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quarta-feira, 22 de julho de 2026

Entrevista de Alexandra Lucas Coelho ao jornal Ágora

 


* Bruna Ribeiro e Lara Viana 

“O que aconteceu em Gaza representa o maior colapso do jornalismo internacional”

Entre Gaza, Afeganistão, Líbano e Palestina, Alexandra Lucas Coelho fez da reportagem um modo de atravessar conflitos e compreender o ser humano nos seus extremos. Nesta entrevista, aborda o drama de Gaza e considera que o mundo falhou por não pressionar Israel a favor do jornalismo.

 Como se apresentaria hoje: mais jornalista, mais escritora?

Continuo a ser jornalista isso não desaparece, tal como um médico nunca deixa de o ser. Mantenho a carteira profissional e volto à reportagem quando é preciso, como no Líbano e na Palestina depois de 7 de Outubro. Mas há vários anos que o meu trabalho principal são os livros: tenho romances em andamento e é nisso que concentro o meu tempo. Por isso, hoje sou sobretudo escritora, embora nunca deixe de ser jornalista.

sexta-feira, 8 de agosto de 2025

António Barreto - As notícias na televisão

* António Barreto 

“É simplesmente desmoralizante. Ver e ouvir os serviços de notícias das três ou quatro estações de televisão é pena capital. A banalidade reina. O lugar-comum impera. A linguagem é automática. A preguiça é virtude. O tosco é arte. A brutalidade passa por emoção. A vulgaridade é sinal de verdade. A boçalidade é prova do que é genuíno. A submissão ao poder e aos partidos é democracia. A falta de cultura e de inteligência é isenção profissional.

Os serviços de notícias de uma hora ou hora e meia, às vezes duas, quase únicos no mundo, são assim porque não se pode gastar dinheiro, não se quer ou não sabe trabalhar na redacção, porque não há quem estude nem quem pense. Os alinhamentos são idênticos de canal para canal.

Quem marca a agenda dos noticiários são os partidos, os ministros e os treinadores de futebol. Quem estabelece os horários são as conferências de imprensa, as inaugurações, as visitas de ministros e os jogadores de futebol.

Os directos excitantes, sem matéria de excitação, são a jóia de qualquer serviço. Por tudo e nada, sai um directo. Figurão no aeroporto, comboio atrasado, treinador de futebol maldisposto, incêndio numa floresta, assassinato de criança e acidente com camião: sai um directo, com jornalista aprendiz a falar como se estivesse no meio da guerra civil, a fim de dar emoção e fazer humano.

Jornalistas em directo gaguejam palavreado sobre qualquer assunto: importante e humano é o directo, não editado, não pensado, não trabalhado, inculto, mal dito, mal soletrado, mal organizado, inútil, vago e vazio, mas sempre dito de um só fôlego para dar emoção! Repetem-se quilómetros de filme e horas de conversa tosca sobre incêndios de florestas e futebol. É o reino da preguiça e da estupidez.

É absoluto o desprezo por tudo quanto é estrangeiro, a não ser que haja muitos mortos e algum terrorismo pelo caminho. As questões políticas internacionais quase não existem ou são despejadas no fim. Outras, incluindo científicas e artísticas, são esquecidas. Quase não há comentadores isentos, ou especialistas competentes, mas há partidários fixos e políticos no activo, autarcas, deputados, o que for, incluindo políticos na reserva, políticos na espera e candidatos a qualquer coisa! Cultura? Será o ministro da dita. Ciência? Vai ser o secretário de Estado respectivo. Arte? Um director-geral chega.

Repetem-se as cenas pungentes, com lágrima de mãe, choro de criança, esgares de pai e tremores de voz de toda a gente. Não há respeito pela privacidade. Não há decoro nem pudor. Tudo em nome da informação em directo. Tudo supostamente por uma informação humanizada, quando o que se faz é puramente selvagem e predador. Assassinatos de familiares, raptos de crianças e mulheres, infanticídios, uxoricídios e outros homicídios ocupam horas de serviços.

A falta de critério profissional, inteligente e culto é proverbial. Qualquer tema importante, assunto de relevo ou notícia interessante pode ser interrompido por um treinador que fala, um jogador que chega, um futebolista que rosna ou um adepto que divaga.

Procuram-se presidentes e ministros nos corredores dos palácios, à entrada de tascas, à saída de reuniões e à porta de inaugurações. Dá-se a palavra passivamente a tudo quanto parece ter poder, ministro de preferência, responsável partidário a seguir. Os partidos fazem as notícias, quase as lêem e comentam-nas. Um pequeno partido de menos de 10% comanda canais e serviços de notícias.

A concepção do pluralismo é de uma total indigência: se uma notícia for comentada por cinco ou seis representantes dos partidos, há pluralismo! O mesmo pode repetir-se três ou quatro vezes no mesmo serviço de notícias! É o pluralismo dos *papagaios no seu melhor!

Uma consolação: nisto, governos e partidos parecem-se uns com os outros. Como os canais de televisão.

Publicado a: 
Atualizado a: 

https://www.dn.pt/arquivo/diario-de-noticias/as-noticias-na-televisao-5407534.html

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2025

Alan Mcleod - A queda da USAID revela uma rede gigantesca de media financiados pelos EUA

– É preciso descaramento para chamar de "independentes" media financiados pela USAID  

Alan Mcleod [*]

A decisão da administração Trump de suspender o financiamento da USAID mergulhou centenas de meios de comunicação ditos “independentes” numa crise, expondo assim uma rede mundial de milhares de jornalistas, todos a trabalhar para promover os interesses dos EUA nos seus países de origem.

No final de janeiro, o Presidente Trump – juntamente com a ajuda do chefe do Departamento de Eficiência Governamental, Elon Musk – começou a implementar mudanças radicais na Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID), partindo da premissa de que a promoção de causas liberais e progressistas por parte da organização era um gigantesco desperdício de dinheiro. O sítio web e a conta de Twitter do grupo desapareceram no meio de especulações generalizadas de que deixará de existir ou será integrado no Departamento de Estado de Marco Rubio.

A interrupção da ajuda provocou imediatamente ondas de choque em todo o planeta, nomeadamente nos meios de comunicação social internacionais, muitos dos quais, sem que os seus leitores o saibam, dependem totalmente do financiamento de Washington.

No total, a USAID gasta mais de um quarto de milhar de milhão de dólares por ano na formação e financiamento de uma vasta rede de mais de 6 200 repórteres em quase 1 000 agências noticiosas ou organizações jornalísticas, tudo sob o pretexto de promover “meios de comunicação independentes”.

Com a torneira do dinheiro inesperadamente fechada, os meios de comunicação social de todo o mundo estão a entrar em pânico, recorrendo aos seus leitores para obterem donativos e, assim, tornando-se frentes do poder dos EUA.

Os media a mendigar: O fim do fluxo de caixa atinge-os duramente

Talvez o país mais afetado por esta súbita mudança de política seja a Ucrânia. Ao criticar a decisão, Oksana Romanyuk, diretora do Instituto de Informação de Massa da Ucrânia, revelou que quase 90% dos meios de comunicação social do país são financiados pela USAID, incluindo muitos que não têm outra fonte de financiamento.

Olga Rudenko, editora-chefe do Kyiv Independent (um meio de comunicação que a MintPress revelou anteriormente que recebe fundos de Washington), também denunciou a decisão. No mês passado, escreveu que o congelamento da USAID é uma ameaça maior para o jornalismo ucraniano independente do que a pandemia da COVID-19 ou a invasão russa. O Kyiv Independent pediu entretanto aos seus leitores que apoiassem uma campanha de financiamento para manter vivos os meios de comunicação ucranianos pró-EUA. Outros grandes media ucranianos, como o Hromadske e o Bihus.Info, fizeram o mesmo.

Os meios de comunicação social cubanos anti-governamentais encontram-se numa situação semelhante. O CubaNet, com sede em Miami, publicou um editorial a pedir dinheiro aos leitores. “Estamos a enfrentar um desafio inesperado: a suspensão de um financiamento fundamental que sustentava parte do nosso trabalho”, escreveram; ‘Se valorizam o nosso trabalho e acreditam em manter a verdade viva, pedimos o vosso apoio’. No ano passado, o CubaNet recebeu 500 mil dólares de financiamento da USAID para envolver “jovens cubanos da ilha através de um jornalismo multimédia objetivo e sem censura”. Os cínicos, no entanto, podem visitar o site e ver pouco mais do que argumentos anticomunistas.

Diario de Cuba, com sede em Madrid, também está em apuros. No passado fim de semana, o diretor do jornal, Pablo Díaz Espí, referiu que “a ajuda ao jornalismo independente por parte do Governo dos Estados Unidos foi suspensa, o que dificulta o nosso trabalho”, antes de pedir aos telespectadores que subscrevessem. Desde a Revolução Cubana de 1959, os Estados Unidos gastaram quantias gigantescas de dinheiro a financiar redes de comunicação social, numa tentativa de derrubar o governo. Só entre 1985 e 2013, a Rádio e a TV Martí receberam mais de 500 milhões de dólares em dinheiro dos contribuintes.

Em todo o mundo, o congelamento do financiamento colocou os meios de comunicação em risco imediato de encerrar as suas actividades. As organizações birmanesas já começaram a despedir pessoal. Pensa-se que cerca de 200 jornalistas são pagos diretamente pela USAID. “Estamos a lutar para sobreviver”, disse à Voz da América Wunna Khwar Nyo, chefe de redação do Western News. “Não consigo imaginar [como é que as pessoas se vão desenrascar] sem um salário para pagar a renda”, preocupa-se Toe Zaw Latt, do Conselho de Imprensa Independente de Myanmar.

Um inquérito recente a 20 dos principais meios de comunicação social bielorrussos revelou que 60% dos seus orçamentos provêm de Washington. A propósito da pausa no financiamento da USAID, Natalia Belikova, do Press Club Belarus, avisou:   “Estão em risco de se desvanecerem e desaparecerem gradualmente”.

No Irão, os meios de comunicação social apoiados pelos EUA já tiveram de despedir trabalhadores. Uma reportagem da BBC persa afirmou que mais de 30 grupos iranianos realizaram uma reunião de crise para discutir a forma de responder aos cortes na ajuda.

Tal como no Irão, os meios de comunicação social anti-governamentais da Nicarágua estão altamente dependentes dos subsídios de Washington. O Nicaragua Investiga, apoiado pelos EUA, condenou a decisão de Trump como um “golpe sério” contra uma mídia que “depende em grande parte do apoio financeiro e técnico fornecido por agências como a USAID”.

Outro país inundado de dinheiro das ONG ocidentais é a Geórgia. Em 30 de janeiro, o Georgia Today declarou que o financiamento da USAID tem sido uma “pedra angular” do país desde a sua independência. O jornal alertava para o facto de muitas organizações fecharem de imediato as portas para sempre sem o fluxo constante de dinheiro.

Relatórios semelhantes surgiram na Sérvia, na Moldávia e em toda a América Latina. Entretanto, os utilizadores das redes sociais notaram que muitas das vozes anti-China mais proeminentes nas suas respectivas plataformas ficaram estranhamente silenciosas desde o encerramento.

Os media “independentes”, trazidos até si pelo Governo dos EUA

Os cortes na USAID, portanto, evidenciaram que os Estados Unidos criaram conscientemente uma vasta matriz que engloba milhares de jornalistas em todo o mundo, todos produzindo conteúdo pró-EUA.

No entanto, ao discutir os cortes da USAID, os media corporativos insistiram em descrever estes meios de comunicação como “independentes”. “Os meios de comunicação independentes na [antiga] União Soviética estão prestes a ser afectados pelo encerramento temporário da principal agência dos EUA”, escreveu o Financial Times. “Da Ucrânia ao Afeganistão, os meios de comunicação independentes de todo o mundo estão a ser forçados a despedir pessoal ou a encerrar as suas actividades depois de perderem o financiamento da USAID”, disse The Guardian aos seus leitores. Entretanto, The Washington Post escreveu:   “Os media independentes na Rússia e na Ucrânia perdem o seu financiamento com o congelamento da USAID”. Talvez o mais notável seja o facto de organizações como a Repórteres Sem Fronteiras (RSF) terem feito o mesmo. Clayton Weimers, diretor executivo da RSF U.S., comentou:   “As redacções sem fins lucrativos e as organizações de comunicação social já tiveram de cessar as operações e despedir pessoal. O cenário mais provável é que, após o congelamento de 90 dias, elas desapareçam para sempre”.

Já existe um problema sério no discurso moderno com o termo “meios de comunicação independentes”, uma frase geralmente definida como qualquer meio de comunicação, independentemente da dimensão do império, que não seja propriedade ou financiado pelo Estado (como se essa fosse a única forma de dependência ou controlo a que os meios de comunicação estão sujeitos). Mas mesmo com esta fasquia extremamente baixa, todos estes meios falham. De facto, o aviso de Weimers sublinha o facto de nenhum deles ser independente de forma significativa. São, de facto, completamente dependentes da USAID para a sua própria existência.

Não só isso, mas alguns jornalistas apoiados pela USAID admitem abertamente que o seu financiamento dita a sua produção e as histórias que cobrem ou não. Leila Bicakcic, diretora executiva do Center for Investigative Reporting (uma organização bósnia apoiada pela USAID ), admitiu, perante as câmaras, que “se formos financiados pelo governo dos EUA, há certos tópicos que simplesmente não abordamos, porque o governo dos EUA tem os seus interesses que estão acima de todos os outros”.

Embora a USAID vise especificamente audiências estrangeiras, grande parte das suas mensagens regressa aos Estados Unidos, uma vez que esses meios de comunicação estrangeiros são utilizados como fontes credíveis, independentes e fiáveis para serem citados pelos jornais ou pelas redes de notícias por cabo. Assim, o financiamento de meios de comunicação estrangeiros acaba por inundar as audiências nacionais com mensagens pró-EUA também.

Embora a imprensa possa estar a lamentar o fim dos meios de comunicação apoiados pela USAID, muitos chefes de Estado não estão. “Levem o vosso dinheiro convosco”, disse o presidente colombiano Gustavo Petro, ‘é veneno’.

Nayib Bukele, presidente de El Salvador, partilhou um raro momento de concordância com Petro. “A maioria dos governos não quer que os fundos da USAID entrem nos seus países porque sabem onde é que grande parte desse dinheiro vai parar”, escreveu, explicando que:

"Embora comercializados como apoio ao desenvolvimento, à democracia e aos direitos humanos, a maioria desses fundos é canalizada para grupos da oposição, ONGs com agendas políticas e movimentos desestabilizadores. Na melhor das hipóteses, talvez 10% do dinheiro chegue a projectos reais que ajudam pessoas necessitadas (há casos assim), mas o resto é usado para alimentar a dissidência, financiar protestos e minar administrações que se recusam a alinhar com a agenda globalista".

Controlando a narrativa

A USAID influencia os media globais e os meios de comunicação de formas muito mais profundas do que o simples patrocínio de agências noticiosas. Em março passado, um documento de 97 páginas da USAID foi obtido ao abrigo da Lei da Liberdade de Informação.

O documento revelava uma vasta operação de censura e supressão de vastas áreas da Internet, incluindo Twitch, Reddit, 4Chan, Facebook, Twitter, Discord e sítios Web de meios de comunicação alternativos. Aí, lamentou a USAID, os utilizadores podiam construir comunidades para criar “conhecimentos populistas” e desenvolver opiniões e pontos de vista que desafiavam as narrativas oficiais do governo dos EUA.

Embora a sua justificação interna fosse travar o fluxo de desinformação, parecia estar particularmente preocupada com a “desinformação” – um conceito que define como discurso que é factualmente correto mas “enganador” (ou seja, verdades incómodas que o governo dos EUA preferiria que o público não soubesse).

O principal método delineado pela USAID para suprimir os meios de comunicação independentes é o que designa por “contacto com os anunciantes” – na realidade, ameaçar os anunciantes para que cortem os laços com os sítios Web mais pequenos para os estrangular financeiramente.

O relatório deixa claro que a sua principal preocupação não é a China ou a Rússia, mas a sua população interna:

"Os debates sobre a desinformação e a desinformação giram frequentemente em torno de suposições de que são os actores estatais que conduzem a questão. No entanto, a informação problemática tem origem mais regularmente em redes de sites alternativos e indivíduos anónimos que criaram os seus próprios espaços online 'alt media'”.

A USAID sugere que se oriente o público para fontes de informação corporativas e tradicionais e que se “inocule psicologicamente” o público contra factos inconvenientes que ponham em causa o poder dos EUA, “desmascarando” a informação antes de as pessoas a verem. O prebunking inclui “desacreditar a marca, a credibilidade e a reputação dos que fazem alegações falsas” – por outras palavras, um ataque dirigido pelo Estado contra os meios de comunicação alternativos e os críticos do governo dos EUA. O relatório completo – e uma investigação da MintPress News sobre o assunto – podem ser lidos aqui.

A USAID, no entanto, está longe de ser a única instituição governamental a tentar controlar as narrativas globais. O National Endowment for Democracy (confirmadamente também na mira de Musk e do DOGE) também patrocina meios de comunicação em todo o mundo.

O Departamento de Defesa, por sua vez, coloca em campo um gigantesco exército clandestino de pelo menos 60,000 pessoas cujo trabalho é influenciar a opinião pública, a maioria fazendo isso a partir de seus teclados. Uma exposição de 2021 da Newsweek descreveu a operação como “a maior força secreta que o mundo alguma vez conheceu” e avisou que este exército de trolls estava provavelmente a violar a lei nacional e internacional.

Os Arquivos do Twitter expuseram ainda mais as ações sombrias do Departamento de Defesa. Mostraram como o DoD trabalhou com o Twitter para levar a cabo um projeto de influência dirigido por Washington em todo o Médio Oriente, mesmo quando a aplicação afirmava estar a trabalhar para acabar com operações de desinformação apoiadas por estrangeiros. E as investigações da MintPress News revelaram como os mais altos escalões das principais aplicações de redes sociais, como o Facebook, Twitter, Google, TikTok e Reddit, estão cheios de antigos funcionários da CIA, USAID e outras agências de segurança nacional.

Para além disso, grupos sediados nos EUA com ligações estreitas ao governo, como a Fundação Ford, a Fundação Open Society e a Fundação Bill e Melinda Gates, concedem grandes subsídios a jornalistas e a meios de comunicação social estrangeiros.

Uma organização sombria

Alguns poderão perguntar qual é o problema de receber dinheiro da USAID. Os apoiantes da organização dizem que esta faz muito bem em todo o mundo, ajudando a vacinar crianças ou fornecendo água potável. Olhando para o sítio Web da organização (agora extinta), poder-se-ia supor que se trata de um grupo de caridade que promove valores progressistas. De facto, muitos membros da direita conservadora parecem ter tomado este verniz de “woke” pelo seu valor facial. Ao explicar a sua decisão de encerrar a organização, Musk descreveu-a como um “ninho de víboras de marxistas radicais de esquerda [sic!] que odeiam a América”.

Isto, no entanto, não podia estar mais longe da verdade. Na realidade, a USAID, desde o seu início, tem como alvo consistente governos de esquerda e não alinhados, particularmente na América Latina, África e Ásia.

Em 2021, a USAID foi um ator-chave por detrás de uma Revolução Colorida falhada (uma insurreição pró-EUA) em Cuba. A instituição gastou milhões de dólares financiando e treinando músicos e ativistas na ilha, organizando-os em uma força revolucionária e anticomunista. A USAID ofereceu até 2 milhões de dólares por subvenção aos candidatos, observando que “artistas e músicos saíram às ruas para protestar contra a repressão do governo, produzindo hinos como ‘Patria y Vida’, que não só trouxe uma maior consciência global para a situação do povo cubano, mas também serviu como um grito de guerra para a mudança na ilha”.

A USAID também criou uma série de aplicações secretas com o objetivo de mudar o regime. A mais conhecida foi a Zunzuneo, muitas vezes descrita como o Twitter de Cuba. A ideia era criar uma aplicação bem sucedida de mensagens e notícias para dominar o mercado cubano e, depois, alimentar lentamente a população com propaganda antigovernamental e direccioná-la para protestos e “smart mobs” com o objetivo de desencadear uma revolução colorida.

Num esforço para ocultar a sua participação no projeto, o governo dos EUA teve uma reunião secreta com o fundador do Twitter, Jack Dorsey, para o convencer a investir no projeto. Não se sabe até que ponto Dorsey ajudou, se é que ajudou, pois ele se recusou a falar sobre o assunto.

Em 2014, o programa cubano da USAID foi novamente exposto. Desta vez, a organização estava a organizar falsos workshops de prevenção do VIH como disfarce para recolher informações e recrutar uma rede de agentes na ilha.

Também na Venezuela, a USAID tem servido como uma força de mudança de regime. Esteve intimamente envolvida no golpe falhado de 2002 contra o Presidente Hugo Chavez, financiando e treinando os principais líderes do golpe no período que antecedeu a insurreição. Desde então, tem tentado sistematicamente subverter a democracia venezuelana, nomeadamente financiando o autodeclarado presidente Juan Guaidó. Esteve mesmo no centro de um desastroso golpe de 2019 em que figuras apoiadas pelos EUA tentaram conduzir camiões cheios de “ajuda” patrocinada pela USAID para o país, apenas para incendiarem eles próprios a carga e culparem o governo.

Numa tentativa de erradicar a ameaça do socialismo, os agentes da USAID também são conhecidos por terem ensinado técnicas de tortura às ditaduras de direita da América Latina. No Uruguai, Dan Mitrione, da USAID, ensinou à polícia como utilizar eletricidade em diferentes áreas sensíveis do corpo, o uso de drogas para induzir o vómito e técnicas avançadas de tortura psicológica. Mitrione queria fazer demonstrações em objectos vivos, por isso raptava mendigos das ruas e torturava-os até à morte.

A célebre polícia guatemalteca, cúmplice do genocídio da população maia, também dependia fortemente da USAID para receber formação. Em 1970, pelo menos 30.000 agentes da polícia tinham recebido formação em contra-insurreição, organizada e paga pela USAID.

A USAID esteve ainda mais fortemente implicada no genocídio no Peru, na década de 1990. Entre 1996 e 2000, o ditador peruano Alberto Fujimori ordenou a esterilização forçada em massa de 300 mil mulheres, maioritariamente indígenas. A USAID doou cerca de 35 milhões de dólares para o programa, agora amplamente considerado como um genocídio. Nenhum funcionário americano enfrentou quaisquer repercussões legais.

Os primórdios da USAID remontam a 1961, uma época em que os movimentos de libertação nacional na América Latina, África e Ásia lutavam – e ganhavam – a independência. As revoluções progressistas, como a de Cuba, estavam a inspirar o mundo e os Estados comunistas, como a URSS, estavam a desenvolver-se rapidamente, desafiando o domínio dos Estados Unidos.

A USAID foi criada como contrapeso a tudo isto, uma tentativa de apoiar os governos conservadores e pró-EUA e minar ou reorientar os mais radicais. Desde a sua criação, tem trabalhado lado a lado com a Agência Central de Inteligência.

Em 1973, o senador Ted Kennedy escreveu uma carta à CIA, perguntando diretamente se estavam a utilizar a USAID para levar a cabo operações no Sudeste Asiático. O próprio Secretário de Estado Henry Kissinger respondeu afirmativamente. Por essa razão, o antigo oficial da CIA John Kiriakou classificou a USAID como pouco mais do que um “adjunto de propaganda da agência”.

Surpreendentemente, The New York Times publicou uma avaliação semelhante. Em 1978, o seu correspondente, A. J. Langguth, escreveu que as “duas principais funções” do programa de formação policial global da USAID eram permitir à CIA “plantar homens na polícia local em locais sensíveis de todo o mundo” e trazer para os Estados Unidos “candidatos de primeira linha para serem recrutados como funcionários da CIA”.

Atualmente, a instituição apresenta-se como estando a tentar capacitar a sociedade civil para assumir a liderança na promoção da democracia. Mas, como escreveu o fundador da WikiLeaks, Julian Assange, os últimos cinquenta anos foram de autêntico esvaziamento dos actores da sociedade civil, como as igrejas e os sindicatos, deixando apenas grupos de reflexão e ONGs, “cujo objetivo, por detrás de todo o palavreado, é executar agendas políticas por procuração”.

No pânico que envolveu o seu encerramento, muitas personalidades da USAID revelaram o que se passava e fizeram-no diretamente. “Não se trata de um projeto de generosidade”, disse um funcionário à Fox News, acrescentando: ‘Trata-se de uma agência de segurança nacional e de um esforço no seu âmago’.

Nossos media não livres

Em última análise, o que esta história revela é que os nossos meios de comunicação social não são livres; são dominados por interesses poderosos. O mais poderoso deles é o governo dos EUA. Para Washington, controlar o discurso público é tão importante como controlar os mares ou os céus. É por isso que investem milhares de milhões de dólares para o fazer.

Isso também explica a reação sempre que os actores desafiam o ecossistema mediático dominado pelos EUA. Na década de 2000, os militares americanos bombardearam deliberadamente edifícios da Al-Jazeera depois de a rede ter desafiado a narrativa de Washington sobre as guerras do Iraque e do Afeganistão. Depois que a RT começou a ganhar espaço na década de 2010, a rede foi demonizada e cancelada. O TikTok está prestes a ser banido nos EUA e os meios de comunicação independentes são constantemente banidos, desmonetizados, difamados e deplorados.

Gostamos de pensar que somos livres-pensadores. No entanto, a revelação de que a USAID financia uma vasta rede de jornalistas em todo o mundo, moldando narrativas favoráveis aos interesses dos EUA, deveria realçar o facto de estarmos a nadar num oceano de propaganda – e a maioria de nós nem sequer se apercebe disso. Os EUA gastam milhares de milhões para promover os seus interesses e demonizar a China, a Rússia, Cuba, a Venezuela e os seus outros inimigos, tudo numa tentativa de curar as nossas realidades.

Embora a USAID, como organização, pareça estar formalmente desaparecida e integrada no Departamento de Estado, o secretário de Estado Rubio disse que muitas das suas funções continuarão, desde que estejam alinhadas com “o interesse nacional” e não com a “caridade”. Como tal, é provável que não demore muito até que a torneira do dinheiro volte a ser aberta para estas organizações pró-EUA. No entanto, pelo menos a morte da USAID fez uma coisa boa:   expôs vastas faixas dos meios de comunicação globais por aquilo que são: projectos de propaganda imperial dos Estados Unidos.

18/Fevereiro/2025

domingo, 16 de fevereiro de 2025

Cezar Xavier - Inundação: a estratégia de Trump para desnortear mídia e oposição

Steve Bannon tornou a estratégia de inundar a mídia de gestos políticos para dificultar uma narrativa de prioridades do governo na sociedade

Com decretos e anúncios diários e polêmicos, o ex-presidente usa a tática de “flooding the zone” para confundir adversários e dominar a agenda política. Mas a resistência também se unifica.

por Cezar Xavier

Publicado 11/02/2025 16:02 | Editado 12/02/2025 13:44

 Steve Bannon tornou a estratégia de inundar a mídia de gestos políticos para dificultar uma narrativa de prioridades do governo na sociedade

A expressão “flooding the zone” (inundar a área) descreve uma estratégia deliberada de comunicação na qual uma enxurrada de anúncios e decretos é lançada de forma contínua, com o objetivo de saturar os canais de informação e deixar a oposição e a mídia atordoados. Essa tática, utilizada por Donald Trump desde sua posse, busca desorientar os críticos e criar um ambiente de confusão que dificulte a análise e a resposta coordenada dos adversários.

Jair Bolsonaro também aplicou esta estratégia da extrema-direita, causando efeito semelhante no Brasil. Todas as pautas, emendas, medidas provisórias ou decretos, assim como declarações públicas, eram sensacionalistas e polêmicas. Uma blitz-krieg de bombardeios informacionais capaz de desnortear a reação social. A resistência se deu de forma complexa por meio de táticas diversas e simultâneas, em todos os âmbitos da sociedade (confira ao final).

Afirmações misóginas, homofóbicas, racistas, obscenas ou escatológicas frequentemente engajavam as redes sociais, a mídia e a esquerda, enquanto o governo tentava seguir sem obstáculos uma agenda de reformas trabalhistas, previdenciárias, privatista, desmontando as instituições do Estado. Todas pautas dignas de um grande protesto nas ruas, todas passíveis de grandes debates na imprensa. Mas poucos tinham tempo ou capacidade de articulação para tantos absurdos simultâneos.

Apesar disso, nem Trump, nem Bolsonaro foram capazes de se reeleger pela incapacidade de responder de forma efetiva aos problemas concretos de países tão grandes. Desde seu primeiro governo, Trump fala em fazer a América grande novamente. O trabalhador não viu isso acontecer como prometido, especialmente com o retorno das fábricas aos EUA ou melhora significativa nas condições de trabalho. Os desafios dos Estados Unidos estão postos na mesa, e não serão resolvidos na base da bravataria. Depois de quatro anos, Trump será julgado pelos resultados concretos.

A orquestra trumpiana

Desde seus primeiros dias no poder, Trump tem feito uso intensivo dessa estratégia. Em sua posse, ele assinou 26 ordens executivas, retirou os Estados Unidos do Acordo de Paris e da Organização Mundial da Saúde, eliminou subsídios para carros elétricos, entre outras ações polêmicas. Mais recentemente, o ex-presidente voltou a gerar manchetes com propostas aparentemente absurdas, como comprar a Groenlândia, construir um resort na Faixa de Gaza, mudar o nome do Golfo do México, retomar o Canal do Panamá, ou acabar com o direito à cidadania para filhos de imigrantes ilegais.

Cada anúncio, independentemente de sua viabilidade, serve para inundar a mídia com informações que, na prática, dificultam a construção de uma narrativa unificada e a identificação do que realmente importa na agenda política.

Steve Bannon e a velocidade das bombas

Um dos criadores do trumpismo, o estrategista político Steve Bannon, é o responsável por afinar essa tática. Ele foi também um articulador estratégico por trás da comunicação do governo Bolsonaro. Em entrevista à TV americana, Bannon disse:

“O partido de oposição é a mídia. Eles são burros e preguiçosos e só conseguem focar em uma coisa de cada vez. O que precisamos fazer é inundar o terreno. Todo dia nós jogamos três coisas diferentes neles. Eles vão morder uma e a gente vai fazer as nossas coisas. Esses caras nunca vão conseguir se recuperar. Mas temos que começar com a mesma velocidade com que uma bala sai do cano de uma arma.”

Essas palavras ilustram como a estratégia visa tirar o foco dos adversários, que ficam ocupados reagindo a uma nova polêmica enquanto Trump segue com sua agenda – muitas vezes, sem sequer ter o poder para resolver os problemas anunciados.

Exemplos da tática no dia a dia

Nas últimas 24 horas, a tática de “flooding the zone” foi novamente demonstrada:

Tarifas e decretos surpresa: Trump anunciou tarifas para o aço e decretos para liberar canudinhos de plástico, enquanto simultaneamente repetia que seria o dono da Faixa de Gaza.

Acusações e contradições: Em meio a tais anúncios, o ex-presidente afirmou ter conversado com o presidente russo Vladimir Putin, sem oferecer detalhes, confundindo ainda mais a opinião pública.

Distração político-administrativa: O presidente também assinou decretos para demitir militares de carreira e acabar com a fiscalização de empresas americanas, ações que, embora questionáveis, desviam a atenção dos críticos sobre as políticas mais substanciais do governo.

Consequências para a mídia e a oposição

A estratégia tem se mostrado eficaz em desestabilizar a oposição, que encontra dificuldade para concentrar esforços diante de uma avalanche de informações. Como resultado:

Mídia saturada: Portais de notícias e jornalistas se veem obrigados a cobrir não apenas um, mas todos os atos diários de Trump, o que dificulta a distinção entre ações relevantes e meras manobras de distração.

Dificuldade em construir narrativas: O excesso de declarações e decretos torna quase impossível que a oposição formule respostas consistentes e coordenadas, fazendo com que questões importantes fiquem ofuscadas pelo ruído das provocações constantes.

Impacto na política e na ordem global

Embora muitas das declarações de Trump – como a possibilidade de anexar territórios estrangeiros – sejam improváveis de se concretizarem, elas têm um efeito real ao confundir tanto a população quanto aliados e adversários internacionais. Esse ambiente de incerteza pode afetar a credibilidade dos Estados Unidos e minar alianças estratégicas, enquanto a política interna sofre com a dispersão do debate e a erosão dos mecanismos de controle e transparência.

Resistência: foco nas questões relevantes

Para neutralizar a estratégia de “flooding the zone”, é essencial que a oposição e os veículos de comunicação mantenham o foco nas questões que impactam a vida dos cidadãos. Durante o desgoverno de Bolsonaro, a denúncia do desemprego, da estagnação econômica e do preço dos combustíveis foram essenciais para desmascarar o diversionismo. A falta de resultados concretos da macroeconomia de Paulo Guedes e o cansaço de parcelas da sociedade com o discurso de ódio e golpismo também jogaram contra. Trump ainda não respondeu ao problema da inflação dos ovos, esperando que a gripe aviária passe e os estoques retornem.

Em vez de se deixar levar por cada anúncio bombástico, a recomendação é priorizar debates que abordem problemas estruturais e políticas públicas de longo prazo. Isso significa estabelecer uma agenda clara. Concentrar os esforços em temas estratégicos, como saúde, educação, segurança e economia, para evitar que a narrativa seja dispersada por declarações pontuais e irrelevantes.

Diferenciar o sinal do ruído ao utilizar ferramentas de verificação de fatos e análises críticas para destacar quais anúncios têm impacto real e quais são apenas manobras de distração.

Comunicação coordenada e unificada

Uma resposta eficaz exige que as forças políticas da oposição se unam e comuniquem de forma coordenada. Entre as medidas recomendadas estão a formação de um bloco de resposta. Reunir partidos e lideranças que possam articular uma mensagem unificada, contrapondo os anúncios diários com iniciativas concretas e dados que evidenciem as verdadeiras prioridades para a população.

O fortalecimento do fact-checking e da transparência são ferramentas da luta contra a desinformação, que passa também pelo fortalecimento de mecanismos de verificação dos fatos. Para isso, é importante apoio a agências independentes de fact-checking. Incentivar a criação e a manutenção de plataformas que possam desmentir, em tempo real, as declarações exageradas ou infundadas.

A transparência nas ações governamentais precisa ser preservada em governos que tendem a dificultar o acesso à informação pública, como já vem ocorrendo em Washington. É preciso cobrar do governo a prestação de contas das medidas anunciadas e avaliar quais decretos têm base legal e impacto prático na sociedade.

Educação midiática e engajamento popular

A longo prazo, é fundamental que a população desenvolva uma consciência crítica em relação às táticas de comunicação. No Brasil, o modo como fake news e falta de regulação de plataformas digitais acabaram de tornando ferramenta de criminosos para golpes financeiros, acabou forçando uma alfabetização crescente de parcelas da população que se sentiram vulneráveis. Cada vez é mais comum encontrar pessoas que sabem como distinguir quando uma informação é falsa na internet.

Mas as instituições de governo e da sociedade civil, assim como da mídia, precisam implementar programas de alfabetização midiática; iniciativas educacionais que ensinem os cidadãos a distinguir entre notícias relevantes e meros ataques ou distrações. Estimular o engajamento e a participação ativa da sociedade também é uma opção, para que os eleitores passem a questionar e demandar respostas concretas dos seus representantes, ao invés de se deixarem influenciar por anúncios vazios.

Alinhamento internacional e defesa das instituições

Por fim, a resposta à estratégia de “flooding the zone” também passa por uma articulação maior com aliados políticos e instituições democráticas. O Legislativo e o Judiciário foram fundamentais para barrar as iniciativas mais perigosas de Bolsonaro. Nos EUA, a própria volta de Trump ao poder revela a fragilidade de suas instituições, que precisam ser repensadas. Trabalhar em conjunto com governos e organizações que defendem a transparência e a responsabilidade na comunicação pública, é uma forma de cooperação para criar um ambiente global que penalize táticas de desinformação.

O reforço das instituições democráticas precisa avançar para proteger e valorizar os mecanismos de controle e prestação de contas, garantindo que a estratégia de inundação de informações não comprometa o funcionamento das instituições e a confiança na governança.  

Resistir politicamente à tática de “flooding the zone” de Trump (e da extrema-direita) exige uma combinação de foco estratégico, comunicação unificada, verificação rigorosa dos fatos, educação midiática e mobilização cidadã. Somente com uma resposta coordenada e comprometida com a transparência será possível garantir que a população não se perca em meio à enxurrada de anúncios e decretos, e que as questões de verdade e relevância continuem a nortear o debate político.

https://vermelho.org.br/2025/02/11/inundacao-a-estrategia-de-trump-para-desnortear-midia-e-oposicao/

sexta-feira, 13 de dezembro de 2024

Raul Luis Cunha - Como obter e tratar a informação sobre a guerra na Ucrânia?

* Raul Luis Cunha

13 de dezembro de 2023  · 

Penso que a resposta é multidimensional. Não existe uma solução mágica para a questão de estar preparado para resistir contra a propaganda. Eu vejo isso em termos de dados bons e maus, tentando a remoção do aspecto “emocional” e sentimental. Podem-se desenvolver fontes de dados confiáveis ao fim de um longo período de tempo, sabendo quais são aquelas em que se pode confiar com base numa repetida confirmação do seu produto. Eu sigo as fontes para as quais desenvolvi uma boa aceitação ao longo do tempo, através de uma espécie de processo mental que as avalia quanto à sua credibilidade e baseado em quão escrupulosas foram durante um largo período na limpeza da sua informação.

É claro que o próximo aspecto é executar grandes quantidades de referências cruzadas. Em especial se for um tipo de afirmação importante, nunca podemos acreditar apenas na palavra de uma só fonte e devemos cruzar referências das alegações, tanto quanto possível, o que inclui tanto as do lado russo como as do lado ucraniano.

O próximo aspecto é psicológico. Eu sinto que há que entender a psicologia de cada nível das pessoas envolvidas, para avaliar adequadamente as informações que delas vêm. Um exemplo disto é que há muitos relatos vindos da linha da frente pelos próprios soldados que têm de ser filtrados com uma certa compreensão de que os soldados relatam as coisas de uma maneira particular, por vezes colorindo-as com eufemismos ou com um chauvinismo sobrecarregado que poderá adulterar um pouco o relato. Entretanto, quadros superiores, como alguns oficiais de imprensa, também têm dimensões psicológicas que precisam de ser compreendidas, como sejam, as pressões políticas para relatar os factos de uma determinada maneira, o minimizar de certas realidades “desconfortáveis”, etc.

Em suma, é necessária uma verdadeira experiência de longo prazo para desenvolver um instinto para todas essas coisas, instinto esse que começa a trabalhar de forma autónoma, levantando sinais de alerta e objecções sempre que necessário.

É claro que, no final de contas, nada supera uma quantidade brutal de dados para processar. Esta é a única área onde a maioria dos analistas falha, simplesmente devido ao seu compreensível tratamento desta área como se tratasse de um “part-time hobby”, pelo que acabam por não ter tempo para percorrer as enormes quantidades de dados com origem em todas as fontes concebíveis e, assim, obter uma boa noção do que está sustentado por várias verificações cruzadas e do que é mais frágil. Eu próprio pesquiso muitos mais destes “dados brutos” do que a generalidade dos analistas, e sinto que isso me dá uma imagem muito mais precisa do que realmente está a acontecer nas frentes de combate. E isso inclui seguir muitas fontes russas e muitas ucranianas e pró-ocidentais e observar constantemente as coisas a partir das suas perspectivas.

É óbvio que as fontes de alto nível, como personalidades, figuras políticas e propagandistas famosos, são na sua maioria inúteis, mas existem muitas fontes internas de contas reais das linhas da frente russas e ucranianas que relatam os factos de uma forma bastante pura e não adulterada ajudando a criar um quadro completo. Algumas delas são conversas internas entre as próprias tropas russas ou ucranianas e os seus camaradas, onde falam muito francamente, sem quaisquer das habituais “colorações” agressivas para consumo das massas.

Por último, quando tudo o resto falha, tenho as minhas próprias fontes pessoais, que muitas vezes também me podem dar perspectivas únicas.

Mas, como conselho geral para outros analistas, o mais importante é seguir as fontes de ambos os lados e não se resignar apenas a uma bolha de informação ou a uma câmara de eco. É preciso muita experiência para desenvolver o conhecimento e o instinto para separar fontes boas e confiáveis das más, não importa de que lado estejam. Além disso, seguir fontes de pelo menos três níveis diferentes da hierarquia, ou seja, militares no terreno, com relatos directos em primeira mão. Depois, relatos de nível médio e de segunda mão de correspondentes de guerra credíveis e outros que tais. Finalmente, cruzar tudo isso com os relatos das fontes “oficiais” de mais alto nível.

Nota: Este texto foi coligido da transcrição de parte de um dos artigos integrando um conjunto recebido via internet e depois adaptado para ficar conforme os meus procedimentos.

https://www.facebook.com/rauliscunha/posts/ 

terça-feira, 29 de outubro de 2024

Eduardo Lucas - Guerra cognitiva e controle de informação


*  Eduardo Lucas in 


“O poder gera realidade. E enquanto você estuda essa realidade… nós criamos outra”. Esta ideia resume a essência da guerra cognitiva: aqueles que controlam a narrativa controlam a própria realidade.

A crise ucraniana, o conflito no Extremo Oriente e o genocídio palestiniano anunciam, para o mundo ocidental “baseado em regras”, o prólogo de uma crise social de proporções épicas. O capitalismo neoliberal enfrenta uma das suas maiores crises existenciais. O mundo transita de uma ordem unipolar para uma ordem multipolar, evidenciando o declínio do império norte-americano.

Neste contexto, as elites dominantes e a burguesia transnacional estão a implementar formas de controlo social sem precedentes. Os grandes conglomerados financeiros, confrontados com a ameaça de perder a sua hegemonia, optaram por restringir as liberdades públicas. Por outro lado, promovem movimentos de carácter messiânico, o revisionismo histórico, passando por debates de falsa identidade ou ambientalismo reacionário. Para garantir o uso do poder, financiam partidos e movimentos de extrema-direita que por vezes se apresentam sob a máscara de “europeístas” e, noutras ocasiões, como populistas de direita ou de esquerda, dependendo das circunstâncias. Estas forças políticas cuidadosamente moldadas permitem que os grupos financeiros mantenham a sua influência política, ao mesmo tempo que neutralizam a resistência popular. Neste contexto de restrição de liberdades e manipulação política, as tecnologias de vigilância e censura em massa assumem um papel central.

Em agosto de 2024, o Gabinete do Diretor de Inteligência Nacional (ODNI) dos EUA apresentou um documento que, camuflado como apenas mais um procedimento burocrático, representa na verdade uma mudança profunda na forma como a vigilância é realizada em todo o mundo. Sob o nome “Intelligence Community Data Co-op” (ICDC), o projeto propõe a criação de uma plataforma centralizada para coletar e analisar enormes quantidades de informações de qualquer indivíduo em todo o mundo. A imagem do irmão mais velho de Orwell dá um enorme salto em frente. Este sistema coleta dados de fontes comerciais e públicas: desde histórico de compras e geolocalização até atividades nas redes sociais e registros de saúde.

O preocupante é que o projeto permite que as agências de inteligência dos EUA “evitem restrições legais” comprando dados de empresas privadas, sem ter que passar por processos judiciais que poderiam atrasar as investigações. Esta nova arquitectura de vigilância faz do ICDC um pilar central da Guerra Cognitiva, pois oferece uma vantagem estratégica às agências de inteligência, permitindo mesmo a manipulação preventiva do comportamento através do controlo sobre ideias dominantes, tendências de voto… Descobertas na psicologia social sobre identidades partilhadas abrem novas caminhos para a projeção de líderes emocionais. A chamada psicologia das emoções aliada aos bancos de dados amplia o horizonte para a criação de lideranças sociais formatadas pelo próprio sistema.

Neste contexto, polvos tecnológicos como a Apple e a Microsoft têm sido atores-chave na facilitação da vigilância em massa[1] e, a partir dela, na criação ou recriação de futuros líderes sociais. Soma-se a isso o fato de a Microsoft coletar, há anos, grandes quantidades de informações dos usuários do Windows 10 e 11, como o texto que digitam em seus teclados, sua localização geográfica e até imagens capturadas por câmeras web, sem que os usuários estejam cientes disso. Estas ações geraram uma desconfiança crescente em relação às grandes empresas tecnológicas ocidentais.

Os ataques terroristas do regime israelita no Líbano em 2024 revelaram a extrema vulnerabilidade das infra-estruturas tecnológicas globais e como estas podem rapidamente tornar-se armas de guerra. As bombas em smartphones, pagers e instalações atacadas revelaram que, apesar dos avanços na segurança informática, as infra-estruturas tecnológicas globais são altamente susceptíveis a ataques cibernéticos ou a actos terroristas coordenados.

Este clima de incerteza e vulnerabilidade favoreceu paradoxalmente a ascensão da China como uma alternativa tecnológica mais fiável, especialmente nos mercados emergentes. A ascensão de empresas chinesas como a Huawei e a Xiaomi, as principais beneficiárias, deve-se em parte ao medo gerado pela fragilidade das infra-estruturas tecnológicas ocidentais. Os ataques no Líbano e os atuais problemas de cibersegurança no Ocidente aceleraram esta mudança de perceção, levando a um aumento significativo nas vendas de produtos chineses, especialmente nas regiões em desenvolvimento. Pequim aproveitará estas circunstâncias para consolidar a sua posição como líder em tecnologia segura, fora da interferência ocidental.

Guerra cognitiva: definição e estratégias
A guerra cognitiva é um conceito desenvolvido pela NATO para descrever a manipulação da percepção e do pensamento colectivos, a fim de influenciar o comportamento humano. Ao contrário da guerra convencional, onde os objectivos são territórios ou recursos, a guerra cognitiva procura dominar a mente, moldar opiniões e controlar narrativas. Este tipo de controle não se limita apenas a censurar pontos de vista opostos, mas também busca antecipar, evitando que ideias opostas à narrativa oficial se formem na opinião pública. Para isso, é essencial a censura sistemática de meios de comunicação como Telegram, RT, Sputnik e muitos outros no Ocidente. Na sequência do conflito entre a Rússia e a Ucrânia, as plataformas tecnológicas ocidentais e os governos bloquearam o acesso a estes meios de comunicação para impedir a disseminação das suas narrativas ao público na Europa e na América.

Estas medidas, em muitos casos, não resultam de decisões judiciais, mas sim de ordens administrativas que procuram limitar o acesso a pontos de vista divergentes e controlar o fluxo de informações. Nesse sentido, é fundamental reconhecer a célebre frase atribuída a um assessor do ex-presidente George W. Bush: “O poder gera a realidade. E enquanto você estuda essa realidade… nós criamos outra.”

Esta ideia resume a essência da guerra cognitiva: aqueles que controlam a narrativa controlam a própria realidade. O poder reside não apenas em influenciar os factos, mas em moldar a percepção desses factos antes que outros possam questioná-los. Na mesma linha, Michel Foucault, em sua obra “História da Sexualidade: A Vontade de Saber” (Foucault, 1976), afirmou que, em última análise, quem tem controle sobre a narrativa tem controle sobre como a realidade é percebida.

Expansão dos smartphones e uso de algoritmos preditivos
A expansão do uso de smartphones, que agora chegam até às mãos de meninos e meninas, abriu uma nova fronteira no controle da informação e na manipulação social. Ao utilizar “algoritmos preditivos”, as grandes empresas tecnológicas e as oligarquias globais podem recolher e analisar grandes quantidades de dados pessoais desde tenra idade. Isto permite definir as inclinações, tendências e comportamentos dos usuários, oferecendo uma visão precisa do futuro imediato, que pode ser manipulada e controlada de acordo com os interesses das empresas transnacionais. O acesso a dados sensíveis como as preferências dos consumidores, os padrões de interação social e o comportamento online desde muito cedo fornece às oligarquias as ferramentas necessárias para moldar as perceções e decisões das gerações futuras.

Neste contexto, os algoritmos não apenas prevêem o que uma pessoa fará, mas influenciam ativamente a forma como ela verá o mundo e tomará decisões. Esta monitorização contínua e manipulação subtil do comportamento através de tecnologias de vigilância digital fazem dos smartphones uma das ferramentas mais poderosas para garantir que as elites possam manter o seu controlo sobre a ordem social e económica para as gerações vindouras.

O comportamento da casta dominante está repleto desta ideia: muitos dos filhos das elites crescem educados em ambientes onde o acesso aos dispositivos digitais é restrito, conscientes dos perigos que estas ferramentas podem representar em termos de controlo, manipulação e vigilância. Como aponta Manfred Spitzer em seu livro Demência Digital, o uso intenso da tela pode ter efeitos devastadores no desenvolvimento cognitivo das crianças, o que explica por que as “crianças ricas” muitas vezes “não olham para as telas”, sendo afastadas do alcance delas as mesmas tecnologias que as elites promovem para a população em geral.

Rumo a uma sociedade monitorada
À medida que o controlo da informação e a vigilância em massa se expandem, figuras políticas de alto nível começaram a defender cortes nas liberdades civis em nome da “Segurança Nacional” e do combate à “desinformação”. Tanto o ex-secretário de Estado John Kerry como a ex-candidata presidencial Hillary Clinton têm sido vozes proeminentes nesta discussão, sugerindo que certos direitos, como os protegidos pela “Primeira Emenda da Constituição Americana”, devem ser revistos para se adaptarem aos tempos actuais. Em declarações recentes, John Kerry argumentou que a liberdade de expressão não deve ser um “cheque em branco” que permite aos cidadãos espalhar desinformação ou desafiar as narrativas oficiais sobre questões de segurança.

Kerry observou que, num mundo onde as “notícias falsas” e a desinformação podem desestabilizar as sociedades, é necessário “limitar certas formas de discurso” para proteger a coesão social e a estabilidade política. Na sua opinião, uma sociedade mais “monitorada e controlada” seria menos vulnerável a influências externas maliciosas. Por sua vez, Hillary Clinton tem defendido abertamente a necessidade de “combater a desinformação” e sugeriu que o governo deveria ter mais poder para regular e monitorizar o que é publicado nas redes sociais.

Clinton argumenta que embora a Primeira Emenda seja um pilar fundamental da democracia americana, a sua interpretação deve adaptar-se aos desafios do século XXI. Para Clinton, a “liberdade de imprensa” e a “liberdade de expressão” devem ser compatíveis com um sistema de “vigilância e controlo” que garanta que apenas informação “responsável” seja divulgada.

Por trás deste discurso, porém, está a influência dos “grandes grupos de poder”. A classe política, obedecendo aos interesses destas elites, abre debates sociais sobre as liberdades em abstrato, mas esconde o seu verdadeiro objetivo: a “restrição progressiva das liberdades públicas” sob o pretexto da segurança e da estabilidade social. Este processo, por enquanto, é realizado sob o manto de uma “subdemocracia”, onde os cidadãos são chamados a votar de tempos em tempos, enquanto a casta política toma decisões fora da vontade popular, concentrando o poder nas mãos de poucos. Além disso, esta restrição de liberdades é justificada pelo medo do terrorismo, pelas preocupações com as alterações climáticas, que orientam o consumo social em direcções que favorecem determinados interesses, e pelas epidemias, que alimentam a solidão social. Esse isolamento reforça o controle, pois quando os laços entre os indivíduos são rompidos, o tecido social fica enfraquecido, dificultando a resistência organizada.

Perseguição de dissidência e censura global
A guerra cognitiva não é travada apenas no mundo digital. Aqueles que tentam desafiar o controlo da informação e oferecer narrativas alternativas, sejam jornalistas, activistas ou académicos, enfrentam perseguição e censura. Exemplos recentes (para não mencionar Assange e Snowden) incluem os ataques aos escritórios de Jurgen Elsasser, editor-chefe da revista Compact na Alemanha, e a perseguição do antigo inspector de armas da ONU Scott Ritter nos EUA, ambos acusados ​​de ter ligações com a Rússia pelas suas críticas às políticas ocidentais.

Estas ações fazem parte de uma estratégia mais ampla para silenciar as vozes críticas e garantir que a narrativa dominante prevaleça sem concorrência. Em muitos casos, as acusações de desinformação ou de “interferência estrangeira” são utilizadas como pretexto para justificar a censura, quando na realidade o objectivo é suprimir quaisquer opiniões críticas que possam desafiar o status quo.

Conclusão
Em suma, o controlo da informação, os ataques terroristas no Líbano e a guerra cognitiva estão profundamente interligados. Através de programas de vigilância em massa como o ICDC e da estreita colaboração com empresas tecnológicas, as agências de inteligência procuram dominar o fluxo de informação global. Contudo, este controlo não se limita apenas à recolha de dados; Vai mais longe, no sentido da manipulação direta do pensamento e das percepções coletivas. A vulnerabilidade dos sistemas informáticos, exposta pelos ataques no Líbano, mostra como as infra-estruturas tecnológicas globais são susceptíveis de exploração, facilitando a guerra cognitiva.

Ao mesmo tempo, a China aproveitou as fraquezas dos sistemas ocidentais para se estabelecer como o novo vencedor na competição tecnológica global, aumentando a sua influência e o seu poder brando. A guerra cognitiva representa um desafio sem precedentes para as sociedades modernas.

Ao integrar tecnologia, espionagem em massa e manipulação de informação, as elites globais procuram não só controlar o que sabemos, mas também a forma como pensamos. Como cidadãos, é crucial estarmos conscientes destas estratégias e defendermos ativamente os direitos fundamentais que estão em risco nesta nova era de controlo e vigilância.

Referências:
1. Ameaças estrangeiras às eleições federais dos EUA em 2020, Avril Haines, 10 de março de 2021.

2. Mídia financiada pelo Kremlin: RT e o papel do Sputnik no ecossistema de desinformação e propaganda da Rússia, Centro de Engajamento Global, janeiro de 2022.

3. “Campanha da OTAN contra a liberdade de expressão”, por Thierry Meyssan, Rede Voltaire, 5 de dezembro de 2016.

4. “O Ocidente renunciou à liberdade de expressão?”, por Thierry Meyssan, Rede Voltaire, 8 de novembro de 2022.

5. Guerra Cognitiva, François du Cluzel, Comando Aliado para a Transformação da NATO, Novembro de 2020.

6. “O poder gera realidade.” Atribuído a Karl Rove, conselheiro de George W. Bush【46†fonte】

7. Michel Foucault, História da sexualidade: A vontade de saber, Madrid: Siglo XXI, 1976.

8. Manfred Spitzer, Demência Digital , Barcelona: Edições B, 2012.

Nota: [1] Em 2023, o Serviço Federal de Segurança (FSB) da Rússia relatou que os dispositivos Apple foram infiltrados por software malicioso que permitiu que a inteligência dos EUA espionasse diplomatas e cidadãos estrangeiros na Rússia

Fonte aqui.

blog osbarbarosnet.blogspot.com, 20/10/2024)

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

Bárbara Reis - Uma boa pergunta da CNN à polícia

 

LIVRE DE ESTILO

* Bárbara Reis  


07 de fevereiro de 2024

É fácil estar no sofá – e não ao vivo na televisão – e pensar "como é que ele não lhe pergunta isto?!", "como é que ela não lhe diz aquilo?!".

Do mesmo modo, é fácil estar a ver uma entrevista ao vivo na televisão e pensar: "Boa pergunta."

São momentos de felicidade.

Pensará que vejo entrevistas como vejo jogos de futebol. "Bom golo", "bom passe", "boa assistência de calcanhar". Não vejo futebol, por isso não se aplica. Mas há algum parentesco.

Não espero que os jornalistas façam hat tricks na televisão – já agora, falo de televisão em directo porque há uma arte particular neste media; é mais exigente do que entrevistar alguém para um gravador, conversa que mais tarde será editada com pinças cirúrgicas de modo a que todos façam boa figura, entrevistado e entrevistador.

A televisão em directo – como o futebol – exige jogo de cintura naquele instante, não resulta se for um minuto depois. Televisão em directo é a pergunta certa no momento certo. É estudar e preparar, como nas outras entrevistas, mas é rapidez de reacção e reacção certeira. É a diferença entre um concerto de música clássica – onde cada um segue a partitura – e um concerto de free jazz – onde o improviso é rei.

Com a ascensão do Chega e da direita populista radical dou por mim a prestar mais atenção às perguntas dos jornalistas do que às respostas. Podem ser líderes políticos, analistas e comentadores, e todo o tipo de intervenientes no espaço público.

Foi o que aconteceu este sábado, na CNN. Armando Ferreira, presidente do Sinapol – um dos 19 sindicatos da Polícia de Segurança Pública –, estava em estúdio a comentar o cancelamento do jogo Famalicão-Sporting, desse sábado, por falta de policiamento.

Quando o polícia disse que começa "a temer que poderá haver falta de polícias para [as eleições legislativas de] 10 de Março, porque os boletins de voto são transportados pelas forças de segurança e as urnas de voto também", André Carvalho Ramos, pivot da CNN, perguntou:

– Não quer desaconselhar acções semelhantes a esta [não terem feito policiamento do jogo] no dia das eleições?

O sindicalista da Sinapol disse que "os sindicatos têm tentado que as coisas sejam feitas dentro dos princípios legais e das linhas vermelhas do que se pode e não pode fazer" e que "nada disto é o que os sindicatos queriam que estivesse a acontecer".

E a entrevista prossegue:

– No caso das eleições legislativas, o transporte de urnas de voto não tem substituição possível?

– Que eu saiba, não. Quero acreditar que isso não vá acontecer, mas não podemos descartar. E temos de alertar o Governo para aquilo que pode acontecer.

– São ou não as forças de segurança essenciais à democracia?

– Claro que são. As forças de segurança são um dos pilares da democracia.

– Então como é que explica que possam colocar em causa o grande momento democrático de um país, o momento em que os eleitores vão votar?

– Essa pergunta tem de fazer ao Governo. O Governo português é que fragilizou este pilar da democracia [...]. Com a sua teimosia de não querer resolver os problemas, está a empurrar os polícias para um precipício e está a forçar os polícias a tomar posições extremadas que não são desenvolvidas pelas estruturas sindicais, são por iniciativas inorgânicas.

– Por ser por iniciativa inorgânica, pergunto se não quer aconselhar os seus colegas a alguma ponderação, sobretudo para 10 de Março?

Repare: é a segunda vez que o jornalista pergunta isto. Vamos no minuto quatro e o tema é o mesmo – é preciso polícia para haver eleições. O que responde o presidente do Sinapol?

– Tenho de dizer aos meus colegas que eles são profissionais das forças de segurança e sabem perfeitamente as suas responsabilidades, mas também tenho de dizer ao Governo português que ele sabe perfeitamente quais são as suas responsabilidades e, desde que este conflito começou, o Governo está em silêncio absoluto. Começa a cair em descrédito o movimento sindical por culpa do Governo. Quem está a criar o monstro, quem está a criar a besta, é o Governo.

– Não teme que esse descrédito seja ainda maior se os portugueses olharem para o 10 de Março com desconfiança em relação à polícia por não garantir o escrutínio eleitoral?

Repare: é a terceira tentativa do pivot da CNN. Resposta?

– Acredito que isso possa acontecer e pode ser um perigo que pode acontecer. A verdade é que eu não controlo os meus colegas. Eu não tenho mão sobre os meus colegas.

O Sinapol chama-se Sindicato Nacional da Polícia mas, apesar do que o nome sugere, só tem 1350 sócios. É verdade que Armando Ferreira não controla os 22 mil membros da PSP. Mas podia ter feito um apelo. Pelo menos aos "seus" 1350. Podia ter dito qualquer coisa como "lutem, mas não bloqueiem as eleições". Não o fez. Nem à primeira, nem à segunda, nem à terceira.

Não conheço André Carvalho Ramos e não sei se ficou surpreendido com a falta de sentido de responsabilidade do líder do Sinapol. Imagino que sim. Como eu e milhares de pessoas ficámos. Fico a pensar que o jornalista tentou dar a mão ao polícia e dar-lhe a voz de sindicalista sensato e democrático. Não conseguiu, mas fez bom jornalismo.

 

sábado, 6 de janeiro de 2024

José Pacheco Pereira - A destruição da razão

OPINIÃO

O contínuo político-mediático muda o carácter daquilo a que chamávamos jornalismo. Nãodianta virem-me dizer que essa relação existiu desde sempre em democracia, porque a resposta é não.

José Pacheco Pereira

6 de Janeiro de 2024, 6:26

Há muitos anos que escrevo sobre um dos factores que penso estar na origem da crise das democracias, o domínio da política democrática pela sua transformação num contínuo político-mediático, que diminui a autonomia da decisão política e a torna cada vez mais dependente dos mecanismos da comunicação social e da sua evolução. Seguindo as tendências actuais, da ignorância agressiva, à culpabilidade afectiva, à colocação da racionalidade como uma coisa do passado e de velhos, sem capacidade de competir com o glamour da superficialidade, tudo puxando para baixo, a política foi pelo mesmo caminho de vulgaridade e comodismo.

Isso afecta a qualidade da democracia, e o contínuo político-mediático muda o carácter daquilo a que chamávamos jornalismo. Não adianta virem-me dizer que essa relação existiu desde sempre em democracia, porque a resposta é não.

Na forma actual, é um fenómeno recente porque não temos, de um lado a política, os partidos, os políticos e, do outro, os jornais, a rádio e a televisão, influenciando-se mutuamente pela mediação da chamada “opinião pública”, mas apenas um lado, o sistema político-mediático, em que cada vez mais os factos, as opiniões, as interpretações são moldados por mecanismos mediáticos em que participam políticos e jornalistas, cada vez mais com uma cultura de acção semelhante e dependente de efeitos comunicacionais tais como a novidade, o timing, o tipo de resposta, a rapidez, a frase assassina, a falta de estudo e de rigor. As redes sociais e novas formas de acesso àquilo que passa por ser informação, mas que é pouco mais do que entretenimento afectivo, apagaram o ethos e o logos, a favor do pathos.


(Goya) DR

Mergulhadas numa pasta emotiva e lúdica, as pessoas são mais pobres na cabeça e remediadas no corpo. E como há quem saiba aproveitar-se disto, são usadas e perdem a liberdade de decidir. Isso aproxima o contínuo político-mediático de formas modernas de propaganda, chamada agora marketing político, em que, de novo, mais uma vez, a principal perda é a da autonomia da política, mas também do jornalismo. E facilita a manipulação por interesses sociais, económicos e culturais, nacionais e geopolíticos. A interferência russa nas eleições americanas de 2016 e no “Brexit”, o papel de empresas como a Cambridge Analitics, fornecendo estudos que permitem manipulações de grupos seleccionados, são mais a regra do que a excepção, e esse mundo só se combate pela cultura, pelo saber, e pela firmeza na acção.

O que se passa em Portugal, um pouco como na Europa, tem relação directa com o alimentar do populismo. Sim, os governos fazem asneiras, há políticos corruptos e apanhados em mentiras, tudo isto é verdade. Têm uma enorme responsabilidade. Mas nada disso seria tão eficaz a alimentar o populismo sem a existência deste contínuo político-mediático que produz a chuva de migalhas que alimenta a extrema-direita.

A informação torna-se muito pobre, a manipulação muita. Isto permite a quem tenha meios e recursos recorrer a profissionais da desinformação ou, no caso dos Estados, a serviços secretos, para obter resultados usando todas as técnicas, das fake news à inteligência artificial, para moldar segundo os seus interesses a opinião pública, logo, o voto.

Parte da nossa esquerda abandonou a luta social em nome das modas 'fracturantes', deixando os milhões de portugueses que são pobres, excluídos e explorados fora de moda, num limbo comunicacional como 'pobres, sujos e maus'

No caso português, a dominação da vida mediática pela direita política não é de agora. Embora se continue a dizer que a maioria dos jornalistas são de esquerda, isso tem um pequeno papel face àquilo a que antes se chamava as ideias dominantes. Uma parte da nossa esquerda abandonou a luta social em nome das modas “fracturantes”, falando assim para pequenas minorias intelectuais urbanas, fazendo um enorme serviço à direita canalizando para as “guerras culturais” de elite a sua energia e deixando os milhões de portugueses, que são pobres, excluídos e explorados, fora de moda, o que também significa apagá-los da sua condição existencial num limbo comunicacional como “pobres, sujos e maus”. Esses portugueses não brilham no escuro como as novas vedetas do neocapitalismo triunfante, como as start-ups, os “unicórnios”, os empreendedores, os nerds das novas tecnologias, as influencers, heróis do jetset e das redes sociais. O resultado é que muitas ideias da direita política ficaram na moda, dominaram jornais e televisões, num terrível mecanismo de não-pensamento e de ignorância.

Veja-se um exemplo dos anos da troika, em que a chamada TINA, a ideia de que não havia alternativa a uma política de austeridade tendo como alvos os “de baixo”, se tornou na vulgata ideológica que políticos, jornalistas, lobistas repetiram da direita à esquerda. Quando alguém apresentava uma proposta, a primeira pergunta era “quanto custa?”, em vez de ser “qual o mérito da proposta?”, mesmo que custasse algum dinheiro. E poderia também ser “quem é que a vai pagar?”. “Quanto custa?” é uma pergunta que tem sentido, principalmente em tempos de escassez, mas teria de ser sempre a segunda pergunta, e não a primeira. A partir daqui estamos num terreno de legitimação da TINA, que depois se somava à apresentação selectiva de alvos nas despesas de segurança social, nos pensionistas e nos idosos, a “peste grisalha” que ameaçava o futuro dos jovens.

O contínuo político-mediático é um excelente instrumento para a manipulação do justicialismo

Nos dias de hoje, o contínuo político-mediático é um excelente instrumento para a manipulação do justicialismo, que sabe para quem orientar as suas fugas de informação – jornalistas e órgãos de comunicação –, escolhendo o tempo dessas fugas para obter ou efeitos políticos ou efeitos de autojustificação dos seus actos quando fez asneiras, mas acima de tudo escolhendo os interlocutores das fugas que sabe que lhes darão de imediato a máxima publicidade e as apontarão aos alvos escolhidos. Antes de alguém parar para pensar e ver o que há de substancial, já títulos e frases estão por todo o lado e a sua impressão não é apagável.

É que, no passado, a política em democracia era suposto servir o bem-estar das pessoas, e o jornalismo a informação e o escrutínio do poder. Hoje, o sistema político-mediático serve interesses e intenções dos poderosos, mas deixa as pessoas comuns com menos liberdade e menos poder. É, para alguns, trabalho bem feito. Para a democracia, é péssimo.

O autor é colunista do PÚBLICO

https://www.publico.pt/2024/01/06/opiniao/opiniao/destruicao-razao-2075882

sexta-feira, 1 de dezembro de 2023

António Guerreiro -- A política e o grotesco

 CRÓNICA ACÇÃO PARALELA

As televisões adoram congressos partidários. O líder representa um papel de clown e suscita dos seus adversários respostas igualmente clownescas.

António Guerreiro

1 de Dezembro de 2023, 10:30

As televisões adoram congressos partidários e os congressistas adoram as televisões. Tão grande amor estaria condenado a desvanecer-se se não fosse estimulado por um imaginário erótico comum, que a ambos excita. A fonte da excitação não é sempre a mesma, muda com o tempo, de congresso para congresso, de partido para partido.

No congresso do PSD, a grande fonte de excitação a alimentar uma demagógica dilatação e endurecimento do discurso do líder foi o grotesco. Entendo aqui por grotesco a atitude e o discurso que, numa versão ainda tímida, ensaiam uma mimese da carnavalização da política, tal como ela tem sido exercida por uma nova categoria de políticos-palhaços que conquistaram a governação em vários países: o último da série, aquele que eleva o grotesco ao seu mais alto grau, é o recém-eleito Presidente da Argentina. Essa atitude clownesca não se manifesta só no discurso, mas também numa gestualidade patética.

Ainda não temos isso por cá, mas, tal como muitas outras coisas de que nos orgulhávamos de não ter acabaram por chegar atrasadas e em força, já ouvimos os seus passos ao longe, a correr para nós. Uma das aproximações do grotesco deu-se neste fim-de-semana, num cenário de espectáculo: o congresso. Aí, o líder proclamou perante o seu auditório, mas para que todo o país ouvisse (a relação amorosa com a televisão e os media em geral é, por definição, pública), que “o mais fanático defensor do gonçalvismo” se chama “camarada Pedro e tem uma Cinderela chamada camarada Mortágua”. E disse mais coisas no mesmo tom.

Entramos assim em pleno domínio do cómico. O líder representa um papel de clown e suscita dos seus adversários respostas igualmente clownescas. Talvez ele se tenha convencido de que representar esse papel é produtivo e eficaz na comunicação fusional com os eleitores. Mas se já se impôs a alguns líderes políticos esta convicção é porque nos estamos progressivamente a aproximar do mundo tirânico da palhaçada, à espera de que se instale definitivamente o que um escritor e ensaísta francês chamado Christian Salmon caracterizou e analisou como “poder grotesco”, em expansão.

Este poder grotesco faz parte da mesma constelação a que pertence a vaga de violência, vinda sobretudo da extrema-direita, que se está a difundir por todo o lado. Há um processo assustador de regressão em curso, de comportamentos colectivos já excluídos da nossa “civilização” e contra os quais nos julgávamos imunizados, que tem dado azo a analogias com o percurso que conduziu aos fascismos. Estas comparações entre épocas históricas diferentes merecem sempre muitas reservas, mas também incitam a muitas cautelas.

Ousei escrever a palavra “civilização” não para a opor, como se faz muitas vezes, à barbárie (na verdade, já Burckhardt, o historiador suíço, mostrou, no final do século XIX, que tal oposição era destituída de pertinência), mas para lembrar uma palavra de que o Presidente francês Emmanuel Macron se serviu, num discurso pronunciado no final de Maio, para fazer um diagnóstico da “doença” que, segundo ele, está a afectar não apenas a França: décivilisation. Tal palavra suscitou um enorme interesse e imediatamente toda a imprensa foi procurar a sua origem. Não foi difícil: ela vem do sociólogo Norbert Elias, o autor de O Processo Civilizacional, que no seu último livro, publicado em 1990, pouco antes da sua morte, estudou a emergência do nazismo, na Alemanha, como uma ruptura no processo da civilização (esse processo de progressiva pacificação do espaço social, desde o final da Idade Média). Esses “estudos sobre os alemães” (assim reza o título do livro) pode ser classificado, no seu género, como uma psicologia histórica. É aí que Norbert Elias dedica um capítulo ao “colapso da civilização”, à “descivilização” (Entzivilisierung).

Acontece, porém, que essa palavra já tinha servido, em 2011, para título de um livro do escritor de extrema-direita Renaud Camus, o autor da teoria xenófoba da “grande substituição” a que, segundo ele, está a ser submetida a “civilização” francesa. As críticas que então foram então feitas a Macron lembravam que a palavra tinha acumulado um outro sentido que não era o do estudo de Elias. Ela vinha carregada com um sentido que, no fundo, legitimava a vaga de violência e a emergência das sombras negras que pairam sobre a Europa e o mundo. O grotesco, para além dos líderes partidários e congressos, é a inclinação funesta deste nosso tempo.

Livro de Recitações

“Assassinadas 25 mulheres em Portugal até 15 de Novembro”
In PÚBLICO, 22/11/2023

Para este crime, não há ainda um nome fixado para o designar: ora se escreve “femicídio”, ora se escreve “feminicídio”. Mas esta hesitação no nome significa que tal crime só recentemente foi categorizado. “Homicídio”, que poderia designar o assassínio dos homens pelas mulheres, designa o assassínio de qualquer ser humano, independentemente do género (oh, a universalidade masculina!). E parece que rara é a utilização da palavra “androcídio”.

Trata-se pois de um problema que tem a sua origem quase exclusivamente no universo masculino. Esta doença que leva os homens a matar as mulheres, quase sempre por ciúmes e porque acham que só as aniquilando redimem a perda do poder de propriedade sobre elas, é um flagelo em todo o lado.

Por estes dias, um crime hediondo de “feminicídio” tinha sido perpetrado em Itália por um “bravo ragazzo” de 22 anos, de boas famílias, o que pôs muitos cronistas, nos jornais, a dissertar sobre a masculinidade, sobre as suas fraquezas que se manifestam na prática de crimes hediondos, às vezes seguidos de suicídio. Mas porque é que eles não decidem suicidar-se antes de matar?

 https://www.publico.pt/2023/12/01/culturaipsilon/cronica/politica-grotesco-2071843