Textos e Obras Daqui e Dali, mais ou menos conhecidos ------ Nada do que é humano me é estranho (Terêncio)
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terça-feira, 24 de maio de 2016
quinta-feira, 2 de fevereiro de 2012
Livraria Lello - Porto
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3 de Novembro de 2007
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http://jorgetavares.planeta...
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Livraria Lello
Rua das Carmelitas, 144
4050-161 Porto
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A história da livraria Lello remonta a 1869, ano em que é fundada na Rua dos Clérigos a Livraria Internacional de Ernesto Chardron.
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Após o imprevisto falecimento de Chardron, aos 45 anos de idade, a casa editora foi vendida à firma Lugan & Genelioux Sucessores.
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Em 1894 Mathieux Lugan vendia a Livraria Chardron a José Pinto de Sousa Lello que possuía então uma livraria na Rua do Almada.
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Associado ao irmão, António Lello, mantêm a Livraria Chardron, com a razão social de José Pinto de Sousa Lello & Irmão, até 1919, ano em que o nome da sociedade muda para Lello & Irmão Lda.
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A Livraria Lello e Irmão, também conhecida como livraria Chardron, ou simplesmente livraria Lello situa-se na Rua das Carmelitas,144 no Porto.
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A fachada neogótica é do engenheiro Xavier Neves
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14 de Maio de 2008
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Xavier Nunes
Porto ~ Livraria Lello e Irmão
guia
dolazer livrarias
© 2011 PÚBLICO
Por Nelson Garrido
T. 222002037
Porto, R. Carmelitas, 144
Segunda a sexta das 10h00 às 19h30 ; Sábado das 10h00 às 19h00 .
Especialidades: livraria generalista.
Sítio oficial http://lelloprologolivreiro.com.sapo.pt
27.01.11 Por Susana Cruto
É considerada uma das mais belas livrarias do mundo. A centenária Lello é uma instituição do Porto e é já visita obrigatória para quem vem de fora.
Entra-se e há livros... muitos livros. Um local onde o passado, o presente e o futuro se entrelaçam numa escadaria vermelha, que sozinha conta histórias e ilustra imagens. Na Rua das Carmelitas, no Porto, a Livraria Lello & Irmão faz na próxima quinta-feira 104 anos e já mostrou a quem por lá passa que é mais do que uma loja de instrumentos de leitura.
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Perto da ala nocturna da Rua das Galerias de Paris, onde os mais jovens acolhem a noite com risadas e euforia, está a requintada e histórica livraria - uma segunda casa para muitos, um ponto de visita para outros.
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Tacos de madeira, organizados, compõem o chão que os nossos pés pisam levemente. Dois andares e uma união arrebatadora: uma longa e característica escadaria vermelha. São mais de 120.000 títulos que embelezam este local de grande culto nas mais diversas áreas e línguas.
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Um refúgio sem dúvida hospitaleiro que faz parte da memória de Beatriz Pacheco Pereira desde criança. Fundou o Fantasporto, escreve sobre o Porto e luta pela cidade Invicta. "É uma livraria que me acompanha, mas tem um defeito grande. Entra-se atraído pelas montras, sempre cuidadas, mas depois há um momento de esplendor que nos faz esquecer por que entramos, o livro da montra que iríamos comprar. E talvez estes deslumbres sejam maus para o negócio dos livros", partilha. Mas também tem uma qualidade. "Continua a ser uma livraria a sério, como já não há muitas na cidade. Requintada, solene, um templo do livro e do saber. Magnífica. E, para raiva de muitos, no Porto...E o ambiente? Calmo, nada tecnológico e industrial. Entre o sublime e o realista."
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A Lello é um recanto sagrado, onde os livros fazem viajar a lugares encantados. Entramos num mundo cheio de pormenores que embelezam o número 144 da Rua das carmelitas. Em estilo neo-gótico, possui uma magnífica fachada, formada por um amplo arco abatido, cuja entrada se divide numa porta central, ladeada por duas montras que constituem verdadeiramente os expositores públicos da livraria. Dos lados da janela, destacam-se duas figuras pintadas, da autoria de José Bielman, simbolizando uma a Arte e a outra a Ciência.
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Um ambiente acolhedor, onde pontificam os livros e uma decoração imponente. Uma vasta sala, com uma galeria que dá acesso a uma escada ornamental, onde correm algumas mesas que servem para exposição dos livros. Bancos em madeira e revestidos a couro e estantes a toda a altura desta sala perfazem o espaço interior próprio de uma livraria actual, mas que guarda a memória do passado. À esquerda e à direita, nos longos pilares, distinguem-se os ilustres homens das letras, como Eça de Queiroz, Camilo Castelo Branco, Antero de Quental, Teófilo Braga ou Guerra Junqueiro. E se é do tempo do filme O Xangô de Baker Street recorde-se que aqui foram filmadas algumas cenas desse filme baseado no romance de Jô Soares.
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Já dizia Fernando Pessoa que o poeta é um fingidor. Mas António Pedro Ribeiro não é de representar. Entrou pela primeira vez na livraria há cinco anos e ficou impressionado. Um poeta e cronista do Porto que invade poucas vezes a livraria, mas que já conseguiu traçar uma caracterização bastante poética. "A Lello é um espaço aberto ao leitor e à leitura. Um hino ao livro e à leitura. E é mais do que uma livraria. É uma maravilha da arquitectura. Uma casa do livro, do convite à leitura e do convívio entre leitores", qualifica.
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O aspecto arquitectónico chama logo à atenção a quem seja ou não arquitecto. Mas os especialistas da matéria têm mais a dizer. São amigos de longa data, mas foi há sete anos que Vasco Morais Soares, arquitecto da Lello & Irmão, convidou António Fuentes Flores a visitar a reabilitação que tinha concretizado. Veio do México, pisou a obra histórica e não escondeu que ficou encantado. E comenta, sem rodeios, as virtudes desta obra. "É um espaço bonito, muito bem feito, que preserva e respeita o seu estilo original, com trabalho de madeira também fantástico nas prateleiras. A escada central iluminada e um vidro manchado magnífico, assim como as inovações tecnológicas do seu tempo, como o carrinho de faixas para o transporte dos livros, são pormenores belos. Eu não me atreveria a mudar alguma coisa neste espaço", refere.
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A Lello & Irmão é considerada a livraria mais antiga de Portugal. Está no Porto desde 1881 e fica num prédio com vitrais, painéis, colunas e com uma escadaria no centro. "A principal, e extraordinária característica do edifício, é singular. Nunca se ouviu dizer que é parecido com..." - é assim que José Manuel Lello, um dos responsáveis da livraria, começa a descrição deste mundo dos livros. Já conhece os turistas e consegue revelar algumas das reacções a este espaço. "Os turistas, além de ficarem espantados à entrada - embora a conheçam de fotografias, querem conhecer o espaço ao vivo -, procuram livros sobre Portugal, o Douro, Vinho do Porto, azulejos, guias turísticos, literatura portuguesa traduzida na sua língua, e também recordações da livraria - brochura com a história, postais, etc.", conta.
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Há quem diga ao ouvido que, se a Lello fosse uma pessoa, poderia ser um filósofo aristocrata ou até mesmo Salomé, segundo os desenhos de Aubrey Beardsley para a peça de Oscar Wilde. Mas há quem vá mais longe e consiga relatar um dia completo desta mulher. Inês Botelho é autora da trilogia de fantástico O Ceptro de Aerzis, composta por A Filha dos Mundos (2003), A Senhora da Noite e das Brumas (2004) e A Rainha das Terras da Luz (2005) e narra assim um dia desta mulher Lello: "Vinha todos os dias sentar-se na esplanada, a figura elegante, mas nunca totalmente correcta. Na roupa de corte irrepreensível, entre o clássico e o moderno, havia uma bainha dobrada, ou uma pequena nódoa de tinta-da-china, ou um ombro deformado pelo peso da pasta sobrelotada de livros, revistas, jornais." E deixa correr a imaginação: "Ou então era o cabelo, bem penteado mas desgrenhado pelo vento, ou pelos dedos que o levantavam e enrodilhavam num gesto inconsciente. Ou talvez se limitasse a um excesso de perfume, um odor demasiado intenso a lavanda que lembrava prados junto a um castelo granítico após uma manhã de temporal, ou uma fragrância forte, a tender para o doce e a convocar noites quentes em cafés vagamente orientais." Mas põe um travão na fantasia e termina: "Algo incerto, imprevisível. Pequenas preciosidades, como os berlindes, canetas, flores secas, caderninhos que numa ou noutra ocasião lhe caíam dos bolsos."
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E se um dia for editado algum livro sobre a história da livraria, Beatriz Pacheco Pereira escreveria assim no prefácio: "Nasceu neogótica como era a grande moda do século XIX, com ares de Walter Scott, com toques pré-rafaelitas. Depois assumiu-se local de saber e do livro, depois local de romagem nostálgica ou divertidamente turística. Há uma confluência mágica na Lello."
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Susana Cruto
terça-feira, 14 de dezembro de 2010
Porto: A falsidade dos mitos e a verdade que neles há 
12.12.2010 - 19:07 Por Jorge Marmelo
Era uma vez – a maior parte das histórias incluídas no livro Lendas do Porto, de Joel Cleto, podia começar assim, como fábulas para adormecer crianças. Falam de lutas de mouros, actos heróicos e bárbaros e, em alguns casos, fazem parte de memória identitária das comunidades que ainda as contam. Dificilmente resistem ao confronto com a História, mas, segundo o autor, são mais do que simples mentiras. "Em alguns casos, são os únicos vestígios arqueológicos que existem relativamente a determinadas épocas e acontecimentos", diz Joel Cleto.
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A estátua ao Tripeiro evoca um dos mais conhecidos mitos da cidade, acerca da origem das tripas à moda do Porto (Fernando Veludo/nFactos) - Escultura de Lagoa Henriques
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Resultado de dois anos de crónicas na revista O Tripeiro, o livro, recentemente editado pela Quidnovi, conta com fotografias de Sérgio Jacques e faz questão de desmentir o rifão segundo o qual não se deve permitir que a verdade e os factos estraguem uma boa história. Algumas das lendas da região do Grande Porto são contadas tal como foram fixadas ou continuam a ser narradas, mas são também confrontadas com elementos documentais e, na maior parte dos casos, desmentidas por estes. "Esse é o grande desafio do historiador", considera Cleto.
Da velha história, feita pedra, que estará na origem da fama de "tripeiros" que os portuenses têm, à horrível carnificina entre cristãos e mouros que tingiu de sangue um ribeiro que passou a chamar-se rio Tinto, são várias as lendas que os factos desmentem. "Mas nem tudo é falso. Em alguns casos, no meio daquilo que é irreal, há vestígios concretos, elementos para a arqueologia imaterial", diz Joel Cleto.
Um dos exemplos da verdade que existe nos mitos é o da chamada ilha do Frade: na pequena ilhota que a maré vaza descobre junto à foz do Douro teria ficado preso, e nu, um frade que tentou seduzir uma moça numa noite de nevoeiro. Se aconteceu ou não tal episódio, é difícil saber. Mas Cleto recorda que essa lenda é o único indício de um convento franciscano que existiu em Gaia, do qual não restou mais nenhum vestígio.
Noutro caso, também em Gaia, a lenda do rei Ramiro II, de Leão, é praticamente o único sinal da suposta existência, na margem esquerda do Douro, de uma fortaleza moura tida por inexpugnável, mas que, no século X, terá sido completamente arrasada depois de Gaia, a esposa do rei católico, ter sido raptada pelos mouros e ali feita prisioneira. Neste caso, a lenda explica não só a origem dos topónimos Gaia e Miragaia, como o desaparecimento dos vestígios da grande fortaleza moura.
Outro exemplo? O do fabuloso assalto que o bandoleiro Zé do Telhado, o Robin dos Bosques do Entre Douro e Minho, terá feito, em Agosto de 1852, à quinta que hoje é a Casa de Ramalde. Consultados os documentos, Joel Cleto concluiu que, naquele ano, o palacete estava em ruínas, destruído durante as invasões francesas, e que só veio a ser recuperado quando Zé do Telhado já estava morto.
Mas depois, reconhece Joel Cleto, há casos em que os documentos parecem desmentir o mito, ainda que outros dados acabem por reavivar a lenda. É o caso do altar de prata da Sé do Porto, que teria sido escondido com cal durante as invasões francesas e, deste modo, poupado ao esbulho. Há documentos que apontam para uma versão menos fantasiosa e que indicam que uma senhora abastada terá pago a salvação da jóia, mas recentes descobertas arqueológicas descobriram vestígios de cal nas paredes próximas do altar.
Lendas para mais um livro
"São casos em que nem a história consegue dar uma resposta cabal", reconhece o autor, que acrescenta outro exemplo a esta categoria: é muito pouco provável que a lenda que associa a passagem do corpo de Santiago de Compostela por Matosinhos tenha podido ter lugar no ano 44, já que os documentos apontam para uma chegada posterior do cristianismo a esta parte da Península Ibérica. "Mas há cada vez mais evidências de que, alguns séculos depois, a expansão da fé se fez precisamente através da bacia do Douro", explica Joel Cleto.
Por outro lado, reconhece o autor, algumas das lendas agora reunidas "estão a cair no esquecimento e correm o risco de se perderem". Também por isso, Cleto promete continuar a contar (e a desmontar) os muitos mitos que o Grande Porto ainda guarda. "É possível que daqui a dois anos haja outro livro", diz. Talvez aí já se consiga explicar, por exemplo, a origem do topónimo portuense Fonte da Moura, do qual o historiador nunca conseguiu descobrir nenhum sinal. "Mas, em noventa por cento dos casos, quando há histórias de mouras e tesouros, há também vestígios arqueológicos", garante.
Noutros casos há apenas histórias curiosas, como aquela que explicará a expressão "emprenhar pelos ouvidos", ainda muito utilizada sempre que se quer falar de alguém que se deixou enganar por aquilo que ouviu. Segundo parece, a origem da frase está numa lâmina de bronze existente na Capela do Ferro do Mosteiro de Leça do Balio, a qual narra a anunciação da imaculada concepção, na qual o comunicado divino sai da boca de Deus e entra graficamente nos ouvidos de Maria, que assim teria "emprenhado" pelo pavilhão auricular.Quanto à história das tripas que terão sobrado do abastecimento da frota que a cidade do Porto preparou para a conquista de Ceuta, e que deram origem ao emblemático prato, a História indica, segundo Joel Cleto, que o petisco tem origens bastante anteriores, remontando ao período suevo. O mais provável, porém, é que, pelo menos neste caso, os factos jamais consigam estragar a bela e heróica lenda dos tripeiros, nem substituam a história que se conta há várias gerações e que continua a convencer os turistas.
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segunda-feira, 12 de julho de 2010
Dois livros para preservar a língua colorida que cá temos - Porto
Sabe o que é um morcão? Uma trolitada? Um calhau com dois olhos? Encher-se de moscas? Se respondeu negativamente, não é do Norte, carago. Mas nem tudo está perdido. Dois livros lançados recentemente podem ajudá-lo a sobreviver a qualquer eventual incursão na terra do cimbalino.
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Por Jorge Marmelo (texto) e Paulo Pimenta (foto)
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Alfredo Mendesa Se o Porto é uma naçom? É consoante. Mas, derivado de certas peculiaridades do português que aqui se fala, pelo menos dois livros, nos últimos meses, procuraram fazer um levantamento de algumas expressões e palavras características da cidade e da região ao seu redor. Heróis à Moda do Porto, o primeiro a surgir, atingiu os tops de vendas. E já este mês chegou às livrarias Porto, Naçom de Falares, do jornalista Alfredo Mendes. Não são propriamente exercícios de linguística ou de antropologia da língua, mas servem para demonstrar que o Porto tem um vocabulário que manda ventarolas e que continua a suscitar interesse.
Entre-se no Mercado do Bolhão num dia qualquer (a passada quinta-feira, por exemplo). Não será preciso andar por lá muito tempo para escutar duas clientes que, falando uma com a outra, se queixam de que um determinado comerciante é "muito trafulha". Mais adiante, até um marmanjo de quase 40 anos se vê transformado em "freguesinho". Mas basta, afinal, andar no moderníssimo metro para, à hora de almoço, ouvir o condutor avisar "o animal" (em Lisboa, chamam-lhe "emplastro") de que o segurança vai entrar para lhe acertar o passo - pô-lo na ordem, ou lá o que é.
O falar à moda do Porto, sem querer estar a armar ao pingarelho ou a arrotar postas de pescada, distingue-se basicamente por peculiaridades fonéticas (o famoso sotaque, que pode ser mais ou menos acentuado), pela utilização benévola do palavrão e pela invenção de palavras e expressões curiosas. Se o sotaque tripeiro tem sido objecto de inúmeras apropriações artísticas, do personagem José Esteves, de Herman José, aos mais recentes locutores do Telerural, passando pelas canções do Trabalhadores do Comércio, os dois livros recentemente lançados incidem sobretudo sobre as palavras e expressões próprias do vocabulário regional.
Património imaterial
"São palavras que vão desaparecendo e que são um património imaterial precioso, colorido", explica Alfredo Mendes, o autor de Porto, Naçom de Falares. A língua, diz, "está a ser normalizada e padronizada pelas televisões, por essa espécie de lisboetês que falam os locutores e os actores".
Há cerca de trinta anos, e sem nenhuma pretensão, Alfredo Mendes começou a coleccionar palavras e expressões que escutava nos locais onde se deslocava enquanto jornalista. "Tomava notas em papéis, nos guardanapos dos cafés", recorda. A obra foi, assim, crescendo por brincadeira e às mijinhas, para utilizar uma das 1735 expressões que Alfredo Mendes recolheu, e só passou a existir realmente quando o editor de um livro que dedicou ao café Piolho lhe perguntou se tinha mais alguma coisa que quisesse ou pudesse publicar. "Lembrei-me que tinha isto lá em casa", remata.
O livro inclui, para além do avantajado glossário, pequenas histórias ilustrativas do modo de falar da cidade e ainda um conjunto de notas biográficas sobre personagens curiosas e célebres, do Duque da Ribeira à Badalhoca das sandes de presunto, passando pelo boavisteiro Zé do Laço.
Bastante diferente foi o processo que levou à criação de Heróis à Moda do Porto, um livro que inclui um conjunto de contos clássicos (a Branca de Neve, por exemplo) contados ao jeito tripeiro. João Carlos Brito, editor e linguísta, encontrou num grupo de alunos de uma oficina de escrita criativa mão-de-obra ao preço da uva mijona e, para além do trabalho criativo, construiu um glossário com cerca de 450 expressões e palavras típicas daquilo a que ironicamente designam como o portoguês.
O livro já vendeu mais de dez mil exemplares e transformou-se num "fenómeno curiosíssimo", ao ponto de a editora Lugar da Palavra ter lançado também uma obra semelhante com sotaque alentejano. "É uma forma de, sem perder a qualidade académica, defender o património linguístico com algum humor, preservando a língua", considera João Carlos Brito.
Bué e tótil
Alfredo Mendes concorda: "Em vinte anos, há palavras e expressões de que já ninguém se lembra e que quase ninguém usa. Algumas são expressões que vieram do Português arcaico, do século XIV, ou que vieram do Douro e de Trás-os-Montes. Mas as pessoas convenceram-se de que é parolo falar assim".
João Carlos Brito recorda, a propósito, um teste que realizou com alunos do segundo ciclo com as palavras "tótil" e "bué", sinónimos populares e juvenis de "muito". "No Porto, há vinte anos, dizia-se tótil e em Lisboa, por causa da influência africana, bué. Hoje o tótil desapareceu e aqui no Porto diz-se bué tótil de vezes", graceja. "As distâncias, que antes ajudavam a preservar as especificidades, esbateram-se e hoje, com os chats na Internet, aquilo que se diz no Porto diz-se também, segundos depois, no resto do país", acrescenta para ilustrar a normalização que vai atingindo a língua.
As palavras, diz o povo, "leva-as o vento". "Mas a estas palavras isso já não acontecerá, ficam fixadas no livro", argumenta Alfredo Mendes. Não menos importante, a adesão do público a livros como Heróis à Moda do Porto demonstra que as pessoas ainda se interessam pelo assunto e gostam de reencontrar as suas origens também no que à língua diz respeito. "A capital caricaturiza tudo aquilo que é diferente e isso gera um complexo de inferioridade. Mas estes trabalhos ajudam a esbater esse preconceito. Se as palavras estão num livro, então talvez já não sejam parolas", reflecte o jornalista, convencido de que Porto, Naçom de Falares também se pode transformar num sucesso de vendas.
O fenómeno é também explicado por João Carlos Brito, segundo o qual existe no Porto, como talvez em mais lado nenhum, uma "identificação das pessoas com a sua cidade e a sua língua, um orgulho muito grande". "De forma indirecta, o livro promove um reencontro das pessoas com as suas raízes e é muito curioso que o epicentro das vendas dos Heróis à Moda do Porto tenha sido o Porto, enquanto o livro do Alentejo vende muito mais em Lisboa", revela.
Haverá, claro, quem não aprecie expressões como "gostar do bafo no cachaço", "via de serventia" ou "andar à mama", mas, a esses morcões, será melhor mandá-los encherem-se de moscas. Como o texto já vai grande à fartazana, trataremos agora de dar corda aos vitorinos e ir tratar de outra vida.
Entre-se no Mercado do Bolhão num dia qualquer (a passada quinta-feira, por exemplo). Não será preciso andar por lá muito tempo para escutar duas clientes que, falando uma com a outra, se queixam de que um determinado comerciante é "muito trafulha". Mais adiante, até um marmanjo de quase 40 anos se vê transformado em "freguesinho". Mas basta, afinal, andar no moderníssimo metro para, à hora de almoço, ouvir o condutor avisar "o animal" (em Lisboa, chamam-lhe "emplastro") de que o segurança vai entrar para lhe acertar o passo - pô-lo na ordem, ou lá o que é.
O falar à moda do Porto, sem querer estar a armar ao pingarelho ou a arrotar postas de pescada, distingue-se basicamente por peculiaridades fonéticas (o famoso sotaque, que pode ser mais ou menos acentuado), pela utilização benévola do palavrão e pela invenção de palavras e expressões curiosas. Se o sotaque tripeiro tem sido objecto de inúmeras apropriações artísticas, do personagem José Esteves, de Herman José, aos mais recentes locutores do Telerural, passando pelas canções do Trabalhadores do Comércio, os dois livros recentemente lançados incidem sobretudo sobre as palavras e expressões próprias do vocabulário regional.
Património imaterial
"São palavras que vão desaparecendo e que são um património imaterial precioso, colorido", explica Alfredo Mendes, o autor de Porto, Naçom de Falares. A língua, diz, "está a ser normalizada e padronizada pelas televisões, por essa espécie de lisboetês que falam os locutores e os actores".
Há cerca de trinta anos, e sem nenhuma pretensão, Alfredo Mendes começou a coleccionar palavras e expressões que escutava nos locais onde se deslocava enquanto jornalista. "Tomava notas em papéis, nos guardanapos dos cafés", recorda. A obra foi, assim, crescendo por brincadeira e às mijinhas, para utilizar uma das 1735 expressões que Alfredo Mendes recolheu, e só passou a existir realmente quando o editor de um livro que dedicou ao café Piolho lhe perguntou se tinha mais alguma coisa que quisesse ou pudesse publicar. "Lembrei-me que tinha isto lá em casa", remata.
O livro inclui, para além do avantajado glossário, pequenas histórias ilustrativas do modo de falar da cidade e ainda um conjunto de notas biográficas sobre personagens curiosas e célebres, do Duque da Ribeira à Badalhoca das sandes de presunto, passando pelo boavisteiro Zé do Laço.
Bastante diferente foi o processo que levou à criação de Heróis à Moda do Porto, um livro que inclui um conjunto de contos clássicos (a Branca de Neve, por exemplo) contados ao jeito tripeiro. João Carlos Brito, editor e linguísta, encontrou num grupo de alunos de uma oficina de escrita criativa mão-de-obra ao preço da uva mijona e, para além do trabalho criativo, construiu um glossário com cerca de 450 expressões e palavras típicas daquilo a que ironicamente designam como o portoguês.
O livro já vendeu mais de dez mil exemplares e transformou-se num "fenómeno curiosíssimo", ao ponto de a editora Lugar da Palavra ter lançado também uma obra semelhante com sotaque alentejano. "É uma forma de, sem perder a qualidade académica, defender o património linguístico com algum humor, preservando a língua", considera João Carlos Brito.
Bué e tótil
Alfredo Mendes concorda: "Em vinte anos, há palavras e expressões de que já ninguém se lembra e que quase ninguém usa. Algumas são expressões que vieram do Português arcaico, do século XIV, ou que vieram do Douro e de Trás-os-Montes. Mas as pessoas convenceram-se de que é parolo falar assim".
João Carlos Brito recorda, a propósito, um teste que realizou com alunos do segundo ciclo com as palavras "tótil" e "bué", sinónimos populares e juvenis de "muito". "No Porto, há vinte anos, dizia-se tótil e em Lisboa, por causa da influência africana, bué. Hoje o tótil desapareceu e aqui no Porto diz-se bué tótil de vezes", graceja. "As distâncias, que antes ajudavam a preservar as especificidades, esbateram-se e hoje, com os chats na Internet, aquilo que se diz no Porto diz-se também, segundos depois, no resto do país", acrescenta para ilustrar a normalização que vai atingindo a língua.
As palavras, diz o povo, "leva-as o vento". "Mas a estas palavras isso já não acontecerá, ficam fixadas no livro", argumenta Alfredo Mendes. Não menos importante, a adesão do público a livros como Heróis à Moda do Porto demonstra que as pessoas ainda se interessam pelo assunto e gostam de reencontrar as suas origens também no que à língua diz respeito. "A capital caricaturiza tudo aquilo que é diferente e isso gera um complexo de inferioridade. Mas estes trabalhos ajudam a esbater esse preconceito. Se as palavras estão num livro, então talvez já não sejam parolas", reflecte o jornalista, convencido de que Porto, Naçom de Falares também se pode transformar num sucesso de vendas.
O fenómeno é também explicado por João Carlos Brito, segundo o qual existe no Porto, como talvez em mais lado nenhum, uma "identificação das pessoas com a sua cidade e a sua língua, um orgulho muito grande". "De forma indirecta, o livro promove um reencontro das pessoas com as suas raízes e é muito curioso que o epicentro das vendas dos Heróis à Moda do Porto tenha sido o Porto, enquanto o livro do Alentejo vende muito mais em Lisboa", revela.
Haverá, claro, quem não aprecie expressões como "gostar do bafo no cachaço", "via de serventia" ou "andar à mama", mas, a esses morcões, será melhor mandá-los encherem-se de moscas. Como o texto já vai grande à fartazana, trataremos agora de dar corda aos vitorinos e ir tratar de outra vida.
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.Continua no Galeria & Photomaton
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Trabalhadores do Comércio - O Norte é uma Naçóm, Carago
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O Tal Canal - José Esteves (Herman José)
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José Esteves - Herman José - Bámos lá Cambada
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segunda-feira, 12 de maio de 2008
Lendas
Lendas do distrito de Lisboa
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Lenda das Obras de Santa Engrácia
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Simão Pires, um cristão novo, cavalgava todos os dias até ao convento de Santa Clara para se encontrar às escondidas com Violante. A jovem tinha sido feita noviça à força por vontade do seu pai fidalgo que não estava de acordo com o seu amor. Um dia, Simão pediu à sua amada para fugir com ele, dando-lhe um dia para decidir. No dia seguinte, Simão foi acordado pelos homens do rei que o vinham prender acusando-o do roubo das relíquias da igreja de Santa Engrácia que ficava perto do convento. Para não prejudicar Violante, Simão não revelou a razão porque tinha sido visto no local. Apesar de invocar a sua inocência foi preso e condenado à morte na fogueira que se realizaria junto da nova igreja de Santa Engrácia, cujas obras já tinham começado. Quando as labaredas envolveram o corpo de Simão, este gritou que era tão certo morrer inocente como as obras nunca mais acabarem. Os anos passaram e a freira Violante foi um dia chamada a assistir aos últimos momentos de um ladrão que tinha pedido a sua presença. Revelou-lhe que tinha sido ele o ladrão das relíquias e sabendo da relação secreta dos jovens, tinha incriminado Simão. Pedia-lhe agora o perdão que Violante lhe concedeu. Entretanto, um facto singular acontecia: as obras da igreja iniciadas à época da execução de Simão pareciam nunca mais ter fim. De tal forma que o povo se habitou a comparar tudo aquilo que não mais acaba às obras de Santa Engrácia.
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Lenda da Cova Encantada ou da Casa da Moura Zaida
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Na serra de Sintra, perto do Castelo dos Mouros, existe uma rocha com um corte que a tradição diz marcar a entrada para uma cova que tem comunicação com o castelo. É conhecida pela Cova da Moura ou a Cova Encantada e está ligada a uma lenda do tempo em que os Mouros dominavam Sintra e os cristãos nela faziam frequentes incursões. Num dos combates, foi feito prisioneiro um cavaleiro nobre por quem Zaida, a filha do alcaide, se apaixonou. Dia após dia, Zaida visitava o nobre cavaleiro até que chegou a hora da sua libertação, através do pagamento de um resgate. O cavaleiro apaixonado pediu a Zaida para fugir com ele mas Zaida recusou, pedindo-lhe para nunca mais a esquecer. O nobre cavaleiro voltou para a sua família mas uma grande tristeza ensombrava os seus dias. Tentou esquecer Zaida nos campos de batalha, mas após muitas noites de insónia decidiu atacar de novo o castelo de Sintra. Foi durante esse combate que os dois enamorados se abraçaram, mas a sorte ou o azar quis que o nobre cavaleiro tombasse ferido. Zaida arrastou o seu amado, através de uma passagem secreta, até uma sala escondida nas grutas e, enquanto enchia uma bilha de água numa nascente próxima para levar ao seu amado, foi atingida por uma seta e caiu ferida. O cavaleiro cristão juntou-se ao corpo da sua amada e os dois sangues misturaram-se, sendo ambos encontrados mais tarde já sem vida. Desde então, em certas noites de luar, aparece junto à cova uma formosa donzela vestida de branco com uma bilha que enche de água para depois desaparecer na noite após um doloroso gemido...
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Lenda dos Sete Ais
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Esta é uma lenda estranha que está na origem do nome de um local do concelho de Sintra e que remonta a 1147, data em que D. Afonso Henriques conquistou Lisboa aos Mouros. Destacado para ocupar o castelo de Sintra, D. Mendo de Paiva surpreendeu a princesa moura Anasir, que fugia com a sua aia Zuleima. A jovem assustada gritou um "Ai!" e quando D. Mendo mostrou intenção de não a deixar sair, outro "Ai!" lhe saiu da garganta. Zuleima, sem lhe explicar a razão, pediu-lhe para nunca mais soltar nenhum grito do género, mas ao ver aproximar-se o exército cristão a jovem soltou o terceiro "Ai!". D. Mendo decidiu esconder a princesa e a sua aia numa casa que tinha na região e querendo levar a jovem no seu cavalo, ameaçou-a de a separar da sua aia se ela não acedesse e Anasir deixou escapar o quarto "Ai!". Pouco depois de se instalar na casa, a princesa moura apaixonou-se por D. Mendo de Paiva, retribuindo o amor do cavaleiro cristão que em segredo a mantinha longe de todos. Um dia, a casa começou a ser rondada por mouros e Zuleima receava que fosse o antigo noivo de Anasir, Aben-Abed, que apesar de na fuga se ter esquecido da sua noiva, voltava agora para castigar a sua traição. Zuleima contou a D. Mendo que uma feiticeira lhe tinha dito que a princesa morreria ao pronunciar o sétimo "Ai!". Entretanto, Anasir curiosa pela preocupação da aia em relação aos seus "Ais", exprimiu o quinto e o sexto consecutivamente, desesperando a sua aia que continuou a não lhe revelar o segredo. D. Mendo partiu para uma batalha e passados sete dias foi Aben-Abed que surpreendeu Anasir, que soltou o sétimo "Ai!", ao mesmo tempo que o punhal do mouro a feria no peito. Enlouquecido pela dor, D. Mendo de Paiva tornou-se no mais feroz caçador de mouros do seu tempo.
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O Cavaleiro Henrique
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Nos primeiros tempos da Reconquista, cerca de treze mil cruzados vieram de toda a Europa para auxiliar D. Afonso Henriques na Reconquista aos Mouros. Entre os muitos que pereceram e que foram considerados mártires, houve um cavaleiro chamado Henrique, originário de Bona, que morreu na conquista de Lisboa e que foi sepultado na Igreja de S. Vicente de Fora. À memória do Cavaleiro Henrique estão associados muitos milagres, um dos quais deixou vestígios no nome de uma rua de Lisboa.
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A lenda diz que logo que Henrique foi sepultado, dois dos seus companheiros, ambos cavaleiros surdos e mudos de nascença, vieram deitar-se sobre o seu túmulo de forma a que Henrique intercedesse junto de Deus pela sua cura. Em sonhos, Henrique disse-lhes que Deus os tinha curado e quando acordaram verificaram o milagre. Pouco tempo depois, morreu um escudeiro de Henrique dos ferimentos que tinha sofrido na conquista de Lisboa e foi sepultado na Igreja de S. Vicente, mas longe do túmulo do seu amo. O cavaleiro Henrique apareceu em sonhos ao sacristão da igreja e disse-lhe que queria o corpo do escudeiro junto de si. O sacristão não ligou importância ao sonho, nem quando este se repetiu no dia seguinte. Na terceira noite, Henrique, novamente em sonhos, falou-lhe tão irritado com a sua indiferença que o sacristão acordou imediatamente e passou todo o resto da noite a cumprir as suas indicações. Pela manhã e apesar de ter passado toda a noite naquele trabalho, encontrava-se descansado como se tivesse dormido toda a noite. A novidade espalhou-se e os feitos do Cavaleiro Henrique continuaram: segundo a lenda, cresceu uma palma no seu túmulo cujas folhas curavam os males de todos os peregrinos que ali acorriam. Um dia a palma foi roubada mas ficou para sempre na memória do povo através do nome de uma rua, a da Palma, na baixa de Lisboa.
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Martim Moniz
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O nome de Martim Moniz está ligado à conquista de Lisboa aos Mouros e figura na memória da cidade através de uma praça com o seu nome. A lenda conta que D. Afonso Henriques tinha posto cerco à cidade, ajudado pelos muitos cruzados que por aqui passaram a caminho da Terra Santa. O cerco durou ainda algum tempo, durante o qual se travavam pequenas investidas por parte dos cristãos. Numa dessas tentativas de assalto a uma das portas da cidade, Martim Moniz enfrentou os mouros que saíam para repelir os cristãos e conseguiu manter a porta aberta mesmo a custo da sua própria vida. O seu corpo ficou atravessado entre os dois batentes e permitiu que os cristãos liderados por D. Afonso Henriques entrassem na cidade. Ferido gravemente, Martim Moniz entrou com os seus companheiros e fez ainda algumas vítimas entre os seus inimigos, antes de cair morto. D. Afonso Henriques quis honrar a sua valentia e o sacrifício da sua vida ordenando que aquela entrada passasse a ter o nome de Martim Moniz. O povo diz que foi D. Afonso Henriques que mandou colocar o busto do herói num nicho de pedra, onde ainda hoje se encontra, junto à Praça de Martim Moniz.
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A Mula da Rainha Santa
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A Rainha Santa a que se refere esta lenda é D. Mafalda, a filha preferida de D. Sancho I e a irmã favorita de D. Afonso II. A jovem princesa era bela e perfeita como poucas e senhora de uma esmerada educação. Naquele tempo, subiu ao trono de Castela D. Henrique, uma criança de doze anos apenas, facilmente manobrada pelo seu tutor, Álvaro de Lara, que queria governar através do jovem rei. Querendo-lhe dar como esposa uma mulher que o dominasse quando fosse adulto, escolheu D. Mafalda e o casamento celebrou-se. D. Berengária, a mãe de D. Henrique, invocou ao Papa a consanguinidade dos jovens e o divórcio teve lugar antes da súbita morte do rei aos 14 anos. D. Mafalda regressou a Portugal virgem e assim se manteve até ao fim da sua vida, passando desde então a ser tratada por "rainha". Viveu os últimos anos da sua vida no Mosteiro de Arouca, onde recebeu o hábito de monja. Morreu aos 90 anos durante uma cobrança de foros e rendas em Rio Tinto, cujos habitantes queriam que D. Mafalda fosse sepultada nessa mesma terra. Mas em Arouca discordavam, porque era no Mosteiro que ela vivia e na sua igreja deveria repousar o seu corpo para sempre. Estava a discórdia instalada quando alguém se lembrou de dizer que se pusesse o caixão em cima da mula em que a Infanta costuma viajar e para onde o animal se dirigisse seria o local onde seria sepultada. A mula não teve dúvidas e quando chegou à igreja do Mosteiro de Arouca, acercou-se do altar de S. Pedro e aí morreu. O sepulcro de D. Mafalda foi duas vezes aberto no século XVII e tanto o seu corpo como as suas vestes estavam incorruptos. Em 1793, o Papa Pio VI confirmou-lhe o culto com o título de beata.
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Lenda de Santa Joana Princesa
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A princesa D. Joana, filha do rei Afonso V, revelou desde muito tenra idade uma grande vocação religiosa. Esta filha primogénita, apesar de ser obrigada a viver na Corte pela sua posição, afastava-se o mais possível de festas e convívios e passava grande parte do seu tempo a rezar e a meditar. A princesa era, dizia-se, muito bela e teve muitos pretendentes, entre estes muitas cabeças coroadas, mas a todos recusou alegando a sua intenção de se tornar freira. Com a autorização real, entrou D. Joana para Odivelas, mudando-se mais tarde para o Convento de Santa Clara de Coimbra, mas acabando por resolver professar no Convento de Jesus, em Aveiro. Esta última decisão foi contestada tanto pelo rei como pelo povo, dado que o Convento de Jesus era muito pobre e, na opinião geral, indigno de uma princesa. Por outro lado, o povo discordava da vocação da princesa e não queriam que ela professasse. Perante tanta discórdia D. Joana decidiu não professar, mas declarou que usaria o véu de noviça para sempre e insistiu em ingressar no Convento de Jesus, vivendo na humildade e na pobreza e aplicando as rendas que possuía no socorro dos pobres. A sua caridade era tão grande que depressa ficou conhecida como santa. Mas a bela princesa adoeceu de peste e morreu em grande sofrimento. Quando o seu enterro passou pelos jardins do convento deu-se um facto insólito: as flores que ela havia tratado em vida caiam sobre o seu caixão prestando-lhe uma última homenagem. Após este primeiro milagre, muitos outros foram atribuídos a Santa Joana Princesa, levando a que, duzentos anos depois, o Papa Inocêncio XII concedesse a beatificação a esta infanta de Portugal.
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Lendas do distrito do Porto
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O Senhor de Matosinhos
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Segundo a tradição, a imagem do Senhor de Matosinhos é uma das mais antigas de toda a cristandade. A lenda diz que esta imagem foi esculpida por Nicodemos, que assistiu aos últimos momentos de vida de Jesus, sendo por isso considerada uma cópia fiel do seu rosto. Nicodemos esculpiu mais quatro imagens mas esta é considerada a primeira e a mais perfeita. A imagem é oca porque nela teria Nicodemos escondido os instrumentos da Paixão e, nesses tempos de perseguição, os objectos sagrados eram escondidos ou atirados ao mar para escaparem à fogueira. Nicodemos atirou a imagem ao mar Mediterrâneo, na Judeia, e esta foi levada pelas águas, passou o estreito de Gibraltar e veio dar à praia de Matosinhos, perdendo na viagem um braço. A população de Bouças ergueu-lhe um templo e designou a imagem por Nosso Senhor de Bouças, venerando-a durante 50 anos pelos seus muitos milagres. Mas um dia, andava uma mulher na praia de Matosinhos a apanhar lenha para a sua lareira, quando encontrou um pedaço de madeira que juntou aos restantes. Em casa, lançou-o ao fogo mas este pedaço saltou da lareira não só da primeira, mas como de todas as vezes que ela o tentava queimar. A sua filha, muda de nascença, fazia-lhe gestos desesperados para que dizer qualquer coisa e, por fim, balbuciou, perante o espanto da mãe, que o pedaço de madeira era o braço de Nosso Senhor das Bouças. Assombrada pelo milagre a população verificou que o braço se ajustava tão bem à imagem que parecia que nunca dela se tinha separado. No século XVI, a imagem foi mudada para uma igreja em Matosinhos, construída em sua honra, ficando a ser conhecida por Nosso Senhor de Matosinhos.
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Santiago e Caio
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No ano de 44 da era de Jesus Cristo, passeava pela praia de Matosinhos um ilustre cavaleiro da Maia, Caio Carpo Palenciano, com a sua mulher Claudina e vários parentes e amigos. Cavalgava o grupo pelo areal quando alguém vislumbrou uma barca que se dirigia para norte. Os cavaleiros e as damas pararam todos para apreciar o ritmo e a beleza da embarcação, quando inexplicavelmente o cavalo de Caio galopou para dentro do mar, apesar de este o tentar evitar, como se fosse obrigado por uma força desconhecida. Cavalo e cavaleiro imergiram no mar e desapareceram para ressurgirem perto da barca, para onde subiram cobertos de vieiras. Quando perguntaram à tripulação o motivo deste fenómeno e qual a razão da sua viagem, estes explicaram que eram discípulos cristãos de um homem chamado Tiago. Tinham fugido de grandes perseguições, levando o corpo do seu Mestre para terras de Espanha, onde Tiago tinha pregado o Evangelho. Segundo estes homens, o fenómeno ocorrido com Caio e o seu cavalo poderia ser explicado pelo facto de ele ser um escolhido de Nosso Senhor. As vieiras eram o sinal de Santiago que queria ver Caio abraçar a lei de Deus. Comovido, Caio foi ali mesmo baptizado com água do mar e, quando voltou para junto dos seus familiares e amigos, a todos converteu com o extraordinário feito de Santiago. As vieiras ficaram a fazer parte do brasão da nobre família Pimentel de Trás-os-Montes, descendentes, segundo se crê, de Caio Carpo Palenciano.
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Lenda de Valongo e Susão
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Os nomes de Valongo e Susão têm origem nesta lenda que remonta à época em que alguns cristãos perseguidos no Oriente se refugiaram em Cale, foz do rio Douro. Entre eles estava o rico negociante judeu Samuel, recém convertido ao Cristianismo, e a sua filha Susana. Pensavam os fugitivos estarem já livres de perseguições quando foram obrigados a defender-se dos árabes que dominavam a região. Com astúcia, prepararam uma armadilha e capturaram o jovem Domus de cujo resgate esperavam obter a paz. Enquanto decorriam as negociações, Domus e Susana apaixonaram-se e o mouro pediu para ser baptizado para poder casar-se com a jovem. O acordo com os muçulmanos era assim impossível e decidiram todos fugir, deixando Portucale (Porto) em direcção ao Oriente. Chegados ao topo da Serra de Santa Justa depararam com uma paisagem lindíssima e a apaixonada Susana exclamou um elogio sincero ao vale longo que sob os seus olhos se estendia. Desceram ao vale e nele decidiram ficar para sempre, edificando as primeiras casas de uma povoação que se veio a chamar Susão, em memória da bela Susana. O vale que Susana tinha achado belo e longo ficou conhecido como Valongo.
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Lenda do Rei Ramiro
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Uma antiga lenda que remonta ao século X, conta que o rei Ramiro II de Leão se apaixonou por uma bela moura de sangue azul, irmã de Alboazer Alboçadam, rei mouro que possuía as terras que iam de Gaia até Santarém. Influenciado pela sua paixão e com a intenção de pedir a moura em casamento, Ramiro decidiu estabelecer a paz com Alboazer, que o recebeu no seu palácio de Gaia. Apesar de já ser casado, Ramiro pensou que seria fácil obter a anulação do seu casamento pelo parentesco que o unia a D. Aldora. Alboazer recusou terminantemente: nunca daria a irmã em casamento a um cristão e, de todas as formas, esta já estava prometida ao rei de Marrocos. O rei Ramiro, vexado, pareceu aceitar a recusa, mas pediu ao astrólogo Amã que estudasse os astros para decidir qual a melhor altura para raptar a princesa e levou-a consigo nessa data propícia. Dando por falta da irmã, Alboazer ainda chegou a tempo de encontrar os cristãos a embarcar no cais de Gaia. Gerou-se uma luta favorável ao rei cristão, que levou a princesa moura para Leão, a baptizou e lhe deu o nome de Artiga, que tanto significava castigada e ensinada como dotada de todos os bens. Alboazer, para se vingar, raptou a legítima esposa do rei Ramiro, D. Aldora, juntamente com todo o seu séquito. Quando o rei Ramiro soube do rapto ficou louco de raiva e, juntamente com o seu filho D. Ordonho e alguns vassalos, zarpou de barco para Gaia. Aí chegados Ramiro disfarçou-se de pedinte e dirigiu-se a uma fonte onde encontrou uma das aias de D. Aldora a quem pediu um pouco de água, aproveitando para dissimuladamente deitar no recipiente da água meio camafeu, do qual a rainha possuía a outra metade. Reconhecendo a jóia, D. Aldora mandou buscar o rei disfarçado de pedinte e, por vingança da sua infidelidade, entregou-o a Alboazer. Sentindo-se perdido, o rei Ramiro pediu a Alboazer uma morte pública, esperando com astúcia ganhar tempo para poder avisar o seu filho através do toque do seu corno de caça. Ao ouvir o sinal combinado, D. Ordonho acorreu com os seus homens ao castelo e juntos mataram Alboazer e o seu povo, para além de destruírem a cidade. Levando D. Aldora e as suas aias para o seu barco, o rei Ramiro atou uma mó de pedra ao pescoço da rainha e atirou-a ao mar num local que ficou a ser conhecido por Foz de Âncora. O rei Ramiro voltou para Leão onde se casou com a princesa Artiga, de quem teve uma vasta e nobre descendência.
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Lenda de Pedro Sem
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A torre medieval que se encontra diante do antigo Palácio de Cristal, no Porto, é ainda hoje conhecida por Torre de Pedro Sem. A história diz que essa torre pertencia a Pêro do Sem, doutor de leis, jurisconsulto e chanceler-mor de D. Afonso VI, no século XIV. Mas a lenda remete para uma data posterior, no século XVI, a existência de um personagem Pedro Sem que vivia no seu Palácio da Torre. Possuindo muitas naus na Índia, Pedro Sem era um mercador rico mas não tinha títulos de nobreza, o que muito o afectava. Era também usurário, emprestando dinheiro a juros elevados, à custa da desgraça alheia, enquanto vivia rodeado de luxo. Estavam as suas naus a chegar, carregadas de especiarias e outros bens preciosos, quando a sua máxima ambição foi realizada através do seu casamento com uma jovem da nobreza, em troca do perdão das dívidas de seu pai. Decorria a festa de casamento, que durou quinze dias consecutivos, quando as naus de Pedro Sem se aproximaram da barra do Douro. O arrogante mercador acompanhado pelos seus convidados subiu à torre do seu palácio e, confiante do seu poder, desafiou Deus, dizendo que nem o Criador o poderia fazer pobre. Nesse momento, o céu que estava azul deu lugar a uma grande tempestade! Pedro Sem assistiu, impotente e encharcado pela chuva, ao naufrágio das suas naus. De seguida, a torre foi atingida por um raio que fez deflagrar um incêndio que destruiu todos os seus bens. Arruinado, Pedro Sem passou a pedir esmola nas ruas, lamentando-se a quem passava: "Dê uma esmolinha a Pedro Sem, que teve tudo e agora não tem...".
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Lenda dos Tripeiros
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No ano de 1415, construíam-se nas margens do Douro as naus e os barcos que haveriam de levar os portugueses, nesse ano, à conquista de Ceuta e, mais tarde, à epopeia dos Descobrimentos. A razão deste empreendimento era secreta e nos estaleiros os boatos eram muitos e variados: uns diziam que as embarcações eram destinadas a transportar a Infanta D. Helena a Inglaterra, onde se casaria; outros diziam que era para levar El-Rei D. João I a Jerusalém para visitar o Santo Sepulcro. Mas havia ainda quem afirmasse a pés juntos que a armada se destinava a conduzir os Infantes D. Pedro e D. Henrique a Nápoles para ali se casarem...
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Foi então que o Infante D. Henrique apareceu inesperadamente no Porto para ver o andamento dos trabalhos e, embora satisfeito com o esforço despendido, achou que se poderia fazer ainda mais. E o Infante confidenciou ao mestre Vaz, o fiel encarregado da construção, as verdadeiras e secretas razões que estavam na sua origem: a conquista de Ceuta. Pediu ao mestre e aos seus homens mais empenho e sacrifícios, ao que mestre Vaz lhe assegurou que fariam para o infante o mesmo que tinham feito cerca de trinta anos atrás aquando da guerra com Castela: dariam toda a carne da cidade e comeriam apenas as tripas. Este sacrifício tinha-lhes valido mesmo a alcunha de "tripeiros". Comovido, o infante D. Henrique disse-lhe então que esse nome de "tripeiros" era uma verdadeira honra para o povo do Porto. A História de Portugal registou mais este sacrifício invulgar dos heróicos "tripeiros" que contribuiu para que a grande frota do Infante D. Henrique, com sete galés e vinte naus, partisse a caminho da conquista de Ceuta.
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Lenda das Obras de Santa Engrácia
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Simão Pires, um cristão novo, cavalgava todos os dias até ao convento de Santa Clara para se encontrar às escondidas com Violante. A jovem tinha sido feita noviça à força por vontade do seu pai fidalgo que não estava de acordo com o seu amor. Um dia, Simão pediu à sua amada para fugir com ele, dando-lhe um dia para decidir. No dia seguinte, Simão foi acordado pelos homens do rei que o vinham prender acusando-o do roubo das relíquias da igreja de Santa Engrácia que ficava perto do convento. Para não prejudicar Violante, Simão não revelou a razão porque tinha sido visto no local. Apesar de invocar a sua inocência foi preso e condenado à morte na fogueira que se realizaria junto da nova igreja de Santa Engrácia, cujas obras já tinham começado. Quando as labaredas envolveram o corpo de Simão, este gritou que era tão certo morrer inocente como as obras nunca mais acabarem. Os anos passaram e a freira Violante foi um dia chamada a assistir aos últimos momentos de um ladrão que tinha pedido a sua presença. Revelou-lhe que tinha sido ele o ladrão das relíquias e sabendo da relação secreta dos jovens, tinha incriminado Simão. Pedia-lhe agora o perdão que Violante lhe concedeu. Entretanto, um facto singular acontecia: as obras da igreja iniciadas à época da execução de Simão pareciam nunca mais ter fim. De tal forma que o povo se habitou a comparar tudo aquilo que não mais acaba às obras de Santa Engrácia.
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Lenda da Cova Encantada ou da Casa da Moura Zaida
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Na serra de Sintra, perto do Castelo dos Mouros, existe uma rocha com um corte que a tradição diz marcar a entrada para uma cova que tem comunicação com o castelo. É conhecida pela Cova da Moura ou a Cova Encantada e está ligada a uma lenda do tempo em que os Mouros dominavam Sintra e os cristãos nela faziam frequentes incursões. Num dos combates, foi feito prisioneiro um cavaleiro nobre por quem Zaida, a filha do alcaide, se apaixonou. Dia após dia, Zaida visitava o nobre cavaleiro até que chegou a hora da sua libertação, através do pagamento de um resgate. O cavaleiro apaixonado pediu a Zaida para fugir com ele mas Zaida recusou, pedindo-lhe para nunca mais a esquecer. O nobre cavaleiro voltou para a sua família mas uma grande tristeza ensombrava os seus dias. Tentou esquecer Zaida nos campos de batalha, mas após muitas noites de insónia decidiu atacar de novo o castelo de Sintra. Foi durante esse combate que os dois enamorados se abraçaram, mas a sorte ou o azar quis que o nobre cavaleiro tombasse ferido. Zaida arrastou o seu amado, através de uma passagem secreta, até uma sala escondida nas grutas e, enquanto enchia uma bilha de água numa nascente próxima para levar ao seu amado, foi atingida por uma seta e caiu ferida. O cavaleiro cristão juntou-se ao corpo da sua amada e os dois sangues misturaram-se, sendo ambos encontrados mais tarde já sem vida. Desde então, em certas noites de luar, aparece junto à cova uma formosa donzela vestida de branco com uma bilha que enche de água para depois desaparecer na noite após um doloroso gemido...
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Lenda dos Sete Ais
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Esta é uma lenda estranha que está na origem do nome de um local do concelho de Sintra e que remonta a 1147, data em que D. Afonso Henriques conquistou Lisboa aos Mouros. Destacado para ocupar o castelo de Sintra, D. Mendo de Paiva surpreendeu a princesa moura Anasir, que fugia com a sua aia Zuleima. A jovem assustada gritou um "Ai!" e quando D. Mendo mostrou intenção de não a deixar sair, outro "Ai!" lhe saiu da garganta. Zuleima, sem lhe explicar a razão, pediu-lhe para nunca mais soltar nenhum grito do género, mas ao ver aproximar-se o exército cristão a jovem soltou o terceiro "Ai!". D. Mendo decidiu esconder a princesa e a sua aia numa casa que tinha na região e querendo levar a jovem no seu cavalo, ameaçou-a de a separar da sua aia se ela não acedesse e Anasir deixou escapar o quarto "Ai!". Pouco depois de se instalar na casa, a princesa moura apaixonou-se por D. Mendo de Paiva, retribuindo o amor do cavaleiro cristão que em segredo a mantinha longe de todos. Um dia, a casa começou a ser rondada por mouros e Zuleima receava que fosse o antigo noivo de Anasir, Aben-Abed, que apesar de na fuga se ter esquecido da sua noiva, voltava agora para castigar a sua traição. Zuleima contou a D. Mendo que uma feiticeira lhe tinha dito que a princesa morreria ao pronunciar o sétimo "Ai!". Entretanto, Anasir curiosa pela preocupação da aia em relação aos seus "Ais", exprimiu o quinto e o sexto consecutivamente, desesperando a sua aia que continuou a não lhe revelar o segredo. D. Mendo partiu para uma batalha e passados sete dias foi Aben-Abed que surpreendeu Anasir, que soltou o sétimo "Ai!", ao mesmo tempo que o punhal do mouro a feria no peito. Enlouquecido pela dor, D. Mendo de Paiva tornou-se no mais feroz caçador de mouros do seu tempo.
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O Cavaleiro Henrique
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Nos primeiros tempos da Reconquista, cerca de treze mil cruzados vieram de toda a Europa para auxiliar D. Afonso Henriques na Reconquista aos Mouros. Entre os muitos que pereceram e que foram considerados mártires, houve um cavaleiro chamado Henrique, originário de Bona, que morreu na conquista de Lisboa e que foi sepultado na Igreja de S. Vicente de Fora. À memória do Cavaleiro Henrique estão associados muitos milagres, um dos quais deixou vestígios no nome de uma rua de Lisboa.
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A lenda diz que logo que Henrique foi sepultado, dois dos seus companheiros, ambos cavaleiros surdos e mudos de nascença, vieram deitar-se sobre o seu túmulo de forma a que Henrique intercedesse junto de Deus pela sua cura. Em sonhos, Henrique disse-lhes que Deus os tinha curado e quando acordaram verificaram o milagre. Pouco tempo depois, morreu um escudeiro de Henrique dos ferimentos que tinha sofrido na conquista de Lisboa e foi sepultado na Igreja de S. Vicente, mas longe do túmulo do seu amo. O cavaleiro Henrique apareceu em sonhos ao sacristão da igreja e disse-lhe que queria o corpo do escudeiro junto de si. O sacristão não ligou importância ao sonho, nem quando este se repetiu no dia seguinte. Na terceira noite, Henrique, novamente em sonhos, falou-lhe tão irritado com a sua indiferença que o sacristão acordou imediatamente e passou todo o resto da noite a cumprir as suas indicações. Pela manhã e apesar de ter passado toda a noite naquele trabalho, encontrava-se descansado como se tivesse dormido toda a noite. A novidade espalhou-se e os feitos do Cavaleiro Henrique continuaram: segundo a lenda, cresceu uma palma no seu túmulo cujas folhas curavam os males de todos os peregrinos que ali acorriam. Um dia a palma foi roubada mas ficou para sempre na memória do povo através do nome de uma rua, a da Palma, na baixa de Lisboa.
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Martim Moniz
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O nome de Martim Moniz está ligado à conquista de Lisboa aos Mouros e figura na memória da cidade através de uma praça com o seu nome. A lenda conta que D. Afonso Henriques tinha posto cerco à cidade, ajudado pelos muitos cruzados que por aqui passaram a caminho da Terra Santa. O cerco durou ainda algum tempo, durante o qual se travavam pequenas investidas por parte dos cristãos. Numa dessas tentativas de assalto a uma das portas da cidade, Martim Moniz enfrentou os mouros que saíam para repelir os cristãos e conseguiu manter a porta aberta mesmo a custo da sua própria vida. O seu corpo ficou atravessado entre os dois batentes e permitiu que os cristãos liderados por D. Afonso Henriques entrassem na cidade. Ferido gravemente, Martim Moniz entrou com os seus companheiros e fez ainda algumas vítimas entre os seus inimigos, antes de cair morto. D. Afonso Henriques quis honrar a sua valentia e o sacrifício da sua vida ordenando que aquela entrada passasse a ter o nome de Martim Moniz. O povo diz que foi D. Afonso Henriques que mandou colocar o busto do herói num nicho de pedra, onde ainda hoje se encontra, junto à Praça de Martim Moniz.
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A Mula da Rainha Santa
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A Rainha Santa a que se refere esta lenda é D. Mafalda, a filha preferida de D. Sancho I e a irmã favorita de D. Afonso II. A jovem princesa era bela e perfeita como poucas e senhora de uma esmerada educação. Naquele tempo, subiu ao trono de Castela D. Henrique, uma criança de doze anos apenas, facilmente manobrada pelo seu tutor, Álvaro de Lara, que queria governar através do jovem rei. Querendo-lhe dar como esposa uma mulher que o dominasse quando fosse adulto, escolheu D. Mafalda e o casamento celebrou-se. D. Berengária, a mãe de D. Henrique, invocou ao Papa a consanguinidade dos jovens e o divórcio teve lugar antes da súbita morte do rei aos 14 anos. D. Mafalda regressou a Portugal virgem e assim se manteve até ao fim da sua vida, passando desde então a ser tratada por "rainha". Viveu os últimos anos da sua vida no Mosteiro de Arouca, onde recebeu o hábito de monja. Morreu aos 90 anos durante uma cobrança de foros e rendas em Rio Tinto, cujos habitantes queriam que D. Mafalda fosse sepultada nessa mesma terra. Mas em Arouca discordavam, porque era no Mosteiro que ela vivia e na sua igreja deveria repousar o seu corpo para sempre. Estava a discórdia instalada quando alguém se lembrou de dizer que se pusesse o caixão em cima da mula em que a Infanta costuma viajar e para onde o animal se dirigisse seria o local onde seria sepultada. A mula não teve dúvidas e quando chegou à igreja do Mosteiro de Arouca, acercou-se do altar de S. Pedro e aí morreu. O sepulcro de D. Mafalda foi duas vezes aberto no século XVII e tanto o seu corpo como as suas vestes estavam incorruptos. Em 1793, o Papa Pio VI confirmou-lhe o culto com o título de beata.
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Lenda de Santa Joana Princesa
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A princesa D. Joana, filha do rei Afonso V, revelou desde muito tenra idade uma grande vocação religiosa. Esta filha primogénita, apesar de ser obrigada a viver na Corte pela sua posição, afastava-se o mais possível de festas e convívios e passava grande parte do seu tempo a rezar e a meditar. A princesa era, dizia-se, muito bela e teve muitos pretendentes, entre estes muitas cabeças coroadas, mas a todos recusou alegando a sua intenção de se tornar freira. Com a autorização real, entrou D. Joana para Odivelas, mudando-se mais tarde para o Convento de Santa Clara de Coimbra, mas acabando por resolver professar no Convento de Jesus, em Aveiro. Esta última decisão foi contestada tanto pelo rei como pelo povo, dado que o Convento de Jesus era muito pobre e, na opinião geral, indigno de uma princesa. Por outro lado, o povo discordava da vocação da princesa e não queriam que ela professasse. Perante tanta discórdia D. Joana decidiu não professar, mas declarou que usaria o véu de noviça para sempre e insistiu em ingressar no Convento de Jesus, vivendo na humildade e na pobreza e aplicando as rendas que possuía no socorro dos pobres. A sua caridade era tão grande que depressa ficou conhecida como santa. Mas a bela princesa adoeceu de peste e morreu em grande sofrimento. Quando o seu enterro passou pelos jardins do convento deu-se um facto insólito: as flores que ela havia tratado em vida caiam sobre o seu caixão prestando-lhe uma última homenagem. Após este primeiro milagre, muitos outros foram atribuídos a Santa Joana Princesa, levando a que, duzentos anos depois, o Papa Inocêncio XII concedesse a beatificação a esta infanta de Portugal.
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Lendas do distrito do Porto
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O Senhor de Matosinhos
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Segundo a tradição, a imagem do Senhor de Matosinhos é uma das mais antigas de toda a cristandade. A lenda diz que esta imagem foi esculpida por Nicodemos, que assistiu aos últimos momentos de vida de Jesus, sendo por isso considerada uma cópia fiel do seu rosto. Nicodemos esculpiu mais quatro imagens mas esta é considerada a primeira e a mais perfeita. A imagem é oca porque nela teria Nicodemos escondido os instrumentos da Paixão e, nesses tempos de perseguição, os objectos sagrados eram escondidos ou atirados ao mar para escaparem à fogueira. Nicodemos atirou a imagem ao mar Mediterrâneo, na Judeia, e esta foi levada pelas águas, passou o estreito de Gibraltar e veio dar à praia de Matosinhos, perdendo na viagem um braço. A população de Bouças ergueu-lhe um templo e designou a imagem por Nosso Senhor de Bouças, venerando-a durante 50 anos pelos seus muitos milagres. Mas um dia, andava uma mulher na praia de Matosinhos a apanhar lenha para a sua lareira, quando encontrou um pedaço de madeira que juntou aos restantes. Em casa, lançou-o ao fogo mas este pedaço saltou da lareira não só da primeira, mas como de todas as vezes que ela o tentava queimar. A sua filha, muda de nascença, fazia-lhe gestos desesperados para que dizer qualquer coisa e, por fim, balbuciou, perante o espanto da mãe, que o pedaço de madeira era o braço de Nosso Senhor das Bouças. Assombrada pelo milagre a população verificou que o braço se ajustava tão bem à imagem que parecia que nunca dela se tinha separado. No século XVI, a imagem foi mudada para uma igreja em Matosinhos, construída em sua honra, ficando a ser conhecida por Nosso Senhor de Matosinhos.
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Santiago e Caio
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No ano de 44 da era de Jesus Cristo, passeava pela praia de Matosinhos um ilustre cavaleiro da Maia, Caio Carpo Palenciano, com a sua mulher Claudina e vários parentes e amigos. Cavalgava o grupo pelo areal quando alguém vislumbrou uma barca que se dirigia para norte. Os cavaleiros e as damas pararam todos para apreciar o ritmo e a beleza da embarcação, quando inexplicavelmente o cavalo de Caio galopou para dentro do mar, apesar de este o tentar evitar, como se fosse obrigado por uma força desconhecida. Cavalo e cavaleiro imergiram no mar e desapareceram para ressurgirem perto da barca, para onde subiram cobertos de vieiras. Quando perguntaram à tripulação o motivo deste fenómeno e qual a razão da sua viagem, estes explicaram que eram discípulos cristãos de um homem chamado Tiago. Tinham fugido de grandes perseguições, levando o corpo do seu Mestre para terras de Espanha, onde Tiago tinha pregado o Evangelho. Segundo estes homens, o fenómeno ocorrido com Caio e o seu cavalo poderia ser explicado pelo facto de ele ser um escolhido de Nosso Senhor. As vieiras eram o sinal de Santiago que queria ver Caio abraçar a lei de Deus. Comovido, Caio foi ali mesmo baptizado com água do mar e, quando voltou para junto dos seus familiares e amigos, a todos converteu com o extraordinário feito de Santiago. As vieiras ficaram a fazer parte do brasão da nobre família Pimentel de Trás-os-Montes, descendentes, segundo se crê, de Caio Carpo Palenciano.
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Lenda de Valongo e Susão
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Os nomes de Valongo e Susão têm origem nesta lenda que remonta à época em que alguns cristãos perseguidos no Oriente se refugiaram em Cale, foz do rio Douro. Entre eles estava o rico negociante judeu Samuel, recém convertido ao Cristianismo, e a sua filha Susana. Pensavam os fugitivos estarem já livres de perseguições quando foram obrigados a defender-se dos árabes que dominavam a região. Com astúcia, prepararam uma armadilha e capturaram o jovem Domus de cujo resgate esperavam obter a paz. Enquanto decorriam as negociações, Domus e Susana apaixonaram-se e o mouro pediu para ser baptizado para poder casar-se com a jovem. O acordo com os muçulmanos era assim impossível e decidiram todos fugir, deixando Portucale (Porto) em direcção ao Oriente. Chegados ao topo da Serra de Santa Justa depararam com uma paisagem lindíssima e a apaixonada Susana exclamou um elogio sincero ao vale longo que sob os seus olhos se estendia. Desceram ao vale e nele decidiram ficar para sempre, edificando as primeiras casas de uma povoação que se veio a chamar Susão, em memória da bela Susana. O vale que Susana tinha achado belo e longo ficou conhecido como Valongo.
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Lenda do Rei Ramiro
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Uma antiga lenda que remonta ao século X, conta que o rei Ramiro II de Leão se apaixonou por uma bela moura de sangue azul, irmã de Alboazer Alboçadam, rei mouro que possuía as terras que iam de Gaia até Santarém. Influenciado pela sua paixão e com a intenção de pedir a moura em casamento, Ramiro decidiu estabelecer a paz com Alboazer, que o recebeu no seu palácio de Gaia. Apesar de já ser casado, Ramiro pensou que seria fácil obter a anulação do seu casamento pelo parentesco que o unia a D. Aldora. Alboazer recusou terminantemente: nunca daria a irmã em casamento a um cristão e, de todas as formas, esta já estava prometida ao rei de Marrocos. O rei Ramiro, vexado, pareceu aceitar a recusa, mas pediu ao astrólogo Amã que estudasse os astros para decidir qual a melhor altura para raptar a princesa e levou-a consigo nessa data propícia. Dando por falta da irmã, Alboazer ainda chegou a tempo de encontrar os cristãos a embarcar no cais de Gaia. Gerou-se uma luta favorável ao rei cristão, que levou a princesa moura para Leão, a baptizou e lhe deu o nome de Artiga, que tanto significava castigada e ensinada como dotada de todos os bens. Alboazer, para se vingar, raptou a legítima esposa do rei Ramiro, D. Aldora, juntamente com todo o seu séquito. Quando o rei Ramiro soube do rapto ficou louco de raiva e, juntamente com o seu filho D. Ordonho e alguns vassalos, zarpou de barco para Gaia. Aí chegados Ramiro disfarçou-se de pedinte e dirigiu-se a uma fonte onde encontrou uma das aias de D. Aldora a quem pediu um pouco de água, aproveitando para dissimuladamente deitar no recipiente da água meio camafeu, do qual a rainha possuía a outra metade. Reconhecendo a jóia, D. Aldora mandou buscar o rei disfarçado de pedinte e, por vingança da sua infidelidade, entregou-o a Alboazer. Sentindo-se perdido, o rei Ramiro pediu a Alboazer uma morte pública, esperando com astúcia ganhar tempo para poder avisar o seu filho através do toque do seu corno de caça. Ao ouvir o sinal combinado, D. Ordonho acorreu com os seus homens ao castelo e juntos mataram Alboazer e o seu povo, para além de destruírem a cidade. Levando D. Aldora e as suas aias para o seu barco, o rei Ramiro atou uma mó de pedra ao pescoço da rainha e atirou-a ao mar num local que ficou a ser conhecido por Foz de Âncora. O rei Ramiro voltou para Leão onde se casou com a princesa Artiga, de quem teve uma vasta e nobre descendência.
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Lenda de Pedro Sem
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A torre medieval que se encontra diante do antigo Palácio de Cristal, no Porto, é ainda hoje conhecida por Torre de Pedro Sem. A história diz que essa torre pertencia a Pêro do Sem, doutor de leis, jurisconsulto e chanceler-mor de D. Afonso VI, no século XIV. Mas a lenda remete para uma data posterior, no século XVI, a existência de um personagem Pedro Sem que vivia no seu Palácio da Torre. Possuindo muitas naus na Índia, Pedro Sem era um mercador rico mas não tinha títulos de nobreza, o que muito o afectava. Era também usurário, emprestando dinheiro a juros elevados, à custa da desgraça alheia, enquanto vivia rodeado de luxo. Estavam as suas naus a chegar, carregadas de especiarias e outros bens preciosos, quando a sua máxima ambição foi realizada através do seu casamento com uma jovem da nobreza, em troca do perdão das dívidas de seu pai. Decorria a festa de casamento, que durou quinze dias consecutivos, quando as naus de Pedro Sem se aproximaram da barra do Douro. O arrogante mercador acompanhado pelos seus convidados subiu à torre do seu palácio e, confiante do seu poder, desafiou Deus, dizendo que nem o Criador o poderia fazer pobre. Nesse momento, o céu que estava azul deu lugar a uma grande tempestade! Pedro Sem assistiu, impotente e encharcado pela chuva, ao naufrágio das suas naus. De seguida, a torre foi atingida por um raio que fez deflagrar um incêndio que destruiu todos os seus bens. Arruinado, Pedro Sem passou a pedir esmola nas ruas, lamentando-se a quem passava: "Dê uma esmolinha a Pedro Sem, que teve tudo e agora não tem...".
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Lenda dos Tripeiros
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No ano de 1415, construíam-se nas margens do Douro as naus e os barcos que haveriam de levar os portugueses, nesse ano, à conquista de Ceuta e, mais tarde, à epopeia dos Descobrimentos. A razão deste empreendimento era secreta e nos estaleiros os boatos eram muitos e variados: uns diziam que as embarcações eram destinadas a transportar a Infanta D. Helena a Inglaterra, onde se casaria; outros diziam que era para levar El-Rei D. João I a Jerusalém para visitar o Santo Sepulcro. Mas havia ainda quem afirmasse a pés juntos que a armada se destinava a conduzir os Infantes D. Pedro e D. Henrique a Nápoles para ali se casarem...
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Foi então que o Infante D. Henrique apareceu inesperadamente no Porto para ver o andamento dos trabalhos e, embora satisfeito com o esforço despendido, achou que se poderia fazer ainda mais. E o Infante confidenciou ao mestre Vaz, o fiel encarregado da construção, as verdadeiras e secretas razões que estavam na sua origem: a conquista de Ceuta. Pediu ao mestre e aos seus homens mais empenho e sacrifícios, ao que mestre Vaz lhe assegurou que fariam para o infante o mesmo que tinham feito cerca de trinta anos atrás aquando da guerra com Castela: dariam toda a carne da cidade e comeriam apenas as tripas. Este sacrifício tinha-lhes valido mesmo a alcunha de "tripeiros". Comovido, o infante D. Henrique disse-lhe então que esse nome de "tripeiros" era uma verdadeira honra para o povo do Porto. A História de Portugal registou mais este sacrifício invulgar dos heróicos "tripeiros" que contribuiu para que a grande frota do Infante D. Henrique, com sete galés e vinte naus, partisse a caminho da conquista de Ceuta.
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