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segunda-feira, 25 de dezembro de 2023

Carlos Coutinho - Erosão frutuosa

*  Carlos Coutinho

HÁ muito que eu trocava da melhor vontade todas as consoadas por qualquer sensoada, visto que, no mínimo, uma ceia de comezaina destravada a soar a superstição é sempre de uma noite que soa mal aos ouvidos de alguém como eu que tenho passado a vida a ouvir dislates, além de arrotos e outros ruídos estomacais.

Em contrapartida, uma refeição sem coisa soada pode ser alegremente um repasto sem barulhos indesejáveis, dentro ou fora de casa.

Verifico e registo que por entre palavras mortas há palavras a germinar, como julgo que também pensa o linguista Salikoko Mufwene, para quem “falar da evolução da linguagem não é uma metáfora”.

Teve, aliás, o arrojo de criar uma teoria geral das espécies aplicada à comunicação e parece que não foi tempo perdido. Disse mesmo que “há palavras inglesas noutras línguas, porque, provavelmente, é mais fácil transmitir o significado com as palavras inglesas do que com as palavras indígenas. Mas também é uma forma de mostrar que alguém está atualizado no conhecimento do mundo.”

É, de resto, o que vão fazendo muitos decisores, muitos analistas encartados, muitos comentadores e muitos estrategas de café.

Mas quem sou eu ara falar destas coisas, quando vejo que até o profissionalismo é uma forma de avacalhar a natureza humana, dando como vantagem a capacidade de um fulano ser cada vez menos genuíno e cada vez mais a máquina especializada e afunilada para um ofício?

Penso até na origem do nome António que comecei por encontrar na onomástica lusitana como a marca de um genial orador barroco e andarilho que fixou o tecido da minha língua, movendo-se sob uma válvula achatada de um molusco bivalve marinho da família Pectinidae a que ainda chamamos vieira.

Na verdade, António, segundo o Ciberdúvidas, é “talvez o nome mais popular da antroponímia portuguesa, permanece de origem obscura, se bem que alguns lhe encontrem etimologia etrusca que deu em latim ‘antonius’, “inestimável”, ou etimologia grega, ‘anthonomos’, o ‘que se alimenta de flores’.

É certo que existia já em Roma, designando uma ‘gens’ famosa da qual o mais conhecido é Marco António”, mas daí a admitir que um certo António de Santa Comba se alimentava de flores, embora andasse sempre encostado a uma cerejeira que floria no Patriarcado de Lisboa, vai uma distância enorme.

E isto sem ter em conta a vila de Vieira de Leiria, onde em tempos me refugiei por uma semana, quando a PIDE, ainda sem saber o meu nome, andava à minha procura, por motivos que não são agora para aqui chamados.

Vale a pena saber que a área desta freguesia é constituída por dois elementos geológicos e que um deles, representado por uma cobertura de areias de praia e de areias e dunas, ocupa toda a faixa litoral. Podem também ser incluídos neste conjunto moderno os aluviões do Lis. Na margem sul deste rio, entre as dunas do litoral, a faixa aluvial é muito estreita e os aluviões penetram numa depressão interdunar situada junto à praia de Vieira.

Mas, se um António pode ser padre e até jesuíta, como pôr em dúvida as suas profecias, incluindo as mais estapafúrdias, como a do Quinto Império, coisa universal e sob a égide de Portugal?

2023 12 25


domingo, 18 de dezembro de 2022

Carlos Coutinho - Casas e causas



* Carlos Coutinho

   PRECISÁMOS de chegar a 1941 para, finalmente, ficarmos com a certeza de que o genial orador e mitómano Padre António Vieira não foi o autor desse também genial texto clássico que é “A Arte de Furtar”. Aquela que é considerada a edição princeps da obra apresenta o seguinte título:  Arte de Furtar,/ Espelho de Enganos,/ Theatro de Verdades,/ Mostrador de Horas Minguadas,/ Gazua Geral/ Dos Reynos de Portugal./ Offerecida a Elrey/ Nosso Senhor/ D. João IV./ Para Que A Emende. Indica seguidamente ter sido “composta pelo Padre António Vieira, Zeloso da Patria” e impressa em Amsterdão, “na Officina Elvizeriana 1652”. 

    Todavia, a autoria da obra, o local e o ano de impressão, bem como o impressor aí indicados, são falsos (a oficina tipográfica é duplamente falsa, pois o seu nome deveria grafar-se como Elzeviriana, mas tudo indica tratar-se de um erro propositado). 

   O manuscrito, composto em 1552, atesta a Wikipédia, “manteve-se inédito durante mais de noventa anos, não sendo de excluir absolutamente que durante esse período possam ter sido feitas algumas cópias. A obra teve, enfim, a sua primeira impressão em1743 ou 1744, em Lisboa, pelo livreiro genovês João Baptista Lerzo, dono de uma tipografia no sítio do Loreto”, atual Largo de Camões.

   A verdade é que António José Saraiva e Óscar Lopes, na sua imprescindível “História da Literatura Portuguesa”, já tinham desautorizado tal hipótese, atribuindo a façanha a outro jesuíta, o Padre Manuel da Costa (1601-1667). Saraiva e Lopes destacam na Arte de Furtar a "graça literária" e o alto "valor informativo", de que, segundo eles, “só a Fastigímia, de Tomé Pinheiro da Veiga, se aproximaria no século XVI. 

   A obra de Manuel da Costa é “um depoimento literário muito completo da realidade social do tempo de D. João IV”, em que “se espelham ao vivo todos os principais problemas com que se debatia a administração interna e todo o jogo das forças sociais. Ao nível da descrição dos factos isolados e dos comportamentos sociais típicos, Saraiva e Lopes acham que o realismo da Arte de Furtar é imbatível, “superando em muito o melhor dos Apólogos Dialogais (de Francisco Manuel de Melo). E acrescentam: 

   "Possivelmente, nenhum panfleto da nossa literatura o iguala.”

 Em 1941, por fim, Francisco Rodrigues explica em parte essa má aceitação e aponta o estudo de J. Pereira Gomes intitulado "Manuel da Costa, autor da Arte de Furtar" (1965), que revelou finalmente os trechos inéditos do dito documento, que “tinham sido mantidos secretos para não enxovalharem a imagem da Companhia”.

   Por outro lado, autores como o português Joaquim Ferreira e o brasileiro Afonso Pena Júnior (1944) não reconhecem ao obscuro jesuíta de Mourão, Alentejo, a “qualidade literária, a veia polémica e satírica, bem como os conhecimentos necessários (militares, administrativos, económicos, jurídicos, etc.) para escrever obra crítica de tão grande vulto, preferindo-lhe as autorias de, respetivamente, D. Francisco Manuel de Melo e de António de Sousa de Macedo”. 

   Mais grave, porém, que a ruína de uma hipótese ou de uma falsa autoria é a de uma casa, sobretudo se for um casarão como o de Romarigães, no concelho de Paredes de Coura, uma casa nobre barroca que passou longos anos em avançado estado de degradação e pertence desde 1921 ao Município que já iniciou obras de reabilitação para musealizar o edificado.

   Aquilino foi genro do dono, o Presidente Bernardino Machado e conta magistralmente a história da mansão no seu romance homónimo A Casa Grande de Romarigães publicado inicialmente em 1957. 

   Há que frisar que o beirão Aquilino se notabilizou, além do mais, pelo estilo pícaro, pela apurada descrição de sensações e pelo vasto léxico utilizado. ~

   Da sua bibliografia hoje pouco visitada pelos leitores comuns - obras de ficção, de história, contos infantis, ensaios e traduções – há que ler ao menos, Quando os Lobos Uivam (1959) e Terras do Demo (1919).

   À tarde

   DO que eu havia agora de me lembrar? Da “Operação Marosca”, mais conhecida por Massacre de Wiriamu, em que uma força especial de comandos, às ordens de um major aerotransportado chamado Jaime Neves assassinou indiscriminadamente pelo menos 380 civis de todas as idades, violou mulheres e até foi capaz de degolar crianças. 

   Homens, mulheres e crianças foram comprovadamente queimados vivos nessa hedionda carnificina.

   Conheci pessoalmente esse futuro general que haveria de criar em Lisboa uma controversa empresa de segurança privada que ficou associada, com ou sem fundamento, ao incêndio necessário ocorrido numa pensão da Avenida da Liberdade que devia ser apropriada por alguém para outros fins. 

   Cruzei-me com Jaime Neves ainda capitão, em 1968, em Vila Cabral, hoje Lichinga, no norte de Moçambique, e mais tarde vim a saber que ele havia sido encarregado de uma operação a que faltou na noite de 24 para 25 de Abril de 1974. Ano e meio depois, foi um dos mais decisivos comandantes operacionais do golpe reacionário de 25 de novembro.

   Vem a propósito recordar que Jaime Alberto Gonçalves das Neves, nasceu na aldeia de Miguel Torga, São Martinho de Anta, no duriense concelho de Sabrosa, no aziago dia 28 de março de 1936 e faleceu em Lisboa a 27 de janeiro de 2013.     

   Quando, muito mais tarde, foi questionado sobre a sua responsabilidade no massacre de Wiriamu, negou qualquer ligação sua à “Operação Marosca” e afirmou secamente: “Sobre isso não falo”. 

   É, no entanto, conhecido que, em 1971, Jaime Neves assumiu a direção do Batalhão de Comandos de Montepuez que reunia as companhias de comandos portuguesas em Moçambique, tornando-se o responsável máximo por 2 500 subordinados, que dirigia por rádio e, na frente de combate, a bordo de um helicóptero. 

   Veio a ser condecorado com a Cruz de Guerra de 1.ª Classe em consequência de ser atingido de raspão por uma bala e, com a patente de major graduado, ainda comandou a 28.ª Companhia de Comandos, em Moçambique. 

   Posteriormente, Jaime Neves irá a Moçambique uma última vez com a missão de impor a rendição de duas companhias de comandos que, acabada a guerra, se negavam a terminar o combate e continuavam a assassinar independentistas contra as ordens do Exército Português. Assim colocou fim à insurreição destas duas companhias, a 20-43 e a 20-45, acordando com os militares revoltosos que nenhum seria detido nem castigado pelos crimes cometidos.

   Já era um tenente-coronel graduado em coronel quando participou nas conspirações da direita ao longo de todo o Verão Quente de 1975. Comandava então o Regimento de Comandos. Em 1981 passou à reserva, depois de proferir declarações que fizeram o Exército aplicar-lhe um castigo disciplinar de dez dias, durante os quais ficou detido no Quartel General da Região Militar de Lisboa, pena dada por cumprida a 12 de dezembro de 1981. 

   Aposentado do Exército, Jaime Neves fundou a 1 de março de 1990, com o capitão comando Sousa Gonçalves, a empresa de segurança privada 20-45, cujo uniforme incluía uma boina vermelha e preta, como alusão aos Comandos Portugueses, e o nome era igualmente uma alusão à companhia de comandos revoltosa, a 20-45 que Jaime Neves dirigia em Moçambique e que se recusou a deixar de combater após decretado o fim da Guerra Colonial.

   Com forte implantação em Angola e Moçambique, onde Jaime Neves e os comandos portugueses combateram, os negócios da empresa 20-45 apenas com o Estado português foram avaliados em 40 milhões e 800 mil euros entre os anos de 2008 e 2020.

   Diferentemente do que fez ao golpista Spínola, que promoveu a marechal, Mário Soares, o então Presidente da República, agraciou Jaime Neves, a 13 de julho de 1995, com o grau de Grande-Oficial da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito. As chefias militares também consideraram o seu "mérito e os serviços prestados à Pátria", justificando até a "promoção por distinção" a major-general. 

   Mais tarde, quando já era presidente da Associação 25 de Abril, Vasco Lourenço, que esteve com ele no 25 de Novembro, acabou por declarar ao “Expresso” que "o currículo militar de Jaime Neves não justifica" aquela promoção, considerando que tal só se entende se "quiserem refundar Abril, substituindo Salgueiro Maia por Jaime Neves. Estão a hostilizar e a ofender profundamente os militares de Abril e o próprio 25 de Abril", concluiu. 

Também o PCP se insurgiu contra a promoção soarista de Jaime Neves, ao que ele respondeu: "Os cães ladram, a caravana passa".

   Vale lembrar que o general graduado Vasco Lourenço, durante o seu tempo como governador militar de Lisboa e comandante de sua região militar (desde agosto de 1976), não tinha sob as suas ordens uma única unidade militar da região: nem sequer os comandos do coronel Jaime Neves, aos quais o general Rocha Vieira, chefe do Estado Maior do Exército, decidiu manter sob seu controlo direto. Em 30 de março de 1978, os dois generais – Vasco Lourenço e Rocha Vieira – foram demitidos de seus cargos pelo Presidente da República, Ramalho Eanes.

 A promoção de Jaime Neves a major-general foi também confirmada pelo Presidente seguinte, o marquês de Boliqueime e Aldeia da Coelha, Cavaco Silva, a 14 de Abril de 2009.

 Assim se consagrava para a História Universal da Infâmia o dia 16 de dezembro de 1972, em que quatro caças-bombardeiros largaram várias bombas sobre as povoações de Wiriamu, Juwau e Chawola. Enquanto isso, cinco helicópteros desembarcavam quatro secções especiais da 6.ª Companhia de Comandos.

    Romarigães – a casa a que Aquilino Ribeiro chamou “Grande” e cuja ruína já esteve iminente está a ser recuperada, mas o seu abandono foi tão longo e erosivo que nem as heras o conseguiam disfarçar


2022 12 18
Foto - Casa Grande de Romarigães - Paredes de Coura - Portugal
Autor Vitor Oliveira, de Torres Vedras, PORTUGA
in https://www.flickr.com/photos/vitor107/148717143/ 

sexta-feira, 26 de junho de 2020

Pedro Cardim Para uma visão mais informada e plural do padre António Vieira

* Pedro Cardim

25.06.2020 às 9h30

A estátua de Vieira retrata de uma forma caricatural a colonização portuguesa na América e o papel desempenhado pelo jesuíta, em especial no que respeita aos ameríndios. Aqueles que se revêem nesta estátua demonstram ignorar grande parte da investigação mais recente sobre o tema

Omonumento em honra do padre António Vieira, erigido em Lisboa defronte da igreja de São Roque, não faz jus à sua figura. Vieira merecia ser recordado por uma intervenção artística que desse melhor conta da riqueza da sua obra e da complexidade da sua vida.

Antes de mais, porque representar António Vieira segurando numa cruz e rodeado de crianças indígenas é uma forma caricatural de retratar o Brasil colonial e a ação que Vieira nele desempenhou, em especial no que respeita às populações ameríndias. A estátua nada diz sobre o que realmente se passou ali a partir de 1500. Desembarcados na América do Sul, os portugueses levaram a cabo uma "conquista", ou seja, a apropriação – frequentemente violenta – de terras que eram dos povos autóctones.

Depois de consolidarem o seu domínio sobre as primeiras parcelas de terra, as autoridades portuguesas, seculares e religiosas, definiram a forma como iriam lidar com os autóctones da América. Quanto aos indígenas que foram submetidos pelos portugueses, as autoridades coloniais trataram-nos como miserabile personae, como uma espécie de crianças ou de pessoas desprovidas de autonomia e de autossuficiência. Foram vistos como seres que careciam da tutela dos colonizadores, acabando por ser reduzidos a uma condição de menoridade, cívica, jurídica e política. No que respeita aos muitos povos indígenas que viviam nas vastas áreas que escapavam ao controlo dos conquistadores e que contra eles resistiam, foram encarados como "selvagens", "rebeldes" e inimigos.

Foi com base na ideia de que os indígenas eram miserabile personae que se conformou o relacionamento entre os colonizadores e as populações autóctones que não foram consideradas inimigas. A esses indígenas foi dada a possibilidade de entrarem na sociedade colonial, mas impôs-se-lhes como condição a sua subordinação aos portugueses e a sua submissão a um intenso processo de conversão ao catolicismo.

António Vieira é produto desta maneira de entender os povos ameríndios e identifica-se plenamente com ela. À semelhança do que vários missionários antes dele tinham feito, Vieira também promoveu a deslocação maciça de comunidades indígenas e a sua concentração em aldeias situadas nas proximidades das zonas de colonização, aldeias essas administradas pelos próprios jesuítas e por outras ordens religiosas.

E para que é que serviam essas aldeias? Serviam, antes de mais, para impor aos indígenas, muitas vezes com violência, o modo de vida português e a religião católica. Além disso, o sistema das aldeias impunha aos "índios aldeados" um regime de trabalho obrigatório. Tanto os jesuítas, quanto os colonos que viviam nas redondezas serviam-se dos "índios aldeados", empregando-os quase sempre nas ocupações mais aviltantes como trabalhadores forçados. Quando eram pagos, os indígenas recebiam um salário em geral miserável. Um exemplo: em 1654 Vieira estabeleceu um acordo com o governador e as câmaras do Maranhão para regulamentar o trabalho compulsório dos "índios aldeados". Segundo esse acordo, os índios realizariam seis meses de serviço por ano nas propriedades dos moradores e receberiam, em troca, pouco mais de dois metros de pano por mês...

A par do trabalho pago desta forma miserável, os índios concentrados nas aldeias foram também frequentemente mobilizados contra os inimigos dos portugueses, como os holandeses ou os franceses. Além disso, os colonos também os utilizaram na luta quer contra os escravos negros que fugiam das zonas coloniais e que se concentravam em quilombos, quer contra os demais povos indígenas que resistiam contra a colonização. Para os portugueses a guerra fazia parte do quotidiano colonial, não só para conquista de mais terras, mas também para a captura de indígenas e sua conversão em escravos ou em trabalhadores forçados.

A estátua nada diz sobre isto e tão-pouco mostra que, para além de serem submetidos ao trabalho forçado, havia muitos indígenas escravizados. Convém lembrar que, para as autoridades portuguesas, a escravização de ameríndios continuou a ser legal até à segunda metade do século XVIII. Para Vieira, como para os demais jesuítas (com poucas divergências internas), a escravidão de índios e, também, de negros era aceitável desde que fossem respeitados os títulos de escravização reconhecidos como legítimos (guerra justa, comutação da pena de morte, extrema necessidade e condição do ventre materno).

Numa sociedade marcada por uma forte discriminação racial, os índios eram relegados para um dos seus escalões mais baixos. Ou seja, os indígenas cristianizados que conseguiam sair das aldeias ou livrar-se da escravidão, quando iam viver entre os portugueses só se conseguiam empregar em atividades desprestigiantes e mal pagas, ficando praticamente privados de qualquer hipótese de ascensão social. A mestiçagem estava presente, mas costumava ser ativamente escondida por todos os mestiços que tinham a ambição de ascender socialmente.

Não há dúvida de que, ao longo da sua vida, Vieira se destacou na defesa de certos povos indígenas e denunciou alguns abusos dos colonos. Contudo, é preciso notar que tais denúncias foram quase sempre uma boa ocasião – política – para Vieira reivindicar que, na relação entre colonos e indígenas, a tutora e a intermediária privilegiada, ou mesmo exclusiva, deveria ser a Companhia de Jesus, a ordem à qual ele pertencia.

A par disso, não se pode esquecer que, em vários momentos, o mesmo Vieira apelou às forças portuguesas para que atacassem e submetessem, por vezes com muita violência, os ameríndios que resistiam à invasão das suas terras, ou que recusavam o catolicismo. Aliás, e à semelhança dos seus contemporâneos, Vieira usou termos como "gentio bárbaro" ou "selvagem" para denominar os indígenas que continuavam a resistir contra os portugueses. Tais palavras, como se sabe, estavam carregadas de preconceitos a respeito dos seres humanos assim designados.

Tudo isto é factual, baseia-se na documentação existente e está plenamente demonstrado pelos estudos dos últimos trinta anos. No entanto, a escultura que pretende homenagear Vieira é completamente omissa a respeito destes factos. Ela reflete, acima de tudo, uma visão benigna da colonização portuguesa das terras sul americanas e da relação com as suas populações autóctones. Para além de nada dizer sobre estes temas, o monumento a Vieira tem também o condão de ocultar a resposta dada pelos indígenas à agressão portuguesa. Apresenta os índios como seres passivos, uma espécie de crianças que nem sequer eram capazes de se defender, carecendo de um português para os proteger. Nada mais distante da realidade. Ao longo dos trezentos anos de colonização os indígenas defenderam-se de um modo inteligente e encarniçado. A resistência – armada, e não só – dos ameríndios contra os portugueses foi muito mais eficaz do que habitualmente se pensa, e foi precisamente graças a ela que muitos desses povos conseguiram manter os colonizadores fora das suas terras durante toda a dominação portuguesa no Brasil. Além disso, muitas mulheres e homens indígenas rapidamente aprenderam a utilizar os recursos trazidos pelos portugueses a fim de com eles alcançar a liberdade ou resistir contra a opressão colonial.

Para quem estuda a história da colonização portuguesa em terras americanas, nada disto é novidade. O alcance e os limites da ação de Vieira relativamente aos indígenas são bem conhecidos, e o mesmo se poderia dizer da sua posição sobre a escravização de africanos subsaarianos. A sua concordância com a escravidão de afrodescendentes não difere daquilo que era a opinião corrente na época. Vieira não era contrário ao sistema esclavagista, defendia-o na medida em que, do seu ponto de vista, ele permitia o trânsito de pessoas pagãs para terras cristãs e, subsequentemente, a sua suposta salvação, mas sempre sob a autoridade dos seus proprietários.

As suas críticas à violência com que os senhores de escravos tratavam as pessoas escravizadas não diferem muito do que várias pessoas há muito diziam, tanto no Brasil como na América espanhola. Mas havia quem, naquele mesmo período, e ao contrário de Vieira, condenasse a escravatura. Vários dos jesuítas com os quais Vieira entrou em conflito no final da sua vida fizeram muito mais do que ele para melhorar a condição dos afrodescendentes escravizados. O mesmo se pode dizer de alguns franciscanos e, também, de capuchinhos em missão pelas Caraíbas e pela América do Sul. Comparados com estes, Vieira não se distinguiu na defesa dos afrodescendentes escravizados. Por exemplo, ao contrário de outros, não se destacou no apoio à sua importante luta para terem acesso ao sacramento do matrimónio. Foi sempre fiel à ideia de que os escravizados deveriam aceitar submissamente o cativeiro em troca da liberdade das suas almas.

Compreende-se, pois, que Vieira se tenha oposto tenazmente à cristianização dos habitantes do quilombo de Palmares. Alegou que tal equivalia reconhecer a existência dessa comunidade "rebelde" que estava há anos a resistir contra a dominação colonial portuguesa. Com esta atitude Vieira visava, acima de tudo, castigar os que pegavam em armas contra a ordem colonial e não dar esperança aos escravizados de que poderiam alcançar, pela luta, a liberdade. Para Vieira, a liberdade não devia ser conquistada pelas armas, mas sim eventualmente concedida pelos senhores.

Tudo isto são factos conhecidos, e não propriamente um julgamento acusatório de António Vieira, figura que, aliás, sempre me interessou como objeto de investigação. O jesuíta tem sido muito estudado e tem de continuar a ser estudado, pois é uma figura com uma trajetória riquíssima e, em alguns aspetos, única. No entanto, sou contra o uso abusivo de António Vieira como um "defensor dos direitos humanos". Essa ideia, lamentavelmente inscrita na placa que acompanha a estátua que foi erigida em Lisboa em 2017, está completamente desfasada dos quadros mentais da época de Vieira. Também não me parece que se deva retratar o jesuíta como um protetor desinteressado dos índios, uma espécie de Bartolomé de las Casas português, forma de dizer que, no fundo, o colonialismo português não era assim tão mau... Vieira estava ao serviço de um projeto de colonização que visava submeter o maior número possível de indígenas e mantê-los em situação de menoridade e sob a tutela da Companhia de Jesus. Quanto à ordem colonial e esclavagista que, no Brasil, foi criada pelos portugueses e doutrinalmente sancionada pela Igreja, não era nada aprazível para os índios e, muito menos, para os afrodescendentes. Vieira jamais teve como finalidade alterá-la de uma forma substantiva.

Durante demasiado tempo, sob a ditadura de Salazar e não só, vários historiadores portugueses esqueceram estes e outros factos, insistindo numa imagem fundamentalmente benigna da colonização portuguesa, no Brasil e em outros continentes. Hoje, felizmente, a situação mudou. Muitos dos que se ocupam do passado colonial português defendem uma abordagem mais rigorosa e mais bem fundamentada. E percebem, para além disso, que pior do que não falar sobre esse passado é substituí-lo por uma narrativa apologética do colonialismo português, ou por uma comemoração simplista e caricatural de figuras como o padre António Vieira.

A estátua que me levou a escrever este texto foi erigida em Lisboa há escassos três anos, e não propriamente no século XIX ou sob o Estado Novo. Há alguns dias o atual presidente da câmara lisboeta reiterou que se revia na estátua porque esta mostrava que Vieira tinha uma "dimensão humanista e de tolerância num tempo em que isso não era de todo regra". Nessa ocasião, voltou a anunciar a criação de um "Museu da Descoberta", qualificando de "gratuita" toda a polémica gerada por este seu projeto. Mais ou menos pela mesma altura, o mayor de Londres anunciava que iria promover um debate aberto, informado e plural sobre a presença, na cidade, das marcas do império britânico. Em Portugal esta atitude mais crítica sobre o passado colonial já existe em vários sectores da sociedade. Seria importante que chegasse às autoridades políticas e religiosas, bem como à sociedade civil. E seria também importante que uma análise crítica de figuras como o padre Vieira deixasse de ser vista como antipatriótica. A finalidade destas análises é contribuir para uma sociedade melhor, assente numa relação com o passado mais informada, mais plural e mais justa.

https://expresso.pt/opiniao/2020-06-25-Para-uma-visao-mais-informada-e-plural-do-padre-Antonio-Vieira

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

António Vieira - sermão "é a guerra"




SÁBADO, AGOSTO 05, 2006

É a guerra aquele monstro

(...) Começando pela desconsolação da guerra, e guerra de tantos anos, tão universal, tão interior, tão contínua: oh que temerosa desconsolação! É a guerra aquele monstro que se sustenta das fazendas, do sangue, das vidas, e quanto mais come e consome, tanto menos se farta. É a guerra aquela tempestade terrestre, que leva os campos, as casas, as vilas, os castelos, as cidades, e talvez em um momento sorve os reinos e monarquias inteiras. É a guerra aquela calamidade composta de todas as calamidades, em que não há mal algum que, ou se não padeça, ou se não tema, nem bem que seja próprio e seguro. O pai não tem seguro o filho, o rico não tem segura a fazenda, o pobre não tem seguro o seu suor, o nobre não tem segura a honra, o eclesiástico não tem segura a imunidade, o religioso não tem segura a sua cela; e até Deus nos tempos e nos sacrários não está seguro. Esta era a primeira e mais viva desconsolacão que padecia Portugal no princípio deste mesmo ano.

(...) Que de tempos costuma gastar o Mundo, não digo no ajustamento de qualquer ponto de uma paz, mas só em registar e compor os cerimoniais dela! Tratados preliminares lhe chamam os políticos, mas quantos degraus se hão de subir e descer, quantas guardas se hão de romper e conquistar, antes de chegar às portas da paz, para que se fechem as de Jano? E depois de aceitas, com tanto exame de cláusulas, as plenipotências; depois de assentadas, com tantos ciúmes de autoridade, as juntas; depois de aberto o passo às que chamam conferências, e se haviam de chamar diferenças; que tempos e que eternidades são necessárias para compor os intricados e porfiados combates que ali se levantam de novo? Cada proposta é um pleito, cada dúvida uma dilação, cada conveniência uma discórdia, cada razão uma dificuldade, cada interesse um impossível, cada praça uma conquista, cada capítulo e cada cláusula dele uma batalha, e mil batalhas. Em cada palmo de terra encalha a paz, em cada gota de mar se afoga, em cada átomo de ar se suspende e pára. (...)

Pe António Vieira “Sermão Histórico e Panegírico nos Anos da Rainha D. Maria Francisca de Sabóia”

fotografia de Victor Nogueira - "Porto - cemitério de Agramonte"
Publicada por Victor Nogueira em Sábado, Agosto 05, 2006 

terça-feira, 18 de setembro de 2012

A palavra e a oratória do Pe Antóno Vieira, sj ou A Arte de Furtar


 

* Pe Antópnio Vieira, sj

Sermão do bom ladrão

Cuidam ou devem cuidar alguns príncipes que, assim como são superiores a todos, assim são senhores de tudo, e é engano (...). A rapina ou roubo é tomar o alheio violentamente contra a vontade de seu dono; os príncipes tomam muitas coisas a seus vassalos violentamente, e contra sua vontade: logo, parece que o roubo é lícito em alguns casos, porque, se dissermos que os príncipes pecam nisto, todos eles, ou quase todos se condenariam: (...) 

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Navegava Alexandre em uma poderosa armada pelo Mar Eritreu a conquistar a Índia, e como fosse trazido à sua presença um pirata que por ali andava roubando os pescadores, repreendeu-o muito Alexandre de andar em tão mau ofício; porém, ele, que não era medroso nem lerdo, respondeu assim. — Basta, senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador? — Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza; o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres.
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O ladrão que furta para comer, não vai, nem leva ao inferno; os que não só vão, mas levam, de que eu trato, são outros ladrões, de maior calibre e de mais alta esfera, os quais debaixo do mesmo nome e do mesmo predicamento, distingue muito bem S. Basílio Magno: Não são só ladrões, diz o santo, os que cortam bolsas ou espreitam os que se vão banhar, para lhes colher a roupa: os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos. — Os outros ladrões roubam um homem: estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo do seu risco: estes sem temor, nem perigo; os outros, se furtam, são enforcados: estes furtam e enforcam.
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Diógenes, que tudo via com mais aguda vista que os outros homens, viu que uma grande tropa de varas e ministros de justiça levavam a enforcar uns ladrões, e começou a bradar: — Lá vão os ladrões grandes a enforcar os pequenos. — Ditosa Grécia, que tinha tal pregador! E mais ditosas as outras nações, se nelas não padecera a justiça as mesmas afrontas! Quantas vezes se viu Roma ir a enforcar um ladrão, por ter furtado um carneiro, e no mesmo dia ser levado em triunfo um cônsul, ou ditador, por ter roubado uma província. E quantos ladrões teriam enforcado estes mesmos ladrões triunfantes?
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SERMÃO DE SANTO ANTÓNIO AOS PEIXES 

(...) Vede um homem desses que andam perseguidos de pleitos ou acusados de crimes, e olhai quantos o estão comendo. Come-o o meirinho, come-o o carcereiro, come-o o escrivão, come-o o solicitador, come-o o advogado, come-o o inquiridor, come-o a testemunha, come-o o julgador, e ainda não está sentenciado, já está comido. São piores os homens que os corvos. O triste que foi à forca, não o comem os corvos senão depois de executado e morto; e o que anda em juízo, ainda não está executado nem sentenciado, e já está comido.

E para que vejais como estes comidos na terra são os pequenos, e pelos mesmos modos com que vós comeis no mar, ouvi a Deus queixando-se deste pecado: Nonne cognoscent omnes, qui operantur iniquitatem, qui devorunt plebem meam, ut cibum panis? «Cuidais, diz Deus, que não há-de vir tempo em que conheçam e paguem o seu merecido aqueles que cometem a maldade?» E que maldade é esta, à qual Deus singularmente chama maldade, como se não houvera outra no Mundo? E quem são aqueles que a cometem? A maldade é comerem-se os homens uns aos outros, e os que a cometem são os maiores, que comem os pequenos: Qui devorant plebem meam, ut cibum panis.


Nestas palavras, pelo que vos toca, importa, peixes, que advirtais muito outras tantas cousas, quantas são as mesmas palavras. Diz Deus que comem os homens não só o seu povo, senão declaradamente a sua plebe:Plebem meam, porque a plebe e os plebeus, que são os mais pequenos, os que menos podem e os que menos avultam na república, estes são os comidos. E não só diz que os comem de qualquer modo, senão que os engolem e os devoram: Qui devorant. Porque os grandes que têm o mando das cidades e das províncias, não se contenta a sua fome de comer os pequenos um por um, ou poucos a poucos senão que devoram e engolem os povos inteiros: Qui devorant plebem meam. E de que modo os devoram e comem? Ut cibum panis: não como os outros comeres, senão como pão.

A diferença que há entre o pão e os outros comeres, é que para a carne, há dias de carne, e para o peixe, dias de peixe, e para as frutas, diferentes meses no ano; porém o pão é comer de todos os dias, que sempre e continuadamente se come: e isto é o que padecem os pequenos. São o pão quotidiano dos grandes; e assim como o pão se come com tudo, assim com tudo e em tudo são comidos os miseráveis pequenos, não tendo nem fazendo ofício em que os não carreguem, em que os não multem, em que os não defraudem, em que os não comam, traguem e devorem: Qui devorant plebem meam, ut cibum panis.

 Parece-vos bem isto, peixes? Representa-se-me que com o movimento das cabeças estais todos dizendo que não, e com olhardes uns para os outros, vos estais admirando e pasmando de que entre os homens haja tal injustiça e maldade! Pois isto mesmo é o que vós fazeis. Os maiores comeis os pequenos; e os muito grandes não só os comem um por um, senão os cardumes inteiros, e isto continuamente sem diferença de tempos, não só de dia, senão também de noite, às claras e às escuras, como também fazem os homens.

Se cuidais, porventura, que estas injustiças entre vós se toleram e passam sem castigo, enganais-vos. Assim como Deus as castiga nos homens, assim também por seu modo as castiga em vós. Os mais velhos, que me ouvis e estais presentes, bem vistes neste Estado, e quando menos ouviríeis murmurar aos passageiros nas canoas, e muito mais lamentar aos miseráveis remeiros delas, que os maiores que cá foram mandados, em vez de governar e aumentar o mesmo Estado, o destruíram; porque toda a fome que de lá traziam, a fartavam em comer e devorar os pequenos (...)

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sexta-feira, 20 de abril de 2012

Pe. António Vieira


Victor Nogueira partilhou a foto de Andante Associação Artística.
20/4

A primeira cousa que me desedifica, peixes, de vós, é que vos comeis uns aos outros. Grande escândalo é este, mas a circunstância o faz ainda maior. Não só vos comeis uns aos outros, senão que os grandes comem os pequenos. Se fora pelo contrário, era menos mal. Se os pequenos comeram os grandes, bastara um grande para muitos pequenos; mas como os grandes comem os pequenos, não bastam cem pequenos, nem mil, para um só grande.
Padre António Vieira/Selçuk Demirel

domingo, 23 de janeiro de 2011

Sermão de 4ª feira de cinzas (excerto) - Pe. António Vieira

Quarta-feira,25de
Em Roma, na Igreja de S. António dos Portugueses, Ano de 1670.

Memento homo, quia pulvis es, et in pulverem reverteris (1).

(1) Lembra-te homem, que és pó, e em pó te hás de converter.
I. O pó futuro, em que nos havemos de converter, é visível à vista, mas o pó presente, o pó que somos, como poderemos entender essa verdade? A resposta a essa dúvida será a matéria do presente discurso.
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Duas coisas prega hoje a Igreja a todos os mortais, ambas grandes, ambas tristes, ambas temerosas, ambas certas. Mas uma de tal maneira certa e evidente, que não é necessário entendimento para crer: outra de tal maneira certa e dificultosa, que nenhum entendimento basta para a alcançar.
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Uma é presente, outra futura, mas a futura vêem-na os olhos, a presente não a alcança o entendimento.
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E que duas coisas enigmáticas são estas?

Pulvis es, tu in pulverem reverteris: Sois pó, e em pó vos haveis de converter.

— Sois pó, é a presente; em pó vos haveis de converter, é a futura.

O pó futuro, o pó em que nos havemos de converter, vêem-no os olhos; o pó presente, o pó que somos, nem os olhos o vêem, nem o entendimento o alcança.
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Que me diga a Igreja que hei de ser pó: In pulverem reverteris, não é necessário fé nem entendimento para o crer.
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Naquelas sepulturas, ou abertas ou cerradas, o estão vendo os olhos. Que dizem aquelas letras? Que cobrem aquelas pedras? As letras dizem pó, as pedras cobrem pó, e tudo o que ali há é o nada que havemos de ser: tudo pó.
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Vamos, para maior exemplo e maior horror, a esses sepulcros recentes do Vaticano. Se perguntardes de quem são pó aquelas cinzas, responder-vos-ão os epitáfios, que só as distinguem: Aquele pó foi Urbano, aquele pó foi Inocêncio, aquele pó foi Alexandre, e este que ainda não está de todo desfeito, foi Clemente.
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De sorte que para eu crer que hei de ser pó, não é necessário fé, nem entendimento, basta a vista.
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Mas que me diga e me pregue hoje a mesma Igreja, regra da fé e da verdade, que não só hei de ser pó de futuro, senão que já sou pó de presente: Pulvis es?
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Como o pode alcançar o entendimento, se os olhos estão vendo o contrário?
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É possível que estes olhos que vêem, estes ouvidos que ouvem, esta língua que fala, estas mãos e estes braços que se movem, estes pés que andam e pisam, tudo isto, já hoje é pó: Pulvis es?
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Argumento à Igreja com a mesma Igreja: Memento homo.
A Igreja diz-me, e supõe que sou homem: logo não sou pó.
O homem é uma substância vivente, sensitiva, racional.
O pó vive? Não.
Pois como é pó o vivente?
O pó sente? Não.
Pois como é pó o sensitivo?
O pó entende e discorre? Não.
Pois como é pó o racional?
Enfim, se me concedem que sou homem: Memento homo, como me pregam que sou pó: Quia pulvis es?

Nenhuma coisa nos podia estar melhor que não ter resposta nem solução esta dúvida. Mas a resposta e a solução dela será a matéria do nosso discurso. [ ...]

[...]

Em que cuidamos, e em que não cuidamos?
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Homens mortais, homens imortais, se todos os dias podemos morrer, se cada dia nos imos chegando mais à morte, e ela a nós, não se acabe com este dia a memória da morte.
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Resolução, resolução uma vez, que sem resolução nada se faz.
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E para que esta resolução dure e não seja como outras, tomemos cada dia uma hora em que cuidemos bem naquela hora.
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De vinte e quatro horas que tem o dia, por que se não dará uma hora à triste alma?

(23) Disse: Agora começo (Sl 76,11).
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Esta é a melhor devoção e mais útil penitência, e mais agradável a Deus, que podeis fazer nesta quaresma.
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Tomar uma hora cada dia, em que só por só com Deus e connosco cuidemos na nossa morte e na nossa vida.
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E porque espero da vossa piedade e do vosso juízo que aceitareis este bom conselho, quero acabar deixando-vos quatro pontos de consideração para os quatro quartos desta hora.

Primeiro: quanto tenho vivido?
Segundo: como vivi?
Terceiro: quanto posso viver?
Quarto: como é bem que viva?

Torno a dizer para que vos fique na memória: Quanto tenho vivido? Como vivi? Quanto posso viver? Como é bem que viva? Memento homo!


Para ver o sermão completo: http://www.scribd.com/doc/2858980/Sermoes-Pe-Antonio-Vieira
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http://dacordalaranja.blogspot.com/2009/02/sermao-de-quarta-feira-de-cinzas-padre.html
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sexta-feira, 14 de maio de 2010

Sobre LADRÕES, de Padre Antônio Vieira (1608-1697)

22 de setembro de 2009 
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Um Papa do século XVII, Clemente X (1670), disse a respeito de Vieira: “Devemos dar muitas graças a Deus por fazer este homem católico, porque so não fosse poderia dar muito cuidado à Igreja de Deus”.
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Essa era a fama de Vieira em sua época. E, sem dúvida, é o maior orador sacro em língua portuguesa e nosso principal autor barroco.
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Biografia
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Antônio Vieira nasceu em Lisboa, mas já em 1614 mudava-se com a família para a Bahia. Estreou no púlpito (sermão pregado em 1633, na Bahia) um ano antes de sua ordenação sacerdotal. A partir de 1641 estava novamente em Lisboa, onde seria nomeado Pregador Real e Tribuno da Restauração (lembre-se de que a Restauração da Coroa portuguesa inicia-se em 1640, com D. João IV). Em 1646 e 1647 Vieira foi incumbido de missões secretas na França e na Holanda.
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Entre o final de 1652 e o final de 1661, esteve no Maranhão, chefiando a missão jesuítica. Sua ação foi decisiva para a promulgação da “Lei da Liberdade dos Índios”, de 1655.
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A um homem tão brilhante e politicamente tão eficiente não poderiam faltar as perseguições: preso pela Inquisição, permaneceu recluso entre 1665 e 1668. Uma sentença do Tribunal do Santo Ofício cassou-lhe a palavra em 1667.
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Partiu então para Roma, onde ficou durante seis anos, conseguindo afinal que Clemente X o isentasse da Inquisição. Os últimos dezesseis anos de sua via passou-os na Bahia, organizando suas obras para publicação. Morreu em Salvador em 18 de julho de 1697.
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Um breve comentário
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O modelo do pregador alimenta-se da ironia, da sátira, do ataque (sutil ou explícito) contra vícios morais e administrativos dos representantes do rei na Colônia do Brasil. Assim é que, no “Sermão do Bom Ladrão”, Vieira fala de políticos e administradores que furtam, roubam e enforcam, escondendo suas próprias falcatruas.
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Nos dias atuais, Vieira falaria dos grandes ladrões que, sendo gestores públicos, agem debaixo da proteção do poder econômico e fraudam os recursos das áreas sociais como educação, saúde, saneamento, segurança, dentre outras, produzindo, assim, uma legião de pequenos ladrões e marginais que atormentam a vida dos cidadãos contribuintes do nosso país. 

LADRÕES

17 de setembro de 2009 
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Navegava Alexandre em uma poderosa armada pelo Mar Eritreu a conquistar a Índia, e como fosse trazido à sua presença um pirata que por ali andava roubando os pescadores, repreendeu-o muito Alexandre de andar em tão mau ofício; porém, ele, que não era medroso nem lerdo, respondeu assim. — Basta, senhor, que eu, porque roubo em uma barca, sou ladrão, e vós, porque roubais em uma armada, sois imperador? — Assim é. O roubar pouco é culpa, o roubar muito é grandeza; o roubar com pouco poder faz os piratas, o roubar com muito, os Alexandres.
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O ladrão que furta para comer, não vai, nem leva ao inferno; os que não só vão, mas levam, de que eu trato, são outros ladrões, de maior calibre e de mais alta esfera, os quais debaixo do mesmo nome e do mesmo predicamento, distingue muito bem S. Basílio Magno: Não são só ladrões, diz o santo, os que cortam bolsas ou espreitam os que se vão banhar, para lhes colher a roupa: os ladrões que mais própria e dignamente merecem este título são aqueles a quem os reis encomendam os exércitos e legiões, ou o governo das províncias, ou a administração das cidades, os quais já com manha, já com força, roubam e despojam os povos. — Os outros ladrões roubam um homem: estes roubam cidades e reinos; os outros furtam debaixo do seu risco: estes sem temor, nem perigo; os outros, se furtam, são enforcados: estes furtam e enforcam.
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Diógenes, que tudo via com mais aguda vista que os outros homens, viu que uma grande tropa de varas e ministros de justiça levavam a enforcar uns ladrões, e começou a bradar: — Lá vão os ladrões grandes a enforcar os pequenos. — Ditosa Grécia, que tinha tal pregador! E mais ditosas as outras nações, se nelas não padecera a justiça as mesmas afrontas! Quantas vezes se viu Roma ir a enforcar um ladrão, por ter furtado um carneiro, e no mesmo dia ser levado em triunfo um cônsul, ou ditador, por ter roubado uma província. E quantos ladrões teriam enforcado estes mesmos ladrões triunfantes?
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(Texto extraído de Sermão do bom ladrão, de Pe. Antonio Vieira)
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[PDF]

1 Antônio Vieira Imperador da língua portuguesa

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todas extraídas do Sermão do Bom Ladrão. Vieira falou muito, como é de seu costume, e eu pouco, pois quanto mais silencioso fico, mais aprendo com ele. .
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A oratória do Pe. António Vieira, S.J.





Título [PT]: Padre Vieira, o homem e o discurso : uma leitura do Sermão do bom ladrão e do Sermão de Santo Antônio aos peixes
Autor(es): Esdras Mendes Linhares
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Resumo:
Resumo: Pode-se afirmar que, em decorrência da sua colonização, o Brasil tem uma relação histórica, cultural e social com Portugal. Assim sendo, as raízes da cultura e literatura brasileiras são portuguesas. Em função dessa afinidade, reputa-se como importante estudar as obras dos autores portugueses, sobretudo aqueles que têm uma proximidade maior com a literatura brasileira, como é o caso de Antônio Vieira, conhecido como o orador de dois mundos. Avaliando a importância de Vieira para a literatura brasileira, propôs-se fazer uma leitura crítica de dois sermões de sua autoria, "O Sermão de Santo Antônio aos Peixes" (1654) e "O sermão do Bom Ladrão" (1655). A escolha dos sermões justifica-se pela densidade teológica do seu conteúdo e pela forma como Vieira aplica esses princípios aos problemas da sociedade da sua época. Procura-se observar no corpus escolhido: a relação do discurso de Vieira com o discurso clássico, com a sociedade do seu tempo e os seus posicionamentos em relação ao modus operandi das instituições da sua época. As teorias que embasam a análise são a Estética da Recepção de Hans Robert Jauss (1985) e a Crítica Sociológica de Antonio Candido (1994). Para dar consecução ao trabalho foi realizada uma pesquisa bibliográfica com a finalidade de conhecer aspectos que permitem enquadrar a obra de Vieira no seu contexto histórico-sócioideológico. Num primeiro momento, foi estudado o discurso clássico, observando o seu surgimento, desenvolvimento e os principais expoentes. Esse estudo serve como embasamento para avaliação dos elementos clássicos presentes no discurso de Vieira, com vistas a uma compreensão melhor do impacto da sua eloqüência na sociedade contemporânea. Na seqüência da leitura, busca-se conhecer o discurso moderno, estudando a estética da recepção de Hans Robert Jauss, (1994) que ressalta a importância do leitor do passado e do presente na construção do significado da obra; e a crítica sociológica, de Antonio Candido, (1985) que, por sua vez, contribui para esta leitura com subsídios que permitem estabelecer a relação do autor com a sociedade contemporânea, observando as influências da sociedade nos seus escritos e, até que ponto, as suas idéias influenciaram a sociedade contemporânea e qual a sua validade para a sociedade atual. O estudo do contexto tem o objetivo de conhecer as circunstâncias da época em que a obra foi escrita e observar o autor no seu ambiente. Os conhecimentos adquiridos nessa pesquisa são aplicados à análise do corpus, com a finalidade de comprovar as hipóteses levantadas inicialmente. Dessa forma, acredita-se que irá sobressair da leitura desses escritos, aspectos do pensamento de Vieira que permitam que ele seja reconhecido como vanguardista o que, sem sair da finalidade explícita, resultam na valorização da figura de Vieira.

Abstract: Brazilian literary and cultural roots are actually Portuguese since Brazil has a historical, cultural and social relationship with Portugal owing to colonialism. These affinities enhance the importance of studying the literary works of Portuguese authors, especially those closest to Brazilian literature. This is the case of Padre Antonio Vieira known as the orator of the Old and New World. So that the importance of Vieira in Brazilian literature may be evaluated, "The Sermon of the Good Thief" (1998) and "The Sermon of St. Anthony to Fish" (1998) are read critically. The two sermons were chosen for their dense theological contents and for the manner Vieira applies these principles to the problems of contemporary society. The relationship of Vieira's discourse to classical discourse and to the society of his times and his stance with regard to the modus operandi of the institutions of his times have been the factors examined within the chosen corpus. Jauss's Aesthetics of Reception Theory (1985) and Candido's Sociological Critique (1994) underpin current analysis. A bibliographical research has been undertaken so that Vieira's literary work may be placed within its historical, social and ideological context. Classical discourse, comprising its birth, development and its main authors, is investigated so that the classical elements in Vieira's discourse could be assessed for a better understanding of the impact of his eloquence within contemporary society. Modern discourse is further studied through Jauss's aesthetics of reception that highlights the past and present reader's importance in the construction of the literary work's meaning. Candido's "sociological critique" contributes towards this interpretation by establishing the author's relationship with contemporary society. The latter is undertaken through an analysis of society's influence in his writings and through an investigation to see to what extent his ideas have influenced contemporary society and their worth in current society. Context study aims at understanding the author in his own environment and the circumstances in which the literary work was executed. Conclusions are thus applied to the analysis of the literary corpus so that the hypotheses stated at the start may be proved. It is expected that certain aspects of Vieira's ideology will show the progressive stance of the sacred orator.
Data da defesa: 20/03/2007
Código: vtls000165321
Informações adicionais:
Idioma: Português
Data de Publicação: 2007
Local de Publicação: Maringá
Orientador: Prof. Dr. Aécio Flávio de Carvalho
Instituição: Universidade Estadual de Maringá . Departamento de Letras
Nível: Dissertação (mestrado em Letras)/
UEM: Programa de Pós-Graduação em Letras
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Padre Vieira, o homem eo discurso : uma leitura - Nou-Rau System UEM

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António Vieira e a paranética religiosa


 




Jorge de Souza Araújo
UFBA

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A prática da oração sagrada é particularmente extensa e intensiva na tradição ocidental. Por isso mesmo, na literatura portuguesa, a parenética religiosa figura como um dos primeiros na ordem cronológica dos estilos. Em Portugal e por toda a Península Ibérica — berço das reações contra-reformistas — tal tradição encontrou eco em muitos pregadores que, em seu tempo, notabilizaram o púlpito cristão em manifestações da retórica sagrada com fins de catequese, convencimento e doutrina.

No século XIII, destacam-na S. Antonio de Lisboa, S. Gonçalo de Amarante e D. João Afonso de Azambuja. Durante o Renascimento, a oratória é do tipo erudita e delicada, rigorosamente classicista. No século XVI, com o advento do Concílio de Trento, florescem pregadores como Fr. João Soares, Diogo de Paiva de Andrade, Fr. João de Leite, Fr. Filipe de Luz, Fr. Tomás da Veiga, Francisco Fernandes Galvão e Fr. Bartolomeu dos Mártires. Mais o padre Tomás da Costa, pregador de D. João III, Fr. Amador Arrais, pregador de D. Sebastião e o padre José Luiz Álvares, pregador libertário contra a dominação filipina.

Já entre os séculos XVII / XVIII, o padre Manoel Bernardes, na opinião de alguns, ombreia com Vieira e até mesmo o suplanta no castiço da língua e na variedade dos escritos de caráter espiritualizante e místico. São ainda nomes do século XVII os padres Antonio de Sá, Manoel Caetano de Sousa, Bartolomeu de Quental, Francisco de Mendonça e outros.

No século XVIII os nomes que pontificam são os de Rafael Bluteau, Francisco António Rodrigues de Azevedo e os frades Alexandre do Espírito Santo Palhares, Caetano Brandão, Francisco de São Carlos e Joaquim de Santa Clara Brandão.

O século XIX marca a assunção da tribuna política do púlpito, por exigência de uma época sacudida por novos regimes constitucionais e parlamentaristas. Destacam-se como oradores Silveira Malhão, Antonio Cândido, Aires Gouveia, Manuel Eduardo da Mota Veiga, Francisco José Patrício, D. Augusto Eduardo Nunes e Santo Farinha. Na ausência de parlamento e imprensa, o púlpito viu-se transformado no único espaço de ressonância para veicular denúncias e desmascarar injustiças. Os nomes foram se sucedendo nessa fase da vida das nações e o púlpito foi perdendo suas características de lugar exclusivamente para pregações religiosas.

Logo, é rica e ampliada a galeria de oradores sacros na civilização portuguesa e Vieira não é o primeiro nem o único pregador de renome nessa galeria, salientando-se outros também e com larga popularidade na faixa de leitores cujo perfil descrevemos em outro trabalho nosso, resultado de nossa tese de Doutoramento.

Um ponto há, porém, que se reconhecer: o precursor do uso da tribuna católica para imprecações políticas e ideológicas foi, sem dúvida, o padre António Vieira que, com inflamados discursos em feição indireta e sutil, exproba preocupações sociais e defesa da missão apostólica e libertadora do homem. Embora transigindo em alguns aspectos sob a ótica do colonizador, foi Vieira quem primeiro no Brasil se bateu contra a escravidão, sobretudo a escravidão dos índios, através de memoráveis sermões como o da “Santa Dominga”, “da Segunda da Quaresma”, “da Epifania” e “de Santo Antonio — aos peixes”.


Estilo barroco e estilo vieirino

A arte de falar é, por sua própria natureza, um fenômeno contingente. Sofre influências de ordem diversa, em vista de fatores sociais, culturais e políticos próprios das circunstâncias históricas em que o pregador — o orador — vive.

Barroco por identidade e formação, António Vieira soube, como poucos, aproveitar-se muito bem das ambivalências do estilo e de todos os ingredientes da oratória, degraus e recursos do púlpito para fazer-se ouvido e traduzir à gente suas investidas apostólicas. De caráter polêmico, sua vocação tribunícia cedo se manifestaria e, ao longo dos anos, foi se sedimentando, na medida de seu envolvimento nos destinos de Portugal colonizador e nação católica. Em todas as invectivas retóricas, marcadas sempre pelo traço inconfundível da eloqüência barroca, da agressividade e do ataque sistemáticos a tudo o que lembrasse Reforma e Renascença, Vieira pautou uma linguagem erudita, alta, notoriamente persuasiva, como instrumento para “ganhar” o interlocutor, fosse este leitor ou ouvinte. Nos sermões ou nas cartas, essa faceta de polemista em Vieira está manifesta. Em carta dirigida ao rei D. João IV, seu ouvinte dedicado e fiel defensor nas querelas palacianas, Vieira defende os cristãos novos no Brasil, apresentando-os como representantes do poder econômico que poderia auxiliar Portugal em sua empresa colonizadora, assente com as idéias quinto-imperialistas e os ideais obsessivos de restauração do Reino:




Finalmente, libertando-se o comércio andará tudo, ou quase tudo, em naturais do reino, com que ficarão todos os interesses da mercancia nele, e não em mãos de estrangeiros, como está hoje, que, além de serem privilegiados de tributos, contra o estilo de todas as nações, enriquecem as suas com o que tiram das nossas terras, e, não se contentando com serem senhores do comércio de nossas conquistas, o querem ser também de Portugal, como já o são, fazendo-se cá tanto dano a sua indústria como lá a sua violência: inconveniente em que muito se deve reparar, e que pede pronto remédio, que é o que se representa[1].
Repare-se que o arguto epistológrafo prefere as portas travessas, a sinuosidade, para fazer ver ao rei os males provocados pela intolerância e o vácuo do poder, com a necessidade de utilizar-se o dinheiro dos cristãos novos e não matá-los, como pretendia a Inquisição Portuguesa. Mantendo-os vivos e gratos, mais fácil e rápido se poderia reassumir o território brasileiro em poder dos protestantes holandeses, com o que também se alargaria o poder católico dos portugueses no mundo. Conservando vivos os judeus, sob a custódia do reino de Portugal, Vieira preferia tê-los aliados na batalha contra as armas de Holanda e, num futuro próximo, para a vitória consagrada e definitiva de Portugal na formação do Quinto Império. Nisso se afere a profunda vocação polemizadora do jesuíta, mais político e diplomata que os conselheiros da Corte em Lisboa, depois interlocutor privilegiado nos negócios e interesses de Portugal na Europa.

Na opinião de Afrânio Peixoto, “os melhores sermões de Vieira foram os que ele não pôde pregar e deixou escritos” [2]. Mesmo nessa consideração particular o polemista se faz presente, sobretudo pelas características temáticas. Seus escritos revelam um autor ciente de seu ofício, mas igualmente um pregador e um apóstolo atento às regras de sua missão evangelizadora.

Notadamente nas cartas Vieira revela uma profunda vocação social. Nelas, melhor exprime seu pensamento, esboçado apenas (e, às vezes, limitado) nos sermões. Na fase mais aguda de sua defesa do homem contra o homem, a da catequese do Maranhão, ele escreveu dezenas de cartas na tentativa de eliminar oposições ao trabalho dos jesuítas na região e, simultaneamente, combater a matança de índios e o escravagismo criminoso dos colonos portugueses. As cartas, em maior número que os sermões, como que completavam as idéias do pregador, ampliando o raio de sua ação apostólica e o agregando na intervenção estilística.

O poder expressivo do estilo vieirino manifesta-se em metáforas construídas sem pendor cultista, nos apólogos, exemplos e aproximações com situações outras vividas por personagens bíblicas e através de interrogações, invectivas e exclamações conceitistas. O paralelismo de certas cenas em seu texto é sempre feito de forma a impressionar o auditório, levá-lo a repensar sua condição de cristão: “A melhor e a pior coisa que há no mundo é o conselho. Se é bom, é o maior bem; se é mau, é o pior mal” [3]. A par do evidente tom sofístico dessa máxima, observa-se a escora gramatical, feita de antíteses na sintaxe, na fonética e na modulação ortográfica e morfológica. Passa-se do adjetivo “melhor” ao seu oponente “pior”, do adjetivo “bom” ao seu oposto “mau”, dos substantivos (que, em outra situação, poderiam ser advérbios) “bem” a “mal” etc.

A fórmula constante utilizada por Vieira para realçar o estilo de seus sermões e cartas era a glosa de textos bíblicos. Geralmente citava-os em latim, traduzindo-os, ou não, como os trechos de David citados no “Sermão ao bom sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda”, em que o pregador recrimina o Deus do Velho Testamento por abandonar o seu povo à sanha dos inimigos, à ameaça de extermínio na guerra contra os protestantes holandeses. Um outro ângulo de paralelismo é o próprio confronto David/Vieira, com as interpolações severas de ambos ante a divindade “indiferente” à salvação do povo eleito. O estilo é arrebatado, passional, ousado, quase profano.

Ao condenar o estilo dominicano de pregar e o próprio barroquismo na exacerbação retórico-metafórica do Cultismo, Vieira aventura-se na crítica literária, opondo um estilo à Sêneca (rítmico, direto, acessível), de preferência ao livresco ou rebuscado, gongórico ou artificioso, interpretados como homenagens barrocas a Cícero. Isso faz a sua diferença de outros pares na parenética religiosa. As armas que Vieira apresenta são do ataque frontal aos reformistas, ao antropocentrismo culto e às vilanias coloniais. Seu poder de fogo é aparente, de par com a eloqüência retumbante e poderosa na ação que dele decorre ou que ele induz. Aliando uma inteligência e memória excepcionais à pessoal integridade, Vieira perora mediante a argumentação e o entusiasmo de suas convicções. Daí a maioria de seus estudiosos considerar melhores aqueles sermões em que ele combate, acusa, investe, denuncia os inimigos da fé católica ou os opressores do homem em seu tempo.

Isso, ao nosso ver, não invalida as incursões vieirinas no âmbito da Filosofia, da Estética e da Ontologia, da Retórica clássica ou da Exegese teológica, sobretudo à luz dos Santos Doutores da Igreja. A técnica de criação em Vieira, como a da pregação, parece-nos dosada em instinto e reflexão, temperada em ritmo simples e recorrente, alternância de frases curtas e longas, paralelismos, sinuosidades, antíteses. Vieira, assim, seria fiel representante da ordem a que servia, pois se municiava continuamente de uma tática peculiar ao jesuitismo. Socorria-se com relevância da memória, da declamação, do paradoxo, emitindo símbolos, analogias, dúvidas e conflitos ao auditório. No entender de Hernani Cidade, não era Vieira um sofista, nem um místico ou um metafísico; era um teólogo, um apóstolo[4].

Vieira não professava a dialética clássica em seu sentido original. A ânsia evangelizadora levava-o a não conferir autenticidade a contestações ou protestos contra sua fala. Encarnava um poder emanado diretamente de Deus, exercido do púlpito e como tal imune a quaisquer signos de crítica ou reparo. Como o estilo de época autoriza a idéia do homem obrigado a enxergar-se como matéria vil e a voltar-se para o Deus do Velho Testamento, a base catequética de Vieira, no imperativo desse estilo, seria a de ameaça do inferno ao cristão, seu ouvinte. Por isso, a série apocalíptica dos sermões do Advento. Em sua parenética, o que objetivava Vieira era confundir o auditório, alinhando, de forma absolutista, razões e exemplos univocamente de seu lado e forçando o ouvinte a refletir e praticar conforme dogmas católicos e jesuíticos. Daí o caminho pela persuasão, mais que pelo simples ensinamento moral (faces, aliás, da didática retórica bebida em Aristóteles).

Costuma-se afirmar que os gramáticos muito teriam a aprender com a prosa de Vieira, espécie de codificador de inúmeros vocábulos e sistematizador de contribuições morfo-sintáticas e estilísticas, a um tempo filho dileto do espírito barroco e atento ao temperamento pessoal criador. A retórica bíblica, inflada do clássico e do barroco, assume impressionante unidade, clareza expositiva e força surpreendente nos sermões e cartas vieirinos. Conquanto não se tenha deixado influir pelo cultismo gongórico (desenvolvido pelos dominicanos), Vieira combina a metáfora assemelhada com a criação original, em maior profundidade, mais afeita ao conteúdo, ao racionalismo dogmático e eclesiástico, ao estado de convencimento das verdades oriundas do púlpito. Vieira seria cultor do idioma, não dos ornatos barroquistas. Por isso sua obra é um repositório de paralelismos, circularidades, repetições recorrentes e exaustivas, justamente para fixar no ouvinte sensações de temor a Deus e obediência aos preceitos da Igreja. Marcada por antíteses, sua obra se apóia na reiteração enfática com vistas a violentar padrões dos ouvintes e no meio destes instilar obediência e modelos de amar o Verbo do Todo-poderoso.

A mecânica dessas antíteses estaria no próprio catolicismo de retorno à Idade Média, fazendo florescer figuras de pensamento no desejo de impor ao ouvinte nova ordem de idéias que permitisse comparar e examinar o volume de erros e vícios humanos. Não se esgota aí a possibilidade, contudo. O Barroco, por suas características, entendido como um estilo de formas redondas, circulares, recorrentes, reiterativas, feito de curvas e relevos, confirma o caráter e natureza do discurso antitético desenvolvido por Vieira.

Essa retórica teria assim seu curso determinado desde a Bíblia. Nas Escrituras Vieira encontra motivos e exemplos numerosos para convencer, orientar e transgredir seu auditório na dimensão evangélica. O jesuíta segue pegadas da Bíblia com uma hermenêutica particular, construindo, entretanto, e por moto proprio, uma parenética de base não necessariamente factualista, mas verossímil, fechada em si mesma e disposta à reflexão unilateral. Para Jamil Almansur Hadad, “a retórica barroca não se faz em torno de motivos, mas sim de pretextos” [5]. Vieira seria, nesse sentido, um exemplar observante da tese, aliando pretextos os mais sagazes para expor seu pensamento ao racionalismo católico contra pecadores de todos os matizes.

No capítulo da circularidade, do reiterativo de seus sermões e cartas, mesmo ante o predomínio do objeto persuasivo, nada nos leva a inferir clareza das verdades do pregador. Vieira, no entanto, é claro na exposição e uno na estruturação de seus textos. As idéias que expõe podem se mostrar claras pois a meta é persuadir pela palavra e exemplo. Suas verdades, porém, não são claras (e nisso, aliás, reside mais um fundamento barroco). O estilo vieirino se orienta pelo gosto do obscuro, do aprofundado, do “difícil”, porque eivado do Mistério, do arrebatamento ascético. A circularidade prende o ouvinte até o final de cada peça oratória e a verdade do discurso só ao final fica relativamente aparente ou, antes, sugerida. A pregação é toda manipulada, via metáfora e mito, o pregador enumerando ações e parábolas, citando de memória passagens da Bíblia, ou da História, ou da Filosofia, para exemplificar, para ilustrar seu raciocínio.

O gosto no tornar óbvio o estranho, em inverter os raciocínios sobre o estupefaciente, em disseminar a dúvida, particularmente a respeito de nossa condição de mortais, de pó (outra característica barroca), funciona como jogos de efeito a fim de intensificar no ouvinte o temor a Deus. O pregador busca suster o auditório e seus sermões, calcados nas atribulações e conflitos humanos, são propositalmente extensos, gestuais, grandiloqüentes. A pregação é desenvolvida num crescendo sucessivo de vibração emocional, traduzindo, em hipérboles místicas, a retórica da autoridade religiosa, reunindo as comoções, doutrinas e prescrições do universo divino, estabelecendo-se o sincretismo do humano com o misterioso e o escatológico.

Mas o mistério reside nas idéias (no conceito) e o cultismo, quando aparece, a elas se agrega, só a elas serve, só a elas favorece. Por isso Vieira, sempre que pode, faz uso da linguagem erudita e letrada, barroquizante, por estilo e gozo estético, e pela prática sinética de conjurar o ouvinte, persuadi-lo ou dissuadi-lo, arrancá-lo do torpor ou da perversão e lançá-lo enfim na direção única do teocentrismo.

Daí discutir-se a intencionalidade literária em Vieira. Que ele não teria deliberado na criação de novos elementos lingüísticos ou literários, a ela chegando por instinto. Como seu intento evidente era convencer, assegurar para as almas o reino dos céus ou melhores virtudes na terra, todo o seu esforço criador naturalmente seria dispendido no sentido do conteúdo, do convencimento teológico. A diferenciação lingüística, o pathos humano assumido, a incorporação conforme o estilo, a imitação gongórica ou quevediana e outros elementos estéticos correriam por conta de Gregório de Matos Guerra, poeta maior do Seiscentismo no Brasil e barroco por excelência.

Ainda que não tenha exprimido a consciência da mentalidade barroca quanto à impressão estética, atendendo muito mais aos efeitos e reflexos convencionais do que enunciava, Vieira desenvolveu o que poderíamos compreender como o estético psicológico, a beleza determinada por um estado de instinto predominantemente criador e original. Daí sua filiação à convenção barroca do conceitismo, o conteúdo primando sobre a forma, especialmente a forma cultista, ornamental, de linguagem artificiosa, abominada pelo pregador.

Como estilo de época que prefigura processos mentais de correspondência alegórica, o Barroco permitia incursões livres pelo sonho e pelo criativo dos retratos. Assim, às vezes, se processava o figurado pela figura, o retratado pelo retrato, o sinalado pelo sinal, o simbolizado pelo símbolo. Donde o raciocínio por imagens.

A imagem em Vieira, aliás, é característica do sincretismo ibérico eclodido pós-Concílio de Trento, profundamente influenciada pela Bíblia e pela exegese dos Doutores, mas avançando depurada e com personalidade individual. O pensamento vieirino é contra-reformista e conceitual pelos automatismos e psicologia barrocos, mas sinuoso o bastante em sustentar o discurso pela transposição alegórica com requintes da contribuição pessoal, única, intransferível. As imagens preponderam, subordinadas ao universo barroco, cuja postura formal não exige coerência, ou unidade, mas não abre mão do imaginário. Praticamente tudo no barroco de Vieira, pode dizer-se, reproduz-se por imagens. O padre, todavia, imanta seus textos de coerência interna, unidade estrutural, clareza de idéias (embora as verdades permaneçam necessariamente obscuras), fazendo uso de imagens vivas, adventícias e vibráteis, como recurso hábil para conquistar seu auditório, ou leitorado.

Em contrapartida, no interior da ideologia barroca, é Vieira um inovador e um fabulista, para tanto concorrendo sua fama de orador sacro, cognominado “O Crisóstomo português”. Ouvi-lo na igreja de São Roque, em Lisboa, foi moda entre os nobres de sua época. Introduziu na oratória sagrada as preocupações políticas e sociais e em conseqüência chamou a si toda a sorte de ouvintes, dos curiosos aos inimigos declarados. Sua prosa, não preconcebidamente intelectualizada, representa articulação dialética e singular, com deduções silogísticas nos moldes do redil teocêntrico: é limpa e ágil, engajada às postulações arbitrárias do jesuitismo e do barroco contra-reformista para figurar no ouvinte o pânico da morte em pecado.

A montagem original da parenética vieirina poderia ser assim compreendida: trechos bíblico-clássico-teológicos, mais alegoria, igual a dogmatismo. As citações das Escrituras são motes ideológicos do discurso persuasivo. A correspondência alegórica, rica e convincente, pontilha o texto com base na constatação psicológica, em fatos da História Social e da História Natural, nos exemplos dos ascetas, no doutrinamento católico, nas revelações e manifestações do amor divino e nas idéias (barrocas, mais uma vez) de que o mundo estará irremediavelmente sucumbido se o homem se afastar da caridade e do amor cristãos.

A tendência profetizante em Vieira é um dado curioso que comporta algumas interpretações. Há quem afirme, por exemplo, que esse veio profético de Vieira correria por conta de um seu distante parentesco judaico. Outros, simplesmente, ridicularizam a veleidade profética do pregador. Comparado aos grandes pregadores franceses (Bossuet, Bourdaloue, Massillon, Fléchier), percebe-se que Vieira antecipa o salto da parenética ortodoxa com a direção apostólica de seus sermões e a intervenção de idéias políticas, de libertação social e de profecia expansionista da fé.

Independente disso, mesmo nos sermões de natureza pronunciadamente política, o que se torna superlativo em Vieira é sempre o pregador religioso, ainda que travestido em tribuno ou agitador social. A principal área de seu interesse é a Restauração Portuguesa e, com ela, a salvação de almas para o reino católico de um Deus eternizado pela Palavra. Defendendo o progresso social com a liberdade dos gentios, a vitória final das forças cristãs católicas (povo eleito por Deus conforme a parcialidade leitora), ainda que fosse necessário conceder, Vieira refletiu o homem em várias posturas e circunstâncias temporais. Por isso atacou maus políticos, maus ministros (da Igreja, inclusive), maus administradores. E ainda quando se defendia, ou quando defendia a fé católica, era pelo ataque que se orientava. Sua intenção final, sua ambição definitiva: a cristandade triunfante, o ideário católico acumulando espaços e gentes no espectro ideológico da Contra-Reforma. Para tanto o inquieto jesuíta utilizar-se-ia de todos os ardis, da linguagem aos jogos retóricos, dos exemplos e ações humanos às ameaças do fogo candente do Inferno. E tudo com um estilo personalíssimo em que pontifica a persuasão, a persuasão como força motriz, como leit-motiv de suas brilhantes peças, libelos, anátemas das novas cruzadas operadas pela Companhia de Jesus.


A persuasão como estratégia de conquista para Deus

Os primeiros estudos sobre a natureza da persuasão como disciplina retórica foram provavelmente os de Aristóteles, filósofo canonizado pela escolástica tomista. Na Arte retórica, o Estagirita impetra o debate sobre o tema, justificando, dentre os princípios da arte da argumentação, e como uma de suas bases constitutivas, a persuasão. A outra grandeza seria o ensinamento moral.

Para Aristóteles, a Retórica tem na eloqüência o condutor das paixões provocadas pelo orador no auditório. Segundo ele, o principal em Retórica será a arte das provas, ou seja, a habilidade em discernir, a cada questão, o que seja apto a persuadir o ouvinte. Essa persuasão, todavia, não se realiza no plano da demonstração da verdade (critério, aliás, da Ciência), mas pela revelação do verossímil, pela força da eloqüência. O processo da transferência dessas provas se articula não pelo analítico, mas pelo dialético.

Aristóteles considera que a finalidade da Retórica não é persuadir, mas ensinar o possível. A Retórica desvela o que é próprio para persuadir (em cada caso o que é, tecnicamente, capaz de persuasão)e, pela descoberta, monta a transformação da opinião pública e da mentalidade do auditório. Ao orador, useiro da disciplina retórica, são indispensáveis qualidades e atributos não apenas de ordem intelectual. É necessário ainda que ele represente virtudes morais para poder influir no ânimo da comunidade que ouve. Assim, o orador deve servir como modelo ético a fim de que, por meio do discurso (demonstração oral de suas convicções e seus valores), possa orientar o ouvinte na reflexão e prática de ações morais e espirituais que resultem em bem comum.

Vieira dispôs sempre do veio persuasivo com a finalidade de manter seu auditório nas fileiras católicas. Munido das três observações aristotélicas quanto à moral do pregador, influindo sobre a disposição do ouvinte por meio da demonstração (discurso), o jesuíta amiúde imprime em seus sermões uma característica retórica predominantemente persuasiva, avançando sempre além do simples ensinamento moral. Aristóteles dizia que “o orador que defende ou acusa não deve apenas demonstrar, mas realçar qualidades ou defeitos que o assunto encerra, seja por análise individual, seja por confronto”[6]. Tais requisitos são intensamente utilizados por Vieira, que aprofunda seus assuntos dando-lhes o máximo de refinamento e percuciência e confrontando modelos e comportamentos no sentido de demonstrar ao ouvinte a verossimilhança de suas afirmativas.

Onde a retórica vieirina destoa e se descaracteriza quanto ao modelo aristotélico é na observação segundo a qual a Retórica é filha da dialética e da política. Na verdade, se há um atributo absolutamente inexistente na obra de Vieira é o pressuposto dialético. Falta a esta obra a disponibilidade de ouvir, de debater, de exercitar-se dialeticamente. Profundamente jesuíta e intrinsecamente disciplinado, Vieira comunga do dogma, resultado de penosos exercícios espirituais, talvez. Seu sermonário é, pois, intimamente vinculado ao apostolado, à iminência da morte, à indução do leitor/ouvinte ao desapego material e cuidados ascéticos em face do Inferno inevitável. O que procura essa obra é a prática de ações, a peroração ilustrada com menções escatológicas, apelando para as repetições, os silogismos, os paralelismos, de sorte a convencer o ouvinte da justeza e prerrogativas do caminho cristão.

Aristóteles observava que a demonstração da verdade retórica (arte das provas) ocorre pelos processos da indução (exemplo), do silogismo e do silogismo aparente. A indução é matéria de extraordinária capacidade persuasiva em função de sua aptidão em tornar clara aos sentidos do ouvinte a trajetória das provas, ainda mais entre pessoas de pouca instrução — caso do auditório barroco. O silogismo, mais intelectualizado, como procede do esforço de verossimilhança e dos sinais propostos tacitamente ao ouvinte, facilita a técnica da explicitação, da demonstração cabal do assunto tratado. Por isso mesmo é mais forte, de maior impacto, sobretudo no confronto dialético, para derrubar os argumentos dos contraditores. Aristóteles defendia também que os discursos com base em exemplos são mais persuasivos que os baseados em entimemas (silogismos oratórios), embora estes últimos impressionem mais o auditório. Já o silogismo aparente, por utilizar-se de proposições verdadeiras aparentemente conformes com a opinião, reforça a idéia mais geral do público, fortalecendo o senso comum e alcançando maior eficácia retórica.

Na medida das conveniências doutrinárias, Vieira usa desses três modelos aristotélicos. Da indução, para demonstrar mais facilmente aos ouvintes a natureza inelutável de seu discurso. Pela ilustração dos exemplos, tornando a demonstração muito mais fácil de penetrar na alma e no raciocínio do ouvinte. Ainda seguindo a cartilha peripatética, o padre Vieira busca as demonstrações mais extravagantes, menos conhecidas e correntes, para transfigurá-las, torná-las factíveis à persuasão, posto que nessas o senso comum ainda não se estabeleceu. Por essa razão, quando toma um assunto, Vieira costuma refletir, ruminar, insistir, reiterar, recorrer, até esgotá-lo, tendo o cuidado constante de fechar todos os círculos e saídas para que seu ouvinte não consiga escapar ao aprofundamento espiritual que o conduza ao temor/amor de Deus, à obediência cega, à salvação do fogo dos infernos pelo alcance dos contrários do pecado. A persuasão assim resgata o ouvinte para os procedimentos de retidão, desprendimento material, caridade e amor.

A persuasão em Vieira alcança o raio da alegoria — de resto, um recurso típico da tradição medieval — como reforço à grandeza dos padrões sociais e éticos. Consubstanciada pelo modelo do pregador, alimenta-se também da ironia, da sátira, do ataque (sutil ou explícito) contra vícios morais e administrativos dos representantes do rei na Colônia do Brasil. Assim é que, no “Sermão do Bom Ladrão”, Vieira fala de políticos e administradores que furtam, roubam e enforcam, escondendo suas próprias falcatruas. O suporte alegórico do bom ladrão é a demonstração pouco corrente, escolhida pelo pregador para testemunhar melhor dos erros de sua época, dos crimes de superiores e nobres e de colonizadores reles, distantes da justiça reinol e divina.

O Deus de Vieira, como vimos, quando quer castigar, é o do Velho Testamento (onisciente, onipresente, todo poderoso e vingativo). Nesse caso, a base catequética do sermonário vieirino assume a persuasão através do medo, da dúvida, dos tons ameaçadores. Mais ameno se torna com o Deus Filho, pela idéia da dívida do cristão para com o Salvador, que deu a vida para remir uma raça de homens maus, ingratos e criminosos. Vieira tudo faz, então, sem articulação dialética ou deduções silogísticas convencionais, mas por postulações arbitrárias, pelo dogma da Revelação e pelo terror psicológico calcado em circunstâncias bíblicas, históricas ou ontológicas. A isso, porém, atém-se o pregador face ao espírito do século XVII e do próprio barroco, a que não deixa faltar uma certa impregnação profetizante, o que lhe valeria, aliás, um tanto de crítica desairosa e os embaraços bandarristas junto ao Santo Ofício.

Não é sem razão que os sermões tidos como os mais felizes de Vieira sejam justamente aqueles em que o diapasão de polemista encontra-se a serviço da natureza persuasiva como instrumento de conquista do rebanho católico. Da relação de Afrânio Peixoto, teríamos: “da Sexagésima”, “pelo bom sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda”, “da Primeira Dominga do Advento”, “de Santo Antonio — aos peixes”, “da Delegação de São João Batista”, e “da Epifania”. A esses certamente os estudiosos poderiam relacionar outros tantos, de acordo com as impressões individuais. Em todos, de qualquer modo, salienta-se o contraponto de guerra declarada do pregador contra o amoralismo e os vícios humanos, mediante uma linguagem fervorosamente perfilada no sentido de um estoicismo cristão feito à semelhança do gentio Sêneca — o filósofo mais amado e citado por Vieira.

O próprio pregador observa a persuasão constituindo o melhor de sua obra parenética. Chega mesmo a confessá-lo explicitamente como arma de insinuação e eficácia no “Sermão da Sexagésima”, quando defende “a pregação que frutifica” como sendo aquela “quando o ouvinte, a cada palavra do pregador, treme, vai para casa atônito e confuso”[7]. Aí se desdobra tanto a ideologia barroca, quanto a do pregador. Sua intenção será, portanto, além de confundir o auditório, anular qualquer possibilidade de herança renascentista ou antropocêntrica. E qual o recurso então manifesto senão a persuasão pelo medo, pela dúvida? Não persuade pelo esforço dialético, porque o que deseja é fazer o ouvinte tremer, atônito, incerto em sua efemeridade. Nem pela reflexão e análise crítica, contrárias ao dogma. A persuasão vieirina vinga pelo temor e confusão infundidos no ouvinte. E o pregador ajunta ainda uma fieira de sentenças de cunho terrorífico para implantar o regime de caos no espírito do auditório: “Assim que desde o primeiro instante da vida, até o último, nos devemos persuadir a assentar conosco que não só somos e havemos de ser pó, senão que já o somos”[8].

Em nosso entender, não é gratuita a ultimação do verbo “persuadir” conforme aparece no trecho acima. Pois persuadir, mais que propriamente ensinar, parece ser a intenção dominante em Vieira. Passa o pregador de docente a vigilante obreiro de Deus, cobrador inflexível dos bons augúrios e ações dos homens:




Dá conta de todos os passos de teus pés, de todas as obras de tuas mãos, de todas as vistas de teus olhos, de todas as atenções de teus ouvidos, de todas as palavras de tua língua, e de tudo o mais que tu sabes, e não cabe em palavras[9].
Assim, que o homem não se pertença por inteiro, pois afinal não passa de pó ungido por Deus na condição de ser vivo e, como tal, a esse mesmo Deus deve dar sempre notícias de seus atos e de seus sentidos. Que nada escape ao conhecimento de Deus, adverte Vieira. O homem, mordomo de seu corpo e de sua alma, deve zelar e cuidar desse mesmo corpo e dessa mesma alma, dando notícia de seus gestos.

Sobre o homem, aliás, para persuadir ainda mais o ouvinte quanto ao egoísmo, a desgraça moral e, enfim, a transitoriedade da condição humana, aproveitando para reafirmar a infinitude e graça superior de Deus, Vieira assevera:




Não é o homem um mundo pequeno, que está dentro do mundo grande, mas é um mundo, e são muitos mundos grandes, que estão dentro do pequeno. Basta por prova o coração humano, que sendo uma pequena parte do homem, excede na capacidade e toda a grandeza e redondeza do mundo. Pois se nenhum homem pode ser capaz de governar toda esta máquina do mundo, que dificuldade será haver de governar tantos homens cada um maior que o mesmo mundo, e mais dificultoso de temperar que todo ele? A demonstração é manifesta. Porque nesta máquina do mundo, entrando também nela o céu, as estrelas têm seu curso ordenado, que não pervertem jamais; o sol tem seus limites e trópicos, fora dos quais não passa; o mar com ser um monstro indômito, em chegando às areias, pára; as árvores, onde as põem não se mudam, os peixes contentam-se com o mar, as aves com o ar, os outros animais com a terra. Pelo contrário, o homem, monstro, ou quimera de todos os elementos, em nenhum lugar pára, com nenhuma fortuna se contenta, nenhuma ambição nem apetite o falta: tudo perturba, tudo perverte, tudo excede, tudo confunde e como é maior que o mundo, não cabe nele[10].
Da condição humana assim refletida, tida em aparência ora com o quimérico, ora com o monstruoso, salta Vieira para a demonstração final de sua máxima parenética, denunciando a brutalidade dos mais fortes contra os mais fracos. A eloqüência do sermonário se prolonga e acentua nas cartas do jesuíta aos grandes de sua época. Escrevendo ao novo rei de Portugal, D. Afonso VI, filho menor de seu amigo e ouvinte D. João IV, já falecido, Vieira se mostra, mais uma vez, remissivo às Escrituras, semelhando o povo índio ao povo hebreu escravo no Egito:




Entre todas as injustiças nenhumas clamam tanto ao céu como as que tiram a liberdade aos que nasceram livres, e as que não pagam o suor aos que trabalham; e estas são e foram sempre os dois pecados deste Estado[11].
Mais adiante, na mesma carta, denuncia, indignado:




Em espaço de quarenta anos se mataram e se destruíram por esta costa e sertões mais de dois milhões de índios, e mais de quinhentas povoações, como grandes cidades, e disto nunca se viu castigo[12].
E chama a atenção do rei para as atrocidades cometidas contra os gentios indefesos, reclamando providências e buscando comprometer a Corte nas decisões, tudo através do vigor retórico e autoridade jesuítica, uma vez que “sobre os fundamentos da injustiça, nenhuma coisa é segura nem permanente”[13].

Leit-motiv em sua fala, e de forma direta ou indireta, a verdade é que a persuasão está inextricavelmente fixada mesmo nos menores jogos oratórios de Vieira. A fim de radicar os homens, os embrutecidos a purificados, na glória de seu Deus, o jesuíta frui todos os recursos de sua privilegiada parenética. Asim, no “Sermão do Mandato”, aludindo às excelências do amor divino, em confronto ou oposição ao amor humano, defende a superioridade daquele sobre qualquer outro, notoriamente para cobrar o amor humano ao Criador. Rememorando a passagem bíblica e a utopia renascentista do celebrado amor de Jacó por Rachel, filha de Labão, Vieira ressalta o engano do pastor e a sabedoria do pai. Jacó termina por servir mais sete anos a Labão, pois este, ao invés de Rachel, lhe dera Lia. Vieira entende que “se Jacó soubera que servia por Lia, não servira sete anos nem sete dias”[14]. E sentencia não ser assim o amor de Deus, que ama a Lia por ser Lia e a Rachel por ser Rachel. Ou seja: Deus ama a cada um segundo sua própria natureza ou condição. Diferentemente do homem, que gosta de uns e se aborrece com outros.


Notas



  • 1 VIEIRA, A. Cartas, T. I, 474. Obras escolhidas. Orgs. H. Cidade e A. Sérgio.
  • 2 PEIXOTO, A. Os melhores sermões. 3ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara, s.d., p.181.
  • 3 VIEIRA, A. Sermão da Sexta Sexta-Feira, feito em Lisboa, 1662.
  • 4 In: Introdução a Obras escolhidas de Vieira, prefácio e notas de Hernâni Cidade e Antonio Sérgio, V. I.
  • 5 VIEIRA, A. Sermões. Org. J.A. Hadad, Introdução. São Paulo: Difel, p.16.
  • 6 ARISTÓTELES. Arte retórica, arte poética. São Paulo: Difel, 1964, p.23.
  • 7 In: VIANA, Mário Gonçalves (org.) VIEIRA, A. Sermões e lugares seletos. 3ª ed. Porto: Ed. Educação Nacional, 1954.
  • 8 Idem, Ibidem.
  • 9 Idem, ibidem.
  • 10 Idem, ibidem.
  • 11 Carta de 20 de maio de 1656, T. I. Obras escolhidas de Vieira, org. H. Cidade e A. Sergio, p.226.
  • 12 Idem, ibidem.
  • 13 Idem, ibidem.
  • 14 Sermão pregado em 1650. In: VIANA (org.) op. cit.

http://www.letras.puc-rio.br/catedra/revista/2Sem_03.html

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