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terça-feira, 12 de maio de 2026

César Alves - Conduzir à Esquerda — Notas Sobre o Fim do Comum

 

* César Alves 


Há um problema que me persegue no dia-a-dia, sobretudo quando saio de casa e tenho de frequentar locais públicos, ou locais que implicam a interacção com outras pessoas.

Este problema manifesta-se de várias formas: ou estou na estrada e alguém decide fazer uma rotunda completamente pela direita; ou estou num transporte público a ouvir, sem ter pedido, a sucessão de sons irritantes do telemóvel da pessoa ao lado, presa no scroll infinito num TikTok desta vida; ou então, fruto da destruição de todos os microfones de telemóveis, tenho de ouvir os dois lados de uma vídeochamada, como se ouvir um deles não fosse já castigo suficiente.

Lembrei-me destes e de outros exemplos ao ouvir Steven Pinker, no podcast 45 Graus, falar sobre a destruição do chão comum, a propósito do seu novo livro “Quando Todos Sabem Que Todos Sabem…”. Tendo por base o episódio do podcast apenas, os exemplos são claros o suficiente para merecerem uma reflexão.

Pinker argumenta, num racional bastante defensável, que se a grande maioria das pessoas começar a conduzir à esquerda, a nossa melhor decisão será fazê-lo também. Um argumento de coordenação, logicamente correcto, e aparentemente irrefutável, se pensarmos individualmente.

No entanto, se aplicarmos este racional a outros âmbitos, facilmente começamos a desvendar um problema que, em último caso, poderá colocar um fim à Humanidade conforme a conhecemos. E isto leva-me, sobretudo, às redes sociais.

Também nas palavras de Pinker, antigamente as televisões e os jornais eram um meio de propagação de informação que, sendo de massas, criavam um chão comum. As pessoas viam, genericamente, as mesmas coisas, o que criava uma teia que sustentava a sociedade. Não apenas no sentido informativo, mas também de entretenimento. Viam as mesmas séries, os mesmos filmes, e havia um corpo comum de cultura que era massificado e, por isso, importante para o diálogo entre a espécie.

O advento das redes sociais veio trazer montras individuais construídas via algoritmos que são, eles próprios, controlados por empresas tecnológicas que têm na mão o poder político. E isto cria um problema para a Humanidade: a destruição do chão comum que nos abrange a todos.

Findo o chão comum, o que resta? Um conjunto de indivíduos atomizados, o fim da verdade como conceito genérico e um mundo fragmentado em pequenas ilusões individuais, enfraquecendo a teia que une os humanos, salvo quando é assegurada por um ponto de contacto entre dois algoritmos individuais.

Este é o sistema para o qual a Humanidade caminhou. Um sistema assente numa ideia de capitalismo metabólico, fase presente e quiçá última, em que a própria crítica ao sistema (como esta que o leitor acede de momento) é feita dentro do sistema, utilizando as ferramentas do sistema — a internet, as redes, dependendo delas para chegar ao máximo número de pessoas —, entregue acriticamente apenas àqueles que já estão, à priori, interessados no assunto, quer a favor, quer visceralmente contra.

E visceralmente é a palavra certa. Porque nós, humanos, não estamos preparados para este estado de coisas. Continuamos a ver a informação que nos é individualmente servida como a verdade absoluta e inquestionável, e respondemos de uma forma tribal. A partir do momento em que estamos tribalizados, deixamos de orientar a crítica para cima, e passamos a orientá-la para o lado, para os pares. A teia destruída, por fim.

E quando a teia se destrói, perdemos o chão comum. Se a verdade individualizada que nos chega é para nós inquestionável enquanto verdade absoluta mas chega apenas a nós, o outro, aquele a quem a teia me ligava, passa a ser o inimigo. Vitória do sistema.

Um sistema que é uma ditadura encapotada. Há 8 anos, num evento inserido nas comemorações do dia mundial do livro e do 25 de Abril, questionaram-me se ainda vivíamos numa ditadura. Disse que sim. Mas pior, porque mais difícil de identificar. Um levantamento popular para a derrubar é impossível, pois a destruição do chão comum implica a mudança do inimigo de cima para o lado. Desse sistema para o nosso concidadão.

E termino este texto como saí do podcast: pessimista. A destruição do chão comum poderá levar ao fim da Humanidade como a conhecemos. E talvez como diz Pinker, a nossa melhor opção seja mesmo aceitar conduzir também à esquerda.

 11/05/2026 

https://aventar.eu/2026/05/11/conduzir-a-esquerda-notas-sobre-o-fim-do-comum/

quinta-feira, 6 de maio de 2021

César Alves - Sugar a essência da vida


* César Alves 

O Clube dos Poetas Mortos era o grupo das pessoas que queria sugar a essência da vida. Que queria extrair de cada pequeno momento tudo o que ele teria para dar.

O filme é aclamado pela crítica, é citado vezes sem conta, mas parece-me que nós, enquanto seres-humanos, nem sequer chegamos perto de o perceber.

Quando nascemos, a vida está-nos praticamente pré-estabelecida. Sabemos que temos um percurso escolar obrigatório, é-nos quase impingida uma ida para o ensino superior, por forma a construir uma carreira que dure 40 ou 50 anos, a reforma na casa dos 60 e depois o calendário, como nas prisões, de quantos dias faltam até morrermos.


Estamos tão anestesiados com esta ideia que nem percebemos o quanto ela é assustadora e castradora. Usamos estes edifícios da vida pré-construídos, quais construções em cadeia, porque são mais fáceis. Aparentemente mais certos. Usamos esta “fórmula mágica” vazia de verdadeira magia para nos escondermos dos medos e dos fantasmas da instabilidade, do perigo, do desconforto.

E talvez possamos morrer continuando a acreditar nesta farsa travestida de caminho correcto. Farsa porque nos diz, erradamente, que há uma fórmula mágica para todos. Que há uma resposta para a questão da vida que encaixa em toda a gente. Não percebemos que essa ideia falaciosa nos esgota, nos consome, e nos retira a individualidade que nos é própria e intrínseca. Aceitamo-nos cordeiros de um rebanho gigantesco, aceitamos que somos todos iguais, porque temos medo.

Medo de arriscar, medo de sentir. Temos medo daquilo que a vida nos dá de melhor. O sentimento. Achamos que ele não chega para suportar tudo. Achamos, até, que ele tem um qualquer preço. Escravos do dinheiro e do fantasma da estabilidade financeira, baixamos a cabecinha e damos passos muito vagarosos, muito pequenos, analisando o chão múltiplas vezes para termos a certeza de que estamos a pisar terra firme.

Mas e se não for firme? E se ao pousar o pé sentirmos o chão a tremer e tivermos uma descarga de adrenalina que, por meros segundos que sejam, nos faz sentir humanos?

E se chegarmos ao final da vida e sentirmos um arrependimento profundo por não termos feito mais? E se, como João da Ega, dissermos que falhamos a vida? Valerá a pena tanto medo, tanto receio, para, anos e anos mais tarde, sermos corroídos pelo arrependimento, às portas da morte?

Devíamos deixar de pensar que somos imortais. Que temos todo o tempo do mundo. Devíamos arranjar, ou no mínimo procurar, o equilíbrio perfeito entre a estabilidade da vida propriamente dita e da nossa parte emocional. Devíamos deixar-nos levar pelas nossas paixões. Porque as carreiras acabam, os filhos crescem e saem de casa. Mas as paixões, os sentimentos, tudo o que nos faz sentir vivos, perdura para sempre. Aliás, morreremos sempre com um sentimento: mas temos a capacidade de escolher se queremos que seja a paixão e a alegria de uma vida vivida; ou o arrependimento dos e ses… que nunca concretizamos.

06/05/2021 by 

https://aventar.eu/2021/05/06/sugar-a-essencia-da-vida/#more-1315947