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sexta-feira, 6 de março de 2026

Poemas de Rui Lage

* Ruy Lage


 

A CARTA NA MÃO

 

ao meu pai, Carlos

 

País perdido no regaço da palha

sob o peso da luz e do pão,

tenho-te escrito e aberto nas mãos,

tenho-te perto da vista e longe

cada vez mais do coração.

 

Sobre os joelhos o fruto seco da carta,

a nódoa de veneno deixada

pelos insectos, a invasão dos vermes,

as unhas imundas que feriram

a polpa, o caroço onde guardo

os sinos da manhã.

 

O pátio na carta aberta,

a casa remota, perdida

após montes e montes deitados

sobre o perfume das hortas,

o eco das minas bebendo em sossego

o pensamento, a lentidão dos animais

que perduram na curva dos caminhos.

 

Na carta aberta o cimo das escadas,

o céu tranquilo as mãos na cintura,

a súplica de pó no rosto que olha

pedindo a mão pequena

para a borda da saia,

o primeiro dia de escola

para o colo do regresso.

Mas se morrermos agora,

no pátio ou no deserto, quem dará conta

do país perdido?

 

Que me pede a carta nas mãos

cantando o país perdido?

Também aqui as cigarras cantam

mas estranhas aves amplificam

no tímpano sujo dos muros

o ar queimado da savana.

 

Que faço na terra do marfim?

Porque não há cravos

na pequena horta da prisão?

 

 

 

A CÉU ABERTO

 

Dizem que o Sr.João não se lava,

que em certas noites

dorme no monte junto ao cavalo;

que bebe muito e cai pela terra

em redondo o pensamento,

que a sua cama não tem lençóis

e que a suportam quatro tijolos;

que nunca lava as escadas

e que nunca lava a roupa

embora permaneça preso ao ribeiro

muito depois

de as mulheres terem partido.

 

Vejo

que a cova dos seus olhos

foi aberta num sítio

rodeado de terra por todos os lados.

 

As árvores, que se saiba,

não se lavam

e dormem ao relento

encostadas ao cavalo do estio

(se assim não fosse não amaria

o que já não seriam árvores).


O Arquivo de Renato Suttanna   https://www.arquivors.com/ruilage.htm

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Antologia ‘Poemas Portugueses’,

Você está em: Homepage / Francisco José Viegas / Notícia
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Correio da Manhã - 10 Dezembro 2009 - 00h30

Opinião

Blog

É hoje lançada em Lisboa a antologia ‘Poemas Portugueses’, organizada por Jorge Reis-Sá e Rui Lage (Porto Editora), com prefácio de Vasco Graça Moura e notas biográficas assinada por dezenas de autores.
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É um monumento de mais de duas mil páginas que percorre oito séculos de poesia e cujo índice conviria estar nas nossas escolas para consulta e divulgação. A poesia não vale grande coisa para estes dias – é uma espécie de sobressalto, de língua que vem da sombra para dar às coisas um nome flutuante. Não há grande coisa para dizer sobre a poesia. Devia ler--se. Para dentro ou em voz alta. Não que faça falta "à cidadania" ou "à sensibilidade". Às tantas, as pessoas viveriam melhor sem literatura – mas eu duvido. Faltar--lhes-ia um suplemento de beleza ou de devassidão.

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Francisco José Viegas, Escritor
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» COMENTÁRIOS no CM on line
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10 Dezembro 2009 - 18h53  | Zeferino Zacarias, Setúbal
A poesia é uma sinfonia de cores e de sons,uma alucinação deslumbrante que perpassa as janelas hiantes do vazio da alma 
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