cidade-Estado à entrada do Mar Vermelho, que, uma vez conquistada, acabaria com o comércio dos mamelucos com Veneza.

A frota portuguesa partiu de Goa em 18 de Fevereiro de 1513. Eram vinte navios, com 1700 marinheiros e soldados portugueses e 800 aliados malabares. Fizeram uma paragem em Socotra e, a 26 de Março, Domingo de Páscoa, atacaram Adem. Mas na escalada das muralhas, as escadas partiram-se sob o peso dos atacantes e o ataque foi repelido; um segundo ataque também falhou, e assim se gorou o ambicioso plano do “Leão dos Mares” de fechar, para a Coroa portuguesa, as portas e chaves do Índico.

Rezam as crónicas que as escadas  cederam à precipitação dos oficiais e soldados portugueses, todos querendo ser os primeiros no perigo e na glória.

Ocupando Goa e Diu, os portugueses dominavam parte importante da Índia; com Malaca, vigiavam a passagem do Índico para o Pacífico; controlando Ormuz, dominavam a circulação no Golfo Pérsico; com Adem, ficariam também senhores da entrada e circulação do Mar Vermelho e do caminho de Meca.

A narrativa destes sucessos ficou nas Décadas da Ásia, de João de Barros, e nos Comentários, de Braz de Albuquerque, filho de Afonso de Albuquerque.

Camões, o profeta

Além do comércio da pimenta e do controle dos recursos, D. Manuel e Albuquerque pensavam em termos de nova cruzada, de “mudança de regime”, dir-se-ia hoje. Roger Crowley voltou a lembrar-nos isso, recordando a importância das referências ao rei cristão perdido no Nordeste de África, o Preste João.

Camões, na estrofe 40 do Canto X de Os Lusíadas, celebra os feitos do governador, pela voz da ninfa Thétis:

«Esta luz é do fogo e das luzentes
Armas com que Albuquerque irá amansando
De Ormuz os Párseos, por seu mal valentes
Que refusam o jugo honroso e brando
Ali verão as setas estridentes
Reciprocar-se, a ponta no ar virando
Contra quem as tirou; que Deus peleja
Por quem estende a fé da Madre Igreja.»

Nas estrofes seguintes, continuam os louvores a Albuquerque, mas, a partir da estrofe 45, Camões censura o grande capitão pela severidade com que pune com a morte um dos seus subordinados por um delito sexual menor. E segue com a narrativa de outros governadores e capitães da Índia.

A ninfa leva então o Gama ao cume de um monte na Ilha dos Amores e mostra-lhe a “máquina do mundo”, a terra com os seus reinos, os seus mares, os seus povos, correndo e percorrendo todos os continentes. No final, o poeta dirige-se a D. Sebastião, incitando-o a seguir o exemplo dos heróis portugueses, praticando grandes feitos:

«De sorte em que Alexandre em vós se veja
Sem à dita de Aquiles ter inveja!»

Alexandre conquistou o mundo, mas morreu novo, aos 33 anos. Aquiles também fez grandes coisas, mas teve azar com a flecha de Páris, o filho de Príamo, causador da desgraça de Troia, pelo rapto da bela Helena.

O poeta aqui foi também profeta: D. Sebastião ia perder-se no nevoeiro aos 24 anos.

…E Portugal, teria de esperar que raiasse Abril para ver raiar a Democracia e poder, enfim, realizar grandes feitos.

 https://observador.pt/opiniao/o-estreito-de-ormuz-dos-capitaes-da-india-aos-capitaes-de-abril/

segunda-feira, 19 de fevereiro de 2024

Carlos Coutinho - Absoluta impiedade à beira do Mondego ou em Jarmelo?

 


[No alto de Jarmelo, nas traseiras do edifício da antiga Câmara Municipal, D. Inês de Castro está ladeada de duas crianças, ajoelhada e olha para três homens que revelam insensibilidade à sua dor. As estátuas em metal são do artista Rui Miragaia e inspiram-se no quadro de Columbano Bordalo Pinheiro intitulado O Drama de Inês de Castro.]

 

Carlos Coutinho

2024 02 19

Vamos por partes

ONTEM, na sequência de um momento picante da visita guiada em que participei ao centro histórico e à sé da Guarda, quase chorei. É que as décadas que levo de vida razoavelmente informada e cada vez mais sedenta de informação, tiveram sempre como certeza que a Quinta da Lágrimas, em Coimbra, foi o camoniano lugar onde três fulanos mataram Inês de Castro, a mando de um rei estratega e resoluto, D. Afonso IV.

Então não é que agora me garantem, com argumentação alegadamente bem documentada, que a tal dama ao serviço da Corte afonsina, aquela que depois de morta foi rainha, partiu desta para melhor num lugar serrano chamado Jarmelo ainda hoje integrado neste concelho ventoso e alto-beirão, a Guarda?

Vamos por partes.

Parte 1

Confirmei que o político assassínio ocorreu lá no alto da antiga vila de Jarmelo, nas traseiras do decrépito edifício que já foi o poiso da respetiva e desaparecida Câmara Municipal. Inês estátua metálica está aí ladeada por duas crianças aflitas, coisas de metal como a mãe.

Anotei que as esculturas são da autoria de Rui Miragaia que se inspirou num quadro famoso de Columbano, havendo ainda quem pense que D. Pedro mandou escombrar a vila porque um dos assassinos havia nascido lá. Foi o que fugiu para a Espanha, o Pêro Coelho, que depois seria recambiado para Portugal, tendo rei “Cruel” ou “Justiceiro” mandado que lhe tirassem de entre os pulmões o seu coração impiedoso.

Sem tomar partido por nenhuma destas duas versões da mesma execução, hoje consideradas lendárias pelos especialistas em indagações historiográficas, confesso que sempre que atravesso o Mondego em Coimbra, vou à Quinta das Lágrimas lançar um olhar condoído para as suas fontes, junto ao Mosteiro de Santa Clara a Velha.

A Fonte das Lágrimas, ao lado da Fonte dos Amores, era, segundo a lenda, o local dos encontros discretos e vulcânicos do príncipe herdeiro, casado com D. Constança, e a sua amada e já mãe, como a legítima rival. E foi aí que no dia 7 de janeiro de 1335 de banharam de sangue os punhais dos três fidalgos leais ao rei mandante. A fonte possui a forma de uma cruz e dela sai uma água profunda, serena e dolente que nunca seca.


Parte 2

Tendo tudo isto em conta, deambulei pelo centro histórico da Guarda, uma urbe com infância pré-romana que a Federação Europeia do Bioclimatismo galardoou com o título de Primeira “Cidade Bioclimática Ibérica” em 2002 e reparei que é desta região que partem as linhas de água subsidiárias das três maiores cidades portuguesas: para a bacia do Tejo que abastece Lisboa, para a bacia do Mondego que dá de beber a Coimbra e para a bacia do Douro donde brotam os melhores vinhos de Portugal, se não do mundo.

Na verdade, tenho alguma dificuldade em meter em mim a ideia de que os primeiros residentes conhecidos nesta região, muito antes da chegada dos romanos foram os celtiberos, coabitando com as feras tribos que Roma apelidou de lusitanas e de outras como as dos igediatanos, as dos ausetanos, bastulos, cessetanos, contestanos, edetanos, ilercavões, ilergetes, indigetes, laietanos, oretanos, lancienses opidanos e as dos transcudanos que preferiam a cerveja de bolota e lutavam com uma espada curva chamada falcata.

Estes povos colaboraram uns com os outros, durante mais de dois séculos, na resistência à romanização. Existência e ação especialíssimas teriam sido as a dos túrdulos. Seguiram-se aos romanos os bárbaros visigodos já cristianizados e, finalmente, os muçulmanos.

Admite-se, não sei como, que topónimo Guarda tenha derivado do de um castro sobranceiro ao Mondego, o Castro de Tintinolho.


Parte 3

O poeta e distribuidor de castelos que também mandou semear os os pinhais de Leiria e a quem chamaram o Lavrador, ficou mês e meio na Guarda em gozo de núpcias com D. Isabel de Aragão, onde também estudou as hipóteses de uma guerra com Castela, conflito que foi para a frente mas não deu em nada a não ser na assinatura do Tratado de Alcanizes que fixou os limites fronteiriços entre os dois reinos.

Também parece indesmentível que aconteceu aqui o “nascimento da língua portuguesa” em 1169, já que aqui foi escrito o primeiro texto literário em português pelo trovador galego Paio Soares de Taveiró para a sua amada Ribeirinha, ou seja, Maria Pais Ribeira, trova que chegou ao conhecimento de D. Sancho I que também fez dela sua amante e com ela semeou duas filhas e quatro filhos, além de mais nove em três outras mulheres.

À Ribeirinha, “branca de pele, de fulvos cabelos, bonita, sedutora” muitos a queriam para si, tal como este rei prolífico que também trovava e até dedicou o a seguinte cantiga de amigo a uma donzela que lhe caiu no goto:

Ay eu, coitada,

como vivo em gram cuydado

por meu amigo

que ey alongado!

muyto me tarda

o meu amigo na Guarda!

Ay eu, coitada, como vivo

en gram desejo por meu amigo

que tarda e non vejo!

muyto me tarda

o meu amigo na Guarda!

 

Tudo isto na minha emoção se sobrepôs à contemplação da maravilhosa sé com o seu magnífico retábulo em pedra de ançã executado na oficina do célebre João de Ruão.


Parte 4

À tarde, a minha excursão dirigiu-se a Celorico da Beira, aonde eu já no ia há mais de quatro décadas, apesar de ser considerada a “capital do queijo da serra”. Terão sido os túrdulos os primeiros povos a povoar a zona., a partir do ano 500 a.n.e. – dizem alguns historiadores, mas outros garantem que esta povoação foi fundada 2 000 anos antes da nossa era. De todos ficaram resíduos arqueológicos de grande monta que têm vindo a ser postos à luz do dia.

D. Afonso Henriques atribuiu-lhe o primeiro foral que foi várias vezes remodelado por outros reis e aqui nasceu, já no século XX um certo António Rosa, que foi almirante e tão Coutinho como eu.

À tarde parti para Trancoso, aonde eu também já não ia há muitos anos.

Devo dizer que era absolutamente urgente para mim o reencontro com um sapateiro que já morreu há 479 anos e se chamava Gonçalo Annes, o Bandarra. Grande alvoroço e acontecimentos inenarráveis, diria Camilo Castelo Branco, ele causou em Portugal durante mais de três séculos.

Muito familiarizado com o Antigo Testamento, compôs uma série de trovas e profecias que aludem ao futuro de Portugal e do mundo, assim como da vinda de um segundo Messias a quem chamou o Encoberto.

Alegava ele que tais prenúncios lhe eram fornecidos em sonhos e profetizava papa Portugal a constituição de um V Império que virou a cabeça ao jesuíta Padre António Vieira e a muitos outros visionários mais ou menos bacocos, chegando a inspirar repetidamente Fernando Pessoa, o poeta com mais heterónimos que eu conheço.

Foi, enfim, o sebastianismo e o milenarismo lusitano, desvarios que assustaram a Inquisição porque via neles provas insofismáveis de judaísmo e condenaram o sapateiro de Trancoso a integrar na fila de um auto de fé no Rossio.

A seguir foi obrigado a voltar para Aldeia Velha, antiga cabeça do concelho que existia a sudoeste da vila de Trancoso. Aí onde morreu em 1556 e há agora na vila uma rua com o seu nome, além de uma estátua de bronze que faz um sapateiro parecer um alcaide. As sua trovas foram incluídas em 1581 no “Catálogo dos Livros Proibidos”.

Em 1642, D. Álvaro Abranches, general da província da Beira, mandou fazer um epitáfio o tumulo do Bandarra, na Igreja de São Pedro da Vila de Trancoso, com os seguintes dizeres:

“Aqui jaz Gonçaliannes Bandarra natural desta Vila que profetizou a restauração deste reino, e que havia de ser no ano de seiscentos e quarenta por el Rei D João o quarto nosso senhor, que hoje reina, faleceu na era de mil e quinhentos e quarenta e cinco.”


Parte 5

Se formos à Wiquipédia, veremos que em Trancoso há histórias ainda mais atordoantes que tudo o que tenho vindo a escrever aqui.

Só é cidade desde dezembro de 2004, mas as suas muralhas apertam lendas e histórias verdadeiras que surpreendem até o mais abstrato dos visitantes. Uma delas é a de um padre que viveu no século XV e terá gerado 299 filhos em 53 mulheres, muitas das quais suas familiares diretas ou próximas, incluindo irmãs e a própria mãe.

A história do padre Costa parece ter começado em 1487 quando, por carta régia datada de 31 de agosto, o monarca português «legitimou Maria Gomes, filha de Diogo Gomes, pároco da Igreja de São Pedro (de Trancoso) e de Maria Eanes, mulher solteira, residente na vila de Trancoso».

As fornicações quase sem intervalos do Padre Costa também incluíram 1 tia, de quem teve 3 filhos, e a própria mãe, na qual terá incubado 2 irmãos-tios ou tios-irmãos, como se queira.

A lenda refere que o prior terá sido julgado em 1487, com 62 anos, e condenado a ser “degredado de suas ordens e arrastado pelas ruas públicas nos rabos dos cavalos, esquartejado o seu corpo e postos os quartos, cabeça e mãos em diferentes distritos, pelo crime que foi arguido e que ele mesmo não contrariou”.

No entanto, apesar da tétrica sentença, conta-se que “El-Rei D. João II lhe perdoou a morte e o mandou pôr em liberdade aos 17 dias do mês de março de 1487 com o fundamento de ajudar a povoar aquela região da Beira Alta, tão despovoada ao tempo, e guardar no Real Arquivo da Torre do Tombo esta sentença, devassa e mais papéis que formaram o processo”.

Sentença proferida no processo contra o prior de Trancoso (1487)

(Torre do Tombo, Armário 5, Maço 7)

“Padre Francisco da Costa, prior de Trancoso, de idade de sessenta e dois anos, será degredado de suas ordens e arrastado pelas ruas públicas nos rabos dos cavalos, esquartejado o seu corpo e postos os quartos, cabeça e mãos em diferentes distritos, pelo crime que foi arguido e que ele mesmo não contrariou, sendo acusado de:

– ter dormido com 29 afilhadas e tendo delas 97 filhas e 37 filhos;

– de 5 irmãs teve 18 filhas;

– de 9 comadres 38 filhos e 18 filhas;

– de 7 amas teve 29 filhos e 5 filhas;

– de 2 escravas teve 21 filhos e 7 filhas;

– dormiu com uma tia, chamada Ana da Cunha, de quem teve 3 filhas, da própria mãe teve 2 filhos.

 

Total: 299 filhos, sendo 214 do sexo feminino e 85 do sexo masculino, tendo concebido em 53 mulheres.


Parte 6

Já que falei dos túrdulos, talvez não seja enjoativo regressar a eles.

Formavam uma antiga tribo tartéssica, ou melhor, um povo pré-romano que vivia no Sul de Portugal, assentada, a leste do Alentejo, entre os vales do rio Guadiana e do Guadalquivir, aproximadamente entre a Oretânia e a Turdetânia.

A sua capital foi o antigo ópido de Ipolka, conhecida como Obulco na época dos romanos, correspondendo atualmente à cidade de Porcuna, em Jaén. Entre outras particularidades, crê-se que os túrdulos se diferenciavam dos demais povos ibérios de então na língua, supostamente de origem tartéssia.

Eis o que encontrei em castelhano e não parece necessário traduzir:

"Porcuna es un pueblo con historia, con una gran historia bajo su gruesa piel de olivos. Un lugar que no ha dejado de estar habitado en los últimos 5.000 años y que entraña numerosos tesoros aún por descubrir. Fue poderosa nación ibera, Ipolka, y decisiva ciudad romana después, Obvlco. De sus épocas tartesias e iberas aún quedan por pulir muchas aristas, mientras que de su glorioso pasado romano las evidencias asoman en cada rincón de la urbe. Pero no menos importante fue para visigodos y musulmanes, y en la Edad Media los reyes deseaban en sus dominios a Porcuna."


Parte 7

Em Coimbra, no regresso a casa, parei no Largo da Portagem e logo desci para a Rua dos Gatos, porque Miguel Torga não veio à janela do seu consultório e na rua escura em que me embrenhei nem o mais infeliz dos felinos me apareceu.

Torga tinha morrido, afinal, como Inês e o próprio Joaquim António de Aguiar, o pedreiro livre que foi cartista e chefe de governo três vezes no século XIX, ainda continua em silêncio a olhar para o Mondego, desde o dia 26 de maio de 1861.


 https://www.facebook.com/carlos.coutinho.7186896/posts/pfbid033LQ9HtNr7A3TdFAYU5s9acNWr69JechGf1KJ66rfKDFeccWaCNHkC7GH6afQ8WaVl


domingo, 21 de janeiro de 2024

Carlos Coutinho - Cadáveres adiados

Carlos Coutinho

2024 01 20

FARIA hoje 470 anos um infeliz rei misógino e sedento de glória que se chamava Sebastião e, ao contrário do que Fernando Pessoa escreveu 400 anos mais tarde, foi um cadáver adiado por pouco mais de uma década, mas nunca procriou.

No torvelinho da lendas e mitos que entram na nossa história, teremos ficado com a memória embotada, a pontos de nem repararmos no belo erro do poeta da “Mensagem”?

Confirme-se, então:

Louco, sim, louco, porque quis grandeza

Qual a Sorte a não dá.

Não coube em mim minha certeza;

Por isso onde o areal está

Ficou meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem

Com o que nela ia.

Sem a loucura que é o homem

Mais que a besta sadia,

Cadáver adiado que procria?

Sebastião I de Portugal e Algarves, que encabeçou uma cruzada para Alcácer Quibir no dia 4 de agosto de 1578 e foi tema de lendas e narrativas, apelidado como "o Desejado", “o Encoberto” e "o Adormecido", ascendeu ao trono muito jovem, com apenas 3 anos, após a morte de seu avô, o Rei D. João III, sendo por isso, instaurada em Lisboa uma regência durante a sua menoridade, primeiro pela sua avó, a Rainha Catarina da Áustria e, depois, pelo seu tio-avô o cardeal D. Henrique, o filho de rei que foi o primeiro grande chefe da Inquisição em Portugal.

Muitas foram as hipóteses geradas pela morte do tresloucado Sebastiãozinho, considerando algumas que o efeminado rei cruzado não morreu durante a batalha de Alcácer Quibir, visto haver sido raptado, pouco depois do desembarque e levado para essa cidade mourisca e providencial.

O que é certo é que ele começou a governar com apenas 17 anos e logo se lançou na sua aventura africana, assim fornecendo a diversos tipos de portugueses a inebriante e salvífica crença de que haveria de regressar à pátria numa manhã de nevoeiro como a que tenho neste momento à beira-Tejo.

Mas lendas, crenças e mistificações patrioteiras é o que mais abunda nos programas escolares de antigamente e mesmo na cabeça de muitos professores em exercício.

A própria cidade de Lisboa ainda é geralmente apregoada como uma conquista do fogoso príncipe vimaranense filho da Tareja condessa portucalense, depois de uma conversa tida algures com um Cristo enorme rodeado de anjos, num dos vários Ouriques que havia a norte e a sul do Tejo.

É pena que assim continuemos, já que algo idêntico se passa com a velhíssima cidade de Lisboa, sendo certo que até nas universidades e academias é geral a ignorância sobre a criação fenícia da Alis Ubo (Enseada Amena), topónimo que calcorreou um milenar percurso fonético até estanciar com a designação atual.

Só que teve de passar pelo nome romano de Felicitas Julia Olisipo, pelo árabe Al-ashbuna e pelo Lyxbone, como aparece na carta intitulada “De repugnatione lyxbonensi”, assinada pelo erudito cruzado britânico Osberno, um eclesiástico amante de lanças e espadas, e se encontra no acervo na Universidade de Cambridge, tal como outra, mais sucinta, subscrita por Arnulfo, também cruzado no cerco, conquista e saque de Lisboa.

Em 1147, quando os predadores, a caminho de novas rapinas, seguiram para oriente, entregaram a Afonso Henriques, o catolicíssimo rei minhoto, filho de uma autoproclamada rainha e neto de um conde francês, uma urbe formidavelmente evoluída com cerca de 20 mil residentes.

Muitos lhe chamavam então qualquer coisa parecida com Lisboa, designação que frequentes vezes aparece nos documentos na forma abreviada de Lx.

Felizmente, é já vasta e muito saudável a historiografia atual em que me foi possível escabichar a matéria deste meu descontraído apontamento.

https://www.facebook.com/carlos.coutinho.7186896/posts/pfbid0f7hs8h6asmJhyMCBLbCxtbb2CqxZECVMC2UBASidRCdmq3SMThsrFqkx8jrVE2eXl?


domingo, 24 de dezembro de 2023

Miguel Tamen - Plano Nocional de Leitura (XV) - Oliveira Martilns


O que faz do livro de Oliveira Martins um livro de história não é parecer-se mais ou menos com um romance. É, como em toda a grande história, dar voz ao que pessoas achavam que se podia estar a passar

Miguel Tamen

Colunista do Observador, Professor (e director do Programa em Teoria da Literatura) na Universidade de Lisboa

24 dez. 2023, 00:16

“Sua Majestade fora a Belém comer uma merenda.” Começa assim o melhor livro de J. P. Oliveira Martins (1845-1894), o esplêndido Portugal contemporâneo, publicado em 1881. Em dois volumes Oliveira Martins elaborou uma versão da história portuguesa entre 1826 e 1868. Muitos dos seus contemporâneos não gostaram da ideia. Aconselha-se ainda hoje os historiadores a não tentar escrever sobre o presente. Oliveira Martins, ignorou alegremente esses conselhos. Seria porém história aquilo que tinha feito? Teria ele escrito como um verdadeiro historiador? E o que é escrever como um historiador?

 

O Portugal antigo acabou para Oliveira Martins com a morte do rei D. João VI; e Portugal contemporâneo começa como um romance rural. Nessa altura Belém não fazia parte de Lisboa: era um sítio onde se podia fazer piqueniques e onde imaginamos os visitantes a acampar em cima de uns penhascos, como no conhecido poema de Cesário Verde, onde “penhascos” rima com “damascos.” Não sabemos se a merenda terá sido ao ar livre; mas o rei era conhecido por gostar de comer. A ideia de que uma época inteira acabou no dia em que um rei foi lanchar aos arrabaldes é importante para Oliveira Martins. Foi uma espécie de última tarde portuguesa.

Oliveira Martins conta que o público supôs na altura que o rei tinha sido envenenado: “a peçonha fora propinada nas laranjas da merenda de Belém.” A História conta-nos aquilo que aconteceu realmente; e isso inclui sempre coisas que as pessoas na altura achavam que poderiam ter acontecido. Será a crença num envenenamento menos histórica do que a ocorrência de um piquenique? Muitas centenas de páginas depois, o livro acaba com a morte de D. Pedro V, bisneto de D. João VI, em 1861. Esse segundo rei também teria sido envenenado: “Tinham envenenado o rei! Tinham envenenado tudo!” Acusou-se Portugal contemporâneo de dar voz a boatos e rumores, à opinião inconsistente e indocumentada. Para um historiador, no entanto, boatos e rumores são factos históricos: acontece muitas vezes que as pessoas se referem àquilo que poderia ter acontecido, que não aconteceu, ou que não sabem se aconteceu; é um facto que os nossos antepassados ocasionalmente exageraram.

Um boato não é só por si menos histórico que um piquenique ou uma morte: depende de quem se fala, e de quem come as laranjas ou os damascos. Da mesma maneira, nenhuma frase de um livro de história é só por si historiográfica. A historiografia não é um género literário nem uma região linguística demarcada. Não é porém também um tipo de ficção. O que faz do livro de Oliveira Martins um livro de história não é parecer-se mais ou menos com um romance. É, como em toda a grande história, e ao contrário da história pequena, dar voz ao que pessoas da altura achavam que se poderia estar a passar: aos erros, conjecturas e fantasias de pessoas que existiram.

https://observador.pt/opiniao/plano-nocional-de-leitura-xv/ 


quinta-feira, 1 de dezembro de 2022

Leonídio Paulo Ferreira - Entrevista a João Paulo Oliveira e Costa

"D. João IV tornou-se rei simplesmente por correspondência, sem ser necessário disparar um tiro"

Professor Catedrático na Universidade Nova de Lisboa, especialista na expansão marítima portuguesa e biógrafo do Infante D. Henrique e de D. Manuel I, João Paulo Oliveira e Costa acaba de publicar um fascinante livro intitulado Portugal na História - Uma Identidade, que procura explicar a nossa existência como país há quase nove séculos. E a Restauração da Independência, de que hoje se celebra o 382.º aniversário, é um momento-chave da nação portuguesa, sublinha o historiador.


Leonídio Paulo Ferreira

01 Dezembro 2022 — 00:10

Em 1640, todo o reino e todo o Império, com exceção de Ceuta, responde positivamente a D. João IV. É a grande prova de vida da nação?
Creio que sim. O golpe realizado em Lisboa no dia 1 de dezembro não foi o corolário de um período de motins ou de revoltas, mas o seu sucesso derivou da adesão generalizada que suscitou em todos os territórios, fosse na Península Ibérica e nas ilhas, fosse nas cidades e vilas do império, desde o sertão brasileiro até Macau. O caso de Ceuta é excecional, dada a sua localização e a impossibilidade de se defender simultaneamente de ataques marroquinos e espanhóis. D. João IV tornou-se rei simplesmente por correspondência, sem ser necessário disparar um tiro, depois do assalto ao Paço em Lisboa, e recebeu inclusive cartas de adesão à Restauração de populações das capitanias brasileiras que estavam sob domínio neerlandês. A unidade do país e do império nunca foi beliscada durante os 60 anos do governo de Madrid e a esmagadora maioria da população continuou fiel a Portugal. Como é habitual, algumas elites preferiam a integração na Monarquia Católica, mas a nação suportou firmemente uma longa guerra de 27 anos praticamente sem fraquejar e sem que houvesse motins graves reclamando contra a guerra ou contra os impostos que a sustentaram.

Mesmo a seguir a 1580, as Cortes em Tomar conseguiram garantir que Portugal continuaria a existir, ainda que com um rei estrangeiro. Filipe II aceitou essas condições de boa vontade?
Não sabemos exatamente o que se passava no espírito do rei, mas é certo que apesar de ter "herdado, comprado e conquistado" o país, e de dispor de um grande Exército, dominando Lisboa, Filipe II aceitou negociar com as cortes e reconhecer a autonomia institucional e cultural dos portugueses. Também é certo que durante o seu reinado, o monarca respeitou escrupulosamente o Juramento de Tomar, mesmo em relação a áreas longínquas, onde persistia uma rivalidade entre mercadores e missionários de Portugal e de Castela, como sucedia a propósito dos negócios e da evangelização do Japão e da China.

Sublinha que a orografia da nossa fronteira defende, até certo ponto, a independência, mas não totalmente, se a Espanha no passado tivesse usado todo o seu poder e Portugal não tivesse aliados marítimos. Mas o curioso é Espanha, tirando o caso de Olivença, nunca ter tentado conquistar porções de território. Há uma explicação?
Castela e depois a Espanha, desde que foi assinado o Tratado de Alcanizes, em 1297, nunca reivindicaram pedaços do território português. Sempre que invadiram Portugal com ambições territoriais, o alvo preferencial foi Lisboa, como sucedeu logo em 1373 na invasão de Henrique II. O estuário do Tejo foi a chave da independência portuguesa, pois foi o principal esteio dos negócios internacionais, sobretudo desde a criação das rotas ultramarinas, e porque a sua autonomia em relação ao centro peninsular tornou-se num interesse da Inglaterra desde a segunda metade do século XIV. Aliás, a tomada de Lisboa pelo duque de Alba, em 1580, sucede no único momento em que as relações anglo-portuguesas afrouxaram no turbilhão do cisma protestante. O facto de o nosso vizinho nunca ter reivindicado porções do território português desde que a linha da fronteira estabilizou, ajuda a compreender a formação de um sentimento precoce de nação entre os portugueses, pois falavam a mesma língua e o próprio vizinho reconhecia que o território português formava uma unidade. O facto de em 1297, a linha de Alcanizes ter encerrado dentro de si todos os falantes de português, e só os falantes de português, criou desde logo um estado-língua, caso único na Europa, o que decerto contribuiu para que o reino fosse visto como uma unidade natural, tanto pelos seus habitantes, como pelos demais povos europeus.

Também sublinha no livro nunca ter havido massacres de civis nas guerras entre Portugal e Leão, Castela e depois Espanha. Tem que ver com a proximidade cultural, línguas próximas, religião idêntica?
Talvez, mas é uma explicação insuficiente. Quando visitei a Escócia fiquei muito impressionado com o modo cruel como escoceses e ingleses se bateram séculos a fio, com carnificinas de parte a parte, que ainda são recordadas, e algumas celebradas. Nas demais partes da Europa, vizinhos carregados de semelhanças mataram-se violentamente até ao século XX, mesmo em guerras internas, como as que devastaram a Itália, nos séculos XV e XVI. Talvez a fronteira luso-espanhola tenha suscitado um relacionamento diferenciado pelo facto, referido atrás, de não haver reivindicações territoriais. A linha divisória cristalizou cedo e Castela e a Espanha, apesar das suas ambições hegemónicas, respeitaram-na e, aliás, mantiveram-na em paz na maior parte do tempo.

Qual a importância do Tratado de Alcanizes? O tal estado-língua que precede o estado-nação nasce aí?
O Tratado de Alcanizes é de tal modo importante que, apesar de estar a ser violado ininterruptamente há 221 anos, permanece intocado. De facto, a precocidade da nação portuguesa advém, em grande medida de a linha fronteiriça então acordada ter cristalizado depressa e ter sido consolidada pelo facto de constituir uma fronteira linguística indiscutível. A hegemonia da língua portuguesa dentro da fronteira constituiu um elemento agregador excecional. Quando se reuniam as cortes, todos os nobres, clérigos e representantes dos concelhos falavam a mesma língua e mantinham uma relação cada vez mais duradoura com a mesma dinastia. Esta situação cultivou um sentimento de nação que já se expressa de modo muito generalizado na crise de 1383-85, e passado um século, em 1498, os representantes do povo dizem a D. Manuel I que não querem que o rei de Portugal acrescente as coroas de Castela e de Aragão - queriam um rei exclusivo para o reino, ou seja entendiam que eram um estado-nação.

A precocidade da nação portuguesa advém, em grande medida, de a linha fronteiriça então acordada ter cristalizado depressa e ter sido consolidada pelo facto de constituir uma fronteira linguística indiscutível

D. Afonso Henriques, D. João I, D. João IV. Algo em comum entre os fundadores das três dinastias portuguesas?
D. Afonso Henriques dá expressão a um desejo de autonomia da fidalguia portucalense, D. João I encabeça a primeira vontade expressiva da nação de preservar a sua autonomia; ambos ganharam a sua autoridade no campo de batalha, através de vitórias retumbantes (e mitificadas), especialmente Ourique e Aljubarrota, e tiveram vidas longas que permitiram a consolidação da sua obra política. D. João IV, por sua vez, expressou de forma absoluta a vontade de toda a nação de recuperar a sua independência, e não foi preciso sequer um reinado longo para consolidar a nova dinastia. Todos foram mais do que os próprios indivíduos e todos chegaram ao trono apoiados em inequívocas vontades coletivas - de uma elite aristocrática e eclesiástica com D. Afonso Henriques, sobretudo, dos povos das cidades principais e das linhagens intermédias da fidalguia com D. João I, e de toda a nação com D. João IV. Neste caso, aliás, os conjurados terão admitido proclamar a República se o duque de Bragança não aderisse à revolução.

Filipe II, I de Portugal, teria mudado a história se tivesse feito de Lisboa a capital dos seus impérios?
A história dos "ses" é uma tentação para os historiadores, mas é muito provável que sim, sendo que o que teria sido o curso da História nessas circunstâncias é imprevisível. Na verdade, o curso da História, como o curso das nossas vidas vai-se fazendo de escolhas, por vezes dramáticas. A instalação definitiva da corte filipina em Lisboa teria representado uma mudança dramática na história da Ibéria; provavelmente teria atraído muitos castelhanos à cidade, que teriam alterado consideravelmente a sua configuração demográfica, pelo que talvez tivesse sido uma solução que, a ser bem-sucedida, poderia ter provocado uma desagregação da nação portuguesa. Mas estas minhas considerações são obviamente especulativas.

Se D. Manuel I, com os projetos para si e para o filho D. Miguel, Príncipe da Paz, tivesse sido bem-sucedido, Portugal poderia hoje não existir como país?
A preocupação dos representantes do povo nas cortes de 1498 é essa mesma. De certa forma, a petição então apresentada ao rei para que não fosse a Castela e Aragão para ser jurado herdeiro, como que antevê o que viria a ser mais tarde o destino da Escócia. Ao tornar-se Jaime I de Inglaterra e mudar a sua residência de Edimburgo para Londres, o rei Jaime VI da Escócia iniciou o processo de subalternização da Escócia à Inglaterra, de que agora o nacionalismo escocês se pretende libertar. Podemos admitir, sem ser muito imaginativos, que Portugal teria seguido um destino semelhante como sucedeu, aliás, com aragoneses e catalães, ao ficarem sob o governo de um rei que era simultaneamente rei de Castela e que fixou a corte no centro da Península.

Como contribuiu o império para a construção da identidade portuguesa?
O império acelerou a integração das ilhas no todo nacional, e criou novas razões para que a cultura portuguesa se afirmasse e se consolidasse no confronto com os outros povos. O contacto sistemático com "o outro" suscitou reações e reflexões, e também o reforço de instituições como os municípios ou as Misericórdias, mas também provocou lutas políticas que descambaram em perceções desajustadas de decadência, logo por meados do século XVI, em pleno crescimento político-militar, económico e religioso das áreas sob influência ou domínio dos portugueses. O comércio intercontinental reforçou o tradicional papel dos portugueses como intermediadores, que já eram, aliás, desde a fundação do reino, ao apoiarem a navegação entre o Atlântico Norte e o Mediterrâneo. O império contribuiu ainda mais para gerar o mundo lusófono dos nossos dias, mestiçado, unido pela língua e pela História. Em países como Israel ou o México, já participei em feiras ou festas sobre Portugal com a participação de cantores e de músicas cabo-verdianas, brasileiras ou angolanas, por exemplo.

Além de historiador é um grande viajante. Como Portugal é visto de fora?
O mundo anglo-saxónico protestante menospreza os latinos católicos e Portugal não escapa ao estereótipo. No resto da Europa, é muito variável, mas visitando os museus e os monumentos podemos encontrar a nossa dimensão europeia, pelas semelhanças, desde as artes e a arquitetura militar, à etnografia. No mundo ultramarino, Portugal suscita sobretudo curiosidade e admiração pela amplitude do império e do comércio intercontinental que manteve, tendo em conta a pequenez do território europeu. A antiga presença dos portugueses é normalmente valorizada e recordada no espaço público, nos países onde se deu esse contacto, inclusive nos países de língua oficial portuguesa. Em mais de uma dúzia de países, antigos edifícios construídos pelos portugueses (sobretudo fortalezas e igrejas) integram hoje a rede do Património Mundial da UNESCO pela vontade desses mesmos países. O modo como Portugal ganha votações na ONU, como sucedeu sempre que concorreu ao Conselho de Segurança, ou na própria candidatura de António Guterres a secretário-geral, resulta sobretudo do apoio dos países não-europeus, especialmente os de vocação marítima, fruto da imagem de intermediadores que foi forjada desde há séculos pelos mercadores que deixaram um rasto mais amplo e mais duradouro do que os conquistadores.

Iberismo? Nunca foi popular, mesmo que exista admiração por Espanha, pois não?
Não, como se viu em 1383-85, em 1498-99, em 1580, em 1640 ou em 1860. Só em 1580 é que um certo "iberismo" se impôs, o que só foi possível por o país viver uma crise dinástica complexa e estar momentaneamente sem a proteção do seu velho aliado marítimo e mesmo assim, como vimos, Filipe II sentiu necessidade de reconhecer a especificidade portuguesa.

Portugal na História - Uma Identidade João Paulo Oliveira e Costa

Temas e Debates

672 páginas

24,90 euros

leonidio.ferreira@dn.pt

P

https://www.dn.pt/sociedade/d-joao-iv-tornou-se-rei-simplesmente-por-correspondencia-sem-ser-necessario-disparar-um-tiro-15407817.html

domingo, 30 de outubro de 2022

Luís Reis Torgal: - “A ditadura não foi branda, foi um fascismo à portuguesa”

* Luís Reis Torgal

Numa obra compilada pelo historiador, prova-se que os tentáculos da polícia portuguesa iam às colónias e passavam o Atlântico para vigiar a actividade dos exilados.

O título da obra parte de uma referência irónica, a uma entrevista de António Ferro a António de Oliveira Salazar no início dos anos 30 do século passado. Contudo, Brandos Costumes, o Estado Novo e os Intelectuais, coordenado por Luís Reis Torgal, desfaz esta visão. A ditadura tinha polícia política, prisões sem culpa formada, censura, tribunais plenários especiais, interrogatórios, as matracas da força de choque da Legião Portuguesa, torturas e informadores visando as oposições. Havia falsas eleições das quais saía sempre vitorioso o partido único nas suas duas versões — União Nacional e Acção Nacional Popular —, o sindicalismo livre era reprimido naquele Estado de corporações e aos funcionários públicos exigido um juramento de fidelidade ao regime. “Activo repúdio ao comunismo e a todas as ideias subversivas”, proclamava.

As prisões eram várias e, algumas, coexistiram no tempo: do Aljube ao Campo do Tarrafal, em Cabo Verde; da ilha de Ataúro, em Timor, ao forte de São Sebastião, em Angra do Heroísmo, nos Açores; da fortaleza de Peniche ao forte de Caxias. A polícia teve várias declinações de cosmética mantendo o essencial da sua função. Em 1933, nasceu a PVDE (Polícia de Vigilância e Defesa do Estado), sucedeu-lhe a partir de 1945 a Polícia Internacional de Defesa do Estado (PIDE), para terminar na Direcção-Geral de Segurança, assim baptizada por Marcelo Caetano, que caiu com o 25 de Abril de 1974.

“É uma referência irónica, a ditadura não foi branda”, avança, ao PÚBLICO, o coordenador que reúne investigações suas e de outros seis estudiosos — Heloísa Paulo, Julião Soares Sousa, Luís Filipe Torgal, Paulo Marques da Silva, Renato Nunes e Vítor Neto.

“A violência, o processo directo e constante da ditadura fascista não são aplicáveis, por exemplo, ao nosso meio, não se adaptam à brandura dos nossos costumes”, respondera com paternalismo Salazar a António Ferro, dando origem ao mito de uma lusa benignidade do regime de excepção. Ou seja, não há lugar para revisionismos, branqueamentos ou negacionismos.

“A ditadura não foi branda, defendo que o regime foi um fascismo à portuguesa, se utilizarmos a palavra totalitarismo não estamos errados e não há totalitarismos brandos”, acentua Luís Reis Torgal. “Claro que a PIDE não era infalível, nem podia ser, uma coisa é a vigilância, outra a prisão, mas os pides observavam tudo ou, pelo menos, tentavam”, refere.

“O início deste projecto data dos anos 90 do século passado, quando comecei a trabalhar com alunos sobre os arquivos da PIDE”, explica. “Agora, foi pegar em artigos publicados, em sínteses de doutoramento, em livros pouco lidos”, prossegue o professor da Universidade de Coimbra e membro da Academia Portuguesa de História.

Dos dois lados do Atlântico
No entanto, no volume há espaço para novidades: são três. Se era conhecida a militância comunista e a história da repressão do Estado Novo a Soeiro Pereira Gomes, também Miguel Torga e Jorge de Sena sofreram as vicissitudes da vigilância da polícia política. Este último, do outro lado do Atlântico, no exílio brasileiro, através da articulação da PIDE com o Departamento Estadual de Ordem Política e Social do Brasil, e da presença de enviados especiais da polícia política portuguesa. O Brasil tinha tradição de terra de exílio das oposições, desde o advento do Estado Novo, sujeitas a vigilância. O que foi determinante para que Jorge de Sena partisse para os Estados Unidos.

O historiador Luís Reis Torgal coordena a obra Brandos Costumes, o Estado Novo e os Intelectuais 

Nos relatórios dos arquivos da PIDE, Miguel Torga constava como “escritor desafecto com ideias avançadas” e Fernando Namora estava “sob vigilância”. Aquilino Ribeiro também estava na mira. Fundador da Seara Nova, exilado em França pelo seu envolvimento na revolta de 1927, aderiu à frente oposicionista do Movimento Unitário Democrático (MUD) e teve um processo-crime pela edição de Quando os Lobos Uivam.

O republicano Tomás da Fonseca, um dos mais tenazes escritores anticlericais do século XX português, foi classificado pela polícia política como “radical e perigoso” e “raivoso anti-situacionista”. Esta classificação teve consequências, pela sua expulsão da Escola do Magistério Público de Coimbra e na proibição pela censura de 17 dos seus livros. Ferreira de Castro, outro “desafecto ao regime” no crivo da polícia política, não teve nenhum livro censurado nem foi preso, o que Luís Reis Torgal justifica pelo seu prestigio internacional.

Na selecção dos estudos de 12 escritores, “meramente simbólica” como assinala o coordenador, destaque para Natália Correia, que, ainda antes de ser processada pela direcção literária das Novas Cartas Portuguesas, de Maria Velho da Costa, Maria Isabel Barreno e Maria Teresa Horta, um dos episódios do ocaso da ditadura, teve censurada a sua Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica.

Outros dois intelectuais acompanhados pela PIDE aparecem nesta obra, ambos residentes na Casa dos Estudantes do Império, Amílcar Cabral e Agostinho Neto. Do dirigente guineense, agrónomo, nada consta nos arquivos, apesar da sua actividade nacionalista. Quanto ao médico e primeiro Presidente de Angola, o seu envolvimento em acções políticas, como o abaixo-assinado a Craveiro Lopes para que Portugal abandonasse a NATO, o apoio à campanha presidencial de Norton de Matos e a sua adesão ao Movimento Nacional Democrático levaram-no às prisões do Aljube e de Caxias.

30 de Outubro de 2022
Público 2022 10 29

sábado, 3 de abril de 2010

Bicentenário do nascimento de Alexandre Herculano


Assinalaram-se, no dia 27 de Março, os 200 anos do nascimento de Alexandre Herculano. O homem sepultado na Sala do Capítulo do Mosteiro dos Jerónimos, ao lado de Camões e Pessoa, foi o fundador da historiografia moderna em Portugal, isto é, dedicou toda uma vida de trabalho intenso a introduzir no nosso país a análise e relato dos factos passados sob um ponto de vista científico.
É extraordinário que, em apenas cinco anos, tenha redigido os quatro volumes da sua História de Portugal. Igualmente revelador da grandeza de Alexandre Herculano é o facto de os seus trabalhos terem mantido o estatuto de referências incontornáveis na formação dos historiadores até aos anos 80 do século XX.
Mas Alexandre Herculano não foi apenas o pesquisador dos acontecimentos históricos. A história como a poesia, os romances, a defesa de uma corrente estética ou os ensaios sobre as mais diversas questões, presentes ou passadas, mas sempre atravessados por uma sólida autoridade ética, eram também formas de intervenção política e social.
No tempo que viveu, Alexandre Herculano foi amplamente reconhecido como uma das figuras mais marcantes da sua época. Alguns anos depois da sua morte, quando o republicanismo havia já triunfado, o centenário do seu nascimento foi festejado com admiração pela obra que deixou e com respeito pelo seu combate ao lado dos sectores liberais.
Há 59 anos, numa carta dirigida à família em que aborda o livro Herculano e o Liberalismo em Portugal, de António José Saraiva, Álvaro Cunhal argumentava(1), manifestando apenas «impressões de leitor bastante ignorante na matéria versada», que «a história de Portugal do século XIX está por estudar e por escrever», que nenhum historiador havia até então respondido «aos muitos e muitos “porquês?”». Isto é, ainda nenhum havia sido capaz de «estudar todo esse atordoador emaranhado de conflitos que é o século XIX; determinar as linhas fundamentais da evolução nesse período; definir em que sentido e como se operam as transformações da sociedade portuguesa; arrumar e classificar os homens não apenas segundo as suas palavras e intenções declaradas, mas segundo os reais resultados da sua actuação (incluindo naturalmente a ideológica) e os interesses por esta servidos».
«É um traço característico do movimento da burguesia na primeira metade do século desdenhar da realização histórica que ela própria estava fazendo».
Como era trabalho que, acrescenta Álvaro Cunhal, estava por fazer, tornava-se, então, «completamente impossível formar uma ideia da história do pensamento português no século XIX e ajuizar das ideias dos homens (não em relação com os dias de hoje, mas em relação com o próprio século XIX) sem conhecer e compreender com clareza a realidade social em que germinaram».
A falta de conhecimento sobre Alexandre Herculano e o período histórico que abarca todo o século XIX em Portugal parece ser hoje dominante. Mesmo que nas décadas seguintes à carta escrita por Álvaro Cunhal no cárcere, alguns passos tenham sido dados para matar «aquilo que a ansiedade de saber exige»; mesmo que o estudo da história portuguesa tenha já passado «a primeira infância», como frisava então o secretário-geral do PCP, fica a impressão de que muito do que dela importa em relação à vida e obra de Herculano, bem como ao contexto social e político mais profundo em que se insere, fica por divulgar.
As evocações oficiais de Alexandre Herculano no ano do bicentenário do seu nascimento têm sido muito mais que apagadas. Com evidentes insuficiências, este suplemento é, sobretudo, um esforço para contrariar o rolo compressor da ideologia dominante, ingrata para com a história e algumas das suas destacadas personalidades, quando não a histórica e empenhada em reescrever o passado ao sabor dos seus interesses vorazes, como bem sabem e conhecem os comunistas.

Hugo Janeiro
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(1) Álvaro Cunhal, Obras Escolhidas, Tomo II, 1947-1964, Edições Avante!, Lisboa, 2008, pp.127-129.
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Avante - Nº 1896
01.Abril.2010
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