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quinta-feira, 23 de abril de 2026

Manuel Pires da Rocha - Cantar a liberdade


Manuel Pires da Rocha

Per­ma­nece o apelo po­de­roso da “terra da fra­ter­ni­dade”



Rei­vin­di­camos a ale­gria.
Rei­vin­di­camos as can­ções de li­ber­dade.
Rei­vin­di­camos a mú­sica or­de­na­dora do uni­verso.
Rei­vin­di­camos as mãos dadas dos amantes.
Rei­vin­di­camos o sabor des­co­berto de todas as coisas.
Rei­vin­di­camos as pontes tran­quilas.
Rei­vin­di­camos a in­venção das ci­dades ha­bi­tá­veis.
Rei­vin­di­camos a pa­lavra, o poema, o livro.
Rei­vin­di­camos a festa.
Rei­vin­di­camos esta arma.
(Mário Cas­trim)

Quando Adriano Cor­reia de Oli­veira, José Afonso, Ma­nuel Freire, Carlos Pa­redes e Fer­nando Alvim, José Ba­rata-Moura, Carlos Moniz e Maria do Am­paro, Ary dos Santos, entre ou­tros, su­biram ao palco do Co­liseu, na noite de 29 de Março de 1974, já as can­ções que ali le­varam ti­nham ecoado pelas co­lec­ti­vi­dades de cul­tura e re­creio, nos en­con­tros da opo­sição de­mo­crá­tica, nas reu­niões an­ti­fas­cistas que eram acam­pa­mento, pi­que­nique e ho­me­nagem.

Na­quela noite de quase-Abril, cinco mil an­ti­fas­cistas e uma dúzia de pides, uns can­tando e aplau­dindo, os ou­tros to­mando notas, as­sis­tiam à ante-es­treia de Grân­dola, Vila Mo­rena nos ca­mi­nhos da His­tória, no mesmo ta­buado em que Ary dos Santos de­cla­mava “aqui nin­guém me põe a pata em cima / porque é de baixo que me vem acima / a força do lugar que for o meu”.

Vozes mais an­tigas se­riam, porém, ini­ci­a­doras deste canto que quis ser arma li­ber­ta­dora. No Ou­tono de 1945, Fer­nando Lopes-Graça juntou na casa de al­deia de João José Co­chofel, perto de Coimbra, os também po­etas Carlos de Oli­veira e José Gomes Fer­reira, dando início à es­crita de um pro­jecto ins­pi­rado nos can­ci­o­neiros re­vo­lu­ci­o­ná­rios his­tó­ricos da Re­vo­lução Fran­cesa e da Re­vo­lução de Ou­tubro. Mar­chas, Danças e Can­ções seria o pri­meiro can­ci­o­neiro po­lí­tico da luta an­ti­fas­cista por­tu­guesa, a que se­gui­riam oito ca­dernos mais, que Lopes-Graça in­ti­tu­laria Can­ções He­róicas, Dra­má­ticas, Bu­có­licas e Ou­tras.

As He­róicas se­riam ini­ci­al­mente di­vul­gadas pelo Coro do Grupo Dra­má­tico Lis­bo­nense, cons­ti­tuído no seio do Mo­vi­mento de Uni­dade De­mo­crá­tica (MUD). Em 1946, após uma apre­sen­tação pú­blica na Bi­bli­o­teca da In­crível Al­ma­dense, a cen­sura proibiu o re­per­tório. Tarde de­mais, porém – as He­róicas vi­viam já nas vozes de grupos for­mais e in­for­mais, juntas e afi­nadas na luta contra o fas­cismo. Tanto, que não ha­verá me­mória de lugar cons­pi­ra­tivo, das salas do as­so­ci­a­ti­vismo po­pular às celas das pri­sões, onde não tenha ha­vido um cantar de “vozes ao alto, unidos como os dedos da mão”.

O sé­culo XX das lutas an­ti­co­lo­niais, an­ti­fas­cistas e anti-im­pe­ri­a­listas viria a ser o mo­mento da ex­pansão geral da mú­sica de com­bate pela li­ber­dade e pela cons­trução do so­ci­a­lismo. Em Woody Guthrie, Luigi Nono, Vi­o­leta Parra, Mikis The­o­do­rakis, Hanns Eisler, Victor Jara, Sil­vestre Re­vu­eltas, Chos­ta­ko­vitch e Carlos Pa­redes, entre tantos ou­tros, a mú­sica as­sumiu opção de classe à es­cala uni­versal, in­de­pen­den­te­mente da na­tu­reza dos palcos e do vo­ca­bu­lário pró­prio de cada gé­nero mu­sical.

Em Por­tugal, o sé­culo pas­sado é também o lugar da des­co­berta da mú­sica po­pular das co­mu­ni­dades ru­rais, con­du­tora de si­nais ci­vi­li­za­ci­o­nais que também são os da cons­ci­ência so­cial (“Ó minha mãe dos tra­ba­lhos / Para quem tra­balho eu / Tra­balho mato o meu corpo / Não tenho nada meu”). Por isso é que, em Lopes-Graça, a Jor­nada é com­pa­nheira da Canção da Vin­dima, em José Afonso o Cantar Alen­te­jano (em ho­me­nagem a Ca­ta­rina Eu­fémia) di­vide in­ten­ções com Milho Verde e, no canto de Adriano Cor­reia de Oli­veira, Tejo Que Levas As Águas om­breia com ‘Inda Eu Era Pe­que­nino.

Che­gados aqui, cons­tata-se que o cantar que (também) abriu ca­minho à Li­ber­dade que em cada Abril se ce­lebra, não perdeu ac­tu­a­li­dade. Nestes dias de ameaça à paz, ao pão, à ha­bi­tação, à saúde e à edu­cação, de­mo­cratas de todas as idades en­toam o velho re­frão de Li­ber­dade – pa­lavra de ordem in­tem­poral da exi­gência de um tempo de jus­tiça. E cantam Os Vam­piros de­nun­ci­ando o saque, o Acordai cha­mando para a luta, o Hino de Ca­xias cer­rando fi­leiras. E aco­lhem cantos emer­gentes, que são mornas e di­zeres de hip hop, so­mando-se ao cantar his­tó­rico nas lutas dos mo­vi­mentos Vida Justa e Casa Para Viver, nas ac­ções do mo­vi­mento sin­dical, nas ini­ci­a­tivas pela paz, nas ac­ções de so­li­da­ri­e­dade com a Pa­les­tina e com Cuba.

Juntam-se, no rumor do nosso tempo, tim­bres e so­ta­ques di­versos, mas o es­tri­bilho geral per­ma­nece o apelo po­de­roso da “terra da fra­ter­ni­dade" q”e, can­tando “junta a tua à nossa voz”, marca en­contro com o fu­turo.

https://www.avante.pt/pt/2734/argumentos/183422/Cantar-a-liberdade.htm

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Soneto presente, de Ary dos Santos

Não me digam mais nada senão morro
aqui neste lugar dentro de mim
a terra de onde venho é onde moro
o lugar de que sou é estar aqui.
Não me digam mais nada senão falo
e eu não posso falar eu estou de pé.
De pé como um poeta ou um cavalo
de pé como quem deve estar quem é.
Aqui ninguém me diz quando me vendo
a não ser os que eu amo os que eu entendo
os que podem ser tanto como eu.

quinta-feira, 8 de agosto de 2024

Fausto Neves - A Música e a Paz



*  Fausto Neves

Ainda de olhos hú­midos pelo horror da 2.ª Grande Guerra e na an­gústia do mundo não ter apren­dido ainda com o con­flito, os eu­ro­peus as­sis­tiram à es­treia em 1962 do “War Re­quiem” do in­glês Ben­jamin Britten: uma missa de de­funtos de­di­cada à morte da guerra.

Mis­tu­rando o tra­di­ci­onal texto li­túr­gico com po­esia pa­ci­fista de Wil­fred Owen que co­teja as pa­la­vras bí­blicas, Britten, ob­jector de cons­ci­ência in­glês, co­ra­jo­sa­mente as­su­mido em plena guerra, e Owen, obri­gado a com­bater e morto na 1.ª guerra mun­dial, vi­eram mu­ni­ciar a obra com os seus exem­plos. Ainda a re­levar a sim­bo­logia da co­e­xis­tência de duas or­ques­tras (sin­fó­nica e de câ­mara) com um coro gi­gan­tesco e três so­listas (ori­gi­nal­mente so­prano russo, tenor in­glês e baixo alemão), e a es­treia na re­cons­truída ca­te­dral de Con­ventry (ar­ra­sada pelas bombas alemãs).

É a Mú­sica um veí­culo po­de­roso para a Paz e para a luta que esta nos me­rece?

Sim e… não, como toda a Arte no con­texto so­cial en­vol­vente, no âm­bito de classe pos­si­dente do mo­mento his­tó­rico.

A poucos dias da Festa, sa­bemos da força da en­to­ação co­lec­tiva de um Avante, ca­ma­rada! ou de uma In­ter­na­ci­onal. “Eles” também o sabem e desde há muito: pen­semos no uso que Hi­tler fez da Mú­sica para ali­enar mul­ti­dões…

Só que o fu­turo é só um: o do pro­gresso. E pro­gresso é paz, não guerra; é a eman­ci­pação do Homem e não o obs­cu­ran­tismo, com as opo­nentes “carnes para ca­nhão”, lan­çadas em lutas sempre fra­tri­cidas.

E a Arte, com a Mú­sica in­cluída, não re­siste a longo apri­si­o­na­mento, ao travar da His­tória ou mesmo re­tardar-lhe o passo: ha­verá sempre quem lembre “aos amigos para mu­darem de tom, de som”, como fez Be­ethoven na inu­si­tada en­trada de uma voz so­lista na sua 9.ª sin­fonia.

E se a prá­tica coral pode ser ex­ce­lente exemplo da co­o­pe­ração entre vozes e idi­os­sin­cra­sias na cons­trução de um som co­lec­tivo; se o fa­moso “El Sis­tema” bo­li­va­riano de or­ques­tras, aces­sí­veis a todos os alunos de mú­sica sem qual­quer obs­tá­culo de acesso, é ex­por­tado – às es­con­didas… para tantos países com su­cesso, num exemplo de eman­ci­pação so­cial pela prá­tica mu­sical de qua­li­dade; se a Or­questra West-Eas­tern Divan, criada por Da­niel Ba­rem­boim, pôs jo­vens ju­deus, pa­les­ti­ni­anos e árabes em geral a dar con­certos ines­que­cí­veis por todo o mundo, ar­ra­sando exem­plar­mente os ac­tuais gro­tescos tam­bores do horror, temos entre nós um fe­nó­meno que me­rece al­gumas li­nhas, ainda no ca­pí­tulo de in­ter­venção pela mú­sica: uma vez mais a nossa “Car­va­lhesa”!

As “car­va­lhesas” são ir­re­sis­tí­veis danças, to­cadas por gai­teiros (con­junto de gaita-de-foles, caixa e bombo), sem letra as­so­ciada. A “Car­va­lhesa” que co­nhe­cemos, se­gundo re­colha de Kurt Schin­dler, ofe­re­cida ao PCP pelo seu mi­li­tante Mi­chel Gi­a­co­metti e mais tarde ar­ran­jada por Fausto Bor­dalo Dias na sua versão mais po­pular, não sendo can­tada, “não possui qual­quer sig­ni­fi­cado in­ter­ven­tivo”, como é de­fen­dido por mu­si­có­logos para quem a mú­sica só ganha um sen­tido com letra.

Quem vai à Festa per­cebe fa­cil­mente que, pelo menos, esta te­oria terá ex­cep­ções (!): se­guindo a sua vo­cação ini­cial, a “Car­va­lhesa”, às pri­meiras notas, é mola im­pul­si­o­na­dora de mul­ti­dões para a dança!

Além disso a “Car­va­lhesa”, pela sua po­pu­la­ri­dade e cunho etno-mu­sical ge­nuíno, re­siste na sua jo­vial fun­ci­o­na­li­dade ao afo­ga­mento cri­mi­noso en­ce­tado em força pela mú­sica co­mer­cial de má qua­li­dade, que tenta se­parar o ci­dadão, quer da sua mú­sica tra­di­ci­onal, quer do pa­tri­mónio mu­sical de todos os tempos a que tem di­reito e ne­ces­si­dade. Na Festa re­cria de certa ma­neira a his­tória e a evo­lução da Mú­sica com o po­si­ci­o­na­mento do Homem pe­rante ela: solta em todos a te­lú­rica pulsão pri­mária da Dança, nos pri­mór­dios li­gada in­ti­ma­mente à Mú­sica, e que, por ne­ces­si­dade de es­pe­ci­a­li­zação ins­tru­mental e cres­cente abs­tracção hu­mana, se foi sa­cri­fi­cando; deixa de­mo­cra­ti­ca­mente o seu usu­fruto à es­colha livre do pú­blico – a) ex­pri­mindo fi­si­ca­mente as suas pul­sões; b) fa­zendo-o pru­den­te­mente, abrindo os olhos em si­mul­tâneo para o es­pec­tá­culo co­lec­tivo; c) pro­cu­rando em ex­clu­sivo um local ele­vado com visão pri­vi­le­giada sobre o es­pec­tá­culo inol­vi­dável.

Numa pe­nada, temos a origem da Mú­sica um­bi­li­cal­mente li­gada à Dança, a pos­si­bi­li­dade morna de po­dermos usu­fruir em si­mul­tâneo do mo­vi­mento e do es­pec­tá­culo e, por úl­timo, a po­sição de pú­blico so­li­dário e vi­brante com o quadro es­pec­ta­cular ob­ser­vado.

No meio de tudo isto, é claro, a Paz e a ale­gria de viver: o fu­turo será sempre nosso.

2024 08 09

https://www.avante.pt/pt/2645/argumentos/176540/A-M%C3%BAsica-e-a-Paz.htm

segunda-feira, 29 de janeiro de 2024

Nuno Pacheco - Anónimos de Abril, a história cantada de desconhecidos que ajudaram à revolução



Rogério Charraz, José Fialho Gouveia, Joana Alegre e João Afonso são os rostos deste espectáculo que resgata da sombra figuras da resistência e do 25 de Abril. A estreia é esta segunda-feira.

Nuno Pacheco

28 de Janeiro de 2024, 20:05

 

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Rogério Charraz, José Fialho Gouveia, Joana Alegre e João Afonso: os rostos não anónimos dos Anónimos de Abril LUÍS FILIPE CATARINO

Sabem quem foi Aurora Rodrigues? Belmira Gonçalves? Francisco Miguel Duarte? Albina Fernandes? Jorge Alves? Luís e Herculana Carvalho? João Arruda? As suas vidas estão ligadas à resistência contra o Estado Novo e ao 25 de Abril, mas os seus nomes permanecem desconhecidos para a quase totalidade dos portugueses. É deles, e de outros como eles, que nos fala (e canta) Anónimos de Abril, em estreia esta segunda-feira no Tivoli BBVA (21h), em Lisboa. O espectáculo, inserido nas comemorações dos 100 anos do Teatro Tivoli, vai ser gravado pela RTP, para posterior transmissão.

O projecto de Rogério Charraz e José Fialho Gouveia, com as participações de Joana Alegre e João Afonso (vozes) e dos músicos Alexandre Frazão (bateria), Carlos Garcia (piano), Marco Reis (guitarra) e Nuno Oliveira (baixo), surgiu quando o cantor e compositor viu num texto de uma rede social a história de Celeste Caeiro, recorda ao PÚBLICO. "Já conhecia o nome, sabia que começou por dar um cravo a um militar, mas a maior parte dos portugueses está convencida de que era florista, quando de facto ela trabalhava num restaurante que fazia um ano no dia 25 de Abril [de 1974].”

Ele próprio não conhecia a história e isso aguçou-lhe ainda mais a curiosidade. “Quando dei por mim a deliciar-me com ela, pensei que deve haver muitas pessoas que tiveram um papel simbólico ou até fundamental na resistência ou na revolução e que não são muito faladas de cada vez que se celebra o 25 de Abril. Foi esse o ponto de partida para este Anónimos de Abril: ir à procura de histórias enterradas ou guardadas na gaveta.”

O passo seguinte foi falar com José Fialho Gouveia, que já havia colaborado com Rogério Charraz, como letrista, nos discos O Coreto (2021) e Reunião de Condomínio (2023), para combinar uma ida aos arquivos, tarefa que começou a ser feita a dois.

“Fomos encontrando histórias”, diz José Fialho Gouveia. “Falámos com pessoas que nos passaram figuras que podiam encaixar neste projecto e fomos construindo uma lista que depois tivemos de ir encurtando. Quisemos diversidade: não queríamos quatro ou cinco exemplos cujo aspecto central fosse a vida na clandestinidade; quisemos equilíbrio entre homens e mulheres, porque o 25 de Abril também foi feito por muitas mulheres, embora os nomes mais conhecidos sejam de homens; e quisemos regiões diferentes do país.”

O compositor acrescenta: “No caso das mulheres, tivemos também a preocupação de não ir buscar apenas as que eram de facto apoio de homens, como a Arajarir Campos [secretária de Humberto Delgado, morta pela PIDE na mesma emboscada em que ele foi assassinado, em Fevereiro de 1965], mas mostrar os vários papéis que tiveram.”

Arajarir está entre os “anónimos” aqui cantados. Tal como, entre vários outros, Belmira Gonçalves, morta a tiro durante a “Revolta das Águas” na Madeira, em 1962; o Padre Alberto Neto, fundamental na vigília da Capela do Rato; Jorge Alves, o militar da GNR que ajudou na célebre fuga dos presos do Forte de Peniche; Francisco Sousa Mendes, neto do cônsul Aristides Sousa Mendes, que integrou a coluna de Salgueiro Maia; Aurora Rodrigues, estudante presa em 1973 e torturada durante três meses; ou o casal Luís e Herculana Carvalho. De uma família abastada do Porto, estes pais de um destacado militante do PCP, Guilherme da Costa Carvalho, conseguiram autorização para visitar o filho na colónia penal do Tarrafal. Ali tiraram fotografias às campas dos prisioneiros mortos e no regresso percorreram o país a entregar as imagens aos familiares dos detidos.

Recolhidas as histórias, foi a vez das canções. “O processo foi o mesmo que usámos nos dois discos anteriores”, conta Rogério Charraz. “Partir da história, da personagem, fazer a letra – um trabalho do Zé, depois de aprofundar a pesquisa inicial, ao ler os livros, conhecer as histórias a fundo, os pormenores –; em cima das letras, eu construí as canções e os arranjos, para depois meter as vozes, minha, do João e da Joana.”

Os cantores foram já escolha de ambos. “Na minha cabeça, há um lado colectivo no canto de intervenção”, explica o compositor. “Os cantautores cantavam muitas vezes juntos, com as suas guitarras e as suas vozes, e isso está muito presente no nosso imaginário. Fazia sentido ir buscar outras vozes, [aliás] com ligações familiares a figuras da resistência: a Joana é filha de Manuel Alegre e o João é sobrinho do José Afonso.”

Depois dos palcos, um disco

Joana Alegre aceitou o convite antes de ouvir as canções, mas o que leu e ouviu deixou-a tranquila: “Agradou-me muito a perspectiva literária, transversal, não panfletária, igualitária, de contar a história de pessoas anónimas que também construíram a liberdade”, diz.

“Esta narrativa corrige um bocadinho aquela de que as mulheres ficaram reféns, e que menorizava o seu papel na resistência e na construção da liberdade", sublinha a cantora. "Há aqui histórias muito sensíveis, porque estamos a entrar no plano dos traumas individuais, do sofrimento pessoal, mas as letras foram feitas pelo Zé Fialho com muito cuidado.”

João Afonso corrobora: “Também aceitei o desafio sem conhecer os poemas, mas a ideia em si atraiu-me logo – porque é muito interessante a abordagem. O 25 de Abril que conhecemos foi feito por oficiais, homens, mas estas histórias vão mais além, falam do trabalho de resistência escondido, de personagens que não vêm nos livros escolares.”

Após a estreia do espectáculo em Lisboa, há já mais oito datas marcadas, além de outras ainda à espera de confirmação: Portimão (16 de Março), Montijo (6 de Abril), Fafe (19 de Abril), Vila do Conde (20 de Abril), Santa Maria da Feira (24 de Abril, com a Orquestra Sinfónica de Jovens), Barcelos (27 de Abril), Grândola (21 de Setembro) e Loulé (26 de Outubro). Anónimos de Abril deverá ainda dar lugar a um CD, a lançar em 2025.

tp.ocilbup@ocehcap.onun

https://www.publico.pt/2024/01/28/culturaipsilon/noticia/anonimos-abril-historia-cantada-desconhecidos-ajudaram-revolucao-2078040

sexta-feira, 5 de janeiro de 2024

Rui Mingas (1939 / 2024)




Ruy Mingas (1939-2024), músico lutador pela liberdade, cantor feito homem político

Nome maior da música angolana, co-autor de Meninos do Huambo, Ruy Mingas foi antes atleta recordista, foi depois ministro e embaixador da Angola independente. Tinha 84 anos.


4 de Janeiro de 2024, 19:03




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Ruy Mingas foi nos anos 1980 e 1990 ministro da Educação Física e Desportos e embaixador de Angola em Portugal DR

O seu percurso de vida está intimamente ligado ao de Angola independente. Foi, afinal, co-autor do hino de Angola com o escritor e dramaturgo Manuel Rui e foi também ministro da Educação Física e Desportos angolano entre 1979 e 1989 e, entre 1990 e 1995, embaixador da nação africana em Portugal. Homem de talentos multifacetados, Ruy Mingas, falecido esta quinta-feira em Lisboa, aos 84 anos, foi também recordista português do salto em altura. Mas foi, acima de tudo, poeta, cantor e compositor, um nome maior da música angolana e co-autor, por exemplo, da Meninos do Huambo popularizada em 1985 por Paulo de Carvalho.

Nascido em Luanda a 12 de Maio de 1939, Ruy Mingas destacou-se primeiro no desporto. Atleta do Benfica nas categorias de 110 metros barreiras e salto em altura, bateria o recorde nacional da segunda em 1960. Porém, tal como outro angolano seu contemporâneo em Lisboa, Barceló de Carvalho, que conhecemos hoje como Bonga, mas que foi também campeão de atletismo, pelo mesmo clube, na década de 1960, Ruy Mingas seguiria outra musa. No seu caso, podemos mesmo afirmar que houve uma certa inevitabilidade na sua dedicação à música e ao seu envolvimento empenhado na luta independentista e anticolonialista angolana.

Ruy Mingas era, afinal, sobrinho de Liceu Vieira Dias, figura fundamental da música popular angolana, co-fundador dos míticos N’Gola Ritmos no final dos anos 1940, um lutador contra a opressão colonial portuguesa que o Estado Novo encarcerou durante vários anos no Tarrafal, o temido campo de concentração para presos políticos em Cabo Verde.

Desse exemplo familiar bebeu abundantemente Ruy Mingas, como o comprovam uma canção como Monangambé (1974), sob poema de António Jacinto ("Naquela roça grande tem café maduro/ e aquele vermelho-cereja/ são gotas do meu sangue feitas seiva"), ou álbuns como Angola (1970) e Temas Angolanos (1974). Neles, como escrevia Kalaf Epalanga em 2020, numa crónica para a revista brasileira Quatro Cinco Um, ouvíamos “o homem que deu voz às aspirações do povo angolano e cantou como poucos nossa dor e ânsia por liberdade”.

O grande público contactou pela primeira vez com Ruy Mingas em Portugal quando actuou em 1969 no Zip Zip, o histórico programa da RTP apresentado por Fialho Gouveia, Raul Solnado e Carlos Cruz – a acompanhá-lo nas percussões estava Bonga. No ano seguinte, editou o seu primeiro álbum, Angola, que viria a ser lançado, além de Portugal, em Itália, Espanha ou França – o seu prestígio neste país levou mesmo à sua distinção, em 2010, com o Prémio de Arte, Cultura e Letras da Academia Francesa de Educação.

Sem que o público português o soubesse, porém, Ruy Mingas já interviera de forma marcante na música portuguesa, ainda que por interposta pessoa: foi ele a apresentar aos Sheiks de Carlos Mendes e Paulo de Carvalho o clássico Summertime, de George Gershwin, que a grande banda do yé yé português gravou em 1965 como o seu primeiro single. Nesse período, movendo-se no seio dos estudantes africanos em Portugal, desenvolveu a sua consciência e actividade política e integrou os Ngola Kizomba, banda emanada da Casa dos Estudantes do Império na Capital Portuguesa.

Através das suas composições, musicando poetas da luta independentista angolana como Viriato Cruz, o supracitado António Jacinto ou o futuro Presidente da República Agostinho Neto, ou colaborando com Manuel Rui (além do hino de Angola, compuseram em conjunto, em 1976, Meninos do Huambo, entre outras), Ruy Mingas legou à música angolana, na sua voz cheia, expressiva e ponderada, temas como Birin birin, Ixi ami, Poema da farra, Adeus à hora da largada ou a já referida Monangambé.

Após o 25 de Abril e a independência de Angola, vestiu a farda de político e tornou-se ministro, primeiro, e depois embaixador. Em 1995, foi agraciado por Portugal com a Grã-Cruz da Ordem do Infante D. Henrique. No início deste século, defensor da educação como alavanca decisiva para a prosperidade do seu povo, impulsionou a fundação da Universidade Lusíada em Angola, a primeira instituição de ensino superior privada no país, com pólos em Luanda, Cabinda e Benguela. A música, porém, continuava presente.

Em 2011, o pai da cantora Katila Mingas e da modelo Nayma, editou Memória, álbum em que compilou originais e novas versões das suas canções, qual testemunho artístico feito ponte entre o passado e o presente.


sábado, 7 de janeiro de 2012

Exposição sobre Fernando Pessoa e heterónimos na Gulbenkian em Fevereiro


6 de Janeiro, 2012
Uma exposição sobre o poeta Fernando Pessoa e os seus heterónimos, com fotografias, pintura e documentos, vai ser inaugurada no dia 09 de Fevereiro, na Fundação Calouste Gulbenkian, em Lisboa, no âmbito do Ano do Brasil em Portugal.
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Intitulada «Fernando Pessoa, Plural como o Universo», esta mostra nasceu de uma colaboração entre a Fundação Gulbenkian, a Fundação Roberto Marinho e o Museu da Língua Portuguesa de São Paulo, indica a publicação mensal da Fundação que acolherá a mostra sobre a vida e a obra do autor.
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Até 30 de abril, os visitantes poderão encontrar na sede da Fundação Gulbenkian os poemas, textos, documentos, fotografias e pintura sobre um dos nomes maiores da História da Literatura portuguesa.
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«Fernando Pessoa, Plural como o Univeros» esteve em São Paulo em 2010 e, no Rio de Janeiro, em Março de 2011.
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De acordo com a publicação, um dos espaços da mostra será reservado à apresentação, em compartimentos delimitados, do ortónimo e dos quatro mais importantes heterónimos: Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos e Bernardo Soares.
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Noutra parte da exposição serão apresentados textos que pretendem mostrar como puderam conviver, no espírito de Fernando Pessoa, heterónimos e escritos auto-interpretativos, bem como todos os outros projectos que o poeta ia desenvolvendo.
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Estarão disponíveis objectos nunca antes expostos em Portugal e também exemplares de toda a obra de Fernando Pessoa em português e traduzida para outras línguas, instalados numa mesa com oito metros de comprimento por quatro de largura, para proporcionar aos visitantes uma oportunidade de leitura ou releitura da obra.
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A mostra, com curadoria de Carlos Filipe Moisés e Richard Zenith, terá ainda uma forte componente multimédia, composta por filmes e poemas ditos.
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Além do catálogo da exposição, será lançado um livro intitulado «Fernando Pessoa: o editor, o escritor e os seus leitores», com um conjunto de 50 depoimentos pedidos a igual número de personalidades portuguesas e estrangeiras que dão conta da sua relação com a obra do poeta.
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Lusa/SOL

segunda-feira, 12 de julho de 2010

~ Jotas Navarras ~ Raimondo Lanas



En los montes de Navarra
tengo plantada una flor;
si el aire la bambolea,
desde aquí siento el olor.
Cojo la vara y mi carro
y voy por la carretera;
no hay venta en que no me pare
ni moza que no me quiera.
Quisiera volverme hiedra,
y subir por las paredes,
y entrar en tu habitación,
por ver el dormir que tienes.
De las rías de Galicia,
con la de Lérez me quedo;
porque en su margen nació
la mujer que yo más quiero.
¡Qué delantal más tirano
que llevan las tudelanas,
por la mañana temprano
cuando van a la Mejana!
Adiós, puente de Tudela,
torre de la catedral,
al viento lanzo un suspiro
por si no te viera más.
Por la sal que andando tiene
y la luz que hay en su cara,
por querer como ella quiere
bien se ve que es de Tafalla.
Tengo un hermano en el Tercio
y otro tengo en Regulares
y el hermano más pequeño
preso en Alcalá de Henares.
Una noche en Lagunera,
noche de nieve y de frío,
La calle de mi morena
no era calle, que era un río.
A tu pelo de azabache
Y a tu carica de flor,
una boina pamplonesa
es el adorno mejor.
Dice que me ha de matar
un majo de una estocada;
yo le perdono la vida,
si me la da cara a cara.
Mi guitarra navarrica
ríe o llora, gime o canta,
según tu cara bonita
me acaricia o me maltrata.
Esta es la jota navarra
que cantan los tudelanos,
cuando van a la Mejana
por la mañana temprano.
El querer sin esperanza
es el más lindo querer;
yo te quiero y nada espero,
mira si te quiero bien.
Aunque nevaba y llovía
atravesé las Bardenas;
Pero como te iba a ver,
me pareció primavera.
La jota navarra tiene
algo misterioso y grande,
desde que fue la oración
con que rezaba Gayarre.
En las orillas del Arga
las golondrinas cantaban;
y en sus trinos repetían:
¡qué hermosa tierra es mi Navarra!
Las cadenas de las Navas
no son cadenas de esclavos;
son las pruebas del valor
que derrochan los navarros.
Noche de luna en verano,
paseo por el Roncal;
y lejos se oye el recuerdo
de Gayarre en un cantar.
Yunque y martillo forjaron
la voz de Julián Gayarre;
por eso ha quedado un eco
que no hay otra voz que apague.
Dos hombres tuvo Navarra
que le hicieron inmortal:
el famoso Sarasate
y Gayarre el del Roncal.
Cuando templa un navarrico
la guitarra entre sus manos,
de sus cuerdas sale un grito:
¡vivan los Fueros navarros!
De Murillo salí al mundo
y a mi tierra he de volver.
Mal hijo quien a su madre
no quiere venir a ver.
En la Rochapea hay riña,
¿Quién baja a la Rochapea?;
bajaré yo, y con la jota
acabará la pelea.
No podréis con las virtudes
que atesoran los navarros;
vencen porque son creyentes,
duros y disciplinados.
Montejurra, las Bardenas,
el Perdón y el Carrascal,
tierra de fibra y entrañas
que nadie profanará.
Paisanos de mi Ribera,
de la Améscoa y del Baztán,
me descubro ante vosotros,
¡Viva Navarra inmortal!
Cuando esta copla la cante
mi trino de ruiseñor,
di que van siempre p'alante
Navarra, Fueros y Dios
Entre todas las regiones,
Navarra es la que prefiero;
ya que nacer dentro de ella
es nacer dentro del Cielo.
El navarro que es navarro
concentra su corazón
en su cuna y en los suyos,
en sus Fueros y en su Dios.
Eslava nació en Burlada
y Gayarre en el Roncal;
en Pamplona, Sarasate,
calle de San Nicolás.
Peralta, la de la jota,
La de los ajos Corella,
Lodosa la del canal,
la de las rosas Tudela.
Me dicen el calavera
porque al Tercio me marché;
no me fui por calavera
que fue por una mujer.
Volverás por donde fuiste;
porque los remordimientos
hacen que se vuelvan buenos
a los malos pensamientos.
A la fuente voy y bebo
y el agua no la aminoro,
porque yo la restituyo
con las lágrimas que lloro.
Si canto me dicen loco,
y si no canto, cobarde;
si bebo vino, borracho;
si no bebo, miserable.
Una rosa del Moncayo
hecha de nieve y de fuego,
he de darte. vida mía,
el día que nos casemos.
Pamplona tiene cadenas,
y Tudela su Mejana;
pero tú a mi no me tienes,
porque no te da la gana.
Corazón, de qué te quejas
Si te ves triste y penando,
más de cien ya te dijeron
que el amor da desengaños.
¿De dónde has sacado tú,
Pamplonesa, tanta sal?
la gracia que tú derramas
Sevilla quiere comprar.
El que quiera ser valiente,
jugarse la vida en broma,
que vaya a ver el encierro
de los toros en Pamplona.
¡Cómo quieres que yo cante
ni que temple mi guitarra,
si es San Fermin y estoy lejos
de la capital navarra!
Pamplona siete de julio,
cantan los mozos y mozas;
los de la Montaña en vasco,
los de la Ribera en jotas.
Canta cardelina, canta,
canta tu bella canción,
que no quiero que se entere
que no puedo cantar yo.
Ya vienen los segadores
de segar de los Monegros,
sólo por venirte a ver
niña de los ojos negros.
Dios al crear nuestro suelo
del Cielo un jirón desgarra;
y por su fe lo da entero
a su adorada Navarra.
La luz faltará a mis ojos,
y la energía a mi cuerpo;
pero mi amor por Navarra
es mayor cuanto es más viejo.
Como cantaba Gayarre,
ya nadie ha vuelto a cantar;
que por algo era navarro
y del Valle de Roncal.
Eslava, asombro de España,
y Sarasate del mundo;
y de Navarra la jota
que canta Murillo el Fruto.
En Tudela y en Pamplona,
en Murillo y en Tafalla,
se canta una jota y dice:
¡qué hermosa tierra es Navarra!
Las cadenas del escudo
las ganamos peleando;
del mismo hierro está hecho
el pecho de los navarros.
Aguas del Ega y del Arga,
del Ebro y del Aragón,
corred y decidle al mundo
si tenemos corazón.
Las canciones de Navarra
tienen aromas del campo,
las ternezas de una madre
y los arrestos de un bravo.
Cuatro líneas un cantar,
que en si lleva pura esencia;
yo se lo ofrezco a mi madre,
navarra de pura cepa.
Nací en Murillo el Fruto,
y Navarra es la que quiero;
porque, siendo de esa tierra,
todo es .
El escudo los navarros
lo ganaron en Las Navas,
rompiendo gruesas cadenas
que aprisionaban a España
Para gustarme la jota,
además de bien cantada,
tiene que expresar la copla
alma y brío de la raza.
Franco llevaba el volante,
Ruiz de Alda lo guiaba,
Y al compás de los motores
Rada la jota cantaba.
Yo la vi, morena y clara
paseando por Tudela:
y a partir de aquella hora
sólo sé pensar en ella.
La calle de la amargura
fue aquella calle de Viana
Cuando la VI del bracete
Del hombre con quien se casa.
Lo mejor de España, el Norte,
y del Norte, mi Navarra;
y de Navarra es sin duda
Murillo el Fruto y su raza.
Por San Fermin en Pamplona,
en Tudela por Santa Ana,
por Santa Ursula en Murillo,
viva España y mi Navarra.
Por el Norte los navarros
escardan la mala hierba;
si queréis hombres de temple,
acordaos de mi tierra.
Volverá la primavera,
ya verás con cuántas flores;
y arderá el corazón mío
al calor de tus amores.
Tengo la nena más maja
nacida mientras la guerra;
de gallega y de navarro
es la sangre de sus venas.
¿Por qué la jota navarra
se ha hecho tan popular?
porque la canta un navarro
con su estilo original.
De Estella me voy y dejo
en ella lo que más quiero;
Si no vuelvo que, me olviden,
Que yo no olvido si vuelvo.
Desde la margen del Ebro,
os traigo de mi Navarra
un saludo fraternal
pata la noble Vizcaya.
El Ebro nace en Castilla,
pasa por Rioja y Navarra,
Aragón y Cataluña;
es el Ebro media España.
Metido entre las Bardenas,
Murillo el Fruto mi tierra;
allí tengo yo a mi madre,
navarra de pura cepa.
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http://www.raimundolanas.com/obra.htm
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RelacionesInstitu | 25 de Agosto de 2009
El Gobierno de Navarra, organizó el 22 de noviembre de 2008 una gala de homenaje al jotero navarro Raimundo Lanas, con motivo de la conmemoración del centenario de su nacimiento.
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domingo, 11 de julho de 2010

Como James Brown tornou-se um militante negro

Cultura

 

Vermelho - 7 de Julho de 2010 - 12h51

Recém-lançado no Brasil, o livro O Dia em Que James Brown Salvou a Pátria (ed. Zahar), do jornalista James Sullivan, biografa o principal formulador do funk norte-americano a partir de um episódio crucial: a influência que o furacão Brown exerceu sobre a população negra dos Estados Unidos nos dias que se seguiram ao assassinato do reverendo Martin Luther King Jr. em 4 de abril de 1968.

Por Pedro Alexandre Sanches, em Opera Mundi

Pode parecer a princípio um mero mergulho no passado histórico da nação ao norte. Mas de modo indireto o livro, originalmente nomeado The Hardest Working Man (How James Brown Saved the Soul of America), tem muito a dizer e revelar para leitores do Brasil de 2010, que se acostumam, aos poucos e aos sobressaltos, a encarar questões sensíveis como cotas, políticas afirmativas, reparação, direitos civis, reivindicações de minorias.

A trama gira em torno de um tenso show do cantor e compositor sulista (de Barnwell, Carolina do Sul) na cidade nortista de Boston, um dia após a morte do militante pelos direitos civis Luther King, quando a população negra dos EUA estava conflagrada e ensaiava levantes por vezes violentos país adentro. Após nervosas negociações de gabinete, decidiu-se que a apresentação seria exibida ao vivo (e a seguir reprisada) pela TV local.

Para alguns, esse estratagema teria servido para manter a população em casa, fixada nos quadris do astro pop, garantindo assim a pacificação das ruas da cidade (os tradutores do título em português desmontam ambiguidades e compram essa hipótese, ainda que em 5 de julho de 1968 Brown pudesse no máximo ter salvo Boston, e não a pátria inteira).

Para outros, igualmente contemplados no livro, aquele ato significaria a cooptação do cantor pelo poder branco – integrantes do movimento negro deixariam ali de chamá-lo de “Irmão Número 1 do Soul”, trocando a alcunha para “Irmão Vendido Número 1”.

Sullivan documenta a grande viagem empreendida por Brown nos anos 1960, de artista restrito ao público negro a poderoso comunicador e proprietário de três estações de rádio – mas, também, de homem inconsciente de sua própria identidade negra a militante e coinventor do “black power”.

Mesmo para quem defende que o Brasil não é racista em 2010, há de doer a constatação crua da discriminação explícita e da segregação profunda vigentes nos EUA nos primeiros anos daquela década, menos de 50 anos atrás. “As celebridades negras costumavam obter mais destaque quando suas personalidades eram menos desafiadoras”, afirma o autor a certa altura.

A questão aparentemente superficial do alisamento capilar aparece em depoimento transcrito da autobiografia do aguerrido ativista negro Malcolm X (assassinado em fevereiro de 1965): “Esse foi meu primeiro passo para a autodegradação, quando enfrentava aquela dor toda, literalmente queimando minha carne, para ter cabelo de branco”.

Brown também alisava o cabelo, e só em julho de 1968 adotaria um corte natural (e curto), exigindo o mesmo dos integrantes da banda. “Queria que as pessoas soubessem que uma das coisas que eu mais prezava e à qual renunciei foi o meu cabelo. Era um verdadeiro atrativo para a minha carreira. Mas eu o cortei pelo movimento”, afirmaria mais tarde, segundo Sullivan.

O trauma do assassinato de Luther King motivaria Brown a lançar também sua canção mais engajada politicamente, Say It Loud – I’m Black and I’m Proud (1968). O autor contempla a hipótese de que fosse uma estratégia do artista para reagir à desconfiança gerada pelo show televisionado de Boston. Por outro lado, evidencia que musicalmente o funk de Brown foi se tornando maciço e corpulento na mesma medida em que os movimentos pelos direitos civis dos negros cresciam e tomavam as ruas norte-americanas.

O futuro “Poderoso-Chefão do Soul” progredia e se consolidava enquanto incendiava de orgulho e raça funks como I Got You (I Feel Good) (1964), Papa’s Got a Brand New Bag (1965), a protopolitizada Don’t Be a Dropout (1967), Cold Sweat (1967), Hot Pants (1970), Get Up (I Feel Like Being a) Sex Machine (1970)...

Nesse ínterim, tornou-se um militante incansável a favor da educação para a população negra – sempre demarcando que ele próprio não tivera esse privilégio. Prestou apoio ao governo de Richard Nixon (1969-1974), devido a compromissos assumidos pelo político republicano em relação a ações afirmativas, renda mínima, iniciativas empresariais de minorias e empreendedorismo negro. “Embora o apoio a Nixon tenha deixado alguns de seus melhores amigos perplexos, ele jamais se arrependeu disso”, escreve Sullivan.

Se temas como esses traçam alguma semelhança com debates do Brasil de 2010, no ano de 1968 daqui a ditadura militar e seu AI-5 sufocavam qualquer respiro para lutas por direitos civis de minorias. Toni Tornado, Erlon Chaves e Dom Salvador foram brutalmente reprimidos quando levaram a cabo um levante funk (e sexy) no Festival Internacional da Canção da Globo em 1970.

Jorge Ben homenageou o atuante Muhammad Ali e tateou um “black is beautiful” à brasileira em Negro É Lindo (1971), mas permaneceu tímido e discreto a esse respeito. Wilson Simonal compôs e gravou um Tributo a Martin Luther King (1967), antes mesmo do assassinato do reverendo, e nos anos seguintes ensaiou comandar um “black power” tropicalista – sucumbiu definitivamente em 1974, condenado, preso, encrencado à esquerda e à direita.

Brown teria mais sorte e longevidade que Simonal, mas morreria decadente em 2006, apequenado por episódios de violência doméstica e prisões por burlar o fisco. “Você paga quando goza de todos os seus direitos. Não gozei dos meus direitos. Não tive essa chance”, justificou-se numa autobiografia.

Percalços à parte, o que o mantém e o manterá vivo séculos afora é o testemunho gravado no calor da perda de Luther King, em Say It Loud – I’m Black and I’m Proud: “Eu trabalhei com meus pés e minha mãos/ mas todo o trabalho que fiz foi para o outro homem/ agora exigimos uma chance de fazer as coisas por nós mesmos/ estamos cansados de bater nossas cabeças contra a parede/ e de trabalhar para os outros”.

Se escravizados e escravizadores ficaram ou não confinados no passado das Américas, cabe à consciência de cada um de nós responder. 

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ver no Galeria & Photomaton:
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James Brown : Say It Loud -- I'm Black and I'm Proud

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domingo, 28 de fevereiro de 2010

Chico Buarque -Vida e Obra

Origem: Wikipédia, a enciclopédia livre.

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Você pode melhorar este artigo introduzindo notas de rodapé citando as fontes, inserindo-as no corpo do texto quando necessário.

Nota: Para outros significados de Chico Buarque, ver Chico Buarque (desambiguação).

Chico Buarque
Chico Buarque.jpg
Foto de autoria de Fernanda Steffen
Informação geral
Nome completo Francisco Buarque de Hollanda
Data de nascimento 19 de junho de 1944 (65 anos)
Origem Rio de Janeiro, RJ
País Brasil Brasil
Gêneros Bossa nova, samba, MPB
Instrumentos voz, violão
Período em atividade 1965 - presente
Influências Noel Rosa
Ismael Silva
Roberto Menescal
Luiz Bonfá
Jacques Brel
João Donato
João Gilberto
Dori Caymmi
Edu Lobo
Elis Regina
Cartola
Elvis Presley
Tom Jobim
Bob Dylan
The Beatles
Baden Powell
Vinícius de Moraes [1]
Página oficial Site Oficial
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Francisco Buarque de Hollanda, conhecido como Chico Buarque (Rio de Janeiro, 19 de junho de 1944), é um músico, dramaturgo e escritor brasileiro. Filho do historiador Sérgio Buarque de Holanda, iniciou sua carreira na década de 1960, destacando-se em 1966, quando venceu, com a canção A Banda, o Festival de Música Popular Brasileira. Em 1969, com a crescente repressão da Ditadura Militar no Brasil, se auto-exilou na Itália, tornando-se, ao retornar, um dos artistas mais ativos na crítica política e na luta pela democratização do Brasil. Na carreira literária, foi ganhador do Prêmio Jabuti, pelo livro Budapeste, lançado em 2004.
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Casou-se com e separou-se da atriz Marieta Severo, com quem teve três filhas: Sílvia, que é atriz e casada com Chico Diaz, Helena, casada com o percussionista Carlinhos Brown e Luísa. É irmão das cantoras Miúcha, Ana de Hollanda e Cristina. Ao contrário do que tem sido propagado na internet, Aurélio Buarque era apenas um primo distante do pai de Chico.[2]

Índice

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Biografia

Chico é filho de Sérgio Buarque de Holanda (1902-1982), um importante historiador e jornalista brasileiro e de Maria Amélia Cesário Alvim(1910), pintora e pianista.
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Em 1946, passou a morar em São Paulo, onde o pai assumira a direção do Museu do Ipiranga. Sempre revelou interesses pela música - interesse que foi bastante reforçado pela convivência com intelectuais como Vinicius de Moraes e Paulo Vanzolini.[3]
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Em 1953, Sérgio Buarque de Holanda foi convidado para lecionar na Universidade de Roma, consequentemente, a família muda-se para a Itália. Chico torna-se trilíngue, na escola fala inglês, e nas ruas, italiano. Nessa época, suas primeiras "marchinhas de carnaval" são compostas, e, com as irmãs mais novas, Piiizinha, Cristina e Ana, encenadas.[3]
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De volta ao Brasil, produz suas primeiras crônicas no jornal Verbômidas, do Colégio Santa Cruz de São Paulo, nome criado por ele. Sua primeira aparição na imprensa não foi cultural, mas policial, publicada, no jornal Última Hora, de São Paulo. Com um amigo, furtou um carro para passear pela madrugada paulista, algo relativamente comum na época.[3] Foi preso. "Pivetes furtaram um carro: presos" foi a manchete no dia seguinte com uma a foto de dois menores com tarjas pretas nos olhos. Chico não pôde mais sair sozinho à noite até que completasse 18 anos.[3]

Início de Carreira

Chico Buarque chegou a ingressar no curso de Arquitetura na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU) em 1963. Cursou dois anos e parou em 1965, quando começou a se dedicar à carreira artística. Neste ano, lançou Sonho de Carnaval, inscrita no I Festival Nacional de Música Popular Brasileira, transmitida pela TV Excelsior, além de Pedro Pedreiro, música fundamental para experimentação do modo como viria a trabalhar os versos, com rigoroso trabalho estilístico morfológico e politização, mais significativamente na década de 1970. A primeira composição séria, Canção dos Olhos, é de 1961.
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Conheceu Elis Regina, que havia vencido o Festival de Música Popular Brasileira (1965) com a canção Arrastão, mas a cantora acabou desistindo de gravá-lo devido à impaciência com a timidez do compositor. Chico Buarque revelou-se ao público brasileiro quando ganhou o mesmo Festival, no ano seguinte (1966), transmitido pela TV Record, com A Banda, interpretada por Nara Leão (empatou em primeiro lugar com Disparada, de Geraldo Vandré). No entanto, Zuza Homem de Mello, no livro A Era dos Festivais - Uma Parábola, revelou que a banda venceu o festival. O musicólogo preservou por décadas as folhas de votação do festival. Nelas, consta que a música da banda ganhou a competição por 7 a 5. Chico, ao perceber que ganharia, foi até o presidente da comissão e disse não aceitar a derrota de Disparada. Caso isso acontecesse, iria na mesma hora entregar o prêmio ao concorrente.
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No dia 10 de outubro de 1966, data da final, iniciou o processo que designaria Chico Buarque como unanimidade nacional, alcunha criada por Millôr Fernandes.
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Canções como Ela e sua Janela, de 1966, começam a demonstrar a face lírica do compositor. Com a observação da sociedade, como nas diversas vezes em que citação do vocábulo janela está presente em suas primeiras canções: Juca, Januária, Carolina, A Banda e Madalena foi pro Mar. As influências de Noel Rosa podem ser notadas em A Rita, 1965, citado na letra, e Ismael Silva, como em marchas-ranchos.

Festivais de MPB nos anos de 1960

No festival de 1967 faria sucesso também com Roda Viva, interpretada por ele e pelo grupo MPB-4 — amigos e intérpretes de muitas de suas canções. Em 1968 voltou a vencer outro Festival, o III Festival Internacional da Canção da TV Globo. Como compositor, em parceira com Tom Jobim, com a canção Sabiá. Mas desta vez a vitória foi contestada pelo público, que preferiu a canção que ficou em segundo lugar: Pra não dizer que não falei de flores, de Geraldo Vandré.
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A participação no Festival, com A Banda, marcou a primeira aparição pública de grande repercussão apresentando um estilo amparado no movimento musical urbano carioca da Bossa nova, surgido em 1957. Ao longo da carreira, o samba e a MPB também seriam estilos amplamente explorados.

Trilha-sonora e adaptações de livros

Chico 1.jpg
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Chico participou como autor e compôs várias canções de sucesso para o filme Quando o Carnaval chegar, musical de Cacá Diegues. Compôs a canção-tema do longa-metragem Vai trabalhar Vagabundo, de Hugo Carvana — Carvana chegou a modificar o roteiro a fim de usá-la melhor. Faria o mesmo com os filmes seguintes desse diretor: Se segura malandro e Vai trabalhar vagabundo II. Adaptou canções de uma peça infantil para o filme Os Saltimbancos Trapalhões do grupo humorístico Os Trapalhões e com interpretações de Lucinha Lins. Outras adaptações de uma peça homônima de sua autoria foram feitas para o filme A Ópera do Malandro, mais um musical cinematográfico. Vários filmes que tiveram canções-temas de sua autoria e que fizeram muito sucesso além dos citados: Bye Bye Brasil, Dona Flor e seus dois maridos e Eu te amo, os dois últimos com Sônia Braga. Recentemente, chegou a ter uma participação especial como ator no filme Ed Mort. Ele escreveu um livro que virou filme, Benjamim, que foi ao ar nos cinemas em 2003, tendo como personagens principais Cleo Pires, Danton Melo e Paulo José.
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E maio de 2009, é lançado o filme Budapeste com roteiro baseado em livro homônimo de Chico Buarque. No filme há também a participação especial do escritor.

Teatro e literatura

Musicou as peças Morte e vida severina e o infantil Os Saltimbancos. Escreveu também várias peças de teatro, entre elas Roda Viva (proibida), Gota d'Água, Calabar (proibida), Ópera do malandro e alguns livros: Estorvo, Benjamim, Budapeste e Leite Derramado.
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Chico Buarque sempre se destacou como cronista nos tempos de colégio; seu primeiro livro foi publicado em 1966, trazendo os manuscritos das primeiras composições e o conto Ulisses, e ainda uma crônica de Carlos Drummond de Andrade sobre A Banda. Em 1974, escreve a novela pecuária Fazenda modelo e, em 1979, Chapeuzinho Amarelo, um livro-poema para crianças. A bordo do Rui Barbosa foi escrito em 1963 ou 1964 e publicado em 1981. Em 1991, publica o romance Estorvo e, quatro anos depois, escreve o livro Benjamim. Em 2004, o romance Budapeste ganha o Prêmio Jabuti de melhor Livro de Ficção do ano.[4] Em 2009, lança o livro Leite Derramado. Oficialmente, a vendagem mínima de seus livros é de 500 mil exemplares no Brasil.

Programas de televisão

Deixou de participar de programas populares de televisão, tendo problemas com o apresentador Chacrinha, que teria feito uma piada com a letra da canção Pedro Pedreiro, ao ouvir o ensaio. Irritado, Chico foi embora e nunca se apresentou no programa. O executivo Boni proibiu qualquer referência a Chico durante a programação da TV Globo, depois que ambos também tiveram um entrevero, mas por pouco tempo, uma vez que ainda durante a década de 1970 (e o começo da de 80) músicas suas constavam das trilhas de várias telenovelas, como Espelho Mágico e Sétimo Sentido. Ao fim da proibição vários anos depois, Chico aceitou fazer um programa com Caetano Veloso, que contou com a participação de outros artistas.

A crítica à Ditadura

Ameaçado pelo Regime Militar no Brasil, esteve exilado na Itália em 1969, onde chegou a fazer espetáculos com Toquinho. Nessa época teve suas canções Apesar de você (que dizem ser uma alusão negativa ao presidente Emílio Garrastazu Médici, mas que Chico sustenta ser em referência à situação) e Cálice proibidas pela censura brasileira. Adotou o pseudônimo de Julinho da Adelaide, com o qual compôs apenas três canções: Milagre Brasileiro, Acorda amor e Jorge Maravilha. Na Itália Chico tornou-se amigo do cantor Lucio Dalla, de quem fez a belíssima Minha História, versão em português (1970) da canção Gesù Bambino (título verdadeiro 4 marzo 1943), de Lucio Dalla e Paola Palotino.
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Ao voltar ao Brasil continuou com composições que denunciavam aspectos sociais, econômicos e culturais, como a célebre Construção ou a divertida Partido Alto. Apresentou-se com Caetano Veloso (que também foi exilado, mas na Inglaterra) e Maria Bethânia. Teve outra de suas músicas associada a críticas a um presidente do Brasil. Julinho da Adelaide, aliás, não era só um pseudônimo, mas sim a forma que o compositor encontrou para driblar a censura, então implacável ao perceber seu nome nos créditos de uma música. Para completar a farsa e dar-lhe ares de veracidade, Julinho da Adelaide chegou a ter cédula de identidade e até mesmo a conceder entrevista a um jornal da época.
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Uma das canções de Chico Buarque que criticam a ditadura é uma carta em forma de música, uma carta musicada que ele fez em homenagem ao Augusto Boal, que vivia no exílio, quando o Brasil ainda vivia sob a ditadura militar.
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A canção se chama Meu Caro Amigo e foi dirigida a Boal, que na época estava exilado em Lisboa. A canção foi lançada originalmente num disco de título quase igual, chamado Meus Caros Amigos, do ano de 1976.
Nordeste já
Valendo-se ainda do filão engajado da pós-ditadura, cantou, ainda que com uma participação individual diminuta, no coro da versão brasileira de We Are the World, o hit americano que juntou vozes e levantou fundos para a África ou USA for Africa. O projeto Nordeste Já (1985) abraçou a causa da seca nordestina, unindo 155 vozes num compacto de criação coletiva com as canções Chega de mágoa e Seca d´água. Elogiado pela competência das interpretações individuais, foi no entanto criticado pela incapacidade de harmonizar as vozes e o enquadramento de cada uma delas no coro.

O "eu" feminino

Composições que se notabilizaram pela decantação de um "eu" feminino, retratando temas a partir do ponto de vista das mulheres com notória poesia e beleza: esse estilo é adaptado em Com açúcar e com afeto escrito para Nara Leão; continuou nessa linha com belas canções como Olhos nos Olhos e Teresinha, gravadas por Maria Bethânia, Atrás da Porta, interpretada por Elis Regina, e Folhetim, com Gal Costa e Iolanda (versão adaptada de letra original de Pablo Milanés), num dueto com Simone.

Os intérpretes de Chico

Chico Buarque nunca se negou a oferecer a seus amigos e familiares cantores composições originais, e muitas dessas canções passaram a ter versões "definitivas" em outras vozes: além das citadas canções do "eu" feminino, temos o exemplo da performance de Elis Regina na canção Atrás da Porta; Cio da Terra, com gravações de Milton Nascimento e da dupla rural Pena Branca & Xavantinho; além de interpretações de Oswaldo Montenegro, que lançou em 1993 Seu Francisco, disco produzido por Hermínio Bello de Carvalho, e Ney Matogrosso que em 1996 lançou Um Brasileiro.
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Deve-se mencionar ainda seu êxito com outras composições que fez para cantores populares já com a carreira em declínio, como nos casos de Ângela Maria, que gravou Gente Humilde, e Cauby Peixoto com Bastidores. Dentre os artistas que regravaram músicas suas em estilo popular podem ser citados ainda Rolando Boldrin, que relançou Minha História, e a banda Engenheiros do Hawaii que, no ano 2000, gravou Quando o Carnaval Chegar, no álbum 10.000 Destinos.
Parceiros
Desde muito jovem, conquistou reconhecimento de crítica e público tão logo os primeiros trabalhos foram apresentados. Ao longo da carreira foi parceiro como compositor e intérprete de vários dos maiores artistas da Música Popular Brasileira como Tom Jobim, Vinícius de Moraes, Toquinho, Milton Nascimento e Caetano Veloso. Os parceiros mais constantes são Francis Hime e Edu Lobo.

Obra teatral

Em 1965, a pedido de Roberto Freire (o escritor e terapeuta, não confundir com o político), diretor do Teatro da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (TUCA), na PUC-SP, Chico musicou o poema Morte e Vida Severina de João Cabral de Melo Neto, para a montagem da peça. Desde então, sua presença no teatro brasileiro tem sido constante:
Roda viva
A peça Roda viva foi escrita por Chico Buarque no final de 1967 e estreou no Rio de Janeiro, no início de 1968, sob a direção de José Celso Martinez Corrêa, com Marieta Severo, Heleno Pests e Antônio Pedro nos papéis principais. A temporada no Rio foi um sucesso, mas a obra virou um símbolo da resistência contra a ditadura durante a temporada da segunda montagem, com Marília Pêra e Rodrigo Santiago. Um grupo de cerca de 110 pessoas do Comando de Caça aos Comunistas (CCC) invadiu o Teatro Galpão, em São Paulo, em julho daquele ano, espancou artistas e depredou o cenário. No dia seguinte, Chico Buarque estava na plateia para apoiar o grupo e começava um movimento organizado em defesa de Roda viva e contra a censura nos palcos brasileiros. Chico disse no documentário Bastidores, que pode ter havido um erro, e que a peça que o comando deveria invadir acontecia em outro espaço do teatro.
Calabar
Calabar: o Elogio da Traição, foi escrita no final de 1973, em parceria com o cineasta Ruy Guerra e dirigida por Fernando Peixoto. A peça relativiza a posição de Domingos Fernandes Calabar no episódio histórico em que ele preferiu tomar partido ao lado dos holandeses contra a coroa portuguesa. Era uma das mais caras produções teatrais da época, custou cerca de 30 mil dólares e empregava mais de 80 pessoas. Como sempre, a censura do regime militar deveria aprovar e liberar a obra em um ensaio especialmente dedicado a isso. Depois de toda a montagem pronta e da primeira liberação do texto, veio a espera pela aprovação final. Foram três meses de expectativa e, em 20 de outubro de 1974, o general Antônio Bandeira, da Polícia Federal, sem motivo aparente, proibiu a peça, proibiu o nome "Calabar" e proibiu que a proibição fosse divulgada. O prejuízo para os autores e para o ator Fernando Torres, produtores da montagem, foi enorme. Seis anos mais tarde, uma nova montagem estrearia, desta vez, liberada pela censura.
Gota d'água
Em 1975, Chico escreveu com Paulo Pontes a peça Gota d'Água, a partir de um projeto de Oduvaldo Viana Filho, que já havia feito uma adaptação de Medeia, de Eurípedes, para a televisão. A tragédia urbana, em forma de poema com mais de quatro mil versos, tem como pano de fundo as agruras sofridas pelos moradores de um conjunto habitacional, a Vila do Meio-dia, e, no centro, a relação entre Joana e Jasão, um compositor popular cooptado pelo poderoso empresário Creonte. Jasão termina por largar Joana e os dois filhos para casar-se com Alma, a filha do empresário. A primeira montagem teve Bibi Ferreira no papel de Joana e a direção de Gianni Ratto. O saudoso Luiz Linhares foi um dos atores daquela primeira montagem.
Ópera do malandro
O texto da Ópera do malandro é baseado na Ópera dos mendigos (1728), de John Gay, e na Ópera de três vinténs (1928), de Bertolt Brecht e Kurt Weill. O trabalho partiu de uma análise dessas duas peças conduzida por Luís Antônio Martinez Corrêa e que contou com a colaboração de Maurício Sette, Marieta Severo, Rita Murtinho e Carlos Gregório.
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Chico Buarque.
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A equipe também cooperou na realização do texto final através de leituras, críticas e sugestões. Nessa etapa do trabalho, muito valeram os filmes Ópera de três vinténs, de Pabst, e Getúlio Vargas, de Ana Carolina, os estudos de Bernard Dort O teatro e sua realidade, as memórias de Madame Satã, bem como a amizade e o testemunho de Grande Otelo. Participou ainda o professor Manuel Maurício de Albuquerque para uma melhor percepção dos diferentes momentos históricos em que se passam as três óperas. O professor Werneck Viana contribuiu posteriormente com observações muito esclarecedoras. E Maurício Arraes juntou-se ao grupo, já na fase de transposição do texto para o palco. A peça é dedicada à lembrança de Paulo Pontes.
O Grande Circo Místico
Ver artigo principal: O Grande Circo Místico
Inspirado no poema do modernista Jorge de Lima, Chico e Edu Lobo compuseram juntos a canção homônima para este espetáculo. Em 1983, e durante os dois anos seguintes, viajaram o país apresentando este que foi um dos maiores e mais completos espetáculos já realizados. Um disco coletivo foi lançado pela Som Livre para registrar a obra, com interpretações de grandes nomes da MPB.

Discografia

Certificados tirados do site ABPD.

Outros trabalhos

Livros
Peças
  • 1967/8: Roda Viva
  • 1973: Calabar (co-escrita com Ruy Guerra)
  • 1975: Gota d'água
  • 1978: Ópera do Malandro
  • 1983: O Grande Circo Místico
Filmes
  • 1972: Quando o carnaval chegar (co-autor)
  • 1983: Para viver um grande amor (co-autor)
  • 1985: Ópera do Malandro

Referências

Leitura adicional

  • ALBIN, Ricardo Cravo (Criação e Supervisão Geral). Dicionário Houaiss Ilustrado da Música Popular Brasileira. Rio de Janeiro: Paracatu, 2006.
  • CARVALHO, Gilberto de. Chico Buarque, Análise Poético-musical. Rio de Janeiro: Editora CODECRI, 1982.
  • CÉSAR, Ligia Vieira. Poesia e Política nas Canções de Bob Dylan e Chico Buarque. São Paulo: Editora Estação Liberdade, 1993.
  • CHEDIAK, Almir. Songbook Chico Buarque (vol. 1). Rio de Janeiro: Lumiar Editora, 1999.
  • CHEDIAK, Almir. Songbook Chico Buarque (vol. 2). Rio de Janeiro: Lumiar Editora, 1999.
  • CHEDIAK, Almir. Songbook Chico Buarque (vol. 3). Rio de Janeiro: Lumiar Editora, 1999.
  • CHEDIAK, Almir. Songbook Chico Buarque (vol. 4). Rio de Janeiro: Lumiar Editora, 1999.
  • DINIZ, Júlio. "A voz e seu dono – poética e metapoética na canção de Chico Buarque de Hollanda". In. FERNANDES, Rinaldo de (Org.). Chico Buarque do Brasil. Rio de Janeiro: Garamond / Biblioteca Nacional, 2004, pp. 259-271.
  • DINIZ, Júlio. "O compositor e a cidade". In Letterature D’America, anno XXIV, n.102. Roma: Facoltá di Scienze Umanistiche dell’Universitá di Roma "La Sapienza" / Bulzoni Editore, 2004, pp. 149-168.
  • FERNANDES, Rinaldo. Chico Buarque do Brasil. Rio de Janeiro: Editora Garamond, 2004.
  • FONTES, Maria Helena Sansão. Sem Fantasia - Masculino e Feminino em Chico Buarque. Rio de Janeiro: Graphia Editorial, 2003.
  • MENESES, Adélia Bezerra de. Desenho Mágico - Poesia e Política em Chico Buarque. São Paulo: Ateliê Editorial, 2000.
  • MENESES, Adélia Bezerra de. Figuras do Feminino na Canção de Chico Buarque. São Paulo: Ateliê Editorial, 2000.
  • NEPOMUCENO, Eric, WERNECK, Humberto e JOBIM, Tom. Chico Buarque - Letra e música. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
  • SILVA, Anazildo Vasconcelos da. A poética de Chico Buarque. Rio de Janeiro: Editora Sophos, 1974.
  • SILVA, Fernando de Barros. Chico Buarque na Coleção Folha explica. São Paulo: Publifolha, 2004.
  • TABORDA, Felipe (Org.). A Imagem do Som de Chico Buarque: 80 composições de Chico Buarque interpretadas por 80 artistas contemporâneos. Rio de Janeiro: Editora Francisco Alves, 1999.
  • URICH, Silvia e ECHEPARE, Roberto. Chico Buarque. Argentina: Gray Edciones, 1985.
  • ZAPPA, Regina. Chico Buarque Perfis do Rio. Rio de Janeiro: Editora Zumara, 1999.

Ligações externas

Wikiquote
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