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quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Análise dos discursos de Bolsonaro

questões da sucessão

“VERDADE” E “LIBERDADE” AGORA APARECEM NA FALA DE BOLSONARO

Uma análise visual dos primeiros discursos do presidente eleito; antes de vencer, ele dava mais peso a "Brasil" e quase não citava "democracia"

MARCELLA RAMOS
29out2018_03h37

REPRODUÇÃO/REDE GLOBO
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os três primeiros pronunciamentos de Jair Bolsonaro depois de eleito presidente do Brasil, duas palavras foram protagonistas: verdade e liberdade. Às 19h36 de domingo, minutos depois de confirmada a vitória, Bolsonaro iniciou uma transmissão para agradecer apoiadores no Facebook. Nos quase oito minutos de fala, repetiu “verdade” seis vezes. Esse foi o terceiro substantivo mais usado pelo candidato durante a transmissão, depois de “Brasil”, usado oito vezes, e “Deus”, repetido sete vezes. Em seguida, em pronunciamento na tevê aberta, o presidente eleito leu um discurso formal, em frente a sua casa na Barra da Tijuca. Neste, um pouco mais longo que o primeiro, repetiu a palavra “liberdade” onze vezes. Este também foi o terceiro substantivo mais usado, atrás de “Brasil”, repetido catorze vezes e “governo”, falado em treze oportunidades. Neste discurso, Bolsonaro também falou “verdade” cinco vezes.
Nuvem de palavras do discurso lido por Bolsonaro e transmitido pela tevê aberta depois de eleito presidente
piauí comparou as palavras usadas em cinco discursos de Bolsonaro, dois dos mais comentados quando ele era candidato e os três primeiros como presidente eleito. Foram analisadas a live no Facebook neste domingo, primeira fala após o resultado; o discurso de vitória lido para a imprensa, logo em seguida; uma terceira fala, mais curta, também pelo Facebook, duas horas depois; o pronunciamento pela mesma rede social depois do primeiro turno; e um discurso para seus apoiadores na avenida Paulista, também via internet, no dia 21 de outubro. Na análise, levou-se em consideração apenas palavras que tenham significado se usadas sozinhas.
Em todos os pronunciamentos, a palavra mais repetida é “Brasil”. Mas o peso dado à palavra, nos discursos analisados, era maior antes de ser eleito (como se vê abaixo). Quando comentou o resultado do primeiro turno, o então candidato repetiu o nome do país catorze vezes. Na transmissão para apoiadores na Paulista, falou vinte vezes. Neste, as outras palavras mais usadas foram “povo” e “pátria”, ambas repetidas cinco vezes cada. As palavras “liberdade” e “verdade” foram usadas só uma vez neste dia. Cenário diferente da pós-eleição.

Discurso transmitido a apoiadores na Avenida Paulista, em 21 de outubro


Discurso feito logo depois do resultado do primeiro turno

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os seus dois primeiros discursos depois da vitória, Bolsonaro citou a Constituição uma vez em cada pronunciamento, deixando de citar apenas no terceiro, feito mais tarde pelo Facebook. Nos outros dois, antes da vitória, não há menção à palavra. O discurso lido para a imprensa na frente de sua casa foi aquele em que o capitão da reserva mais explorou as variações da palavra “democracia”. O nome do regime foi citado uma vez, durante a fala “faço de vocês minhas testemunhas: esse governo será defensor da Constituição, da democracia e da liberdade. Isso não é uma promessa. É um juramento a Deus. A verdade vai libertar esse país”. Variações do termo, como “democrático” e “democrática”, apareceram duas vezes cada em outros momentos do discurso, e “democráticas”, uma vez. A soma desses termos é bem superior a qualquer referência a democracia nos dois discursos feitos quando estava em campanha. Na fala transmitida na avenida Paulista, Bolsonaro reproduziu só uma vez as palavras “democrática” e “democracia”. Na live do Facebook logo após a confirmação do resultado (que se vê abaixo), no pronunciamento depois do primeiro turno e na fala mais curta deste domingo não houve menção às palavras.
A primeira live de Facebook transmitida por Bolsonaro depois de eleito
Nos pronunciamentos deste domingo é possível perceber uma mudança no tom do presidente eleito. Na live feita assim que confirmada a vitória, Bolsonaro falou em “socialismo”, “esquerda” e “extremismo” (citou uma vez cada uma). Já no discurso oficial, para a tevê, ele não repetiu as palavras, e nem variações delas. Por outro lado, no discurso que leu, usou “seringueiro”, que não aparece em nenhuma das outras falas – o que também acontece com “opinião” e “opiniões”, ditas uma vez cada. Os dois primeiros discursos após a eleição citam “libertará”, com duas variações na fala oficial: “libertaremos” e “libertar”. Variações dessas palavras não apareceram nos dois discursos anteriores à eleição.
“Pacificar” e “unir” aparecem no terceiro pronunciamento feito pelo candidato, na noite de domingo, duas horas depois de ter vencido a disputa. Foram ditas, cada uma delas, uma vez pelo presidente eleito.

A terceira fala de Bolsonaro após a vitória, também transmitida via Facebook no domingo.

MARCELLA RAMOS (siga @marcellamrrr no Twitter)

Marcella Ramos é jornalista baseada no Rio de Janeiro.
https://piaui.folha.uol.com.br/verdade-liberdade-fala-bolsonaro/

segunda-feira, 14 de abril de 2008

A igualação dos desiguais

por Sidnei Liberal*


Pelo que disse Elio Gaspari, foi bendita a hora em que o demo-pefelê e os donos de estabelecimentos de ensino levaram ao Supremo o pleito de inconstitucionalidade para os atos que criaram o ProUni. Sem querer, levaram a discussão da legalidade de ações afirmativas baseadas em critérios de renda e de raça para o acesso ao ensino superior.


Na semana passada, tomaram a primeira pancada, pelo voto do ministro-relator Carlos Ayres Britto. O ProUni troca por bolsas de estudo as imunidades tributárias dadas às universidades particulares. Coisa como 10% das vagas disponíveis. O programa já atendeu 310 mil jovens oriundos da rede pública e neste ano formará a sua primeira turma, com 60 mil bolsistas.


Há 100 mil estudantes pré-selecionados para novas matrículas. Para receber uma bolsa integral, a renda per capita familiar do candidato não pode ser superior a 1,5 salário mínimo. As vagas do ProUni também devem favorecer o acesso de candidatos afro-descendentes. A concessão de bolsas deve acompanhar os percentuais de diversidade de cada Estado. O regime de bolsas parciais segue critérios semelhantes. Os empresários do setor e o DEMO querem ver inconstitucionais os critérios alegando que eles violariam o princípio da igualdade entre os cidadãos. Britto julgou improcedente o pedido questionando em cima do nervo da questão: o que é a igualdade numa situação de desigualdade?

Diz o relator: ''Não há outro modo de concretizar o valor constitucional da igualdade senão pelo combate aos fatores reais de desigualdade. (...) É como dizer: a lei existe para, diante dessa ou daquela desigualação que se revele densamente perturbadora da harmonia ou do equilíbrio social, impor outra desigualação compensatória''. Diz Elio: “Em vez de tentar derrubar quem está em cima, empurra-se quem está em baixo. Tome-se o caso de dois jovens reprovados nos rigorosos vestibulares das universidades públicas, gratuitas. Um, de família mais abonada, vai para uma faculdade particular, paga. O outro iria à lona, mas, com o ProUni, vai à aula”. (Os citados “coisa ruim” vão pro inferno, dizemos nós). [1]


O endereço do terror


O senador por Illinois, Barack Obama, pré-candidato democrata à Casa Branca, é contrário à ratificação do Tratado de Livre Comércio assinado por EUA e Colômbia em 2006. Numa convenção de trabalhadores, na Filadélfia, o senador declarou que manterá sua rejeição ao pacto comercial, pois ''A violência contra os sindicatos na Colômbia ridicularizaria as mesmas proteções trabalhistas [nos EUA] que insistimos para que sejam incluídas nesses tipos de acordos”. Os motivos e a posição de Obama em nada diferem dos que manifesta a maioria do congresso estadunidense e também justificam as pancadas que o governante colombiano recebeu do parlamento europeu, de corpo presente, no ano passado.


Neste mesmo périplo pela Europa, o presidente Álvaro Uribe também recebeu um severo puxão de orelha por manter estreitas ligações e dar guarida às diversas brigadas de paramilitares assassinas e traficantes de drogas. Mas não saiu do velho continente de mãos vazias: conseguiu, mediante uma poderosa procuração de Bush, articular-se com parlamentares fascistas italianos e espanhóis de cuja pressão resultou na indexação das tradicionalmente insurgentes Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia como um movimento terrorista. É o caso de se perguntar: com o rico perfil de Uribe, revelado por Obama, pelo parlamento europeu, pelos sindicalistas e pelo congresso dos EUA, de que lado está o terror?

Os sindicatos estadunidenses estão preocupados com a violência que vem seqüestrando e assassinando milhares de lideranças comunitárias de oposição na Colômbia. Para valer, o convênio comercial precisa ser ratificado pelo congresso dos EUA, onde a maioria democrata condicionou seu aval a uma melhora na situação dos direitos humanos e garantias sindicais. Para tentar impulsionar a ratificação, por pressão pessoal do presidente Bush, que vê o pacto comercial como uma das suas “prioridades vitais”, delegações de congressistas, a secretária de Estado, Condoleezza Rice, o de Comércio, Carlos Gutiérrez, foram à Colômbia nos dois últimos meses. Não verificaram avanços nos direitos e garantias. [2]

Rastilho oportunista e perigoso

O povo tibetano acredita descender de um macaco criado pelo ''Senhor que observa o mundo''. O dalai-lama, como ''emanação'' desse macaco primordial legitimaria seu título de sumo sacerdote e monarca do Tibete. Tais razões religiosas e de identidade nacional justificariam seu retorno. Mas, tirante o clero, poucos pretendem ver restaurada a ordem social que ele regia. Na teocracia deposta pela revolução comunista de 1949, sacerdotes e nobres possuíam todas as terras e demais meios de produção. Camponeses, nômades, pequenos comerciantes e mendigos formavam minoria relativamente livre da plebe. O amo sustentava o escravo, que apenas prestava serviços domésticos. Ambos passavam sua condição aos filhos.


A lei permitia mutilações e torturas disciplinares. Deficiências de higiene e nutrição matavam quase metade dos bebês no primeiro ano de vida. Não havia escola pública. A taxa de analfabetismo chegava a 90%. Em troca de autonomia, o dalai-lama reconheceu a soberania chinesa em 1951. Mas, no contexto da Guerra Fria, a Agência Central de Inteligência (CIA), estadunidense, passou a prover insurretos tibetanos de treinamento e armas. Em 1959, o Exército chinês derrotou a rebelião que os monges ora comemoram. O dalai-lama fugiu para a Índia. A organização tibetana que o acompanhou revelou mais tarde ao ''New York Times'' que recebia da CIA financiamento anual de 1,7 milhão de dólares.

Com a fuga de grande parte dos budistas, o governo central colonizou a região mediante imigração favorecida de chineses de outras etnias. Nos distúrbios de março, monges budistas remanescentes e outros tibetanos hostis aos imigrantes incendiaram lojas e outras propriedades destes ''estrangeiros'' e do próprio governo chinês. Hoje, o dalai-lama reivindica apenas autonomia (restauração dos seus privilégios). Os que apóiam sua campanha deveriam questionar se uma eventual restauração do seu regime garantiria direitos humanos no Tibete. Ou se a estratégia de incitar tibetanos à revolta não agrava sua situação.

O governo chinês não cederá a esta nem a outras minorias étnicas. Múltiplos interesses comerciais do mundo na China, de explosivo desenvolvimento econômico, barrarão qualquer boicote à Olimpíada de Pequim. Por outro lado, outras nações mundo afora movem um dos olhos para o Tibete e outro para seus próprios movimentos separatistas, que pretendem ganhar força numa eventual contaminação do perigoso rastilho que de modo oportunista e suspeito se semeia pelo mundo. [3]

Notas


[1] Texto original de Elio Gaspari na Folha de S. Paulo de 06/04/08: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/brasil/fc0604200808.htm


[2] Mais informações na matéria da agência EFE, na Folha Online, de 02/04/2008: http://www1.folha.uol.com.br/folha/mundo/ult94u388406.shtml


[3] Com informações de Aldo Pereira publicadas pela Folha de S. Paulo de 02/04/08: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/opiniao/fz1004200808.htm





*Sidnei Liberal, Médico, membro da Direção do PCdoB - DF



* Opiniões aqui expressas não refletem, necessariamente, a opinião do site.
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in Vermelho -
13 DE ABRIL DE 2008 - 22h49
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terça-feira, 18 de março de 2008

"Quando não devemos calar"

http://www.martinezinvestigations.com/images/farc-guards-2.jpg

Oscar Niemeyer


Quando ocorreu a invasão do Equador pela Colômbia, no dia 1º do mês corrente, que resultou na morte de 20 combatentes e de um dos principais líderes das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia), Raúl Reyes, escrevi um texto, revoltado com o que havia acontecido. Infelizmente, o texto que redigi não chegou aos jornais antes da solução adotada graças à pronta e corajosa intervenção dos governos latino-americanos, que deram ao mundo uma demonstração de unidade e força em defesa de sua soberania nacional.


Por Oscar Niemeyer



Como eu não me limitava a comentar as notícias sobre as Farc que surgiam nos jornais, mas mencionava fatos ou contatos que tive com aquele grupo, tomei a decisão de divulgar o artigo que havia elaborado e agora transcrevo:


"É bom, quando nos vemos diante da necessidade de escrever sobre qualquer assunto, verificarmos que a seu respeito já nos tínhamos manifestado anteriormente, que a nossa reação não surge de um fato novo ocorrido, mas de qualquer coisa que já nos tinha ocupado e sobre ela havíamos assumido uma posição definida.


Refiro-me ao que vem se passando com as Farc, um grupo de revolucionários que, instalados no território da Colômbia, vem-se opondo há décadas ao governo reacionário ainda existente naquele país.


É importante aqui registrar, aos que insistem em falar da violência dos revoltosos das Farc, a opinião do historiador britânico Eric Hobsbawm ("Globalização, democracia e terrorismo", Companhia das Letras): o combate ao terrorismo, ao longo dos últimos anos, por parte das autoridades colombianas, tem superado, em muito, a violência política desses guerrilheiros.


Lembro-me do emissário desse grupo que, muitos anos atrás, me procurou em meu escritório de Copacabana, pedindo-me que desenhasse um cartaz contra o Plano Colômbia, que, organizado pelo governo norte-americano, visava intervir nas Farc, ferindo a soberania do país.


Recordo a maneira emocionada como aquele emissário me falava do assunto, da revolta que exibia ao comentar a violência com que o governo colombiano tentava destruí-los. Em poucos dias, desenhei o cartaz que ele havia me pedido -um protesto contra aquele plano odioso. Uma colaboração política que muito me agradou, ao saber ter sido aquele cartaz utilizado até na Europa.


O tempo correu e, sem possuir a força para eliminar o movimento político já instalado no país, o governo reacionário de Bogotá passou a acusar a direção das Farc de ser conivente com o narcotráfico em crescente expansão na Colômbia.


Agora, no momento em que toda a América Latina se une contra as ameaças do imperialismo norte-americano, é que, numa atitude de violência e desrespeito inexplicável, o governo da Colômbia resolve invadir o território do Equador, comprometendo a unidade com que a América Latina tão bem vem se organizando contra todas essas pressões vindas dos Estados Unidos.


Com sensatez e firmeza, o governo brasileiro, por meio de seu ministro das Relações Exteriores, Celso Amorim, reclamou uma palavra de desculpa por parte do presidente colombiano, Álvaro Uribe. E de Hugo Chávez, presidente da Venezuela, veio a resposta direta e corajosa que a esquerda latino-americana esperava.


Sabemos muito bem que os Estados Unidos têm a ambição de se apossar das riquezas existentes na Amazônia e que o governo da Colômbia se presta a servir de ponta-de-lança para essa finalidade.


Mas agrada-nos, principalmente, constatar a maneira altiva e vigorosa com que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva vem atuando frente aos problemas desta América Latina tão vulnerável e ofendida".


Fonte: Folha de S.Paulo

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in Vermelho 17 DE MARÇO DE 2008 - 11h10

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