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domingo, 18 de janeiro de 2026

Onofre Varela - ESTOU A REFLECTIR



* Onofre Varela

Escrevo este texto no Sábado, dia 17 de Janeiro. A campanha eleitoral encerrou à meia noite de ontem, e a votação acontecerá amanhã, Domingo. O dia de hoje tem uma coisa boa… no rádio e na televisão acabaram-se os gritos dos candidatos e as suas cenas tristes, mais as preocupações intelectuais dos comentadores de gabarito que debitam os seus pareceres sobre os concorrentes ao cargo de Presidente da República, e acerca do que o vencedor fará perante o dono do mundo que manda nos seteites e no resto, e que também quer dominar a Europa começando pela Gronelândia gelada mas com muito petróleo debaixo do gelo na vez de lençol freático.

Neste abençoado e desejado dia, também não ouvimos aquelas palavras doutas dos fazedores de sondagens, explicando quem vai em primeiro, no meio e em último, quem ultrapassou quem e porquê, mais as variações conjugadas de candidatos para uma segunda volta, atribuindo a vitória a este se for concorrer com aquele, mas que perderia se este fosse aqueloutro e não aquele nem o outro e concorresse com beltrano… mas se concorresse sicrano com fulano, já fulano ficava a ver navios porque sicrano comia-lhe as papas na cabeça… para outra vez, que ganhe juízo, que cresça e apareça.

Presumo que as sondagens são feitas por quem não anda a dormir na forma e factura de olhos bem abertos. Quanto mais sondagens, maior a facturação… o que não é bom, é excelente! O que também é maravilhoso, é orientar o voto do eleitor indeciso, dando-lhe papinhas para comer e depois arrotar na urna de voto.

As sondagens, se fossem verdadeiras, podiam dispensar a votação e estava o caso resolvido… ganhava quem tinha tido maior votação nos inquéritos pelo telefone, como se faz no Festival da Canção e poupava-se uma porrada de massa!…

Convencionou-se chamar a este dia de Sábado o “Dia de Reflexão”, na convicção de que os eleitores se recolhem como se fossem monges ou freiras, reflectindo, no silêncio das suas alcovas, sobre a importância do acto eleitoral e das intenções dos candidatos para, só então, decidirem onde colocar a cruzinha no boletim, amanhã! 

Na Bíblia, o dia de Sábado é referido como sendo “o sétimo dia”, aquele em que o Criador descansou da sua imensa tarefa de fazer o mundo e tudo o que nele existe, em sete dias, sem ferramenta nem matéria-prima porque ainda não as havia criado… imagine-se o trabalhão que terá dado fazer o mundo com poucos recursos, ou sem recursos de todo!

Em comparação, nós aproveitamos o “Sábado reflectivo” para também descansarmos os olhos e os ouvidos tão fartos de imagens grotescas e gritos de candidatos prometendo o impossível e, sem qualquer urbanidade usam o insulto suez, cantam sem voz de cantor, dançam sem saber mover os pés ao som da música, e debitam discursos com promessas de realizações que sabem nunca cumprir, porque prometeram fazer aquilo que não cabe nas funções do Presidente… e a malta vota neles porque gosta de promessas ocas!…

Se muitos votantes sabem em quem votar, mesmo antes do primeiro dia da campanha, e por isso dispensaram a seca dos Tempos de Antena, mais os discursos propagandísticos dos candidatos dizendo que são as melhores pessoas do mundo e arredores, e mais as arruadas… outros há que, obedecendo ao parágrafo da lei eleitoral que estipula o “Dia de Reflexão”, aproveitam este dia artificial de hoje para comerem algo leve, beberem água, sentarem-se em silêncio, correrem as cortinas para escoar a luz do Sol… e reflectirem.

Em meia hora de reflexão já ressonam que nem porcos… viva o dia da reflexão e viva eu.

Onofre Varela - janeiro 18, 2026

https://ponteeuropa.blogspot.com/2026/01/e-stou-reflectir-por-onofre-varela.ht

quinta-feira, 5 de abril de 2018

Bertolt Brecht - Aos que vierem depois de nós

* Bertolt Brecht
(Tradução de Manuel Bandeira)


Realmente, vivemos muito sombrios!
A inocência é loucura. Uma fronte sem rugas
denota insensibilidade. Aquele que ri
ainda não recebeu a terrível notícia
que está para chegar.

Que tempos são estes, em que
é quase um delito
falar de coisas inocentes.
Pois implica silenciar tantos horrores!
Esse que cruza tranqüilamente a rua
não poderá jamais ser encontrado
pelos amigos que precisam de ajuda?

É certo: ganho o meu pão ainda,
Mas acreditai-me: é pura casualidade.
Nada do que faço justifica
que eu possa comer até fartar-me.
Por enquanto as coisas me correm bem
(se a sorte me abandonar estou perdido).
E dizem-me: "Bebe, come! Alegra-te, pois tens o quê!"

Mas como posso comer e beber,
se ao faminto arrebato o que como,
se o copo de água falta ao sedento?
E todavia continuo comendo e bebendo.

Também gostaria de ser um sábio.
Os livros antigos nos falam da sabedoria:
é quedar-se afastado das lutas do mundo
e, sem temores,
deixar correr o breve tempo. Mas
evitar a violência,
retribuir o mal com o bem,
não satisfazer os desejos, antes esquecê-los
é o que chamam sabedoria.
E eu não posso fazê-lo. Realmente,
vivemos tempos sombrios.


Para as cidades vim em tempos de desordem,
quando reinava a fome.
Misturei-me aos homens em tempos turbulentos
e indignei-me com eles.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Comi o meu pão em meio às batalhas.
Deitei-me para dormir entre os assassinos.
Do amor me ocupei descuidadamente
e não tive paciência com a Natureza.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

No meu tempo as ruas conduziam aos atoleiros.
A palavra traiu-me ante o verdugo.
Era muito pouco o que eu podia. Mas os governantes
Se sentiam, sem mim, mais seguros, — espero.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

As forças eram escassas. E a meta
achava-se muito distante.
Pude divisá-la claramente,
ainda quando parecia, para mim, inatingível.
Assim passou o tempo
que me foi concedido na terra.

Vós, que surgireis da maré
em que perecemos,
lembrai-vos também,
quando falardes das nossas fraquezas,
lembrai-vos dos tempos sombrios
de que pudestes escapar.

Íamos, com efeito,
mudando mais freqüentemente de país
do que de sapatos,
através das lutas de classes,
desesperados,
quando havia só injustiça e nenhuma indignação.

E, contudo, sabemos
que também o ódio contra a baixeza
endurece a voz. Ah, os que quisemos
preparar terreno para a bondade
não pudemos ser bons.
Vós, porém, quando chegar o momento
em que o homem seja bom para o homem,
lembrai-vos de nós
com indulgência.

http://www.releituras.com/bbrecht_aosquevierem.asp