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quarta-feira, 16 de setembro de 2020

Mário Cláudio - Dona Isabel de Moura

Mário Cláudio publica no Expresso uma série de crónicas inéditas dedicadas a portugueses marcantes, desde a Idade Média até à contemporaneidade. Começa com o retrato de Dona Joana de Eça, de autor desconhecido do século XVI, e terminará com Mário Soares, pintado por Júlio Pomar. Há uma subtil diferença nos textos. Nos autorretratos, a voz é a do narrador. Nos retratos, a voz é a do retratado. Mário Cláudio é o único autor português a receber por três vezes o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores

* Mário Cláudio

Dona Isabel de Moura  -  DR

Nunca me agradaram os dias de Verão, quando o calor me obriga a erguer a fímbria do vestido, a refrescar-me com um palmito, e a dessedentar-me com sucos de laranja. Desde sempre o frio habita em mim, e na harmonia com que nele moro, amiga do arrepio que me inteiriça o corpo, e me robustece o espírito. Na nossa Quinta da Boavista, tentando descortinar os peixes vermelhos do tanque, sobreviventes à película de gelo da superfície, habituei-me à solidão das raparigas desgraciosas, ignoradas pelas companheiras de suas manas.

Já por essa altura se me estreitava o rosto nas manhãs húmidas, não me inquietando o relance ocasional das minhas feições, reflectidas numa salva de prata, e muito menos a apurada estirpe a que pertencia, e que constitui o cuidado maior das que ficam solteiras. Criaturas como eu, ora se metem em casa, entregues ao seu mister, ora ingressam num mosteiro, a despedir-se de si mesmas na ausência de instrumentos que lhes gratifiquem a vaidade. Chegada a Espanha nos anos de irrisão da pátria portuguesa, nenhuma curiosidade despertavam em mim os teatros da política, dos quais ouvia falar com a indiferença que me inspirava a descrição dos lances de xadrez.

Agasalhada na eterna peliça, acabei por depositar nas filhas as prendas que me distinguiam, o bordado de canotilho, a geleia de medronho, ou as saquetas de alfazema. Mas insistia em que não se envergonhassem de ir avante, isto depois de saberem como se eliminam os piolhos com vinagre, se caça a rataria com trigo-roxo, e se enxugam com flanela as axilas para que não ganhem cieiro.

Só de longe a longe aparece alguém de fora, e que me proporciona, mas sem que eu o admita, um curto pretexto de respiração. Aceitámos o pintor para me tirar o retrato, e que se chamava Domingos Vieira, alcunhado de “o Escuro”. Era um homem pequeno e vagaroso, parecendo pedir licença a cada pincelada para passar à seguinte, e nele supus ter descoberto uma alma gémea. Nas longas tardes de pose, não trocando entre nós meia dúzia de palavras, tornámo-nos confidentes um do outro. No seu silêncio queixava-se da mulher que o aguardava, uma marafona de mãos cruzadas sobre o avental, a confrontá-lo assim, “O meirinho já te pagou?, lembra-te de que não me resta o que pôr na mesa.” Ele comia a sopa com sofreguidão, arrependia-se de um cinzento que bem poderia ter sido mais sombrio, e esquecia-se da fidalga da Quinta da Boavista.

Afago sem que ninguém se aperceba a cabeça de Valério, o galgo que mais prezo, e concluo que nada de momento me compete fazer. Desço ao jardim de buxo, retiro as folhas molhadas que tapam o mostrador do relógio-de-sol, mas não entendo o que me desespera, ao dar conta das horas. Muito juntos, os meus olhos secam de algumas lágrimas, e na minha lembrança é sempre noite cerrada.

https://expresso.pt/opiniao/2020-09-16-Dona-Isabel-de-Moura

segunda-feira, 14 de setembro de 2020

Mário Cláudio - Dona Joana de Eça

* Mário Cláudio

“Tecida de minudências, a raça perde-se, mas recupera-se, a cada volta do caminho.” Digo-lhes isto, ou algo assim, quer por carta, quer por voz, e respeitam-me a opinião. Há muitos anos, ainda ontem, pouco eu curava de matérias domésticas. Elevada ao meu estatuto, porfio em proclamar sabenças superiores ao usual, mas não incompatíveis com ele. Acalentei o crescimento da fama de doceira do bolo podre que nunca provo, nem consinto em que o façam diante de mim. No meu asseio, teimo em que se divulgue, não entram perfumes, nem sequer água-de-cheiro, e as mãos definham-se-me a olhos vistos, mercê do sumo de limão, única substância com que as lavo.

Filha dos mais altos, ensino às monjas, e à parentela que as visita, que uma senhora se reconhece por quanto lhe cobre a cabeça, e por aquilo em que enfia os pés. Nada sobre isto determina a Regra da Nossa Mãe Santa Clara, e julgo não haver incorrido em soberba, ao avançar com semelhantes prescrições. Insisto em tratar pessoalmente da mantilha de cambraia, e dispenso a goma no escapulário, costume ofensivo da pobreza que abracei. Do meu tempo de camareira da Rainha, e de preceptora do Rei pequenino, seu neto, criança caprichosa e encantadora, guardei o poder de influenciar pelo exemplo, movimentando para a Coroa quem a sirva melhor. Nenhum luxo reivindico, excepto o de que me peçam conselho, e de que me atribuam o engenho de o prestar.

Substituí o abanico pelo rosário que nunca mais deixei de desfiar, menos concentrada hoje em dia, e ora esquecendo-me de uma camândula para passar à seguinte, ora repetindo a reza sem avançar no mistério. Vêm os pescadores da Madragoa e de Santos, a cumprir as promessas a Nossa Senhora da Piedade e da Esperança, estendem-me diante da cátedra seiras de robalos e safios, e levantam para mim uma vozearia de louvores e reclamações. Atendo-os com paciência, e ofereço-lhes o sorriso da compaixão, mantendo-me atrás da banqueta com a almofada de damasco em cima. Eis o maior esplendor que me concedo, a fim de que não me confundam a austeridade dos votos com a limpeza do sangue.

Espero que saiam aos poucos, e ouço-os à distância com suas juras e seus protestos. Cuidando de não turbar as irmãs, vou devagarinho cortar a talisca de marmelada que meto rapidamente à boca, e outra ruga se cava na minha face direita.


Gravura- Autor Desconhecido – "Dona Joana de Eça" (?), c. 1550-1560, Museu Nacional de Arte Antiga

https://expresso.pt/opiniao/2020-09-14-Dona-Joana-de-Eca

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Mário Claudio - Namora ou O Encontro Adiado

* Mário Claudio

As relações inter-geracionais na literatura, sobressaltadas pela alternância dos modelos, e pela fixação dos mesmos, diferem de outros diálogos etários pela presença de um factor específico. O registo da sucessão das propostas coincide com a própria actividade criativa, o que se denuncia pela expressão scripta manent, a atestar com clareza a recorrência das mudanças de paradigma. Todas as gerações se confrontam, e mutuamente se repudiam, e se não sobrar tempo para que disso reste vestígio, eis que ficará provada a fragilidade das novas opções.

Habituámo-nos a considerar Fernando Namora, e refiro-me aos da minha idade, um exemplo acabado da novelística de massa, e assim teremos incorrido na precipitação dos recém-chegados, bem mais ansiosos da conquista do lugar ao sol do que da análise dos caminhos que a ele conduzem. Numa altura em que as discrepâncias entre oficiais das letras não resultavam tão-só, conforme ao que sucede hoje em dia, de meras questões de gosto, ou de desgosto, ou da elementar circunstância de se ser, ou de não se ser, capaz de pôr o preto no branco, o debate estabelecia-se sobre pertinências a escolas, realista e modernista, neo-realista e surrealista, existencialista e experimentalista, ou entre adeptos, ou não, do célebre retour au récit. E Namora, assumido propugnador da "mensagem", implantava-se diante da parede, e defronte de um implacável pelotão de fuzilamento.

O seu êxito comercial no país, e no estrangeiro, contribuía para a hostilidade que lhe votavam os emergentes, muitas vezes aspirantes a idêntico estatuto, mas incapazes de asseverar a sua verdadeira ambição. Também eu ingressaria em tais fileiras, isto após haver lido na adolescência, e com grande admiração, vários títulos do autor de Domingo à Tarde, constantes da biblioteca familiar. E associando-me aos que propalavam que Fernando Namora "escrevia mal", recordo-me de me entreter ao longo de diversos serões, adestrado por um representante da geração do visado, a vasculhar nos livros deste passagens que nos faziam rir a bandeiras despregadas.

Mas o ponto nevrálgico do meu perturbado convívio à distância com Namora ocorreria quando, morto uns anos antes o romancista, um júri me atribuiu o prémio que leva o seu nome por um fruto de minha safra de escritor. Que direito me assistiria, perguntava-me com algum desconforto, de empochar um galardão que evocava o ficcionista de O Trigo e o Joio? Pois não me achava eu um "trigo", a olhar com sobranceria aquele "joio" que era justamente o patrono da distinção que me conferiam? E lá fui, e lá debitei a discursata da praxe, e recolhi do presidente da República que me entregou o troféu a confidência de que, residindo à vista da casa de Fernando Namora, o vislumbrava a cada passo atrás da janela iluminada, debruçado sobre a sua banca de trabalho.

Lembrando-me de quanto o fustigara até ao termo da vida, e já muito doente, a maldosa crítica à portuguesa, essa que Fialho de Almeida golfara sobre o cadáver ainda quente de Eça de Queirós, ando agora a reler as páginas do homem que afinal destratei. E encontro-o muito acima de não poucos que me treinei para admirar, e a quem bafejou a sorte de não transitarem por purgatório igual.

COMENTÁRIOS

O que Escrevemos
Tão curiosa a sua crónica. Li Fernando Namora ainda em adolescente porque o meu pai tinha vários livros dele lá em casa e gostei. Claro que era nova e ainda não tinha lido o que li até hoje, mas lembro-me que gostei muito de ler Fernando Namora. Acho que da minha geração não há muitas pessoas que leram Fernando Namora. Mas, muitas vezes quando penso sobre autores portugueses, lembro-me de Namora e da impressão positiva que me deixou embora confesso que nunca publicitei muito a minha simpatia porque as vezes que o fiz olharam-me com alguma desconfiança. Acho que é um escritor que foi injustamente esquecido. Ainda bem que se lembrou dele.


Rui Duarte Amaro Ferreira
Parabéns por aquilo que escreveu. Eu li Fernando Namora e tenho pena de não ter lido mais. Mas ainda vou a tempo, porque gostei dos livros que escreveu. É pena que os grandes vultos não se mostram tanto e não é a publicidade que dá o valor. É ali no livro, que ao ser lido, o escritor fica novamenete vivo.


Suely Leite · Professora na empresa Universidade Estadual de Londrina
Fiz minha dissertação mestrado no Brasil sobre o trigo e o joio e me orgulho muito de ter tido o privilégio de estudar Fernando namora

http://www.dn.pt/opiniao/opiniao-dn/mario-claudio/interior/namora-ou-o-encontro-adiado-5025947.html