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quarta-feira, 6 de maio de 2026

Carlos Esperança - O medo…


» Carlos Esperança - 
O medo…

Quando o medo nos tolhe, porque é incerto o futuro, precário o emprego e desmedida a insegurança, a primeira vítima é o carácter. Perdemos o amor-próprio e descremos do futuro, arruinamos a confiança e duvidamos da sobrevivência, deixamo-nos tomar pelo medo e acabamos em pânico.

Vão maus os tempos, parece que a vocação suicida vai tomando conta de nós. Os novos anseiam por um lugar e os velhos temem que os abandonem. A cultura é um luxo que a vida atual dispensa, a leitura um capricho que alguns teimosos ainda ousam e a arte uma atividade supérflua à espera de outros dias.

As guerras que outrora eram castigos de um Deus vingativo, sinal de que bruxas, judeus e hereges ofendiam o deus de Abraão, servem agora para nos distrair da governação, e o medo para nos remetermos ao silêncio.

O medo é a arma contra a dignidade. E o medo, um medo que não é irracional, tolhe-nos primeiro a coragem, corrompe-nos depois a dignidade e, finalmente, mata-nos. Com os sucessivos eclipses da ética, da honra e do patriotismo dos governantes, acabamos como vegetais, sem luz para a fotossíntese, e mortos. De medo e de vergonha.

No início de 1974 vivíamos ainda o medo, imposto pelo partido único. Hoje, ofendidos e conformados, vivemos entre os que defendem verdades únicas, os que buscam voltar ao passado e os que sonham utopias.

Refocilam na gamela do orçamento os filhos daqueles que nos reprimiam, denunciavam e prendiam, dos que iam em bandos agradecer a Salazar a defesa das colónias e a morte de jovens soldados, dos que conviviam com a ditadura e ovacionavam os seus próceres.

Há neste trágico retorno, nesta conformação malsã, na melancólica resignação, a abulia de quem desiste por descrença, falta de memória e medo da vindicta de que são capazes os restauracionistas.

É preciso acreditar no poeta: «Mesmo na noite mais triste / em tempo de servidão / há sempre alguém que resiste / há sempre alguém que diz não». (Manuel Alegre, in Praça da Canção).

É preciso resistir.

maio 06, 2026

https://ponteeuropa.blogspot.com/2026/05/o-medo.html

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

Carlos Esperança - A imigração vinda do Magrebe

 
Por Carlos Esperança - agosto 21, 2025

– Escrevi este texto em 17 de agosto de 2014.

«Vêm do lado de lá do lago que une a África e a Europa e separa europeus e africanos. Chegam do corno de África, das savanas improdutivas e sobretudo fugidos das areias que os empurram em busca de água e alimentos, das areias que lhes cobrem as magras pastagens e desertificam o habitat. Uns cruzaram o continente, outros abalaram de mais perto, com a família a ser pasto de corvos depois de esquartejada à catanada a mando de senhores tribais.

Fogem das guerras que os dizimam, das epidemias que os procuram e da fome que vive com eles. São párias da terra, nascidos do instinto e destinados a morrer crianças, numa perpetuação de velhas escravaturas e novas tragédias, onde poucos se tornam adultos e raros se libertam das grilhetas. Morrem porque não deviam ter nascido ali, por fazerem rituais diferentes ou porque há sítios onde não se pode nascer.

Há mães que deixam para trás os filhos que já não aguentam a caminhada, pasto de aves necrófagas, desoladas por não poderem morrer com os que ficam, na ânsia de salvarem os que sobram.

Chegam às praias do Mediterrâneo e entregam os pertences a quem promete que os leva à Europa ou deixa morrer na água, entre naufrágios e esperança, em busca de migalhas do pão que não tiveram. Despedem-se as famílias, sufocados os que soçobram à vista dos que receiam o mesmo destino. Se há lágrimas, misturam-se na água que é mortalha; se há gritos, abafa-os o marulhar das ondas; se há esperança, termina no último balanço da frágil embarcação de onde já saíram os que não tiveram a quem se agarrar.

Alguns chegam, a vida é feita de milagres, famélicos, nos trapos molhados que enrolam corpos lívidos, salvos pela guarda costeira de países ribeirinhos ou chegados com vida a uma praia italiana, a nado, sobreviventes do naufrágio ou rasgados nas rochas da costa.

Outros chegam ocultos nos porões dos barcos de carga, desidratados e em hipotermia, misturados com os que morreram, as fezes de todos e o oxigénio a esgotar-se. Muitos já chegam cadáveres em contentores por abrir de veículos que os condutores abandonaram ou de que os donos se desinteressaram.

Na pungência dos dramas cresce a indiferença e medra a insensibilidade, até ao dia em que serem
os nós a beber a cicuta que nos liberte da prisão da vida, destas vidas de quem nasce no tempo e sítio errados.

E nós, europeus, estamos a fazer de um bom sítio o local falhado do futuro.»

https://ponteeuropa.blogspot.com/2025/08/a-imigracao-vinda-do-magrebe-escrevi.html

terça-feira, 24 de junho de 2025

Carlos Esperança -[O meu pai anda a fumar coisas] - (Diário de Diana)

Do Diário da Diana – 13 anos – escola C+S da Musgueira

Por Carlos Esperança - junho 24, 2025

O meu pai anda a fumar coisas ou anda com gente perigosa.

Ontem chegou eufórico a dizer que o Dr. Trump partira aos iranianos a coisa que apenas herbívoros têm e que os portugueses devem apoiar. Não pode haver paz com o Irão – gritou –, tem mísseis que atingem a Europa. Até a Dr.ª Helena Ferro Gouveia, apesar de mulher, percebe isso. Disse-o na CNN onde está em permanência como enviada do Dr. Netanyahu. E o Dr. Almirante disse que era ataque preventivo justificado porque os padres do Irão são a favor da Rússia e contra Israel.

Vá lá que o Dr. Montenegro já pediu a anuência da UE para um empréstimo para armas, 5% do PIB como exige o Dr. Trump. Não é como o Dr. Pedro Sánchez, que só vai gastar 2,1%. Recusa ajudar o Dr. Trump na despesa contra os aiatolas. O André, agora líder da oposição, já o apoiou. Quando o André for PM não vai pedir a ninguém. A bandalheira da democracia acaba. E a Base das Lajes vai estar sempre lá para o Dr. Trump.



É preciso acabar com as greves que só prejudicam quem trabalha. A maioria já percebeu e não quer esquerdalhos a governar. Por isso os trabalhadores votam no André. 

E não são só as greves, são a moral e os bons costumes. É preciso fazer Portugal grande outra vez. Não podemos ter um país que prende patriotas, como o Dr. Mário Machado, e deixa à solta ladrões, assassinos e imigrantes. Os imigrantes e os ciganos têm subsídios e assistência médica e os portugueses de bem são presos. O André não vai consentir que andem nas ruas gajas com o focinho tapado nem gajas com tudo à mostra.

Os juízes preparam-se para mandar para a prisão o polícia que parou o Odair Moniz, o preto que tinha a arma branca para matar polícias. E vão fazer o mesmo ao chefe da polícia municipal do Dr. Moedas que queria armar portugueses para defender a Pátria dos esquerdalhos. O meu pai chama isso a quem não for da Chega, da IL ou da AD.

Espero que a bandalheira termine depois de o Dr. Almirante ser eleito PR. Pode não ser tão bom como julgo, mas o André não pode estar em todo o lado, como o Deus dele. E vai ser um gozo ver o pequenino a arrastar na derrota o Marcelo, o Montenegro, a SIC e os jornais! Estão contra o Dr. Almirante para continuarem a bandalheira de 50 anos.

Acabou o solilóquio ao receber uma chamada. Não percebi se foi do Dr. Esteves, o dono do táxi, para substituir algum colega, ou de algum maluco que lhe vende estas ideias.

A minha mãe tem razão: ao meu pai, para parvo, só faltam as penas, e os parvos não têm penas! Até tenho vergonha de escrever o que diz porque podem apanhar o meu Diário e levar o que escrevo para o Facebook, mas preciso de registar o que diz para ter a certeza de que a posição contrária é a certa.

Às vezes, a minha mãe admira-se comigo, até julga que sou mais inteligente do que sou, por raciocinar tão bem. Não adivinha que basta pensar ao contrário do meu pai!

Musgueira, 23 de junho de 2025 – Diana

https://ponteeuropa.blogspot.com/2025/06/do-diario-da-diana-13-anos-escola-cs-da_24.html

quarta-feira, 29 de janeiro de 2025

Carlos Esperança - [Ontem, o meu pai chegou muito satisfeito] - (Diário de Diana)

 
Do Diário da Diana – 12 anos – escola C+S da Musgueira:

Por Carlos Esperança - janeiro 29, 2025

Ontem, o meu pai chegou muito satisfeito e bebeu a garrafa de vinho toda ao jantar, e não bateu à minha mãe nem a mim:

Que grande homem o Dr. Trump, que já expulsa os imigrantes, que roubam empregos a americanos como os paquistaneses roubam passageiros ao meu táxi. E, quando os países recusam recebê-los, não os invade, dispara tarifas e logo aceitam, até oferecem o avião do Dr. Presidente para os ir buscar. É preciso expulsar imigrantes algemados e manter as boas tradições dos barcos negreiros, agora nos aviões. 

O Dr. Trump é que sabe. É contra quem vive à custa dos americanos, não é como nós, só nos salvamos quando voltarmos a ter um presidente almirante e um professor de Direito a governar. Já não falta muito e agora já todos estão a ver. Foi por isso que só convidou o André para a posse. É o único de quem gosta e que merece.

O Dr. Montenegro quer evitar os imigrantes, mas é frouxo, não é como o André. Já não falta muito para ir à vida como o Dr. Costa. Só era preciso voltar já a eleições, mas o Dr. Marcelo teme insistir na receita.

O meu pai regozijou-se com a visita do Dr. Mark Rutte, homem grande em tudo, que veio a Portugal falar com o Dr. Montenegro para satisfazer o Dr. Trump e obter 5% do PIB para lhe pagar a defesa da Europa contra a Rússia. O Dr. Rutte não gostava do Dr. Trump, mas agora diz que é melhor do que o Dr. Biden e quer trabalhar para ele.

É fácil poupar 5% para comprar armas ao Dr. Trump, basta não esbanjar dinheiro no Estado Social, Saúde e Educação, muito menos com imigrantes, e o Dr. Trump não quer europeus a aprender russo ou chinês, quer que aprendam americano como os ingleses.

Além disso, o Dr. Rutte, que podia falar com o Dr. Montenegro na Europa, veio cá para o Dr. Nuno Melo lhe dar os planos para recuperar Olivença, e levá-los para ensinar a Ucrânia a recuperar a Crimeia. Disse que o Dr. Melo é que sabia os planos do Atlântico Norte ou Atlético Norte, não percebi bem.

O meu pai adora o Dr. Trump e o Dr. Elon Musk. Este quer que os alemães voltem a ter orgulho no que fizeram no passado, tal como os portugueses quando defendiam o nosso Ultramar infelizmente perdido, antes de o entregarem a pretos e russos.

O Dr. Trump tem ideias excelentes para a paz, quer despachar as pessoas de Gaza para outros países, o que é uma boa ideia para evitar conflitos, como provou o Dr. Stalin com os tártaros da Crimeia para a Sibéria. Só há guerras de houver dois lados.  

E foi para o café a esfregar as mãos, eu sempre tive razão… ainda hei de ver os largos, ruas e praças 25 de Abril a mudar de nome para: Dr. Trump – o Deportador.

Quis perguntar ao meu pai quem é o Dr. Miguel Arruda, que tem 1 curso, 2 mestradas e 17 malas, mas tive medo de levar uma sova. É o que sucede quando se arrelia comigo. E hoje não escrevo mais nada.

https://ponteeuropa.blogspot.com/2025/01/do-diario-da-diana-12-anos-escola-cs-da.html

sábado, 11 de janeiro de 2025

Carlos Esperança - A família (Diário de Diana)


(Carlos Esperança, in Facebook, 10/01/2025, revisão da Estátua)

O texto que segue é uma alegoria elucidativa de muitos dos lugares-comuns que povoam o quadro mental de muita gente anónima que apoia a extrema-direita em Portugal. Mas as Dianas e os seus pais, acreditem, existem mesmo por esse país fora. O autor – que conheço pessoalmente e cujas ideias se encontram nos antípodas das do pai da Diana – conseguiu retratar brilhantemente essa triste realidade. Os meus parabéns ao Carlos Esperança.

Estátua de Sal, 11/01/2025)

~~~~~~~~

Aminha família é composta pelo meu pai, a minha mãe e eu. Quem manda é o meu pai que tem um táxi que não é dele. A minha mãe trabalha em casas de senhoras ricas.

O meu pai é quem fala lá em casa, e manda calar a minha mãe; diz que, quando há um galo, não cantam as galinhas. Ele veio de Coimbra aqui para a Musgueira e trata os clientes e pessoas importantes de quem gosta por doutores. Os clientes gostam – diz o meu pai –, e fala dos doutores, mas às mulheres chama-lhes gajas. Aos homens de que não gosta chama-lhes nomes que a minha mãe diz que não devo dizer nas aulas.

O meu pai diz todos os dias que os políticos são mentirosos e vivem à custa dele, que a política é uma coisa suja, mas quando a minha mãe lhe disse que ele só falava de política, deu-lhe logo uma bofetada e nunca mais foi contrariado.

O meu pai só gosta do Dr. André Ventura; gosta tanto que até diz que o André, só André, sem doutor, vai acabar com os políticos, os ciganos e as eleições. Há um estrangeiro de quem gosta muito, o Dr. Trump, e odeia outro que trata por um nome que não digo, Putin, e chama putinistas aos que não gostam do Dr. Zelenski.

Eu não percebo nada de política, mas oiço o meu pai. Ele agora também passou a gostar do Dr. Elon Musk, creio que é assim que se escreve, eu já o vi na televisão. Deixou de gostar do Dr. Marcelo e passou a chamá-lo só por “o Marcelo, aquele filho de Putin”, mas ao Putin chama-o também filho disso ou coisa parecida.

Não percebo o meu pai; ele diz que as mulheres não podem compreender, quanto mais as garotas. Diz à minha mãe para votar no Chega, e que os partidos deviam ser proibidos. Ele gosta muito do Dr. Mário Machado porque quer acabar com os pretos e os ciganos, e, por bem fazer, às vezes prendem-no. Os juízes ainda são piores do que os políticos.

O meu pai gosta muito do Dr. Trump porque quer expulsar os pretos; o meu pai também não gosta de pretos, e anda desorientado porque o Dr. Trump parece gostar do Putin. Se o Dr. Trump deixar de gostar do Dr. Zelenski o meu pai passa a gostar só do primeiro.

O meu pai anda muito contente porque o Dr. Trump vai ficar com o Canadá e o Canal do Panamá e, se não lhe venderem a Gronelândia, conquista-a. Não é como nós, que não defendemos o nosso Ultramar, infelizmente perdido, e o entregámos aos pretos e aos russos.

O meu pai não gosta da Rússia, diz que a Irmã Lúcia, que agora é santa, disse que todo o mal vem da Rússia e que foi a Senhora de Fátima que lho disse. Portanto, é verdade.


Agora o meu pai anda perdido com a Ucrânia, o Dr. Trump, o Dr. Zelensky, o Dr. Elon Musk e o Putin. Só fala do futuro presidente. Vai votar no Dr. Almirante e ele e o André vão tornar Portugal grande outra vez e acabar com políticos, ciganos, pretos e traidores.

Ele também gosta muito do Dr. Milhazes, do Dr. Rogeiro e do Dr. Botelho Moniz que odeiam o Putin, mas gosta de uma senhora, e é mulher, uma tal Diana Soller, talvez por ter o meu nome, mas como as mulheres não pensam, diz que é o marido que a ensina.

Na próxima composição, esta já vai longa, vou contar outras coisas do meu pai, e tenho de perguntar à minha mãe se as posso dizer aqui na escola da Musgueira.

Diana – 12 anos – Escola C+S da Musgueira.

https://estatuadesal.com/2025/01/11/composicao-tema-a-familia-6-o-ano-aluna-diana/

segunda-feira, 23 de dezembro de 2024

Carlos Esperança - Natal (Escrito em 2006)


* Carlos Esperança

Há meio século o Natal era pretexto para a reunião das famílias. Os ausentes voltavam todos os anos, à aldeia de origem, nas carruagens de 3.ª classe de comboios apinhados de pessoas e cabazes, com odores a que se resignavam as pituitárias de então.

Através do vidro partido, ou da janela avariada, o ar gélido entrava nas carruagens e nos corpos. Os passageiros partilhavam a vida e as merendas durante a penosa e longa viagem de pára-arranca. Os Senhores Passageiros precisavam de embarcar, ou de desembarcar, e a máquina a vapor de abastecer de lenha a fornalha e de água a caldeira.

Às vezes o comboio parava nas subidas para que a caldeira ganhasse pressão e pudesse rebocar o peso acrescido que deslocava. Entre Lisboa e a Guarda era normal um atraso de duas ou três horas, pela Beira Alta, e ainda mais pela Beira Baixa.

Nas estações e apeadeiros esperavam bestas e pessoas impacientes e enregeladas. À chegada do comboio havia abraços, ternos e demorados, e lágrimas de alegria. Do comboio acenavam mãos e ouviam-se votos de Feliz Natal quando o apito anunciava o retomar da marcha. Aos que se apeavam, só o caminho lamacento os separava, agora, da casa da aldeia onde aguardavam os parentes que ficaram em ansiosa espera. 

Quando eram pequenas as casas e numerosas as famílias, sobrava sempre lugar para os que chegavam. A ceia de Natal era o momento mágico que matava fomes ancestrais e a saudade das ausências.

Na lareira fumegavam panelas cheias cujos odores, fundidos com os que vinham da sala, traziam à memória os sabores da infância.

A candeia de azeite iluminava os trajetos domésticos enquanto o candeeiro a petróleo projetava as sombras dos familiares reunidos em conciliábulo.

Estranhava-se o milagre que permitira tantas postas de bacalhau, já que repolhos e batatas os dava a horta e os frutos eram secos no devido tempo. Rabanadas, arroz doce, sonhos, filhós e toda aquela variedade de guloseimas eram fruto dos ingredientes próprios e de segredos herdados a que o lume brando da lareira requintava o paladar.

Não deixava de ser estranho que tanto desse, quem pouco tinha, e negasse, avaro, quem muito podia. Eram esses os tempos, ainda são assim as pessoas.

Ceavam primeiro as crianças, por questão de espaço e de impaciência; passavam depois à sopa os mais velhos, antes de se fartarem no bacalhau, repolho e batatas, regados com azeite. Só depois de esgotado o vinho no garrafão e de se ver o fundo à panela se entrava nas sobremesas, nas aguardentes e na jeropiga.

As crianças impacientavam-se com a demora do menino Jesus que raramente trazia os presentes que pensavam, mas se conformariam com os que viessem. Os adultos sugeriam-lhes a cama enquanto os sapatos rodeavam a lareira à distância conveniente do lume que ainda crepitava. O sono ia-as vencendo, adormecendo primeiro as mais pequenas, que as mães e a avó iam depositando em camas improvisadas.

No pouco espaço disponível havia ainda lugar para o presépio, uma ingénua encenação do mito cristão que o pinheiro, oriundo de outras culturas, havia de substituir num prenúncio da globalização, para acabar feito de plástico, cheio de bolas coloridas.

De manhã, à medida que acordavam, os miúdos corriam para a chaminé, ansiosos por encontrar as prendas, e exultavam com os presentes.

O Menino Jesus, que então descia pelas chaminés, foi substituído pelo Pai Natal, a viajar de trenó, puxado por renas, em terras onde só a neve fazia jus à nova fábula que roubou o encanto dos musgos, da serradura, do algodão em rama e dos animais que rodeavam o menino de barro, deitado em berço de palha.

Nos sapatinhos, onde então cabiam os chocolates e os carrinhos de corda que faziam as delícias das crianças, o terço para a tia beata ou a onça de tabaco para o avô, não cabem hoje os jogos de computador, esperados sem ansiedade, nem os volumosos presentes embrulhados em papel reluzente.

Alguns pais ainda voltam aos sítios de origem para mostrar os netos aos avós, com o mesmo ar de enfado com que os levam ao Jardim Zoológico a ver a girafa e o elefante ou os metem nos Centros Comerciais. Mas o mais frequente é tirar os velhos da toca e pô-los a fazer o percurso inverso, com 50% de desconto no preço do bilhete, num exílio que começa na véspera da consoada e termina no início do Ano Novo, com a devolução ao habitat.

Mudaram-se os tempos. Do Natal que havia, resta a recordação das crianças que foram.

https://ponteeuropa.blogspot.com/2024/12/natal-escrito-em-2006.html
 

quinta-feira, 11 de agosto de 2022

Carlos Esperança O soldado Moura e o desastre de Mopeia – Crónica

*  Carlos Esperança - 

Naquele sábado, 21 de junho de 1969, o Batelão Chupanga fazia mais uma travessia do baixo Zambeze entre a localidade que lhe deu o nome e Mopeia.

Ficou registado que eram 17H30 quando o Chupanga, apinhado de tropas e viaturas que vinham de Lourenço Marques para a província do Niassa, atravessava o rio Zambeze, começou a meter água e se virou rapidamente.

Arrastou no naufrágio centena e meia de homens que faziam a travessia e seguiram para as águas revoltas com as 30 viaturas que traziam.

Mais de meio século depois, o maior desastre da guerra colonial está esquecido e apenas vive na memória dorida dos que aí perderam amigos e de raros familiares dos que então pereceram. Hoje, já nem a guerra se condena e, muito menos, se referem as vítimas que provocou.

Por amarga coincidência, dois soldados eram, como eu, do Bcaç. 1936, exportados para Moçambique “na defesa da civilização cristã e ocidental”, na linguagem pia do cardeal Cerejeira, ou na “defesa do nosso Ultramar infelizmente perdido” na definição profana dos nostálgicos do Império.

O Alcino Moura, da Companhia de Malapísia, tinha ido buscar o Unimog 411, de que era condutor, e que se afundou enquanto se agarrou à guitarra emprestada que o ajudou a chegar à margem. Foi um dos 54 náufragos que se salvaram e voltou a Malapísia.

O Moura não teve a mesma sorte. Eu esperava-o. Era um dos meus camaradas, um dos que no jargão militar era meu soldado. O nome de batismo era António Manuel Moura de Almeida, conhecido apenas por Moura.

Sempre gostei dele, talvez por lhe reconhecer uma estranha capacidade para desaparecer quando era preciso. Era divertido, fazia truques de ilusionismo e era capaz de hipnotizar alguns soldados. Nasceu para o espetáculo e não para a guerra.

Já não me recordo do pretexto que usou ‘para prestar serviço’, durante curto espaço de tempo na Companhia de Massangulo e ignoro o motivo que lhe permitiu o internamento no hospital, logo transferido de Vila Cabral para Nampula e, três meses depois, para Lourenço Marques. Chegaram-me ecos da vida agitada, do envolvimento com a mulher de um major, de outras aventuras, de peripécias dignas do ilusionista, de alguma que lhe antecipou a alta médica e o regresso.

O Moura voltava ao Catur quando desapareceu nas águas do Zambeze. Deixou viúva a jovem que ficou na aldeia com uma filha sua. Era o único casado. Não tinha mais de 23 anos e já tinha mais vidas vividas do que muitos durante uma vida longa.

Assisti à morte do Melo Dias, ao seu último suspiro da vida que deixou sob o rodado da Berliet, ao estertor nos meus braços, depois de ter antecipado a saída da messe para a escolta que o aguardava, mas vi-lhe o corpo rasgado pelo peso da camionete, ali dentro do quartel, o rosto afogueado, a vida apagada na incúria de quem exigiu ir sentado no para-lamas, e adivinhei-lhe os órgãos esmagados quando vi um testículo projetado, preso ao corpo pelo cordão espermático. Foi duro, mas vi o corpo sem vida.

Do Moura nunca digeri a morte ou fiz o luto. Imaginei durante anos a aflição da asfixia, o corpo frágil a lutar para se manter à tona, o macabro truque de esconder a jangada, a luta contra a água e crocodilos, a respiração suspensa, a agonia, a morte sem corpo que a certificasse. Ficou apenas nome numa folha de passageiros, uma guia de marcha que levou, memórias dissolvidas na água.

Pensei durante anos na mulher e na órfã que não conheci e ele nunca mais viu, no rio caudaloso e nos crocodilos que o habitavam, na falta do corpo e nos instantes breves do sofrimento. Acabaram-se os truques com cartas e sessões de hipnotismo para gáudio da malta, as perguntas sobre onde estaria o Moura e o Braga a dizer, já se desenfiou.

O Moura foi um dos 101 desaparecidos no naufrágio, mas era o amigo e camarada que devia regressar em dezembro com os que sobrámos dos que fomos em outubro de 1967, embarcados no cais de Alcântara e aí descarregados 26 meses depois.

Guardei para os pesadelos a memória dolorosa do camarada perdido, em silêncio como soe suceder para o que mais dói. Foram mais de quatro décadas a querer teimosamente esquecer até ao dia em que falei nele ao Pinto e me queixei da mágoa. Que raio de ideia!

O Daniel Pinto era um homem bom, sensível e discreto, uma espécie de telefonista do Batalhão. Era o alferes de Transmissões, o chefe dos alcoviteiros que sabiam primeiro as mortes e escondiam segredos das operações militares de que todos íamos sabendo.

Quando lhe referi a mágoa que persistia da memória que a ambos há de acompanhar, a idealização da viúva e da órfã que não conheceu o pai, ouvi este inesperado desabafo:

- Tu recordas o Moura, mas não imaginas que, no regresso, procurei a família, que era próxima da minha zona, para lhe dar os pêsames. Encontrei a sogra e a mulher dele com a filha ao colo.

Sei como o abalou a cena e não lhe fiz mais perguntas sobre o quadro cuja moldura nos fez regressar à savana do Niassa e rever a guerra que deixámos e não saiu de nós.


Coimbra, agosto 11, 2022

https://ponteeuropa.blogspot.com/2022/08/o-soldado-moura-e-o-desastre-de-mopeia.html

sexta-feira, 3 de setembro de 2021

Carlos Esperança - O Hissope – Conto (10.000 carateres)

* C. B. Esperança

Corria tranquila a vida no convento, cumprido o tempo com orações e refeições frugais a horas certas. Da missa diária encarregava-se o Padre Agostinho, confessor e diretor espiritual, com descrições do Inferno, pormenorizadas e convincentes, e de horrores ainda maiores do Mundo, criado por Deus e abandonado nas mãos dos homens. Falava de um ror de pecados inenarráveis que faziam zangar muito Nosso Senhor, cabendo às monjas recuperar-lhe o humor pela oração e sofrimento.


Nas longas horas de meditação, nas rezas coletivas ou individuais, davam graças por não partilharem esse espaço que o Diretor Espiritual e a Madre Superiora eram únicos a transpor, protegidos pelas orações aflitas com que o convento inteiro os acompanhava.

Nessas horas de vigília mística transferiam a intenção habitual para a proteção dedicada e rezavam com a mesma acendrada devoção com que pediam pelas intenções do Santo Padre, sem se interrogarem quais eram essas intenções, pelo cumprimento da vontade divina, se é que depois de tantos anos de Mundo ainda há vontade que resista, mas isto são pensamentos ímpios, reflexões de quem julga inútil a vida monástica e considera a oração mera ociosidade, sem lhe atribuir a eficácia e bondade sublinhadas por milagres que crentes de todas as religiões confirmam.

Agostinho, tal como o santo de quem tomara o nome, possuía a mesma vontade e determinação de ser casto, esperando também que a idade lhe apaziguasse os desejos. Nutria igual desprezo pelas mulheres que lhe incendiavam os sentidos, tinha a mesma certeza de que eram uma encarnação do diabo, cujo cabelo e voz eram obscenos, inteligente reparo do santo, verdadeiras fontes de pecado que só a oração e o sofrimento podiam evitar. Talvez por isso era tão apreciado pelo prefeito da Congregação para os Institutos de Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica, de quem tinha o privilégio de receber bênçãos especiais por altura das festividades canónicas.

Às vezes, enquanto administrava a sagrada partícula, adivinhava os corpos que os hábitos escondiam, os desejos que as orações atenuavam, e atormentavam-no pensamentos pecaminosos de que os jejuns e a oração o libertavam. Mas era durante a confissão, onde, por dever do múnus, perscrutava até ao mais íntimo da alma, que a efervescência o apoquentava, sabendo bem que a culpa cabia às filhas de Eva que ali se genufletiam carregando o desejo que os seus conselhos e as regras monásticas reprimiam para maior glória divina.

O Padre Agostinho já durante as confissões da Irmã Maria Imaculada tinha indagado dos pecados cometidos, ao menos por pensamentos e, perante o total desinteresse da penitente pelos ditos pecados, a tinha advertido para estar vigilante, que Satanás manifestava particular predileção pelos pensamentos, janela de oportunidade para tresmalhar a alma de uma devota, mesmo, ou sobretudo, sendo freira e estando particularmente devotada à castidade. De resto, o convento não era refúgio seguro das arremetidas do demo, antes pelo contrário. Ele próprio era testemunha, com o sangue a ferver-lhe perante o louvável desinteresse de Imaculada pela luxúria. E tudo isto apesar de o convento albergar uma relíquia tão rara e cobiçada pelos outros mosteiros – uma pena do Arcanjo Gabriel, muito bem conservada num relicário de ouro cinzelado e com pedras incrustadas, proteção infalível à honra do convento.

A Irmã Maria Imaculada do Sagrado Coração de Jesus Santíssimo, ou Irmã Maria Imaculada, ou Imaculada, simplesmente, deixados cair os apelidos e reduzida a um só nome dos que no ato de professar serviram para sepultar os profanos, rezava abundantemente. Sob os olhos indiferentes de um Cristo cansado das orações e da cruz dependurada num prego periclitante entalado na ranhura dos blocos de granito, rezava diariamente o terço, absorta e genufletida, sem pressa de concluir o rosário que a Virgem recomendara à Irmã Lúcia, em Fátima, para conversão da Rússia e salvação do mundo.

Uma tarde, igual a tantas outras, Imaculada, enquanto rezava, através dum ligeiro vaivém da porta sem trinco, apercebeu-se da sombra que penetrara a cela, de uns braços potentes que a agarraram por trás, da mão que lhe esmagou os lábios, dum corpo que se colava ao seu enquanto outra lhe percorria o hábito e lhe devassava a orografia do corpo esquecido.

Debateu-se em silêncio, esquecida a voz de que já se desabituara, incharam-lhe os olhos, acudiu-lhe o sangue à face, quando descobriu na estranha criatura que a enlaçava a figura do padre confessor que, num ápice, lhe despia apressadamente o hábito a caminho da satisfação das necessidades próprias sem cuidar das alheias. Despojada do hábito e reduzida ao mínimo vestuário, precária resistência à lascívia reprimida, em estado de estupor, suportou a arremetida. Apercebeu-se do corpo a ser derrubado sobre o leito, sentiu a arremetida ignóbil, a violência gratuita, a sanha animal, como quem aceita a penitência, como quem se resigna ao isolamento, ao silêncio e à oração, com o mesmo desprendimento da vida sem sentido, que é fardo virado desejo, que é morte de que se faz a vida monástica, que é renúncia a pretexto da salvação.

Debateu-se primeiro, sim, mas quedou-se depois, desinteressada, com uma dor intensa a penetrá-la, ferro em brasa a percorrer-lhe as entranhas, imobilizada por uma força imensa – como se pudesse fugir, primeiro, ou o quisesse tentar, depois. O ódio que a clausura sublimara foi o sentimento primeiro, logo seguido da indiferença que os movimentos alheios poderiam ter conquistado para a cumplicidade.

Não teve tempo. Pela primeira vez o olhar se detivera no teto da cela para voltar à enxerga onde jaziam fluidos cujo sangue não podia provir das chagas do Cristo metálico e indiferente, imobilizado na cruz da parede.

Na violação da freira pôs o padre a mesma violência perversa do proselitismo. Desta feita não foi a fé que procurou impor, apenas buscou aliviar o cio.

Na metamorfose do êxtase esqueceu a alma cujo destino incerto e distante não interfere na pacificação espiritual que os corpos conquistam na tumultuosa explosão dos sentidos. Mas ali não houve arrebatamento, apenas conquista e saque de um corpo devastado, espada enterrada em bainha que a fúria abriu e devassou, um corpo esmagando a alma de outro na pressa de servir-se.

O abuso sexual foi o resultado das pulsões primárias de um indivíduo anacrónico, que não fizera a catarse da violência.

Agora até o místico tugúrio de anacoreta tinha virado palco de profanas fantasias que o carácter confessional dos parceiros transformara em incestuosas investigações eróticas da geografia de um corpo flagelado. O êxtase parece tanto mais sublime quanto maior tiverem sido a dor, a abstinência, o desejo e o recalcamento. Faltou, na circunstância, o tempo, a sabedoria e a sedução. Não foi a mulher que o sevandija procurou, mas o vaso em que se aliviou.

A SIDA, o medo que lhe infundia, foi o pretexto que a si próprio o padre ofereceu para buscar na freira o consolo cujas consequências temia nas rameiras, a violação o prémio que se atribuiu pelos longos meses de castidade sofrida. Ao menos não adicionou à fraqueza da carne o pecado suplementar do preservativo. Desagradara igualmente a Deus, mas não ofendera tanto o Santo Padre.

Apaziguados os desejos, libertos os humores, a freira, que pensou arrancar a lâmina que a rasgou, acabou guardando entre as mãos a arma que a ofendera, inútil, pegajosa, mole, onde adivinhava um hissope fundido pelo vigor da aspersão. E nem sentia sequer revolta, medo ou vergonha. Começava a deixar-se percorrer por uma estranha sensação de prazer igual à flagelação, parecida com a do cilício, e sem dor, sem sofrimento, sem necessidade de se imobilizar. Ousou mesmo uma discreta massagem como se de uma relíquia se tratasse, relicário igual, quem sabe, a outro muito jovem de onde foi extraído o santo prepúcio.

Deixou vaguear os olhos pelo próprio corpo que há muito não via, pousou-os no outro corpo de que sempre afastara os pensamentos, deteve-se nas diferenças de ambos e pensou que tudo poderia ter acontecido sem violência, devagar, como quem reza, com gestos ritmados como se batesse no peito em ato de contrição, mas o ímpeto que a magoou foi talvez o tributo indispensável à tranquilidade que agora sentia. Quem sabe se não devia ao tumulto o prazer que experimentava!

Não era violenta a clausura que extasiava? Não embriagavam os jejuns? Não fazia a dor dos cilícios percorrer o corpo, todo o corpo, de um doce calor de inebriante felicidade?

A dor que inicialmente sentira, a humilhação que sofrera, a vergonha que a prostrara, foram a fonte de onde começou a jorrar uma ponta de felicidade. Estranhos caminhos da natureza, complicadas formas de ventura, a escrava conformada a procurar o caminho do perdão.

Continuou a segurar a arma que a trespassara, tomava-lhe o peso, acariciava-a e sentiu que a coisa mole ganhava dureza, assumia forma, tomava cor. Sentiu-se confusa, fechou os olhos, deixou-se escorregar para o chão e aguardou. Outra vez a dor e o fogo a percorrerem-lhe as entranhas, agora já sem violência, um corpo sobreposto em movimentos ritmados, a dor a esbater-se, o próprio corpo a ensaiar o acompanhamento do outro, uma indizível felicidade a percorrê-la, uma sensação idêntica à da libertação do cilício, sem pensar em intenções do Papa, contrações incontroladas, prazer a jorros, um êxtase sublime, como se naquele momento, sozinha, tivesse libertado o mundo de todos os pecados.

Perdeu a noção do tempo. Ao ver o seu Diretor Espiritual abandonar a cela sem uma explicação, sem uma palavra, confusa, esmagada, teve ainda forças para lhe sussurrar: venha mais vezes, volte...

Na manhã seguinte seguiu com o costumado interesse a santa missa que o mesmo padre celebrava. Sentia os olhos dele cravados em si e, à força do hábito, continuou a olhar o chão. Doía-lhe o corpo cansado de todos os esforços da véspera acrescidos com a dificuldade de disfarçar da cela os sinais de sangue e outros fluidos.

Na confusão do cérebro todos os movimentos eram agora, não para glorificar Deus e o seu divino nome, mas gestos de estimulante lubricidade. Mesmo o turíbulo, no seu vaivém, lembrava-lhe o corpo cujos movimentos esmagaram o seu, mais lentos, é certo, e, talvez por isso, Imaculada sentia percorrê-la uma estranha sensação de felicidade e um calor deslumbrante que a transportava ao êxtase. Lembrou-se das descrições de Santa Teresa e sentiu em si as mesmas emoções, a mesma onda de felicidade que a inundava, duvidosa de ser ou não ser o Divino Mestre que a percorria nas fantasias bem humanas que haviam despertado de forma incontrolável.

Enquanto o oficiante celebrava não eram já as palavras pronunciadas que lhe ouvia, mas a língua que as articulava que sentia. Os conselhos de sempre traziam apenas o bafo quente que lhe envolvia o pescoço. A bênção que lançava devolvia-lhe os dedos que a descobriram.

Imaculada sentia-se transportada ao céu por que tanto tinha implorado. Rezava agora com paixão, sem intenções prévias, cada vez mais convicta de que esse dia traria de novo a visita privada do confessor que talvez passasse a confessado.

E assim foi. A cela deixou de ser o espaço de reflexão sem sentido para se converter na antecâmara do desejo. Perdeu o ar frio e funesto para ganhar a dimensão dum ninho fofo e proporcionar a visão de uma centelha do paraíso.

À mesma hora do dia anterior, a preceder as vésperas, Imaculada viu claramente que não era uma sombra que penetrara a cela. Era o homem que esperava. O ascetismo místico tinha ganhado uma nova dimensão e ia ser temperado pela explosão simultânea dos fluidos em reparadores espasmos fruídos sofregamente, sobre o catre, ou no chão, no exíguo espaço de uma cela.

E não mais pediu ao Padre Agostinho para voltar. Dia após dia o hissope vinha mergulhar suavemente na caldeirinha para aspergi-la vigorosamente no momento certo, enquanto ambos, à medida que exultavam com as delícias da alcova, se foram esquecendo do martírio do seu Deus.

In Pedras Soltas (ed. 2006) – ortografia atualizada

Ponte Europa / Sorumbático

AFIXADO POR: CARLOS MEDINA RIBEIRO ÀS 10:38

http://sorumbatico.blogspot.com/2021/09/o-hissope-conto-10000-carateres.html

quarta-feira, 18 de novembro de 2020

Carlos Esperança - Que raio de sorte!

* Carlos Esperança

Quando a esperança de vida se ia reduzindo, fruía-se o tempo com os amigos e os dias eram contados em função do regresso de filhos e netos. Os afetos explodiam e os braços enchiam-se de corpos que se estreitavam; os lábios encontravam faces que se ofereciam à doce carícia de contactos; os dias eram o espaço de tempo para exprimir sentimentos, cultivar ócios e regressar às leituras que nos preencheram a vida.

Tudo nos fazia esquecer as rugas, os lapsos de memória, moléstias da idade e dores do corpo e da alma. Tudo se desvaneceu numa reclusão autoimposta ou em deambulações solitárias, na esperança de um impossível regresso à normalidade.

Um homem nunca anda só, é verdade, traz consigo memórias de vida, marcas do trajeto que percorreu, histórias por contar, recordações que nos preenchem os vazios, mas falta agora a alegria que os amigos traziam à tertúlia e até o ar que se inspirava na tranquila e lenta oxigenação dos pulmões, agora concentrado de anidrido carbónico que se acumula na máscara que nos defende e oprime.

Hoje, todos os amigos são suspeitos, e os filhos e netos, perigosos. Receamos o ar onde passou o troglodita sem máscara ou tossiu um mascarado a aliviar o catarro. Fugimos do restaurante habitual, que antes regurgitava de gente, agora com o espaço vazio à espera de melhores dias.

Há meio século os homens tiravam o chapéu por cortesia, agora colocam a máscara por delicadeza e olham-se de soslaio os energúmenos que a usam no pescoço, no pulso ou a trazem no bolso.

Lenta e inexoravelmente o distanciamento físico converte-se em afastamento social.

Que raio de sorte!

novembro 18, 2020


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quinta-feira, 27 de julho de 2017

As catequistas e os frades (Crónica)

Por Carlos Esperança - julho 27, 2017

A Ti Ricardina e a sua sobrinha Aurora eras as duas únicas catequistas da aldeia. Apesar de analfabetas tinham alvará para ensinar a doutrina da única religião verdadeira. Eram celibatárias e devotadas à propagação da fé. Sabiam de cor e lecionavam as orações e os castigos que o seu Deus reservava aos pecadores.

O pároco exercia o múnus em Casal de Cinza, Carpinteiro e Vila Garcia, mas residia na primeira paróquia, a que dispunha de “casa do padre”. Só aos domingos e Dias Santos de Guarda ia pontualmente a Vila Garcia dizer a santa missa e, em outros dias, quando necessário, para levar o viático a um moribundo, celebrar missas de corpo presente ou fazer funerais. Confissões avulsas, batizados e casamentos eram ocorrências dominicais.

Só ia ao sábado para desobrigas coletivas, com outro padre e hora marcada, para aliviar os pecados e aviar os pecadores que esperavam o perdão, após confissão bem feita, reza do ato de contrição e absolvição, que exigia ainda o cumprimento da penitência. E, logo que as confissões terminassem, seguia com o outro padre para nova paróquia.

No que me diz respeito, deviam ser leves os pecados porque a penitência que lhes cabia não excedia uns padre-nossos e poucas ave-marias, sinal de que eram leves as penas que o catálogo pio lhes atribuía, tal a brandura do cúmulo jurídico canónico.

Anualmente, o padre vinha ‘perguntar a doutrina’. Não me recordo de reprovações, mas alguns titubeavam na salve-rainha e outros hesitavam no credo, enquanto ele, absorto, refletia talvez no martírio do seu Deus ou na impureza dos pensamentos que o afligiam. A catequese ensinava que há pecados por pensamentos, não só por palavras e obras, e as obras não as conheciam ainda as crianças que nós éramos.

As catequistas esforçavam-se na preparação da eucaristia e esmeraram-se para o crisma com que o Sr. D. Domingos iria confirmar a apropriação eclesiástica com a falangeta do polegar direito a desenhar cruzes de óleo santo na testa dos sacramentados.

Eram então obrigatórias, para os cristãos, a missa dominical e, pelo menos uma vez por ano, pela Páscoa da Ressurreição, a desobriga e a comunhão. Mandava a prudência que os funcionários públicos cedessem os filhos à liturgia, para não poderem ser apodados de hereges, maçons, comunistas ou judeus, por ordem crescente de perigo profissional.

O cumprimento dessas obrigações não exonerava os crentes do terço, no mês de maio, o mês de Maria, das genuflexões na passagem à porta da igreja, em dias de Exposição do Santíssimo, ou da novena ‘ad petendam pluviam’, quando a canícula fustigava o renovo e o pároco decidia.

Procissões, jejuns e adoração da Cruz, na Sexta-feira Santa, e rezas à Sagrada Família, que viajava pela povoação e ficava 24 horas em cada casa, alumiada com a candeia de azeite, eram alimentos das almas e a obrigação pia da aldeia onde não chegara ainda a telefonia, a luz elétrica, o telefone, o saneamento ou outros malefícios urbanos.

Apesar da devoção, do zelo do pároco e da dedicação das catequistas, todos os anos ia à aldeia um frade a predicar. De sandálias, capuz e túnica de burel, cingida por uma corda cujas pontas baloiçavam, parecia ter-se soltado da argola onde o tivessem preso. Ia sem farnel e comia em casa de paroquianos, dormindo num cabanal, sobre palha, com manta emprestada, como prevenia o padre na missa anterior ao seu aparecimento.

Ainda ignoro a ordem dos frades que rumavam à paróquia, e ignorava então que o clero regular, à semelhança do reino animal, se dividia em ordens, classes, géneros e famílias. A chegada antecipava a desobriga anual e a sua prédica fazia chorar pessoas apiedadas das almas do Purgatório cuja duração da pena dependia das missas, orações e esmolas caídas nas caixas que lhes eram reservadas. Afligia os vivos com defuntos condenados por pecados veniais com que se finaram. O que diferenciava o Inferno do Purgatório era a barbaridade das penas e a eternidade, um padecimento irrevogável que interditava o Paraíso às almas caídas no primeiro.

Lembro-me dessas pregações sobre os horrores a que os pecadores seriam condenados se expirassem em pecado mortal; do fogo do Inferno; do azeite fervente; dos gritos de pavor das almas que o Demo frigia, em delírio, no caldeirão onde as mergulhava com o garfo de três dentes; do cheiro a enxofre; do eterno e inapelável sofrimento.

Com ameaças, advertia para o perigo do adiamento do batismo dos filhos, as mães eram sempre as responsáveis, apesar da obediência que deviam aos maridos, e o Limbo era o destino dos não batizados, com enterro na parte não benzida do cemitério. Era um local de tédio, triste e silencioso, de eterna melancolia, sem Deus nem Diabo.

Quando o papa Bento 16 aboliu o Limbo, por pudor ou sumiço da certidão do registo predial, lembrei-me da estupefação da menina Aurora quando perguntei como cabiam lá tantas almas. O Limbo era o destino de todos os finados sem batismo, a única terapia do pecado original, e havia imensos mortos antes de João Batista testar o batismo em Jesus, seu primo pelo lado da mãe, no rio Jordão. Disse que era mistério, a explicação habitual para todas as dúvidas, vinda de quem só tinha certezas.

Durante alguns anos julguei os frades mais horrendos do que o clero secular, sem pensar que era igual a farinha de que eram feitos e comuns os dogmas, antes de recusar a fé que me ensinaram e de me libertar do medo, cura que leva já seis décadas, sem recidiva.

Assim, depois de cumprido o ciclo biológico, vedadas a ascensão ao Paraíso e a descida ao Inferno, garanti a defunção no planeta em que nasci. 


https://ponteeuropa.blogspot.pt/2017/07/as-catequistas-e-os-frades-cronica.html