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sábado, 17 de abril de 2021

Luís M. Faria - Meninos do lodo (Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes)

Livros

Meninos do lodo

Soeiro Pereira Gomes (1909-1949) escreveu seis livros, entre os quais dois de contos e um de crónicas. Foi resistente antifascista e dirigente do PCP D.R.

Uma altura em que a miséria e a desigualdade continuam a grassar pelo mundo é tão boa como qualquer outra para revisitar uma obra-chave do nosso neorrealismo. “Esteiros”, de Soeiro Pereira Gomes, faz 80 anos

TEXTO LUÍS M. FARIA

Para os filhos dos homens que nunca foram meninos.” A famosa dedicatória de “Esteiros”, o primeiro grande romance do neorrealismo português, é ao mesmo tempo triste e cheia de esperança. Triste, pela referência às crianças que não podiam viver como crianças — um espetáculo muito presente no Portugal de 1941, e concretamente em Alhandra, onde Soeiro Pereira Gomes tinha ido viver após um ano em Angola. Da sua janela, ele via as crianças a trabalhar no rio Tejo. O fabrico de tijolos implicava abrir canais (os chamados esteiros), extrair o lodo, cozer o tijolo no forno, retirá-lo ainda quente e pô-lo a secar, bem como atividades adjacentes, como o transporte do carvão que alimentava os fornos, e dos próprios tijolos... Ainda hoje estão vivos idosos que trabalharam nessa indústria em crianças — que, portanto, nunca foram meninos — e recordam as brutalidades a que a pobreza familiar os sujeitava. Da sua janela, Pereira Gomes assistia a essa realidade em direto, e sentiu que não podia deixar de escrever um romance que a perpetuasse na memória. É o caso flagrante de uma história que se impõe a um escritor, a tal ponto que ele não precisa de lhe acrescentar nada, exceto o seu talento.

ESTEIROS

Soeiro Pereira Gomes

Quetzal, 2021, 253 págs., €16,60

Romance

O lado esperançoso da dedicatória tem a ver com a remissão para uma geração futura. Ao dedicar-lhe o livro, o autor presume que ela já estará em condições de o apreciar. Portanto, já terá ido à escola o número de anos suficientes para aprender a ler livros. Uma esperança natural num homem que era membro sénior do PCP, um partido empenhado na transformação social da qual a literatura devia ser um instrumento.
Os membros do grupo de amigos que protagonizam “Esteiros” não têm mais do que o início da escola primária, quando o têm. Entre vários momentos em que o livro nos atinge emocionalmente, um dos primeiros é quando João (um miúdo alcunhado Gaitinhas pela sua propensão a imitar os instrumentos musicais do coreto), filho de um pai que se ausentou para perseguir uma ideia bem intencionada mas irrealista e de uma mãe que está a morrer, recebe a notícia de que vai ter de renunciar ao seu sonho de continuar os estudos, para ir trabalhar. A partir daí, os encontros com o seu melhor amigo da escola, filho do grande proprietário local, tornam-se dolorosos, para não dizer impossíveis. Num texto que prima pela economia narrativa, Pereira Gomes consegue atribuir verdadeira individualidade a cada criança do grupo, sem sequer precisar de os descrever fisicamente. Uma suposição inevitável é que não teriam o ar saudável, bem alimentado e bem vestido em tempos visto numa reconstituição da RTP. Se João é o intelectual do grupo — o único que consegue contar até mil, portanto encarregado de contar o produto de roubos de fruta que os miúdos vão fazendo — Gineto é o líder, o miúdo rebelde que desafia a sociedade e recusa o seu destino marcado à nascença, acabando por não conseguir escapar aos castigos reservados para pessoas como ele. Os restantes incluem o Maquineta, um miúdo que sonha ir trabalhar nas máquinas da Fábrica Grande (que arruína o negócio do telhal onde laboram os miúdos), e Sagui, uma criança de rua que jamais conheceu os pais e não sabe o seu nome verdadeiro, ou sequer a idade que tem.

O estilo pode não ser perfeito, com lugares-comuns e ecos de sermão, mas nada disso incomoda, pois está sempre ao serviço da história e da sua dimensão psicológica

Andam todos pelo fim da infância/início da adolescência, ou seja, algures entre os dez e os doze, o que os predispõe para começar a desejar certo tipo de aventuras, incluindo a descoberta do sexo, numa existência que os levava a tornarem-se homens rapidamente, sem deixarem de pensar como crianças. A personagem da Doida, uma mulher com quem todos acabam envolvidos, podia ter sido uma criação de Fellini, num registo diferente. Aqui é mais um elemento de denúncia dos efeitos da miséria, ou seja, mais um pedaço da tragédia.
Numa obra que assume um propósito de denúncia social, o risco evidente é que a narrativa assuma um carácter quase automático, caricatural. Embora haja elementos disso nalguns personagens de “Esteiros” — em particular o homem rico que diz à mãe desesperada do Gaitinhas que já há doutores a mais e fazem falta operários, portanto ele não tem razão nenhuma para ir estudar —, de um modo geral mesmo essas passagens são convincentes. Pessoas em posições de poder e privilégio de facto falavam assim, e continuam a falar: qual turistas que acorrem de longe a contemplar inundações assassinas em lugares de miséria e dizem atrocidades como as que Pereira Gomes põe na boca dalguns desses espécimes. Muitos de nós, numa altura ou noutra, já teremos emitido frases parecidas a propósito de misérias que sentimos como distantes, até sem dar por isso. “Esteiros” não retira a sua força dessas caricaturas da realidade, ou realidades caricaturais, mas da verdade narrativa e da qualidade da invenção em tudo o resto. O estilo pode não ser perfeito, com lugares-comuns frequentes (“a sinfonia lúgubre do vento”, “o nevoeiro, cerrado como a noite”, etc.) e ecos de sermão (“o lar falto de pão e o telhal farto de trabalhos”), mas nada disso incomoda, pois está sempre ao serviço da história e da sua dimensão psicológica, e de qualquer modo é sintético. O importante são outras coisas. Nas quatro partes do livro, correspondentes às estações do ano, surge um panorama de humanidade muito rico, com espaço também para a alegria e a fantasia, por exemplo quando o grupo vai ao cinema: “Os rapazes fizeram comentários soezes e escolheram melhor lugar. Gaitinhas escondeu-se atrás deles, para que o Arturinho, empertigado no camarote, não lhe visse os rasgões do fato. Teve desejos de lhe desmanchar o cabelo nédio com uma das bolas de papel que Gineto atirava da galeria. Mas as luzes extinguiram-se, e Tim McCoy foi recebido com salvas de palmas. Voltou o sussurro, como ladainha de fiéis. Todos compreendiam agora por que o cowboy arrebatara aos bandidos a menina da diligência. Gineto lembrou-se de Rosete e os companheiros desejaram a Doida. De vez em quando, estrugiam palmas e berros de entusiasmo, que os garotos da rua ouviam lá fora, atrás da porta fechada. (...) Aproximava-se o momento culminante em que o herói iria defrontar o chefe dos bandoleiros. Os rapazes mexiam-se nas cadeiras, sustinham a respiração. Gaitinhas roía as unhas, e, sem saber porquê, tomava partido pelos bandidos.” Mesmo na mais sacrificada das infâncias, há moedas de circulação universal que conservam o seu valor.

 https://leitor.expresso.pt/semanario/semanario2529/html/revista-e/culturas/livros/meninos-do-lodo


quinta-feira, 24 de março de 2016

Domingos Lobo Esteiros, 75 anos depois


  • Domingos Lobo
Quando o real se transformou
em arte socialista




1941, ano da publicação de Esteiros, de Soeiro Pereira Gomes, é, apesar da desregulação social e política que a guerra estabelece, e da opressão generalizada, um período de alguma agitação no meio político e literário, tanto pelo agudizar das contradições que o conflito vem instalar nas relações entre as diversas classes sociais, manifestando-se de forma mais incisiva nas zonas industriais e de latifúndio, quer pela ameaça real de a guerra se expandir para Leste (a Alemanha preparava-se para invadir a URSS), quer pela contínua resistência que as forças progressistas travam contra o fascismo luso, a partir de acções de massas, na denúncia do agravar da repressão, do desemprego, das condições de vida e de trabalho e o flagelo da fome que atingia sobretudo as classes economicamente mais frágeis.


Os alemães, fazendo pressão sobre o governo de Salazar, tendo por causa o volfrâmio, torpedeiam o cargueiro Ganda e os vapores Corte Real e Cassequel; com mais subtileza, mas prefigurando a mesma intenção de cerco e influência, a Universidade de Oxford, obedecendo a uma «sugestão» do governo inglês, atribui a Salazar o título de doutor honoris causa; há greves de estudantes e dos operários têxteis da Covilhã. O País sofre a acção de um ciclone devastador.


No campo da acção e intervenção cultural, nesse ano de 1941, Alves Redol publica Marés, Fernando Namora Terra, Bento de Jesus Caraça Conceitos Fundamentais da Matemática, João José Cochofel Sol de Agosto, Joaquim Namorado Aviso à Navegação, Manuel da Fonseca Planície, Mário Dionísio Poemas e Sidónio Muralha Beco; inicia-se a publicação dos cadernos de poesia Novo Cancioneiro. Livros que vêm contribuir, face ao comprometimento social que expressam, para uma mais apurada, interventiva e abrangente reflexão sobre as complexidades relacionais entre a arte literária e o real avassalador desses dias de brasa; o mundo objectivo do trabalho e da exploração que o envolve, fazendo com que essa relação se torne mais clara, dialéctica e consciente, impondo uma visão humanista do mundo e uma linguagem que se opunha aos desvarios modernistas de Marinetti e D’Annúnzio, que os escribas salazarentos de serviço adoptariam como modelo de intervenção literária e filosófica (António Ferro, Augusto de Castro, Fernanda de Castro, João Gaspar Simões, António Quadros, Álvaro Ribeiro, Orlando Vitorino, etc.), e às confusões estético/conservadoras dos presencistas, que correspondiam «a um certo ambiente de cepticismo quanto aos ideais oitocentistas e republicanos de progresso que se relaciona com o colapso do liberalismo em 1926, e por isso os presencistas aspiram, em geral, a uma literatura e uma arte desarticuladas, se não mesmo alheadas, de qualquer doutrina directamente interventora».1 Pressupostos teóricos, estéticos e políticos em tudo opostos aos do neo-realismo.

O aparecimento de Esteiros, edição que exibia uma belíssima e expressiva capa desenhada por Álvaro Cunhal, vem aprofundar o caminho de descoberta e denúncia social, iniciado com Gaibéus, de Redol, incidindo a obra de Soeiro e a sua especulação político-social sobre os universos da exploração do trabalho infantil, cujas coordenadas mais abjectas escapavam às consciências burguesas e a grande parte da intelectualidade urbana.


Soeiro Pereira Gomes introduz no discurso literário deste exemplar romance, dados sociológicos novos, uma linguagem sensível e arguta que mergulha fundo nesse nicho de desprezível exploração, dado que exercida sobre os mais indefesos elementos da base social, levando o leitor a tomar consciência dessa realidade, da vida agreste desse núcleo sobre o qual o fascismo exercia toda a sua inumana brutalidade, exibindo sem disfarce a infâmia ideológica e funcional que o estruturava – essas vulneráveis ilhas humanas, ainda não inscrito no corpo diegético do neo-realismo: o mundo da infância e da pré-adolescência, da miséria que invade, desde o berço, esse território que queríamos de descoberta e construção do ser, invadido de forma violenta pela ganância que vai destruindo sonhos, capacidades, modos outros de crescimento e realização pessoal e colectiva; um mundo do desenrasca, da luta quotidiana por um naco de pão para enganar a maligna, do trabalho escravo nos telhais, da rebeldia, da ternura, do companheirismo, da aventura e da transgressão – esse universo épico, que o verbo dorido e sensitivo de Soeiro Pereira Gomes trata e percorre com objectividade e plena maturidade formal e sintáctica; a expressiva utilização do linguajar das gentes da beira Tejo, doseando de modo exemplar o drama e o jocoso popular com a agudeza de análise das contradições da burguesia, o gradual cinismo que os títeres em presença estabelecem entre si, Castro vs. Zé Vicente, para melhor definirem os campos da usura e o espaço que a ambos cabe na refrega da cupidez. Castro usando, sabido e matreiro, controlada impudência; Zé Vicente, exercendo sem rebuços a violência física e económica sobre os assalariados, que dependiam da parca jorna, ganha de sol a sol nos telhais, para iludir a fome: «Se eu pudesse baixar, um escudo que fosse, àquela gente...», pensa Zé Vicente, a pressentir-se já apeado da pileca e da pose afidalgada de outrora – intuindo a ameaça que a Fábrica Grande representa para os seus modos de vida e de exploração. Zé Vicente, espoliado do espaço em que assenta o seu telhal, regressará à condição de pobreza e à proletarização; Castro, vendo partir para a Fábrica os braços que tanta falta lhe fazem nos campos, pressente que outros tempos virão, que o progresso social que a Fábrica representa, começará a invadir o seu espaço, que o medo, a cobiça, o seu sorriso enigmático e cínico, e o seu modo de exploração feudal poderão ter os dias contados.2


Uma galeria mínima, mas exemplar, de senhores deste microcosmos da margem Norte do Tejo, que Soeiro Pereira Gomes caracteriza de forma acutilante, juntando-lhe um bando de subalternos menores que contribuem, sujando as mãos e traindo a classe a que, por origem, pertencem, para que a exploração perdure e se torne norma: mestre Zarolho, o Cabo de Mar, os rendeiros da Quinta Alta e a GNR, braço armado do poder fascista.


Soeiro cria, com Esteiros, um fresco denunciador da sordidez que o fascismo luso exibia nas suas invisíveis margens (onde os tiques da ignomínia foram mais profundos e duradouros), na análise que constrói, ancorado nos traços significantes da matéria social e histórica que dominava a Europa – o feroz capitalismo ungido no terror –, no modo como elabora, a partir das personagens principais (Gineto, Gaitinhas, Maquineta, Sagui) a representação realista e modelar desse período, das circunstâncias atípicas em que a sua acção (partindo do particular para o colectivo) nele se desenvolve, marcando as componentes teóricas que condicionaram o desenvolvimento do País nessa fase histórica (1930/40), fazendo-o através do narrador e da coerência ideológica com que este intervém na diegese, num permanente e eficaz registo crítico, autodiegético, expondo dialecticamente o conflitual evoluir do discurso literário. Soeiro é, em Esteiros e, mais tarde em Engrenagem, um intelectual, como o definia Gramsci, que conseguiu juntar teoria e prática, transformando a sua escrita em processo histórico real.

Inventariando as condições de vida e de trabalho de uma comunidade, a dos putos dos telhais e dos seus progenitores, em circunstâncias específicas (a da aprendizagem, por métodos extremos, do modo de exploração capitalista), Soeiro Pereira Gomes diz-nos da luta que é necessário travar contra o poder burguês, a sua visão do mundo, desse modo estabelecendo parâmetros para a superação dos cercos impostos por uma política de terror, despótica e discricionária que lhe dá guarida, suporte e protecção.


Nas determinantes estéticas e conceptuais de Esteiros, para além do preclaro alinhamento com a corrente neo-realista sendo, na produção literária do movimento, uma das suas obras de referência, e do qual Soeiro é um dos principais obreiros, revela-se a determinante eficácia com que consegue superar as contradições herdadas do realismo burguês, refazendo alguns tiques estéticos do naturalismo, introduzindo no discurso um vigoroso e assertivo exercício de análise social; as circunstâncias e consequências das contradições sociais da burguesia, clarificando opostas concepções da vida e do mundo, os critérios de classe que se expressam através dos códigos da linguagem (o filho do Castro é Arturinho ou o menino, o Gaitinhas, que com ele brinca, é apenas o João ou o rapaz) recorrendo aos métodos analíticos do marxismo3 e aos princípios filosóficos e humanistas do realismo socialista, que Soeiro, com hábil sageza, inscreve no corpo textual.


Também os afectos, a cumplicidade, as condições económico-sociais como entrave a que os sonhos se cumpram, mesmo os sonhos mais ingénuos que se derretem pelos declives da impotência, atravessada de raiva e de ternura: – E o teu pai? – perguntou Gineto.


O filho de Madalena olhou a névoa que ensombrava o horizonte...


– Está muito longe. – E a medo, como se revelasse um crime: – Queria que eu fosse doutor.


A voz de Gaitinhas era de lágrimas cristalizadas. E Gineto teve pena que ser doutor não fosse coisa que se roubasse.

«A consciência do homem não só reflecte o mundo objectivo, mas cria-o»4 É a partir desta consciência, da encenação do real e das suas circunstâncias, as atmosferas e as tipicidades de um determinado tempo e lugar e da ideologia que lhe dá suporte – em Esteiros a componente estético/ideológica tem uma das suas expressões mais representativas –, que Soeiro parte para a tarefa de criar esse universo em que pode espelhar a sua particular reflexão sobre o mundo e idealizá-lo melhor e mais justo, desenhando nos sonhos de Gaitinhas-cantor, que irá pelo mundo à procura do pai, esse supremo desígnio: voltar, dar liberdade ao Gineto e mandar para a escola aquela malta dos telhais. Ou seja, encenando a matriz social em que as necessidades materiais vivam a par com as necessidades lúdicas, físicas e culturais, que permitam aos oprimidos libertar-se do jugo dos opressores. Soeiro tem plena consciência do papel activo e crítico que cabe ao escritor que quer agir sobre o real como contributo para a tarefa comum de transformar a vida.


Os grandes escritores do neo-realismo, ou a ele ligados por laços de companheirismo militante, inscreveram em alguns textos a condição social dos jovens, a partir das suas raízes de classe, elo mais fraco na cadeia de exploração capitalista, fazendo-o com ductilidade, lirismo, expressivo afecto. Os meninos pobres ou, como as sacrossantas almas neoliberais propagam, useiras e vezeiras em criar módulos semânticos que diluam a realidade, filhos de famílias desfavorecidas, como se a ganância capitalista fosse um jogo de roleta e a pobreza um contínuo jogo de azar, percorrem, com maior ou menor grau de intervenção crítica dos seus autores, alguns títulos do melhor que a literatura em português produziu no século XX: Capitães da Areia, de Jorge Amado; Bonecos de Luz, de Romeu Correia; Constantino, Guardador de Vacas e de Sonhos, de Alves Redol e Aventuras de João Sem Medo, de José Gomes Ferreira.


Em Micropaisagem, do livro O Aprendiz de Feiticeiro, Carlos de Oliveira deixa-nos este impressivo testemunho: A paisagem da infância não é nenhum paraíso perdido mas a pobreza, a nudez, a carência de quase tudo. É desta certeza, desta nudez e da carência de quase tudo, da situação social dos putos da beira Tejo, que o autor de Contos Vermelhosnos diz com extrema serenidade discursiva, mas atingindo o cerne do sistema que conduz a este estado de coisas – daí a sua recorrente actualidade.


Soeiro traz para a literatura portuguesa, inscrevendo-a na modernidade, um modo singular de abordagem dos fenómenos estruturais da usura capitalista, um estilo que dilui no discurso ficcional os propósitos sócio-políticos que a determinam, fazendo-o com hábil sagacidade, com evidente optimismo, não escamoteando os aspectos sórdidos da realidade que descreve, penetrando esse universo cercado dos homens, mulheres e crianças que do rio e suas margens tiram o parco sustento, abordando com pertinaz sensibilidade as linhas definidoras de um onirismo infantil e da prática adulta da sobrevivência.


Soeiro Pereira Gomes traz para Esteiros problemas novos, que a estética de afirmação libertária amplia, que configuram a representação de agentes singulares, esse coro de meninos/homens, que actuam na trama romanesca como intérpretes de um período histórico imoral e violento: crianças sujeitas a escravidão de classe num tempo de terror. Os jovens protagonistas de Esteiros são heróis positivos, dado que vítimas de uma engrenagem social poderosa que eles, com a rebeldia dos verdes anos tentam, no modo ingénuo de fugir ao cerco, subverter com pequenas, marginais tropelias. Personagens que agem e respiram dentro do seu espaço e do seu meio social: o rio, os telhais, os becos e os casebres onde habitam, os pomares que assaltam, o lodo dos esteiros. Um mundo onde as suas pequenas espertezas de meninos não fariam eco, não fora o facto de terem nascido em condições adversas, de extrema pobreza, e num tempo injusto e, por essa circunstância, estarem vulneráveis, sujeitos a todas as formas de espoliação e cerco. É a análise fecunda, a arguta sensibilidade que implica ao descodificar a particularidade social e política que descreve, o modo narrativo, o lírico/épico como envolve no discurso este núcleo de homens e crianças, que vivem e lutam por sobreviver num mundo e num tempo que lhes é hostil, que torna Soeiro Pereira Gomes um dos autores mais relevantes do período intenso e estrutural do nosso neo-realismo, o seu dinâmico humanismo, na vertente do realismo dialéctico, trazendo a literatura, a sua voz ficcional, como mais tarde o fará Manuel Tiago, para o vasto território da luta de classes e das mais justas expectativas políticas e sociais do nosso povo.

Soeiro transporta para Esteiros alguns elementos definidores da arte realista, encenando no seu corpo discursivo uma análise objectiva, crítica e duríssima sobre o tempo histórico que ficciona; no rigor com que olha e descreve a realidade que percepciona, na linguagem que utiliza para expressar e combater a intolerância e a ignomínia, no modo sensitivo como percorre os quotidianos sofridos da malta dos telhais, seus desesperos e medos, os seus parcos dias de festa, na Feira, lugar de sonho e de respiração, o tempo breve da felicidade em que se tornam, por escassos momentos, de novo meninos fascinados pelas luzes do carrossel, pelos ruídos mágicos que envolvem o terreiro, pelos bolos ou pelos olhos solares da Rosete, e os dias sofridos no Telhal Grande, de sol a sol, descalços, pisando brasas e vertendo sangue, ao mando das vozes cavernícolas do Má-Cara e do Carraça: – Traz mais bolas, filho dum boi! Se vou aí, inté te borras todo; Langão!, Carreguem-lhe no peso.... É um olhar fecundo, humano, que o autor de Engrenagem verte sobre este mundo agreste, no modo seguro como estrutura este seu primeiro romance – Soeiro tinha 32 anos à data da sua publicação –, no apuro oficinal como a denúncia de um tempo social e de um regime político opressor nele se incorporam; nos sintagmas estilísticos, na abordagem esquemática do seu ordenamento fabular, na relação que estabelece entre a literatura e a realidade histórica – é já o realismo socialista, pontuado por uma hábil, inventiva voz lírica, que nesta obra-prima desponta.


Obra que devolve, como nenhuma outra, à nossa consciência colectiva, o tempo da rebeldia e da ternura, as falhas de carinho, o medo, o companheirismo, os traços de uma infância perdida na lama dos esteiros, o mágico-simbólico dos sonhos crepusculares, esse território oculto das crianças a quem roubaram os melhores anos da vida: o crescimento harmónico, a arte de brincar, de saber escrever as cartas de amor para as Rosetes que nos acasos da vida nos sobressaltam; compreender os mecanismos que fazem andar o mundo e proceder à sua paulatina aprendizagem. Gineto, Sagui, Malesso, Guedelhas, Maquineta, Coca, Gaitinhas, rapazes a descobrirem a vida, sós e aflitos, pelos caminhos cruzados do medo, da miséria, da violência dos mandantes, «Se não se calam, racho um!», o lado sórdido de um futuro pardo, minguado de horizontes: Gineto marinheiro, fugitivo dos telhais e dos açoites das sombras, salteador de laranjais, a quem o pai nem sonhar deixava; Gaitinhas que queria ser doutor e não pôde concluir a escola primária para ir trabalhar no Telhal Grande; Sangui que dormia na Capela Velha e brincava com o seu infortúnio para espantar o medo: «agora sou um santo»; a mulher que perdeu o filho nas cheias e continuava com os braços dobrados sobre o peito a engalhar o vento; a luz que de noite se acende no lugar onde as águas tragaram o Malesso; Maquineta que se quedava extasiado com o ruído das máquinas da Fábrica Grande, não sabendo que ela representava uma mais sofisticada forma de exploração; a ternura pela Doida e a sua colectiva, solidária defesa; o relógio de Maria do Bote, esse sonho antigo a desfazer-se nas mãos do agiota em troca de um naco de pão.


Mas há sempre, na literatura como na vida, cadinhos de sol, uma luz que se acende na noite: Gineto que espera, face encostada às grades da enxovia, o regresso à vida livre – afinal, foi preso por roubar laranjas, ou um pão, tanto faz. Sonha que o Gaitinhas, o Maquineta, o Sagui ou o Tom-Mix dos filmes, o virão libertar e ele possa, uma vez mais, ir à Feira e debruçar os olhos sedentos de ternura nos olhos da Rosete; Gineto sonha mas não sabe que Gaitinhas anda já pelo mundo em busca dessa estranha, misteriosa coisa que faz os homens maiores que a sua altura, e quando a encontrar é ele que virá libertá-lo e mandar para a escola aquela malta dos telhais – moços que parecem homens e nunca foram meninos.



Apoios:

Obras Completas de Soeiro Pereira Gomes – Publicações Europa-América/1972

Soeiro Pereira Gomes e o Futuro do Realismo em Portugal, de Álvaro Pina – Editorial Caminho/1977

Literatura e Luta de Classes, de Augusto da Costa Dias – Editorial Estampa/1975

Ilse Losa: Vida e Obra, de Ramiro Teixeira – AJHLP/2015

No Centenário do nascimento de Soeiro Pereira Gomes (2009), de Vítor viçoso, in Nova Síntese, nº.4



História da Lit. Portuguesa, de Óscar Lopes e António José Saraiva, pág. 1091, 8ª. edição/1975, Porto Editora

2 Redol traria a seu modo, estes medos (o da emancipação dos oprimidos face à opressão monarco-feudal exercida sobre eles) dos senhores da terra, os Relvas deste mundo, opondo o trabalho rural à esperança que a industrialização representava, para o romance Barranco de Cegos.

3 O conjunto das relações de produção constitui a estrutura económica da sociedade, a base concreta sobre a qual se ergue uma superestrutura jurídica e política e às quais correspondem formas de consciência social determinadas. O modo de produção da vida social condiciona, na sua generalidade, o processo da vida social, política e intelectual. Não é a consciência dos homens que determina o seu ser, é, inversamente o seu ser social que determina a sua consciência. In “Contribuição para a Crítica da Economia Política” Karl Marx

4 Lénine, Cadernos Filosóficos

http://avante.pt/pt/2208/temas/139581/

domingo, 29 de maio de 2011

Setúbal - Feira dedicada à leitura


SETÚBAL - MUNICÍPIO PARTICIPADO
Livros 27 de Maio de 2011

Milhares de títulos estão disponíveis, a preços atrativos, na Feira do Livro de Setúbal, inaugurada no dia 27 de maio na placa central da Avenida Luísa, onde fica até 19 de junho.
O espaço, instalado numa tenda com 300 metros quadrados, em frente da 1.ª Esquadra da PSP, vai receber ainda mais obras nos próximos dias, vendidas, muitas delas, com descontos que podem variar entre os 10 e os 50 por cento, nalguns casos mesmo para as mais recentes. E há sempre um “livro do dia” a preços especiais.
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Das histórias infantis e juvenis aos romances, passando pelos livros técnicos, principalmente de Direito e Psicologia, de tudo um pouco é possível encontrar neste certame, organizado numa parceria da Página a Página – Divulgação do Livro com a Câmara Municipal, a funcionar entre as 10h00 e as 22h00. Às sextas, sábados e vésperas de feriados, 
está aberto até as 23h00.
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O público tem ainda a oportunidade de apreciar uma exposição documental sobre a vida e obra do escritor e antifascista Soeiro Pereira Gomes, autor de “Esteiros”.
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“Temos uma boa expetativa. É importante que estas feiras estejam em locais de passagem porque normalmente são visitadas por pessoas que não frequentam livrarias. Não se vai à procura do livro, mas ‘choca-se’ com ele”, salienta Fátima Alves, da “Página a 
Ver também
.

Esteiros - Soeiro Pereira Gomes - ilustrações de Álvaro Cunhal

Página”.

terça-feira, 24 de maio de 2011

Esteiros - Soeiro Pereira Gomes - ilustrações de Álvaro Cunhal




TERÇA-FEIRA, 14 DE ABRIL DE 2009
Esteiros - Soeiro Pereira Gomes


Esteiros

"Para os filhos dos homens que nunca foram meninos, escrevi este livro."





Ilustrações de Álvaro Cunhal






Esteiros. Minúsculos canais, como dedos de mão espalmada, abertos na margem do Tejo. Dedos das mãos avaras dos telhais, que roubam nateiro às águas e vigores à malta. Mãos de lama que só o rio afaga.

O U T O N O





1


Fecharam os telhais. Com os prenúncios de outono, as primeiras chuvas encheram de frémito o lodaçal negro dos esteiros, e o vento agreste abriu buracos nos trapos dos garotos, num arrepio de águas e de corpos. Também sobre os fornos e engenhos perpassou lufada desoladora, que não deixava o fumo erguer-se para o alto. Que indústria como aquela queria vento, é certo; mas sol também. -- Vento para enxugar e sol para calcinar -- sentenciavam os mestres. Mas o sol andava baixo: não calcinava o tijolo, nem as carnes juvenis da malta.
Menos por isso que pela fraqueza das vendas, os patrões não quiseram arriscar mais dinheiro nas fornadas. Ano mau... Todos os anos se dizia o mesmo. Desde que apareceu a telha francesa, e o bloco de cimento levou tudo de mal a pior.
-- Indústria pobre, senhor Castro -- chorava-se o Zé Vicente ao pagar a renda do terreno. -- Indústria pobre... -- E era.
Desde os garotos maltrapilhos aos valadores que vinham de muito longe -- sete horas de comboio, a sonhar jornas impossíveis. Por isso, agora, o dia sete de Setembro passava despercebido, sem festa. Dantes, era sagrado. Recebia-se a féria pagava-se os fiados de três meses e festejava-se a despedida. Os moços queimavam o resto das energias na ornamentação do telhal; arranjavam instrumentos de lata e cega-regas; desfilavam em cortejo. E, enquanto o caniço verde dos esteiros ondulava no alto dos fornos, as canas secas dos foguetes subiam ao ceu. Patrõese mestres sorriam, seguros da conciliação; moços e valadores cantavam, ansiosos de melhor vida.
Bons tempos, aqueles! Os mestres ainda berravam, como dantes: -- Eh, gente! Vamos ligeiro, que esta fornadaé o resto. -- Mas a cadência dos assos não se alterava, porque o pessoal já sabia que ia pagar o descanso com sete meses de privações.
Assim ficaram as eiras desertas. Apenas no Telhal Grande havia ainda algumas dezenas de tijolos que o mestre mandara pôr em fio, por causa do tempo ruim. E mesmo esses, depressa iriam engrossar as arrumas, bem cobertas de telha, e mais volumosas que quaisquer duas moradias da malta dos telhais.
Ali se guardava o suor dum verão de fadigas, Vento e sol; fadigas e suor -- era o que os telhais queriam.

quinta-feira, 28 de outubro de 2010

Á lvaro Cubhal - dois extractos e dois desenhos



Sábado, 17 de Outubro de 2009


Um dia mais, um dia menos...


"(...) Nesse dia, como todos os dias, semana após semana, mês após mês, ano após ano, a vida decorreu no ritual de sempre.
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O silêncio da noite cotado pelos apitos da alvorada e o súbito expandir do barulho da movimentação geral da cadeia. O ruidoso e cadenciado abrir (umas atrás das outras) das fechaduras e ferrolhos das celas. O bater de tairocas dos faxinas circulando com os baldes dos despejos. O baque metálico dos baldes ao serem atirados para o chão de cimento. O fedor espalhando-se nas alas logo misturado e coberto pelo da creolina. Novos apitos, formatura, conto. A distribuição do café e do casqueiro. O deslocar em cortejo para as oficinas. De novo ferrolhos e fechaduras, agora com novo bater das portas e o isolar dos reclusos nas celas. Depois o amortecer dos ruídos e o alastrar do vazio da imensidão das alas, cortado apenas pelo bater desencontrado das tairocas e tamancos dos faxinas e o barulho de marteladas, da serra e de máquinas vindo das oficinas(...)"

Excerto de "A Estrela de Seis Pontas" de Manuel Tiago, Pseudónimo literário de Álvaro Cunhal
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Domingo, 30 de Agosto de 2009

Moços que parecem homens e nunca forma meninos

"(...) O telhal está silencioso e deserto, e o vento zune no caniço dos esteiros, negros como breu. No céu, nem uma estrela. As luzes mortiças dos saveiros, ao longe, adensam a noite.
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Mas o Gineto não tem medo. Já por duas vezes que atravessou o esteiro, com o lodo pelos joelhos, para ir roubar carvão da Fábrica Grande. No Largo da Vila já há armações para a Feira - e ele quer voltar a ver Rosete na barraca de tiro; quer comprar-lhe beijos com dinheiro que no telhal não chegou a juntar.
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Por isso, atravessa de novo o esteiro, agora cheio de água; depois rasteja e corre para junto do carvão, com que vai enchendo a saca, precipitadamente, atento aos ruídos e focos de luz. As máquinas, porém, abafam os passos dos guardas, confundidos com as trevas. Quando esboça a fuga, é tarde de mais, perante homens lestos e potentes como o Rex - o canzarrão da Quinta Alta.
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Preso e manietado, dorme no posto da Guarda Republicana, depois do interrogatório sumário. Dorme?... Não: Congemina fugas e pensa que os companheiros o virão salvar, como naquela noite de temporal em que o Boa Sorte naufragou. Não permitirão que o chefe permaneça ali, longe das ruas em que se joga e brinca, longe dos pomares carregadinhos de frutos. Ele tem, planos maravilhosos para a quadrilha, que , até então, nada mais fizera do que roubar algumas sacas de laranjas, durante o Inverno que passou.
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Mas os amigos não vêm, e a mãe, com as suas lágrimas, não consegue anular o depoimento dos guardas, dos caseiros e do Cabo do Mar, que tem uma cicatriz indelével no braço, feita pelo canivete do Gineto...
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Rolam dias iguais a todos os dias; o Outono chega, cavalgando o vento. E Gineto mantém a mesma fé de quando entrou na prisão.
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Através da cela, ouve um tropel de cavalos e alarido de muito povo, a entrecortar um sussurro distante, confuso, de música e tiros e vozes... É a Feira. Gineto anima-se, crente de que os companheiros virão buscá-lo neste dia de festa, trazendo Rosete com eles. Encosta a face às grades, espera o regresso à vida livre.
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Uma voz canta, mesmo por baixo da janela, uma canção que ele ouviu, certa tarde, no alto do Mirante. Ele grita: - Gaitinhas! Tou aqui, Gaitinhas!
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Mas a voz afasta-se. Gaitinhas-cantor vai com saguí correr os caminhos do mundo, à procura do pai. E, quando o encontrar, virá então dar liberdade ao Gineto e mandar para a escola aquela malta dos telhais - moços que parecem homens e nunca forma meninos."

Excerto de "Esteiros" de Soeiro Pereira Gomes
Desenho de Álvaro Cunhal


sexta-feira, 23 de maio de 2008

Os assassínios no PCP depois da prisão de Cunhal



Sábado, 26 de Novembro de 2005
Edição Papel







Os assassínios no PCP depois da prisão de Cunhal

Os anos mais duros (1942-52) os expulsos, os 'traidores' e os mortos A decisão de matar O assassinato de Manuel Domingues

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Enquanto Cunhal defronta a realidade da sua prisão, o partido começa a tirar as consequências do sucedido. Para José Gregório, o que havia a fazer face a esta catástrofe era «enfrentar e deter a ofensiva da polícia, depurar o Partido da provocação, proceder ao necessário recuo». Para conseguirem cumprir este programa de urgência era necessário, antes de mais, remodelarem a Direcção. Os membros sobrantes do Secretariado tomaram medidas quase imediatas para reorganizarem a Direcção, profundamente atingida pelas prisões, traições e mortes. Dos eleitos em 1946, apenas cinco membros efectivos, José Gregório, Joaquim Pires Jorge, Manuel Guedes, Júlio Fogaça e Sérgio Vilarigues, e dois suplentes, Octávio Pato e Soeiro Pereira Gomes, permaneciam activos em Abril de 1949.
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Destes, Soeiro estava doente e cada vez mais doente. Tivera que ser recolhido numa casa legal de apoio do partido, a da família Perdigão no Porto, depois de tentativas falhadas de o deslocar para tratamento ao estrangeiro. Em 5 de Dezembro de 1949, morre escondido na casa que o acolhera, gerando o grave problema de organizar o seu funeral. Mesmo morto, o seu corpo era clandestino e tinha que passar à legalidade, sem revelar a rede de solidariedade que o tinha acolhido. Militantes «legais» do partido organizaram essa passagem e o seu funeral do Porto para Lisboa, não sem que, na passagem por Alhandra, se tivessem dado incidentes com a população que exigiu que o cortejo fúnebre parasse na vila onde tinha tido um papel cultural e político de relevo.
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Na reorganização de funções, realizada de emergência após a prisão de Cunhal e Militão, a decisão mais importante e aquela que iria ter as maiores repercussões foi a entrada quase imediata de Júlio Fogaça para o Secretariado, por iniciativa de Pires Jorge (e com o apoio de Guedes?). Estava criado o chamado «grande Secretariado», que exercia simultaneamente as funções de Secretariado, Comissão Política e Comité Central. Nele foram promovidos Fogaça, Pires Jorge e Vilarigues, que já passara interinamente por essas funções durante a viagem de Cunhal ao estrangeiro. A promoção de Fogaça, numa reunião de emergência após as prisões do Luso, teve um motivo quase que puramente pragmático - o partido precisava de alguém com capacidade para escrever, «porque o Gregório e o Guedes tinham muita dificuldade em escrever». Fogaça era o único que podia ombrear com Cunhal nessa tarefa e por isso foi escolhido.
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A decisão, mesmo na situação de emergência em que se encontrava o PCP, foi de imediato muito controversa e teve a oposição de Manuel Domingues e Dias Lourenço, presentes nessa primeira reunião. Essa controvérsia estendeu-se aos funcionários, consultados informalmente durante os meses de Agosto-Outubro, no quadro de reuniões do CC. Durante quase dois anos, os conflitos na Direcção do partido centraram-se todos à volta de Fogaça, compreendendo não só lutas pessoais, mas também confrontos ideológicos que geraram enormes tensões que se vão prolongar durante toda a década.
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Nestes anos muito difíceis de 1949-52, Fogaça esteve dentro e fora do Secretariado ao sabor da força ou da fraqueza dos seus opositores, do conteúdo das suas autocríticas e das convulsões das prisões. Mas, pouco a pouco, foi sobrevivendo aos seus adversários e consolidando um poder pessoal que, no entanto, nunca se comparou com o de Cunhal, porque esteve sempre mergulhado em grande controvérsia. Conduzindo uma purga violenta e sempre no limiar de ser ele próprio vítima dela, Fogaça dirigiu o PCP durante toda a década de cinquenta sempre no fio da navalha.
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Outros funcionários foram chamados a reforçar uma Direcção de emergência na qual quase se sobrepunham os cargos do Secretariado com os do CC. Isso implicava grandes «sacrifícios», porque levava ao envolvimento directo da Direcção na «actividade política», relegando para segundo plano tudo o resto. Na opinião de Pires Jorge, «fizemos algumas promoções - nem todas foram as mais correctas, mas outras foram muito boas». Talvez a promoção mais importante, na moldagem da Direcção dos anos cinquenta, tenha sido a do jovem Octávio Pato/«Melo»/ /«Frazão» que, tendo ascendido a suplente do CC em 1949, com 24 anos, passará, três anos depois, ao Secretariado. Gilberto de Oliveira foi também promovido de suplente a efectivo, mas recusou essa promoção. Novos militantes são funcionalizados, para suprir as brechas que a PIDE abria nas organizações, apesar do recuo generalizado das actividades. É o caso de Francisco Jesus de Sousa, operário da Marinha Grande (Junho ou Julho de 1949) e Alcino de Sousa Ferreira (Outubro de 1949), que entram para o quadro de funcionários. (...)
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Em Agosto de 1949, houve, pela primeira vez desde as prisões, uma tentativa de retomar as reuniões do CC e dar uma parecença de normalidade às decisões tomadas ad hoc nos últimos três meses. Nessa reunião foram apresentados vários relatórios (...). «Alguns destes textos nunca foram integralmente publicitados como documentos do CC, e o que deles se conhece mostra o carácter apressado e de circunstância do seu conteúdo. A época não era muito propícia aos textos teóricos.
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Nessa reunião estiveram presentes Fogaça, Guedes, Pires Jorge, Gregório, Cândida Ventura, Manuel Domingues e Gilberto de Oliveira, entre outros. Era inevitável que os funcionários presentes considerassem antes de tudo a situação de segurança, porque todo o partido estava em estado de emergência
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«Atingido de Norte a Sul do país, porque a polícia atingiu células de empresa, organizações do Partido entre os camponeses, comités de zona, comités locais, sub-regionais, regionais e provinciais, porque a polícia atingiu a organização do Partido no terreno sindical e na organização militar, porque o Partido foi atingido por mais duma vez no seu quadro de funcionários, no seu aparelho técnico, no Comité Central e até no Secretariado, isto dá à polícia uma série de conhecimentos, uma série de vantagens na luta contra o Partido.»
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Os quadros do partido que escaparam à razia policial iniciaram, sob a direcção de José Gregório, uma imediata e extensa verificação de segurança. Gregório tinha grande experiência neste tipo de investigações, só comparável com a do próprio Cunhal. Num primeiro balanço feito das quedas das casas do Secretariado, Gregório perguntava «Onde se encontram as origens de tão grande desastre? ». A resposta tinha importância política pedagógica para a acção futura do PCP. Gregório e o Secretariado sabiam que as novas instruções da PIDE às autoridades locais e o conhecimento do modus operandi dos clandestinos tinham apertado a malha da vigilância. Mas sabiam igualmente que tinham sido cometidos graves erros conspirativos por Militão e Cunhal e que era mais importante para o futuro da clandestinidade acentuar os erros do Secretariado do que os sucessos da polícia.
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O que é que levara a PIDE à casa do Luso? Desde os primeiros passos da investigação que Gregório sabia do papel dos «elementos fascistas locais», mas não podia centrar aí toda a sua análise, porque isso desculpabilizaria os erros cometidos por Cunhal e Militão. Por isso opõe-se à teoria de que os desastres se deviam apenas à explicação «simplista» de que na sua origem estão «iniciativas e acções de elementos fascistas locais» (...)
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Neste primeiro balanço não é referida a possibilidade de infiltração policial no PCP, mas apenas o papel de sucessivas negligências do Secretariado. O mesmo tipo de críticas foi dirigido a outros altos responsáveis partidários. Um deles foi Manuel Domingues/«Luís», que foi acusado, enquanto responsável do aparelho técnico, de erros conspirativos como a utilização de «meios de transporte inconvenientes», para a mudança da tipografia que foi para Coimbrões e que poderiam ter revelado à PIDE a sua localização. Domingues era o responsável pela tipografia e por pouco não tinha ele próprio sido preso, «pois que se dirigia para lá, quando foi abordado por alguns populares que o avisaram do assalto, de forma que "conseguira safar-se a tempo"». A presença suspeita de uma mulher nas imediações da tipografia, que Domingues considerava ocasional, foi interpretada como sendo a de um «elemento policial». Domingues foi acusado de negligência conspirativa
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«O Secretariado e o Comité Central, na sua reunião de Agosto de 1949, não analisaram estes factos tão despreocupadamente como Domingues, admitindo logo que, efectivamente, a referida mulher fosse um elemento policial.»
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Domingues parece ter reagido mal às críticas, que tentou impedir na reunião pedindo a palavra primeiro, de modo a antecipar as respostas às acusações que lhe faziam. Mais tarde, tal atitude foi considerada «uma imposição imprópria dum comunista» que «tentava apagar o carácter grave dalgumas das suas deficiências». Datam daí as primeiras sanções a Domingues que foi afastado do CC e de tarefas de responsabilidade, e enviado para a organização de Lisboa. (...)
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Gregório não tinha dúvidas em afirmar que, desse ponto de vista de técnica conspirativa, o PCP «sofreu [...] um dos maiores reveses experimentados em toda a sua história». A PIDE encontrou nesse conjunto de documentos os meios para prosseguir a sua ofensiva repressiva, e os membros do Secretariado presos no Luso, a começar por Cunhal, foram posteriormente acusados de negligência pelo modo como facilitaram tal concentração perigosa de documentos.
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A massa documental apreendida na casa do Secretariado era vastíssima. O inspector que analisou o arquivo salienta que este revela «um nível de perfeição e de eficiência bastante elevado» da organização do partido, apesar da clandestinidade e da repressão. (...)
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Os primeiros sinais da purga
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Comunicado a comunicado, jornal a jornal, uma característica têm em comum no ano de 1950 listas sucessivas de nomes e pseudónimos de militantes expulsos do partido ou sujeitos a sanções disciplinares. Uma purga está a realizar-se todos os dias, e uma parte importante do tempo das reuniões partidárias deve ter sido dedicada a verificações de segurança, análise dos erros conspirativos, procura de desvios, indisciplinas, hesitações, falta de zelo.
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A Direcção do partido e os funcionários realizaram uma «verificação cuidadosa dos quadros do partido», inquirindo sobre os seus «antecedentes políticos», e tornaram-se muito rígidas as regras de admissão. Procedeu-se ao «afastamento imediato de todo o membro do partido que mantenha relações, mesmo pessoais, com pseudodemocratas ligados directa ou indirectamente a elementos dos serviços de espiongem das potências estrangeiras» e publicam-se sucessivos apelos à vigilância. Abriu-se caminho à psicose da espionagem e da provocação que estava em crescendo desde o início da guerra fria.
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A própria Direcção distribuía abundantes sanções a si própria - em Março de 1950, uma circular informava os militantes que Pires Jorge e Guedes mostraram «deficiente defesa conspirativa na realização duma tarefa» e que Fogaça, Dias Lourenço, José Maria do Rosário e José Lopes Baptista infringiram a disciplina partidária, Gilberto de Oliveira cometera «erros conspirativos». Apenas Gregório parecia o dirigente perfeito, nunca é sancionado.
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Algures, durante o ano que se seguiu à prisão de Cunhal, o núcleo restritíssimo de dirigentes que controlavam o PCP tomou a decisão de executar os militantes envolvidos nos casos que lhes pareciam mais graves de «traição». Esta é, pela sua natureza, uma decisão que não se põe no papel e que, de um modo geral, não se proclama nem se reivindica nos partidos comunistas. Não é, no entanto, uma decisão incomum no movimento comunista internacional, praticada na mesma época por dois partidos próximos do PCP o PCFe o PCE.
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O assassinato político não faz parte das tradições do marxismo-leninismo, que o condena em termos teóricos. (...) Porém, nenhum partido revolucionário, submetido à perseguição policial, prescindiu de uma «justiça revolucionária», aplicada em particular contra os que eram suspeitos ou que se sabia ao certo serem infiltrações policiais, informadores e provocadores. Quase todos os partidos anticzaristas russos, incluindo os bolcheviques, executavam os suspeitos de colaborarem com a Okhrana, e na história dos partidos comunistas estão documentados assassinatos ou tentativas de execução, em circunstâncias de excepção. Exactamente no período do pós-guerra e no ambiente de radicalização do início da guerra fria, os exemplos são mais abundantes, com relevo para o PCF e o PCE.
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O PCP sempre negou ter procedido a qualquer execução, em particular de seus antigos militantes e dirigentes que tivessem traído. O facto de não existir qualquer documentação factual decisiva e de nem mesmo a PIDE - e a Polícia Judiciária, neste caso - terem conseguido encontrar provas que incriminassem os autores materiais dos assassinatos permite que possa permanecer a controvérsia sobre o que realmente se passou. Depois do 25 de Abril, Cunhal reafirmou a inexistência de execuções, mas, cuidadosamente, omite os casos da década de cinquenta que envolviam o PCP, para se referir apenas à morte do capitão Almeida Santos, que nada tinha a ver com o partido (...).
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Uma análise mais rigorosa do que se conhece sobre os assassinatos e as tentativas de assassinato, ocorridos de 1950 a 1974, baseada nos documentos e nos testemunhos da época não permite dúvidas sobre a responsabilidade do PCP nesses actos. Não oferece dúvidas também a sua razão não se trata de execuções punitivas, mas da eliminação de pessoas que tinham todas em comum constituírem um grande risco de segurança para o partido, num momento particularmente difícil. São execuções utilitárias, não são castigos nem vinganças.
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Analisando toda a história de declarações do PCP sobre esta matéria, também não sobram muitas dúvidas. Primeiro, não é inteiramente verdade que o PCP se tenha de todo posto à margem do que se passou. O que o PCP sempre negou foi a responsabilidade da sua Direcção nessas mortes, não que elas não tenham sido realizadas por militantes do partido actuando «espontaneamente».
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Os problemas com Manuel Domingues/«Luís» agravaram-se com as críticas que lhe foram dirigidas na reunião de Agosto de 1949. Domingues foi acusado, enquanto responsável do aparelho técnico, de erros conspirativos como a utilização de «meios de transporte inconvenientes» que poderiam ter assinalado à polícia a tipografia de Coimbrões. Datam daí as primeiras sanções - Domingues foi afastado do CC e de tarefas de responsabilidade, e enviado para a organização de Lisboa. (...)
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As críticas a Domingues são feitas numa altura complicada da sua já complicada vida de clandestino tem um filho da sua jovem companheira que não esconde a vontade de deixar a vida clandestina, e encontra-se doente e deprimido. A sua doença do estômago, uma úlcera, agravara-se em 1949 (...) Para Domingues, a sua posição no partido continuava a deteriorar-se e a vontade de abandonar a vida de funcionário torna-se cada vez mais premente. Domingues sabe que essa saída era muito difícil, porque não poderia regressar à vida normal sem se arriscar a ser preso, ou sem um qualquer acordo com a PIDE que evitasse a prisão. Sabendo isso, estaria a preparar uma ida para o estrangeiro, onde já vivera muitos anos, porque só fora de Portugal poderia reconstruir uma vida normal. O partido tem conhecimento desta intenção, da existência de um «plano de saída do partido». Domingues não queria ser expulso do partido, preferia ter um acordo que permitisse o seu afastamento, mantendo-se entretanto na situação de funcionário, que lhe garantia os mínimos meios de vida.
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A Direcção resolve retirar Domingues do quadro de funcionários e proceder ao seu «afastamento» do partido, prelúdio inevitável da expulsão. Tudo indica que este reagiu mal. Teria protestado e criticado a Direcção fazendo aquilo que na linguagem partidária se classifica de «trabalho de desagregação», ou seja, conversava com militantes do partido que conhecia e dizia mal da Direcção. (...) De mais grave, dadas as responsabilidades de Domingues, apenas a sugestão da sua vontade de «abrandar» o trabalho político e de «deixar o CL». De qualquer modo, o seu processo de afastamento é por etapas e não se traduz num acto único de expulsão, mas numa série de medidas de carácter disciplinar ocorridas entre Agosto de 1949 e o primeiro semestre de 1951. (...) Numa versão ficcionada das informações que tinha dos últimos tempos de Domingues, a PIDE fez publicar no jornal do regime A Voz uma versão de um «Luís» acusado de «render pouco no seu trabalho» no CL, e cada vez mais pressionado pela acusação de ser «agente provocador», e que, «desesperado», teria dito «se não me querem, então vou-me embora». Sem resposta, teria «voltado para a sua casinha nos arredores de Lisboa» (...).

No dia 4 de Maio de 1951, um trabalhador rural de Belas, quando se dirigia para o campo, encontrou no pinhal do Tomé um cadáver masculino com sinais de ter sido morto violentamente. (...) Uma carta anónima, recebida na PJ uma semana depois, identifica o morto como «um rapaz que em tempos morou na Marinha Grande chamado Manuel Domingues (...).
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Nota. O texto reproduzido é parte das 52 páginas do 2.º capítulo.