Mostrar mensagens com a etiqueta Corrupção. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Corrupção. Mostrar todas as mensagens

terça-feira, 14 de abril de 2026

Em tormo do 25 de Abril, entre Pacheco Pereira e André Ventura

 


Uma palmatória, comparações "absurdas" e "traições à pátria": o debate entre Pacheco Pereira e Ventura sobre presos políticos

Uma frase de Ventura que levou os deputados constituintes a abandonarem uma sessão no Parlamento levou a um debate tenso, longo, com relatórios pelo meio e até uma palmatória.

Mariana Lima Cunha. Texto

14 abr. 2026

A premissa era simples: contrariar a ideia, lançada por André Ventura na sessão solene pelos 50 anos da Constituição portuguesa, de que houve mais presos políticos a seguir ao 25 de Abril do que (imediatamente) antes. O repto foi lançado por Pacheco Pereira, Ventura aceitou, e o que se seguiu foi 1h20 de debate (e alguns gritos) em que os dois discutiram as prisões, a descolonização e a corrupção durante a ditadura portuguesa, com diferentes armas: muitos livros, um dossiê com relatórios e uma palmatória, levada por Pacheco Pereira para ilustrar as torturas levadas a cabo pelos portugueses nas antigas colónias.

O debate organizado pela CNN andou sempre à volta da mesma ideia: André Ventura queria defender que houve prisões políticas e tortura no período da transição para a democracia, o que significaria que nem tudo na democracia é bom e “nem tudo [na ditadura] foi mau”; Pacheco Pereira considerava a comparação “absurda”, uma vez que punha em confronto as prisões, torturas e outras restrições às liberdades que aconteceram durante 48 anos de ditadura e a “turbulência própria” dos meses seguintes, a que se pôs termo com a normalização do regime democrático.

O líder do Chega explicou inicialmente que o que “quis dizer” no dia da sessão da Constituição foi que especificamente no dia 24 de Abril de 1974 havia menos presos políticos em Portugal do que haveria uns meses depois, referindo-se também aos expatriados que foram “perseguidos pelos novos donos de sistema”. Falou da forma como cresceu em Mem Martins, sem “privilégio”: “Estou à vontade para dizer: o sistema anterior errou mas o que veio não trouxe naqueles meses tudo de bom. Eu gostava era de ter uma democracia plena, em que não houvesse presos políticos e torturados e expropriações”.

Ouça aqui a reportagem da Rádio Observador

Além disso, Ventura arrancou o debate contestando a ideia de que todas as pessoas presas nas colónias fossem presos políticos, mostrando as imagens de bebés mortos pela UPA em 1961 e defendendo que alguns presos o foram por estarem a “atacar os nossos militares”.

“Você mete-se em cada sarilho…”, cometou Pacheco Pereira, lembrando o número de presos a 24 de Abril — 127 em Portugal continental, 4249 nas colónias — e lembrando também que o número de guerrilheiros presos era relativamente baixo, até porque muitos eram executados; grande parte dos presos seriam “enfermeiros, funcionários dos correios, pastores protestantes, professores, estudantes aliciados a regressarem a Portugal”. Além disso, argumentou, quem se defendia da “ocupação portuguesa” deveria ser considerado preso político. “Se Espanha invadisse Portugal o que fazia? É uma atitude política”, frisou. “Como bom nacionalista que é, admite que estavam a lutar pelo seu país”.

Por entre ataques vários — “hoje não tem aqui a Alexandra Leitão, é o André Ventura”; “Eu gosto muito do meu país, em muitos aspetos mais do que o André Ventura” — os debatentes foram comparando números e também os castigos corporais que existiram, em muito maior número durante o Estado Novo. “Trouxe uma palmatória que era usada nos castigos corporais”, mostrou Pacheco Pereira, lendo descrições de torturas da PIDE em Moçambique: “Violação anal com garrafas, mutilação do pénis com queimaduras, choques elétricos, suspensão do tecto de cabeça para baixo, Sabe qual é o problema? É que estes são pretos. Eram tratados como sub-homens. Vários deles desapareceram. Estas violências eram sistemáticas e aconteceram durante todo o período do império colonial”.

Já Ventura leu as descrições de torturas que aconteceram já depois do 25 de Abril, incluindo de “carpinteiros, comerciantes, advogados e reformados, pessoas que discordavam da extrema-esquerda”, e ironizou: se a ditadura era “tão feroz”, não poderiam existir apenas “cento e tal presos em Lisboa” (número que se referia apenas à véspera do 25 de Abril).

“Podemos concordar que tudo o que é tortura é mau, mas não me venham com a história de que a violência de direita é má e a de esquerda é boa”, foi repetindo o líder do Chega, enquanto o historiador defendia que há “comparações que são elas próprias mentira“, como a que Ventura faz entre 48 anos de ditadura e os dois anos posteriores. “É tão pontual que é incomparável”, disse, frisando que não nega que tenha havido violência e tortura já no período da liberdade, mas que a da ditadura foi “sistemática”. “Sabe o que são 48 anos de tortura sistemática, de humilhação das pessoas comuns, de violência, de censura? Isso cria uma situação em que a transição portuguesa, mesmo com esses casos, foi relativamente pacífica. Deixou uma enorme herança de vingança e ressentimento“.

Inevitavelmente, a discussão passou por nomes particularmente controversos — Pacheco Pereira descreveu Marcelino da Mata como um “assassino” que se “gabava” de matar homens, mulheres e crianças, Ventura respondeu que Otelo Saraiva de Carvalho é que era “um assassino e um bandido”. Ventura defendeu que PCP e UDP deviam pagar as “expropriações erradas” do pós-25 de Abril e que em toda a ditadura não se encontra uma ordem de Salazar ou Marcelo Caetano para mandar prender alguém — não precisavam, já que tinham uma polícia política ao dispor, contrapôs o historiador.

Houve ainda tempo, num debate com mais meia hora do que o anunciado, para falar da descolonização, que Ventura considerou “criminosa” (“Queriam tanto a independência e hoje estão a vir para cá viver”) e para Pacheco Pereira concluir que o interlocutor “justifica a ditadura”. “Com esse tipo de afirmação de extrema-direita, [o Chega] é um partido fascista“. “Eu nasci em 1983, não quero saber da ditadura para nada”, respondeu Ventura. “É a história da Humanidade, temos de estar do lado da nossa pátria”, exclamou, confrontado com o número de pessoas mortas na guerra colonial.

Com Pacheco Pereira a culpar Salazar pelos erros na descolonização, Ventura acusou-o de “trair a sua pátria”. “Devíamos ter tido uma transição democrática, não comunistas a assaltar o poder. Os senhores, incluo-o a si, estavam tão cheios de chama do espírito de comunista não olharam a meios. Por isso Portugal está na cauda da Europa”. “Essa ‘revolução miserável’ deu a liberdade a Portugal e para dizer o que diz. Quem lutou contra a ditadura lutou por Portugal. Eu amo o meu país”, respondeu Pacheco Pereira.

A discussão passou ainda pelos grupos terroristas de extrema-esquerda e extrema-direita após o 25 de Abril, tendo a ELP “beneficiado” da condescendência “gigantesca” das autoridades e sido, como as FP-25, “amnistiada com a ideia de que se ia pacificar a sociedade”. Os últimos, frisou Pacheco Pereira, chegaram a ser condenados porque “a democracia nessa altura estava a funcionar”.

Ainda houve tempo para uma breve incursão pelo tema da corrupção, com Ventura a dizer que na ditadura “havia corrupção como agora há” — “Então porque é que não pôs um cartaz a dizer 100 anos de corrupção?”, questionou Pacheco Pereira, referindo-se ao cartaz em que o Chega diz que já lá vão “50 anos de corrupção” — isto é, referindo-se apenas ao tempo de democracia. Ventura acabou por dizer que “Sócrates roubou muito mais do que Salazar” e que o “sistema está podre de corrupção”, acabando por prometer que se tivesse nascido mais cedo, no tempo da ditadura, lá estaria também a lutar contra o problema.

A troca de acusações final teve a ver com cristianismo — “eu sou ateu”, disse Pacheco Pereira; “faz mal”, respondeu Ventura”; “o seu partido é o mais anticristão. Não há uma declaração dos dois últimos Papas que não seja diretamente contra as posições do Chega na imigração”, atirou o historiador; “Não me dá lições de cristianismo porque fazemos (…) luta contra a islamização”, respondeu o líder partidário. Teriam continuado por ali fora, mas já não havia mais tempo.

 https://observador.pt/2026/04/14/uma-palmatoria-comparacoes-absurdas-e-traicoes-a-patria-o-debate-entre-pacheco-pereira-e-ventura-sobre-presos-politicos/

quinta-feira, 26 de março de 2026

Daniel Oliveira - Chega nas autarquias: Sorria, foi enganado outra vez e sabia

* Daniel Oliveira

Desvinculações do partido para ganhar pelouros, casos, nomeações escandalosas, balbúrdia entre vereadores. Nada disto é surpreendente no partido que queria acabar com os tachos e a bandalheira, mas é a rampa de lançamento de quem não conseguiu lugares noutros lados. Não é provável que os seus eleitores não o saibam. Mas não é um voto de exigência, é um voto de desistência

Em várias autarquias houve acordos com o Chega, sobretudo em câmaras do PSD. De uma forma ou de outra, formal (Sintra) ou informalmente (Lisboa), os vereadores do Chega ajudaram a construir maiorias em cinco dos seis maiores concelhos do país. Isto seria uma estratégia de poder. Mas na maior parte das câmaras talvez seja difícil falar de estratégia.

Em apenas cinco meses fora oito os vereadores eleitos pelo Chega que abandonaram o partido e passaram a independentes: em Lisboa, Ana Simões Silva (eleita por um voto de diferença) desfiliou-se e integrou o executivo de Carlos Moedas, assumindo os pelouros da Saúde e do Desperdício Alimentar. Em Vila Nova de Gaia, António Barbosa seguiu o mesmo caminho e entrou no executivo de Luís Filipe Menezes com pelouros das Feiras, Mercados, Ambiente e Bem-Estar Animal. Em Coimbra, Maria Lencastre Portugal desfiliou-se e foi nomeada para funções executivas numa empresa municipal de Ana Abrunhosa, do PS. Em Mirandela, Luís Saraiva conseguiu sair do partido ainda antes da tomada de posse, deixando claro ao que vinha. No Funchal, Luís Filipe Santos e Jorge Afonso Freitas saíram do partido, mas mantiveram-se sem pelouros. O mesmo aconteceu na Marinha Grande, com Emanuel Vindeirinho. E em Ourém, Rita Sousa renunciou ao mandato, o que é um pouco diferente.

Em poucos meses, o Chega já soma mais casos de demissões, desvinculações e ruturas do que partidos com muito mais vereadores e presidências de câmara. Mais do que divergências, é gente à procura de um lugar ao sol.

Em São Vicente, na Madeira (outro dos três concelhos conquistados pelo Chega), o presidente retirou os pelouros aos outros vereadores do seu partido e governa sozinho. Em Portimão, 19 eleitos do Chega a ameaçarem demitir-se em bloco porque dois dos três vereadores do partido viabilizaram o orçamento do PS. Dizem que o fizeram porque o orçamento é bom. Permitam-me duvidar.

Em Lisboa, o vereador que não abandonou o partido queimou-se com a nomeação da Mafalda Livermore para a administração dos Serviços Sociais da Câmara. A sua namorada é alvo de investigação por burla e exploração de imigrantes. Mas as nomeações de pessoas demasiado próximas é um clássico no partido que ia lutar contra o nepotismo – Rui Cristina, presidente da Câmara de Albufeira, levou a irmã para assessora. Explicou-se: “Sei que todos os presidentes de câmara gostariam de ter uma irmã qualificada como esta para trabalhar em prol dos munícipes”.

Onde não há debandada há balbúrdia.

Tudo contrasta com o partido que promete acabar com a bandalheira, o oportunismo e os arranjinhos do sistema. Mal se aproximam dos únicos tachos a que já têm acesso, ninguém lhes ensina nada. Porque o Chega não passa de uma rampa de lançamento para quem foi rejeitado por outros partidos. Cresceu muito e depressa, tem falta de quadros e recebeu o refugo de carreiristas que, chegados ao poder, tratam da vidinha. Sejamos justos: estando longe do poder nacional, ainda são carreiras de pouca ambição.

Nada disto deveria surpreender os eleitores. Já no mandato anterior o Chega acumulava episódios nas autarquias e na Assembleia da República. O deputado Miguel Arruda foi só o mais mediático, por ser risível. Num recorde absoluto de problemas com a justiça, há dirigentes e deputados do partido da “lei e da ordem” envolvidos em processos que vão da condução sob efeito de álcool a abuso de menores – esta semana já vai no quinto suspeito de pedofilia.

Não é provável que a maioria dos eleitores do Chega desconheça estes casos. Que não saiba que os vereadores que elegeu saltaram para fora do partido para chegar ao pote. Que viva a leste do destino do seu voto. Alguns estarão de tal forma fanatizados que ou justificarão o injustificável ou encontrarão consolo no burocrático distanciamento do líder cada vez que algum caso chega aos jornais. O eleitorado do Chega é o sonho de qualquer político: dá tudo sem exigir nada.

Mas a maioria apenas confirma a tese que tenho há algum tempo: o voto no Chega não é dos desiludidos da democracia, mas dos que desistiram dela. Não é um voto de exigência, é um voto de desistência. Não querem abalar o sistema, aceitam a caricatura do sistema, porque “eles são todos iguais”. Estão-se nas tintas. Já não esperam nada. Sobretudo daqueles em quem votam.

2026 03 26

 https://expresso.pt/opiniao/2026-03-26-chega-nas-autarquias-sorria-foi-enganado-outra-vez-e-sabia

domingo, 22 de fevereiro de 2026

Edward Curtin - A espontaneidade cuidadosamente calculada da divulgação “chocante” dos ficheiros de Epstein


(Edward Curtin, in Contercurrents.org, 19/02/2026, Trad. Estátua)

Sempre que um “escândalo” com o impacto dos arquivos de Epstein domina as notícias, podemos ter certeza de que se trata de uma manobra para desviar a atenção de algo mais sinistro que está para vir.

Os arquivos de Epstein estão na posse do FBI há oito anos ou mais. Então, por que é que os arquivos, com trechos censurados, foram apenas divulgados recentemente?  Cui bono ?

E quem está por detrás da divulgação que não ocorreu durante o primeiro mandato de Trump e o primeiro mandato de Biden?  Cui bono ?

O genocídio em Gaza e a guerra por procuração dos EUA contra a Rússia, ambos apoiados por Biden e Trump, encaixam-se no cronograma e nas omissões, visto que podemos presumir que o Mossad, a CIA, a NSA e o MI6 também tiveram acesso aos arquivos por muito tempo? Um ataque dos EUA/Israel ao Irão?   Porque, como nos filmes, toda a propaganda e encobrimentos têm datas de divulgação cuidadosamente escolhidas.

Última pergunta: por que é que alguém ficaria chocado com o conteúdo dos ficheiros de Epstein, embora muitas pessoas pareçam estar? Sim, mais nomes foram adicionados à lista de elites degeneradas que, alegremente, faziam parte da organização criminosa de Epstein, mas a revelação de mais nomes apenas confirma o quanto ela era extensa.

Há muito tempo que sabemos das atividades criminosas do degenerado Epstein, dos financiadores, celebridades, políticos e figuras públicas que se juntaram a ele. Chantagem sexual, cooperação entre agências de serviços secretos e o submundo, acordos financeiros secretos, planeamento de guerras em nome da paz, etc., são formas de como, há muito, o capitalismo tem operado. Embora aqueles que investigam estas coisas já há muito soubessem da sua existência (ver, por exemplo, One Nation Under Blackmail, de Whitney Webb, em dois volumes), as pessoas comuns podem estar, finalmente, a compreender; mas chocante não é. E o “podem” deve ser enfatizado. Todos nós vivemos há muito tempo numa cultura de crescente «choque», onde as notícias e o entretenimento mais grotescos são elementos básicos dos meios de comunicação social, desde Washington D.C. a Hollywood e em toda a Internet, o macaco perseguiu a doninha. Os macacos pensaram que era tudo uma brincadeira, e então Pop! lá se foi a doninha.

Ficar chocado parece estar na moda; apimenta a vida, induz aquele calafrio que só o sexo, a morte e o tempo podem trazer às conversas diárias. “Dá para acreditar?” e “Inacreditável!” ouvem-se a toda a hora e brotam dos lábios, dos ecrãs e dos sites em toda a parte, convidando-nos a vir até àquele sítio para ficarmos estupefactos e com a cabeça a girar vertiginosamente. Pessoas comuns tornaram-se Regan MacNeil, a jovem possuída por um demónio em O Exorcista.

Se os meios de comunicação social mainstream alguma vez aprofundassem o assunto a fundo, teriam que expor-se como agentes das mesmas forças que se encontram por detrás da ascensão de Epstein ao poder. Com que frequência é que esses meios de comunicação ligam Epstein a Israel, ao Mossad, à CIA, etc.? Não são só indivíduos malvados que governam, mas uma estrutura do mal, um sistema, se quiserem, um sistema social profundamente enraizado, atualmente administrado publicamente pelo idiota malvado Trump que, numa entrevista recente ao The New York Times, quando questionado se achava que havia limites para o seu poder global, disse: “Sim, há uma coisa. A minha própria moralidade. A minha própria mente. É a única coisa que pode deter-me”.

Essa declaração revelou o segredo. É o credo do niilista, fundamental para o ethos atual. Sem honra, sem padrões éticos tradicionais, sem Deus, sem amor pela humanidade, apenas notícias falsas e enganosas destinadas a chocar e um presidente dos EUA falando como um punk adolescente. Sim. Inacreditável! «Eu conheço as palavras. Tenho as melhores palavras. Tenho as… – mas não há palavra melhor do que estúpido.» (Entra a banda sonora.)

O cineasta francês da Nouvelle Vague, Jean-Luc Godard, disse certa vez: “Para fazer um filme, tudo o que é preciso é uma garota e uma arma“. Bem, temos o filme sobre Epstein, no qual ele e os seus amigos venais e sórdidos tinham as garotas, mas quem detinha as armas, e não os pénis, por trás dos seus empreendimentos criminosos, é algo que permanece sem resposta.

Quando apanhados em flagrante, os meios de comunicação social adoram expor certos indivíduos que baixam as calças para fins de abuso sexual, mas consideram impossível derrubar aqueles vilões depravados que cometem atrocidades contra pessoas comuns, dia após dia, em todo o mundo. Vamos chamá-los os produtores. Eles moldam e pagam pelas notícias.

O presidente do reality show, Donald Trump — o rosto do imperialismo explícito e do regime ditatorial interno, um brutamontes grosseiro cuja máxima fundamental é “o poder faz a justiça” e cujo nome aparece várias vezes nos arquivos de Epstein —, sabe bem como o jogo é jogado. Após a sua briga televisionada com Zelensky no ano passado (ou foi antes do conflito?), disse: “Isto vai dar um excelente programa de televisão”. O mesmo se poderá dizer do filme sobre Epstein. Talvez até dê uma série.

E, como no passado, ninguém envolvido nessa atividade deplorável e criminosa – com exceção de Epstein e Ghislaine Maxwell – irá provavelmente cumprir qualquer pena de prisão. O que não é surpresa nenhuma.

Quanto a choques, é melhor assistir aos Jogos Olímpicos de Inverno e ficar «chocado» com os atletas favoritos a caírem no gelo e na neve. Pelo menos essas quedas são reais.

Há uma pintura numa casa de campo ainda visível na entrada da Casa dos Vettii, nas ruínas de Pompeia, que nos diz muito sobre os arquivos de Epstein, o poder e a riqueza. Ela simboliza perfeitamente um aspecto da diferença entre as classes dominantes internacionais – ou seja, os detalhes obscenos nos documentos de Epstein, sem a resposta de quem tem conduzido a operação de chantagem e porquê – e o resto de nós. Ela retrata o deus Príapo pesando o seu pénis numa balança de moedas de ouro, como se dissesse: ouro, Deus, riqueza e poder – nós governamos. Vão-se foder! É uma velha história contada por homens niilistas desesperados para provar a sua potência dominando meninas e mulheres vulneráveis e o mundo inteiro.

Muitos têm perguntado como é possível que Epstein e todos os outros, nomeados ou não, tenham feito coisas tão más e criminosas? O mal parece deixar os intelectuais modernos muito perplexos. Será que eles acham que El Diablo é uma marca de molho de salsa?

A explicação de Hannah Arendt para o comportamento de Adolf Eichmann – a banalidade do mal – é uma das explicações que agora estão a ser usadas para dissecar o comportamento de Epstein. Outros dizem que ele não tinha consciência ou não conseguia raciocinar como um adulto; que não era muito inteligente, mas que era um excelente vigarista. Que era narcisista. Todas elas são explicações superficiais. Nenhuma delas chega ao cerne da questão. Como de costume, e de forma completamente errada, alguns culpam Nietzsche e a ideia do ubermensch (o super-homem). Nietzsche (tal como a Rússia) é frequentemente culpado por todos os males modernos por aqueles que interiorizaram noções falsas acerca da sua obra. Na verdade, Nietzsche alertou que, visto que os homens mataram Deus, “algo extraordinariamente desagradável e maligno está prestes a ocorrer”. Ele não estava nada contente com isso.

O brilhante e subestimado escritor Edward Dahlberg, num ensaio sobre Nietzsche – “O Verdadeiro Nietzsche ” – diz o seguinte sobre o filósofo: “Ele denunciou a política racial, outro termo para antissemita, chamando-se a si mesmo de ‘bom europeu’, ‘anti-antissemita’… Nada adiantou; os anti-judeus do Partido Nacional-Socialista Alemão (NSDAP) apresentaram-no ao público como um político teutónico. E é assim ele que ele é apresentado até hoje, distorcido para fins ideológicos. É de se perguntar quem é que ainda lê hoje em dia.

A propósito do uso da linguagem e da degradação da compreensão, Dahlberg acrescenta: “Tornámos a linguagem tão comum que deixámos de ser leitores simbólicos. A menos que examinemos o intelecto total do poeta como o seu texto, interpretaremos mal Blake ou Shakespeare, da mesma forma tola em que Nietzsche tem sido distorcido”.

Compreender as palavras simbolicamente é entender como os bons escritores as usam nos seus múltiplos significados, não apenas literalmente, não como lascas de pedra desprendidas de uma encosta pedregosa que atravancam uma estrada que não leva a lugar nenhum; mas como eles as fazem vibrar e brilhar, mergulhar profundamente e voar alto como pássaros luminescentes, para que outros possam contemplar profundamente e pensar uma, duas ou talvez mais vezes.

Pense no uso grosseiro da linguagem por parte de Trump; pense no de Epstein; pense na cultura em geral. Mergulhámos numa época de ignorância grosseira e a nossa decadência cultural reflete-se na decadência da nossa linguagem. Trump e Epstein refletem a cultura em geral nesse aspecto. Claramente, uma das razões para isso é a internet e os média digitais, particularmente o telemóvel com a sua câmara e mensagens de texto. É também uma razão importante para a comunicação vasta e constante entre Epstein e os seus «amigos», bem como a facilidade com que a chantagem poderia ser efetuada. Isso não é por acaso.

Alguns de nós tivemos a sorte de vivenciar, ainda jovens, a corrupção no âmago do sistema. Penso no grande jornalista  Michael Parenti, falecido recentemente, que por causa de suas opiniões pacifistas, foi excluído da carreira académica, mas que usou essa experiência para se tornar um professor livre para o mundo.

Na minha ingenuidade dos vinte e poucos anos, eu trabalhava à noite na 42ª Delegacia do Bronx, entrevistando detidos nas celas de detenção. Lá, descobri que muitos eram incriminados por polícias à paisana que colocavam drogas neles; que a delegacia tinha um stock de drogas ilegais para esse fim. Pensando que eu era seu aliado, um polícia contou-me isso e disse que «temos que tirar esses malditos bastardos das ruas» (referindo-se aos homens negros e porto-riquenhos). Isso foi quatro ou cinco anos antes de o honesto e corajoso polícia à paisana do Departamento de Polícia de Nova York, Frank Serpico (que mais tarde se tornou meu amigo), ser incriminado por outros polícias e ser baleado no rosto. Alguns anos depois, foi feito sobre ele o filme Serpico, interpretado por Al Pacino.

Há sempre um filme.

Numa escola onde eu lecionava, um homem que ocupava um cargo importante e que eu respeitava, sabendo que eu estava envolvido em atividades contra a guerra, tentou – para meu grande choque – recrutar-me para a Inteligência do Exército. Esses e muitos outros exemplos fizeram-me adotar desde cedo uma postura cética em relação às figuras de autoridade. Estou grato por essas lições iniciais.

Como todas as histórias, o filme de Epstein passa-se dentro de um sistema simbólico cultural mais amplo, que é mítico nas suas dimensões. De que outra forma se pode explicar o ódio quase inerradicável dos americanos por tudo o que é russo? Nos EUA, o grande mito é chamado Sonho Americano, no qual, segundo o falecido George Carlin, é preciso estar adormecido para acreditar, mas que, mesmo assim, existe, embora possa estar a desmoronar-se. Todas as sociedades têm um sistema simbólico desse tipo. Através das suas histórias e símbolos, são transmitidos significados e valores. E as pessoas vivem de histórias, histórias dentro de histórias. Mito significa história.

Durante muitas décadas, temos passado por uma enorme transformação simbólica, na qual a ordem simbólica controladora (do grego: juntar) está a ser substituída pelo seu oposto, uma ordem diabólica (do grego: separar, o diabo, el diablo) com novas histórias para confundir as mentes das pessoas, dissociar as suas personalidades, colocá-las umas contra as outras e criar uma sensação geral de incerteza. Deus contra o diabo.

Todo o poder é, fundamentalmente, poder para negar a mortalidade. Isso é verdade quer se trate do poder do Estado ou da Igreja, quer de grupos secretos como o de Epstein. E é sempre um poder sagrado. Sagrado ou pervertido.

Muitos perguntam por que os super-ricos e poderosos sempre querem mais. É simples. Eles desejam transcender a sua mortalidade humana e tornar-se deuses – imortais. Eles acreditam estupidamente que, se puderem dominar os outros, matar, dominar, violar, alcançar status, tornar-se bilionários, presidentes, magnatas, celebridades, etc., eles viverão de alguma forma numa estranha eternidade. Assim são Epstein e o seu círculo.

Num processo que se estendeu por, pelo menos, cento e cinquenta anos, os nossos sistemas simbólicos culturais/religiosos tradicionais foram radicalmente minados, principalmente pela criação faustiana de Lord Nuke (1). Todas as formas de imortalidade simbólica (teológica, biológica, criativa, natural e experiencial) que antes proporcionavam uma sensação de continuidade foram severamente ameaçadas. Este é o espectro assustador que paira sobre o pano de fundo da vida atual.

O que é a morte? Como derrotá-la ou transcendê-la? Qual é o número do telemóvel de Deus? Rápido. Improvise.

Homens pequenos como Epstein e aqueles que se deixaram capturar voluntariamente na sua teia, todos aqueles desesperados com as mãos nas calças, mentindo descaradamente enquanto iam com Pinóquio e o Cocheiro para a Ilha do Prazer…

Corte!

Esqueça o guião.

Ainda não vimos nada.


    (1) «Lord Nuke» não é um título muito conhecido, mas o autor refere-se, provavelmente, a Nuke (Frank Simpson), um supervilão da Marvel Comics. Ele é um soldado altamente cibernético e aprimorado, com um segundo coração, frequentemente usado pelo governo, conhecido pelas suas elevadas aptidões de combate e que aparece nos quadrinhos do Demolidor.

    (2) Edward Curtin é um escritor — difícil de classificar. O seu novo livro é “At the Lost and Found: Personal & Political Dispatches of Resistance and Hope” (Clarity Press).

    https://estatuadesal.com/2026/02/22/a-espontaneidade-cuidadosamente-calculada-da-divulgacao-chocante-dos-ficheiros-de-epstein/

    https://countercurrents.org/2026/02/the-carefully-contrived-spontaneity-of-the-shocking-epstein-files-release/


    sábado, 21 de fevereiro de 2026

    Robert Reich - O caso Epstein

    Robert Reich
     ·
    Amigos,

    A polícia no Reino Unido prendeu Andrew Mountbatten-Windsor, o antigo Príncipe Andrew e Duque de Iorque, sob suspeita de má conduta no cargo público - após a divulgação de emails entre Mountbatten-Windsor e o falecido banqueiro desgraçado Jeffrey Epstein.

    Ainda não sabemos as cobranças específicas. Mas sabemos que a falecida Virginia Giuffre, uma vítima de Epstein, acusou Mountbatten-Windsor de a violar.

    Sabemos também que Mountbatten-Windsor foi o enviado comercial do Reino Unido entre 2001 e 2011 e parece ter enviado ao Epstein relatórios confidenciais do governo de visitas ao Vietname, Singapura e China, incluindo oportunidades de investimento em ouro e urânio no Afeganistão.

    O primeiro-ministro Keir Starmer diz: "Ninguém está acima da lei. ” A família de Virginia Giuffre diz: “Ninguém está acima da lei, nem mesmo da realeza. ” diz o promotor-chefe da Grã-Bretanha: “Ninguém está acima da lei. ”

    Tudo isso levanta perguntas estranhas sobre as pessoas implicadas deste lado do lago, incluindo a pessoa na Sala Oval que adora ser tratada como um rei, e que aparece nos arquivos Epstein 1.433 vezes (isto é, nos arquivos que foram divulgados para longe). O Príncipe Andrew aparece neles 1.821 vezes.

    A América gosta de acreditar que desistimos de reis há quase 250 anos e adoptamos um sistema em que "ninguém está acima da lei. ”

    Mas a política externa de Trump tornou-se uma ferramenta pessoal para ele canalizar dinheiro e status para si mesmo e para os seus associados mais próximos. Desde as eleições de 2024, a riqueza pessoal da família Trump aumentou em pelo menos 4 bilhões de dólares de acordo com uma estimativa do The New Yorker.

    Tal como acontece com a realeza britânica do século XVI, é tudo pessoal com Trump - tudo sobre expandir o seu poder e aumentar a sua riqueza e a da sua família. Receitas da venda de petróleo venezuelano? “Esse dinheiro será controlado por mim”, diz ele. O presente de um avião do Qatar? “Meu. ” Investimentos dos reinos do Oriente Médio na raquete criptográfica da sua família? “Perfeitamente bem. ”

    Tal como a realeza britânica de antigamente, o Rei Trump tem poder arbitrário. Ele aumenta a tarifa da Suíça de 30 para 39 por cento porque a sua ex-presidente Karin Keller-Sutter "apenas me esfregou da maneira errada. ” Ele impõe uma tarifa de 50 por cento ao Brasil porque o Brasil se recusou a interromper a acusação de um aliado político de Trump, o ex-presidente brasileiro Jair Bolsonaro, que foi considerado culpado de tramar um golpe. O Vietnã acelera a aprovação de um campo de golfe da família Trump de 1,5 bilhão de dólares, ao mesmo tempo que procura reduzir a sua taxa de tarifa.

    Trump afirma que a Gronelândia é "psicologicamente necessária", embora os Estados Unidos já tenham uma presença militar lá e um convite aberto para expandir as suas bases. Ele pensa sobre fazer do Canadá o “51.o estado. ” Estes são recordações da era do império do século XVI.

    Entretanto, Trump criou um sistema de tributo e lealdade que faria com que Henrique VIII ficasse com inveja.

    Tim Cook da Apple entrega uma placa baseada em ouro e uma doação para o salão de baile planeado de Trump. Bilionários suíços trazem uma barra de ouro e um relógio de mesa Rolex para a Sala Oval. Jeff Bezos apoia um filme vapido de Melania e entrega-lhe um cheque de 28 milhões de dólares.

    Trump perdoa Changpeng Zhao, o magnata bilionário que se declarou culpado de violações de lavagem de dinheiro em 2023, depois disso, a plataforma de negociação de moedas digitais Binance da Zhao torna-se o motor do negócio de criptografia da família Trump, a World Liberty Financial.

    A enorme contribuição de Elon Musk para a campanha de 2024 de Trump rendeu a Musk um ducado - um "departamento de eficiência governamental" - e as chaves para o reino na forma de sistemas sensíveis do Departamento do Tesouro dos EUA utilizados para gerir pagamentos federais.

    Mas quando o Duque de DOGE começa a tornar-se mais visível do que o Rei Trump, o rei bani-o e revoga o seu ducado. Quando o Musk banido começa a criticar abertamente Trump, o rei ameaça cortar a cabeça de Musk na forma de cortá-lo e à sua SpaceX de contratos governamentais valiosos. Isto acaba com a impertinência de Musk.

    O novo TikTok (no qual Trump tem mais de 16 milhões de seguidores) continuará a operar nos Estados Unidos - mas agora com o apoio financeiro da Oracle, aliada de Trump, Larry Ellison, a empresa de investimento aliada da Emirati de Trump, MGX (que já investiu na empresa de criptomoedas da família Trump), e Silver Lake, juntou-se à firma de capital privado fundada pelo genro de Trump, Jared Kushner.

    Trump permite que a Nvidia venda fichas para os Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita e estende garantias militares para o Qatar - todos eles investiram no império da família Trump. (Investidores apoiados pela Emirati lançaram 2 bilhões de dólares no World Liberty Financial. )

    Em vez de glória nacional, Trump exige glória pessoal - para obter o Prémio Nobel da Paz, para colocar o seu nome no Kennedy Center, na Estação Penn e noutros grandes monumentos e edifícios.

    Se os seus comandos não forem cumpridos, ele castiga. Como a Noruega não lhe deu um Nobel (não era da Noruega para dar de qualquer forma), ele "já não se sente obrigado a pensar apenas em paz. ” Porque os artistas se recusam a aparecer no Centro “Trump-Kennedy”, ele fecha-o.

    Em vez de burocracias, a América agora tem uma comitiva real. Em vez de instituições, agora temos prerrogativa real. Em vez de legitimidade baseada na vontade do povo, existe um direito divino (“Eu tinha Deus ao meu lado”, “Deus estava a proteger-me”, “Deus está ao nosso lado”).

    Marcharemos contra o Rei Trump no próximo Dia Sem Reis em 28 de março - espero que seja o maior protesto da história americana.

    Mas a prisão do antigo Príncipe Andrew levanta uma questão que vai muito além de protestar e marchar. O Rei Trump estava evidentemente envolvido nos feitos nefastos de Jeffrey Epstein. Não sabemos exatamente como porque não houve investigação criminal. Não deveria haver?

    Trump também vem enriquecendo a si mesmo e à sua família através do seu cargo público, violando múltiplas leis sobre conflitos de interesses.

    Se o Reino Unido pode prender o antigo Príncipe Andrew com provas deste tipo de de crime, porque é que a América não deveria prender o Rei Trump? Se ninguém está acima da lei no Reino Unido, nem mesmo da realeza, presumivelmente ninguém está acima da lei nos EUA, nem mesmo um presidente.

    Pam Bondi obviamente não vai investigar Trump, porque ela faz parte da corte do Rei Trump. Mas e um grupo de procuradores-gerais do estado?

    Quase 250 anos depois de rompermos com George III, a questão deve ser enfrentada agora: Somos uma monarquia ou uma nação de leis?

    Bem, o que é que achas?

    2026 02 20

    https://www.facebook.com/RBReich

    Robert Reich - O caso Epstein

     * Robert Reich
     

    Amigos,

    Aqui está como o Congressista Republicano de Kentucky Thomas Massie respondeu no domingo, durante o "This Week" da ABC a uma pergunta sobre o tratamento dos ficheiros Epstein pelo regime Trump:

    "Isto é sobre a aula de Epstein... Eles são bilionários que eram amigos destas pessoas, e é isso que eu enfrento em Washington, D.C. Donald Trump disse-nos que, apesar de ter jantado com este tipo de pessoas, em Nova Iorque e West Palm Beach, ele seria transparente. Mas ele não é. Ele ainda está na aula de Epstein. Esta é a administração Epstein. E estão a atacar-me por tentar libertar estes ficheiros. ”

    A aula de Epstein. Não apenas as pessoas que se divertiram com o Jeffrey Epstein ou o subconjunto que abusava de raparigas jovens. É um mundo interligado de homens extremamente ricos, proeminentes, intitulados, presunçosos, poderosos, auto-importantes (principalmente) homens. Trump é presidente honorário.

    Trump ainda está sentado em dois milhões e meio de ficheiros que ele e Pam Bondi não vão divulgar. - Porquê? Presumivelmente porque eles implicam Trump e ainda mais da classe Epstein.

    Os ficheiros que foram divulgados até agora não pintam um quadro bonito.

    Trump aparece 1.433 vezes nos arquivos Epstein até agora. Seus patrocinadores bilionários também são membros. Elon Musk aparece 1.122 vezes. Howard Lutnick está lá. Assim como o Trump-backer Peter Thiel (2.710 vezes) e Leslie Wexner (565 vezes). Tal como Steven Witkoff, agora enviado de Trump para o Médio Oriente, e Steve Bannon, consigliere de Trump (1.855 vezes).

    A Classe Epstein não se limita aos doadores Trump. Bill Clinton é um membro (1.192 vezes), assim como Larry Summers (5.621 vezes). Assim como o fundador do LinkedIn Reid Hoffman (3.769 vezes), o Príncipe Andrew (1.821 vezes), Bill Gates (6.385 vezes) e Steve Tisch, co-proprietário do New York Giants (429 vezes).

    Se não é política, então o que liga os membros da Classe Epstein? Não são apenas riquezas. Alguns membros não são particularmente ricos, mas estão ricamente conectados. Eles negociam com a sua proeminência, com quem conhecem e quem retornará os seus telefonemas.

    Eles trocam dicas internas sobre ações, sobre movimentos de moedas, sobre IPOs, sobre novos mecanismos de evasão fiscal. Sobre entrar em clubes exclusivos, reservas em restaurantes chiques, hotéis exuberantes, viagens exóticas.

    A maioria dos membros da Classe Epstein separou no seu próprio mundo pequeno e auto-suficiente, desligado do resto da sociedade. Eles voam nos jatos privados de um outro. Eles divertem-se nas casas de hóspedes e villas de um outro. Algumas dicas de troca sobre como obter certas drogas ou sexo pervertido ou obras de arte valiosas. E, claro, como acumular mais riqueza.

    Muitos não acreditam particularmente na democracia; Peter Thiel (lembre-se, ele aparece 2.710 vezes nos ficheiros Epstein) disse que "já não acredita que a liberdade e a democracia são compatíveis. ” Muitos estão colocando suas fortunas em eleger pessoas que farão suas ordens. Portanto, eles são politicamente perigosos.

    A Classe Epstein é o subproduto de uma economia que emergiu ao longo das últimas duas décadas, da qual esta nova elite desviou vastas quantidades de riqueza.

    É uma economia que quase não tem nenhuma semelhança com a da América de meados do século XX. As empresas mais valiosas nesta nova economia têm poucos trabalhadores porque não fazem coisas. Eles desenham-no. Eles criam ideias. Eles vendem conceitos. Eles movem dinheiro.

    O valor dos negócios nesta nova economia não está nas fábricas, edifícios ou máquinas. Está em algoritmos, sistemas operacionais, padrões, marcas e vastas redes de usuários auto-reforçando.

    Lembro-me de quando a IBM era a empresa mais valiosa do país e entre os seus maiores empregadores, com uma folha de pagamento na década de 1980 de quase 400.000. Hoje, a Nvidia é quase 20 vezes mais valiosa do que a IBM era então e cinco vezes mais rentável (ajustada para a inflação), mas emprega pouco mais de 40.000. A Nvidia, ao contrário da antiga IBM, desenha mas não faz os seus produtos.

    Nos últimos três anos, a receita do Google parent Alphabet cresceu 43% enquanto a folha de pagamento permaneceu fixa. A receita da Amazon subiu, mas está eliminando empregos.

    Os membros da Classe Epstein são compensados em ações. À medida que os lucros corporativos subiram, o mercado de ações rugiu. À medida que o mercado de ações rugiu, a compensação da Classe Epstein chegou à estratosfera.

    Eles não pagam muito em impostos de renda porque não têm muito rendimento comum. A maioria das vezes, eles gostam de ganhos de capital. E uma coisa em que o Epstein era particularmente bom foi ajudá-los a evitar até mesmo impostos sobre ganhos de capital.

    Entretanto, a maioria dos americanos estão presos numa economia antiga onde dependem de cheques salariais que não estão a crescer, e da qual têm de pagar impostos de renda, e empregos com escassez de oferta. A maioria vive de salário em salário e está a um ou dois salários de distância da pobreza. O Federal Reserve Bank of New York acaba de informar que as taxas de delinquência hipotecária para famílias com rendimentos mais baixos estão a aumentar.

    Habitação acessível não é um problema que ocorre na Classe Epstein. Nem a desigualdade de renda. Nem a perda da nossa democracia. Nem os efeitos prejudiciais das redes sociais nos jovens e nas crianças.

    Quando o maior proponente tecnológico do Vale do Silício no Congresso - o Rep. Ro Khanna - anunciou recentemente o seu apoio a um imposto sobre os bilionários da Califórnia, para ajudar a preencher o vazio criado pelos cortes de Trump na Medicare e Medicaid (que, por sua vez, abriu caminho para a segunda enorme redução de impostos de Trump para os ricos), A Turma Epstein explodiu uma junta.

    Vinod Khosla, um dos mais proeminentes capitalistas de risco do Vale do Silício, com um património líquido estimado em mais de 13 mil milhões de dólares (e que é mencionado 182 vezes nos ficheiros Epstein mas não é amigo de Trump), chamou Khanna de "camarada comunista. ”

    Khosla, a propósito, é mais conhecida pelo público por comprar 89 acres de propriedade à beira-mar da Califórnia em 2008 por 32,5 milhões de dólares, e depois tentar bloquear o acesso público ao oceano com um portão trancado e placas. Apesar de perder várias decisões judiciais, incluindo um recurso da Suprema Corte de 2018, ele continua com a disputa.

    Não tem classe, mas, digamos, um movimento típico da Classe Epstein.

    Quais são os seus pensamentos?

    2026 02 19
    https://www.facebook.com/RBReich

    segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

    António Gil - Os porcos estão no poder


    * António Gil


    E eles são muito mais animais que os outros

    Considerando o número de políticos, membros de famílias envolvidos em relações sinistras com Epstein e além disso jornalistas, intelectuais e artistas, a única hipótese que restaria ao ‘Ocidente’ era vassourada total no topo das várias hierarquias (as de sangue, hereditárias, as de conluio intelectual, as de cumplicidade criminosa de políticos) e recomeçar do zero.

    Falemos de uma grande cama, onde todos promiscuamente conviviam, no bordel que Ghislaine Maxwell e Jeffrey Epstein, por esta ordem, já que ela era a madame patroa, ele era o ‘segurança’ do bordel. A prova desta hierarquia é que ele foi suicidado ela nunca o será porque está bem protegida como acontece sempre com quem está no topo.

    Nessa grande cama, dormiram tantos, tantos, dos ditos ‘líderes ocidentais’ dos dois sexos e seus derivados genéricos, acompanhados por todos os seus asseclas: os escribas, os roteiristas, os realizadores de cinema, as estrelas pop da música e das artes performativas e -é claro – os produtores, os que fianaciaram todo aquele filme hardcore.

    Uma prova, se ainda necessitássemos de tal coisa, que milhares de pessoas podem guardar longamente um segredo, protegendo-o dos rumores, da má língua, mesmo dos ‘teóricos da conspiração,’ essa ‘raça’ sempre tão desconfiada à qual desde sempre me orgulhei de pertencer.

    É muita gente, é gente muito poderosa. Não são pessoas como nós, ninguém os censura, ninguém os cancela, ninguém os desmonetariza e ninguém os castiga da forma como mereceriam. Já viram alguém preso? Algum julgamento marcado, além da madame Maxwell?

    Não admira que muitos deles e delas se vejam no papel de deuses e deusas, com poderes exclusivos para disporem de corpos alheios, sejam eles crianças impúberes ou humanos maduros ou anciãos, todos dispensáveis.

    Estamos diante disso, agora. E não importa se acreditamos ou não em deuses e deusas, importa sim saber que há humanos arrogando-se tal estatuto e agindo como se tivessem criado o Universo ou mesmo os multiversos.

    Não se trata já de resistir a estas criaturas, o desafio é mais radical: ou nos livramos de tais monstros ou, nalgum ponto elas se livrarão de todos os que consideram humanos excedentários. E decerto a maioria esmagadora de nós está nessa categoria, para tais seres aberrantes.

    E os que não estão, se não pertencerem a esse clube exclusivo e desapiedado, servirão enquanto tiverem corpos apetecíveis ou produzam prosápia envenenada, para enganar os leitores mais crentes. Depois disso, esgotarão seus prazos de validade e serão jogados no lixo, como todos os outros.

    Se a impunidade prevalecer e -como prevejo – não houver outra punição para estas criaturas aberrantes senão o breve embaraço e a ligeira maçada de verem seus nomes publicamente expostos, a mensagem desse laxismo jurídico será clara mas incomodará pouca gente: os poderosos não estão sujeitos às leis que eles mesmos impõem aos outros, não sofrem as legítimas punições e podem, portanto, continuar alegremente a executar suas presas para satisfação de seus mais baixos instintos.

    2026 02 02

    https://antoniojfgil.substack.com/p/the-pigs-are-in-power?

    sexta-feira, 21 de novembro de 2025

    Nuno Morna - 𝗢 𝗦𝗮𝗹𝗮𝘇𝗮𝗿𝗶𝘀𝗺𝗼 𝗲 𝗮 𝗖𝗼𝗿𝗿𝘂𝗽𝗰̧𝗮̃𝗼

     * Nuno Morna 

    Salazar não era honesto, nunca foi, e se fechava a porta do quarto para comer sopa de legumes, se dormia numa cama estreita que parecia de hospital, se escrevia discursos de contabilidade seca em folhas de papel almaço, isso não significava honestidade nenhuma, significava apenas método e disciplina, o mesmo método com que organizou a mais eficaz rede de favores e corrupção que Portugal conheceu. Um padre laico que rezava com a mão direita e com a esquerda assinava decretos que davam fortunas a uns e arruinavam outros, um sacerdote do poder que se alimentava de cartas, milhares de cartas, cartas que lhe chegavam a São Bento como se chegassem ao confessionário, cartas de ministros a pedir-lhe indulgência, cartas de empresários a pedir-lhe monopólios, cartas de militares a pedirem promoções, cartas de bispos a pedir silêncio para escândalos de alcova, cartas de amigos, de conhecidos, de gente anónima, todos a mendigar, todos de joelhos, todos convencidos de que o ditador não roubava porque não exibia, e no entanto o verdadeiro roubo estava ali, na transformação da cidadania em súplica, na substituição da lei pela cunha, no apodrecimento lento e organizado de um país reduzido à mendicidade moral.
    E por trás do silêncio a máquina: a Constituição de 1933 que concentrava tudo num só homem, o Parlamento transformado em marioneta, juízes que recebiam sentenças já escritas, a censura com o lápis azul a cortar notícias, a PIDE a cortar gargantas, o país inteiro de boca fechada, e atrás dessa boca fechada a gargalhada abafada das famílias que enriqueciam à sombra, os Mello com a CUF, uma teia de químicos, bancos, tabacos, seguros, os Espírito Santo com a SACOR, petróleo transformado em monopólio, Champalimaud, o menino de província que casou com Cristina de Mello e de repente, por obra e graça de um despacho, recebeu de Salazar o monopólio dos minérios e outro despacho que o isentava de impostos sobre cimento exportado para Angola, fortunas em duas folhas assinadas com a serenidade de quem abençoa, Cupertino de Miranda no Banco Português do Atlântico, os Borges no Banco Borges & Irmão, os Burnay no Banco Fonsecas & Burnay, sete grupos a controlarem três quartos da economia e um país inteiro a obedecer-lhes como servos, porque era disso que se tratava, Portugal convertido em feudo com decretos de Lisboa como cartas de foral, cada monopólio um presente, cada fortuna uma recompensa, cada recompensa um prego no caixão da concorrência, da inovação, do mérito.
    Os escândalos ferviam como água em panela tapada. O Banco Nacional Ultramarino, salvo em 1931, o primeiro resgate financeiro, os prejuízos privados atirados para cima do povo, o "BES de Salazar" antes de haver BES. Em 1943, Caetano, o sucessor, escreveu-lhe aflito, denunciando o escândalo Sain, comissões ilegais nos negócios de petroleiros, denunciando o escândalo Meira, o Banco de Portugal manipulado. Não era propaganda da oposição, não eram comunistas, era o próprio herdeiro a dizer que o regime apodrecia, que a corrupção lhe minava as bases, e Salazar respondia com silêncio, sempre o silêncio, porque o silêncio era a melhor forma de governar. A Ponte Salazar, inaugurada em 1966, custou 2,2 milhões de contos, um país pobre endividado até ao pescoço, e matou homens, muitos homens, quatro admitidos, onze provados, talvez mais, talvez corpos engolidos pelo betão dos pilares, e o regime a apagar nomes para que a inauguração fosse limpa, para que a fotografia tivesse apenas ministros, engenheiros e bandeiras, nenhuma mancha de sangue a estragar a propaganda, a corrupção também é isto: não apenas dinheiro, mas mentira, manipulação, cadáveres escondidos.
    E no entanto, quando se fala do regime anterior, há sempre quem repita que ali não havia corrupção, que não se falava dela, como se o silêncio fosse prova de honestidade. Não se falava porque estava proibido falar, não se denunciava porque denunciar era crime, não se investigava porque investigar significava prisão. A corrupção estava lá, fazia parte da engrenagem, era o sangue que fazia o motor girar. Compare-se com o presente: hoje fala-se, expõe-se, há jornais, há televisões, há redes sociais, e o que se descobre não é pouco, mas só não se vai mais longe porque a justiça emperra, arrasta-se, bloqueada por processos intermináveis, por códigos e por interesses cruzados. Porra, até um primeiro-ministro foi acusado e está a ser julgado. A diferença é esta: antes abafava-se e fingia-se que não existia, agora mostra-se, ainda que com freios. O mal, porém, continua a ser o mesmo: uma cultura que aprendeu a viver da cunha e do compadrio.
    E depois o Ultramar, o território onde o roubo deixava de fingir. A Diamang em Angola, cinquenta e dois mil quilómetros quadrados de concessão privada, exército próprio, polícia própria, tribunais próprios, a vida de dezenas de milhares de africanos controlada por uma empresa estrangeira com selo português, e a riqueza arrancada à força, homens recrutados como gado, mulheres e crianças usadas como peças descartáveis, trabalho forçado disfarçado de contrato, os brancos no conforto do Dundo, piscinas, clubes, luxos de colónia, os negros em barracões miseráveis, segregação como se fosse lei natural, a corrupção elevada a regime político, soberania entregue a uma companhia de diamantes, lucros que sustentavam a metrópole, diamantes trocados por silêncio, silêncio comprado com sangue. Em Moçambique, Jorge Jardim, engenheiro agrónomo, administrador de empresas do grupo Champalimaud, agente diplomático paralelo, espião, mercenário, senhor feudal com telefone directo a Salazar, enriquecia enquanto organizava milícias, enquanto tratava de alianças com Rodésia e Malawi, enquanto misturava negócios privados com política colonial, um homem só que simbolizava toda a podridão: a fusão absoluta de interesse público e privado, Estado e fortuna, ditadura e negócio.
    E como se não bastasse, havia ainda o cortejo grotesco dos ex-ministros reciclados em administradores de bancos, companhias de seguros, empresas coloniais e industriais. Ortins de Bettencourt, Rafael Duque, Mário de Figueiredo, J. Soares da Fonseca, Albino dos Reis, Martinho Nobre de Melo, J. Pires Cardoso, Francisco Leite Pinto, Teixeira Pinto, Daniel Vieira Barbosa, Pedro Teotónio Pereira, Castro Fernandes, Manuel Cavaleiro de Ferreira, Pinto Barbosa, Ulisses Cortês, Ulisses Vaz, Arantes e Oliveira, Frederico Ulrich, Sarmento Rodrigues, Raul Ventura, Lopes Alves, Manuel Lopes de Almeida, Arnaldo Schulz, Correia de Oliveira, Alexandre de Sousa Pinto, Alfredo dos Santos Júnior, José do Canto Moniz, Joaquim da Luz Cunha, Almeida Fernandes, Francisco Neto de Carvalho, Pedro Soares Martinez, Francisco Vieira Machado, Antunes Varela, Supico Pinto, Santos Costa, Gomes de Araújo, Henrique Martins de Carvalho, João Pinto da Costa Leite, Sebastião Garcia Ramires, Vitório Pires, J. de Araújo Correia, Marcelo Matias, Franco Nogueira, uma procissão de nomes que enchia páginas inteiras de conselhos de administração. Cada ministério um degrau, cada decreto um trampolim, cada carreira pública a antecâmara de um banco, de uma companhia de seguros, de uma petrolífera, de uma empresa colonial. O livro de Raul Rego, "Os Políticos e o Poder Económico", não lista, denuncia: mostra que o poder político foi sempre a antecâmara do poder económico, e que os mesmos homens que governavam eram depois pagos para administrar os monopólios que ajudaram a criar. Que esses mesmo homens, muitos deles listados acima, faziam negócios escusos e promoviam corrupção.
    E esta lista, interminável e sufocante, mais parece uma ladainha de corrupção dita em missa negra, um inventário de vícios onde cada nome traz consigo o retrato de um país capturado. Nenhum deles saiu do poder para descansar: todos foram premiados. Era a porta giratória antes do nome, a promiscuidade antes da teoria. A ditadura foi isto: ministros que se tornavam banqueiros, banqueiros que se tornavam ministros, generais que entravam em conselhos de empresas, académicos que trocavam cátedras por lugares em seguradoras. O Estado era apenas a antecâmara do saque, e o saque apenas a continuação natural do Estado. Um círculo fechado, um círculo vicioso, uma engrenagem perfeita para se manterem eternamente os mesmos a mandar e os mesmos a enriquecer.
    Chegou Caetano e prometeu Primavera. Mas a Primavera foi apenas mais uma estação de sombras. Liberalizou-se a economia, abriram-se as portas, e o que se seguiu foi a guerra entre plutocratas. Champalimaud, já foragido, a conspirar, Miguel Quina, Jorge de Brito, Cupertino de Miranda a disputarem bancos, jornais, fábricas, cada um a usar o governo como arma contra o outro, a política reduzida a ringue de magnatas. Os tecnocratas, jovens, formados fora, falavam de Europa, de modernidade, mas saltavam entre ministérios e conselhos de administração como se fosse a mesma coisa, confundiam cargos com propriedade, confundiam Estado com carreira pessoal. A corrupção deixou de ser pacto gerido por um árbitro único e tornou-se guerra aberta, mas sempre a mesma guerra: quem fica com o país, quem come a carne e quem rói os ossos.
    E se hoje assim somos, é porque a herança ficou, não se limpa uma infecção destas de um dia para o outro. A cunha, o compadrio, a opacidade continuaram entranhados. E o mito do ditador honesto sobreviveu, porque Salazar não exibia, não tinha palácios nem iates, porque a sua cama era estreita e o prato frugal, mas a verdade é outra: Salazar roubava para o regime, não para si, e isso é pior, porque fez da corrupção uma instituição, uma doutrina, uma herança envenenada.
    Inventou a corrupção moderna portuguesa, ensinou-a às famílias que ainda hoje a praticam, fez do Estado um balcão de favores, fez do país um quintal, e deixou-nos esta crença resignada de que a corrupção é inevitável, de que só muda de mãos, de que nunca desaparece. Salazar, o homem que alguns ainda chamam honesto, foi apenas o mais frio arquitecto de uma cleptocracia organizada, e o resto, o resto é saudade mal curada, é memória torta, é a incapacidade de olhar de frente o país que fomos e o país que ainda somos.

    Outubro/Novembro 2025

    segunda-feira, 10 de fevereiro de 2025

    Tiago Franco - ANDRÉ, AMIGO, O TEU POVO ESTÁ CONTIGO |

    * Tiago Franco   


    Quando escrevi o último post, há dois dias, pensei: "vou fazer uma paródia com o Chega e este rolo de casos bem catitas de beberolas, pedófilos e malas".

    Entretanto a minha mulher chamou-me para arranjar qualquer coisa e nunca mais vi o sol. Dois dias em 2025 correspondem a 30 em 1994. Anda tudo muito depressa e as notícias de 6f já parecem a RTP Memória.

    Poucos minutos depois de ter escrito a piadinha do último post vejo, no meio do meu zapping higiénico, o pastor Ventura a saltar entre a TVI e a CNN, numa tentativa arriscada de acalmar as hostes cheganas. 

    Devo dizer que, depois de ouvir o ensaio, perdi a vontade de o arrasar (ou ao Chega, já que são a mesma entidade). Aliás, até me vou levantar e bater uma saraivada de palmas ao André. Imaginem-me no Parlamento, ao lado do antigo repórter tauromáquico, a gritar "muto bâim". Porque Ventura foi absolutamente brilhante.

    Passou o dia a debitar aos ouvidos de cada jornalista em que tropecou na AR um sonoro "não me escondo", "seja meu pai, meu filho ou meu irmão...se papa meninos, é para castrar!". Mete uns posts no FB, no X, pede ajuda à Rita Matias e ao Frazão para repetirem a mesma história nas suas redes (os outros 45 não sabem escrever e por isso foram dispensados da tarefa) e arranca para os estúdios de Queluz. A TVI ainda é em Queluz? Adiante...

    Na televisão bate no peito em frente à Sandra Felgueiras e depois, na CNN, meio esbafurido, repete tudo sem perder a calma. É diferente dos outros políticos. Tem mais merda em casa, é verdade, mas agarra o touro pelos cornos e corta o mal pela raíz. Com ele não há paninhos quentes nem se abafam histórias.

    Ao contrário dos outros partidos. E aqui comeca a disparar para todo o lado.

    Fala na Mortágua e no Robles. Nenhum deles cometeu qualquer crime. Fala no Ferro Rodrigues que nem indiciado foi. Fala no Paulo Pedroso que foi preso, libertado, sem julgamento e, mais tarde, indeminizado pelo estado português. Ou seja, não cometeu qualquer crime. Fala no Sócrates que está em julgamento eterno e de quem o PS já se afastou há muito. Fala do Medina que não foi acusado no Tutti-Futti.

    Num estilo clássico de Ventura, misturou inocentes com indiciados, investigados com ilibados. Mexeu tudo muito bem, juntou um dedo no ar e salpicou com indignacão. Voilá, está servido o político diferente, o Sebastião da limpeza, o mártir que não teve culpa dos bronhos que lhe recomendaram para a bancada parlamentar. 

    Com essa conversa, desvia as atencões dos 20% de deputados com acusacões formadas e problemas com a justica que passam por irregularidades financeiras, roubo, assédio de menores, imigracão ilegal, difamacão, agressões, declaracões falsas e violência doméstica. Os quadros do Chega estão a uma namorada nepalesa de fazerem bingo nas causas do partido.

    Nem um hora tinha passado desta última intervencão (CNN) e, munido de luvas e galochas, fui nadar em caixas de comentários. Por aqui, no X (tenho mesmo que deixar de ir aquele esgoto) e nos jornais, a mesmíssima narrativa do pastor era reproduzida na perfeicão pelos fiéis. Até os nomes usados de pessoas dos outros partidos eram os mesmos. 

    Não importa o que dizem os tribunais, não importa o estado de direito, nem sequer importa que maior parte dos iscos usados nem tenham cometido qualquer crime. Interessa, apenas, que o Ventura ensaia uma narrativa cheia de mentiras e omissões e os eleitores do Chega papam aquilo como se fosse Nestum em dia de preguica.

    Julgo que foi o Daniel Oliveira (ou o Pedro Marques Lopes, não tenho a certeza) que disse que o BE seria mais castigado pelo despedimento das mães do que o Chega pela sucessão de casos com crimes (já provados). Não por causa da gravidade da accão do BE (não há comparacão com o furto de malas ou sexo pago com menores) mas por os eleitores do Bloco serem bem mais exigentes do que os do Chega (eu não diria apenas mais exigentes mas não me apetece falar do ensino obrigatório).

     A mensagem passou com sucesso. Já não se discute a absoluta miséria que são os quadros do partido de um homem só. Não se fala dos crimes. Não se massacra o Chega como o Chega massacrou, desde o seu primeiro dia, cada deslize dos outros partidos. Lembram-se da "vergonha" que foi repetida, aos berros, em cada sessão parlamentar desde que Ventura era deputado único?  

    Tudo isso ficou para trás. O eleitorado do Chega fecha os olhos ao bando de criminosos e exalta com a bravura do líder que arruma a casa antes de continuar a limpar Portugal. Dou por mim sempre a pensar como é que há tanta gente com estas limitacões no raciocínio e na compreensão básica daquilo que acontece, aqui mesmo, em frente aos nossos olhos? Depois recordo-me que conseguimos ter taxas de abstencão em algumas eleicões de 60% e que, ainda há 4 ou 5 anos, metade da populacão nem o ensino obrigatório tinha.

    Acabo este texto exactamente como disse que o iria terminar. Com pedófilos, ladrões, ilegais, corruptos e gajos que batem nas mulheres, o Chega ainda é capaz de subir nas intencões de voto.

    Eles de facto são diferentes, o André é especial e vocês, que votam em gente desta, deviam ter direito a um cão-guia, para atravessarem a estrada.

    Vou adiantando já servico, entre obras e arranjos. Deixo as notas dos próximos para não me esquecer:

    1 - Venda de minérios raros na Ucrânia a troco de defesa 

    2 - Gaza, riviera do Médio Oriente

    3 - Palestinianos, vão para a terra deles! (jordanos/egípcios/sauditas)


    ps - pizza napolitana devia ser património da Unesco (isto não podem ser só desgracas) 

    2025 02 09

    https://www.facebook.com/tiago.franco.735

    segunda-feira, 11 de março de 2024

    O desprezível governo PS ou as acrobacias do Costa

    quarta-feira, 8 de julho de 2020


    Foto de Garry Winogrand (1928-1984)

    Como é do conhecimento comum, o PS é catapultado para o governo quando a direita tout court já não consegue governar e/ou quando é necessário aplicar medidas, geralmente medidas de fundo, de carácter estrutural e inevitavelmente impopulares, devido a sua ainda maior base social de apoio; em 2015, tratava-se também da própria sobrevivência do PS, cujo espectro de desaparecimento a breve prazo era anunciado pelo afundamento dos congéneres europeus. Foi graças ao apoio dos dois partidos ditos de “esquerda”, BE e PCP/PEV, que o PS formou governo, ganhou umas eleições legislativa e se mantém ainda no poder, para legislar a favor de Bruxelas e da burguesia nacional.

    A recente aprovação do Orçamento Suplementar, com a abstenção activa do PSD, relembrando que o Bloco Central não morreu, apenas se mantém adormecido, assim como do BE e do PAN, mostra que o prazo de validade do governo e do próprio PS ainda não chegou ao fim. Mostra, por outro lado, que o voto contra do PCP não passa de uma habilidade para manter o seu eleitorado, enquanto por detrás do pano mantém o diálogo, ou seja, a colaboração e o apoio activo à política do PS. Ao mesmo tempo, os partidos da ultra-direita marcam o ponto “anti-sistema”, quanto muito anti-regime democracia burguesa, porque este Orçamento, como todos os outros, dá com as duas mãos aos patrões o que rouba com a mão esquerda aos trabalhadores; aqueles poderão ter achado que o bolo que lhes calha é ainda insuficiente, como verberou o chefe da CIP.

    Costa, depois de se manifestar satisfeito com o resultado da votação, tem a desfaçatez, como já nos habituou, de afirmar que “este não é um momento para a austeridade”, como o aumento de mais de 100 mil desempregados, em menos de um ano e segundo números oficiais, ou os 1 milhão e 400 mil trabalhadores a receber dois terços do salário durante 4 meses, não seja já por si uma austeridade, e bem grande. O PS, no governo, teve a habilidade de manter a austeridade em banho-maria sem nunca ter acabado com ela, e por uma simples razão, é que não há outra solução para vencer a crise do capitalismo senão apertar a tarracha da exploração; a habilidade consistiu em manter a paz social enquanto as coisas corriam bem, senão seria a revolta de quem trabalha. Agora, com o agudizar da crise, o PS mostra o que sempre defendeu: o grande capital e, em particular, os bancos.

    A forma que o governo PS-marca-Costa encontrou para resolver os problemas da TAP e da Efacec, um pouco à semelhança da que foi arranjada para o Novo Banco, mostra mais uma vez, e de forma indisfarçável, que a sua missão é encontrar meios de o capital nunca deixar de se rentabilizar, isto é, sejam sempre garantidos os lucros dos patrões. Na TAP, o Estado entra com os 1200 milhões de euros, com o despedimento de trabalhadores cujo número irá ultrapassar os 3 mil, contando com os que já foram dispensados pelo lay-off, aliás, o que tem sido uma prática habitual neste tipo de reestruturação das empresas; na Efacec, o Estado nacionaliza a parte pertencente a uma empresária cleptocrata (seria um escândalo se o não fizesse) para depois a entregar a outros capitalistas, não importando se são nacionais ou estrangeiros, desde que entrem com o dinheiro e entreguem discretamente a devida comissão a quem por parte do governo intermediou o negócio. Sérgios Monteiros há muitos! 

    Tem sido sempre assim, seja em governos PSD ou em governos PS, privatização=corrupção.

    O caminho correcto, de um ponto de vista dos interesses dos trabalhadores, dos das empresas em causa e do povo trabalhador português em geral, seria o da nacionalização, sem indemnização, porque os lucros arrecadados pelos accionistas privados para além de ilegítimos já foram mais que suficientes, e sob inteiro controlo dos trabalhadores. Quanto à transportadora aérea nacional, tudo se prepara para ser entregue, mais dia menos dia, à alemã Lufthansa, depois de ser limpa das rotas que dão prejuízo, incluindo as que têm início no Porto, o que tem arreliado a cacicagem do Norte que gostaria andar de avião à custa do Orçamento do Estado, e de outros custos considerados supérfluos, nomeadamente os referentes aos salários dos trabalhadores. Será tempo do governo considerar que o futuro está no transporte ferroviário, que será o transporte por excelência por toda a Eurásia, de mercadorias e de passageiros, por mais económico, seguro e menos poluidor. É tempo de se apostar numa rede ferroviária eficiente e de qualidade, quer interna, inter-regional e suburbana, quer externa, com ligação à Europa e de bitola europeia, para acabar com o constrangimento da bitola espanhola, e fazer com que a economia nacional deixe de ser um prolongamento da economia espanhola (foi interessante ouvir o Costa falar portunhol em Elvas enquanto o seu homólogo falava em castelhano).

    O caminho de ferro é fundamental para o desenvolvimento económico de um país e em Portugal nos últimos trinta anos não se fez outra coisa senão destruir as linhas existentes, acabar com as composições, deixou de se investir na manutenção do que existia e muito menos na inovação e na modernização, o aumento dos casos de infectados pelo coronavírus, o aparecimento de novos surtos em Lisboa, é a expressão da falta de qualidade dos nossos transportes ferroviários, e também rodoviários. Estes últimos foram entregues a privados, nacionais e estrangeiros, permitindo o surgimento de novos ricos, como é o caso Humberto Pedrosa (Grupo Barraqueiro/Fertagus), cuja fortuna pessoal começou no tempo do cavaquismo e nunca deixou de aumentar à custa do Estado e durante os governos do PS; foi no governo de PS/Guterres que lhe foi entregue a concessão da exploração do Eixo Ferroviário Norte-Sul da Região de Lisboa por 30 anos. É nesta lógica que temos de ver a solução para a TAP e a contínua degradação do transporte ferroviário.

    Ouvir dizer ao ministro das Infraestruturas e da Habitação, Pedro Nuno Santos, que a solução encontrada para a TAP foi a melhor para o país ou que os transportes públicos não são uma das origens do aumento da propagação da covid-19 é ouvir um mentiroso, tal como a ministra da Saúde, que não passa de uma chica-esperta e incompetente e cuja continuação no cargo é já posta em causa pelo dirigente do PS e presidente da Câmara de Lisboa, que vê a coisa mal parada quanto ao turismo neste Verão; e que há muito aqui temos reivindicado a sua demissão, bem como da incompetente Graças Freitas. Mas, diga-se em abono da verdade, ouvir aquelas duas araras a debitar mentiras e atoardas não difere muito de ouvir um primeiro-ministro, em programa humorístico, conduzido pelo novel bobo da corte oficial, afirmar que os antibióticos curam viroses. Aliás, ouvir isto ou ouvir um Trump que a covid-19 se pode tratar com injecções de lixívia não haverá grande diferença, estamos perante duas pessoas ignorantes e muito pouco humildes.

    Esta gente não consegue esconder a sua verdadeira natureza, pessoas arrogantes que desprezam o povo, e por vezes, quando se distraem e baixam a guarda, mostram o que na realidade são e o que as faz mover, como diz o povo, a boca foge-lhes para a verdade. Foi revoltante ouvir a uma directora geral da saúde, na habitual homilia diária, tratar os assistentes operacionais, profissionais de saúde insubstituíveis e sem os quais o SNS simplesmente pararia, por “AO's”; o mesmo desprezo, a mesma insanidade, se assistiu quanto às recomendações para a noite de S. João depois de esta ter já passado. Os assistentes operacionais na saúde não são doutores, não têm protagonismo político, são tratados como gente de segunda, exactamente como os trabalhadores que são obrigados todos os dias a utilizar transportes públicos sobrelotados para irem trabalhar em fábricas e empresas, sem condições mínimas de higiene e sem dispor do mais elementar equipamento de protecção. Assim se percebe que os últimos focos da pandemia ocorram em empresas ou nos próprios serviços da administração pública: Sonae/Continente, Pingo Doce, DHL, conserveira Gencoal, S.A em Vila do Conde, Câmara Municipal Lisboa. Só para citar os últimos casos em empresas, porque em lares da terceira idade, a saga do coronavírus continua, espalhando-se agora pelas creches, ou seja, em áreas de protecção social que foram entregues aos privados, cujo móbil é o lucro, pelo Estado/governos que se demitiu das suas responsabilidades e entendeu malbaratar o dinheiro do contribuinte.

    Caso curioso, nem as empresas onde ocorreram os surtos foram fechadas pelas autoridades e nem a concentração de convidados na embaixada dos EUA em Lisboa, para comemorar o dia da independência, foi impedida de se realizar pela PSP, apesar de esta estar presente, ao contrário de outras concentrações em festas por parte de pessoas do povo; nem ninguém foi preso, como aconteceu com um elemento do povo em Casal de Cambra, no concelho de Sintra, tendo estado preso durante dois meses por alegadamente ter apedrejado a polícia. E com a agravante é que para a festa dos americanos foram convidados políticos, que tiveram a protecção da PSP; pelos vistos, aqui já não há perigo de contaminação. Ou como vivemos num país com dois pesos e duas medidas e como a repressão é somente para ser exercida sobre os trabalhadores. Patrões, capitalistas, agentes do imperialismo, políticos vendidos, polícias corruptos (“Forças de segurança lideram suspeitas de corrupção na administração central”, título dos jornais) são imunes ao vírus, impunes perante a justiça e livres da repressão do Estado.

    O Costa é um habilidoso, gosta de acrobacias no circo, dá ao povo pouco pão e muito circo, mantém-se no poder porque conta com a colaboração de todos os partidos com o traseiro acomodado nos cadeirões de S. Bento, tem todos os órgãos de comunicação ao seu serviço, mas não conseguirá levar a mentira e a prestidigitação por tempo indefinido, tudo tem um fim. E quando os trabalhadores se encontrarem numa situação sem saída à vista, o que forçosamente acontecerá com o agravamento da crise a breve trecho (PIB a encolher mais de 7% no final do ano, desemprego a disparar para o dobro em relação a 2019,dívida pública a ultrapassar os 135% do PIB), irão abrir os olhos, tomar consciência e seguir o caminho da emancipação. A velha toupeira é incansável no seu trabalho e, enquanto isso, sair do euro e da União Europeia não é apenas uma simples reivindicação, é uma necessidade para evitar o desastre e o suicídio colectivo.

    Postado por O BÁRBARO às 14:22 
    https://cronicasdobarbaro.blogspot.com/2020/07/o-desprezivel-governo-ps-ou-as.html