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sábado, 29 de novembro de 2025

António Guerreiro - Dos debates aos comentários

* António Guerreiro~

Os debates na televisão entre os vários candidatos à Presidência da República seguem um modelo que se aproxima do stand-up. Mesmo que os candidatos nada façam para cumprirem os protocolos e as exigências desta forma de espectáculo, eles são coercivamente enquadrados nele e avaliados pelo grau de competência demonstrado na performance por um júri que representa o papel da opinião pública e encena uma versão abreviada daquilo que desde o Iluminismo se chama “espaço público”. O júri é composto por um conjunto de pessoas designadas como “comentadores” cuja tarefa é encerrar o espectáculo com os seus juízos críticos e apreciações quantificadas.

Neste modelo de debate procura-se um ganhador e um perdedor. E ganha sempre quem revela mais destreza na eloquência, quem consegue ter alguma habilidade para argumentar e um certo sentido da dialéctica (qualidades, aliás, cada vez mais escassas) naquele ambiente muito pouco favorável a tais realizações. Ali, muito embora pareça que se trata de política, a despolitização é a regra.

O júri cumpre um papel essencial: é ele que, em última instância, dá sentido às performances. Sem ele, o espectáculo da contenda ficaria incompleto e seria muito mais desinteressante. É preciso sublinhar o clash, promovê-lo, encontrar no discurso político um sentido agónico. As polarizações que caracterizam o ambiente político em que vivemos, os tropismos que fazem emergir os extremos, têm os seus utensílios retóricos reconhecidos e valorizados. São eles os mais valorizados e a eles recorrem com frequência os participantes nestes debates porque têm uma eficácia táctica. Esses instrumentos tácticos dominam os debates e asseguram a vitória a quem melhor se servir deles. E a táctica é o que os comentadores observam com mais facilidade, logo, o que garante nota alta.

Na época em que a crítica literária e da arte tinha adquirido uma enorme pujança, impôs-se a ideia de que os juízos sobre a poesia têm mais valor do que a própria poesia (e poesia vale aqui pela arte em geral). Hegel, nas suas lições de Estética, explica porquê: porque a obra de arte deixou de satisfazer as necessidades “espirituais” que nela tinham encontrado as épocas precedentes; e, por isso, na sua “suprema destinação”, a arte chegou ao seu fim. Assim é hoje com a política e o debate político: manifestações de um final de festa.

Em tempos de despolitização, o que tem algum valor e suscita o interesse da audiência são os juízos sobre os debates e as performances dos seus protagonistas. Os comentadores mostram, mesmo se não têm consciência disso, o estado de exasperação do discurso político. São convocados por um vazio que lhes coube em jeito de missão preencher. E são afectados pelo demónio da reversibilidade: eles comentam o discurso dos candidatos ou estes calculam o seu discurso para resultar num comentário? Quando a noção de época correspondia a um tempo histórico muito mais longo e a um “espírito” que a autonomizava e lhe conferia sedimentação, instituiu-se a ideia de que há períodos de decadência; e a proliferação do comentário seria a marca mais conspícua desses períodos (refiro-me, evidentemente, a um género de comentários cuja manifestação é uma literatura e uma filosofia secundárias). O barroco trans-histórico e os finais de século serviram com alguma verosimilhança essa ideia de decadência.

A desvalorização da linguagem política é o sintoma de uma doença, um mal-estar da democracia.

O conceito de pós-democracia, como sabemos, fez o seu caminho com alguma indefinição, mas, ainda assim, de maneira útil. Já estamos habituados a que, sempre que o prefixo “pós” se impõe como declinação de algo novo, mas que resulta de uma profunda inflexão do antigo, a certa altura se comece a pensar em modo “des”. É o que já está a acontecer com a democracia: a pós-democracia já começa a ser um conceito pouco útil e já há quem coloque a hipótese da “des-democracia” (devemo-la às análises da autoria da norte-americana Wendy Brown, professora de Ciência Política na Universidade da Califórnia).

A desdemocracia já se manifesta de outra maneira que não é a de um mal-estar da democracia: não é um mal infligido por causas exteriores, mas uma doença interna que decorre do seu desenvolvimento interior. A ascensão de sentimentos fascistas e o desejo autoritário, isto é, de uma ordem governada por uma personalidade autoritária (fazendo coincidir a política com uma psicologia), configuram uma desdemocracia em curso, uma democracia que se está a desfazer a partir do seu interior, num processo de degenerescência que faz nascer o desejo autoritário.

in Público, 28/11/2025

https://www.publico.pt/2025/11/28/culturaipsilon/cronica/debates-comentarios-2155997

sábado, 11 de maio de 2024

António Guerreiro - O jornalismo em extinção


Protesto de jornalistas do grupo português Global Media NUNO FERREIRA SANTOS

Crónica Acção Paralela 


“Estamos ainda em democracia?”. Esta pergunta tem uma especial incidência quando se pensa no que está a acontecer aos jornais e ao jornalismo.


* António Guerreiro

10 de Maio de 2024
 

A palavra “extinção” começa a aparecer com alguma frequência em artigos sobre a crise – em boa verdade, uma devastação – que atinge actualmente os jornais e o jornalismo.

Encontrámo-la recentemente nos títulos de dois diagnósticos desta situação nos Estados Unidos: um, publicado no final de Janeiro na revista Atlantic, assinado por Paul Farhi, que foi um importante repórter do Washington Post; outro, no mês seguinte, da autoria de Clare Malone, na The New Yorker.

Usando um acento catastrófico que uma prudente interrogação não consegue relativizar, ambos evocam a extinção como um horizonte plausível. O primeiro pergunta: “Is American Journalism Headed Toward an ‘Extinction-Level Event?’”; a segunda insiste quase com os mesmos termos: “Is the Media
 Prepared for an Extinction-Level Event?”. Não é ainda um requiem, mas está próximo.

O que se passa nos Estados Unidos, neste domínio, não é certamente muito diferente do que se passa na Europa, só que talvez num grau mais elevado e com algum avanço no tempo. O horizonte é o mesmo.

O que ficamos então a saber acerca do estado de coisas nos Estados Unidos, informados por estes e outros artigos sobre o mesmo assunto? Ficamos a saber que a hemorragia mais forte é a da imprensa regional: em média, todas as semanas morrem duas publicações e meia (jornais diários, semanários, mensais).

Num país tão extenso como os Estados Unidos, os jornais regionais tiveram sempre um papel importantíssimo e foram um factor fundamental dos equilíbrios democráticos e da vida cultural e comunitária. Quando esse espaço é ocupado pelas redes sociais, ficam à solta as teorias do complot, as fake news, os conteúdos gerados pela inteligência artificial que multiplicam a desinformação, o caos, o convite à passagem aos actos de violência. O ambiente de radicalização e pré-guerra civil que se vive nos Estados Unidos faz parte deste panorama que promove e alimenta a divisão e os extremismos.

Há uma pergunta que começa a ser posta e que leva a pensar os caminhos que estão a tomar as tradicionais democracias liberais: “Estamos ainda em democracia?”. Esta pergunta tem uma especial incidência quando se pensa no que está a acontecer aos jornais e ao jornalismo.

Alguns números fornecidos nos artigos citados: em 2023 foram eliminados nos Estados Unidos 21.400 postos de trabalho nos media tradicionais. Grandes jornais como o Los Angeles Times (que despediu mais de 20% da sua redacção) e o Washington Post não foram poupados. Este último teve no ano passado um défice de cem milhões de dólares. No entanto, tinha sido um dos que mais prosperou durante a presidência de Donald Trump. Como é sabido, o “espectáculo” Trump proporcionou aos jornais um festim permanente que lhes valeu um grande aumento de leitores.

O declínio dos meios de comunicação tradicionais já suscita esta pergunta formulada pela autora do artigo da New Yorker: “Estamos a assistir ao fim da era dos meios de comunicação de massa?”. Este declínio já começou há décadas, mas foi acelerado pela Internet, pela digitalização generalizada, pelas plataformas. As receitas publicitárias que garantiam o negócio dos jornais passaram a fluir na direcção de colossos como a Google. Quando deixa de ser possível sustentar o jornalismo como um negócio, muitas publicações usam um pseudojornalismo como operação de fachada para outros negócios e entram numa zona obscura.

De todas as “grandes regressões” que se deram desde o início deste século, esta é uma das mais velozes e contundentes. O seu efeito político é bem visível, no avanço de factores que levam à degradação do espaço público, ao enorme teor de conflito social e político, ao empobrecimento cultural. As noções de pós-verdade e pós-democracia assentam nestes terrenos onde vacila tudo o que dantes parecia seguro.

E assim estão criadas as condições para promover um mundo em que já nem serve a distinção entre o verdadeiro e o falso, nem faz apelo a uma ideologia dotada de uma coerência sistemática, como acontecia nos regimes totalitários do século XX. A mentira ideológica e a propaganda eram ainda uma peça da engrenagem da política moderna. Aquilo a que hoje se chama pós-verdade tem que ver com a hegemonia das novas fontes de informação e dos meios de produção e circulação de notícias, dados e visões do mundo que apelam à divisão e à violência, subtraindo-se a qualquer controlo editorial.

Perante isto, o jornalismo está a revelar-se tanto mais impotente quanto está obrigado a investir a sua energia na luta pela própria sobrevivência.

Livros de recitações


“Sempre achei que pedir desculpa é uma solução fácil”
Marcelo Rebelo de Sousa, referindo-se a um dos gestos de “reparação”

Da saúde mental do Presidente ou, pelo menos, da sua “irresponsabilidade”, a merecer que seja colocado sob condição de tutela, já muito se falou na última semana. E foram sobretudo os que faziam parte das suas hostes que lançaram as repreensões mais fortes. Mas, ao manifestar a sua reserva em relação ao “pedido de desculpa”, Marcelo bem intuiu que se trata de um gesto problemático. O pedido de desculpa parte de um pressuposto que, se não se cumprir, implica uma declaração de guerra: um país soberano que pede desculpa a outro coloca-o sob chantagem. Se este não aceita, se responde com o argumento do “imprescritível”, tal pedido desencadeia uma situação de hostilidade, também ela irreparável. E, no entanto, nenhum verdadeiro pedido de desculpa pode ter um carácter impositivo e não admitir resposta negativa, sob pena de acrescentar um outro dano àqueles que pretende reparar.


https://www.publico.pt/2024/05/10/culturaipsilon/cronica/jornalismo-extincao-2089557 

domingo, 10 de março de 2024

António Guerreiro – As sondagens: modo de usar

 CRÓNICA ACÇÃO PARALELA

* António Guerreiro

 7 de Março de 2024 

 

A política-espectáculo cresce à medida que diminui o poder político que se exerce no interior de um Estado que é cada vez menos soberano.

 

Um dos slogans inventados no Maio de 68, às vezes recordado como uma peça de arqueologia revolucionária, como muitos outros surgidos nesse tempo, desdenhava alegremente do acto essencial da afirmação da democracia: “Élections, piège à cons”. Traduzido em português nunca funcionaria porque perde a rima e o ritmo prosódico: “Eleições, armadilha para imbecis”.

 

Actualmente, não existe no espectro político nenhum extremo que ouse pôr em causa o formalismo democrático do voto. “Porquê votar?” não é pergunta que hoje se faça publicamente e com um alcance político programático. Em contrapartida, tem aumentado incessantemente os que se interrogam – “Em quem votar?” – até ao momento de colocar a cruz no boletim e os que, incapazes de decidir, engrossam as fileiras dos abstencionistas.

 

Os “indecisos” tornaram-se uma categoria decisiva. Por isso é que as sondagens, outrora tão fiáveis, se tornaram um deficiente instrumento de medição do resultado final. Podemos pressentir que se deu um fenómeno de inversão ou de reversibilidade: as sondagens, que dantes calculavam com precisão as intenções de voto sem interferir nelas de maneira significativa, tornaram-se um elemento que determina, em última instância, a escolha do eleitor. O eleitor informado toma as sondagens para calcular o sentido do seu voto.

 

Evidentemente, isso deu-se à medida que se multiplicaram as sondagens pré-eleitorais e que os cidadãos aprenderam a lê-las e a avaliá-las na sua dimensão performativa, isto é, enquanto acção pragmática. Mas tal aconteceu porque aumentou o voto estratégico que oscila em função das configurações da paisagem eleitoral, das posições dos partidos nos rankings. Isto significa que as sondagens, através deste processo de retroacção, entram ilegitimamente no jogo eleitoral? Se elas, afinal, são um instrumento do cálculo do eleitor e não a sua instrumentalização, então não devemos tirar essa conclusão. O problema está noutro lado: na modalidade do discurso político que engendrou este cidadão-termostato cuja acção é profundamente uma reacção.

 

Vivemos colectivamente (refiro-me ao espaço público mediático), durante estas últimas semanas, sob o primado da política dos políticos e da política dos media. A cena política, em momentos como este, transforma-se numa arena onde cada um exibe uma virtual potência de decisão em todos os domínios da sociedade. Sabemos, no entanto, que tanta vontade e preparação para fazer mil e uma coisas não passa de tagarelice por várias razões: porque quem chega ao poder governamental tem de se conformar com uma fraca soberania, só pode agir respeitando os poderes formais e informais das instituições europeias, das contingências internacionais do mundo globalizado (as guerras, as crises económicas, os ditames da grande finança mundial, etc.); porque a classe política, por mais que tenha a seu cargo a acção administrativa e gestionária, não consegue realizar o que propõe nos seus discursos porque se confronta com o condicionamento dos poderes burocráticos.


Há uma regra que não devemos esquecer: a política-espectáculo cresce à medida que diminui o poder político que se exerce no interior de um Estado que é cada vez menos soberano.

 

Este discurso funciona sob o signo da infantilização. Por todo o lado a política é vista como uma vulgata para crianças retardadas. E as campanhas eleitorais não são mais do que um simulacro. Mas talvez esta seja uma condição benévola: muito pior seria que não se cumprissem os protocolos para salvar as aparências que asseguram, apesar de tudo, alguma estabilidade do sistema.

 

Seria, no entanto, muito interessante saber em que acreditam verdadeiramente os protagonistas políticos, quando já estão fora do jogo eleitoral. Ao contrário do que se passa noutros domínios de actividade, este é um campo onde raramente se pratica o metadiscurso, o desdobramento reflexivo: há um pathos de primeiro grau que sobrevive e se torna duro como pedra em quem ocupou cargos políticos de relevo. Entre nós, Cavaco Silva ilustra com uma rara intensidade expressiva esta persistência do discurso naïf de primeiro grau.

 

Livro de Recitações

“Travar a crise climática não está na mesa de voto

Slogan do movimento máximo

 

Entre as várias razões que tornam inadequado e até contraproducente alguns aspectos do discurso e da acção destes “activistas” (tratarei de analisar em breve esse discurso) está o uso da expressão “crise climática”.

 

É certo que ela chega até nós mediada por muitas instâncias e entrou na linguagem corrente. Mas quem assumiu a missão – louvável e grandiosa – de alertar a opinião pública para este problema e levar os poderes políticos e económicos a agir de modo a interromper uma desastrosa corrida tem de começar por rejeitar a linguagem que neste campo é acriticamente usada e transmitida: a metáfora da “crise”, que até na política e na economia tem muitas vezes um objectivo de ocultação, revela-se pouco certeira para designar as alterações climáticas. As crises são momentos breves no curso das sociedades, correspondem a situações temporárias em que se dá uma perturbação do que antes dela era a normalidade.

 


A saída de uma crise implica, em maior ou menor grau, uma metamorfose. Ora, aquilo que é designado como “crise climática” afecta o receptáculo de todas as nossas actividades, não é uma “crise” particular e localizada.

 

 E, ainda mais importante, a temporalidade dos acontecimentos ambientais não tem nada que ver com a temporalidade das perturbações sociais e políticas que a palavra “crise” designa: trata-se de uma temporalidade que se situa numa escala geológica. 

  

sexta-feira, 22 de dezembro de 2023

António Guerreiro - Des-Natal é que é!

CRÓNICA ACÇÃO PARALELA


A “desnatalidade” talvez possa inspirar um des-Natal, um movimento de libertação desta “quadra” que nos convoca coercivamente.

António Guerreiro

22 de Dezembro de 2023, 10:20

É Natal. É tempo de falar de natalidade. Em Itália é um assunto na ordem do dia porque o “Inverno demográfico” transalpino é o mais frio de toda a Europa, que no seu conjunto já está em estado de “colapso demográfico” há algum tempo – de tal modo que, segundo os dados oficiais, em 1950 um europeu médio tinha 29 anos e hoje tem 43. A palavra “desnatalidade”, que designa o défice da taxa de nascimentos em relação à taxa de mortalidade, soa como um termo bizarro. Talvez ela possa inspirar um des-Natal, um movimento de libertação desta “quadra” que nos convoca coercivamente para uma mobilização total.

Ainda a Itália, o bel paese por antonomásia: há alguns anos, quando a taxa de natalidade já era baixa, mas ainda não tão “depressiva”, a Itália deitou-se no divã para analisar os sintomas patológicos advindos de ser um país de filhos únicos e produziu muita psicologia social. Desta “ciência” espontânea, impressionista, resultaram algumas conclusões como esta: ser filho único promovia a emancipação das raparigas (a quem, tradicionalmente, cabiam tarefas domésticas e o dever de se inclinarem perante as prerrogativas masculinas dos homens da família), mas tinha tornado os homens muito mais frágeis, uma fragilidade que eles tentavam superar com atitudes de macho mimado, de maridos insuportáveis que, uma vez divorciados, voltam a casa da mamma, de onde na verdade nunca saíram.

Agora, já não se trata da discussão sobre o “filho único” e as suas idiossincrasias, mas da inexistência de filhos: “Porque é que em Itália já não se fazem filhos?”, pergunta-se por lá com insistência. Até um filósofo como Giorgio Agamben (do qual pensamos que só se interessaria por estas questões demográficas na medida em que elas estão no centro da biopolítica contemporânea) escreveu na rubrica que mantém no site da editora Quodlibet um texto que é quase um obituário, logo no título “Finis Italiae”.

Nele se afirma: “Se existe na Europa um país em que alguns dados permitem certificar com sóbria precisão a data do fim, este é a Itália (...). A perdurar, este declínio [demográfico] conduziria em três gerações à extinção do povo italiano.” Quem leu os escritos de Agamben sabe que jamais ele lamentaria esse facto em chave nacionalista. Mas ele esclarece logo a seguir o que motiva o seu discurso lutuoso: “O que me entristece é a possibilidade perfeitamente real de que não exista mais ninguém para falar italiano, que a língua italiana se torne uma língua morta. Que ninguém mais possa ler a poesia de Dante como uma língua viva, como Primo Levi a lia em Auschwitz ao seu companheiro Pikolo.”

Evidentemente, os Outonos e as previsões de Invernos demográficos como o da Itália, em toda a Europa, não suscitam lamentos pela sorte que estará reservada a Camões (mas o português está a salvo: é falado noutras latitudes de elevada fecundidade, por enquanto) ou a Goethe (também nas questões demográficas a Alemanha já começa a fazer a sua “viagem a Itália”).

A preocupação é de outra ordem, consentânea com o “paradigma económico” que domina a política, mas também a vida dos indivíduos: a queda drástica da natalidade ameaça a estabilidade económica. E isso é suficiente para vê-la como um fenómeno crítico para o qual as economias não estão preparadas porque o seu motor tem uma lógica de funcionamento incompatível. Noutros planos que não o económico, a baixa de natalidade oferece-se a uma discussão sobre se é uma coisa negativa ou positiva.

A questão fundamental é assim formulada: se há cada vez menos nascimentos e cresce a população envelhecida, quem pagará, no futuro, os serviços de saúde e as pensões? Mas este modo de declinar o problema omite a sua raiz profunda: o capitalismo é uma religião do débito e cada criança que nasce já nasce endividada, isto é, com uma “culpa” original (quantas vezes se insistiu, desde a crise financeira de 2008, que a palavra alemã Schuld significa “dívida” e “culpa”?).

O débito público dos Estados e o débito privado são o pressuposto das actuais modalidades de sujeição e implicam uma garantia: que haja no futuro quem os pague. Evidentemente, este futuro, no caso do débito público (que nos transforma todos em sujeitos devedores e se apropria das nossas potencialidades individuais) é sem data. Por isso é que se diz que a dívida é para ser gerida, isto é, reproduzida, mas não saldada. Mas esta condição implica que haja a garantia de que a fábrica do homem endividado continue a produzir cada vez mais sujeitos devedores. Se a fábrica de fazer filhos pára, deixa de haver acumulação de “capital humano” à altura do investimento esperado. E dá-se o colapso.

Livro de recitações

“Estrangeiros contribuem sete vezes mais para a Segurança Social do que beneficiam”
In PÚBLICO, 18/12/2023

Usando a linguagem da economia utilizada no texto acima: à falta de “capital humano” e mão-de-obra nacional, importa-se o que não temos do estrangeiro. Esta notícia tem o efeito de contrariar alguns argumentos xenófobos e é potencialmente apta a que muitos mudem de ideias e a que todos saudemos a vinda de trabalhadores imigrantes. Mas devemos pensar para além deste factor pragmático: em última instância, este modo de ver tais trabalhadores é análogo ao modo de ver a cultura contra a qual Nietzsche se insurgiu. “Se acreditarmos que a cultura tem uma utilidade, acabamos por confundir o que é útil com a cultura.” Se os imigrantes são vistos exclusivamente à luz da sua contribuição para salvar o nosso “paradigma económico”, eles ou são “paradigmáticos” ou são considerados excedentes, supranumerários sem valor.

https://www.publico.pt/2023/12/22/culturaipsilon/cronica/desnatal-2074216


sexta-feira, 1 de dezembro de 2023

António Guerreiro -- A política e o grotesco

 CRÓNICA ACÇÃO PARALELA

As televisões adoram congressos partidários. O líder representa um papel de clown e suscita dos seus adversários respostas igualmente clownescas.

António Guerreiro

1 de Dezembro de 2023, 10:30

As televisões adoram congressos partidários e os congressistas adoram as televisões. Tão grande amor estaria condenado a desvanecer-se se não fosse estimulado por um imaginário erótico comum, que a ambos excita. A fonte da excitação não é sempre a mesma, muda com o tempo, de congresso para congresso, de partido para partido.

No congresso do PSD, a grande fonte de excitação a alimentar uma demagógica dilatação e endurecimento do discurso do líder foi o grotesco. Entendo aqui por grotesco a atitude e o discurso que, numa versão ainda tímida, ensaiam uma mimese da carnavalização da política, tal como ela tem sido exercida por uma nova categoria de políticos-palhaços que conquistaram a governação em vários países: o último da série, aquele que eleva o grotesco ao seu mais alto grau, é o recém-eleito Presidente da Argentina. Essa atitude clownesca não se manifesta só no discurso, mas também numa gestualidade patética.

Ainda não temos isso por cá, mas, tal como muitas outras coisas de que nos orgulhávamos de não ter acabaram por chegar atrasadas e em força, já ouvimos os seus passos ao longe, a correr para nós. Uma das aproximações do grotesco deu-se neste fim-de-semana, num cenário de espectáculo: o congresso. Aí, o líder proclamou perante o seu auditório, mas para que todo o país ouvisse (a relação amorosa com a televisão e os media em geral é, por definição, pública), que “o mais fanático defensor do gonçalvismo” se chama “camarada Pedro e tem uma Cinderela chamada camarada Mortágua”. E disse mais coisas no mesmo tom.

Entramos assim em pleno domínio do cómico. O líder representa um papel de clown e suscita dos seus adversários respostas igualmente clownescas. Talvez ele se tenha convencido de que representar esse papel é produtivo e eficaz na comunicação fusional com os eleitores. Mas se já se impôs a alguns líderes políticos esta convicção é porque nos estamos progressivamente a aproximar do mundo tirânico da palhaçada, à espera de que se instale definitivamente o que um escritor e ensaísta francês chamado Christian Salmon caracterizou e analisou como “poder grotesco”, em expansão.

Este poder grotesco faz parte da mesma constelação a que pertence a vaga de violência, vinda sobretudo da extrema-direita, que se está a difundir por todo o lado. Há um processo assustador de regressão em curso, de comportamentos colectivos já excluídos da nossa “civilização” e contra os quais nos julgávamos imunizados, que tem dado azo a analogias com o percurso que conduziu aos fascismos. Estas comparações entre épocas históricas diferentes merecem sempre muitas reservas, mas também incitam a muitas cautelas.

Ousei escrever a palavra “civilização” não para a opor, como se faz muitas vezes, à barbárie (na verdade, já Burckhardt, o historiador suíço, mostrou, no final do século XIX, que tal oposição era destituída de pertinência), mas para lembrar uma palavra de que o Presidente francês Emmanuel Macron se serviu, num discurso pronunciado no final de Maio, para fazer um diagnóstico da “doença” que, segundo ele, está a afectar não apenas a França: décivilisation. Tal palavra suscitou um enorme interesse e imediatamente toda a imprensa foi procurar a sua origem. Não foi difícil: ela vem do sociólogo Norbert Elias, o autor de O Processo Civilizacional, que no seu último livro, publicado em 1990, pouco antes da sua morte, estudou a emergência do nazismo, na Alemanha, como uma ruptura no processo da civilização (esse processo de progressiva pacificação do espaço social, desde o final da Idade Média). Esses “estudos sobre os alemães” (assim reza o título do livro) pode ser classificado, no seu género, como uma psicologia histórica. É aí que Norbert Elias dedica um capítulo ao “colapso da civilização”, à “descivilização” (Entzivilisierung).

Acontece, porém, que essa palavra já tinha servido, em 2011, para título de um livro do escritor de extrema-direita Renaud Camus, o autor da teoria xenófoba da “grande substituição” a que, segundo ele, está a ser submetida a “civilização” francesa. As críticas que então foram então feitas a Macron lembravam que a palavra tinha acumulado um outro sentido que não era o do estudo de Elias. Ela vinha carregada com um sentido que, no fundo, legitimava a vaga de violência e a emergência das sombras negras que pairam sobre a Europa e o mundo. O grotesco, para além dos líderes partidários e congressos, é a inclinação funesta deste nosso tempo.

Livro de Recitações

“Assassinadas 25 mulheres em Portugal até 15 de Novembro”
In PÚBLICO, 22/11/2023

Para este crime, não há ainda um nome fixado para o designar: ora se escreve “femicídio”, ora se escreve “feminicídio”. Mas esta hesitação no nome significa que tal crime só recentemente foi categorizado. “Homicídio”, que poderia designar o assassínio dos homens pelas mulheres, designa o assassínio de qualquer ser humano, independentemente do género (oh, a universalidade masculina!). E parece que rara é a utilização da palavra “androcídio”.

Trata-se pois de um problema que tem a sua origem quase exclusivamente no universo masculino. Esta doença que leva os homens a matar as mulheres, quase sempre por ciúmes e porque acham que só as aniquilando redimem a perda do poder de propriedade sobre elas, é um flagelo em todo o lado.

Por estes dias, um crime hediondo de “feminicídio” tinha sido perpetrado em Itália por um “bravo ragazzo” de 22 anos, de boas famílias, o que pôs muitos cronistas, nos jornais, a dissertar sobre a masculinidade, sobre as suas fraquezas que se manifestam na prática de crimes hediondos, às vezes seguidos de suicídio. Mas porque é que eles não decidem suicidar-se antes de matar?

 https://www.publico.pt/2023/12/01/culturaipsilon/cronica/politica-grotesco-2071843


sábado, 23 de setembro de 2023

António Guerreiro - O computador, um espírito absoluto

CRÓNICA ACÇÃO PARALELA

Heidegger sobre a cibernética: “Tudo funciona, é precisamente esse o problema. Tudo funciona e cada novo funcionamento subtrai cada vez mais o homem à terra”.




António Guerreiro

22 de Setembro de 2023

As histórias que mostram os caprichos da reversibilidade são sempre muito interessantes: o cão põe-se a salivar porque está condicionado pelo dono, pelos gestos e actos que o animal reconhece como o protocolo que anuncia a sua refeição, ou é o cão que aprendeu a condicionar o dono, ao perceber que, salivando, obtinha dele a resposta desejada? Quem tem animais domésticos conhece muito bem este mecanismo: tornamo-nos amostras de uma experiência pavloviana.

inteligência artificial, ao atingir a rapidez e o grau de sofisticação dos chatbots, faz-nos perceber que é preciso tornar reversível o modo tradicional de entender a relação entre os computadores e o cérebro: não é o computador que imita a operação do pensamento humano, mas é o pensamento que imita o computador. E a vida imita a informática.

Entramos assim no coração de uma ontologia digital: a informática já é um mundo em si, uma segunda natureza, mais próxima de um organismo, dotado de um princípio em si mesmo, do que de uma mecânica funcional. A informática parece dotada não apenas de uma inteligência, mas de um “eu” reflexivo e de uma vontade. Há quem ache isto maravilhoso; há quem ache assustador; há quem ache as duas coisas simultaneamente; há a tecnofilia e a tecnofobia, ambas em doses superlativas; há a celebração da inteligência e a convicção de que a estupidez cresce, como o deserto. Tudo isto dá forma ao mundo em que vivemos.

Na célebre entrevista que deu em 1966, dez anos antes de morrer, à revista Der Spiegel, o mais ilustre e influente tecnófobo do século XX, Martin Heidegger, interrogado sobre o fim da filosofia e sobre o que viria ocupar o lugar dela, respondeu: “a cibernética”. E, ao argumento da eficaz funcionalidade de que a cibernética dava provas, Heidegger respondeu: “Tudo funciona, é precisamente esse o problema. Tudo funciona e cada novo funcionamento subtrai cada vez mais o homem à terra”.

Uma coisa tinha ele intuído com grande lucidez: que estávamos antrar numa época “pós” (que a informática, mais do que a cibernética, veio inaugurar), ainda que na altura estivesse distante este nosso mundo completamente produzido sob a condição informática. Poucos anos depois, o “pós” iria conhecer uma grande variedade de declinações e tornar-se um emblema epocal. De todas essas declinações, a mais popular foi a do fim da história, compreendida como a última palavra de uma democracia liberal instituída universalmente e, portanto, sem a contraposição de um outro horizonte. Tratava-se de uma interpretação, em chave actual e política, da ideia hegeliana de “fim da história”, do momento em que se realizaria o espírito absoluto e toda a negatividade estaria suprimida.

Sabemos muito bem que esta ideia de fim da história, actualizada como triunfo universal do modelo da democracia liberal, depois da queda do Muro de Berlim, foi convicção de pouca dura e não houve tese tão desmentida por tanta gente e com tanta insistência como esta. Parece que o fim da história se parece muito mais com a sociedade da informação, com a hegemonia da inteligência artificial. Talvez a intuição de Heidegger se tenha revelado muito mais certeira do que se pensava. E o que é que se pensava? Que ele, levando a sua tecnofobia ao exagero, tinha apontado a cibernética como aquilo que vinha destronar a filosofia.

Ora, estamos hoje a assistir a um coro quase universal (onde se juntam tecnófobos que não ousam dizer o seu nome aos que manifestam razoáveis e lúcidos temores que só os insensatos não têm) que se ergue ante a iminência de não ser apenas a filosofia a ser destronada. Artistas, escritores, tradutores, actores: todos se sentem hoje à beira de serem destronados e de os seus bons ofícios se tornarem excedentários. Esta nova condição epocal, sendo a mais próxima que já alguma vez nos encontrámos da situação “pós”, tem uma capacidade formadora: institui uma nova forma de vida. Afinal, o fim da história não é aquilo que se pensava. Há até quem fale de uma “informática celeste” (é o caso do filósofo francês Mark Alizart, que tem um livro com esse título) porque ela determina a “situação espiritual do nosso tempo”, como se dizia nos inícios do século passado.

Já está em curso nalgumas escolas (e noutras está em estudo) a proibição do uso do telemóvel pelos alunos porque se quer evitar (vá-se lá saber como!) que a informatização do humano seja o correspondente simétrico da humanização dos computadores, das máquinas que já começam a dizer “Eu”, que se fabricam a elas próprias e produzem uma imagem de si. Agora sim, chegou o admirável mundo novo.


Livro de recitações

Nos manuais elementares de jornalismo, diz-se que não é notícia um cão morder num homem. Mas se um ninho de vespas desfere um ataque a um bando de estudantes nas suas negras cerimónias iniciáticas, de tal modo que obriga a intervenção dos bombeiros, do Instituto Nacional de Emergência Médica, da PSP e do Serviço Municipal de Protecção Civil, como relata o Expresso, então temos notícia e até motivo para uma proposta modesta: o doutoramento honoris causa, já, para as inteligentes vespas, por terem sabotado as praxes como nunca antes ninguém tinha conseguido. É bem-sabido que nem tudo nas praxes é inteligente, alegre e indolor. Mas o saber destes insectos, no modo como leram e levaram à letra o enunciado estudantil da praxe, merece o louvor e o reconhecimento da instituição da qual se exige a tarefa de “inocular” os alunos com o seu “veneno”, que, como todo o pharmakon, cura e mata.


https://www.publico.pt/2023/09/22/culturaipsilon/cronica/computador-espirito-absoluto-2063912

sábado, 9 de setembro de 2023

António Guerreiro - A mais bela profissão do mundo

CRÓNICA ACÇÃO PARALELA  

* António Guerreiro

8 de Setembro de 2023

A escola perdeu os atractivos da beleza e ganhou a imagem de um cúmulo de deficiências e problemas.

A escola é cada vez mais esmagada pelo peso das ansiedades NELSON GARRIDO

Reinício do ano lectivo, tempo de examinar as doenças da escola e sondar o mal-estar dos professores. Um jornal, com vocação crítica desde o seu nascimento, fala da “crise dos professores” e analisa as causas do desinteresse pela “mais bela profissão do mundo”. As aspas, não sou eu que as coloco por estar a citar o dito jornal; é o jornal que se encarrega, através das aspas, de dizer que está a citar uma frase que nos foi transmitida pela tradição. Mas neste caso as aspas também significam outra coisa: que a expressão já não pode ser dita sem recuo, e só um ingénuo ousaria repeti-la sem aspas. A “mais bela profissão do mundo”, é dito logo no início do artigo, deixou de ser interessante e, por isso, atrai cada vez menos candidatos e provoca cada vez mais o abandono dos que nela entraram, por causa de condições de trabalho cada vez mais difíceis e uma remuneração pouco atractiva.

O jornal em questão não é português, é francês, chama-se Libération e analisa o estado da “Éducation nationale”, o mito republicano por excelência. Mas também podia ser um jornal português, espanhol, italiano, alemão (sim, até a escola alemã se debate com uma imensa falta de professores e uma degradação das condições de trabalho que leva muitos a abandoná-la). A escola, a mais bela instituição do mundo (sem aspas), ainda que as suas práticas tenham sido tantas vezes criminosas, perdeu os atractivos da beleza e ganhou a imagem de um cúmulo de deficiências e problemas.

Como toda a gente passou pela escola, toda a gente tem qualquer coisa a dizer sobre ela. Mas em Portugal ninguém sabe muito bem o que se passa no seu interior, é tudo exterior.

Há pouco tempo, um estudante italiano, tendo concluído o exame de maturità que dá acesso à Universidade, escreveu um testemunho cruel da sua experiência, publicado num jornal. Por cá, estamos a precisar deste tipo de testemunhos, tal como precisamos de um discurso dos professores mais analítico, não exclusivamente centrado sobre questões sindicais e as condições pragmáticas de trabalho (por mais legítimo que seja este discurso, ele é insuficiente).

É esta falta que me convida aqui a falar de dois livros, de uma grande escritora francesa, Nathalie Quintane, que é professora de um collège há mais de 30 anos (no sistema de educação francês, o collège corresponde ao ciclo de estudos que se segue aos quatro anos de ensino básico, abrange, portanto, os alunos dos 11 aos 15 anos). Trata-se de Un hamster à l’école e de J’adore aprendre plein de choses. No primeiro, o de maior fôlego (mas o segundo é talvez mais maldoso e sarcástico), Nathalie Quintane faz um retrato da “Éducation nationale”, num texto que é um longo poema em verso livre, narrativo, entre autobiografia e reflexão, que atravessa os seus anos de aluna e os de professora. O género e o discurso nada convencionais deste texto justificam-se inteiramente: para criticar a instituição escolar é preciso inventar uma língua que é estranha à instituição escolar.

A metáfora do hamster que corre para lado nenhum, fazendo mover uma roda que está sempre no mesmo sítio e que atinge uma tal velocidade que os seus raios até produzem uma ilusão óptica, serve para traçar a imagem de um trabalho repetitivo e absurdo, submetido a um ritmo infernal que tem a lógica do círculo vicioso: é um movimento circular que não vai a lado nenhum, que tem um fim em si mesmo (“Se soubessem o número de reuniões e de formações inúteis a que tivemos direito desde há quinze anos [...]”). É, em suma, uma máquina de esvaziar sentido, de treinar os alunos a dominar códigos. Um hamster movendo a roda a grande velocidade: é assim que esta professora se sente, concentrada sobre os efeitos de óptica que produz. Nos momentos em que emerge deste turbilhão, vê a escola como uma violenta experiência de estranheza que lhe dá a sensação de nunca estar no seu lugar. E, numa entrevista a uma revista francesa, declarou: “Não há uma alteração da profissão de professor, há uma liquidação.”

O diagnóstico desta liquidação não se compadece com aquele discurso piedoso que implora a restauração da autoridade professoral. É um diagnóstico muito mais fino e complexo, que Nathalie Quintane não resume a algumas proposições, a teses, a propostas salvíficas. E se o livro nos faz compreender com grande evidência que a escola é cada vez mais esmagada pelo peso das ansiedades que se sobrepõem em estratos e recaem sobre os alunos (a dos pais, a dos professores, etc.), tudo nele é muito mais subtil do que as explicações sociológicas e psicológicas. Não é um livro de tese, é um texto literário.

Livro de recitações

“A tauromaquia atravessa uma fase de franco declínio, a roçar a extinção nos anos da pandemia de covid-19.” In Expresso, 27/08/2023

O declínio da tauromaquia de que se fala neste artigo acontece em Espanha, no país da “festa brava”, como se dizia em tempos. Tal notícia faz-nos perguntar: mas as touradas não são hoje uma actividade quase clandestina, cultivada por um grupo estrito que tem cada vez mais dificuldade em mostrar a sua “cultura” sem suscitar o desprezo e a reprovação, exercida como um ritual secreto, tão longe dos olhares públicos como os matadouros? Em boa verdade, a tourada já só subsiste como espectáculo que, fora do ambiente anacrónico que o sustenta, deixou de ser uma coisa tolerável. Intolerável não é apenas o espectáculo nas praças. É todo o habitus que germinou neste universo classista de enraizamentos cruéis.

https://www.publico.pt/2023/09/08/culturaipsilon/cronica/bela-profissao-mundo-2062325

sábado, 12 de agosto de 2023

António Guerreiro . Deus ex Media

 * António Guerreiro

CRÓNICA ACÇÃO PARALELA  

11 de Agosto de 2023 (Público)

A relação entre os media e a religião, ou antes, entre os media e o catolicismo romano, é um ângulo de análise imperativo para perceber o acontecimento da Jornada Mundial da Juventude. Ali, até os confessionários foram concebidos e “instalados” (no sentido em que se fala de uma instalação artística) para serem telegénicos e resultarem numa “bela” exibição fotográfica e televisiva: eis o eloquente emblema da negociação entre o público e o privado, em que o primeiro goza de grandes vantagens. Esta mediatização, de preferência sob a forma da televisualização, é um fenómeno aceite e promovido nas cerimónias cristãs, mas não é uma prática judaica nem islâmica.

O filósofo Jacques Derrida dedicou a este assunto uma longa intervenção, num colóquio em Paris, em 1997, que teve por título “Surtout pas de journalistes!” (“Sobretudo nada de jornalistas!). Tal injunção, imagina Derrida recorrendo a uma óbvia anacronia, teria sido aquela que Deus, do Velho Testamento, inculcou tacitamente em Abraão, quando o mandou subir ao monte onde deveria sacrificar Isaac, o seu único filho. Para designar o fenómeno fundamentalmente cristão da mundialização televisiva da religião, Derrida engendra um neologismo que evoca a sede romana: “mundialatinização”. No entanto, esta “mundialatinização” está sempre ligada, na sua produção, a fenómenos nacionais. Isso tornou-se muito óbvio na Jornada Mundial da Juventude, em Lisboa. Derrida sugere até que o tão famoso “regresso do religioso” tem de ser avaliado e compreendido em função destas manifestações eminentemente mediáticas.

Como não podia deixar de ser, há um preço a pagar por isto, que a televisão, sobretudo, cobra com juros altíssimos. Consistem esses custos no triunfo do Kitsch. É conhecida uma frase do gramático Pierre Fontanier (1765-1844), no seu tratado sobre as figuras do discurso, sobre os tropos, onde ele diz, ecoando uma afirmação de Boileau, que se produzem mais figuras de estilo, num só dia, no mercado parisiense de Les Halles, do que em toda a Eneida. Do acontecimento religioso da semana passada podemos dizer o mesmo: produziu-se mais Kitsch, em Lisboa, durante uma semana, do que em décadas de produção literária e artística.

Kitsch monumental esteve bem patente nos palcos-altares e em toda a parafernália para ser tele-vista. Quem conhece os gostos e os instrumentos do Kitsch ideológico, encontrava ali material para frutuosas comparações. Mas se quisermos analisar o acontecimento quanto ao fluxo de Kitsch produzido, temos de ir além da concepção tradicional que vê esse conceito por um prisma meramente estético que usamos para identificar os objectos de uma arte de massa, estereotipada, de “mau gosto”. Devemos uma noção de Kitsch muito mais alargada, que não se fica pelas propriedades formais de certos objectos, ao escritor vienense Hermann Broch, que foi ao ponto de elaborar filosoficamente o que seria o Kitsch como “modo de vida”, abrindo assim essa noção ao registo mais vasto da atitude existencial e a um tipo de actividades e experiências humanas. Aquela emoção estética a que assistimos, a satisfação emocionada com que cada imagem, cada testemunho, cada relato, cada comentário, cada citação, diziam uma única coisa, “vejam como é belo e emocionante!”, é um gesto que consiste em olhar-se ao espelho do embelezamento, fazendo surgir imediatamente a mentira do Kitsch.

Este “vejam como é belo!” ou “vejam como nos satisfazemos de emoção pela emoção que nós próprios produzimos” é uma ilustração perfeita do modo como Broch definiu o Kitsch: a subversão da ética pelo efeito estético. Não é o acontecimento em si que é Kitsch, não estou a sugerir que um acontecimento religioso como aquele que teve lugar em Lisboa tem, em primeiro lugar, um vínculo necessário com o Kitsch.

Kitsch é a sua encenação, o modo como ele é produzido e reproduzido pelos media, isto é, o discurso e as imagens de segundo grau que ele engendra e que, muito embora fazendo parte da lógica da mediatização cristã, muito facilmente vão para além dos seus próprios fins. Há momentos em que o Kitsch se pode tornar uma coisa nauseabunda e é difícil imaginar que a própria hierarquia da Igreja não o reconheça e não se sinta incomodada por ela. A vida Kitscht visa fazer coincidir a esfera do ideal com a esfera da realidade, aquilo a que Broch chamou “a ligação entre o céu e a terra”. Momentos desses, sobretudo nas televisões, fluíram ao longo da semana numa torrente imparável. Foi um dilúvio.

Livro de recitações

“Cada um fala a sua língua, mas entendemo-nos todos porque é a linguagem do amor”
In Expresso online, 3/08/2023

Tomo, um pouco ao acaso, este título de uma breve reportagem do Expresso onde se citam as declarações de um “peregrino” a uma jornalista. Kundera, que seguiu a lição de Hermann Broch, para a analisar o “Kitsch ideológico” dos regimes totalitários, concluindo que no mundo idealizado do Kitsch “a merda não existe”, deu este exemplo: uma criança a correr feliz atrás de uma bola num prado florido não tem em si nada de Kitsch. O Kitsch nasce a partir do momento em que alguém diz ou representa assim esse acontecimento: “Vejam como é belo uma criança a correr atrás de uma bola num prado florido!”. Este redobramento, que visa relatar uma verdade emocionante, através do embelezamento, da mentira da linguagem emocional estereotipada e portanto induzida, é aquele que podemos ver neste título (a não ser que ele tenha um sentido irónico), que é apenas uma gota no vasto oceano do Kitsch produzido ao longo de uma semana pela

https://www.publico.pt/2023/08/11/culturaipsilon/cronica/deus-ex-media-2059609

sexta-feira, 23 de junho de 2023

António Rodrigues - O brilho da civilização ocidental é apenas verniz e está estalado

4 ESQUINAS
O brilho da civilização ocidental é apenas verniz e está estalado
O mundo que se conta a partir do que se diz.

* António Rodrigues
23 de Junho de 2023, 7:00


“Não éramos nada. Éramos apátridas. Estávamos entre dois mundos como o nosso barco, navegando para trás e para a frente entre dois continentes. Um dos mundos tinha-nos rejeitado; o outro não nos quisera quando tanto precisávamos da sua ajuda.” Margot Friedlander, antiga refugiada judia

Holandês voador
A União Europeia não tem uma missão europeia de salvamento no Mediterrâneo. Cada país costeiro ou insular é responsável pelas operações de ajuda na sua área. E a coordenação entre as guardas costeiras dos diferentes países é, no mínimo, deficitária. Além do mais, há suspeitas de que cada um dos países tenta postergar ao máximo a sua intervenção para ver se o problema cai no colo do seu vizinho, livrando-o do trabalho. No caso da traineira que afundou na semana passada ao largo da costa grega, os indícios apontam para isso.

O eurodeputado Pietro Bartolo tentou fazer passar no Parlamento Europeu (PE), no princípio desta legislatura, uma resolução para criar um serviço de busca e salvamento europeu, mas, estranhamente, a proposta acabou chumbada por dois votos. “Tive uma pena que tal tivesse acontecido, mas garantidamente a Europa tem de fazer alguma coisa”, disse Bartolo à Euronews, durante a visita esta semana de uma delegação do PE à ilha italiana de Lampedusa, o território europeu geograficamente mais perto de África.

O segundo pior naufrágio de migrantes na história recente do Mediterrâneo, em que terão morrido mais de 500 pessoas, grande parte delas mulheres e crianças, já foi, entretanto, abafado mediaticamente pela caça ao submarino de turismo para ricos que desapareceu no Atlântico Norte, e é pouco provável que o seu impacto venha a alterar a política europeia em relação aos desesperados que arriscam a vida para chegar a um qualquer bom porto que os receba.

O que Bruxelas parece desejar mesmo é que a questão desapareça por si só ou que as embarcações dos traficantes de seres humanos sejam condenadas, como o filibote do capitão Vanderdecken da lenda do holandês voador, a errar pelos mares sem nunca chegar a terra.


A civilização é cruel
A Austrália tem uma história de colonização faroestiana no far east, que é como quem diz, aplicou a lei do mais forte sem escrúpulos desde o estabelecimento da primeira colónia europeia, a 26 de Janeiro de 1788, em detrimento dos autóctones que tiveram de esperar dois séculos para começarem a ver alguns dos seus direitos reconhecidos.

Mas nem os condenados ao degredo com que no século XVIII se começou a colonização mereciam o tratamento que o actual Estado australiano concede a Hamid, um refugiado iraniano que tentou alcançar a costa da Austrália e foi enviado para o Centro de Processamento Regional de Nauru, inaugurado em 2001 para lidar com os migrantes que procuram asilo no país.

Camberra estabelecera como política que nenhum dos migrantes detidos a tentar chegar à Austrália poria um pé no seu território, mesmo aqueles com direito ao estatuto de refugiado de acordo com o direito internacional. Algumas centenas conseguiram ir para os Estados Unidos e a Nova Zelândia chegou a oferecer-se para receber 150 por ano, oferta recusada pelos australianos.

Hamid passou nove anos em Nauru, detido como outros, por tentar alcançar uma vida melhor. Em 2019, separaram-no dos seus dois filhos adultos; em Fevereiro deste ano, levaram-no para Brisbane, na Austrália. Segundo o Refugee Action Group, enquanto a maioria dos migrantes transferidos de Nauru são libertados ao fim de uma ou duas semanas (desde que o Governo trabalhista assumiu o poder, já só restam 13 detidos no centro de processamento), Hamid foi mantido confinado num hotel durante meses até ser transferido para um centro de detenção a 7 de Junho.

“Não sou um criminoso. Não vim para a Austrália ilegalmente”, disse à emissora neozelandesa RNZ. “Querem matar-me gradualmente com tortura mental”, acrescenta. “Libertam toda a gente à minha frente. O que é isto ao fim de dez anos? Depois de dez anos, puseram-me num centro de detenção com uma data de criminosos. O que é isto? É tortura.”

Há gerações e gerações
Esta quinta-feira passaram 75 anos da chegada do navio HMT Empire Windrush às docas de Tillbury, no Essex. Os 492 migrantes que desembarcaram provenientes de países das Caraíbas marcavam, sem saber, o princípio da história do Reino Unido moderno, marco de um movimento migratório que nos 25 anos seguintes chegava para ajudar à reconstrução do país das ruínas da II Guerra Mundial e que haveria de moldar a nova Albion a partir do seu império desmembrado.

A chamada geração Windrush abarca o movimento migratório que chegou ao país entre 1948 e 1971, incentivada pela necessidade de mão-de-obra do Estado britânico. Muitos deles, conta a BBC, tornaram-se trabalhadores manuais, condutores, empregados de limpeza e enfermeiros no Serviço Nacional de Saúde (SNS), que dava os primeiros passos.

O primeiro-ministro, Rishi Sunak, sublinha essa ligação na sua mensagem a assinalar a data: “Desde salvar as nossas vidas no nosso magnífico NHS e criando e liderando prósperas empresas até representar o Reino Unido no cenário mundial como atletas profissionais, a Geração Windrush e os seus descendentes têm sido parte integrante do tecido social, cultural e histórico do Reino Unido.”

Palavras de circunstância de um governo britânico liderado por um filho de imigrantes indianos provenientes da África Oriental e que tem na ministra Suella Braverman, cujos pais vieram do Sul da Ásia, a maior defensora do envio de migrantes para o Ruanda enquanto aguardam pela resolução dos seus pedidos de asilo no Reino Unido.

Como escreve o activista e jornalista comunitário Chaka Artwell, filho de imigrantes caribenhos, no único comentário à mensagem de Sunak publicada no The Voice, “historicamente, o primeiro-ministro e os seus militantes e eleitores do Partido Conservador têm feito de tudo para prejudicar, minar e excluir os filhos da Geração Windrush”.


“Não se esqueçam”
Aos 101 anos, Margot Friedlander continua a honrar os mortos do Holocausto dando significado à sua existência. A mãe e o irmão morreram no campo de extermínio de Auschwitz, depois de Estados Unidos, Reino Unido e Xangai (onde aportaram 30 mil refugiados judeus durante a década de 1930) se terem sistematicamente negado a conceder vistos à família para fugir da perseguição nazi.

Sobrevivente do campo de concentração ou gueto de Theresienstadt, esta judia nascida em Berlim, que em 1946 haveria de embarcar para Nova Iorque como refugiada com o marido (voltou aos 88 anos para a sua terra depois da morte dele), continua ainda hoje a honrar o pedido que a mãe lhe deixou quando foi levada para Auschwitz: “Tenta fazer algo da tua vida.”

Apesar de ter construído uma vida na América, nunca sentiu que aquela fosse a sua pátria. Nem ali, nem em nenhum outro lado. A sua pátria “está no passado; num país que já não existe”, contava ao site da Unicef na terça-feira, Dia Mundial do Refugiado.

Nem o facto de ser já centenária a impede de ter uma agenda preenchida. Falando com alunos nas escolas, participando em leituras ou em palestras, Margot Friedlander conta a sua história, a da sua família e a dos outros judeus que morreram no Holocausto, todos os dias para que o esquecimento não nos faça pensar que a barbárie nazi é, como a sua pátria, uma coisa do passado – nem que os nazis foram uma excepção na “banalidade do mal”.

“Não falo por mim. Falo pelos que não podem falar, e não só pelos seis milhões de judeus, mas por todos os que não conseguiram. Não se esqueçam destas pessoas. Eram seres humanos. Somos todos seres humanos, o que nos resta sem a nossa humanidade?”

tp.ocilbup@seugirdor.oinotna 

https://www.publico.pt/2023/06/23/mundo/cronica/brilho-civilizacao-ocidental-apenas-verniz-ja-estalou-2054329?f 

sexta-feira, 21 de abril de 2023

António Guerreiro - O algoritmo diabólico,

Crónica Acção Paralela  -  

* António Guerreiro  

21 de Abril de 2023

A ideia de que se começa pela junk fiction e se evolui na exigência até que um dia se chega ao Joyce é uma piedosa invenção que até os “agentes culturais” difundem com alegria.

Através de artigos e reportagens que, nos últimos tempos, surgiram na imprensa (inclusivamente neste jornal), ficámos a saber que os jovens, por meio do TikTok, contribuíram de maneira significativa para o aumento das vendas de livros, provocando algum entusiasmo na indústria editorial. Este fenómeno não tem fronteiras e há já algum tempo que foi identificado em vários países. A sua história vem de trás, mas acelerou e ganhou mais força com o lançamento, em 2017, do TikTok, uma rede social que está a meio caminho da plataforma de conteúdos do tipo Netflix.

Esta rede vinda da China instaura uma mistura complexa que se situa entre o privado e o público e revelou-se muito apta para a produção de tendências e de códigos tribais, na medida em que oferece um uso mais passivo do que as outras redes sociais e potencializa a lógica da “viralidade”. Tornou-se assim um instrumento poderoso na relação dos jovens – os seus utilizadores preferenciais – com o mundo. O algoritmo do TikTok tem a fineza de identificar com sofisticação analítica os interesses de cada um, os medos e obsessões, categorizando assim uma personalidade nos seus aspectos mais privados, fornecendo-lhe o que se adapta a ela, quase entrando na intimidade dos utilizadores. É um algoritmo capaz de encadear uma série ultrapersonalizada de vídeos (TikTok é uma rede que incita a criar vídeos e a fazer deles o motor da máquina) e recomenda-os “para ti”, de maneira ininterrupta. Tem, por isso, um forte poder adictivo.

De um modo geral, as reportagem e artigos sobre o TikTok enquanto factor adjuvante da indústria do livro têm um tom optimista e de entusiasmo: porque se vendem mais livros e porque os jovens são incitados à leitura. É certo que em nenhum momento alguém diz que os influencers do TikTok e outras redes promovem a leitura de grande ou mesmo da pequena literatura. Mas a ideia, por mais que ela já tenha sido desmentida em muitos estudos, de que se começa pela junk fiction e se evolui na exigência até que um dia se chega ao Joyce, é uma piedosa invenção que até os “agentes culturais” difundem com alegria. Até parece que não há pelo menos uma pequena questão a atravessar-se no caminho: o livro, que desde a invenção da imprensa foi visto como um medium glorioso que alimenta o nosso poder reflexivo e, por isso, é um factor de liberdade e emancipação, encontra-se assim projectado num mundo organizado pelos algoritmos.

É verdade que seria muito ingénuo manter hoje uma concepção do livro que herdámos do Iluminismo. Essa concepção pertence ao passado. Mas a cegueira em relação às consequências da algoritmização é ainda mais escandalosa quando se trata do medium-livro e deve fazer reflectir sobre os efeitos que isso tem sobre as espécies bibliográficas e o património literário que – em princípio não há quem não concorde – é preciso divulgar e preservar para termos um “espaço público” que não seja conformado a uma paradoxal e totalitária algoritmização da liberdade que vira o liberalismo contra si mesmo.

À primeira vista, o TikTok parece uma coisa simples, uma rede que cumpre com a eficácia que nenhuma outra jamais alcançou as exigências de uma economia da atenção – o bem mais precioso e mais disputado do nosso tempo. Mas, como observou um ensaísta francês, Chistian Salmon, num texto publicado na revista Slate (online), a coisa é muito complexa e dela se pode dizer o que Marx dizia de uma simples mesa quando se transforma em mercadoria: um objecto “cheio de subtilezas metafísicas e argúcias teológicas”.

O escritor, cineasta e ensaísta Alexander Kluge (cuja monumental Crónica dos Sentimentos podemos ler na tradução portuguesa que saiu em dois volumes, na BCF Editores) tem-se empenhado em alertar contra as “novas sereias”, essas “criaturas míticas que ocupam os perigosos recifes de Silicon Valley” (os seus alertas estavam virados para esse centro industrial da alta tecnologia, do capitalismo algorítmico, muito antes do aparecimento do TikTok).

As sereias de hoje, que têm o enorme poder de adivinhar os nossos desejos, são, diz Kluge, um “novo alfabeto” – um alfabeto binário. Recordemos que Alphabet é o nome da holding proprietária da Google. E onde há um algoritmo (que nós, os leigos, não sabemos como trabalha) é preciso que exista sempre um contra-algoritmo. E o contra-algoritmo que Kluge reclama é um poder poético, que vem também da teoria. É combinando tudo o que as artes podem produzir que se podem criar contra-algoritmos: “A arte é o advogado dos contra-algoritmos”, afirmou Kluge, certamente a pensar na sua formação de advogado.

Livro de recitações

 “A mulher de João Galamba”
Nome de uma figura assim referida, nos últimos dias, pela generalidade dos media.

À “mulher de César”, que atravessa os tempos e sobrevive como um espectro até ao nosso tempo, junta-se agora a “mulher do João Galamba”. A bem dizer, nem quis saber o que se passava com esta mulher e porque é que teve direito a uma efémera celebridade por via de uma afinidade conjugal. Mas no nosso tempo só quem é completamente impermeável a um certo arejamento é que não sente alguma estranheza e incomodidade na utilização deste genitivo objectivo. Não interessa se há razões para ele ser utilizado. Novos hábitos linguísticos tornam já exótica esta fórmula repetida: “A mulher de João Galamba”. Ah, a gramática dos novos tempos!

https://www.publico.pt/2023/04/21/culturaipsilon/cronica/algoritmo-diabolico-2046556



sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

António Guerreiro - Contra as biografias

 Crónica Acção Paralela  

* António Guerreiro  

10 de Fevereiro de 2023,  

A ilusão biográfica consiste em fazer do biografado um indivíduo coerente que se vai tornando naquilo que é. Uma caricatura desta atitude é a das curtas biografias dos políticos nos jornais.

Nos últimos anos, talvez por influência da cultura anglo-americana, começaram a proliferar as biografias nas livrarias portuguesas e algumas até já as acomodam numa secção exclusiva devidamente assinalada, construindo assim um pequeno museu das grandes individualidades. Outrora, a biografia era um género que devia quase tudo à erudição; actualmente deve uma boa parte ao jornalismo e outra parte à edição, pois a biografia é sobretudo um “género editorial”. Partilha essa condição com o romance, tal como ele hoje é produzido, difundido e “encorajado” (um eminente crítico literário italiano escreveu um livro a exortar: “Não encorajar o romance”).

Chamo “género editorial” a um género que deve muito do seu sucesso e hegemonia à máquina editorial, por mais emperrada que ela esteja. Isto não significa que todos os romances publicados actualmente possam ser incluídos neste género. Mas tinha alguma razão um avisado crítico, ou até hipercrítico, especialista em diagnósticos, que escreveu: “o romance é o cancro da literatura”. Orientados pelo seu olhar clínico, podemos dizer que as biografias produzidas para responder às exigências do género editorial são metástases.

O volumoso caudal de matéria biográfica com que estamos confrontados merece que mencionemos um ensaio, publicado em 1930, por um génio da Alemanha de Weimar, que iniciou o adolescente Adorno na leitura de Kant, andou por vezes na proximidade da Escola de Frankfurt e atravessou diversas disciplinas sem obedecer aos protocolos de qualquer uma delas. Esse génio chama-se Siegfried Kracauer e, em 1930, escreveu um texto a que deu o título: A Biografia — Forma de Arte da Nova Burguesia.

Também ele começa por verificar que a biografia se tornou, no seu tempo, uma produção literária muito difundida. E sete anos mais tarde dará o seu contributo para alimentar o fenómeno, escrevendo uma biografia de Jacques Offenbach. Em boa verdade, apontar-lhe esta incoerência é um pouco injusto porque Offenbach é, para ele, apenas um pretexto: Paris do Segundo Império é o grande protagonista desse livro.

O texto de Kracauer é denso e complexo. Simplificando, digamos que ele entende que a ilusão biográfica fornece o sossego e bem-estar de que a “nova burguesia” carece. A ilusão biográfica consiste em fazer do biografado um indivíduo coerente, consciente, unitário, soberano, que se vai tornando progressivamente naquilo que é.

Uma caricatura desta atitude é a das curtas biografias dos políticos que às vezes os jornais publicam: aí, a história do biografado, desde a infância, torna-se quase sempre um destino. Trata-se sempre de personagens fadadas desde a infância para se tornarem, sem falhas, naquilo que são. Os biógrafos entendem quase sempre como obrigatória a passagem da vida do biografado para a sua obra. Ora, partir da obra para a vida é não apenas muito mais interessante, mas também mais próximo da verdade que toda a biografia visa.

Kracauer escreve numa altura em que a ideia da “morte do romance” era glosada convictamente, e ele também não evita esse tema sem derrames lutuosos. Ora, sendo o romance o género burguês que veio substituir a epopeia numa época em que já não era possível dar sentido a um herói épico, a biografia conserva, mesmo que com baixo teor, uma componente épica, uma positividade heróica.

O discurso de Kracauer sobre a biografia tem um aspecto histórico e outra sociológico. Há nele uma forte resistência ideológica à biografia que se deve essencialmente ao facto de se tratar de uma forma de literatura que satisfaz plenamente quem não quer arriscar um único passo para além do seu limite individual e para além da sua própria classe. É verdade que a forma literária da biografia, escreve Kracauer, é o signo de uma fuga, ou antes, de uma esquiva. Mas de uma esquiva muito conservadora, que só serve para dar algum suplemento de frescura ao lugar que se habita em segurança.

A elite da nova burguesia que concede tempo e privilégios à forma biográfica não se compromete seriamente em qualquer tipo de dialéctica e sente-se confortada com um género que tem a pretensão de erigir monumentos, mesmo que efémeros, aos grandes heróis. Heidegger, num célebre curso de 1924 sobre Aristóteles, resolveu de maneira categórica, como um epitáfio, a questão da monumentalização biográfica, dizendo que a única coisa a registar na biografia de um filósofo é que nasceu em tal época, trabalhou e morreu.

Livro de recitações

“[Héctor Bellerín] É um futebolista improvável: defensor de causas progressistas como a luta LGBTQIA+ e a luta antirracismo”
Carmo Afonso, in PÚBLICO, 6/2/2023

É possível vislumbrar um pressuposto ou mesmo um princípio ideológico no modo como se declina aquela série de letras maiúsculas que começam com um L e acabam com o sinal + . Há quem só escreva LGBT, há quem acrescente a contragosto mais umas letrinhas, há quem se sinta exausto quando chega ao + e reclame contra a perniciosa “ideologia do género”. Carmo Afonso, pelo contrário, é tão generosa na declinação que parece pertencer à categoria de quem cumpre sem protestos a longa justaposição de letras maiúsculas, com um + a rematar. A quem acha que há ali letras a mais, é preciso dizer que o que é próprio do género é a proliferação e a invenção. O sinal + serve para dizer que a série tende para o infinito e não há letras maiúsculas que cheguem, haverá sempre quem fica fora da representação. Isto é novo? Não, foi sempre assim. Só que era quase tudo sem nome.

https://www.publico.pt/2023/02/10/culturaipsilon/cronica/biografias-2038081