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domingo, 9 de maio de 2010

O Quinze, de Rachel de Queiroz


 
Análise da obra

Publicado em 1930, o romance O Quinze, de Rachel de Queiroz, renovou a ficção regionalista. Possui cenas e episódios característicos da região, com a procissão de pedir chuva, são traços descritivos da condição do retirante. O sentido reivindicatório, entretanto não traz soluções prontas, preferindo apontar os males da região através de observação narrativa.

Em O Quinze, primeiro e mais popular romance de Rachel de Queiroz, a autora exprime intensa preocupação social, apoiada, contudo, na análise psicológica das personagens, especialmente o homem nordestino, sob pressão de forças atávicas que o impelem à aceitação fatalista do destino. Há uma tomada de posição temática da seca, do coronelismo e dos impulsos passionais, em que o psicológico se harmoniza com o social.

A obra apresenta a seca do nordeste e a fome como conseqüência, não trazendo ou tentando dar uma lição, mas como imagem da vida.

Não percebe-se uma total separação entre ricos e pobres, e esta fusão é feita através da personagem Conceição que pertence realmente aos dois mundos. Evitando assim o perigo dos romances sociais na divisão entre "bons pobres" e "maus ricos", não condicionando inocentes ou culpados.

Estrutura da obra

O título do livro evoca a terrível seca do Ceará de 1915. A própria família de Rachel foi obrigada a fugir do Ceará: foi para o Rio de Janeiro, depois para Belém do Pará. Compõe-se de 26 capítulos, sem títulos, enumerados.

A classificação de O Quinze é, sem dúvida, de romance regionalista de temática social. Mas com uma visão que foge ao clichê tradicional. Não há, na história, a divisão batida de \"pessoas boas e pobres\" e de \"pessoas más e ricas\". A autora registrou no papel a sua emoção, sem condicionar o romance a uma tese ou à preocupação de procurar inocentes e culpado pela desgraça de cada um ou mesmo do grupo envolvido na história.

A história é recheada de amarguras. Bastaria a saga da família de Chico Bento para marcar o romance com as cores negras da desgraça. A morte está por toda parte. Está no calvário da família de retirantes, está em cada parada da caminhada fatigante, está no Campo de Concentração. Morte de gente e de bichos.

A história de amor entre Vicente e Conceição poderia ser o lado bom e humano da história. Não é. A falta de comunicação entre os dois, o desnível cultural que os separa constituem ingredientes amargos para um desfecho infeliz. É como se a seca, responsável por tantos infortúnios, fosse causadora de mais um: a impossibilidade de ser feliz para quem tem consciência da miséria.

Romance de profundidade psicológica. A análise exterior dos personagens existe, mas sem relevo especial dentro do livro. A autora vai soltando uma característica aqui, outra além, sem interromper a narrativa para minúcias. O lado introspectivo, psicológico é uma constante em toda a narrativa. Ao mesmo tempo em que o narrador informa as ações dos personagens, introduz interrogações e dúvidas que teriam passado por sua cabeça, por seu espírito.

Tempo

A autora situa a história do romance no Ceará de 1915. O fato histórico importante da época era a própria seca, obrigando os filhos da terra, principalmente do sertão, a migrarem para o Amazonas ou para São Paulo, à procura de vida melhor. Não há avanços nem recuos. A história é contada em linha reta, valorizando o presente, o cotidiano das pessoas. O passado é evocado raramente, muito mais por Conceição. A passagem do tempo dentro do romance é marcada de maneira tradicional, obedecendo à seqüência de início, meio e fim.

Cenário

O cenário do romance é o Ceará. Especificamente, a região de Quixadá, onde se situam as fazendas de Dona Inácia (avó de Conceição), do Capitão (pai de Vicente) e de Dona Maroca (patroa de Chico Bento).

Há também, em menor escala, o cenário urbano, destacando a capital, Fortaleza, para onde migram os retirantes e onde mora Conceição.

Linguagem

O sucesso do livro está atrelado à simplicidade da linguagem (a mais difícil das virtudes literárias!). Não há exibicionismo da autora no uso de palavreado erudito. Mesmo quando a dona da palavra é uma professora (Conceição), o diálogo flui espontâneo, normal, cotidiano.

Sua linguagem é natural, direta, coloquial, simples, sóbria, condicionada ao assunto e á região, própria da linguagem moderna brasileira. A estas características deve-se ao não envelhecimento da obra, pois sua matéria está isenta do peso da idade. Em O Quinze, Rachel usa o que lhe deu fama imediata: uma linguagem regionalista sem afetação, sem pretensão literária e sem vínculo obrigatório a um falar específico (modismo comum na tendência regionalista).

A sobriedade da construção, a nitidez das formas, a emoção sem grandiloqüência, a economia de adjetivos são recursos perceptíveis em todo o livro.

Foco narrativo

O Quinze é romance narrado na terceira pessoa, ou seja, o narrador é a própria autora. O narrador é onisciente. Estando fora da história, o narrador vai penetrando na intimidade dos personagens como se fosse Deus. Sabe tudo sobre eles, por dentro e por fora. Conhece-lhes os desejos e adivinha-lhes o pensamento.

Discurso livre indireto. Em vez de apresentar o personagem em sua fala própria, marcada pelas aspas e pelos travessões (discurso direto), o narrador funde-se ao personagem, dando a impressão de que os dois falam juntos. Isto faz com que o narrador penetre na vida do personagem, no seu íntimo, adivinhando-lhe os anseios e dúvidas.

Personagens

Conceição - Não com os alunos, mas com a própria vida. Conceição é forte de espírito, culta, humana e com idéias um tanto avançadas sobre a condição feminina. O único homem que lhe despertou desejos é o primo Vicente. Conceição tem uma admiração antiga e especial pelo rapaz, talvez porque ele é real, sem as falsidades comuns dos moços bem-educados. Ao descobrir que ele não é tão puro, a admiração esfria, criando uma barreira intransponível para a realização plena do seu amor. Tinha vocação para solteirona: "Conceição tinha vinte e dois anos e não falava em casar. As suas poucas tentativas de namoro tinham-se ido embora com os dezoito anos e o tempo de normalista; dizia alegremente que nascera solteirona". Conceição sente-se realizada ao criar Duquinha, o afilhado que lhe doaram Chico Bento e Cordulina. É uma realização íntima, preenchendo o vazio da decepção amorosa.

Vicente - Filho de fazendeiro rico, com condições de mandar os filhos para a escola, Vicente, desde menino, quis ser vaqueiro. No início, isso causava tristeza e desgosto à família, principalmente à mãe, Dona Idalina. Com o tempo, todos passaram a admirar o rapaz. Vicente é o vaqueiro não-tradicional da região. Cuida do gado com um desvelo incomum, mas cuida do que é seu, ao contrário dos outros (Chico Bento é o exemplo) que cuidam de gado alheio. Tem boas condições financeiras, mas é humano em relação à família e aos empregados. Vicente tinha dentes brancos com um ponto de ouro. Na intimidade, quando se põe a pensar na vida e na felicidade, associa tais coisas à Conceição. Tem uma admiração superior por ela. Gradualmente, à medida que vai notando a maneira fria com que ela passa a tratá-lo, Vicente começa a descrer no amor e na possibilidade de casar e ser feliz.

Chico Bento - Chico Bento é o protótipo do vaqueiro pobre, cuidando do rebanho dos outros. Ele é o vaqueiro de Dona Maroca, da fazenda das Aroeiras, na região de Quixadá. Ele e Vicente são compadres e vizinhos. Como é peculiar da pobreza brasileira e nordestina, Chico Bento tem a mulher (Cordulina) e cinco filhos, todos ainda pequenos. Pedro, o mais velho, tem doze anos. Expulso pela seca e pela dona da fazenda, Chico Bento e família empreendem uma caminhada desastrosa em direção a Fortaleza. Perde dois filhos no caminho: um morre envenenado (Josias), o outro desaparece (Pedro). Antes de embarcar para São Paulo, é obrigado a dar o mais novo (Duquinha) para a madrinha, Conceição. De Fortaleza, Chico Bento e parte da família vão, de navio, para São Paulo. É o exílio forçado, é a esperança de vida melhor e, quem sabe, de riqueza para quem só conheceu miséria no Ceará.

Cordulina - É a esposa de Chico Bento. Personifica a mulher submissa, analfabeta, sofredora, com o destino atrelado ao destino do marido. É o exemplo da miséria como conseqüência da falta de instrução.

Josias - Filho de Chico Bento e Cordulina, tem cerca de dez anos de idade. Comeu mandioca crua e morreu envenenado na estrada.

Pedro - Filho de Chico Bento e Cordulina, é o mais velho, tem doze anos de idade. Desapareceu quando o grupo ia chegando a Acarape.

Manuel (Duquinha) - É o filho caçula de Chico Bento e Cordulina; tem dois anos anos de idade. Foi doado à madrinha, Conceição.

Paulo - Irmão mais velho de Vicente, ele é o orgulho dos pais (pelo menos no início). Estudou, fez-se doutor (promotor) e casou-se na cidade com uma moça branca. Depois de casado, passou a dedicar o seu tempo à família, quase não se interessando mais pelos pais e pelos irmãos. Só então os pais deram valor a Vicente.

Mocinha - Irmã de Cordulina, ficou como empregada doméstica em Castro, na casa de sinhá Eugênia. Arranjou um filho sem pai e tudo indica que vai viver da prostituição.

Lourdinha - Irmã mais velha de Vicente. Casou-se com Clóvis Garcia em Quixadá. No final, têm uma filha, símbolo da felicidade que as pessoas simples e descomplicadas conseguem conquistar.

Alice - Irmã mais nova de Vicente. Mora na fazenda com os pais e os irmãos.

Dona Inácia - Avó de Conceição, espécie de mãe, pois foi quem a criou depois que a mãe verdadeira morreu. É dona da fazenda Logradouro, na região de Quixadá. Não aprova as idéias liberais da neta, principalmente no que diz respeito a ficar solteirona.

Dona Idalina - Prima de Dona Inácia. Idalina é a mãe de Vicente, Paulo, Alice e Lourdinha. Vive com o marido, Major, na fazenda perto de Quixadá.

Major - Fazendeiro rico na região de Quixadá. Entrega a administração da fazenda ao filho Vicente. Orgulha-se de ter um filho doutor: o Paulo, promotor em uma cidade do interior do Ceará.

Dona Maroca - Fazendeira, dona da fazenda Aroeiras na região de Quixadá. Na época da seca, mandou o vaqueiro, Chico Bento, soltar o gado e procurar, por conta própria, meios para sobreviver.

Mariinha Garcia - Moça bonita, de família rica, moradora de Quixadá. Com auxílio de Lourdinha e Alice, faz tudo para conquistar Vicente, mas as tentativas resultam inúteis.

Luís Bezerra - Compadre de Chico Bento e Cordulina. Trabalhara também nas Aroeiras sob o comando de Dona Maroca. Agora, é delegado em Acarape, povoado do interior do Ceará. Foi ele quem conseguiu passagens de trem para que a família do compadre chegasse a Fortaleza.

Doninha - Esposa de Luís Bezerra, madrinha do Josias, o filho de Chico Bento que morreu envenenado na estrada.

Zefinha - Filha do vaqueiro Zé Bernardo. Conceição, acreditando numa conversa que tivera com Chiquinha Boa, acha que Vicente tem um caso com Zefinha.

Chiquinha Boa - Trabalhava na fazenda de Vicente. Na época da seca, achando que o governo do Ceará estava ajudando os pobres que migravam para a capital, deixou a zona rural.

Enredo

A obra O Quinze aborda a seca de 1915, descreve alguns aspectos da vida do interior do Ceará durante um dos períodos mais dramáticos que o povo atravessou. O enredo é interessante, dramático, mostrando a realidade do Nordeste Brasileiro e se dá em dois planos.

No primeiro plano enfoca o vaqueiro Chico Bento e sua família, o outro a relação afetiva de Vicente, rude proprietário e criador de gado, e Conceição, sua prima culta e professora. Conceição é apresentada como uma moça que gosta de ler vários livros, inclusive de tendências feministas e socialistas o que estranha a sua avó, Mãe Nácia que é representante das velhas tradições. No período de férias, Conceição passava na fazenda da família, no Logradouro, perto do Quixadá. Apesar de ter 22 anos, não dizia pensar em casar, mas sempre se "engraçava" à seu primo Vicente. Ele era o proprietário que cuidava do gado, era rude e até mesmo selvagem. Com o advento da seca, a família de Mãe Nácia decide ir para cidade e deixar Vicente cuidando de tudo, resistindo. Trabalhava incessantemente para manter os animais vivos. Conceição, trabalhava agora no campo de concentração onde ficavam alojados os retirantes, e descobre que seu primo estava "de caso" com "uma caboclinha qualquer". Enquanto ela se revolta, Mãe Nácia à consola dizendo:

"Minha filha, a vida é assim mesmo... Desde hoje que o mundo é mundo... Eu até acho os homens de hoje melhores."

Vicente se encontra com Conceição e sem perceber confessa as temerosidades dela. Ela começa a tratá-lo de modo indiferente. Vicente se ressente disso e não consegue entender a razão. As irmã de Vicente armam um namoro entre ele e uma amiga, a Mariinha Garcia. Ele porém se espanta ao "saber" que estava namorando, dizendo que apenas era solícito para com ela e não tinha a menor intenção de comprometimento. Conceição percebe a diferença de vida entre ela e seu primo e a quase impossibilidade de comunicação. A seca termina e eles voltam para o Logradouro.

O segundo plano é, sem dúvida, a parte mais importante do livro. Apresenta a marcha trágica e penosa do vaqueiro Chico Bento com sua mulher e seus 5 filhos, representando os retirantes. Ele é forçado a abandonar a fazenda onde trabalhara. Junta algum dinheiro, compra mantimentos e uma burra para atravessar o sertão. Tinham o intuito de trabalhar no Norte, extraindo borracha. No percurso, em momento de grande fome, Josias, o filho mais novo, come mandioca crua, envenenando-se. Agonizou até a morte. O seu fim está bem descrito nessa passagem:

"Lá se tinha ficado o Josias, na sua cova à beira da estrada, com uma cruz de dois paus amarrados, feita pelo pai. Ficou em paz. Não tinha mais que chorar de fome, estrada afora. Não tinha mais alguns anos de miséria à frente da vida, para cair depois no mesmo buraco, à sombra das mesma cruz."

Uma cena marcante na vida do vaqueiro foi a de matar uma cabra e depois descobrir que tinha dono. Este o chamou de ladrão, e levou o resto da cabra para sua casa, dando-lhes apenas as tripas para saciarem. Léguas após, Chico Bento dá falta do seu filho mais velho Pedro. Chegando ao Aracape, lugar onde supunha que ele pudesse ser encontrado, avista um compadre que era o delegado. Recebem alguns mantimentos mas não é possível encontrar o filho. Ficam sabendo que o menino tinha fugido com comboeiros de cachaça. Notem:

"Talvez fosse até para a felicidade do menino. Onde poderia estar em maior desgraça do que ficando com o pai?"

Ao chegarem no campo de concentração, são reconhecidos por Conceição, sua comadre. Ela arranja um emprego para Chico Bento e passa a viver com um de seus filhos. Conseguem também uma passagem de trem e viajam para São Paulo, desistindo de trabalhar com a borracha.
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http://www.passeiweb.com/na_ponta_lingua/livros/analises_completas/o/o_quinze
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Nos cem anos de Raquel de Queiroz...

Colunas

Vermelho - 9 de Maio de 2010 - 0h05

Marco Albertim *

Vale um comentário sobre O Quinze, obra tão ou mais conhecida quanto a autora; inda que não controversa como o perfil cultural da cearense. Já na octogésima sexta edição, a simplicidade da linguagem – seu maior traço – ajuda a pôr em relevo a crueza da seca de 1915.

O cenário surge, não como indício pictórico, mas entranhado nos homens. Não poupa nem Vicente, o fazendeiro de posses que, “Sacudido pela estrada larga do quartau, seguiu rápido, o peito entreaberto na blusa, todo vermelho e tostado do sol, que lá no céu, sozinho, rutilante, espalhava sobre a terra cinzenta e seca uma luz que era quase como fogo.” Para Chico Bento, o vaqueiro pobre, “O pasto, as várzeas, a caatinga, o marmeleiral esquelético, era tudo de um cinzento de borralho.”
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A opressão de classe aparece no diálogo entre Chico Bento e “o homem das passagens”. Indiferente à sorte dos retirantes, diz o homem: “Que morte! Agora é que retirante tem esses luxos... No 77 não teve trem para nenhum. É você dar um jeito, que passagens, não pode ser...” – Não é um diálogo, é a confirmação do agouro. Na mesma trilha, diz o delegado sobre o filho sumido de Chico Bento: “Não tem jeito que dar não, meu amigo... O menino, naturalmente, foi-se embora com alguém...” Ou no contraste entre a miséria dos retirantes na procissão e os trajes ricos do bispo “(...)os farrapos imundos, atrás do pálio rico do bispo(...)”.
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Como boa regionalista, Raquel de Queiroz soube ainda ler o tempo telúrico porque “O sol, no céu, marcava onze horas.” A fome permeia todo o romance, punge quando o menino Josias devora a mandioca brava: “(...)e enterrou os dentes na polpa amarela, fibrosa, que já ia virando pau num dos extremos.” Na mesma altura “(...)roeu todo o pedaço amargo e seco, até que os dentes rangeram na fibra dura.”
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Conceição é uma professora que se divide entre os modos urbanos e a bruteza do sertão; é a única que destila preconceito:
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-(...)Então Mãe Nácia acha uma tolice um moço branco andar se sujando com negras?
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O Quinze tem narrador onisciente, o que permite à autora imiscuir-se no pensamento de cada personagem, sem que assuma os rumos da abstração de cada um. Assim, na imaginação de Conceição, mostra-a, sem perder a segurança de narradora: “Metido com cabras... não se dava respeito... E ainda por cima, não se importava nem em negar...”
Raquel viu a seca de 1915, no Quixadá; dá indícios de autobiografia ao mencionar Machado de Assis: “E a moça comparou dona Inácia àquelas senhoras de alma azul, de que fala o Machado de Assis...” Aqui a autora se mostra supérflua.

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Com Graciliano Ramos...
Vidas secas, oito anos depois d’O Quinze, mostra a “catinga rala”, enquanto Raquel desnuda uma “caatinga cinzenta”. Ambos tão francos quanto a crueza do cenário. Sinhá Vitória, como a Cordulina, de Chico Bento, tem o filho “escanchado no quarto”. Graciliano, feliz à exaustão, tão onisciente quanto a cearense, menciona “sentimentos revolucionários” na cachorra Baleia depois de um pontapé. A reprodução dos costumes entre as classes dá-se quando Sinhá Vitória “Teimava em calçar-se como as moças da rua(...)”. A submissão aos costumes se manifesta em Fabiano porque, usando “chapéu de baeta, colarinho e gravata. Não se arriscaria a prejudicar a tradição, embora sofresse com ela.” Atento à opressão de classe, diz que Fabiano - “Se pudesse mudar-se, gritaria bem alto que o roubavam. Aparentemente resignado, sentia um ódio imenso a qualquer coisa que era ao mesmo tempo a campina seca, o patrão, os soldados e os agentes da prefeitura.” Já a submissão de classe surge quando o personagem “(...)notou que aquilo era um homem e, coisa mais grave, uma autoridade.” Ou quando, olhando para o odiado soldado, assunta:
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 – Governo é governo.
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No capítulo, a subjetividade de Fabiano é explorada até a medula. Também se imiscui com a personagem sem confundir-se com ela; assim, o sonho de Sinhá Vitória é vestir-se de “saias de ramagens vistosas. As vacas povoariam o curral. E a catinga ficaria toda verde.” Com folgada autoridade, o autor desprende-se das páginas para dizer ao leitor que, Fabiano, imitando “seu Tomás da bolandeira, (...) dizia palavras difíceis(...)Tolice. Via-se perfeitamente que um sujeito como ele não tinha nascido para falar certo.” Em Vidas secas e n’O Quinze os capítulos podem ser lidos como peças autônomas. No primeiro, o destaque está no capítulo Baleia. O leitor deseja uma morte rápida para a cachorra, porque o autor mistura as lembranças do animal com a agonia do fim próximo. No segundo, impressiona a sofreguidão com que Chico Bento sacrifica uma cabra para mitigar a fome da família; sente-se um alívio, logo interrompido com a chegada do rico proprietário.
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Mas em Galiléia...
O também cearense Ronaldo Correia de Brito põe três personagens de perfil urbano na rudeza do sertão. Com habilidade de escritor maduro, entrega a narrativa a um dos três primos, Adonias, personagem de primeiro plano. O narrador se divide entre as memórias da infância, as preocupações com os primos na viagem de volta à fazenda do avô. Regionalista, o autor tem estilo apurado, escorreito. Quase escorrega num clichê quando “Um relâmpago dos mais fortes clareou o mundo, no momento em que David atravessou a porta de entrada.” Aliás, um clichê cinematográfico. Demonstra concentração poética no foco telúrico: “Dormi como dormem as pedras, sem sonhos.” Os diálogos são ricos de subjetividade, como na conversa entre dois primos, ante a morte iminente do avô:
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- Ele está sofrendo?
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- Está. A lucidez é um sofrimento.
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No capítulo Lourenço, o autor usa três recursos. O relato de Lourenço sobre um episódio de vingança na família, numa prosa própria, sem volteios de romance; o ressurgimento de Adonias, com a narrativa retomando o curso original; logo interrompida por um diálogo rápido, com perguntas e respostas ligeiras. O autor dá uma trégua ao leitor.
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Galiléia foi o livro do ano em 2009.

* Menção honrosa dos Prêmios Literários da Cidade do Recife, com o livro Um presente para o papa e outros contos. Integra as antologias de contos Recife conta o Natal e Panorâmica do conto em PE.
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* Opiniões aqui expressas não refletem necessariamente as opiniões do site.
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terça-feira, 19 de janeiro de 2010

Poesia de Rachel de Queiroz

 

Rachel de Queiroz


Biografia:

 

Eleita em 4 de agosto de 1977 e recebida em 4 de novembro de 1977 pelo Acadêmico Adonias Filho.

Rachel de Queiroz nasceu em Fortaleza (CE), em 17 de novembro de 1910, e faleceu no Rio de Janeiro (RJ) em 4 de novembro de 2003. Filha de Daniel de Queiroz e de Clotilde Franklin de Queiroz, descende, pelo lado materno, da estirpe dos Alencar, parente portanto do autor ilustre de O Guarani, e, pelo lado paterno, dos Queiroz, família de raízes profundamente lançadas no Quixadá e Beberibe.

Em 1917, veio para o Rio de Janeiro, em companhia dos pais que procuravam, nessa migração, fugir dos horrores da terrível seca de 1915, que mais tarde a romancista iria aproveitar como tema de O quinze, seu livro de estréia. No Rio, a família Queiroz pouco se demorou, viajando logo a seguir para Belém do Pará, onde residiu por dois anos.

Em 1919, regressou a Fortaleza e, em 1921, matriculou-se no Colégio da Imaculada Conceição, onde fez o curso normal, diplomando-se em 11925, aos 15 anos de idade.

Estreou em 1927, com o pseudônimo de Rita de Queiroz, publicando trabalho no jornal O Ceará, de que se tornou afinal redatora efetiva. Em fins de 1930, publicou o romance O quinze, que teve inesperada e funda repercussão no Rio de em São Paulo. Com vinte anos apenas, projetava-se na vida literária do país, agitando a bandeira do romance de fundo social, profundamente realista na sua dramática exposição da luta secular de um povo contra a miséria e a seca.

O livro, editado às expensas da autora, apareceu em modesta edição de mil exemplares, impresso no Estabelecimento Gráfico Urânia, de Fortaleza. Recebeu crítica de Augusto Frederico Schmidt, Graça Aranha, Agripino Grieco e Gastão Gruls. A consagração veio com o Prêmio da Fundação Graça Aranha.

Em 1932, publicou um novo romance, intitulado João Miguel, e em 1937, retornou com Caminho de pedras. Dois anos depois, conquistou o prêmio da Sociedade Felipe de Oliveira, com o romance As três Marias. Em 1950, publicou em folhetins, na revista O Cruzeiro, o romance O galo de ouro.

Cronista emérita, publicou mais de duas mil crônicas, cuja seleta propiciou a edição dos seguintes livros: A donzela e a moura torta; 100 Crônicas escolhidas; O brasileiro perplexo e O caçador de tatu. No Rio, onde reside desde 1939, colaborou no Diário de Notícias, em O Cruzeiro e em O Jornal. Tem duas peças de teatro, Lampião, escrita em 1953, e A Beata Maria do Egito, de 1958, laureada com o prêmio de teatro do Instituto Nacional do Livro, além de O padrezinho santo, peça que escreveu para a televisão, ainda inédita em livro. No campo da literatura infantil, escreveu o livro O menino mágico, a pedido de Lúcia Benedetti. O livro surgiu, entretanto, das histórias que inventava para os netos. Dentre as suas atividades, destaca-se também a de tradutora, com cerca de quarenta volumes já vertidos para o português.

Foi membro do Conselho Federal de Cultura, desde a sua fundação, em 1967, até sua extinção, em 1989. Participou da 21ª Sessão da Assembléia Geral da ONU, em 1966, onde serviu como delegada do Brasil, trabalhando especialmente na Comissão dos Direitos do Homem. Em 1988, iniciou sua colaboração semanal no jornal O Estado de S. Paulo e no Diário de Pernambuco.

Recebeu o Prêmio Nacional de Literatura de Brasília para conjunto de obra em 1980; o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade Federal do Ceará, em 1981; a Medalha Mascarenhas de Morais, em solenidade realizada no Clube Militar (1983); a Medalha Rio Branco, do Itamarati (1985); a Medalha do Mérito Militar no grau de Grande Comendador (1986); a Medalha da Inconfidência do Governo de Minas Gerais (1989); O Prêmio Luís de Camões (1993); o Prêmio Moinho Santista, na categoria de romance (1996); o Diploma de Honra ao Mérito do Rotary Clube do Rio de Janeiro (1996); o título de Doutor Honoris Causa, pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (2000). Em 2000, foi eleita para o elenco dos “20 Brasileiros empreendedores do Século XX”, em pesquisa realizada pela PPE (Personalidades Patrióticas Empreendedoras).

 






 







Rachel de Queiroz


Telha de vidro


Quando a moça da cidade chegou
veio morar na fazenda,
na casa velha...
Tão velha!
Quem fez aquela casa foi o bisavô...
Deram-lhe para dormir a camarinha,
uma alcova sem luzes, tão escura!
mergulhada na tristura
de sua treva e de sua única portinha...


A moça não disse nada,
mas mandou buscar na cidade
uma telha de vidro...
Queria que ficasse iluminada
sua camarinha sem claridade...


Agora,
o quarto onde ela mora
é o quarto mais alegre da fazenda,
tão claro que, ao meio dia, aparece uma
renda de arabesco de sol nos ladrilhos
vermelhos,
que — coitados — tão velhos
só hoje é que conhecem a luz doa dia...
A luz branca e fria
também se mete às vezes pelo clarão
da telha milagrosa...
Ou alguma estrela audaciosa
careteia
no espelho onde a moça se penteia.


Que linda camarinha! Era tão feia!
— Você me disse um dia
que sua vida era toda escuridão
cinzenta,
fria,
sem um luar, sem um clarão...
Por que você na experimenta?
A moça foi tão vem sucedida...
Ponha uma telha de vidro em sua vida!









Rachel de Queiroz


Geometria dos ventos


Eis que temos aqui a Poesia,
a grande Poesia.
Que não oferece signos
nem linguagem específica, não respeita
sequer os limites do idioma. Ela flui, como um rio.
como o sangue nas artérias,
tão espontânea que nem se sabe como foi escrita.
E ao mesmo tempo tão elaborada -
feito uma flor na sua perfeição minuciosa,
um cristal que se arranca da terra
já dentro da geometria impecável
da sua lapidação.
Onde se conta uma história,
onde se vive um delírio; onde a condição humana exacerba,
até à fronteira da loucura,
junto com Vincent e os seus girassóis de fogo,
à sombra de Eva Braun, envolta no mistério ao
                                       mesmo tempo
fácil e insolúvel da sua tragédia.
Sim, é o encontro com a Poesia.


(Poesia feita em homenagem ao poema
"Geometrida dos Ventos" de Álvaro Pacheco)


 

Os desencantos de Rachel (de Queiroz) e "A Arte de Ser Avó"


Entrevista

(14-01-89) Título: Os Desencantos de Rachel
Foto de Rachel de Queiroz
Aos 18 anos de idade, ela escreveu um romance que abriu um novo ciclo na literatura brasileira. Já se passaram sessenta anos e Rachel de Queiroz confessa hoje que passaria muito bem sem fazer literatura. E revela seu desencanto com a política, depois de períodos de militância comunista e trotskista.


A sra. publicou O Quinze com apenas 20 anos de idade, cuja tendência social e o estilo neonaturalista abriu uma nova fase na ficção brasileira com um modo novo de retratar os problemas do homem e da terra do Nordeste. Como foi aquela experiência e como eram aqueles anos? Eu escrevi O Quinze entre 18 e 19 anos e publiquei aos 20. Eu faço questão dessa história da idade porque acho o livro muito maduro. Aliás, quando ele saiu, não tinha feito 20. Eu fiz 20 em novembro e o livro saiu em agosto. Primeiro, que quando escrevi o livro, não tinha idéia nenhuma de fazer algum tratado de Sociologia, nem de dar o primeiro pontapé na literatura nordestina, nada dessas ambições. Eu nasci numa casa de intelectuais. Meus pais eram intelectuais. Era uma casa de livros, então escrever era uma atividade natural. Com 16 anos comecei a fazer jornalismo profissional. Com essa idade já estava profissionalizada, tomando conta das páginas literárias dos jornais de Fortaleza, escrevendo semanalmente uma crônica.
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A sra. já havia visto uma seca antes?Curiosamente nunca tinha visto uma seca, porque a seca de 15, que se retrata no livro, tinha quatro anos de idade. Já a seca de 19, nós estávamos morando no Pará. Mas o cenário do sertão, tão parecido com os tempos de seca, a tradição moral lá é tão grande, a tradição da seca, as conversas aqui e ali sobre a seca... tudo aquilo me veio com toda a naturalidade, que com este tema escrevi o meu primeiro romance. A primeira grande seca a que assisti foi em 1932. Agora, quanto ao tipo de literatura que eu fazia... na Semana de Arte Moderna tinha 11 anos, mas aos 14 e aos 15 ainda haviam as repercussões, quando comecei a me interessar mais diretamente por literatura. E o que havia de literatura de seca no Nordeste era uma literatura muito carregada do naturalismo do final do século, muito pesada, com muito defunto e muito urubu, muita coisa assim, com uma visão meio sangrenta, sanguinária, digamos. Já eu sempre fui uma pessoa muito moderada no que escrevo, é fácil de ver, não gosto muito das notas sensacionalistas... procurei fazer um tipo de livro que fosse realmente só um testemunho, quase que só um depoimento.
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Qual o sentido da literatura na sua vida?Eu não tenho paixão pela literatura. Eu não acho a literatura essencial na minha vida. Nunca pus a literatura à frente dos outros problemas da minha vida. A literatura, para mim, é vocação e profissão. É o que sei fazer, o que tenho mais jeito para fazer e disso vivo. Não é mais que isso. Eu não sublimo a literatura no meu ideal de vida. Eu passaria muito bem sem fazer literatura. Eu gosto da vida, gosto das pessoas, gosto do pensamento ds pessoas. Sou apaixonada pelo ser humano.
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Em que sentido a sra. foi sentindo os reflexos da mudança dos anos 20/30?Nos anos 20, confesso que era muito novinha, tendo vivido sob a tutela paterna. Comecei a trabalhar em 27, e lá em casa meus pais sempre me deram bastante liberdade. Eles eram meus companheiros, quer dizer, nós tínhamos um entrosamento muito bom na minha família. Eu tinha 3 irmãos homens, aliás quatro, porque tinha um que era o meu irmão adotivo. Sempre vivi muito bem entrosada, de que a vida familiar era muito fechada em torno de mim. Eles me ampararam, me ajudaram e me deram a liberdade que carecia. Eu comecei a viajar cedo. Quando ganhei o prêmio Graça Aranha, vim sozinha aqui pro Rio. Eu tinha 20 anos, e vim receber o prêmio. Eu sempre me atribuí o direito de ser livre. Naturalmente que nos meus livros todos aparece este drama da liberação da mulher, porque realmente a mulher vem lutando. Eu nunca fui feminista. Acho que Deus fez o homem e a mulher para serem um complemento um do outro, na união e no bem. Eu acho que homem e a mulher são companheiros e sócios. Se o papel de mulher escrava realmente me repele, mas também o papel de mulher mandona, feminista, inimiga do homem, me repele também. De forma que fui acompanhando, com a espécie de uma posição privilegiada, porque tinha a cobertura da minha família e também dos grupos com quem me entendia.
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Que grupos eram esses?Eu comecei a ficar interessada em política social já em 28/29. Eu comecei a me interessar pelo que restava do Bloco Operário Camponês em Fortaleza. Eu comecei a tomar parte dos grupos de esquerda que estavam se congregando para formar o primeiro núcleo do Partido Comunista. Quando vim para cá, no começo de 31, já me entrosei com o pessoal do Partido, e foi o meu período de militância comunista. Foi de 31/32 a começo de 33. Foi aí que briguei com o Partido. Entrei em choque com eles, e então me aproximei de Livio Xavier e daquele grupo deles de São Paulo. Fui morar em São Paulo, e lá fiquei com os trotskistas, onde fiquei com Aristides Lobo, Plíneo Melo, Mário Pedrosa, Lívio Xavier, enfim, com a elite intelectual dos esquerdistas, de lá, e fui bem recebida por eles, muito carinhosamente. A pronvíncia funciona muito nas grandes cidades e se defende. Tem os seus núcleos. O Lívio era cearense, o Mário Pedrosa era paraibano, Aristides era mineiro, de forma que São Paulo é muito acolhedora. Ao contrário do que se diz, tenho uma gratidão muito grande por São Paulo. Eu cheguei a São Paulo, no ano seguinte da revolução de 32. São Paulo estava ainda lambendo as feridas da derrota, do esmagamento, que o Getúlio impôs. E iam tropas nordestinas que Getúlio malignamente pôs para esmagar São Paulo, para criar uma odiosidade entre as províncias, e, no entanto, fui recebida com a maior generosidade e carinho. Estes dois anos que passei em São Paulo, no começo da minha vida, foram marcados por um período muito bom, do ponto de vista de amizades, de começo de carreira, de começo profissional, inclusive fui professora lá. Eu ainda não tinha posição jornalística que me assegurasse na manutenção. Eu fui professora particular lá em São Paulo, me filiei ao Sindicato de professores de ensino livre, que era controlado naquele tempo pelos trotskistas.
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E a sra. se desencantou dessa militância partidária?Sim, a do Partido Comunista, sim, a dos trotskistas, nunca houve uma militância regular. No começo, nós éramos uma fração do Partido Comunista, uma fração rebelde, expulsa, traidora, não sei o quê. Então, não tínhamos uma militância organizada, regular, com células, reuniões etc... Depois, fui para o norte em 34 e fiquei lá até 39. Vinha ao Rio, ocasionalmente, mas fiquei lá até 39, e lá, realmente, os trotskistas não tinham a menor expressão como política... a gente se aliava... os trotskistas, os poucos se aliavam, em geral, aos socialistas. Em 34, por exemplo, recebi ordem do pessoal de São Paulo para aceitar uma candidatura para deputado estadual pelo Ceará, dentro do Partido Socialista, mas, parece que nós ganhamos a eleição, mas, aquele era o tempo das fraudes, o tempo delirante das fraudes...
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Essa questão de organização partidária me fez pensar em certas estruturas político-partidárias dos dias de hoje...O Partido Comunista sempre foi o modelo de quase todos esses partidos de esquerda daqui, e o modelo das comunidades eclesiais de base são as células do Partido Comunista. Quando me interessei pelo Partido, aqui no Rio, ele já funcionava desde 22, e me filiei e recebi credenciais daqui para nós organizarmos o Partido em Fortaleza sobre os escombros do que tinha sido o Bloco Operário Camponês, que era um dos ramos do Partido, um dos braços do Partido, que tinha sido destruído pela repressão policial.
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Como a sra. vê a esquerda de hoje e a vitória do PT nestas eleições municipais? Eu não tenho me aproximado do PT. Não tenho um convívio com eles, mas, realmente, é um dos partidos de esquerda que tem uma organização, um ideário, e tem, principalmente, um caudilho, um chefe, que é o Lula. Os outros estão fragmentados em mil pequenos partidos. Estão fragmentados em várias tendências, e o Partidão foi o que mais sofreu mutilações com esses rachas, com a repressão tão violenta como houve, causou essas exacerbações, essas lutas...
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E essas correntes ideológicas conseguem ou conseguirão se encontrar?Eu tenho a impressão que não. Porque estão cada vez pior. Você acha que o partido do Lula é o mesmo do Fernando Henrique. Você acha que o Covas está na mesma posição que o Arraes. Você acha que todos... em todos você vê o espectro da esquerda... que vem do Brizola que não é esquerdista coisíssima nenhuma. O Brizola é a revivescência do caudilho do sul-americano. No fim, ele é neto do Lopes, do Paraguai, é neto do Rosas, é irmão do Somoza, é primo do Gomes, da Venezuela, é sobrinho do Stroessner, é de uma família toda que... e, principalmente, ele tenta ser o herdeiro de Getúlio Vargas. Quer dizer, uma figura completamente arcaica. É, aliás, o que continua a fazer com o novo prefeito. O pessoal tinha feito toda uma programação para o prefeito eleito, né? Toda a escolha do secretariado... e ele chegou, riscou uns, vetou outros, trouxe outros pelas mãos, reformulou tudo o que o prefeito tinha organizado. Imagine você o que ele será no plano federal. Eu sou contra toda e qualquer posição sectária. O sectarismo é um estigma. A questão de ideologias são para almas estreitas. Você pode ter comunicação permanente se tiver idéias abertas e aceitar todos os caminhos. Nós estamos falando aqui do Brizola. O problema é o seguinte: você não pode ser amigo do Brizola. Você tem que ser contra. Ele não tolera você ser contra. Você tem de ter a ideologia dele, pensar o que ele pensa, senão não dá. O Lula, por exemplo, não te engole, de qualquer maneira. Ou você é lulista ou você não é. E foi essa intolerância, esse sectarismo que afastou todos os intelectuais do partido.
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O seu romance O Caminho de Pedras apareceu em 1937. Como foi aquele período? O livro apareceu um pouco antes do Estado Novo. O Caminho de Pedras foi do começo de 37, e o Estado Novo aconteceu no final do ano. Coincide com o período que antecede aquele estado de guerra, o estado de sítio, aquela coisa que o País viveu. Quanto à elaboração da obra, não sofreu, digamos assim, influência direta daqueles acontecimentos, dentro do Estado Novo, porque, como lhe disse, ela apareceu antes. A coincidência é de datas, mas é claro que, depois de publicado o livro, sofremos todo o arbítrio daquele período, tanto que o livro foi discriminado, inicialmente tive que ser interrogada sobre o livro etc...
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Como aconteceu o Estado Novo? O Estado Novo caiu em cima da gente como uma pedrada na cabeça. O Getúlio teve o cuidado de mandar o Negrão de Lima em viagem por todos os estados do Brasil, e, em cada capital, ele parava, falava com o governador, sondava o governador... isto em outubro de 37. Os governadores quase todos aderiram, com exceção do Juracy Magalhães (e um outro que não me lembro agora). Foram dois os governadores que não aderiram. Então, ele mandou pegar tudo quanto é intelectual de esquerda, trotskistas, stalinistas, anarquistas, todo mundo ficou preso até janeiro, incomunicável. Me prenderam lá no Quartel de Bombeiros. Fiquei presa de outubro de 37 a janeiro de 38. Ele conseguiu fazer com que a imprensa ficasse praticamente em silêncio, porque todo mundo que tinha pena e escrevia, e era de esquerda, entrou em cana.
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O Estado Novo foi pior que a ditadura militar de 64?Foi pior, muito pior. Porque ele tinha processos fascistas já codificados. Já tinha o modelo alemão, polaco, italiano, de forma que ele se associou a esses governos criminosos, terríveis, monstruosos. Tudo o que se diga é pouco. Basta dizer que nestes últimos 20 e tantos anso de ditadura militar não se cometeu um caso como o de Olga Prestes. Não se entregou a mulher de um cidadão brasileiro, grávida de uma criança brasileira, para ser sacrificada nos fornos crematórios, de cuja existência já se tinha notícia.Sofremos uma opressão em circunstâncias muito piores. O Brasil era muito menor, isolado do mundo, agrário, uma província ainda. Nossos meios de comunicação, a mídia eletrônica, não havia nada disto. O que havia era a censura. A censura era total. A Igreja estava silenciosa, não se manifestou. Dizem que o cardeal Leme escondia perseguidos políticos, mas isto supõe-se. Não foi como a posição mais aberta que a Igreja tomou contra a ditadura agora. O mundo inteiro ficou sabendo o que se estava passando no Brasil durante o Estado Novo, sofreu-se muito, as perseguições, as torturas, as mortes, o silêncio.
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O número de efervescência intelectual durante o Estado Novo foi muito maior do que da última ditadura?O que acontece é que já vínhamos de uma geração de intelectuais que foi a geração de 30. Todos nós estávamos livres e de repente o Getúlio não nos podia calar assim, tínhamos que resistir. Na verdade, você vê, passou o Estado Novo, e saiu o Graciliano, saiu o Jorge, saiu todo mundo, o José Lins, arrebentou todo mundo, e, depois dessa última ditadura, esperava-se uma nova florescência de talentos, as obras-primas que estavam engavetadas não apareceram, não apareceu nada. Realmente não houve uma grande efervescência da produção intelectual, e não só não houve essa emergência de talento literário que se esperava (salvo um outro nome que tem sido devidamente festejado) mas não houve aquele algo novo. A gente já existia antes do Estado Novo e continuou produzindo depois, a gente já estava funcionando. Mas em todo o caso, não acho que um e outro não são responsáveis nem pela efervescência do pós-ditadura militar. Eu acho que essa falta de produção é aquilo que já vínhamos discutindo antes: a questão do ciclo. Havia um ciclo em funcionamento quando veio o Estado Novo. Houve um ciclo literário. Já na última ditadura, tivemos uma efervescência em outros setores: no teatro, no cinema, nas artes plásticas, talvez, e na música. Você pega, por exemplo, os governos da República Velha (a Semana de Arte Moderna acontece em plena República Velha), você vê: o coronelismo não era militar. Quem disse muito bem sobre a República Velha foi o Gilberto Amado. Ele disse que a representação política era falsificada, mas era muito melhor, muito mais selecionada do que hoje.
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Como assim?Você sabe que quanto mais se abrem as portas mais se baixa o nível. Você vê, por exemplo, a questão do eleitor analfabeto. O eleitor analfabeto está provado que não vota, absolutamente. Ou o voto é anulado porque ele cometeu algum erro, ou ele nem sabe em quem está votando. Eu considero que a liberdade é o maior direito de todos nós. Sou pela liberdade. Pelas concessões democráticas, mas não pelas demagógicas. Eu acho que o voto do analfabeto foi um dos nossos maiores erros políticos, um instrumento de demagogia, de rebaixamento político, o voto do analfabeto. A primeira coisa que tinha de se fazer era alfabetizar. O analfabetismo não é Aids, não é uma doença incurável. O analfabetismo é curável. O único remédio para o analfabetismo é acabar com ele. É a única solução. Eu acho que uma das piores aquisições dessa nossa nova democracia foi o voto do analfabeto.
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http://medei.sites.uol.com.br/penazul/geral/entrevis/rachel2.htm
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As Três Marias (romance)

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

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As Três Marias é um romance de Rachel de Queiroz e publicado em 1939.
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O romance é narrado por Guta uma das protagonistas da história e começa quando esta vai para um internato em Fortaleza no Ceará aos 12 anos, lá ela conhece Maria José e Glória onde nasce uma profunda amizade entre as três. Ficaram conhecidas como As três Marias por uma freira que assim chamou-as por causa de seus nomes:Maria Augusta, Maria José e Maria da Glória e porque viviam sempre juntinhas como a constelação de Orion. Juntas, as três marias ajudavam as outras amigas a solucionar seus problemas.
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O tempo passa e o estudo no internato acaba, agora já adultas cada uma segue um rumo, mas a amizade prevalece.
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Glória logo se casa, com Afonso e tem um filho.
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Maria José vai morar com a mãe e os irmãos, se torna uma mulher muito religiosa se afastando dos prazeres da vida, já que ela acha que é pecado, e arruma um emprego como professora.
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Guta após sair do internato vai para o interior morar com sua família, mas acaba percebendo que sua família quer transformá-la em uma dona de casa. Descontente, Guta volta para Fortaleza, começa a trabalhar como datilógrafa e vai morar com Maria José, algum tempo depois ela conhece Raul por quem se apaixona mas logo termina o romance, pois ele era casado e queria que ela fosse sua amante.
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Depois de terminar com Raul, Guta percebe que seu amigo Aluísio está gostando dela, só que alguns dias depois de perceber isso Aluísio suicída-se, todos culpam Guta por isso.
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Guta muito triste com os últimos acontecimentos decide tirar umas férias e vai para o Rio de Janeiro lá conhece Isac um estrangeiro, que lhe apresenta a cidade. Guta se apaixona por Isaac com quem tem sua primeira noite de amor.
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O tempo de férias acaba e Guta tem que voltar para Fortaleza, chegando lá ela decide voltar para o interior para morar com sua familia. A história termina com Guta desconfiando que está grávida.
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Do Livro O Quinze De Rachel De Queiroz .pdf Ebook Download

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mai 09
Quarenta anos, quarenta e cinco. Você sente, obscuramente, nos seus ossos, que o tempo passou mais depressa do que esperava. Não lhe incomoda envelhecer, é claro. A velhice tem suas alegrias, as sua compensações – todos dizem isso, embora você pessoalmente, ainda não as tenha descoberto – mas acredita.
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Todavia, também obscuramente, também sentida nos seus ossos, às vezes lhe dá aquela nostalgia da mocidade.
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Não de amores nem de paixão; a doçura da meia-idade não lhe exige essas efervescências. A saudade é de alguma coisa que você tinha e lhe fugiu sutilmente junto com a mocidade. Bracinhos de criança no seu pescoço. Choro de criança. O tumulto da presença infantil ao seu redor. Meu Deus, para onde foram as suas crianças? Naqueles adultos cheios de problemas, que hoje são seus filhos, que têm sogro e sogra, cônjuge, emprego, apartamento e prestações, você não encontra de modo algum as suas crianças perdidas. São homens e mulheres – não são mais aqueles que você recorda.
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E então, um belo dia, sem que lhe fosse imposta nenhuma das agonias da gestação ou do parto, o doutor lhe põe nos braços um menino. Completamente grátis – nisso é que está a maravilha. Sem dores, sem choro, aquela criancinha da sua raça, da qual você morria de saudades, símbolo ou penhor da mocidade perdida. Pois aquela criancinha, longe de ser um estranho, é um menino que se lhe é “devolvido”. E o espantoso é que todos lhe reconhecem o seu direito sobre ele, ou pelo menos o seu direito de o amar com extravagância; ao contrário, causaria escândalo ou decepção, se você não o acolhesse imediatamente com todo aquele amor que há anos se acumulava, desdenhado, no seu coração.
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Sim, tenho a certeza de que a vida nos dá os netos para nos compensar de todas as mutilações trazidas pela velhice. São amores novos, profundos e felizes, que vêm ocupar aquele lugar vazio, nostálgico, deixado pelos arroubos juvenis.
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Aliás, desconfio muito de que netos são melhores que namorados, pois que as violências da mocidade produzem mais lágrimas do que enlevos. Se o Doutor Fausto fosse avô, trocaria calmamente dez Margaridas por um neto…
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No entanto! Nem tudo são flores no caminho da avó. Há, acima de tudo, o entrave maior, a grande rival: a mãe. Não importa que ela, em si, seja sua filha. Não deixa por isso de ser a mãe do neto. Não importa que ela hipocritamente, ensine a criança a lhe dar beijos e a lhe chamar de “vovozinha” e lhe conte que de noite, às vezes, ele de repente acorda e pergunta por você. São lisonjas, nada mais. No fundo ela é rival mesmo. Rigorosamente, nas suas posições respectivas, a mãe e a avó representam, em relação ao neto, papéis muito semelhantes ao da esposa e da amante nos triângulos conjugais. A mãe tem todas as vantagens da domesticidade e da presença constante. Dorme com ele, dá-lhe banho, veste-o, embala-o de noite. Contra si tem a fadiga da rotina, a obrigação de educar e o ônus de castigar.
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Já a avó não tem direitos legais, mas oferece a sedução do romance e do imprevisto. Mora em outra casa. Traz presentes. Faz coisas não programadas. Leva a passear, “não ralha nunca”. Deixa lambuzar de pirulito. Não tem a menor pretensão pedagógica. É a confidente das horas de ressentimento, o último recurso dos momentos de opressão, a secreta aliada nas crises de rebeldia. Uma noite passada em sua casa é uma deliciosa fuga à rotina, tem todos os encantos de uma aventura. Lá não há linha divisória entre o proibido e o permitido, antes uma maravilhosa subversão da disciplina. Dormir sem lavar as mãos, recusar a sopa e comer croquetes, tomar café, mexer na louça, fazer trem com as cadeiras na sala, destruir revistas, derramar água no gato, acender e apagar a luz elétrica mil vezes se quiser – e até fingir que está discando o telefone. Riscar a parede com lápis dizendo que foi sem querer – e ser acreditado!
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Fazer má-criação aos gritos e em vez de apanhar ir para os braços do avô, e lá escutar os debates sobre os perigos e os erros da educação moderna…
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Sabe-se que, no reino dos céus, o cristão defunto desfruta os mais requintados prazeres da alma. Porém não estarão muito acima da alegria de sair de mãos dadas com o seu neto, numa manhã de sol. E olhe que aqui embaixo você ainda tem o direito de sentir orgulho, que aos bem-aventurados será defeso. Meu Deus, o olhar das outras avós com seus filhotes magricelas ou obesos, a morrerem de inveja do seu maravilhoso neto!
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E quando você vai embalar o neto e ele, tonto de sono, abre um olho, lhe reconhece, sorri e diz “Vó”, seu coração estala de felicidade, como pão ao forno.
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E o misterioso entendimento que há entre avó e neto, na hora em que a mãe castiga, e ele olha para você, sabendo que, se você não ousa intervir abertamente, pelo menos lhe dá sua incondicional cumplicidade.
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Até as coisas negativas se viram em alegrias quando se intrometem entre avó e neto: o bibelô de estimação que se quebrou porque o menino – involuntariamente! – bateu com a bola nele. Está quebrado e remendado, mas enriquecido com preciosas recordações: os cacos na mãozinha, os olhos arregalados, o beicinho pronto para o choro; e depois o sorriso malandro e aliviado porque “ninguém” se zangou, o culpado foi a bola mesma, não foi, vó? Era um simples boneco que custou caro. Hoje é relíquia: não tem dinheiro que pague.
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