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quarta-feira, 7 de setembro de 2022

Jaime Nogueira Pinto - Quatro autores em tempo de Páscoa

 

* Jaime Nogueira Pinto 

- Colunista do Observador


Ainda que não consigamos ouvir a voz subtil de Deus Pai, sabemos que só irmanados no Horto a Cristo e aos que sofrem, fazendo o que depende de nós e dando a Deus o que Dele depende, seremos resgatados

16 abr 2022, 00:202

Para o cristão, que tem o privilégio e a inquietação de acreditar, o tempo da Páscoa, o tempo da paixão, morte e ressurreição de Cristo, é o tempo da intensa consumação de todos os mistérios. Mistérios com dois mil anos e mistérios de sempre.

A ideia de um Deus que se faz Homem e que, como nós e connosco, caminha pela humilhação, pela dor e pela morte, de um Deus que se entrega à Terra para ser semente de vida e redenção e para que, como Ele e com Ele, possamos também ser semente de vida, não encontra senão frívolos paralelos nas incursões terrenas dos deuses pagãos, contadas por Homero, na Ilíada e na Odisseia, por Hesíodo, na Teogonia, ou por Virgílio, na Eneida.

Aí, dir-se-ia, também deuses e deusas coabitam com os mortais e com eles concebem semideuses e heróis: Zeus seduz Alcmena que dá à luz Herácles, ou Hércules, o dos Doze Trabalhos; Afrodite (a Vénus romana) gera, com Anquises, Eneias, príncipe troiano e proto-fundador de Roma; Aquiles é filho de uma ninfa do mar, Tétis, e de Peleu, rei dos Mirmidões. Mas todos esses semideuses e heróis são fruto das imaginárias excursões de um panteão de divindades quase lúdicas e com especialidades mirabolantes pelas terras dos homens e das mulheres. A semelhança com Cristo, com a irrupção de Deus na História, destes arquétipos úteis e a-históricos, destas criativas bengalas para perscrutar o enigma da contraditória natureza humana, destes lugares literários que, da Eneida aos Lusíadas, a literatura europeia também foi consagrando, é um mero exercício de hermenêutica crítica ou de semântica comparada.

Cristo e a narrativa evangélica da Sua Paixão, ou as quatro narrativas evangélicas da Sua Paixão, são outra coisa e de outra natureza: entram a fundo no Mistério, têm uma presença permanente na vida e na morte de cristãos e não-cristãos e um reflexo constante na vida icónica, literária, dramática e poética da Cristandade ao longo dos séculos.

Assim, a nossa história pessoal e colectiva, e particularmente a História da Europa, dificilmente se conta sem a meditação da Paixão de Cristo, e sem a reflexão sobre o desconcerto do Mundo, o sentido do sofrimento e da morte e a esperança numa vida plena que a meditação da Paixão traz – desde os populares mistérios medievais à Pietá de Miguel Ângelo e às muitas versões e visões do planctus Mariae e da agonia do Deus feito Homem.

“Mas porque Deus quisesse, me é oculto, a nossa redenção só deste modo”

Divina Comédia de Dante, como compêndio geral da História divina e humana mediada pelo grande poeta medieval, não podia ficar alheia ao mistério pascal da Redenção e da vitória sobre a morte. Dante concebe um homem criado à imagem de Deus (imago Dei), um homem consciente da sua liberdade de escolher entre o Bem e o Mal; e, uma vez criteriosamente arrumados os “maus” no seu Inferno, é no Paraíso que se aproxima do mistério da Redenção e do mundo dos que escolhem o Bem.

O facto de os desígnios de Deus serem um mistério e continuarem a sê-lo é ponto assente para o poeta, supremo devassador do oculto e sublime perscrutador de mistérios. Talvez por isso, depois de confessar a sua ignorância sobre a razão pela qual Deus, para resgatar os homens, decide sacrificar o Seu próprio filho, Dante entregue a Beatriz a explicação da Redenção – e do caminho de Deus-Filho pela vida e pela morte adentro. A imaginária amada do Poeta explica-a como um acto de amor e compaixão de Deus pelo Homem, a “mais nobre das suas criaturas”. Para isso, recorda a história da Criação e da Queda do Homem, enganado pelo seu Inimigo, e lembra que o ser humano, por si só, não podia já reabilitar-se das suas más escolhas para aceder à “vida em abundância”, à vida plena, à “intera vita”, para a qual Deus o criara. Assim, a reparação do pecado, a Salvação, tinha de vir do próprio Criador, “pelos Seus caminhos”, pela Sua “bontá” (bondade) e “larghezza” (generosidade).

Na visão dantesca do ciclo Paraíso-Queda-Redenção, só com o sacrifício do Seu Filho poderia Deus-Pai salvar o Homem da perdição com que o pecado original o carregara. Criado bom (“buono e a bene”), o Homem perdera-se, ao querer igualar-se a Deus, de forma vã e apressada; mas poderia salvar-se pelo sacrifício de um Deus encarnado, de um Deus feito próximo, feito Homem, capaz de carregar sobre os ombros os pecados da Humanidade, revelando a Sua verdadeira face. Tal como o pecado de Adão caíra sobre todos os seus descendentes, também, em Cristo, o Novo Adão, todos podiam ser salvos, ou devolvidos “a sua intera vita”.

Quanto aos danados que, à guarda de Satanás, habitavam os círculos das trevas que Dante imaginara e descrevera tão pormenorizada e eloquentemente, ali estavam e ali estariam por terem escolhido o mal em liberdade, ou por terem escolhido, em liberdade, a distância em relação ao Criador onde, para todo o sempre, crepitariam.

A Paixão, segundo Shakespeare

Shakespeare também não poderia ter sido indiferente ao mistério da Paixão de Cristo, tão presente nos enganos, desconcertos e calvários causados e suportados pelo Homem; e o seu teatro é o teatro de um autor cristão, instruído na cultura do cristianismo europeu dividido do tempo das guerras religiosas, numa Inglaterra marcada pela guerra das Rosas e pela reforma de Henrique Tudor.

Embora nas relativas boas graças do poder, o Bardo sabia-se sob a sua severa censura, prévia e póstuma, e ttratava de evitar quaisquer referências ou imagens que pudessem insinuar-se como manifestações de papismo – vistas com duplo horror pelas autoridades isabelinas, quer como abjecta emanação da corrupta igreja de Roma, quer como traição patriótica por conluio com os cúmplices do supremo inimigo da Inglaterra – o Áustria de Espanha. Talvez por isso, e pelas linhas tortas com que sempre se “reinventa o humano”, o tema da Paixão de Cristo, ou mais concretamente o tema da Pietá, surja inesperadamente trasvestido em Henrique VI.

Era um tempo de derrota, esse ano de 1453, o final da Guerra dos Cem Anos, com os ingleses vencidos pelos franceses. Sir John Talbot, o “Aquiles inglês”, condestável das tropas de Henrique VI em França, recebia o cadáver do filho, John Lisle, morto na batalha de Châtillon. O bravo guerreiro tomava então o cadáver do filho nos braços e chorava-o, numa reedição paternal da dor de Maria com o corpo de Jesus nos braços. E é abraçado ao filho morto que Talbot expira, em Henrique VI.

Nessa sua “peça histórica”, Shakespeare dava consideráveis voltas à História para servir os objetivos do drama. Não só reproduzia o planctus Mariae no abraço ao filho morto do terrível comandante inglês, temido pelos franceses pela sua bravura e crueldade, como punha John Talbot a enfrentar Joana d’Arc na batalha – para, no acto seguinte, matar por bruxaria a que viria a ser a santa padroeira de França. Os Talbot, pai e filho, tinham de facto morrido na batalha de Châtillon, em 1453, mas Joana d’Arc fora julgada e condenada à morte em 1431, 22 anos antes.

É, no entanto, em King Lear, a tragédia estreada em 1605-1606 (ou The True Chronicle of History of the Life and Death of King Lear and His Three Daughters na versão escrita de 1608) que Shakespeare recria com maior profundidade e subtileza a Paixão de Cristo. King Lear acaba mal, coroando com um trágico equívoco último muitos outros equívocos. Mas a peça, que pela profunda tristeza e desolação do desfecho viu a sua exibição recusada por longos anos, e que conheceu até versões alternativas com um “final feliz”, não deixa de transmitir a redenção dos que escolhem a porta estreita do Bem.

Com Lear, destronado por Regan e Goneril, as filhas más, Shakespeare torna presente, na humilhação de um rei sem reino nem poder, o Cristo humilhado pelo povo, coroado com uma coroa de espinhos e crucificado sob o dístico satírico “Rei dos Judeus”. O “Escárnio de Cristo”, que inspirou uma galeria de grandes artistas, de Fra Angelico a Tiziano e a Van Dick, reencena-se em Shakespeare na figura patética de Lear, o rei sem trono, traído pelos seus e enlouquecido de dor e humilhação. Mas é em Cordélia, a filha boa, que o Bardo reproduz a imagem do Cristo humilde, injustiçado e perseverante. Lear não vê a falsidade e a traição de Regan e Goneril nem o amor e devoção de Cordélia, que evoca o sal, o evangélico sal da Terra, para expressar o seu amor pelo pai. Habituado a um círculo de incondicionais veneradores, o Rei não vê nem ouve o que se passa, tomando as duas filhas intriguistas por boas e por má a filha que se recusa a entrar numa falaciosa competição pela sua aprovação e favor.

Como narrativa de terríveis maquinações e traições, de grandes torturas e sofrimentos, de grande desconcerto do mundo, de caos primitivo e selvagem, King Lear pode também ser o símbolo de um mundo pré-cristão ou de um mundo abandonado por Deus. E a Graça chega a esse mundo através do amor silencioso e incondicional de Cordélia, um amor inalterado perante a ingratidão e a loucura do pai, um amor capaz de ser “sal da terra” e “luz do mundo” numa terra que, mergulhada nas trevas, perdeu o sabor, um amor que, tal como o de Cristo, se mostra capaz de “redimir a natureza” (“Thou hast one daughter / Who redeems nature from the general curse”).

A peça acaba com a morte de Cordélia e a consequente morte de Lear, finalmente consciente de todos os seus loucos enganos. Shakespeare não ressuscita Cordélia, mas deixa-a como alegoria do Bem paciente e obediente que faz o seu caminho indiferente à incompreensão, à ingratidão e à traição. Cordélia atravessa todos os calvários por obediência e entrega ao pai, à verdade e à justiça; e de olhos postos num tempo outro e num bem maior, parece repetir com a vida as palavras que Jesus dirige a Pedro na última ceia: “O que Eu faço, não o entendes agora, mas hás-de compreendê-lo depois.”

O Cristo de Charles Péguy

Dante é um mestre visionário e profético, um cristão incendiário e colérico que não hesita em encerrar no Inferno os seus inimigos vivos, e até alguns Papas; Shakespeare é um reinventor da condição humana, um tratadista dos grandes limites da Terra e do Céu; Peguy, o terceiro autor cristão que me acompanha nesta Páscoa, é menos ilustre, mas não deixa de ser um grande poeta e um grande exemplo de católico empenhado no testemunho da Fé, e no amor a Deus, aos homens e à Pátria.

É um cristão e católico singular, que parece estar nos antípodas dos católicos conservadores da sua geração: um socialista cristão, alinhado, no caso Dreyfus, pelo lado que, para a Direita, era o lado do “traidor”. Isto no tempo de Maurice Barrès, de Édouard Drumont, de Charles Maurras. Péguy funda a Amitié Judéo-Chrétienne e vai morrer, voluntário, nas primeiras semanas da Grande Guerra. É Tenente de reserva e é dos primeiros a morrer em combate, a 5 de Setembro de 1914, em Villeroy.

Órfão de pai, educado na fé e nos “valores da velha França” (da decência, da disciplina e do trabalho bem feito) numa família modesta e na escola primária, Péguy vai ser depois aluno de Romain Rolland e de Henri Bergson. Tem o seu baptismo de fogo político no caso Dreyfus, num tempo de “beatitude revolucionária”. Milita em causas humanitárias, como a defesa dos arménios, funda uma revista e um grupo de reflexão e discute ideias com amigos e inimigos. Mas, em Setembro de 1908, escreve a Joseph Lotte, um seu amigo escritor e católico: “Je n’ai pas tout dit… J’ai retrouvé la foi… Je suis catholique”.

Era o termo de um longo caminho, em que a leitura da Paixão segundo S. Mateus e da Imitação de Cristo tinham sido determinantes.

Péguy é um construtor de catedrais, mas é também um iconoclasta de mitos antigos e modernos. É um católico que critica o clero do seu tempo, acusando-o de desconhecer a condição humana, mas é também um crítico insistente e sem medo da ideia de progresso, “a grande lei das sociedades modernas”, e da própria modernidade, que considera um tempo fútil, um “reino de bárbaros” embrutecidos e despreocupados, que não conhecem o conceito da irreversibilidade e tem por Deus o Dinheiro. A modernidade não é laica, é anticristã; e é governada por um “Partido intelectual” que controla as universidades, as revistas, os jornais, a opinião, e que, através da opinião, condiciona a política e os decisores das políticas.

Foi há 120 anos, mas parece que foi ontem…

Péguy era um socialista cristão, um patriota francês da Terceira República que, pela leitura mística e a peregrinação interior, evoluiu para o nacionalismo e para o catolicismo.

A Paixão de Cristo é para ele, o ponto-chave da grande História de Deus e dos Homens, e a chama da fé nova parece abri-lo a fecundos atrevimentos interpretativos. Cristo é, para ele, a suprema comunhão com a miséria e o desconcerto do mundo; e o cristão está ligado ao corpo de Jesus, de um modo físico, místico, misterioso, que faz com que o sofrimento, a humilhação, a doença e a morte, o projectem para junto Dele na noite do monte das oliveiras.

Embora o tema perpasse em toda a obra poética de Péguy, é no volume Clio 1 – Dialogue de l’histoire et de l’âme païenne, (um texto póstumo publicado pela primeira vez em 1955), que encontra a sua expressão mais acabada. Recém-convertido (o texto original é de 1909), Péguy mergulha aí no “mistério central do cristianismo, na encarnação redentora”; e com o à-vontade que só a Graça da fé profunda explica, avança por cima de quase vinte séculos de teologia e exegese polémica de Doutores da Igreja e filósofos agnósticos para, como Inácio de Loyola, se meter na pele de Cristo nas horas terríveis de Getsemani. Depois, melhor que muitos teólogos, chega à razão da terrível agonia e tristeza do Deus feito Homem nas Suas horas finais, da “Tristis, tristes usque ad mortem” do Evangelho de Mateus. Diz Péguy que Cristo estava assim porque sabia que o seu sofrimento salvaria muitos, mas que não salvaria todos; e que muitas almas se perderiam, apesar daqueles últimos momentos em que, aparentemente, “o Pai o abandonara”.

Quando li Péguy pela primeira vez, há cerca de sessenta anos, foi esta a ideia que mais me tocou e impressionou. Até hoje.

Papini e a última esperança

Escreveu recentemente o Papa Francisco que o profeta Elias foi talvez o primeiro a descobrir que o nosso Deus era sempre “um Deus das surpresas, até mesmo na forma como passava e se fazia sentir” – não no vento impetuoso, não no terramoto, não no fogo, mas na brisa suave –, e que era para essa “voz subtil do silêncio” que devíamos “preparar os nossos ouvidos”.

Mas estaria a ouvir bem Giovanni Papini – um outro teólogo improvisado e também de conversão tardia, como Péguy – quando, contrariando dois mil anos de Teologia, apresentou uma possibilidade final para a História humana e divina capaz de responder à tristeza de morte do Cristo do poeta francês e de pôr fim aos suplícios dos habitantes dos infernos de Dante?

Em 1953, Papini, autor da Storia di Cristo e escritor católico consagrado, propunha, como possibilidade, o perdão ou a amnistia geral de todos os condenados ao Inferno, incluindo do próprio Lúcifer, por um acto de infinita misericórdia de Deus. O livro, Il Diavolo, foi um êxito editorial, com edições sucessivas (doze em dois meses), e levantou grande polémica, com as autoridades eclesiásticas a hesitar entre a surpresa e o choque perante a heresia do escritor católico. Papini, que nascera em Florença em 1881, “autodidata, pobre, malvestido, solitário, esquecido”, e que estava então quase cego e paralisado, aguardou disciplinadamente o veredicto eclesial, argumentando que não queria fazer doutrina ou substituir-se à doutrina da Igreja e aos seus ensinamentos, mas acrescentando que aquilo que “não era lícito ensinar como verdade certa e segura”, podia e devia ser “admitido como esperança humana e cristã”.

Um Inferno vazio e um Céu cheio? Quem sabe, talvez o aviso no início da peregrinação dantesca para que os que ali entravam abandonassem toda a esperança pudesse ser revogado e ficasse a misericórdia última, a misericórdia do “Deus das Surpresas”, movido pela infinita tristeza do seu Filho na noite de Getsemani.

Seja como for, e ainda que, por vezes, não consigamos ouvir a voz subtil de Deus Pai ou a oiçamos mal, sabemos que só irmanados no Horto a Cristo e à humanidade que sofre, só fazendo o que depende de nós e entregando a Deus o que Dele depende, podemos ser resgatados.

https://observador.pt/opiniao/quatro-autores-em-tempo-de-pascoa/

segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Jenny Farrell - Marx, Shakespeare, Rei Lear e o precariado moderno

  CULTURA




Jenny Farrell interpreta Shakespeare com uma visão marxista e ilustra com análise da peça “Rei Lear”

por Jenny Farrell

Publicado 24/12/2020 15:51

Entre os principais “insights” do marxismo está que toda a história, desde o fim da sociedade primitiva, tem sido uma história de sociedades de classes e luta de classes. A arte não surge no vácuo; é parte integrante do processo histórico e da compreensão humana do mundo. Portanto, a forma mais adequada de chegar ao âmago de uma obra de arte é compreendê-la no contexto da época em que se originou e das forças sociais daquela época.

Com Shakespeare surge uma arte historicamente autoconsciente, consciente de que a realidade que representa é histórica. A mudança histórica está enraizada em suas peças. São construídas em torno de um conflito histórico. A tarefa da interpretação – tanto no teatro quanto na crítica – é compreender esse conflito básico. Qualquer tentativa séria de compreender as peças de Shakespeare significa compreender a época de onde elas vêm, o final do Renascimento, o início do século XVII na Inglaterra: o início do período moderno como uma época de convulsões históricas, a formação da primeira fase da sociedade burguesa em que o teatro de Shakespeare origina.

Em suas tragédias, Shakespeare apresenta o conflito fundamental de forças históricas opostas que surge após o colapso do mundo medieval e a ascensão inicial da burguesia. Essas forças opostas dentro da burguesia – em termos tomados do Renascimento – são o humanismo e o maquiavelismo. Humanismo no sentido de um Erasmus de Rotterdam e Thomas More, maquiavelismo após Niccolò Machiavelli, autor de O Príncipe, o famoso breviário para tomar e manter o poder.

Uma terceira força envolvida na constelação básica são os representantes da velha ordem, o mundo feudal-medieval. O quarto jogador nesta constelação geral é o elemento plebeu, o povo trabalhador que, pela primeira vez, recebe uma voz através dos coveiros em Hamlet. O conflito das tragédias tem origem nessas forças.

As principais forças sociais na peça:

Lear (dobrado por Gloucester) é um monarca feudal absoluto que perdeu contato com seu povo e com sua própria razão. Seu é o mundo feudal rigidamente organizado, onde o lugar de uma pessoa na hierarquia era claramente definido e não podia ser alterado. Lear é incapaz de entender o tipo de desrespeito demonstrado a ele por suas filhas mais velhas. O desprezo por ele e por sua dignidade, uma vez que entregou seu poder e seu reino a elas, destrói seu mundo completamente. Quando ele abandona a sociedade que conheceu, e é realmente expulso por essas filhas, entra no pântano como um homem nu, um homem que perdeu tudo.

A tempestade que assola o pântano é um símbolo do que está acontecendo na cabeça de Lear. Em meio a essa violenta tempestade, no território dos pobres e “loucos”, Lear entende profundamente a condição dos despossuídos. Antes de entrar no casebre, ele ora por “sua pobreza sem-teto” para os sem-teto. Ele percebe:

Pobres desgraçados nus, onde quer que estejam,
Que aguarde o ataque desta tempestade impiedosa,
Como devem suas cabeças sem casa e lados não alimentados,
Sua irregularidade em defendê-lo
De temporadas como essa? Oh, eu tenho um
Muito pouco cuidado com isso!
Pegue o físico, pompa.
Exponha-se para sentir o que os miseráveis ​​sentem,
Que tu possas sacudir o superfluxo para eles
E mostre os céus mais justos.

Ao ser exposto aos pobres e desabrigados, os expulsos, ele percebe que isso está acontecendo em seu próprio reino e que ele não se interessa pelos miseráveis. Essa percepção não é loucura, mas o oposto da loucura. Quando Lear encontra Edgar, que finge ser um mendigo louco vestido com os mais escassos trapos, se não mesmo nu, seu “insight” vai ainda mais longe:

Tu és a própria coisa. O homem não acomodado não é mais do que um animal tão pobre, nu e bifurcado quanto você. – Fora, fora, seus empréstimos! Venha. Desabotoe aqui. (lágrimas nas roupas)

Aqui, ele descobre a humanidade essencial, “a própria coisa”, “homem não acomodado”. Este é um momento crucial no desenvolvimento de Lear. Simbolicamente, para enfatizar essa nova compreensão, ele arranca suas roupas. Claro, também há expressões de loucura genuína, às vezes simplesmente para alívio cômico; mas muitas vezes há uma razão oculta nestes, como no julgamento simulado de Lear de Goneril e Regan, com Edgar e o Louco como juízes. Ele pergunta:

Em seguida, deixe-os anatomizar Regan. Veja o que floresce em seu coração. Existe alguma causa na natureza que torna esses corações duros?

Lear aqui busca um exame científico e objetivo do que torna os corações duros. Ele percorreu um longo caminho. Mais tarde na peça, quando Lear encontra o cego Gloucester perto de Dover, ele continua “desequilibrado”, comentando sobre a injustiça social:

Um homem pode ver como este mundo funciona sem olhos. Olhe com seus ouvidos. Veja como sua justiça se aplica a seu simples ladrão. Ouve bem: muda de lugar e, à mão-dândi, quem é a justiça, quem é o ladrão?

Através de roupas esfarrapadas, grandes vícios aparecem;

Túnicas e vestidos de pele escondem tudo. Placa pecado com ouro,
E a lança forte da justiça se quebra sem ferir.
Arme-o em trapos, uma palha de pigmeu o perfura.

Edgar também reconhece o novo entendimento profundo de Lear, observando: “Razão na loucura”. Este é um crescimento profundo da humanidade em Lear. A destruição de Lear significa a perda de sua nova compreensão da situação dos despossuídos, sua valorização da igualdade fundamental dos seres humanos, a perda de sua nova humanidade. Isso torna sua morte trágica.

Goneril, Regan, Edmund e Cornwall são os maquiavélicos da geração mais jovem interessados ​​nesta peça. É claro para o público desde o início que eles são adeptos do engano. No entanto, o quão desumanos eles são é revelado apenas em suas ações ao longo do tempo. Em muitos aspectos, eles parecem bastante modernos para nós em seu pensamento e ação. Afeto genuíno, honestidade e lealdade nada significam para eles; o ganho pessoal é tudo, mesmo que custe a dignidade e a vida dos outros.

Cordelia e Edgar são estabelecidos como personagens independentes e leais (Edgar depois de ser inicialmente enganado pelo irmão maquiavélico), dispostos a sacrificar suas vidas pela justiça. Cordelia e Edgar personificam a tradição do humanismo renascentista; eles são sábios, honestos e leais e têm um senso do bem comum. Embora Cordelia morra como resultado das maquinações de Edmund, Edgar, que é proclamado rei por Albany, jura governar em seu espírito.

Um tema importante nesta peça é o choque cataclísmico das ordens sociais: o velho monarca feudal e absoluto é privado de seu status e poder reais, sua dignidade, seu direito à casa e ao lar, por suas filhas mais velhas, a nova geração maquiavélica. Ao lado do novo poder perigoso, na verdade assassino, existem forças humanistas que estão em posição de liderar a sociedade de uma forma inclusiva, honesta e humana.

Nesta peça, como em Hamlet e Macbeth, Shakespeare traz à tona a questão do que constitui um bom líder ou rei. Esses líderes devem ser, acima de tudo, honestos e sábios e devem agir no interesse do bem comum. Bons líderes devem estar dispostos a sacrificar suas vidas na derrota das forças do mal.

Lear, o rei ungido, é conduzido a um espaço fora desta nova sociedade. Neste momento, ele compartilha sua vida com os miseráveis ​​nus de seu reino, reconhece e afirma sua humanidade comum. Isso, por sua vez, o faz perceber a enorme desigualdade social e corrupção em seu reino, erros pelos quais ele é responsável. Em última análise, sua experiência o leva a compreender que somente uma distribuição justa da riqueza pode remediar isso.

Todos os párias no pântano chegam a um entendimento de que as coisas estão erradas na Inglaterra. Todos eles descrevem a corrupção, a ignorância dos poderosos e a indiferença para com os pobres. Todos eles vislumbram a possibilidade de um tipo diferente de sociedade, na qual, como diz o Louco, o mundo será posto de pé. Esse tema de uma utopia, do que poderia ser, é inerente aos temas centrais da peça.

Shakespeare ainda é relevante hoje. Suas peças não tratam de alguma nebulosa condição humana universal – imóvel e imutável. Suas tragédias estão enraizadas na história, no capitalismo inicial. São sobre o seu tempo e, portanto, sobre o nosso tempo.

Em uma expressão de seu novo lugar histórico no início do século XVII na Grã-Bretanha, a burguesia desenvolveu uma lógica tanto humanista quanto maquiavélica. Esses são os dois lados da mesma sociedade, seu potencial para uma direção utópica e totalitária. Nas tragédias, ambos os potenciais são colocados em cena, assim como personagens presos entre eles. Curiosamente, embora vejamos vários maquiavélicos “puros”, poucos personagens são considerados príncipes ou princesas cristãos “puros”, nos termos de Erasmo; exemplos podem ser o rei Eduardo I em Macbeth ou mesmo Cordelia em Rei Lear. Esses personagens costumam estar em segundo plano, como uma bússola moral.

Em vez disso, Shakespeare encontra a imagem renascentista idealizada da humanidade espalhada entre várias pessoas. O potencial humano que muitos de seus personagens mostram se combina em uma visão futura de uma ordem social compatível com as necessidades da humanidade e, portanto, aponta para o futuro da humanidade. Nesse sentido, os personagens positivos de Shakespeare são de seu tempo e também nasceram antes de seu tempo em termos de potencial.

Os maquiavélicos representam o maior perigo para o bem comum. São descritos como perigosos e assassinos. Em cada caso, sua desumanidade causa a queda do herói trágico. O otimismo histórico de Shakespeare no início da era em que ainda vivemos permite que ele ponha fim às suas tragédias com a destruição dos maquiavélicos.

Ao revelar a natureza da época, Shakespeare nos alerta para os perigos. Ele aponta quem é o inimigo da humanidade e quem luta para preservá-la. Nesse sentido, Shakespeare não é apenas de interesse histórico, ele tem algo valioso a contribuir quando pensamos nos tempos que vivemos agora e no nosso futuro.

Rei Lear leva a compreensão dos coveiros sobre a igualdade humana, em Hamlet, a um nível diferente. A nudez literal de Lear na charneca marca uma visão incomparável da natureza humana comum e da identificação com os mais pobres dos pobres. Lear descobre a dignidade humana quando é despojado de tudo.

No mundo de hoje, a situação do precariado e dos refugiados se aproxima do que Shakespeare estava ilustrando. O reconhecimento de Lear da dignidade humana, da injustiça social e da necessidade de uma distribuição igualitária da riqueza não perdeu nada de sua urgência. Ao apresentar ao público a própria essência de seu tempo, e, portanto, o nosso, Shakespeare mostra como ele pode e deve mudar. É isso que torna suas jogadas tão importantes para nós agora.

Fonte: “Culture Matters”;

Tradução: José Carlos Ruy


(*) Jenny Farrell, nascida em Berlin, vive na Irlanda dese 1985; é professora no Galway Mayo Institute of Technology, estuda poesia irlandesa, inglesa e a obra de William Shakespeare. Escreve para “Culture Matters” e “Socialist Voice”, órgão do Partido Comunista da Irlanda. Farrell é amiga e colaboradora do Vermelho em Dublin e autora de “Fear Not Shakespeare’s Tragedies. A Comprehensive Introduction.” (“Sem medo das tragédias de Shakespeare. Uma introdução abrangente”)(Nuascéalta, 2016).

AUTOR

Jenny Farrell

Nascida em Berlim, vive na Irlanda desde 1985. É professora no Galway Mayo Institute of Technology, especialista em poesia irlandesa e inglesa, bem como na obra de William Shakespeare. Escreve para Culture Matters e Socialist Voice, órgão do Partido Comunista da Irlanda. É amiga e colaboradora do Vermelho em Dublin.

in  Marx, Shakespeare, Rei Lear e o precariado moderno

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Shakespeare - Monólogo de António no funeral de Julio César

* William Shakespeare

Antonio: Amigos, romanos, compatriotas, escuchadme: he venido a enterrar a César, no a ensalzarlo. El mal que hacen los hombres les sobrevive; el bien suele quedar sepultado con sus huesos. Que así ocurra con César.
Bruto os ha dicho que César era ambicioso: si lo fue, era la suya una falta grave, y gravemente la ha pagado.
Por la benevolencia de Bruto y de los demás, pues Bruto es un hombre de honor, como lo son todos, he venido a hablar en el funeral de César. Fue mi amigo, fiel y justo conmigo; pero Bruto dice que era ambicioso. Bruto es un hombre honorable. Trajo a Roma muchos prisioneros de guerra, cuyos rescates llenaron el tesoro público. ¿Puede verse en esto la ambición de César? Cuando el pobre lloró, César lo consoló. La ambición suele estar hecha de una aleación más dura. Pero Bruto dice que era ambicioso y Bruto es un hombre de honor.
Todos visteis que, en las Lupercales, le ofrecí tres veces una corona real, y tres veces la rechazó. ¿Eso era ambición? Pero Bruto dice que era ambicioso y es indudable que Bruto es un hombre de honor.
No hablo para desmentir lo que Bruto dijo, sino que estoy aquí para decir lo que sé. Todos le amasteis alguna vez, y no sin razón. ¿Que razón, entonces, os impide ahora hacerle el duelo? ¡Ay, raciocinio te has refugiado entre las bestias, y los hombres han perdido la razón!... Perdonadme. Mi corazón está ahí, en esos despojos fúnebres, con César, y he de detenerme hasta que vuelva en mí...
Primer ciudadano: Creo que hay mucha sabiduría en lo que dice
Segundo ciudadano: Si te paras a pensarlo, César cometió un gran error
Tercer ciudadano: ¿Ah, si? Me temo que alguien peor ocupará su lugar.
Cuarto ciudadano: ¿Le has prestado atención? No creo que él quisiera tomar la corona. Y por lo tanto, no era un ambicioso.
Primer ciudadano: Y si se descubriera que lo fue… algunos lo soportaríamos.
Segundo ciudadano: Pobrecillo, sus ojos están rojos como el fuego de llorar…
Tercer ciudadano: No hay nadie más noble en Roma que Antonio.
Cuarto ciudadano: Préstale atención, que empieza a hablar otra vez.
Antonio: Ayer la palabra de César hubiera prevalecido contra el mundo. Ahora yace ahí y nadie hay lo suficientemente humilde como para reverenciarlo. ¡Oh, señores! Si tuviera el propósito de excitar a vuestras mentes y vuestros corazones al motín y a la cólera, sería injusto con Bruto y con Casio, quienes, como todos sabéis, son hombres de honor. No quiero ser injusto con ellos. Prefiero serlo con el muerto, conmigo y con vosotros, antes que con esos hombres tan honorables! Pero aquí hay un pergamino con el sello de César. Lo encontré en su gabinete. Es su testamento. Si se hiciera público este testamento que, perdonadme, no tengo intención de leer, irían a besar las heridas de César muerto y a empapar sus pañuelos en su sagrada sangre. Sí. Suplicarían un cabello suyo como reliquia, y al morir lo mencionaría en su testamento, como un rico legado a su posteridad!
Cuarto ciudadano: Queremos escuchar el testamento. Léelo, Marco Antonio
Todos los ciudadanos: ¡El testamento!. ¡El testamento! Queremos escuchar el testamento del César.
Antonio: Tened paciencia, amigos. No debo leerlo. No es conveniente que sepáis hasta que extremo os amó César. No estáis hechos de madera, no estáis hechos de piedra, sois hombres, y, como hombres, si oís el testamento de César os vais a enfurecer, os vais a volver locos. No es bueno que sepáis que sois sus herederos, pues si lo supierais, podría ocurrir cualquier cosa.
Cuarto ciudadano: Lee el testamento. Queremos escucharlo, Antonio: debes leernos el testamento, el testamento de Cesar.
Antonio: ¿Queréis tener paciencia? ¿Queréis esperar un momento? He ido demasiado lejos en deciros esto. Temo agraviar a los honorables hombres cuyos puñales traspasaron a César. ¡Lo temo!
Cuarto ciudadano: ¡Esos hombres honorables son unos traidores!
Todos los ciudadanos:¡El testamento! ¡El testamento!
Segundo ciudadano: ¡Son unos miserables asesinos! ¡El testamento! ¡Lee el testamento!
Antonio: ¿Me obligáis a que lea el testamento? En ese caso, formad círculo en torno al cadáver de César, y dejadme mostraros al que hizo el testamento. ¿Bajo? ¿Me dais vuestro permiso?
Todos los ciudadanos: ¡Baja! Segundo ciudadano: ¡Baja!
Tercer ciudadano: ¡Tienes permiso!
Cuarto ciudadano: Acercaos, haced un círculo.
Primer ciudadano: Haced sitio al cadáver.
Segundo ciudadano: Haced sitio al noble Antonio.
Antonio: ¡No me empujéis! ¡Alejaos!
Todos: ¡Atrás, atrás!
Antonio: Si tenéis lágrimas, preparaos a derramarlas. Todos conocéis este manto. Recuerdo la primera vez que César se lo puso. Era una tarde de verano, en su tienda, el día que venció a los nervios. ¡Mirad: por aquí penetró el puñal de Casio! ¡Ved que brecha abrió el envidioso Casca! ¡Por esta otra le apuñaló su muy amado Bruto! Y al retirar su maldito acero, observad como la sangre de César lo siguió, como si abriera de par en par para cerciorarse si Bruto, malignamente, la hubiera llamado. Porque Bruto, como sabéis, era el ángel de César. ¡Juzgad, oh dioses, con que ternura le amaba César! ¡Ese fue el golpe más cruel de todos, porque cuando el noble César vio que él lo apuñalaba, la ingratitud, más fuerte que las armas de los traidores, lo aniquiló completamente. Entonces estalló su poderoso corazón, y, cubriéndose el rostro con el manto, el gran César cayó a los pies de la estatua de Pompeyo, al pie de la cual se desangró... ¡Oh qué funesta caída, conciudadanos! En aquel momento, yo, y vosotros, y todos, caímos, mientras la sangrienta traición nos sumergía. Ahora lloráis, y me doy cuenta que empezáis a sentir piedad. Esas lágrimas son generosas. Almas compasivas: ¿por qué lloráis, si sólo habéis visto la desgarrada túnica de César?
Mirad aquí. Aquí está, desfigurado, como veis, por los traidores.
Primer ciudadano: ¡Penoso espectáculo!
Segundo ciudadano: ¡Ay, noble César!
Tercer ciudadano: ¡Funesto día!
Cuarto ciudadano: ¡Traidores! ¡Miserables!
Primer ciudadano: ¡Sangrienta visión!
Segundo ciudadano: ¡Queremos venganza!
Todos: ¡Venganza! ¡Juntos! Perseguidlos, quemadlos, matadlos, degolladlos, no dejar un traidor vivo!
Antonio: ¡Conteneos, ciudadanos!
Primer ciudadano: ¡Calma! ¡Escuchemos al noble Antonio!
Segundo ciudadano: Lo escucharemos, lo seguiremos y moriremos por él
 Antonio: Amigos, queridos amigos: que no sea yo quien os empuje al motín. Los que han consumado esta acción son hombres dignos. Desconozco qué secretos agravios tenían para hacer lo que hicieron. Ellos son sabios y honorables, y no dudo que os darán razones. No he venido, amigos, a excitar vuestras pasiones. Yo no soy orador como Bruto, sino, como todos sabéis, un hombre franco y sencillo, que quería a mi amigo, y eso lo saben muy bien los que me permitieron hablar de él en público. Porque no tengo ni talento, ni elocuencia, ni mérito, ni estilo, ni ademanes, ni el poder de la oratoria para enardecer la sangre de los hombres. Hablo llanamente y sólo digo lo que vosotros mismos sabéis. Os muestro las heridas del amado César, pobres, pobres bocas mudas, y les pido que ellas hablen por mí. Pues si yo fuera Bruto, y Bruto Antonio, ese Antonio exasperaría vuestras almas y pondría una lengua en cada herida de César capaz de conmover y amotinar los cimientos de Roma.
Todos: Nos amotinaremos.
Primer ciudadano: ¡Quemaremos la casa de Bruto!
Tercer ciudadano: ¡Vamos, pues, persigamos a los conspiradores!
Antonio: Escuchadme, ciudadanos. Escuchadme lo que tengo que decir.
Todos: ¡Alto! Escuchemos al noble Antonio.
Antonio: ¡Pero, amigos, no sabéis lo que vais a hacer! ¿Qué ha hecho César para merecer vuestro afecto? No lo sabéis. Yo os lo diré. Habéis olvidado el testamento de que os hablé. Todos: ¡Es verdad, el testamento! Esperemos a oír el testamento.
Antonio: Aquí está, con el sello de César. A todos y cada uno de los ciudadanos de Roma, lega setenta y cinco dracmas.
Ciudadano segundo: ¡Noble César! ¡Vengaremos su muerte!
Tercer ciudadano: ¡Oh, magnánimo César!
Antonio: Tened paciencia y escuchadme:
Todos: ¡Alto!
Antonio: Lega, además, todos sus paseos, sus quintas particulares y sus jardines, recién plantados a este lado del Tíber. Los deja a perpetuidad a vosotros y a vuestros herederos, como parques públicos, para que os paseéis y recreéis. ¡Éste sí que era un César! ¿Cuando tendréis otro como él?

http://dramadromo.blogspot.com/2008/09/deberes.html

quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Valdemar Cruz - XX - Nenhum homem decente lê sonetos de Shakespeare

O mundo à janela visto do Porto

* Valdemar Cruz

Acabam aqui estas crónicas. Retiro-me com palavras do autor dos autores. Aquele a quem meus olhos veem ungido pela genialidade absoluta

Numa longa conversa telefónica com Albuquerque Mendes, sugeria-me há dias o pintor, não sem alguma malícia, mas com muita graça, que aproveitasse o ocasional papel de cronista para, liberto das apertadas regras do jornalismo, dar largas à imaginação quando assumo o pérfido papel de “voyeur” e olho através da janela para a rua.

Seria tentador, pouco útil e nada comparável com os resultados da atitude de Ptolomeu I (305 a 282 antes da nossa era). Terá sido um dos maiores, mais interessantes e mais úteis “voyeurs” da História. Espreitava o fulgor cultural de Atenas com uma insolente inveja.

Soube, porém, transformar a cobiça num dos maiores e gloriosos projetos da antiguidade clássica. Quis fazer de Alexandria uma espécie de espelho da inalcançável Atenas. Criou o Museu de Alexandria e teceu uma estratégia de atração de todos os saberes. Soube, há mais de dois mil anos, criar uma antevisão do que viriam a ser os atuais centros de investigação e laboratórios de ideias.

Convidou todos os grande filósofos, cientistas, poetas e escritores da época. Por lá passaram o matemático Euclides, que formulou os teoremas da geometria; Erastótenes, que calculou o perímetro da Terra; Herófilo, pioneiro da anatomia; Arquimedes, inventor da hidrostática; Dionisio de Trácia, autor do primeiro tratado de gramática, além de muitos outros responsáveis por grandes revoluções teóricas, ou outras, como o rompimento do tabu da dissecação de cadáveres, fundamental para a evolução da medicina.

Como espaço central de todo aquele núcleo de sábios e pensadores reunidos numa mesma cidade, impunha-se a hoje mítica Biblioteca de Alexandria. Ptolomeu sonhava um espaço onde pudessem ser recolhidas as obras já produzidas em todas as culturas e línguas das diversas latitudes. Emissários foram enviados a todos os recantos do Império à procura dos papiros com o saber acumulado.

Seria uma antecipação da delirante e infinita “Biblioteca de Babel”, do conto de Jorge Luís Borges. Hipótese sonegada agora, com todas as bibliotecas públicas encerradas.

Salvam-nos as bibliotecas por cada um de nós construídas. A partir de hoje fecha-se esta janela. Acabam estas crónicas. O mundo continua lá fora. Cá dentro prossegue a viagem, sempre à descoberta de outros lugares e novas palavras escondidas nos livros da biblioteca da minha vida.

Retomarei a assumida e indecente atitude de “voyeur”, à procura de uma impossibilidade: o livro perfeito. Sei que jamais o encontrarei. Faz-se dessa procura o permanente desejo de leitura. E há tantos e tão bons escritores à espera de serem lidos.

É impossível nomeá-los. Reúno-os num só. Assim, e não obstante Mr. Richard Dalloway, marido da fascinante Mrs. Dalloway, criada por Virginia Woolf, dizer que nenhum homem decente deve ler os sonetos de William Shakespeare, retiro-me com palavras do autor dos autores. Aquele a quem meus olhos veem ungido pela genialidade absoluta.

É o soneto 30, na belíssima tradução de Ana Luísa Amaral, inserido na coletânea “31 Sonetos” de William Shakespeare, publicado pela Relógio D’Água:

Sempre que, debatendo no mais doce silêncio,
Convoco na memória tudo o que foi passado,
Suspiro pela ausência do que foi desejado
E assim gasto o meu tempo valioso em velhos prantos.

E os meus olhos se afogam, eu, que mal sei chorar,
Por amigos perdidos na morte sem idade,
E torno a lamentar amores antes sarados
E pranteio por tudo o que gastei do olhar.

Posso sofrer então por sofrimentos idos,
Contar de mágoa em mágoa, da forma mais dorida,
A minha triste história de queixas mais antigas

Cobrando, nova, a história, como nunca cobrada.
Mas quando, amigo meu, me vens ao pensamento
Recuperam-se as perdas e finda o sofrimento.

2020.04.20
https://expresso.pt/opiniao/2020-04-20-XX---Nenhum-homem-decente-le-sonetos-de-Shakespeare

quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Shakespeare's Sonnet-a-Day

*  Shakespeare

LXVII.

Ah! wherefore with infection should he live,
And with his presence grace impiety,
That sin by him advantage should achieve
And lace itself with his society?
Why should false painting imitate his cheek
And steal dead seeing of his living hue?
Why should poor beauty indirectly seek
Roses of shadow, since his rose is true?
Why should he live, now Nature bankrupt is,
Beggar'd of blood to blush through lively veins?
For she hath no exchequer now but his,
And, proud of many, lives upon his gains.
O, him she stores, to show what wealth she had
In days long since, before these last so bad.


http://sonnetaday.com/about.php

quarta-feira, 8 de junho de 2016

poemas sobre a amizade

* Vinícius de Moraes

Soneto do amigo

Enfim, depois de tanto erro passado 
Tantas retaliações, tanto perigo 
Eis que ressurge noutro o velho amigo 
Nunca perdido, sempre reencontrado.

É bom sentá-lo novamente ao lado 
Com olhos que contêm o olhar antigo 
Sempre comigo um pouco atribulado 
E como sempre singular comigo.

Um bicho igual a mim, simples e humano 
Sabendo se mover e comover 
E a disfarçar com o meu próprio engano.

O amigo: um ser que a vida não explica
Que só se vai ao ver outro nascer
E o espelho de minha alma multiplica...


* Mário  Quintana

DA DISCRIÇÃO

Não te abras com teu amigo
Que ele um outro amigo tem.
E o amigo do teu amigo
Possui amigos também...
 
Shakespeare
SONETO CV

Não chame o meu amor de Idolatria 
Nem de ídolo realce a quem eu amo, 
Pois todo o meu cantar a um só se alia,
E de uma só maneira eu o proclamo. 
É hoje e sempre o meu amor galante, 
Inalterável, em grande excelência; 
Por isso a minha rima é tão constante
A uma só coisa e exclui a diferença. 
'Beleza, Bem, Verdade', eis o que exprimo; 
'Beleza, Bem, Verdade', todo o acento; 
E em tal mudança está tudo o que primo, 
Em um, três temas, de amplo movimento. 
'Beleza, Bem, Verdade' sós, outrora; 
Num mesmo ser vivem juntos agora. 

Carlos Drummond de Andrade
Sociedade 

O homem disse para o amigo:
- Breve irei a tua casa
e levarei minha mulher.

O amigo enfeitou a casa
e quando o homem chegou com a mulher,
soltou uma dúzia de foguetes.

O homem comeu e bebeu.
A mulher bebeu e cantou.
Os dois dançaram.
O amigo estava muito satisfeito.

Quando foi a hora de sair,
o amigo disse para o homem:
- Breve irei a tua casa.
E apertou a mão dos dois.

No caminho o homem resmunga:
- Ora essa, era o que faltava.
E a mulher ajunta: - Que idiota.

- A casa é um ninho de pulgas.
- Reparaste o bife queimado ?
O piano ruim e a comida pouca.

E todas as quintas-feiras
eles voltavam à casa do amigo 
que ainda não pôde retribuir a visita.