Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
sábado, 29 de novembro de 2025
António Guerreiro - Dos debates aos comentários
sábado, 11 de maio de 2024
António Guerreiro - O jornalismo em extinção
domingo, 10 de março de 2024
António Guerreiro – As sondagens: modo de usar
CRÓNICA ACÇÃO PARALELA
* António Guerreiro
7 de Março de 2024
A política-espectáculo cresce à
medida que diminui o poder político que se exerce no interior de um Estado que
é cada vez menos soberano.
Um dos slogans inventados no Maio de 68,
às vezes recordado como uma peça de arqueologia revolucionária, como muitos
outros surgidos nesse tempo, desdenhava alegremente do acto essencial da
afirmação da democracia: “Élections, piège à cons”.
Traduzido em português nunca funcionaria porque perde a rima e o ritmo
prosódico: “Eleições, armadilha para imbecis”.
Actualmente, não existe no
espectro político nenhum extremo que ouse pôr em causa o formalismo democrático
do voto. “Porquê votar?” não é pergunta que hoje se faça publicamente e com um
alcance político programático. Em contrapartida, tem aumentado incessantemente
os que se interrogam – “Em quem votar?” – até ao momento de colocar a cruz no
boletim e os que, incapazes de decidir, engrossam as fileiras dos
abstencionistas.
Os “indecisos”
tornaram-se uma categoria decisiva. Por isso é que as sondagens, outrora tão
fiáveis, se tornaram um deficiente instrumento de medição do resultado final.
Podemos pressentir que se deu um fenómeno de inversão ou de reversibilidade: as
sondagens, que dantes calculavam com precisão as intenções de voto sem
interferir nelas de maneira significativa, tornaram-se um elemento que
determina, em última instância, a escolha do eleitor. O eleitor informado toma
as sondagens para calcular o sentido do seu voto.
Evidentemente, isso deu-se à
medida que se multiplicaram as sondagens pré-eleitorais e que os cidadãos
aprenderam a lê-las e a avaliá-las na sua dimensão performativa, isto é,
enquanto acção pragmática. Mas tal aconteceu porque aumentou o voto estratégico
que oscila em função das configurações da paisagem eleitoral, das posições dos
partidos nos rankings. Isto significa que as
sondagens, através deste processo de retroacção, entram ilegitimamente no jogo eleitoral? Se elas,
afinal, são um instrumento do cálculo do eleitor e não a sua
instrumentalização, então não devemos tirar essa conclusão. O problema está
noutro lado: na modalidade do discurso político que engendrou este
cidadão-termostato cuja acção é profundamente uma reacção.
Vivemos colectivamente (refiro-me
ao espaço público mediático), durante estas últimas semanas, sob o primado da
política dos políticos e da política dos media. A cena
política, em momentos como este, transforma-se numa arena onde cada um exibe
uma virtual potência de decisão em todos os domínios da sociedade. Sabemos, no
entanto, que tanta vontade e preparação para fazer mil e uma coisas não passa
de tagarelice por várias razões: porque quem chega ao poder governamental tem
de se conformar com uma fraca soberania, só pode agir respeitando os poderes
formais e informais das instituições europeias, das contingências
internacionais do mundo globalizado (as guerras, as crises económicas, os
ditames da grande finança mundial, etc.); porque a classe política, por mais
que tenha a seu cargo a acção administrativa e gestionária, não consegue
realizar o que propõe nos seus discursos porque se confronta com o
condicionamento dos poderes burocráticos.
Há uma regra que não devemos esquecer: a política-espectáculo cresce à medida
que diminui o poder político que se exerce no interior de um Estado que é cada
vez menos soberano.
Este discurso funciona sob o
signo da infantilização. Por todo o lado a política é vista como uma vulgata
para crianças retardadas. E as campanhas eleitorais não são mais do que um
simulacro. Mas talvez esta seja uma condição benévola: muito pior seria que não
se cumprissem os protocolos para salvar as aparências que asseguram, apesar de
tudo, alguma estabilidade do sistema.
Seria, no entanto, muito
interessante saber em que acreditam verdadeiramente os protagonistas políticos,
quando já estão fora do jogo eleitoral. Ao contrário do que se passa noutros
domínios de actividade, este é um campo onde raramente se pratica o metadiscurso,
o desdobramento reflexivo: há um pathos de
primeiro grau que sobrevive e se torna duro como pedra em quem ocupou cargos
políticos de relevo. Entre nós, Cavaco
Silva ilustra com uma rara intensidade expressiva esta persistência do
discurso naïf de primeiro grau.
Livro de Recitações
“Travar a crise climática não está na mesa de voto
Slogan do
movimento máximo
Entre as várias razões que tornam
inadequado e até contraproducente alguns aspectos do discurso e da acção destes
“activistas” (tratarei de analisar em breve esse discurso) está o uso da
expressão “crise climática”.
É certo que ela chega até nós
mediada por muitas instâncias e entrou na linguagem corrente. Mas quem assumiu
a missão – louvável e grandiosa – de alertar a opinião pública para este
problema e levar os poderes políticos e económicos a agir de modo a interromper
uma desastrosa corrida tem de começar por rejeitar a linguagem que neste campo
é acriticamente usada e transmitida: a metáfora da “crise”, que até na política
e na economia tem muitas vezes um objectivo de ocultação, revela-se pouco
certeira para designar as alterações climáticas. As crises são momentos breves
no curso das sociedades, correspondem a situações temporárias em que se dá uma
perturbação do que antes dela era a normalidade.
A saída de uma crise implica, em maior ou menor grau, uma metamorfose. Ora,
aquilo que é designado como “crise climática” afecta o receptáculo de todas as
nossas actividades, não é uma “crise” particular e localizada.
E, ainda mais importante, a temporalidade dos acontecimentos ambientais não tem nada que ver com a temporalidade das perturbações sociais e políticas que a palavra “crise” designa: trata-se de uma temporalidade que se situa numa escala geológica.
sexta-feira, 22 de dezembro de 2023
António Guerreiro - Des-Natal é que é!
CRÓNICA ACÇÃO PARALELA
A “desnatalidade” talvez possa inspirar um des-Natal, um movimento de libertação desta “quadra” que nos convoca coercivamente.
22 de Dezembro
de 2023, 10:20
É Natal. É
tempo de falar de natalidade. Em Itália é um assunto na ordem do dia porque o
“Inverno demográfico” transalpino é o mais frio de toda a Europa, que no seu
conjunto já está em estado de “colapso demográfico” há algum tempo – de tal
modo que, segundo os dados oficiais, em 1950 um europeu médio tinha 29 anos e
hoje tem 43. A palavra “desnatalidade”, que designa o défice da taxa de
nascimentos em relação à taxa de mortalidade, soa como um termo bizarro. Talvez
ela possa inspirar um des-Natal, um movimento de libertação desta “quadra” que
nos convoca coercivamente para uma mobilização total.
Ainda a Itália,
o bel paese por antonomásia: há alguns anos, quando a taxa de
natalidade já era baixa, mas ainda não tão “depressiva”, a Itália deitou-se no
divã para analisar os sintomas patológicos advindos de ser um país de filhos
únicos e produziu muita psicologia social. Desta “ciência” espontânea,
impressionista, resultaram algumas conclusões como esta: ser filho único
promovia a emancipação das raparigas (a quem, tradicionalmente, cabiam tarefas
domésticas e o dever de se inclinarem perante as prerrogativas masculinas dos
homens da família), mas tinha tornado os homens muito mais frágeis, uma
fragilidade que eles tentavam superar com atitudes de macho mimado, de maridos
insuportáveis que, uma vez divorciados, voltam a casa da mamma, de
onde na verdade nunca saíram.
Agora, já não
se trata da discussão sobre o “filho único” e as suas idiossincrasias, mas da
inexistência de filhos: “Porque é que em Itália já não se fazem filhos?”,
pergunta-se por lá com insistência. Até um filósofo como Giorgio
Agamben (do qual pensamos que só se interessaria por estas questões
demográficas na medida em que elas estão no centro da biopolítica
contemporânea) escreveu na rubrica que mantém no site da
editora Quodlibet um texto que é quase um obituário, logo no título “Finis
Italiae”.
Nele se afirma:
“Se existe na Europa um país em que alguns dados permitem certificar com sóbria
precisão a data do fim, este é a Itália (...). A perdurar, este declínio
[demográfico] conduziria em três gerações à extinção do povo italiano.” Quem
leu os escritos de Agamben sabe que jamais ele lamentaria esse facto em chave
nacionalista. Mas ele esclarece logo a seguir o que motiva o seu discurso
lutuoso: “O que me entristece é a possibilidade perfeitamente real de que não
exista mais ninguém para falar italiano, que a língua italiana se torne uma
língua morta. Que ninguém mais possa ler a poesia de Dante como uma língua
viva, como Primo
Levi a lia em Auschwitz ao
seu companheiro Pikolo.”
Evidentemente,
os Outonos e as previsões de Invernos demográficos como o da Itália, em toda a
Europa, não suscitam lamentos pela sorte que estará reservada a Camões (mas o
português está a salvo: é falado noutras latitudes de elevada fecundidade, por
enquanto) ou a Goethe (também nas questões demográficas a Alemanha já começa a
fazer a sua “viagem a Itália”).
A preocupação é
de outra ordem, consentânea com o “paradigma económico” que domina a política,
mas também a vida dos indivíduos: a queda drástica da natalidade ameaça a
estabilidade económica. E isso é suficiente para vê-la como um fenómeno crítico
para o qual as economias não estão preparadas porque o seu motor tem uma lógica
de funcionamento incompatível. Noutros planos que não o económico, a baixa de
natalidade oferece-se a uma discussão sobre se é uma coisa negativa ou
positiva.
A questão
fundamental é assim formulada: se há cada vez menos nascimentos e cresce a
população envelhecida, quem pagará, no futuro, os serviços de saúde e as
pensões? Mas este modo de declinar o problema omite a sua raiz profunda: o
capitalismo é uma religião do débito e cada criança que nasce já nasce
endividada, isto é, com uma “culpa” original (quantas vezes se insistiu, desde
a crise financeira de 2008, que a palavra alemã Schuld significa
“dívida” e “culpa”?).
O débito
público dos Estados e o débito privado são o pressuposto das actuais
modalidades de sujeição e implicam uma garantia: que haja no futuro quem os
pague. Evidentemente, este futuro, no caso do débito público (que nos
transforma todos em sujeitos devedores e se apropria das nossas potencialidades
individuais) é sem data. Por isso é que se diz que a dívida é para ser gerida,
isto é, reproduzida, mas não saldada. Mas esta condição implica que haja a
garantia de que a fábrica do homem endividado continue a produzir cada vez mais
sujeitos devedores. Se a fábrica de fazer filhos pára, deixa de haver
acumulação de “capital humano” à altura do investimento esperado. E dá-se o
colapso.
Livro de
recitações
“Estrangeiros
contribuem sete vezes mais para a Segurança Social do que beneficiam”
In PÚBLICO,
18/12/2023
Usando a
linguagem da economia utilizada no texto acima: à falta de “capital humano” e
mão-de-obra nacional, importa-se o que não temos do estrangeiro. Esta notícia
tem o efeito de contrariar alguns argumentos xenófobos e é potencialmente apta
a que muitos mudem de ideias e a que todos saudemos a vinda de trabalhadores
imigrantes. Mas devemos pensar para além deste factor pragmático: em última
instância, este modo de ver tais trabalhadores é análogo ao modo de ver a
cultura contra a qual Nietzsche se insurgiu. “Se acreditarmos que a cultura tem
uma utilidade, acabamos por confundir o que é útil com a cultura.” Se os
imigrantes são vistos exclusivamente à luz da sua contribuição para salvar o
nosso “paradigma económico”, eles ou são “paradigmáticos” ou são considerados
excedentes, supranumerários sem valor.
https://www.publico.pt/2023/12/22/culturaipsilon/cronica/desnatal-2074216
sexta-feira, 1 de dezembro de 2023
António Guerreiro -- A política e o grotesco
As televisões adoram congressos partidários. O líder representa um papel de clown e suscita dos seus adversários respostas igualmente clownescas.
1 de Dezembro de 2023, 10:30
As televisões adoram congressos
partidários e os congressistas adoram as televisões. Tão grande amor estaria
condenado a desvanecer-se se não fosse estimulado por um imaginário erótico
comum, que a ambos excita. A fonte da excitação não é sempre a mesma, muda com
o tempo, de congresso para congresso, de partido para partido.
No congresso
do PSD, a grande fonte de excitação a alimentar uma demagógica dilatação e
endurecimento do discurso do líder foi o grotesco. Entendo aqui por grotesco a
atitude e o discurso que, numa versão ainda tímida, ensaiam uma mimese da
carnavalização da política, tal como ela tem sido exercida por uma nova
categoria de políticos-palhaços que conquistaram a governação em vários países:
o último da série, aquele que eleva o grotesco ao seu mais alto grau, é o
recém-eleito Presidente da Argentina. Essa atitude clownesca não se manifesta
só no discurso, mas também numa gestualidade patética.
Ainda não temos isso por cá, mas,
tal como muitas outras coisas de que nos orgulhávamos de não ter acabaram por
chegar atrasadas e em força, já ouvimos os seus passos ao longe, a correr para
nós. Uma das aproximações do grotesco deu-se neste fim-de-semana, num cenário
de espectáculo: o congresso. Aí, o líder proclamou perante o seu auditório, mas
para que todo o país ouvisse (a relação amorosa com a televisão e os media em
geral é, por definição, pública), que “o mais fanático defensor do gonçalvismo”
se chama “camarada Pedro e tem uma Cinderela chamada camarada Mortágua”. E
disse mais coisas no mesmo tom.
Entramos assim em pleno domínio
do cómico. O líder representa um papel de clown e suscita dos
seus adversários respostas igualmente clownescas. Talvez ele se tenha
convencido de que representar esse papel é produtivo e eficaz na comunicação
fusional com os eleitores. Mas se já se impôs a alguns líderes políticos esta
convicção é porque nos estamos progressivamente a aproximar do mundo tirânico
da palhaçada, à espera de que se instale definitivamente o que um escritor e
ensaísta francês chamado Christian Salmon caracterizou e analisou como “poder
grotesco”, em expansão.
Este poder grotesco faz parte da
mesma constelação a que pertence a vaga de violência, vinda sobretudo da
extrema-direita, que se está a difundir por todo o lado. Há um processo
assustador de regressão em curso, de comportamentos colectivos já excluídos da
nossa “civilização” e contra os quais nos julgávamos imunizados, que tem dado
azo a analogias com o percurso que conduziu aos fascismos. Estas comparações
entre épocas históricas diferentes merecem sempre muitas reservas, mas também
incitam a muitas cautelas.
Ousei escrever a palavra
“civilização” não para a opor, como se faz muitas vezes, à barbárie (na
verdade, já Burckhardt, o historiador suíço, mostrou, no final do século XIX,
que tal oposição era destituída de pertinência), mas para lembrar uma palavra de
que o Presidente francês Emmanuel Macron se serviu, num discurso pronunciado no
final de Maio, para fazer um diagnóstico da “doença” que, segundo ele, está a
afectar não apenas a França: décivilisation. Tal palavra suscitou
um enorme interesse e imediatamente toda a imprensa foi procurar a sua origem.
Não foi difícil: ela vem
do sociólogo Norbert Elias, o autor de O Processo Civilizacional,
que no seu último livro, publicado em 1990, pouco antes da sua morte, estudou a
emergência do nazismo, na Alemanha, como uma ruptura no processo da civilização
(esse processo de progressiva pacificação do espaço social, desde o final da
Idade Média). Esses “estudos sobre os alemães” (assim reza o título do livro)
pode ser classificado, no seu género, como uma psicologia histórica. É aí que
Norbert Elias dedica um capítulo ao “colapso da civilização”, à
“descivilização” (Entzivilisierung).
Acontece, porém, que essa palavra
já tinha servido, em 2011, para título de um livro do escritor de
extrema-direita Renaud Camus, o autor da teoria xenófoba da “grande
substituição” a que, segundo ele, está a ser submetida a “civilização”
francesa. As críticas que então foram então feitas a Macron lembravam que a
palavra tinha acumulado um outro sentido que não era o do estudo de Elias. Ela
vinha carregada com um sentido que, no fundo, legitimava a vaga de violência e
a emergência das sombras negras que pairam sobre a Europa e o mundo. O
grotesco, para além dos líderes partidários e congressos, é a inclinação
funesta deste nosso tempo.
Livro de Recitações
“Assassinadas 25 mulheres em
Portugal até 15 de Novembro”
In PÚBLICO,
22/11/2023
Para este crime, não há ainda um
nome fixado para o designar: ora se escreve “femicídio”, ora se escreve
“feminicídio”. Mas esta hesitação no nome significa que tal crime só
recentemente foi categorizado. “Homicídio”, que poderia designar o assassínio
dos homens pelas mulheres, designa o assassínio de qualquer ser humano,
independentemente do género (oh, a universalidade masculina!). E parece que
rara é a utilização da palavra “androcídio”.
Trata-se pois de um problema que
tem a sua origem quase exclusivamente no universo masculino. Esta doença que
leva os homens a matar as mulheres, quase sempre por ciúmes e porque acham que
só as aniquilando redimem a perda do poder de propriedade sobre elas, é um
flagelo em todo o lado.
Por estes dias, um crime hediondo
de “feminicídio” tinha sido perpetrado em Itália por um “bravo ragazzo”
de 22 anos, de boas famílias, o que pôs muitos cronistas, nos jornais, a
dissertar sobre a masculinidade, sobre as suas fraquezas que se manifestam na
prática de crimes hediondos, às vezes seguidos de suicídio. Mas porque é que
eles não decidem suicidar-se antes de matar?
https://www.publico.pt/2023/12/01/culturaipsilon/cronica/politica-grotesco-2071843
sábado, 23 de setembro de 2023
António Guerreiro - O computador, um espírito absoluto
CRÓNICA ACÇÃO PARALELA
Heidegger sobre a cibernética: “Tudo funciona, é precisamente esse o problema. Tudo funciona e cada novo funcionamento subtrai cada vez mais o homem à terra”.
22 de Setembro de 2023
As histórias que mostram os caprichos da reversibilidade são sempre muito interessantes: o cão põe-se a salivar porque está condicionado pelo dono, pelos gestos e actos que o animal reconhece como o protocolo que anuncia a sua refeição, ou é o cão que aprendeu a condicionar o dono, ao perceber que, salivando, obtinha dele a resposta desejada? Quem tem animais domésticos conhece muito bem este mecanismo: tornamo-nos amostras de uma experiência pavloviana.
A inteligência artificial, ao atingir a rapidez e o grau de sofisticação dos chatbots, faz-nos perceber que é preciso tornar reversível o modo tradicional de entender a relação entre os computadores e o cérebro: não é o computador que imita a operação do pensamento humano, mas é o pensamento que imita o computador. E a vida imita a informática.
Entramos assim no coração de uma ontologia digital: a informática já é um mundo em si, uma segunda natureza, mais próxima de um organismo, dotado de um princípio em si mesmo, do que de uma mecânica funcional. A informática parece dotada não apenas de uma inteligência, mas de um “eu” reflexivo e de uma vontade. Há quem ache isto maravilhoso; há quem ache assustador; há quem ache as duas coisas simultaneamente; há a tecnofilia e a tecnofobia, ambas em doses superlativas; há a celebração da inteligência e a convicção de que a estupidez cresce, como o deserto. Tudo isto dá forma ao mundo em que vivemos.
Na célebre entrevista que deu em 1966, dez anos antes de morrer, à revista Der Spiegel, o mais ilustre e influente tecnófobo do século XX, Martin Heidegger, interrogado sobre o fim da filosofia e sobre o que viria ocupar o lugar dela, respondeu: “a cibernética”. E, ao argumento da eficaz funcionalidade de que a cibernética dava provas, Heidegger respondeu: “Tudo funciona, é precisamente esse o problema. Tudo funciona e cada novo funcionamento subtrai cada vez mais o homem à terra”.
Uma coisa tinha ele intuído com grande lucidez: que estávamos antrar numa época “pós” (que a informática, mais do que a cibernética, veio inaugurar), ainda que na altura estivesse distante este nosso mundo completamente produzido sob a condição informática. Poucos anos depois, o “pós” iria conhecer uma grande variedade de declinações e tornar-se um emblema epocal. De todas essas declinações, a mais popular foi a do fim da história, compreendida como a última palavra de uma democracia liberal instituída universalmente e, portanto, sem a contraposição de um outro horizonte. Tratava-se de uma interpretação, em chave actual e política, da ideia hegeliana de “fim da história”, do momento em que se realizaria o espírito absoluto e toda a negatividade estaria suprimida.
Sabemos muito bem que esta ideia de fim da história, actualizada como triunfo universal do modelo da democracia liberal, depois da queda do Muro de Berlim, foi convicção de pouca dura e não houve tese tão desmentida por tanta gente e com tanta insistência como esta. Parece que o fim da história se parece muito mais com a sociedade da informação, com a hegemonia da inteligência artificial. Talvez a intuição de Heidegger se tenha revelado muito mais certeira do que se pensava. E o que é que se pensava? Que ele, levando a sua tecnofobia ao exagero, tinha apontado a cibernética como aquilo que vinha destronar a filosofia.
Ora, estamos hoje a assistir a um coro quase universal (onde se juntam tecnófobos que não ousam dizer o seu nome aos que manifestam razoáveis e lúcidos temores que só os insensatos não têm) que se ergue ante a iminência de não ser apenas a filosofia a ser destronada. Artistas, escritores, tradutores, actores: todos se sentem hoje à beira de serem destronados e de os seus bons ofícios se tornarem excedentários. Esta nova condição epocal, sendo a mais próxima que já alguma vez nos encontrámos da situação “pós”, tem uma capacidade formadora: institui uma nova forma de vida. Afinal, o fim da história não é aquilo que se pensava. Há até quem fale de uma “informática celeste” (é o caso do filósofo francês Mark Alizart, que tem um livro com esse título) porque ela determina a “situação espiritual do nosso tempo”, como se dizia nos inícios do século passado.
Já está em curso nalgumas escolas (e noutras está em estudo) a proibição do uso do telemóvel pelos alunos porque se quer evitar (vá-se lá saber como!) que a informatização do humano seja o correspondente simétrico da humanização dos computadores, das máquinas que já começam a dizer “Eu”, que se fabricam a elas próprias e produzem uma imagem de si. Agora sim, chegou o admirável mundo novo.
Livro de recitações
Nos manuais elementares de jornalismo, diz-se que não é notícia um cão morder num homem. Mas se um ninho de vespas desfere um ataque a um bando de estudantes nas suas negras cerimónias iniciáticas, de tal modo que obriga a intervenção dos bombeiros, do Instituto Nacional de Emergência Médica, da PSP e do Serviço Municipal de Protecção Civil, como relata o Expresso, então temos notícia e até motivo para uma proposta modesta: o doutoramento honoris causa, já, para as inteligentes vespas, por terem sabotado as praxes como nunca antes ninguém tinha conseguido. É bem-sabido que nem tudo nas praxes é inteligente, alegre e indolor. Mas o saber destes insectos, no modo como leram e levaram à letra o enunciado estudantil da praxe, merece o louvor e o reconhecimento da instituição da qual se exige a tarefa de “inocular” os alunos com o seu “veneno”, que, como todo o pharmakon, cura e mata.
https://www.publico.pt/2023/09/22/culturaipsilon/cronica/computador-espirito-absoluto-2063912
sábado, 9 de setembro de 2023
António Guerreiro - A mais bela profissão do mundo
CRÓNICA ACÇÃO PARALELA
* António Guerreiro
8 de Setembro de 2023
A escola perdeu
os atractivos da beleza e ganhou a imagem de um cúmulo de deficiências e
problemas.
A escola é cada
vez mais esmagada pelo peso das ansiedades NELSON GARRIDO
Reinício do ano
lectivo, tempo de examinar as doenças da escola e sondar o mal-estar dos
professores. Um jornal, com vocação crítica desde o seu nascimento, fala da
“crise dos professores” e analisa as causas do desinteresse pela “mais bela
profissão do mundo”. As aspas, não sou eu que as coloco por estar a citar o
dito jornal; é o jornal que se encarrega, através das aspas, de dizer que está
a citar uma frase que nos foi transmitida pela tradição. Mas neste caso as
aspas também significam outra coisa: que a expressão já não pode ser dita sem
recuo, e só um ingénuo ousaria repeti-la sem aspas. A “mais bela profissão do
mundo”, é dito logo no início do artigo, deixou de ser interessante e, por
isso, atrai cada vez menos candidatos e provoca cada vez mais o abandono dos
que nela entraram, por causa de condições de trabalho cada vez mais difíceis e
uma remuneração pouco atractiva.
O jornal em
questão não é português, é francês, chama-se Libération e
analisa o estado da “Éducation nationale”, o mito republicano por
excelência. Mas também podia ser um jornal português,
espanhol, italiano, alemão (sim, até a escola alemã se debate com uma imensa
falta de professores e uma degradação das condições de trabalho que leva muitos
a abandoná-la). A escola, a mais bela instituição do mundo (sem aspas), ainda
que as suas práticas tenham sido tantas vezes criminosas, perdeu os atractivos
da beleza e ganhou a imagem de um cúmulo de deficiências e problemas.
Como toda a
gente passou pela escola, toda a gente tem qualquer coisa a dizer sobre ela.
Mas em Portugal ninguém sabe muito bem o que se passa no seu interior, é tudo
exterior.
Há pouco tempo,
um estudante italiano, tendo concluído o exame de maturità que
dá acesso à Universidade, escreveu um testemunho cruel da sua experiência,
publicado num jornal. Por cá, estamos a precisar deste tipo de testemunhos, tal
como precisamos de um discurso dos professores mais analítico, não
exclusivamente centrado sobre questões sindicais e as condições pragmáticas de
trabalho (por mais legítimo que seja este discurso, ele é insuficiente).
É esta falta
que me convida aqui a falar de dois livros, de uma grande escritora francesa,
Nathalie Quintane, que é professora de um collège há mais de
30 anos (no sistema de educação francês, o collège corresponde
ao ciclo de estudos que se segue aos quatro anos de ensino básico, abrange,
portanto, os alunos dos 11 aos 15 anos). Trata-se de Un hamster à
l’école e de J’adore aprendre plein de choses. No
primeiro, o de maior fôlego (mas o segundo é talvez mais maldoso e sarcástico),
Nathalie Quintane faz um retrato da “Éducation nationale”, num texto que
é um longo poema em verso livre, narrativo, entre autobiografia e reflexão, que
atravessa os seus anos de aluna e os de professora. O género e o discurso nada
convencionais deste texto justificam-se inteiramente: para criticar a instituição
escolar é preciso inventar uma língua que é estranha à instituição escolar.
A metáfora do
hamster que corre para lado nenhum, fazendo mover uma roda que está sempre no
mesmo sítio e que atinge uma tal velocidade que os seus raios até produzem uma
ilusão óptica, serve para traçar a imagem de um trabalho repetitivo e absurdo,
submetido a um ritmo infernal que tem a lógica do círculo vicioso: é um
movimento circular que não vai a lado nenhum, que tem um fim em si mesmo (“Se
soubessem o número de reuniões e de formações inúteis a que tivemos direito
desde há quinze anos [...]”). É, em suma, uma máquina de esvaziar sentido, de
treinar os alunos a dominar códigos. Um hamster movendo a roda a grande
velocidade: é assim que esta professora se sente, concentrada sobre os efeitos
de óptica que produz. Nos momentos em que emerge deste turbilhão, vê a escola
como uma violenta experiência de estranheza que lhe dá a sensação de nunca
estar no seu lugar. E, numa entrevista a uma revista francesa, declarou: “Não
há uma alteração da profissão de professor, há uma liquidação.”
O diagnóstico
desta liquidação não se compadece com aquele discurso piedoso que implora a
restauração da autoridade professoral. É um diagnóstico muito mais fino e
complexo, que Nathalie Quintane não resume a algumas proposições, a teses, a
propostas salvíficas. E se o livro nos faz compreender com grande evidência que
a escola é cada vez mais esmagada pelo peso das ansiedades que se sobrepõem em
estratos e recaem sobre os alunos (a dos pais, a dos professores, etc.), tudo
nele é muito mais subtil do que as explicações sociológicas e psicológicas. Não
é um livro de tese, é um texto literário.
Livro de
recitações
“A
tauromaquia atravessa uma fase de franco declínio, a roçar a extinção nos anos
da pandemia de covid-19.” In Expresso, 27/08/2023
O declínio da
tauromaquia de que se fala neste artigo acontece em Espanha, no país da “festa
brava”, como se dizia em tempos. Tal notícia faz-nos perguntar: mas as touradas
não são hoje uma actividade quase clandestina, cultivada por um grupo estrito
que tem cada vez mais dificuldade em mostrar a sua “cultura” sem suscitar o
desprezo e a reprovação, exercida como um ritual secreto, tão longe dos olhares
públicos como os matadouros? Em boa verdade, a tourada já só subsiste como
espectáculo que, fora do ambiente anacrónico que o sustenta, deixou de ser uma
coisa tolerável. Intolerável não é apenas o espectáculo nas praças. É todo
o habitus que germinou neste universo classista de
enraizamentos cruéis.
https://www.publico.pt/2023/09/08/culturaipsilon/cronica/bela-profissao-mundo-2062325
sábado, 12 de agosto de 2023
António Guerreiro . Deus ex Media
CRÓNICA ACÇÃO PARALELA
11 de Agosto de 2023 (Público)
A relação entre
os media e a religião, ou antes, entre os media e
o catolicismo romano, é um ângulo de análise imperativo para perceber o
acontecimento da Jornada
Mundial da Juventude. Ali, até os confessionários foram concebidos e
“instalados” (no sentido em que se fala de uma instalação artística) para serem
telegénicos e resultarem numa “bela” exibição fotográfica e televisiva: eis o
eloquente emblema da negociação entre o público e o privado, em que o primeiro
goza de grandes vantagens. Esta mediatização, de preferência sob a forma da
televisualização, é um fenómeno aceite e promovido nas cerimónias cristãs, mas
não é uma prática judaica nem islâmica.
O filósofo
Jacques Derrida dedicou a este assunto uma longa intervenção, num colóquio em
Paris, em 1997, que teve por título “Surtout pas de journalistes!” (“Sobretudo
nada de jornalistas!). Tal injunção, imagina Derrida recorrendo a uma óbvia
anacronia, teria sido aquela que Deus, do Velho Testamento, inculcou
tacitamente em Abraão, quando o mandou subir ao monte onde deveria sacrificar
Isaac, o seu único filho. Para designar o fenómeno fundamentalmente cristão da
mundialização televisiva da religião, Derrida engendra um neologismo que evoca
a sede romana: “mundialatinização”. No entanto, esta “mundialatinização” está
sempre ligada, na sua produção, a fenómenos nacionais. Isso tornou-se muito
óbvio na Jornada Mundial da Juventude, em Lisboa. Derrida sugere até que o tão
famoso “regresso do religioso” tem de ser avaliado e compreendido em função
destas manifestações eminentemente mediáticas.
Como não podia
deixar de ser, há um preço a pagar por isto, que a televisão, sobretudo, cobra
com juros altíssimos. Consistem esses custos no triunfo do Kitsch.
É conhecida uma frase do gramático Pierre Fontanier (1765-1844), no seu tratado
sobre as figuras do discurso, sobre os tropos, onde ele diz, ecoando uma
afirmação de Boileau, que se produzem mais figuras de estilo, num só dia, no
mercado parisiense de Les Halles, do que em toda a Eneida. Do
acontecimento religioso da semana passada podemos dizer o mesmo: produziu-se
mais Kitsch, em Lisboa, durante uma semana, do que em décadas de
produção literária e artística.
O Kitsch monumental
esteve bem patente nos palcos-altares e em toda a parafernália para ser
tele-vista. Quem conhece os gostos e os instrumentos do Kitsch ideológico,
encontrava ali material para frutuosas comparações. Mas se quisermos analisar o
acontecimento quanto ao fluxo de Kitsch produzido, temos de ir
além da concepção tradicional que vê esse conceito por um prisma meramente
estético que usamos para identificar os objectos de uma arte de massa,
estereotipada, de “mau gosto”. Devemos uma noção de Kitsch muito
mais alargada, que não se fica pelas propriedades formais de certos objectos,
ao escritor vienense Hermann
Broch, que foi ao ponto de elaborar filosoficamente o que seria o Kitsch como
“modo de vida”, abrindo assim essa noção ao registo mais vasto da atitude existencial
e a um tipo de actividades e experiências humanas. Aquela emoção estética a que
assistimos, a satisfação emocionada com que cada imagem, cada testemunho, cada
relato, cada comentário, cada citação, diziam uma única coisa, “vejam como é
belo e emocionante!”, é um gesto que consiste em olhar-se ao espelho do
embelezamento, fazendo surgir imediatamente a mentira do Kitsch.
Este “vejam
como é belo!” ou “vejam como nos satisfazemos de emoção pela emoção que nós
próprios produzimos” é uma ilustração perfeita do modo como Broch definiu
o Kitsch: a subversão da ética pelo efeito estético. Não é o
acontecimento em si que é Kitsch, não estou a sugerir que um
acontecimento religioso como aquele que teve lugar em Lisboa tem, em primeiro
lugar, um vínculo necessário com o Kitsch.
Kitsch é
a sua encenação, o modo como ele é produzido e reproduzido pelos media,
isto é, o discurso e as imagens de segundo grau que ele engendra e que, muito
embora fazendo parte da lógica da mediatização cristã, muito facilmente vão para
além dos seus próprios fins. Há momentos em que o Kitsch se
pode tornar uma coisa nauseabunda e é difícil imaginar que a própria hierarquia
da Igreja não o reconheça e não se sinta incomodada por ela. A vida Kitscht
visa fazer coincidir a esfera do ideal com a esfera da realidade, aquilo a que
Broch chamou “a ligação entre o céu e a terra”. Momentos desses, sobretudo nas
televisões, fluíram ao longo da semana numa torrente imparável. Foi um dilúvio.
Livro de
recitações
“Cada um
fala a sua língua, mas entendemo-nos todos porque é a linguagem do amor”
In Expresso online, 3/08/2023
Tomo, um pouco
ao acaso, este título de uma breve reportagem do Expresso onde
se citam as declarações de um “peregrino” a uma jornalista. Kundera, que seguiu
a lição de Hermann Broch, para a analisar o “Kitsch ideológico”
dos regimes totalitários, concluindo que no mundo idealizado do Kitsch “a merda não
existe”, deu este exemplo: uma criança a correr feliz atrás de uma bola num
prado florido não tem em si nada de Kitsch. O Kitsch nasce
a partir do momento em que alguém diz ou representa assim esse acontecimento:
“Vejam como é belo uma criança a correr atrás de uma bola num prado florido!”.
Este redobramento, que visa relatar uma verdade emocionante, através do
embelezamento, da mentira da linguagem emocional estereotipada e portanto
induzida, é aquele que podemos ver neste título (a não ser que ele tenha um
sentido irónico), que é apenas uma gota no vasto oceano do Kitsch produzido
ao longo de uma semana pela
https://www.publico.pt/2023/08/11/culturaipsilon/cronica/deus-ex-media-2059609
sexta-feira, 23 de junho de 2023
António Rodrigues - O brilho da civilização ocidental é apenas verniz e está estalado
sexta-feira, 21 de abril de 2023
António Guerreiro - O algoritmo diabólico,
Crónica Acção Paralela -
* António Guerreiro
21 de Abril de 2023
A ideia de que
se começa pela junk fiction e se evolui na exigência até que um dia se
chega ao Joyce é uma piedosa invenção que até os “agentes culturais” difundem
com alegria.
Através de
artigos e reportagens que, nos últimos tempos, surgiram na imprensa
(inclusivamente neste
jornal), ficámos a saber que os jovens, por meio do TikTok, contribuíram de
maneira significativa para o aumento das vendas de livros, provocando algum
entusiasmo na indústria editorial. Este fenómeno não tem fronteiras e há já
algum tempo que foi identificado em vários países. A sua história vem de trás,
mas acelerou e ganhou mais força com o lançamento, em 2017, do TikTok, uma rede social que está a
meio caminho da plataforma de conteúdos do tipo Netflix.
Esta rede vinda
da China instaura uma mistura complexa que se situa entre o privado e o público
e revelou-se muito apta para a produção de tendências e de códigos tribais, na
medida em que oferece um uso mais passivo do que as outras redes sociais e
potencializa a lógica da “viralidade”. Tornou-se assim um instrumento poderoso
na relação dos jovens – os seus utilizadores preferenciais – com o mundo. O
algoritmo do TikTok tem a fineza de identificar com sofisticação analítica os
interesses de cada um, os medos e obsessões, categorizando assim uma
personalidade nos seus aspectos mais privados, fornecendo-lhe o que se adapta a
ela, quase entrando na intimidade dos utilizadores. É um algoritmo capaz de
encadear uma série ultrapersonalizada de vídeos (TikTok é uma rede que incita a
criar vídeos e a fazer deles o motor da máquina) e recomenda-os “para ti”, de
maneira ininterrupta. Tem, por isso, um forte poder adictivo.
De um modo
geral, as reportagem e artigos sobre o TikTok enquanto factor adjuvante da
indústria do livro têm um tom optimista e de entusiasmo: porque se vendem
mais livros e porque os jovens são incitados à leitura. É certo que em
nenhum momento alguém diz que os influencers do TikTok e outras redes
promovem a leitura de grande ou mesmo da pequena literatura. Mas a ideia, por
mais que ela já tenha sido desmentida em muitos estudos, de que se começa pela junk
fiction e se evolui na exigência até que um dia se chega ao Joyce, é uma
piedosa invenção que até os “agentes culturais” difundem com alegria. Até
parece que não há pelo menos uma pequena questão a atravessar-se no caminho: o
livro, que desde a invenção da imprensa foi visto como um medium
glorioso que alimenta o nosso poder reflexivo e, por isso, é um factor de
liberdade e emancipação, encontra-se assim projectado num mundo organizado
pelos algoritmos.
É verdade que
seria muito ingénuo manter hoje uma concepção do livro que herdámos do
Iluminismo. Essa concepção pertence ao passado. Mas a cegueira em relação às
consequências da algoritmização é ainda mais escandalosa quando se trata do medium-livro
e deve fazer reflectir sobre os efeitos que isso tem sobre as espécies
bibliográficas e o património literário que – em princípio não há quem não
concorde – é preciso divulgar e preservar para termos um “espaço público” que
não seja conformado a uma paradoxal e totalitária algoritmização da liberdade
que vira o liberalismo contra si mesmo.
À primeira
vista, o TikTok parece uma coisa simples, uma rede que cumpre com a eficácia
que nenhuma outra jamais alcançou as exigências de uma economia da atenção – o
bem mais precioso e mais disputado do nosso tempo. Mas, como observou um
ensaísta francês, Chistian Salmon, num texto publicado na revista Slate
(online), a coisa é muito complexa e dela se pode dizer o que Marx dizia de uma
simples mesa quando se transforma em mercadoria: um objecto “cheio de
subtilezas metafísicas e argúcias teológicas”.
O escritor,
cineasta e ensaísta Alexander Kluge (cuja monumental Crónica dos Sentimentos
podemos ler na tradução portuguesa que saiu em dois volumes, na BCF Editores)
tem-se empenhado em alertar contra as “novas sereias”, essas “criaturas míticas
que ocupam os perigosos recifes de Silicon Valley” (os seus alertas estavam
virados para esse centro industrial da alta tecnologia, do capitalismo
algorítmico, muito antes do aparecimento do TikTok).
As sereias de
hoje, que têm o enorme poder de adivinhar os nossos desejos, são, diz Kluge, um
“novo alfabeto” – um alfabeto binário. Recordemos que Alphabet é o nome da holding
proprietária da Google. E onde há um algoritmo (que nós, os leigos, não sabemos
como trabalha) é preciso que exista sempre um contra-algoritmo. E o
contra-algoritmo que Kluge reclama é um poder poético, que vem também da
teoria. É combinando tudo o que as artes podem produzir que se podem criar
contra-algoritmos: “A arte é o advogado dos contra-algoritmos”, afirmou Kluge,
certamente a pensar na sua formação de advogado.
Livro de
recitações
“A mulher de João
Galamba”
Nome de uma figura assim referida, nos últimos dias, pela generalidade dos media.
À “mulher de
César”, que atravessa os tempos e sobrevive como um espectro até ao nosso
tempo, junta-se agora a “mulher do João Galamba”. A bem dizer, nem quis saber o
que se passava com esta mulher e porque é que teve direito a uma efémera
celebridade por via de uma afinidade conjugal. Mas no nosso tempo só quem é
completamente impermeável a um certo arejamento é que não sente alguma
estranheza e incomodidade na utilização deste genitivo objectivo. Não interessa
se há razões para ele ser utilizado. Novos hábitos linguísticos tornam já
exótica esta fórmula repetida: “A mulher de João Galamba”. Ah, a gramática dos
novos tempos!
https://www.publico.pt/2023/04/21/culturaipsilon/cronica/algoritmo-diabolico-2046556
sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023
António Guerreiro - Contra as biografias
Crónica Acção Paralela
* António Guerreiro
10 de Fevereiro de 2023,
A ilusão biográfica consiste em
fazer do biografado um indivíduo coerente que se vai tornando naquilo que é.
Uma caricatura desta atitude é a das curtas biografias dos políticos nos
jornais.
Nos últimos anos, talvez por
influência da cultura anglo-americana, começaram a proliferar as biografias nas livrarias
portuguesas e algumas até já as acomodam numa secção exclusiva devidamente
assinalada, construindo assim um pequeno museu das grandes individualidades.
Outrora, a biografia era um género que devia quase tudo à erudição; actualmente
deve uma boa parte ao jornalismo e outra parte à edição, pois a biografia é
sobretudo um “género editorial”. Partilha essa condição com o romance, tal como
ele hoje é produzido, difundido e “encorajado” (um eminente crítico literário
italiano escreveu um livro a exortar: “Não encorajar o romance”).
Chamo “género editorial” a um
género que deve muito do seu sucesso e hegemonia à máquina editorial, por mais
emperrada que ela esteja. Isto não significa que todos os romances publicados
actualmente possam ser incluídos neste género. Mas tinha alguma razão um
avisado crítico, ou até hipercrítico, especialista em diagnósticos, que
escreveu: “o romance é o cancro da literatura”. Orientados pelo seu olhar
clínico, podemos dizer que as biografias produzidas para responder às
exigências do género editorial são metástases.
O volumoso caudal de matéria
biográfica com que estamos confrontados merece que mencionemos um ensaio,
publicado em 1930, por um génio da Alemanha de Weimar, que iniciou o
adolescente Adorno na leitura de Kant, andou por vezes na proximidade da Escola
de Frankfurt e atravessou diversas disciplinas sem obedecer aos protocolos de
qualquer uma delas. Esse génio chama-se Siegfried Kracauer e, em
1930, escreveu um texto a que deu o título: A Biografia — Forma de Arte da
Nova Burguesia.
Também ele começa por verificar
que a biografia se tornou, no seu tempo, uma produção literária muito
difundida. E sete anos mais tarde dará o seu contributo para alimentar o
fenómeno, escrevendo uma biografia de Jacques Offenbach. Em boa verdade,
apontar-lhe esta incoerência é um pouco injusto porque Offenbach é, para ele,
apenas um pretexto: Paris do Segundo Império é o grande protagonista desse
livro.
O texto de Kracauer é denso e
complexo. Simplificando, digamos que ele entende que a ilusão biográfica
fornece o sossego e bem-estar de que a “nova burguesia” carece. A ilusão
biográfica consiste em fazer do biografado um indivíduo coerente, consciente,
unitário, soberano, que se vai tornando progressivamente naquilo que é.
Uma caricatura desta atitude é a
das curtas biografias dos políticos que às vezes os jornais publicam: aí, a
história do biografado, desde a infância, torna-se quase sempre um destino.
Trata-se sempre de personagens fadadas desde a infância para se tornarem, sem
falhas, naquilo que são. Os biógrafos entendem quase sempre como obrigatória a
passagem da vida do biografado para a sua obra. Ora, partir da obra para a vida
é não apenas muito mais interessante, mas também mais próximo da verdade que toda
a biografia visa.
Kracauer escreve numa altura em
que a ideia da “morte do romance” era glosada convictamente, e ele também não
evita esse tema sem derrames lutuosos. Ora, sendo o romance o género burguês
que veio substituir a epopeia numa época em que já não era possível dar sentido
a um herói épico, a biografia conserva, mesmo que com baixo teor, uma
componente épica, uma positividade heróica.
O discurso de Kracauer sobre a
biografia tem um aspecto histórico e outra sociológico. Há nele uma forte resistência
ideológica à biografia que se deve essencialmente ao facto de se tratar de uma
forma de literatura que satisfaz plenamente quem não quer arriscar um único
passo para além do seu limite individual e para além da sua própria classe. É
verdade que a forma literária da biografia, escreve Kracauer, é o signo de uma
fuga, ou antes, de uma esquiva. Mas de uma esquiva muito conservadora, que só
serve para dar algum suplemento de frescura ao lugar que se habita em
segurança.
A elite da nova burguesia que concede
tempo e privilégios à forma biográfica não se compromete seriamente em qualquer
tipo de dialéctica e sente-se confortada com um género que tem a pretensão de
erigir monumentos, mesmo que efémeros, aos grandes heróis. Heidegger, num
célebre curso de 1924 sobre Aristóteles, resolveu de maneira categórica, como
um epitáfio, a questão da monumentalização biográfica, dizendo que a única
coisa a registar na biografia de um filósofo é que nasceu em tal época,
trabalhou e morreu.
Livro de recitações
“[Héctor Bellerín] É um
futebolista improvável: defensor de causas progressistas como a luta LGBTQIA+ e
a luta antirracismo”
Carmo Afonso, in PÚBLICO, 6/2/2023
É possível vislumbrar um
pressuposto ou mesmo um princípio ideológico no modo como se declina aquela
série de letras maiúsculas que começam com um L e acabam com o sinal + . Há
quem só escreva LGBT, há quem acrescente a contragosto mais umas letrinhas, há
quem se sinta exausto quando chega ao + e reclame contra a perniciosa
“ideologia do género”. Carmo Afonso, pelo contrário, é tão generosa na
declinação que parece pertencer à categoria de quem cumpre sem protestos a
longa justaposição de letras maiúsculas, com um + a rematar. A quem acha que há
ali letras a mais, é preciso dizer que o que é próprio do género é a
proliferação e a invenção. O sinal + serve para dizer que a série tende para o
infinito e não há letras maiúsculas que cheguem, haverá sempre quem fica fora
da representação. Isto é novo? Não, foi sempre assim. Só que era quase tudo sem
nome.
https://www.publico.pt/2023/02/10/culturaipsilon/cronica/biografias-2038081
