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quarta-feira, 8 de maio de 2024

Carmo Afonso - Repitam: não existe uma relação entre imigração e criminalidade

 *Carmo Afonso  

Estão a transformar uma discussão sobre criminalidade violenta e racismo numa discussão sobre imigração.

Após os ataques contra imigrantes no Porto, temos assistido a várias declarações de titulares de cargos públicos que exigem uma reflexão. Reforço que todas as forças políticas condenaram os ataques, mas, como escrevi na última crónica, o Chega deu-lhe um contexto de justificação. Ventura falou na onda de “ataques, roubos e outros crimes” na Baixa do Porto, “muitas vezes cujos autores são imigrantes” e “num problema de imigração descontrolada em Portugal”. Também pôs em causa que tivessem motivação racial. Sem novidades. Era previsível que André Ventura fosse incapaz de condenar os ataques a imigrantes sem os desculpabilizar.

Mas não foi apenas Ventura que relacionou imigração com criminalidade. Esta ligação, que já tinha sido amplamente estabelecida por Pedro Passos Coelho na campanha eleitoral da AD, parece estar presente em força no espaço público.

Rui Moreira condenou os ataques e pediu a extinção da Agência para a Integração, Migrações e Asilo (AIMA) e sugeriu que a Assembleia da República investigasse esta agência nacional que “continua morta perante o aparente descontrolo dos fluxos migratórios”. Não se consegue perceber a relação entre os ataques racistas e a extinção da AIMA, mas há uma coisa que é clara: Rui Moreira considera que a imigração está descontrolada. O presidente da Câmara do Porto tinha criticado qualquer tentativa para justificar ou explicar os ataques. Mas deixou a semente do mal: caracterizou a imigração como estando descontrolada e apelou à extinção de uma agência que representa um passo em frente na forma como o país trata a imigração. Tenham presente que o extinto Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF) deixou uma memória trágica pela atuação policial e repressiva. O que pretende Rui Moreira? Recuar naquilo que representou um avanço?

Também a procuradora-geral da República, Lucília Gago, afirmou esta semana que jovens “desenraizados” e “indocumentados” poderão, com alta probabilidade, vir a denotar necessidades educativas manifestadas na prática de factos criminalmente relevantes. Está aqui presente, outra vez, uma ligação entre imigração e criminalidade. Lucília Gago, sempre tão parca nas palavras em relação aos assuntos de que os portugueses lhe pedem explicações, achou que este era um bom momento para falar do tema “imigrantes”, para prever que os jovens imigrantes poderão vir a cometer crimes. Era tudo o que o país não precisava de ouvir.

Carlos Moedas também falou e para apoiar o que Rui Moreira tinha dito. Condenou os ataques no Porto, mas partiu daí para uma consideração superlativa: afirmou-se envergonhado por viver num país que deixou de ter uma política de imigração. Referiu também a necessidade de se saber quem são imigrantes de que o país precisa e que tipo de mão-de-obra. Pois é, encontramos aqui o mesmo veneno. Falo da incapacidade de condenar os ataques sem os relacionar com a imigração. Isto é muito grave.

O que se sabe dos ataques é que foram praticados por portugueses, que esses portugueses estão ligados a grupos de extrema-direita, com destaque para um dos suspeitos, que tem ligações ao grupo liderado pelo neonazi Mário Machado, o 1143. Sabe-se também que tiveram motivação racial. Nada disto tem que ver com imigração ou com políticas de imigração.

Podemos, e devemos, falar de racismo e de xenofobia e dos grandes responsáveis pelo aumento do discurso racista e xenófobo no espaço público. Mas porque haveríamos de falar de imigração? Estas pessoas estão a transformar uma discussão sobre criminalidade violenta e racismo numa discussão sobre imigração. Ao fazerem-no, estão a virar costas ao problema e ainda aproveitam para falar naquilo que de facto verdadeiramente as incomoda e preocupa: que entrem demasiados imigrantes.

No caso dos ataques racistas no Porto, os imigrantes foram as vítimas. Se discutimos a gravidade do que aconteceu, não podemos desviar o assunto para a situação das vítimas. Isto é sobre a gravidade dos atos dos agressores.

No caso dos ataques racistas no Porto, os imigrantes foram as vítimas

Não existe relação entre imigração e criminalidade, a menos que consideremos os crimes cometidos por elementos racistas da extrema-direita contra imigrantes. Dizer o contrário não é válido nem aceitável. Na verdade, é como dizer que existe uma relação entre o uso de saias curtas e o crime de violação. Mesmo que existisse, não seria o uso de minissaia que deveríamos discutir.


Público 2024 05 08

A autora é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico

sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

Carmo Afonso - Marcelo Rebelo de Sousa está muito melhor

OPINIÃO

Perguntaram a Marcelo se tinha um candidato preferido à liderança do PS e a resposta merece ser transcrita.

Carmo Afonso

15 de Dezembro de 2023, 0:09

 conta muito na serra algarvia. Um homem que morava no monte da Cabaça adquiriu o costume de mudar de sítio, e, em seu benefício, os marcos que assinalavam os limites das propriedades. Fez isso numa propriedade confinante com a de um seu vizinho residente no mesmo monte. Aos poucos, foi mudando a localização dos marcos da propriedade de forma a tornar a sua maior e a diminuir a do vizinho. O vizinho, considerado por todos uma pessoa séria, apercebeu-se da situação e não reagiu logo. Um dia, explodiu. Agarrou numa enxada e avançou em direção ao homem num gesto que indicava que o ia matar. O homem levantou os braços e disse ao vizinho: “Calma, amigo, olhe, eu, desde que perdi a vergonha, estou muito melhor.”

Lembro-me desta história sempre que vejo alguém a atuar de certa maneira. E aconteceu-me há pouco. Li em vários jornais o relato do que disse Marcelo Rebelo de Sousa aos jornalistas, à saída do Centro de Medicina de Reabilitação de Alcoitão, depois de ter participado no Natal dos Hospitais. Perguntaram a Marcelo se tinha um candidato preferido à liderança do PS, e a resposta merece ser transcrita: “Ah, eu tenho. Era o doutor António Costa. Era o meu preferido. Era o que eu teria preferido.”

Os jornalistas ainda perguntaram se estava arrependido da decisão que tomou, mas Marcelo descartou quaisquer responsabilidades: “Não, quem tomou a decisão foi o doutor António Costa. Ele é que decidiu sair, não fui eu.” E disse mais: “Não fui eu que lhe disse: olhe, vá-se embora. Não, ele disse-me: 'Perante isto, em consciência, eu não posso ficar.' A decisão que eu tomei a seguir foi uma consequência e não uma causa da decisão dele.”

Marcelo estava muito embalado. Ainda declarou que António Costa tem um prestígio europeu excecional e todas as condições para vir a ser o próximo presidente do Conselho Europeu. E mais ainda: disse que Costa seria um bom candidato presidencial “se entretanto não estiver presidente do Conselho Europeu.”

Vamos lá ver – costuma dizer o líder preferido do PS, possível presidente do Conselho Europeu e bom candidato presidencial, António Costa –, afinal porque é que o país perdeu um primeiro-ministro com tantos talentos e virtudes se ainda por cima o tinha elegido com maioria absoluta?

Um político que, na opinião de Marcelo, tem um futuro, lá fora e cá dentro, tão prometedor teve de virar costas ao cargo de primeiro-ministro e declarou aos portugueses que não poderá desempenhar nenhum cargo público nos próximos anos e que, eventualmente, não o poderá fazer nunca mais.

Marcelo Rebelo de Sousa tem responsabilidade no processo que levou à queda do Governo e à dissolução do Parlamento. O próprio António Costa acusou Marcelo de falta de bom senso e de ter feito uma avaliação errada quando dissolveu o Parlamento. Não estamos a falar de um mero espectador não participante.

Mas não é só Marcelo que assobia para o lado. A procuradora-geral da República, Lucília Gago, declinou quaisquer responsabilidades na demissão de António Costa. O presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público, Adão Carvalho, declarou que, naquela magistratura, ficaram todos muito surpreendidos com essa decisão de Costa. Até disse que o primeiro-ministro terá usado o célebre parágrafo como pretexto para apresentar o seu pedido de demissão.

Acontece que há uma coisa da qual todos temos a certeza: Costa não queria ter apresentado demissão e se o fez foi porque se viu sem alternativa. E não venham falar dos 76 mil euros de Escária. A demissão foi apresentada antes do conhecimento dessa descoberta.

Fala-se muito nas consequências dos casos de corrupção na credibilidade da classe política e na saúde da democracia. E não há dúvida de que é um assunto preocupante. Mas que dizer desta desresponsabilização institucional coletiva por parte de titulares de cargos fundamentais no sistema democrático? Que mensagem passa aos portugueses vê-los passar entre os pingos da chuva e fazerem de conta que nem têm uma explicação a dar?

Termino com mais uma frase de Marcelo a propósito da sua alegada impotência perante o pedido de demissão de Costa: “Como é que se dissuade uma pessoa que tem uma convicção muito profunda, muito profunda de que aquilo é a única saída correta na sua vida? É impossível, é impossível.”

Eu acho que o nosso Presidente está como o homem da serra algarvia, ou seja, muito melhor.

A autora é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico

Advogada

https://www.publico.pt/2023/12/15/opiniao/opiniao/marcelo-rebelo-sousa-melhor-2073753


sexta-feira, 13 de outubro de 2023

Carmo Afonso - A esquerda radical

OPINIÃO - 

* Carmo Afonso 

16 de Fevereiro de 2022

As pessoas insatisfeitas, neste caso os eleitores, tendem a simpatizar com quem assume o discurso destemido. Sucede que a esquerda está à defesa. Defende-se da qualificação de extremismo que lhe é imputada e caiu no pior dos males: deixou-se condicionar. Com isso perde eleitorado mais jovem e sobretudo perde a sua própria juventude.

O resultado das últimas eleições parece representar uma derrota para o BE e para o PCP. É um engano. Os grandes derrotados daquela noite são trabalhadores portugueses, os que vivem do seu trabalho, os que dependem do salário mínimo nacional (SMN), os que não são classe média e que provavelmente não chegarão lá.

Estamos a falar de milhões de portugueses. Existem em Portugal cerca de novecentos mil trabalhadores que vivem do SMN, parte deles certamente com outras pessoas a cargo. Faz sentido a pergunta: se tantos portugueses estão em situação de pobreza, ou quase pobreza, porque não tem esta esquerda, que se bate pelos seus interesses e direitos, uma votação mais expressiva? E também faz sentido perguntar se esta esquerda deixou de satisfazer as aspirações de quem sente urgência na melhoria das suas condições de vida.

O problema existe.

Esta esquerda sofreu a erosão do voto útil no Partido Socialista. Ponto assente. Mas algumas razões havia também para os partidos mais à direita terem igualmente sentido a erosão do voto útil no PSD. Não aconteceu. A IL e o Chega cresceram, não obstante a necessidade de reforçar o voto em quem poderia, à direita, ser primeiro-ministro.

O que tem então esta nova direita que capta o voto dos eleitores? A resposta pode ser difícil de ouvir. Vejamos: esta direita não apresenta soluções colectivas – no sentido do que seria o melhor para todos – mas apenas soluções individuais. Votar no que é melhor para si mesmo. Quem vota na IL quer à partida prosperar, o que é absolutamente válido. Mas quer fazê-lo individualmente, ser um vencedor, apanhar o elevador social que, como se sabe, não tem a capacidade de um monta-cargas.

Uma boa concretização desta visão política é o simulador de poupança fiscal que a IL disponibilizou no seu site. Uma espécie de: “Eleitor, vamos ao seu caso específico”. Com a IL não existirá, entre o momento presente e o momento em que cada eleitor será uma pessoa abastada, um Estado que tributa a mais, distribuindo e desbaratando o dinheiro que, com mérito, esse eleitor ganhou. A ideia é que um dia serão todos ricos.

Nesta nova direita identificam-se inimigos. O Chega aponta armas ao sistema (o sistema que os deixou entrar e entre nós permanecer), aponta armas às minorias, aponta armas à classe política da qual faz parte. O Chega é o partido que está dispensado de cumprir a lei mas também, deve ser dito, de fazer sentido.

No dizer desses dirigentes, a governação do país tem-se caracterizado como sendo “socialismo”. Reparar que não radicalizam apenas o seu próprio discurso, incutem também a ideia do radicalismo dos seus opositores. Veja-se o caso do Partido Socialista; que dizer de um socialismo que, tendo conseguido uma maioria absoluta, recebeu congratulações dos bancos, dos banqueiros e do patronato? O socialismo do PS chama-se social-democracia e é puramente social-democrata a governação política dos últimos anos em Portugal. Já agora: foram quase todas à excepção da governação de Pedro Passos Coelho. Mas aqui está uma maneira eficaz de dispensar o PS de prosseguir políticas de esquerda.

As pessoas insatisfeitas tendem a simpatizar com quem assume o discurso destemido. Esse desejo de radicalidade – o de acabar com o mais do mesmo – faz até esquecer o que está em causa.

radicalização daquilo que é puramente moderado e a diabolização dos partidos mais à esquerda fazem parte integrante da forma como estes partidos se apresentam ao eleitorado. Isto em conjunto com a sua própria radicalização. Estamos a falar da radicalização de discurso de ódio e discriminação, no caso do partido Chega, e da abolição do Estado Social no caso da IL. Neofascismo e anarco-capitalismo.

Alguma lição deverá a esquerda retirar daqui. As pessoas insatisfeitas, neste caso os eleitores, tendem a simpatizar com quem assume o discurso destemido. Esse desejo de radicalidade – o de acabar com o mais do mesmo – faz até esquecer o que está em causa. Sucede que a esquerda está à defesa. Defende-se da qualificação de extremismo que lhe é imputada. A esquerda mais à esquerda caiu no pior dos males: deixou-se condicionar. Com isso perde eleitorado mais jovem e sobretudo perde a sua própria juventude.

Pedro Nuno Santos (PNS) tem sido o político que, de tempos a tempos, consegue incendiar. O PNS, dirigente do partido do centro-esquerda. Este fenómeno diz muito: o eleitorado de esquerda precisa de fogo, da energia da luta e dos princípios que PNS sabe trazer para a oratória. Pois bem, essa energia e esses princípios existem de facto e encontram-se nos programas dos partidos que aparentemente perderam as eleições. Já agora: existem, por exemplo, nas propostas que apresentam para o problema da habitação, uma área em que PNS ainda não conseguiu implementar políticas com impacto.

Existe aqui um problema e existe aqui uma oportunidade. É assim que se diz no mercado. Começa assim.

A autora é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico

Advogada

 

https://www.publico.pt/2022/02/16/opiniao/opiniao/esquerda-radical-1995632


sábado, 19 de agosto de 2023

Camo Afonso A franqueza de Eduardo Catroga e a pobreza dos portugueses

 OPINIÃO -, 

* Carmo Afonso
18 de Agosto de 2023

Ainda bem que Catroga teve um percurso de sucesso e que foi sempre bem remunerado. Terá sido excelente. Mas estranha-se a falta de noção

Li neste jornal uma entrevista a Eduardo Catroga feita pela jornalista Helena Pereira. Rui Gaudêncio foi o repórter fotográfico. Destaco nomes porque considero que foi um trabalho bem conduzido e bem conseguido.

A propósito do convite para ser ministro das Finanças Eduardo Catroga disse: “Quando essa oportunidade apareceu, estava com 50 anos, tinha autonomia financeira para fazer o sacrifício de ir para o Governo.” Mais adiante, ainda esclareceu que pode investir nessa experiência (de ser ministro das Finanças) porque “já tinha uma acumulação de capital privado” que lhe “permitia manter o nível de vida” que já tinha dado à sua família.

Eduardo Catroga não se coibiu de ser franco. Essa falha não lhe pode ser apontada. Mas na sua franqueza podemos observar que, em Portugal, existem dois mundos socioeconómicos separados por aquilo a que devemos chamar “um fosso”. A maioria dos portugueses considera o salário de um ministro um patamar de riqueza ao qual não pode aspirar. Não é só uma impressão. É absolutamente real e os números falam por si. Aproximadamente um milhão de trabalhadores portugueses ganha o salário mínimo nacional. Se aprofundarmos e detalharmos a informação disponível, temos que 66% dos trabalhadores ganham abaixo dos 1000 euros mensais e 27% ganham entre 1000 e 2499 euros. Apenas 4% ganham entre 2500 e 4999 euros. Acima dessa remuneração, estão apenas 0,7% dos trabalhadores.

Um ministro em Portugal ganha mais de 5000 euros mensais. Não estou a dizer que é muito e ainda menos que é demasiado. O que estou a dizer é que, no contexto socioeconómico nacional, um ministro ganha aquilo que apenas uma ínfima minoria dos portugueses ganha. A situação não era muito diferente no tempo em que Eduardo Catroga foi ministro.

O ex-ministro da Finanças revelou que só aceitou viver, durante um período da sua vida, com um salário, que é para a maioria dos portugueses altíssimo, porque tinha umas economias que lhe permitiram, e à sua família, não baixar o nível de vida nesse período.

Ainda bem que Catroga teve um percurso de sucesso e que foi sempre bem remunerado. Terá sido excelente. Mas estranha-se a falta de noção quando está a dar uma entrevista que vai ser lida pela generalidade dos portugueses. Estamos a falar de uma pessoa que desempenhou funções públicas importantes.

Um ex-ministro partilhou com os portugueses uma perspectiva da vida, que é a sua, que os coloca na cauda da pura insignificância. Aquilo que poderiam sonhar ganhar num mundo ideal corresponde ao que Catroga ganhou por ter aceitado fazer um sacrifício pessoal.

Eduardo Catroga não se distinguiu por ter combatido as desigualdades sociais e é certo que desempenhou funções em que poderia ter feito alguma diferença nessa área. Fez o oposto. Como ministro introduziu uma “moderação salarial” na função pública. O nome indica o que está em causa. Também baixou a TSU para as empresas e aumentou a taxa de IVA, prejudicando os que ganhavam menos. Destacou-se ainda a equilibrar as contas públicas, o que tem um conhecido impacto negativo nos rendimentos dos trabalhadores.

Dá tanta importância ao salário e ao dinheiro que, passados todos estes anos, ainda destacou ter feito um sacrifício financeiro para ser ministro. Mas conviveu bem com a imposição, aos portugueses, de apertarem o cinto até doer. Estamos a falar de portugueses que viviam numa situação infinitamente pior.
Não pretendo evidenciar falhas morais de Eduardo Catroga. O que tem aqui interesse, e digo interesse político, é que as desigualdades socioeconómicas em Portugal são gritantes e algumas das pessoas que integram a minoria privilegiada estão confortavelmente instaladas no seu privilégio sem ao menos acusar a consciência da gravidade política dessa situação. Reparem que injustiça social nunca foi o berço da paz.

Algumas das pessoas que integram a minoria privilegiada estão confortavelmente instaladas no seu privilégio sem ao menos acusar a consciência da gravidade política dessa situação

As pessoas costumam dizer que “quando o mar bate na rocha quem se lixa é o mexilhão”. Nesta frase está implícito um profundo descrédito na ideia de que somos todos tratados como iguais. Na verdade, não somos e esta consciência de classe faz mesmo falta aos portugueses. O mar está muito bravo.
A autora é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico

Advogada

https://www.publico.pt/2023/08/18/opiniao/opiniao/franqueza-eduardo-catroga-pobreza-portugueses-2060533 

segunda-feira, 17 de julho de 2023

Carmo Afonso - A propósito de uma influenciadora digital

OPINIÃO

* Carmo Afonso (Público 

17 de Julho de 2023?

A situação que se vive é a de verdadeira selva. Quem aprecia o mercado a funcionar livremente e sem intervenções de um regulador tem aqui uma excelente oportunidade de avaliar o resultado dessa lógica

Talvez alguns de vós tenham visto um vídeo em que uma influenciadora, Joana Mascarenhas, partilhava as suas experiências como mãe e educadora de uma criança de 3 anos. Joana Mascarenhas anunciou como eficaz para resolver as birras que a sua filha fazia uma submersão súbita e inesperada em água fria. Usou esse método quando estavam na piscina, mas também em casa de madrugada. Molhou a filha em água fria tendo esta o pijama vestido. Garante que foi remédio santo e que a filha deixou de fazer birras.

O vídeo é chocante em vários aspetos. Desde logo, é difícil não ficarmos presos ao sofrimento daquela filha sem direito a birras e sujeita a um método de aprendizagem digno de Guantanamo. Uma criança que, na narrativa da mãe, parou de chorar depois de lhe acontecer o que levaria qualquer criança ao choro. Na lógica da mãe parou de chorar porque aprendeu uma lição. Difícil não concluir que foi o terror que a silenciou.

Por outro lado, vemos uma jovem partir do princípio que a sua atuação como mãe deve ser partilhada, ou seja, que tem o valor de conhecimento.

Joana Mascarenhas é uma entre centenas de outras pessoas que usam as suas contas nas redes sociais – com destaque para o Instagram – para influenciar os seus seguidores. Esta influência pode ser para comprar determinados produtos ou contratar determinados serviços ou simplesmente para dar conselhos de vida. A prudência obrigaria a que desconfiássemos sempre de alguém que acredita ter conselhos úteis para dar em relação à vida de terceiros. Poderíamos até estabelecer aqui uma regra: todos aqueles que acreditam ter tanto jeito para viver que podem dar conselhos de vida aos outros não devem ser ouvidos. Mas estas pessoas são efetivamente ouvidas e há quem siga os conselhos que dão ao mundo.

É relativamente fácil, mesmo em Portugal, que alguém consiga obter rendimentos relevantes explorando comercialmente a sua conta, os seus seguidores e a sua capacidade para convencer esses seguidores a realizarem uma compra ou contratação. É, aliás, possível que essa atividade se transforme em profissão. Não estamos a falar de algo marginal na economia ou tão pouco de irrelevante no universo do investimento das marcas em marketing e publicidade.

O problema é que esta atividade não está regulamentada e não existe legislação específica que defina regras ou boas práticas. O máximo a que se chegou foi um guia para influenciadores e anunciantes feito pela Direção Geral do Consumidor. Nesse documento fazem-se recomendações e tenta-se dar orientações com recurso à legislação existente.

Mas claramente não chega. A legislação que já existe não foi pensada para o mundo digital e para a possibilidade de uma proliferação de utilizadores das redes sociais terem interesse comercial para as marcas e, a partir daí, serem remunerados diretamente por elas para divulgarem os seus produtos ou serviços. A situação que se vive agora é a de verdadeira selva. Quem tanto aprecia o mercado a funcionar livremente e sem intervenções de um regulador tem aqui uma excelente oportunidade de avaliar o resultado dessa lógica, política ou filosofia.

E os resultados estão à vista. Vemos, por exemplo, pais a explorar comercialmente a imagem de menores até à exaustão. São crianças que praticamente desde o nascimento são fotografadas para serem associadas a marcas. O interesse público, que neste caso coincide com o superior interesse de cada criança, não é chamado a intervir e não tem uma palavra a dizer. Centenas ou milhares de pais estão livremente a facturar a infância dos filhos como se ela lhes pertencesse e como se tivessem um direito natural a fazê-lo. Há aqui um grande engano e está a fazer vítimas.

Os influenciadores digitais são uma nova face do empreendedorismo. Pessoas que vendem marcas e que promovem o seu próprio modo de estar na vida como tendo valor para o coletivo. Podemos olhar para o lado e fazer de conta que estas pessoas não estão, praticamente sem regras, a trabalhar no mercado e a exercer a sua influência como querem e como mais beneficia as marcas. Hoje uma dica sobre como tratar a birra de uma criança, amanhã um anúncio publicitário disfarçado de partilha de um momento familiar. Até ao dia em que seremos todos obrigados a reconhecer que faz falta legislação. Se não for a bem, será a mal.

Advogada

https://www.publico.pt/2023/07/17/opiniao/opiniao/proposito-influenciadora-digital-2057069

quarta-feira, 31 de maio de 2023

Carrno Afonso - As Cristina Talks e a contagem dos parvos

 

OPINIÃO  -  Assim, é difícil acreditar na democracia. Estamos todos à mercê das fraquezas e vulnerabilidades uns dos outros.


* Carmo Afonso
31 de Maio de 2023,

Cristina Ferreira soma e segue enchendo salas com milhares de pessoas para assistirem às Cristina Talks. Depois de Gondomar e Lisboa, foi a vez de Guimarães, e a próxima sala, em Braga, também já esgotou os 7500 bilhetes, a 19 euros, em poucas horas. A este propósito, recomendo a leitura de um artigo neste jornal: Cristina e o seu séquito de levantados do chão.

São eventos onde Cristina Ferreira surge como guru que ensina a superar adversidades – como críticas, insultos ou até a própria pobreza – e onde se propõe fazer a assistência passar por um processo transformador, mediante o qual aquelas pessoas passarão a acreditar em si mesmas e no seu sucesso. A partir daí ficarão mais próximas de alcançar esse sucesso nas suas vidas, ou seja, alcançarão prosperidade material e reconhecimento público.

No seu espetáculo, a apresentadora fala dos que a criticam e chama-lhes "anticristina". Representam a intelectualidade e sobre eles diz: “Quanto mais me põem para baixo, mais eu ganho balanço para ir para cima.” Dá destaque às críticas nas redes sociais e ao desdém com que muitos a tratam, considerando-os mais um impulso para a sua ascensão. O segredo é ser autêntica e acreditar. Tudo o resto virá por acréscimo porque afinal “somos o que quisermos ser” e ela, Cristina Ferreira, está “entre as pessoas mais poderosas do país”.


Reparem que o relambório de publicações nas redes sociais a criticar a seriedade de Cristina Ferreira nesta sua nova atividade é perfeitamente inútil e até faz parte integrante da fórmula mágica que apresenta aos fãs.

Temos aqui um problema: existem dezenas, ou centenas, de milhares de pessoas que estão disponíveis para pagar um bilhete e participar num ritual, presidido por Cristina, que supostamente as transformará em pessoas de sucesso. É difícil perceber qual a escala disto, mas é certo que, onde quer que vá, esta mulher esgota as maiores salas de espetáculo. Temos de reconhecer que são mesmo muitos os portugueses que acreditam que ouvir a Cristina Ferreira vai melhorar as suas vidas.

Isto reveste-se de gravidade. É pura e simplesmente a negação da política. Quem acredita que aquele é o caminho para uma vida melhor está a abandonar a sua condição de sujeito político; o que pensa, reivindica melhores condições de vida e está disposto a lutar por elas individual e coletivamente. As palestras de Cristina Ferreira são uma verdadeira alternativa ao ato político. Porque precisarão os trabalhadores de fazer uma greve pela melhoria das condições de trabalho se basta acreditarem que são bons?

Porque precisarão os trabalhadores de fazer uma greve pela melhoria das condições de trabalho se basta acreditarem que são bons?

Observar o fenómeno Cristina Ferreira ajuda a perceber outros fenómenos como o das igrejas evangélicas e o da ascensão da extrema-direita. Aqui, justiça seja feita a Cristina Ferreira: não costuma convidar fascistas para os seus programas e para as suas entrevistas. Mas o assunto é outro e há mesmo semelhanças entre o processo que leva as pessoas a acreditar que mudarão de vida por causa de uma talk e o que leva as pessoas a acreditar que o Chega vai resolver os seus problemas ou que o seu líder é que diz as verdades, não obstante ser apanhado a mentir quase diariamente. A sensação para quem está de fora é parecida: uma profunda incredulidade com o que se passa na cabeça daquelas pessoas. Assim, é difícil acreditar na democracia. Estamos todos à mercê das fraquezas e vulnerabilidades uns dos outros.

Quase todos os políticos portugueses já foram aos programas da Cristina Ferreira e Marcelo Rebelo de Sousa chegou a telefonar-lhe na estreia de um novo formato quando a apresentadora estava em direto. Este histórico funciona como uma legitimação das qualidades que a apresentadora anuncia ter e é também isto que vende. Não deve voltar a acontecer. A classe política tem obrigação de não contribuir para a credibilização de quem anuncia milagres e vende fantasias perigosas para quem as compra e para a própria democracia.

Cristina Ferreira sonha ser Presidente da República. Temos razões para não querer que ponha esse plano em ação. Não que seja previsível que ganhe, mas é certo que de cada vez que contamos quantos de nós puseram a cruz numa opção que demonstra que se perdeu o juízo e o bom senso chegamos a números astronómicos. Está aqui uma coisa boa que Cristina Ferreira pode fazer por Portugal: não nos obrigar a saber exatamente quantos portugueses desejam que seja presidente. Já mereceria um agradecimento.

A autora é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico

Advogada

sexta-feira, 10 de fevereiro de 2023

Carmo Afonso - Ventura, Moedas e Montenegro — trio Odemira e trio Mouraria

* Carmo Afonso

Ventura, Moedas e Montenegro estão do mesmo lado e com um discurso alinhado. A xenofobia e as razões do mercado levam, afinal, às mesmas conclusões.


10 de Fevereiro de 2023Sobre imigração, André Ventura tem afirmado que temos de pensar qual queremos para Portugal e que, se mais ninguém tem coragem de o dizer, há o Chega para o fazer.

E disso já sabíamos. O Chega, com a adversativa do reconhecimento da necessidade de imigrantes, tem vindo a defender um discurso fortemente restritivo à entrada destes, para usar uma caracterização eufemística. Na verdade, o partido propaga uma mensagem anti-imigração e fazendo soar os alarmes da relação demográfica entre nacionais e imigrantes. Ainda em outubro do ano passado, e faltando à verdade como é costume, Ventura dizia que Lisboa tinha 500 mil habitantes, dos quais quase 300 mil eram imigrantes. Foi desmentido: os quase 300 mil estrangeiros vivem na Área Metropolitana de Lisboa, onde residem quase três milhões de pessoas. Nada de novo aqui.

As novidades chegaram esta semana com as declarações de Carlos Moedas e de Luís Montenegro a propósito do incêndio na Mouraria que vitimou dois migrantes e que pôs a nu o problema da falta de condições de habitação destas comunidades. Viviam naquele rés-do-chão 22 pessoas, numa situação absolutamente degradante. Todos sabemos que não são exceção e que em várias partes do país, com destaque para Lisboa e Odemira, imigrantes vivem em condições que nos envergonham e que incomodam.

O que aconteceu aos sobreviventes desalojados? Que medidas estão a ser tomadas para resolver o problema de habitação destas pessoas e a forma como estão a ser exploradas a nível laboral e nos preços que pagam por alojamentos indignos? Estas são preocupações naturais de quem soube daquela notícia.

Mas pode não ser esse o foco das preocupações de parte da classe política perante situações como a tragédia na Mouraria. Podem zelar pelo bem-estar mínimo de pessoas economicamente muito fragilizadas, que não dominam a língua portuguesa e que não têm qualquer rede de apoio neste país. Mas podem optar por proteger os portugueses de terem de se confrontar com a miséria criando medidas que restrinjam a entrada a imigrantes ou estrangeiros prósperos.

Moedas e Montenegro não hesitaram.

Moedas declarou que não deveria poder entrar em Portugal quem não tivesse previamente um contrato de trabalho, ou seja, vamos lá restringir isto. Claro que, se forem ricos, já a conversa é outra. Curiosamente, afirmou que esta questão não deve ser politizada. Se não tratarmos como políticas as questões relacionadas com a imigração, passamos a chamar a Carlos Moedas CEO de Lisboa em vez de presidente da câmara.

Montenegro foi ainda mais explícito. Disse que o Governo não deve meter a cabeça na areia e que deve encarar o problema, o que costuma ser a introdução para “dizer umas verdades”. Não desiludiu. Afirmou que temos de escolher quem é que queremos em Portugal para serem colaboradores do nosso desenvolvimento. Ora, desgraçados de Odemira e da Mouraria devem dar fracos colaboradores.

Várias questões aqui.

A primeira é o evidente uníssono entre os três destacados líderes da direita. Ventura, Moedas e Montenegro estão do mesmo lado e com um discurso alinhado. A xenofobia e as razões do mercado levam, afinal, às mesmas conclusões. Há pessoas a viver miseravelmente em Portugal. Pois a solução para isso é não deixarmos entrar mais miseráveis.

Por outro lado, depois de os socialistas terem aniquilado a oposição dos sociais-democratas na medida em que, a nível orçamental, têm vindo a seguir as políticas que estes tradicionalmente defendem, temos os sociais-democratas a tentar idêntica façanha com a agenda política da extrema-direita. E isto é notável.

Reparem que estamos a falar de um tema no qual o partido racista e xenófobo tem especial “propriedade”. As restrições à imigração são uma das mais importantes bandeiras do partido. Ao aproximarem-se desta forma do discurso de Ventura e num momento de luto pela morte de dois imigrantes, Moedas e Montenegro estão a marcar posição num território que estava reservado exclusivamente ao ideário do Chega.

Ventura afirmou na Assembleia da República que o Chega é o único partido com coragem para defender que devemos escolher os imigrantes que podem entrar em Portugal.

Não, André Ventura. Os dirigentes do PSD também estão cheios dessa coragem. A coragem para abrir as portas do país a quem não precisa e a de as fechar aos outros, os que estão desesperados por uma oportunidade, mesmo que seja um colchão imundo num rés-do-chão da Mouraria ou num contentor em Odemira. Afinal, era fácil.

A autora é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico

https://www.publico.pt/2023/02/10/opiniao/opiniao/ventura-moedas-montenegro-trio-odemira-trio-mouraria-2038310


segunda-feira, 26 de dezembro de 2022

Carmo Afonso - Natal, a grande festa de termos de nos aturar uns aos outros

 Opinião

Num mundo ideal, num Natal próximo o tio facho e o cunhado homofóbico estarão diferentes. Desistir é mais doloroso do que aturar.

*  Carmo Afonso

26 de Dezembro de 2022, 0:00

«Vivemos em proximidade apenas com aqueles que pensam como nós. São esses que procuramos para amigos e para interagirem connosco nas várias plataformas. Estamos cada vez mais afunilados. Nas redes sociais, temos os grupos dos comunistas, o dos bloquistas e o dos centro-esquerda, e as barreiras entre eles são feitas a granito. À direita, os fossos também existem. Mas diria que se notam menos. Talvez porque o que move a esquerda são projetos que têm acentuadas diferenças entre eles, enquanto a direita anda na disputa pelo pódio de quem mais critica o marxismo cultural. Ninguém procura aproximações. Isto não acontece só em política. Há exceções; amizades improváveis, mas elas reluzem e dão nas vistas de tal forma que confirmam a regra de que aquilo não é suposto. Ficamos com a convicção de que é mesmo possível viver num mundo em que todos foram escolhidos a dedo para não nos contrariarem com as suas opiniões. E isso acontece se não forem inteiramente coincidentes com as nossas. Facílimo.

Era o tema de uma instalação do Rodrigo Oliveira. Dizia assim: “We cannot escape from each other.” A perfeita maldição. E podia ser também a legenda para o Natal.

Este Natal, e depois de um intervalo de dois anos cheios de limitações, as famílias voltaram a juntar-se e esse reencontro foi uma boa maneira de avivar aquilo que poderia entretanto ter ficado esquecido: temos de aturar-nos uns aos outros. Este ditado faz lembrar um outro, mais ambicioso e utópico, que impunha que nos deveríamos amar uns aos outros. A verdade é que, já que temos de nos aturar, seria mais fácil fazê-lo se nos amássemos, mas ninguém nos pode pedir tanto.

Devemos fazer das nossas vidas um exercício com alguma coerência e estabelecer limites para o que estamos dispostos a tolerar e aquilo que já não é possível. É sabido que esse caminho tende a ser cada vez mais apertado e que cada vez cabem lá menos. Não é nada natalício.

Mas faz sentido. Se não toleramos racismo, porque devemos tolerar um familiar racista à mesa connosco? Sabemos que o racismo é um problema com a importância e a potencialidade de causar sofrimento, injustiça e até a destruição de vidas. Como ser tolerante com isto?

Mas, se falamos de racismo, também podemos falar de homofobia. Porque devemos aceitar e receber na esfera mais pessoal e íntima quem despreza ou desrespeita a forma como outros se identificam ou amam?

E se falamos de homofobia, também devemos falar de transfobia. É que milhares de portugueses, que já compreendem o tema da homossexualidade, continuam a não entender as pessoas transgénero. É o típico fenómeno de: “Tudo bem que gostem de pessoas do mesmo sexo, mas mudarem de sexo já é doença e se continuamos assim isto vai por aí a fora e não tem limites.” Eventualmente, uma boa parte dos portugueses é transfóbica. Que fazer a estas pessoas?

Claro que está aqui presente um pressuposto que não é o predominante nas famílias portuguesas: serem os progressistas a ocupar o lugar de quem julga e avalia os restantes. Na maioria das vezes, são os “fóbicos” e os “istas” que se encontram nessa posição e são os “diferentes” que se sentem mal recebidos nas festas familiares ou que até já desistiram de aparecer.

Os avanços que o mundo tem feito no sentido de uma sociedade mais justa têm acontecido graças à intolerância de muitos relativamente aos preconceitos dos outros. Também na vida, como na regra matemática, o menos por menos pode dar mai                                                                                               

É matéria altamente pessoal. Mas os avanços que o mundo tem feito no sentido de uma sociedade mais justa têm acontecido graças à intolerância de muitos relativamente aos preconceitos dos outros. Podíamos pensar que não é com intolerância que se cura a intolerância, mas não é bem assim. A intolerância pode resultar. Também na vida, como na regra matemática, o menos por menos pode dar mais.

É verdade que, se a família quer estar junta, ela tem de se esforçar, mas os esforços não têm todos o mesmo valor. Num anúncio espanhol do whisky J&B, deste Natal, vemos um avô que, durante semanas, tenta aprender a maquilhar-se. Aquele processo surge como sendo um enigma. Na noite da consoada, chama um dos netos à parte e faz-lhe uma maquilhagem altamente profissional. É assim que o leva à mesa. Mistério resolvido, e só não chora quem não tem coração. Cada vez mais os publicitários convencem as pessoas a comprar coisas enquanto lhes passam uma mensagem relativa a um tema sensível. Mas a escolha que fazem é capitalizar o progressismo. As marcas apostam que são mais os que estão dispostos a mudar do que os empedernidos.

Num mundo ideal, num Natal próximo o tio facho e o cunhado homofóbico estarão diferentes. No mundo real, pode ser um pai ou um irmão e podem não ter vontade nenhuma de ficar diferentes. No mundo real, temos mesmo de nos aturar uns aos outros. Desistir é mais doloroso do que aturar.

A autora é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo  ortográfico

https://www.publico.pt/2022/12/26/opiniao/opiniao/natal-festa-termos-aturar-2032681                                                                                                                                                                                                                      


segunda-feira, 5 de dezembro de 2022

A balada de Pedro Soares dos Santos, por Carmo Afonso

* Carmo Afonso  

Opinião   5 de Dezembro de 2022

O seu pessimismo relativamente a Portugal repete-se ao longo da entrevista, marcando-a como a cadência a um poema. Ignora sempre que a vida lhe corre de feição.

Convido-vos a ler a entrevista do presidente do grupo Jerónimo Martins no Expresso. Li movida pela curiosidade que os excertos em destaque suscitavam. Pedro Soares dos Santos falava das pessoas que não conseguem comprar comida até ao fim do mês.

É o tipo de afirmações que costuma preceder a defesa do aumento dos salários, assunto pouco falado em Portugal apesar de a subida da taxa de inflação se situar acima dos 10%, o que não seria esperado do presidente de um grande grupo económico. Também costuma ser usado para expressões de populismo, mas não se trata de um político.

Fui ver.

Pedro Soares dos Santos criticou a carga fiscal excessiva, que, nas suas palavras, prejudica os que pertencem à classe média, e destacou a incapacidade das empresas para conseguirem inovar e criar riqueza porque o mercado não tem poder de compra.

Uma carga fiscal excessiva não é conversa para quem tem como prioridade aqueles que não conseguem comprar comida até ao final do mês. É que são esses os beneficiados pela lógica progressiva dos escalões do IRS. Por outro lado, o presidente do grupo Jerónimo Martins aponta a incapacidade de as empresas conseguirem inovar e criar riqueza num ano em que os lucros do grupo cresceram cerca de 30% e num ano em que – como anunciou – decidiu avançar com a reformulação do conceito do Pingo Doce. Nada faz sentido.

Mas continuemos.

Pedro Soares dos Santos vê Portugal resignado e as pessoas a tornarem-se subsidiodependentes. Impossível saber do que fala num país onde a taxa de desemprego é mais baixa do que a média da UE. E relativamente à parte do Portugal resignado, de que se tratará? Atenção que é preciso ser de uma certa direita para estar tão insatisfeito com este Governo. Claro que já a conversa da subsidiodependência nos levava aí.

O seu pessimismo relativamente a Portugal repete-se ao longo da entrevista, marcando-a como a cadência a um poema. Ignora sempre que a vida lhe corre de feição. Mais, nunca admite que assim é: afinal, são as margens que diminuíram, é o EBITDA que caiu e é o Pingo Doce que não aumentou lucros.

Mas voltemos à parte inicial.

Este homem diz que o seu foco em Portugal são pessoas que não conseguem comprar comida até ao fim do mês. E adiantou as soluções que os seus estabelecimentos preparam para estes portugueses: “Temos de tornar a oferta mais atrativa para um povo em dificuldades. É uma adaptação a uma nova realidade e vai implicar investimentos nas lojas.”

Os cuidados com os portugueses que não conseguem comprar comida traduzem-se em tornar a oferta – ou seja a comida - mais atrativa para eles e em fazer novos investimentos nas lojas. Ai, não conseguem comprar comida quando chegam ao fim do mês? Mas reparem que agora as lojas estão mais giras e que aquilo que vendemos (e que são bens essenciais, dos quais os portugueses precisam sempre) é agora mais atrativo. Uma lógica comercial de intensificar o desejo pela aquisição, quando estamos a falar daquilo que faz falta e de pessoas que vivem mal.

Pedro Soares dos Santos representa os interesses de um grande grupo económico e age em conformidade. Acredito que ninguém o deveria criticar por isso. Os grupos económicos procuram o lucro e, ao contrário de alguma esquerda, não vejo que devam ser diabolizados. É o Estado que deve regulamentar a sua atividade e, enquanto os diabolizamos, dispensamos o Estado de cumprir a sua missão.

O caso aqui é outro: alguém que vem à vida pública manifestar preocupação com aquilo que é sagrado, e falo de quem não tem dinheiro para comprar comida, mas que profana essa sacralidade para entrar em reflexões e conclusões políticas que não estaria obrigado a fazer e para enquadrar uma visão ideológica que esquece os interesses daqueles que afirma serem a sua preocupação, que está assente em contradições e que parece ter um objetivo.

Pedro Soares dos Santos não ficou contente com a criação do novo imposto sobre lucros extraordinários e quis atacar este Governo. Usou o que tinha à mão: os pobres e a pobreza

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Será altruísmo? Será preocupação com quem não consegue comprar comida? Altruísmo não é certamente e quem se preocupa com os outros não fala assim.

Fui ver.

Era outra coisa. Pedro Soares dos Santos não ficou contente com a criação do novo imposto sobre lucros extraordinários e quis atacar este Governo. Usou o que tinha à mão: os pobres e a pobreza.

Uma infinita tristeza, uma funda turbação.


A autora é colunista do PÚBLICO e escreve segundo o novo acordo ortográfico

Advogada

https://www.publico.pt/2022/12/05/opiniao/opiniao/balada-pedro-soares-santos-2030186


segunda-feira, 17 de outubro de 2022

Carmo Afonso - Estragaram-se duas sopas de tomate

* Carmo Afonso

Acreditamos na emergência climática? Sim. Estamos dispostos a mudar a nossa vida por causa dela? Não. A atitude perante o descalabro ambiental é absolutamente autodestrutiva.

Ainda pensei que fossem Campbell, as sopas de tomate usadas pelas duas ativistas climáticas, na sexta-feira, no National Gallery em Londres. Poderia ser um ataque da Arte Pop a Van Gogh. Mas não; eram Heinz. O vídeo ficou viral em minutos. Milhares de pessoas expuseram a sua revolta e indignação perante a tentativa de destruição da pintura, “Girassóis”, avaliada em 86 milhões de euros (montante que ouvimos repetidamente).

As ativistas foram duramente criticadas pela sua ação e não sabemos ao certo se sabiam que o quadro estava protegido ou se pretenderam de facto fazer estragos. Ações semelhantes visaram outras obras de arte e é sabido que todos os activistas estavam cientes de que estavam protegidas e que pretendiam apenas chamar a atenção para a causa climática. Há uma forte possibilidade de também ter sido o caso aqui.

O que vale mais, a arte ou a vida?

Esta foi a pergunta formulada pelo movimento a que pertencem e que deveria ser respondida. Na visão do Just Stop Oil, as pessoas valorizam mais a arte e foi isso que as duas activistas tentaram demonstrar. Nesse aspecto, a ação foi um sucesso absoluto. Se tivessem atacado uma pessoa, em vez de um quadro de Van Gogh, esse ataque não teria tanta repercussão.

Têm dúvidas?

Em abril deste ano um ativista climático imolou-se em frente ao Supremo Tribunal, em Washington, e morreu. Chamava-se Wynn Bruce, tinha 50 anos e protestava contra a destruição do planeta. A notícia não mereceu destaque. Talvez poucos se lembrem, ou sequer saibam, que aconteceu. Claro que obras de arte são mais valorizadas que vidas humanas.

Mas não era esse o sentido da pergunta das ativistas. Falavam da vida no planeta e na vida das pessoas na globalidade e era o seu valor que comparavam com o da arte. Mas, também neste sentido, têm razão. A ameaça de dano de uma obra de arte tem mais impacto do que a perspectiva de abismo que os cientistas apontam como sendo a direção que seguimos.
i-video

Activistas do Just Stop Oil atiraram sopa aos Girassóis de Van Gogh e depois colaram-se à parede. A pintura não sofreu estragos. REUTERS,JOANA GONÇALVES

Podemos dizer que danificar uma obra de arte, ou mesmo simular esse dano, não é a forma adequada para fazer passar a mensagem da emergência climática. O que é certo é que ainda ninguém descobriu qual é a fórmula certa para nos sensibilizar para o problema.

Acreditamos na emergência climática? Sim. Estamos dispostos a mudar a nossa vida por causa dela? Não. A atitude perante o descalabro ambiental é absolutamente autodestrutiva. Não vale a pena ir aos exemplos. Sabemos todos que o nosso comodismo egoísta e de curto alcance prevalece sobre a disciplina e o bom senso.

As ativistas tinham mesmo razão. As reações que desencadearam demonstraram-no amplamente. Não queremos ouvir o que têm para dizer e até pode dar-se o caso de serem sacos de vento, como tantos que há por aí, mas não é essa a razão para não as queremos ouvir. Fomos os clássicos velhos de espírito: sentimos muita estima pelo quadro de Van Gogh, que ainda por cima é tão valioso, mas muito pouco pelo próprio planeta. Reagimos em barda, e como cães de Pavlov, à imagem da sopa de tomate derramada na pintura, mas somos incapazes de – mesmo depois de saber que está intacta – perder uns minutos a pensar sobre o que aquelas duas raparigas queriam dizer.

Há outro aspecto importante aqui: é que ninguém gosta de fazer figura de parvo. E estas ativistas também provocaram isso. A generalidade das pessoas que partilharam o vídeo, e que manifestaram as suas críticas à ação das duas jovens, não sabia de todo que o quadro estava protegido. Todos se precipitaram a elaborar relambórios sobre a perda inestimável, a importância da arte e a gravidade do crime. Para nada. A obra estava protegida, como costumam todas estar. As pessoas podem perdoar muitas coisas, mas não que as ponham a fazer figuras destas. Também por isso, as jovens não caíram nas boas graças da opinião pública.

Um ato, que parecia ser radical, foi uma partida. Radical foi Van Gogh quando cortou a própria orelha, radical foi Wynn Bruce e radical é o que a comunidade científica nos diz sobre o futuro da humanidade e do planeta.

As ativistas foram detidas, mas, vamos lá ver, não é que tenham tentado fugir. Pelo contrário, colaram-se à cena do crime. Nem aí se pode encontrar a sua derrota. Ter-lhes-á corrido tudo de feição.

Estragaram-se duas sopas de tomate e as pessoas ficaram muito zangadas. O ativismo climático não marcou pontos junto da opinião pública. Se o objectivo fosse esse, teria falhado. Mas a obra está a salvo, as pessoas zangadas é que não.

Advogada
  17 de Outubro de 2022
https://www.publico.pt/2022/10/17/opiniao/opiniao/estragaramse-duas-sopas-tomate-2024262