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sábado, 27 de março de 2021

António Lobo Antunes - Praça da Canção

* António Lobo Antunes

Passei a Faculdade a escrever. Não estudava, não ia às aulas, houve exames a que nem sequer compareci.

Ainda hoje me espanta a paciência com que o meu pai aturou isso tudo, ele que era muito autoritário e, por vezes, violento. Argumentava que queria ser escritor, não queria ser médico, soube muito mais tarde que o meu pai, para meu espanto, tinha a certeza que eu tinha talento embora não lhe mostrasse o que fazia: periodicamente queimava tudo junto à figueira do quintal, depois soube que ele ia lá sem me dizer nada, lia os restos que ficavam na cinza e copiava-os para um caderno verde. O meu pai possuía um respeito sagrado pelos artistas e talvez, na sua cabeça, pensasse que eu era um deles, enquanto eu, pouco mais do que um miúdo, vivia atormentado pelas minhas deficiências, sempre a dizer-me

- Ainda não é isto, ainda não é isto e levei vinte anos a encontrar o que seria a minha voz, quando me apareceu a Memória de Elefante. Disse

- Ainda não é isto mas acho que descobri o caminho.

E, depois, seguiu-se o trabalho de fazer crescer aquilo tudo. Mas, nessa altura, já havia terminado a Faculdade de Medicina, já havia passado mais de três anos na tropa, já vivera os horrores de África. Até então fora o tormento do curso, que o fez sofrer a ele e me aborrecia a mim. Mal começava a estudar pensava logo

- Devia estar a escrever e voltava aos poemas péssimos e à prosa mais do que medíocre de que então era capaz, certo que, escondido, morava em mim um grande talento. Não certo, certíssimo, ao ponto de sacrificar fosse o que fosse à literatura. Pai, agradeço-lhe a paciência que teve para comigo, peço-lhe perdão de o haver humilhado com a miséria das minhas notas, agradeço que no fundo de si, embora nunca mo dissesse, me haja compreendido. A certa altura, a meio do curso, aconteceu uma coisa que me abalou muito. Era o final dos anos 60, em que os estudantes se levantavam contra a ditadura: cargas policiais, violência, prisões. Tudo isto me passou um bocado ao lado, entregue, como estava, à minha luta com as palavras. Um colega, no hospital, entregou-me, com grandes pedidos de segredo, um maço de folhas policopiadas. Na primeira página estava escrito Praça da Canção e, por baixo, o nome do autor, que nada me dizia: Manuel Alegre. Foi certamente o livro mais lido, mais comentado, mais entusiasmante, mais influente para a minha geração. Num segundo

(pareceu-me que num segundo) tornou-se a bandeira dos estudantes contra o fascismo e a monstruosidade que vivíamos.

Não me interessou a sua qualidade literária. Interessou-me a corajosa chama daqueles versos e o imenso coração do autor.

Claro que Manuel Alegre era um poeta, não me ralou o tamanho do poeta que ele era, interessou-me o tamanho do que ele dizia.

A ousadia com que fez arder uma geração inteira, e o incêndio que levantou sozinho. Uma ocasião, na fronteira com a Zâmbia, morreu-me um camarada. Só sei dizer assim: morreu-me, porque me morreu de facto. De imediato veio-me à cabeça um poema de Manuel Alegre

Ó meu amigo que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro

e comecei a chorar. Só quem passou por uma desgraça assim é capaz de entender isto até ao osso

Ó meu amigo que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro.

Esta, e outras passagens do livro, ficaram comigo para sempre, ficarão comigo para sempre: que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro.

Foi Manuel Alegre que o escreveu, e é a Manuel Alegre que o devo, porque se trata de uma prenda que nenhum dinheiro paga. Faz cinquenta anos que o livro surgiu, cinquenta anos de gratidão da minha parte. O Poeta mandou-me um exemplar comemorativo do aniversário do livro, com uma dedicatória cuja generosidade me tocou imenso. Manuel, não imaginas quanto estiveste comigo em África e quanto continuas comigo porque, em certo sentido, nunca saímos de lá. E tu ajudaste-me naquele exílio muito mais do que imaginas. Tenho pena que já não fumes porque o brinde que queria fazer-te agradecendo o muito que deste sem o saberes, ao estudantezinho anónimo que eu era, ao militar anónimo que eu fui, seria estender o meu cigarro para ti, dizer-te olhos nos olhos

Ó meu amigo que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro

e esconder uma lágrima de homem para homem num chupão imenso.


Crónica de António Lobo Antunes, 23 de julho de 2015, in Revista Visão



Adriano Correia de Oliveira - Canção com Lágrimas


Canção com lágrimas, por Manuel Alegre

Eu canto para ti o mês das giestas
O mês de morte e crescimento ó meu amigo
Como um cristal partindo-se plangente
No fundo da memória perturbada

Eu canto para ti o mês onde começa a mágoa
E um coração poisado sobre a tua ausência
Eu canto um mês com lágrimas e sol o grave mês
Em que os mortos amados batem à porta do poema

Porque tu me disseste quem me dera em Lisboa
Quem me dera em Maio depois morreste
Com Lisboa tão longe ó meu irmão tão breve
Que nunca mais acenderás no meu o teu cigarro

Eu canto para ti Lisboa à tua espera
Teu nome escrito com ternura sobre as águas
E o teu retrato em cada rua onde não passas
Trazendo no sorriso a flor do mês de Maio

Porque tu me disseste quem me dera em Maio
Porque te vi morrer eu canto para ti
Lisboa e o sol, Lisboa com lágrimas
Lisboa à tua espera ó meu irmão tão breve
Eu canto para ti Lisboa à tua espera.

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Alain Oulman e Manuel Alegre - Meu amor é marinheiro e A Trova do Amor Lusíada


Amália Rodrigues - "Meu amor é marinheiro", por Alain Oulman

Meu amor é marinheiro
E mora no alto mar
Seus braços são como o vento
Ninguém os pode amarrar.

Quando chega à minha beira
Todo o meu sangue é um rio
Onde o meu amor aporta
Seu coração - um navio.

Meu amor disse que eu tinha
Na boca um gosto a saudade
E uns cabelos onde nascem
Os ventos e a liberdade.

Meu amor é marinheiro
Quando chega à minha beira
Acende um cravo na boca
E canta desta maneira.

Eu vivo lá longe, longe
Onde passam os navios
Mas um dia hei-de voltar
Às águas dos nossos rios.

Hei-de passar nas cidades
Como o vento nas areias
E abrir todas as janelas
E abrir todas as cadeias.


Assim falou meu amor


Adriano Correia de Oliveira - Trova do Amor Lusíada"

Meu amor é marinheiro
Meu amor mora no mar.
Meu amor disse que eu tinha
Na boca um gosto a saudade
E uns cabelos onde nascem
Os ventos da liberdade.

INSTRUMENTAL

Meu amor é marinheiro
Meu amor mora no mar.
Seus braços são como o vento
Ninguém os pode amarrar.

INSTRUMENTAL

Meu amor é marinheiro
Meu amor mora no mar.

Trova do Amor Lusíada - Manuel Alegre

Meu amor é marinheiro
quando suas mãos me despem
é como se o vento abrisse
as janelas do meu corpo.

Quando seus dedos me tocam
é como se no meu sangue
nadassem todos os peixes
que nadam no mar salgado.

Meu amor é marinheiro.
Quando chega à minha beira
acende um cravo na boca
e canta desta maneira:

- Eu sou livre como as aves
e passo a vida a cantar
coração que nasceu livre
não se pode acorrentar.

Trago um navio nas veias
eu nasci para marinheiro
quem quiser pôr-me cadeias
há-de matar-me primeiro.

Meu amor é marinheiro
e mora no alto mar
seus braços são como o vento
ninguém os pode amarrar.

Quando chega à minha beira
todo o meu sangue é um rio
onde o meu amor aporta
seu coração - um navio.

Meu amor disse que eu tinha
uns olhos como gaivotas
e uma boca onde começa
o mar de todas as rotas.

Meu amor disse que eu tinha
na boca um gosto a saudade
e uns cabelos onde nascem
os ventos e a liberdade.

Meu amor falou-me assim:

Ó minha pátria morena
meu país de sal e trevomeu cravo minha açucena


vale mais ser livre um dia
lá nas ondas do mar bravo
do que viver toda a vida
pobre triste preso escravo.

Eu vivo lá longe longe
onde passam os navios
mas um dia hei-de voltar
às águas dos nossos rios.

Hei-de passar nas cidades
como o vento nas areias
e abrir as janelas
e abrir todas as candeias

hei-de passar a cantar
pelas ruas da cidade
erguendo na mão direita
a espada da liberdade.

Ó minha pátria morena
meu país de trevo e sal
sou marinheiro e não esqueço
que nasci em Portugal.

Assim falou meu amor
assim falou ele um dia
desde então eu vivo à espera
que volte como dizia.

Eu creio no meu amor
meu amor é marinheiro
quem quiser pôr-lhe cadeias
há-de matá-lo primeiro.

Sei que um dia ele virá
assim muito de repente
como se o mar e o vento
nascessem dentro da gente

como se um navio entrasse
de repente na cidade
trazendo a voar nos mastros
bandeiras de liberdade.

Meu amor é marinheiro
e mora no alto mar
coração que nasceu livre
não se pode acorrentar.

in 30 anos de Poesia, Manuel Alegre, Círculo de Leitores


segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Manuel da Fonseca - As Balas

ritacor
Publicado a 16/04/2011

Dá o Outono, as uvas e o vinho,
Dos olivais, azeite nos é dado.
Dá a cama e a mesa o verde pinho,
As balas deram sangue derramado.

Dá a chuva o Inverno criador,
Às sementes dá sulcos o arado.
No lar a lenha em chama dá calor,
As balas deram sangue derramado.

Dá a Primavera o campo colorido,
Glória, coroa do mundo renovado.
Aos corações dá o amor renascido,
As balas deram sangue derramado.



Dá o Sol as searas pelo Verão,
O fermento no trigo amassado.
No esbraziado forno cresce o pão,
As balas deram sangue derramado.

Dá cada dia ao Homem novo alento,
De conquistar o bem que lhe é negado.
Dá a conquista um puro sentimento,
As balas deram sangue derramado.

De meditar, concluir, ir e fazer,
Dá sobre o mundo o Homem atirado.
À paz de um mundo novo onde viver,
As balas deram sangue derramado.


Dá a certeza o querer e o construir,
O que tanto nos negou o ódio armado.
Que a vida construida é destruir,
As balas deram sangue derramado.

Essas balas deram sangue derramado,
Só roubo e fome e o sangue derramado.
Só ruina e peste e o sangue derramado,
Só crime e morte e o sangue derramado.

sábado, 21 de outubro de 2017

Diálogos poéticos:João Roiz & Saramago






    sábado, 17 de novembro de 2012

    Diálogos poéticos:João Roiz & Saramago

    Dois poemas que, embora separados por cinco séculos, têm um tema comum: A separação amorosa.

    João Roiz de Castel-Branco foi um cavaleiro nobre português, fidalgo português, fidalgo da casa Real, cortesão, e poeta humanista. Nasceu presumivelmente em Castelo Branco em meados do Século XV e faleceu na mesma cidade depois de 1515. Celebrizou-se como poeta, encontrando-se algumas de suas composições integradas no Cancioneiro Geral, de Garcia de Resende, publicado em 1516.

    José Saramago dispensa apresentações.Não sei o ano do poema do Saramago, mas não admira que ele tenha prestado esta homenagem a João Roiz de Castelo Branco, um homem, como ele diz em Viagem a Portugal (1981), «que, pouco mais tendo feito que estes sublimes versos, há-de ser lembrado e repetido enquanto houver língua portuguesa». Uma justa homenagem!


    Cantiga sua partindo-se

    Senhora, partem tam tristes
    meus olhos por vós, meu bem,
    que nunca tam tristes vistes
    outros nenhuns por ninguém.

    Tam tristes, tam saudosos,
    tam doentes da partida,
    tam cansados, tam chorosos
    da morte mais desejosos
    cem mil vezes que da vida.

    Partem tam tristes os tristes,
    tam fora d'esperar bem,
    que nunca tam tristes vistes
    outros nenhuns por ninguém.

    João Roiz de Castelo-Branco (Séc. XV)


    Lembrança de João Roiz de Castel´Branco

    Não os meus olhos, senhora, mas os vossos,
    Eles são que partem às terras que não sei,
    Onde memória de mim nunca passou,
    Onde é escondido meu nome de segredo.

    Se de trevas se fazem as distâncias,
    E com elas saudades e ausências,
    Olhos cegos me fiquem, e não mais
    Que esperar do regresso a luz que foi.

    José Saramago (1922-2010)

    http://alegriabreve47.blogspot.pt/2012/11/dialogos-poeticosjoao-roiz-saramago.html



    CD-Cantos D'antiga Idade-1994



    Gabriel Carlos - SENHORA PARTEM TÃO TRISTES - Fado de Coimbra


    Adriano Correia de Oliveira - "Senhora,partem tão tristes" do disco "Fados de Coimbra II" (EP 1962)


    AMÁLIA, canta João Roiz de Castelo Branco
    Música: Alain Oulman


    "Senhora Partem tão Tristes" 
    Letra de João Ruiz de Castelo-Branco e música de João Barros Madeira
    Jorge Tuna e Jorge Godinho (guitarra)



    quinta-feira, 13 de abril de 2017

    Ary dos Santos - Memória de Adriano

    *  Ary dos Santos

    Nas tuas mãos tomaste uma guitarra.
    Copo de vinho de alegria sã
    Sangria de suor e de cigarra
    Que à noite canta a festa da manhã.

    Foste sempre o cantor que não se agarra

    O que à Terra chamou amante e irmã

    Mas também português que investe e marra
    Voz de alaúde e rosto de maçã.

    O teu coração de oiro veio do Douro

    num barco de vindimas de cantigas
    tão generoso como a liberdade.

    Resta de ti a ilha de um Tesouro

    A jóia com as pedras mais antigas.
    Não é saudade, não! É amizade.

    quarta-feira, 12 de abril de 2017

    Cantares da emigração

    PRA A HABANA!

    V

    Este vaise i aquel vaise,
    E todos, todos se van,
    Galicia, sin homes quedas
    que te poidan traballar.
    Tés, en cambio, orfos e orfas
    E campos de soledad.
    E nais que non teñen fillos
    E fillos que non tén pais.
    E tés corazóns que sufren
    Longas ausencias mortás,
    Viudas de vivos e mortos
    Que ninguén consolará.

    Rosalía de Castro
    in Follas Novas, 1880

    CANTAR DA EMIGRAÇÃO 

    Este parte, aquele parte
    e todos, todos se vão
    Galiza ficas sem homens
    que possam cortar teu pão

    Tens em troca órfãos e órfãs
    tens campos de solidão
    tens mães que não têm filhos
    filhos que não têm pai

    Coração que tens e sofre
    longas ausências mortais
    viúvas de vivos mortos
    que ninguém consolará


    Repete 1ª quadra
    Tradução: José Niza Interpretação: Adriano Correia de Oliveira 
    Album: Cantaremos, 1970

    in http://folhadepoesia.blogspot.pt/2014/09/pra-habana-cantar-de-emigracao.html





    terça-feira, 11 de abril de 2017

    Manuel da Fonseca - Tejo que levas as águas

    * Manuel da Fonseca

    Tejo que levas as águas
    Correndo de par em par
    Lava a cidade de mágoas
    Leva as mágoas para o mar

    Lava-a de crimes espantos
    De roubos fomes terror
    Lava a cidade de quantos
    Do ódio fingem amor

    Lava bancos e empresas
    Dos comedores de dinheiro
    Que dos salários de tristeza
    Arrecadam lucro inteiro

    Lava palácios vivendas
    Casebres bairros da lata
    Leva negócios e rendas
    Que a uns farta e a outros mata

    Leva nas águas as grades
    De aço e silêncio forjadas
    Deixa soltar-se a verdade
    Das bocas amordaçadas

    Lava avenidas de vícios
    Vielas de amores venais
    Lava albergues e hospícios
    Cadeias e hospitais

    Afoga empenhos favores
    Vãs glórias, ocas palmas
    Leva o poder dos senhores
    Que compram corpos e almas

    Das camas de amor comprado
    Desata abraços de lodo
    Rostos corpos destroçados
    Lava-os com sal e iodo

    Tejo que levas as águas
    Correndo de par em par
    Lava a cidade de mágoas
    Leva as mágoas para o mar.
                   
    Manuel da Fonseca, Poemas para Adriano, 1972



     Adriano Correia de Oliveira - "Tejo que levas as águas" do disco "Que Nunca Mais" (LP 1975)

    sábado, 7 de janeiro de 2017

    Conde de Monsaraz - O Senhor Morgado

    * António de Macedo Papança (Conde de Monsaraz)
     
    O senhor morgado
    vai no seu murzelo,
    todo impertigado,
    é um gosto vê-lo
    próspero, anafado,
    véstia alentejana,
    calça de riscado:
    Homem duma cana!
    Vai, todo se ufana
    de ir tão bem montado.
    E ela na janela...

    Seja Deus louvado!

    O senhor morgado
    vai nas próprias pernas,
    todo bandeado;
    Tem palavras ternas
    para cada lado.
    Quando passa, sente
    que é temido e amado;
    Fala a toda a gente.
    Topa um influente:
    "Sou um seu criado..."
    Eleições à porta,
    Seja Deus louvado!

    O senhor morgado
    vai na sege rica
    todo repimpado
    ai que bem lhe fica
    o chapéu armado
    e a comenda ao peito
    e o espadim ao lado!
    Que homem tão perfeito!
    Deputado eleito
    muito bem votado,
    vai para o Te-Deum,
    Seja Deus louvado!




    O Senhor Morgado - intérprete Adriano Correia de Oliveira
    (letra de Conde de Monsaraz, música de José Niza)

    terça-feira, 3 de janeiro de 2017

    POEMA (SONETO) DE MANUEL ALEGRE, DEDICADO A ADRIANO CORREIA DE OLIVEIRA

    * Manuel Alegre


    Não era só a voz o som a oitava
    que ele queria sempre mais acima
    nem sequer a palavra que nos dava
    restituída ao tom de cada rima.

    Era a tristeza dentro da alegria
    era um fundo de festa na amargura
    e a quase insuportável nostalgia
    que trazia por dentro da ternura.

    O corpo grande e a alma de menino
    trazia no olhar aquele assombro
    de quem quer caber e não cabia.

    Os pés fora do berço e do destino
    alguém o viu partir de viola ao ombro.
    Era Outubro em Avintes. E chovia

     https://amigosmaioresqueopensamento.wordpress.com/2012/01/08/poema-soneto-de-manuel-alegre-dedicado-a-adriano-correia-de-oliveira/

    segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

    Manue lAlegre - Trova do vento que passa

    * Manuel Alegre




    Pergunto ao vento que passa
    notícias do meu país
    e o vento cala a desgraça
    o vento nada me diz.

    Pergunto aos rios que levam
    tanto sonho à flor das águas
    e os rios não me sossegam
    levam sonhos deixam mágoas.

    Levam sonhos deixam mágoas
    ai rios do meu país
    minha pátria à flor das águas
    para onde vais? Ninguém diz.

    Se o verde trevo desfolhas
    pede notícias e diz
    ao trevo de quatro folhas
    que morro por meu país.

    Pergunto à gente que passa
    por que vai de olhos no chão.
    Silêncio -- é tudo o que tem
    quem vive na servidão.

    Vi florir os verdes ramos
    direitos e ao céu voltados.
    E a quem gosta de ter amos
    vi sempre os ombros curvados.

    E o vento não me diz nada
    ninguém diz nada de novo.
    Vi minha pátria pregada
    nos braços em cruz do povo.

    Vi minha pátria na margem
    dos rios que vão pró mar
    como quem ama a viagem
    mas tem sempre de ficar.

    Vi navios a partir
    (minha pátria à flor das águas)
    vi minha pátria florir
    (verdes folhas verdes mágoas).

    Há quem te queira ignorada
    e fale pátria em teu nome.
    Eu vi-te crucificada
    nos braços negros da fome.

    E o vento não me diz nada
    só o silêncio persiste.
    Vi minha pátria parada
    à beira de um rio triste.

    Ninguém diz nada de novo
    se notícias vou pedindo
    nas mãos vazias do povo
    vi minha pátria florindo.

    E a noite cresce por dentro
    dos homens do meu país.
    Peço notícias ao vento
    e o vento nada me diz.

    Quatro folhas tem o trevo
    liberdade quatro sílabas.
    Não sabem ler é verdade
    aqueles pra quem eu escrevo.

    Mas há sempre uma candeia
    dentro da própria desgraça
    há sempre alguém que semeia
    canções no vento que passa.

    Mesmo na noite mais triste
    em tempo de servidão
    há sempre alguém que resiste
    há sempre alguém que diz não.

    sábado, 9 de abril de 2016

    Ary dos Santos - Memória de Adriano



     * Ary dos Santos

    Memória de Adriano


    Nas tuas mãos tomaste uma guitarra.
    Copo de vinho de alegria sã
    Sangria de suor e de cigarra 
    que à noite canta a festa da manhã.


    Foste sempre o cantor que não se agarra
    O que à Terra chamou amante e irmã
    Mas também português que investe e marra
    Voz de alaúde e rosto de maçã.

    O teu coração de oiro veio do Douro
    num barco de vindimas de cantigas
    tão generoso como a liberdade.

    Resta de ti a ilha de um Tesouro
    A jóia com as pedras mais antigas.
    Não é saudade, não! É amizade.

    http://cravodeabril.blogspot.pt/2016/04/memoria-de-adriano.html

    sábado, 9 de março de 2013

    Era de noite e levaram, Catarina

    AO RETRATO DE CATARINA
     (Carlos Aboim Inglez)


     Esses teus olhos enxutos
    Num fundo cavo de olheiras
    Esses lábios resolutos
    Boca de falas inteiras
    Essa fronte aonde os brutos
    Vararam balas certeiras
    ... Contam certa a tua vida
    Vida de lida e de luta
    De fome tão sem medida
    Que os campos todos enluta

    Ceifou-te ceifeira a morte
    Antes da própria sazão
    Quando o teu altivo porte
    Fazia sombra ao patrão
    Sua lei ditou-te a sorte
    Negra bala foi teu pão
    E o pão por nós semeado
    Com nosso suor colhido
    Pelo pobre é amassado
    Pelo rico só repartido

    Tanta seara continhas
    Visível já nas entranhas
    Em teu ventre a vida tinhas
    Na morte certeza tenhas
    Malditas ervas daninhas
    Hão-de ter mondas tamanhas
    Searas de grã estatura
    De raiva surda e vingança
    Crescerão da tua esperança
    Ceifada sem ser madura

    Teus destinos Catarina
    Não findaram sem renovo
    Tiveram morte assassina
    Hão-de ter vida de novo
    Na semente que germina
    Dos destinos do teu povo
    E na noite negra negra
    Do teu cabelo revolto
    nasce a Manhã do teu rosto
    No futuro de olhos posto
     
     
    *****
     

    Rosa de Sangue
    (António Ferreira Guedes)
    .
     
    Os olhos dos camponeses
    são fogos na madrugada
    Mal o seu corpo tombou
    a noite ficou cerrada.
    ...
    Tiros soaram longe
    no silêncio da campina
    Rosa de sangue brotou
    dos seios de Catarina.

    Maduro se faz o trigo
    em terra sem ser regada
    Quem no sangue semeou
    há de colher uma espada.

    Os olhos dos camponeses
    são fogos na madrugada
    Mal o seu corpo tombou
    a noite ficou cerrada.


     
     
     *****
    Luísa Basto.
     

     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     
     






     
     
    CANÇÃO DE CATARINA
    (Papiniano Carlos)


    Na fome verde das searas roxas
    Passeava sorrindo Catarina
    Na fome verde das searas roxas
    Ai a papoila cresce na campina!
    Na fome roxa das searas negras
    Que escondes, Catarina, em tua fronte?
    Na fome roxa das searas negras
    Ai devoraram corvos o horizonte!

    Na fome negra das searas rubras
    Ai da papoila, ai de Catarina!
    Na fome negra das searas rubras
    Trinta balas gritaram na campina

    Trinta balas te mataram a fome

    A fome, Catarina
     
     
    ~~~~~~~~~~~~~~
     
    ERA DE NOITE E LEVARAM
    (Luís Andrade)
     
    Era de noite e levaram
    Era de noite e levaram
    Quem nesta cama dormia
    Nela dormia, nela dormia

    Sua boca amordaçaram
    Sua boca amordaçaram
    Com panos de seda fria
    De seda fria, de seda fria

    Era de noite e roubaram
    Era de noite e roubaram
    O que na casa havia
    na casa havia, na casa havia

    Só corpos negros ficaram
    Só corpos negros ficaram
    Dentro da casa vazia
    casa vazia, casa vazia

    Rosa branca, rosa fria
    Rosa branca, rosa fria
    Na boca da madrugada
    Da madrugada, da madrugada

    Hei-de plantar-te um dia
    Hei-de plantar-te um dia
    Sobre o meu peito queimada
    Na madrugada, na madrugada
     
     
     
     *****
     
    ABANDONO (FADO DE PENICHE)
    (David Mourão-Ferreira)
     
    Por teu livre pensamento
    foram-te longe encerrar.
    Tão longe que o meu lamento
    não te consegue alcançar.
    E apenas ouves o vento.
    E apenas ouves o mar.

    Levaram-te a meio da noite:
    a treva tudo cobria.
    Foi de noite, numa noite
    de todas a mais sombria.
    Foi de noite, foi de noite,
    e nunca mais se fez dia.

    Ai dessa noite o veneno
    persiste em me envenenar.
    Ouço apenas o silêncio
    que ficou em teu lugar
    Ao menos ouves o vento!
    Ao menos ouves o mar!
     

    *****
     

    À MEMÓRIA DE CATARINA EUFÉMIA

    (Alexandre O'Neill)

     Podes mudar de nome, carrajola
     pôr umas asas brancas, arvorar
    ... um ar contrito,
     dizer que não, que não foi contigo,
     disfarçar-te de andorinha, de sobreiro ou de velhinha,
     podes mudar de nome, carrajola,
     de aldeia, de vila ou de cidade
    — és como um percevejo num lençol!


     Quando tivermos Portugal nos braços
     e pudermos amá-lo sem sofrer,
     quando o Alentejo se puser a rir,
     Catarina Eufémia, minha irmã,
     então o teu filho há-de nascer!




    O’Neill, Alexandre, Coração Acordeão, Lisboa: O Independente, 2004

    (previamente publicado na Flama, 24 de Maio de 1974)
    http://asfolhasardem.wordpress.com/2011/01/04/alexandre-oneill-um-poema-que-circulou-na-clandestinidade/
     
     
     

    *****
    .
    Portugal ressuscitado
    (José Carlos Ary dos Santos)
    .
    (...)
    Esses que tinham lutado
    a defender um irmão
    esses que tinham passado
    o horror da solidão
    esses que tinham jurado
    sobre uma côdea de pão
    ver o povo libertado
    do terror da opressão.
    Não tinham armas é certo
    mas tinham toda a razão
    quando um homem morre perto
    tem de haver distanciação
    uma pistola guardada
    nas dobras da sua opção
    uma bala disparada
    contra a sua própria mão
    e uma força perseguida
    que na escolha do mais forte
    faz com que a força da vida
    seja maior do que a morte.
    (...)
    .
    Podes ouvir aqui este excerto, na voz de Ary dos Santos
    .
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    Cartaz para a libertação dos presos políticos no Chile de Pinochet


    Forte de Caxias


     
    Campo de Concentração do Tarrafal - a frigideira


     
    Libertação dos presos políticos, que a Junta de Salvação Nacional presidida por Spínola tentou impedir, ao mesmo tempo que tentava manter a PIDE e a proibição dos partidos políticos, incluindo o PCP